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quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Cadáveres humanos: negócio da China

Só nos faltava esta, mas é verdade. Existe na China um florescente negócio com cadáveres humanos, verdadeiras indústrias que preparam os cadáveres para exposições em diferentes partes do Mundo.
A notícia vem publicada em interessante reportagem inserta na edição de 9 do corrente do International Herald Tribune, sob o título “Remade in China: Cadavers for shows”.
Nesse artigo, o seu autor, David Barboza, relata com impressionante realismo a existência de uma importante fábrica de preparação de cadáveres humanos em Dalian, cidade costeira da China, inserida numa das regiões mais prósperas daquele País.
Nessa fábrica, pertencente a uma empresa Dalian Institute of Plastination, propriedade de um cientista e empresário alemão, Dr. Gunther von Hagens, centenas de trabalhadores chineses trabalham num processo de transformação de cadáveres humanos, que envolve a respectiva limpeza, corte, dissecação, preservação e arranjo exterior.
Toda essa actividade tem como objectivo a preparação dos cadáveres para exposições como a “Body Worlds”, organizada pelo referido cientista/empresário, a qual atraiu já mais de 20 milhões de visitantes nos últimos 10 anos.
Refere ainda esse artigo que a concorrência no sector é já bastante activa, destacando o facto de uma empresa americana, a Premier Exhibitions, uma das maiores empresas do Mundo na organização de exposições, ser uma grande importadora de cadáveres da China, preparados noutras fábricas que não a do Dr. Von Hagens.
Decorre nesta altura em New York uma exposição organizada pela Premier Exhibitions, denominada “Bodies: The Exhibition”, na qual são expostos cadáveres provenientes da China, em perfeito estado de apresentação, nos quais é possível ver, com pormenor, os diferentes órgãos, as massas musculares (na preparação, para além de retirarem a pele limpam também grande parte das gorduras), as articulações, etc,etc.
Também são expostos órgãos do corpo humano, para o visitante mais curioso.
Dizem-me que esta exposição tem constituído um grande sucesso, atraindo muitos milhares de visitantes.
Haverá neste momento na China mais de 10 fábricas de preparação de cadáveres, que exportam para diferentes partes do Mundo: EUA, Japão e Coreia do Sul, sobretudo.
A “matéria prima” é importada de países europeus ou adquirida na própria China.
Este negócio tem vindo a levantar algumas objecções, nomeadamente por parte de grupos activistas dos direitos humanos.
Alegam estes grupos que muitos dos cadáveres adquiridos na China provêm de cidadãos executados pelo sistema de “justiça” chinês, e que os guardas prisionais poderão estar envolvidos no negócio.
As empresas negam essas acusações, como era de esperar.
O governo chinês, preocupado ao que parece com a dimensão que este negócio está a registar e com as acusações dos referidos grupos, terá proibido em Julho último a compra e venda de corpos humanos e restringiu a respectiva importação e exportação para finalidades de investigação.
Mas ainda não é conhecida a eficácia desta proibição.
Caro Dr. Massano Cardoso, o que pensa deste dossier?

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Finalmente de regresso...e a dar vivas à "transparência" do governo!

Tive saudades desta 4R, sim senhora: mentia se o não dissesse!
Privada destes textos e seus comentários, o País flui sensaborão.
Não bastavam já os maus ( para não dizer péssimos ) dois meses que fui forçada a passar, porque a "idade não perdoa"...e as hérnias discais tambem não...e as vértebras dá-lhes para se descaracterizarem morfologicamente e agarrarem-se com unhas e dentes ao nervo ciático...e a pessoa sofre...e só lá vai à faca...e depois ...tudo correu bem, mas estar sentada é proibitivo, ainda é com algum esforço...mas vou tentar: "tenho que ir à Quarta República e é já"!!!
Não bastava ser Verão que, como diz Pacheco Pereira "é epoca excelente para fazer política sem escrutínio"...
Não bastava andar a ler os jornais pela rama e sem pachorra...enfim, não bastava tanta coisa e eu sem poder ler este excelente blog?
E sem poder dar vivas à "transparência" deste Governo... então não é que a Comissão Técnica do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado ( PRACE ) , sim o célebre, já apresentou o seu relatório final ao Governo e o Ministério das Finanças recusa-se a divulgá-lo? E mais, o porta voz das Finanças diz que o relatório " constitui apenas e tão só um suporte para a decisão que o Governo tomará nesta matéria"...
Mas um relatório destes é segredo ou já se anda a recuar?
O Ministério da Saúde já tinha anunciado que a nova Lei orgânica a sair já em Setembro previa a redução de dirigentes em 31%, de 85 para 54 e nesta redução 23 elementos saiam das sub-
regiões...mas parece que o fim das sub-regiões já foi adiado para 2007!
Não percebo nada, foi da anestesia!!!
Viva a opacidade, abaixo a transparência!

“Gene do altruísmo”

Os cientistas procuram explicações para tudo, como é óbvio. Muitas das suas descobertas são alvo de particular atenção, sobretudo, se encerrarem um potencial especulativo como acontece cada vez que se “descobre” um gene responsável pela criminalidade, pela homossexualidade, pela genialidade, pela estupidez, pela religiosidade, só para falar de algumas situações que interessam à comunidade e, de uma forma muito especial, à comunicação social.
É certo que certos fenómenos, apesar de uma eventual comparticipação genética – aliás não há praticamente nada que não seja mais ou menos influenciado pela estrutura genética – não são lineares, envolvendo muitos factores e interacção com os diferentes meios ambiente em que estamos mergulhados.
Tentar explicar o mistério da generosidade e da cooperação, que se observa em muitas espécies, constitui uma das principais preocupações em termos evolutivos.
Agora, pela primeira vez, os cientistas afirmam ter encontrado a origem do “gene do altruísmo”. Os ditos genes teriam evoluído a partir de outros que, originalmente, serviriam para bloquear algumas actividades biológicas em tempo de “vacas magras”.
Parece que, segundo os evolucionistas, se trata de um verdadeiro enigma, porque tudo levava a concluir que este tipo de comportamento não deveria existir. Consciente ou não, o que é certo é a existência de alguma forma de altruísmo em espécies tão diversas como insectos e bactérias. Quem diria que algumas bactérias são capazes de fazer “batota” com as suas colegas e que, através da simples alteração de uma letra genética, se tornam exemplares e cumpridoras!
No caso dos seres humanos a situação é muito mais complexa. De qualquer modo, o altruísmo humano manifesta-se de milhentas maneiras, embora, na maioria do tempo, não se manifeste como seria desejável, bem pelo contrário. Se existe ou não “genes de altruísmo” nos seres humanos é algo que não foi comprovado, e, muito provavelmente, nunca o será, o que não significa que não haja qualquer coisa de intrínseco (ou seja, genético) que possa explicar parte do nosso comportamento social.
Na vivência do dia a dia, haja ou não os tais genes nos seres humanos, o que é certo é podermos verificar ausência de cooperação e de altruísmo, em inúmeras situações, e comportamentos “batoteiros” em muitos concidadãos, como se houvesse um “ligar” ou “desligar” dos mesmos ou dos seus equivalentes sociais.
Anda por ai tanta malandragem que seria interessante descobrir os portadores dos “genes de altruísmo” ou dos “genes da matreirice”, como e quando é que se “ligam ou desligam”...

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Questão

Foi anunciado que Portugal suporta um encargo de 88 milhões de euros por ano com as missões militares no exterior.
O senhor Presidente da República declarou que entende que é "absolutamente natural" que a Portugal seja solicitado pelo Secretário-Geral da ONU contributo para a força de mantenção da paz no Líbano no quadro do esforço que foi solicitado à UE.
Pergunta a minha curiosidade: para além altíssimo risco envolvido nestas missões, pelas quais há sempre a possibilidade de pagar o imenso preço de vidas humanas perdidas, qual a dimensão que devem assumir as dificuldades de um País como Portugal, para que esse pedido, face aos sacrifícios financeiros que envolve, deixe de ser considerado "absolutamente natural"?

"Rendimentos"

Com este nome, existe uma rubrica na nossa balança de pagamentos correntes da qual pouco se tem falado.
A evolução desta rubrica nos últimos tempos bem como a sua provável evolução no futuro próximo constituem no entanto motivo mais do que suficiente para que lhe seja dada uma atenção bem maior.
É nesta rubrica que são registados, a débito, os pagamentos que fazemos ao exterior (estrangeiro) em resultado do endividamento das Famílias, das Empresas e do Estado.
Os grandes agentes do nosso endividamento ao exterior são os bancos – estes endividando-se por conta das Famílias e das Empresas que financiam – e o Estado uma vez que este emite dívida directamente no estrangeiro.
Também a débito são registados os dividendos e outros rendimentos devidos aos não residentes que investem em Portugal.
Em contrapartida, são registados a crédito os rendimentos auferidos por residentes em Portugal que lhes sejam pagos a título de juros de créditos sobre o exterior, dividendos de investimentos no estrangeiro ou outros.
Como facilmente se percebe, esta rubrica dos “Rendimentos” apresenta um elevado saldo negativo que é devido, em grande parte, ao pesado endividamento externo em que o País se encontra mas que não cessa de aumentar.
Vejamos a evolução desse saldo negativo dos "Rendimentos" desde 2003:

- 2003 = 2.059 milhões Euros
- 2004 = 2.375 “ “
- 2005 = 3.161 “ “ (1.666 até Junho)
- 2006 = 2.327 “ “ (até Junho)

Destes números conclui-se que o saldo negativo dos “Rendimentos” se tem vindo a deteriorar a ritmo muito elevado, o qual se acentuou no corrente ano devido ao efeito combinado da subida das taxas de juro e do contínuo avolumar das nossas dívidas ao exterior.
Assim, o saldo negativo no 1º semestre deste ano é praticamente igual ao apurado em todo o ano de 2004, sendo 40% superior ao verificado no 1º semestre de 2005.
Não é difícil prever que no final de 2006 o saldo negativo ultrapasse 4.500 milhões Euros, podendo exceder 3% do PIB.
E a confirmarem-se as expectativas de alguma subida mais nos juros, com a dívida ao exterior sempre a crescer, não é de estranhar que a factura aumente de novo em 2007 para um valor próximo dos 6 mil milhões Euros, perto de 4% do PIB.
Julgo que qualquer pessoa de bom senso compreende que esta trajectória não poderá continuar indefinidamente, sob pena de qualquer dia termos de começar a vender os activos ao exterior só para aguentar o peso deste endividamento.
Mas, segundo as previsões recentemente divulgadas, parece que pelo menos em 2006 e 2007 o aumento do endividamento ao exterior continuará vertiginoso, da ordem de 8 a 9% do PIB.
E não se poderá esperar que os juros baixem, pelo menos a curto prazo.
É altura para voltar aquela expressão que aqui usei algumas vezes: por este andar, para onde vamos?

Afinal quem é que inspecciona os centros de inspecção?

Acabei de ouvir que 30 centros de inspecção obrigatória (IPO) foram chumbados pela DECO. Laxismo, facilidades, e sabe-se lá que mais, põem em causa as funções destes organismos.
De facto, às vezes, questiono-me como é possível que certos automóveis andem a circular. Não é preciso ser inspector ou dispor de tecnologias adequadas para verificar que algo não está bem.
Afinal quem é que inspecciona os centros de inspecção?
Que raio de país é este que permite situações desta natureza com graves implicações na segurança das pessoas?
E ainda querem que os cidadãos acreditem na “bondade” das autoridades…
E depois dizem que são preconceituosos e desconfiados quando lhes querem vender certas soluções!

Fora de carris

A mais recente polémica na cidade de Lisboa é a alteração dos percursos das carreiras da Carris.
Não é uma questão de somenos importância. Por um lado porque das decisões desta empresa, que detém o monopólio dos transportes públicos rodoviários pesados em Lisboa, depende muito da qualidade de vida e de trabalho de milhares de pessoas. Por outro lado porque uma rede de transportes públicos bem estruturada, dotada de meios rápidos e confortáveis, é fundamental para melhorar os elevados índices de poluição (sonora e de emissões) em algumas das zonas de Lisboa, o que só será conseguido se quem demanda a cidade ou nela circula reconheça nos transportes públicos uma alternativa qualitativamente equivalente e mais económica ao transporte individual.
Não tenho, como é óbvio, conhecimentos para saber se a Carris tomou ou não a decisão acertada. Ou se a contestação que a Câmara lhe move tem ou carece de razoabilidade.
Isso não me impede, porém, de ter uma certeza: o problema dos transportes em Lisboa (como nas restantes grandes cidades) não pode continuar a ser visto como uma questão paroquial e sobretudo não pode depender exclusivamente da decisão de uma empresa, ainda por cima detentora de um monopólio. Tem de ser ponderada à escala metropolitana, porque é à escala metropolitana que ocorrem os movimentos das pessoas.
Ainda ontem, na RTP2, a propósito do aniversário da Ponte 25 de Abril, se divulgava que o efeito da introdução do caminho de ferro não tem o impacto que poderia ter na descompressão do tabuleiro rodoviário uma vez que muitas das pessoas que vêm da margem sul, se dirigem à parte ocidental da região de Lisboa onde nos últimos anos foi mais dinâmica a criação de polos de emprego - Amadora, Sintra, Oeiras, Cascais - sendo escassos ou mal integrados os meios de transporte para estas zonas.
Por isso me admiro que estando constituída uma Autoridade Metropolitana de Transportes (AMT) não seja este o foro privilegiado de decisão.
Dizem-me que a senhora Secretária de Estado dos Transportes terá "embargado" a Autoridade e que intenta rever o seu enquadramento jurídico. Está no seu direito e é compreensível que o queira fazer porque no período em que a AMT teve existência formal a capacidade de intervenção que revelou foi nula. O que não faz sentido é que estando o governo em funções há tanto tempo, não se tenha ainda encontrado uma solução. E menos sentido faz - salvo se a anunciada decisão da Carris tenha sido determinada por uma urgência não explicada - que a alteração nos circuitos de transporte rodoviário não aguarde prudentemente por uma discussão participada no seio daquela entidade.

domingo, 27 de agosto de 2006

Liga de honra

Fotografia de Geoff Caddick divulgada no Sapo
Quanto mais aprendo sobre as "andanças" do futebol, mais gosto do meu porco...

Valha-me Nossa Senhora da Conceição!

O ex-presidente da AR e actual chanceler das ordens civis, Mota Amaral, a propósito das condecorações do Senhor Duarte Pio aos 47 elementos da selecção nacional de futebol, afirmou que "não é uma ordem honorífica do Estado português", além de recordar que vivemos num regime republicano. A sua recusa em ter sido "agraciado" por tamanha personalidade é de louvar, nomeadamente quando considerou a distinção como "absurdo". Muito bem. De facto, estamos perante uma farsa com objectivos claros de auto propaganda. O que é curioso é o facto dos membros da selecção aceitarem participar.
Vamos ter 47 cavaleiros, verdadeiros "Sir"! Só lhes falta vestir uma qualquer parafernália medieva e entrarem todos triunfantes de cavalo nos estádios.
Desta feita são 47. Se a "coisa" pegar, qualquer dia, os clubes das ligas, e o ainda presidente, Valentim Loureiro, para não falar dos clubes das distritais, acabam por ser agraciados.
Já não chega a pandemia das condecorações dos últimos presidentes da república? Tinha que aparecer um fenótipo "real" para fazer concorrência. "Foge cão, que te fazem barão! Para onde se me fazem Visconde? ". Aquilo está mesmo na massa do sangue...
Valha-me Nossa Senhora da Conceição! Tanto me faz a de Vila Viçosa ou qualquer outra...

sábado, 26 de agosto de 2006

Deixa-me rir!...

A Federação Portuguesa de Futebol e a Liga tinham marcado para amanhã o jogo de futebol entre o Benfica e o Belenenses.
O Gil Vicente recorreu para o Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa. Este Tribunal declarou «suspensas as decisões administrativas impugnadas pelo Gil Vicente, tudo se mantendo como se estas não existissem, com as consequências daí decorrentes, designadamente no plano desportivo ou de intervenção nos campeonatos». Assim, o Gil Vicente continuaria na 1ª Liga.
A Federação e a Liga têm a sua própria justiça e dizem que não reconhecem a justiça dos Tribunais.
Como tal, o jogo Benfica-Belenenses devia efectuar-se.
No entanto, foi suspenso, depois da decisão do Tribunal.
Eficaz forma de reconhecer na prática o que por princípio se vangloriam de não reconhecer!...
Coerência a toda a prova!...

A nossa viagem, segundo Oliveira Martins

"O nosso querer é apenas platónico, incapaz de nenhuma espécie de sacrifício. Não somos tão simples que o sintamos: o português é inteligente. O que nos falta é a mola íntima, rija de aço, que se partiu. Por isso buscamos iludir-nos como os doentes desenganados. Deitamo-nos aos anestésicos. Com o éter da finança esquecemos a anemia económica e com o clorofórmio da jogatina suprimos a fraqueza do trabalho; a morfina dos melhoramentos vai-nos dando horas regaladas, e o láudano do orçamento o pão-nosso de cada dia. O cloral da emigração afasta a necessidade cruel dos tratamentos antiflogísticos; e a cocaína do trânsito, pretendendo em vão tornar esta faixa litoral da Península uma terra de passagem, estalagem brunida e sécia para uso do mundo que se diverte, procura por o sol em acções - e quem sabe se a própria lua das nossas noites encantadoras, ela que desenrola o seu meigo velário de prata para também nos iludir com perspectivas fantásticas sobre a nudez da terra que habitamos!".

O trecho pertence a um artigo de Oliveira Martins publicado na edição de "O Tempo" de 16 de Maio de 1889 sob o título "Portugal nos Mares - Ensaios de crítica, história e geografia". É um dos vários textos que o grupo dos Vencidos da Vida - Eça, Ramalho Ortigão, Lobo d´Ávila, Oliveira Martins, Silva Gaio, Guerra Junqueiro, António Cândido e outros - foram publicando nos finais de novecentos. Alguns deles foram agora reunidos pela Fronteira do Caos-Editores, no livro "Os Vencidos da Vida" que, embora retrate incompletamente a importância na vida social e política de algumas das inciativas destas personalidades marcantes do final do século XIX, é suficientemente representativo do pensamento pessimista desse período.
Foi uma dos livros que devorei com gosto neste Verão. Não só pelo que impressiona a actualidade de algumas análises da nossa colectiva psicologia...


“Prolongamento da juventude”…

Os mais velhos recordam-se das figuras severas e imponentes que moldaram a juventude. Avós, professores, guardas, comerciantes, juízes, funcionários, só para citarmos alguns, revelavam características que nós respeitávamos. Ai de quem tivesse o atrevimento de uma atitude ou palavra menos conveniente. Éramos repreendidos e se tivéssemos um buraco era certo que nos enfiávamos nele acto contínuo.
Hoje em dia, nas sociedades modernas, verificamos mudanças acentuadas das características dos “adultos” em que se destaca uma “juventude” permanente. Este fenómeno começou a ser observado nas áreas científicas em que matemáticos, físicos e biólogos, nos meados do século XX, mantinham um ar e comportamento próprio de jovens originando o aparecimento de “rapazes-génios”. O ar desalinhado, a forma informal de estar, a capacidade de dar respostas imediatas, começavam a dar nas vistas. Rapidamente este fenómeno atingiu, também, as outras classes. De repente, os estudiosos confrontaram-se com a possibilidade de neotenia psicológica.
A neotenia psicológica, ao prolongar a juventude, permite obter vantagens na ciência e nas diferentes áreas da vida moderna, cuja cultura favorece a flexibilidade cognitiva.
A vida moderna aboliu ou desvalorizou as cerimónias de iniciação e os rituais de transição tão característicos das sociedades tradicionais, tribais e agrícolas e que contribuíam para a “adultização”.
Hoje, a educação decorre num período muito mais alargado, a entrada de trabalho faz-se mais tarde, as mudanças de emprego são muito comuns, assim como a mudança de lugar e de cultura. Se não fosse a tal flexibilidade “fornecida” pela neotenia psicológica dificilmente poderiam adaptar-se às novas realidades. Estes factos revelam que nas sociedades modernas muitas pessoas nunca se tornam adultas. Podemos afirmar: ainda bem! No entanto, não podemos esquecer que, além das virtudes, inerentes à permanente juventude, existem aspectos menos positivos e dos quais se destacam: dar menos atenção aos problemas, procurar sensações e novidades constantemente, adoptar modas de curta duração, apresentar instabilidade emocional e espiritual, além de um défice de carácter, provavelmente devido a imaturidade. Todos estes aspectos acabam por ter repercussões na sociedade, como é fácil de concluir.
A neotenia é um mecanismo de adaptação bastante eficaz com expressão a nível biológico, conhecendo-se vários exemplos.
Perante esta situação, neotenia psicológica, nova, em termos evolutivos, é de esperar mudanças substanciais nas nossas sociedades, deixando o nicho da antiga sabedoria, representada pelas pessoas mais idosas, praticamente vazio. Será preenchido? É necessário? É importante?



Ciência conservadora!...

Segundo Miguel, no Canhoto, na reclassificação de Plutão “…vingou a perspectiva mais conservadora…; a qual, todavia, “…provavelmente, foi a solução mais sensata; e a mais pedagógica, também”.
Concluo que a perspectiva trabalhista não vingou, isto é, perdeu nas votações efectuadas.
Admitir, precisamente no Canhoto, que uma solução conservadora é mais sensata e pedagógica que a trabalhista constitui acto de louvável auto-crítica.
Parabéns ao Canhoto e ao Miguel.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Devemos confiar no nosso sistema de justiça!...

Mais uma vez o segredo de justiça e da investigação andam pelas ruas da amargura!...
E para muita gente Luís Filipe Vieira já é culpado, antes mesmo de ter sido interrogado ou, muito menos, arguido!...
Devemos pois continuar a confiar no nosso sistema de justiça!...
E a escolha do novo Procurador, que deveria ser uma entidade de referência, promete forte contestação entre os dois maiores partidos e entre o Governo e o PSD, enfraquecendo a sua autoridade.
Também por aqui temos razões para confiar que nada mude, de forma a podermos continuar a confiar plenamente no nosso sistema de justiça!...

A preocupante situação da biodiversidade animal

Os livros vermelhos sobre as espécies ameaçadas são entre nós o registo mais exaustivo e o retrato mais fiável da situação da biodiversidade no território nacional.
O último reune o trabalho de mais de 180 peritos coordenados pelo ICN e incide sobre os vertebrados selvagens.
As conclusões são muito preocupantes. Poucas são as espécies relativamente às quais se observou recuperação de stocks.
42% dos vertebrados encontra-se ameaçado de extinção, em graus diferentes embora.
Foram 512 as espécies selvagens de vertebrados no Continente, Açores e Madeira objecto de estudo. Apurou-se que os peixes de água doce e migradores são os mais ameaçados apresentando a taxa mais elevada de animais classificados nas várias categorias de risco ou ameaça (69%).
Mas nesta situação estão também 38% das aves, 32% dos répteis, 26% dos mamíferos e 19% dos anfíbios.
A mais recente edição do Livro Vermelho o que nos vem dizer é que, também no que respeita à diversidade biológica, estamos cada vez mais pobres.

Critério afinado na realidade virtual!...


O jogador da selecção nacional de futebol, Deco, foi ontem mais uma vez distinguido como o melhor médio da Champions League europeia por um júri do qual faziam parte alguns dos mais conceituados treinadores europeus.
Não vi a notícia em qualquer primeira página dos nossos jornais desportivos.
Em contrapartida, vejo todos os dias a primeira página desses jornais com fotografias gigantes e gloriosas entrevistas com jogadores cujo único mérito foi o de acertarem uma vez na bola no jogo da véspera!...
Está certo!.... O facto de o Deco jogar bem, ser o melhor jogador português de há anos a esta parte e dignificar o nosso jogo da bola é perfeitamente normal e não merece destaque!...
O facto de alguns futebolistas altamente cotados nos media acertarem um único passe a 10 metros, por jogo, é que é acontecimento deveras excepcional, merecedor do devido relevo!...
Na realidade, os adulados jogadores dos media não ganham campeonatos e são os bons jogadores dos estádios, apenas tolerados pelos media, que afinal os vêm a ganhar!...
A imprensa desportiva, tal como a outra, tem os critérios devidamente afinados, mas numa realidade virtual!...

“Vacas com sotaque”…

Presumo que todos já ouviram aqueles programas de rádio matinais em que se fazem os mais variados concursos, provavelmente com o objectivo de acordar as pessoas ou pô-las menos indispostas quando se deslocam para o trabalho, nomeadamente quando há engarrafamentos. Não são muito exigentes ou criativos, muitas vezes são mesmo meios parvos, mas, mesmo assim, deverão ter algum efeito preventivo no comportamento rodoviário e até modificador do comportamento. Um bom assunto a ser investigado.
Recordo-me de um concurso em que o casal conseguia imitar os mugidos de vacas de acordo com a nacionalidade das mesmas. Eram mesmo criativos e de facto ouvir uma vaca francesa ou italiana foi delicioso. Não me recordo bem da portuguesa. Mas não importa. Recordei-me deste momento quando li que um estudo da Universidade de Londres “afirma que as vacas, como as pessoas ao falar, apresentam sotaques regionais ao mugir”. É verdade! Os “muuuus” das vacas são diferentes de acordo com as regiões. Notável! Mas o assunto não fica pelas vacas, parece que os cães e os passarinhos apresentam sotaques diferentes consoante as regiões. No caso dos cães o “sotaque” canino é influenciado pela relação com o dono. No entanto o investigador, especialista em fonética, afirma que o fenómeno pode resultar do contacto com outros animais da região.Ora aqui está um bom ponto de partida para analisar os “muuuus” das vacas nacionais de Trás-os-Montes aos Açores. Já estou a imaginar algumas variações no sotaque.
Todos sabemos a forma de falar de um portuense, de um lisboeta, de um algarvio, de um alentejano, de um madeirense, ou de um micaelense, enfim, é do conhecimento geral e faz parte da nossa cultura. Mas, além destes sotaques regionais, há também outros tipos de “sotaques” a uma escala diferente, conforme o grupo a que se pertence, ou à influência do “dono”. Durante muito tempo era possível identificar um comunista, já que, muitos, copiavam o modo de falar à Álvaro Cunhal, ou, mais recentemente, na AR, era possível ouvir a entoação “socrática” pelo imitador de serviço. É muito comum a imitação da entoação de um dominante ou de alguém que se deseja copiar. Não sei se é correcto equiparar este fenómeno ao das “vacas”, mas que há, frequentemente, imitações quer do estilo, quer do andar, quer do vestir, quer na colocação das mãos, passando pela dita entoação e acabando na forma de pensar e de actuar do chefe, é uma realidade. Acabam por falar os mesmos “muuuus”…

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Compreensível incompreensão!...

A inspiração do título veio-me do post anterior do Ferreira de Almeida!...
1. O PCP pôde saber a antecipadamente as conclusões do inquérito à C.M. de Setúbal.
2. Como consequência, as suas estruturas locais foram movimentadas no sentido de virem a retirar a confiança ao Presidente da Câmara, visando a sua substituição, antecipando-se às eventuais conclusões do inquérito.
3. Esta posição começou a ser veiculada pela comunicação social, de forma a justificar uma palavra de Jerónimo de Sousa, que veio a elogiar o camarada e o trabalho das estruturas do partido em Setúbal.
4. Entretanto, soube-se que a razão de ser do imbróglio em que o Presidente da Câmara estava metido tinha a ver com decisões ilegais, previamente combinada com os próprios, de aposentação de 60 funcionários, após cinco faltas não justificadas.
5. Soube-se também que esta decisão foi aprovada, em todos os casos, com os votos a favor dos Vereadores do PCP, a abstenção dos do PS e os votos contra dos do PSD.
6. O PCP de Setúbal retirou a confiança política ao Presidente e este demitiu-se, na linha do que tem que fazer um funcionário do partido.
7. Jerónimo de Sousa reiterou que a demissão em nada tinha a ver com o inquérito, dizendo apenas ter-se tratado de um mero acto de gestão, porque os “melhores podem não ser os melhores em determinada circunstâncias e em Setúbal é necessária uma nova dinâmica”, cito de ouvido, mas respeitando o sentido essencial da declaração.
8. O PCP nomeou o sucessor de Carlos de Sousa, sustentando não serem necessárias novas eleições.
9. O que me parece ser uma atitude coerente, já que nunca apreciou muito tal tipo de manifestação da vontade popular. Além disso, sente-se bem a nomear, já que para ele as pessoas pouco contam e o partido é o seu dono. “Os melhores podem não ser os melhores em determinada circunstâncias…”. Mesmo que esses “melhores” tenham sido eleitos população!...
10. Incoerentes, sim, me parecem as posições do PS e do PSD.
11. A do PS, já que, segundo o DN, Vítor Ramalho diz que “ o PS não anda a reboque de nenhum partido, tem uma posição própria, que neste momento é exigir que o PCP esclareça esta trapalhada total”. Notável posição própria, esta da ignorância, sabido que o PS votou concertadamente com o PCP, com o mesmo objectivo, abstendo-se!...
12. E também a do PSD, já que a sua posição própria, também segundo o DN, é desafiar o PS a forçar eleições intercalares. Ora se o PSD nada teve a ver com a matéria, por que é que não se assume a exigir eleições, se todos os restantes vereadores foram coniventes, por acção ou omissão, nas ilegalidades praticadas?
13. A não ser que tudo tenha sido legal e o PCP é que tenha razão: substituiu Carlos Sousa para dar outra dinâmica à acção da Câmara!...
14. Pois se assim não for, fico perante uma compreensível incompreensão!...

EUA: corrigir desequilíbrios, como?

Na imprensa especializada e não só é hoje tema quase obrigatório a necessidade de correcção dos grandes desequilíbrios que afectam a maior economia do Mundo.
Discute-se até à saciedade se essa correcção vai ser realizada de uma forma controlada, gradual (“soft landing”) ou se vai acontecer apressadamente, no contexto de uma recessão mais ou menos pronunciada (“hard landing”).
Este problema não é novo nos EUA.
Já na 2ª metade dos anos 80 o país se viu defrontado com esse dilema (ou trilema), sendo útil, na sua análise, ter em conta alguns pontos fundamentais que são válidos hoje tanto como eram há 20 anos.
O primeiro ponto tem a ver com a natureza dos desequilíbrios, que são de três ordens:
(i) entre a produção e a despesa (output spending gap);
(ii) entre a poupança e o investimento (saving-investment gap);
(iii) entre as exportações e as importações (export-import gap).
É claro que estas três formas de desequilíbrio estão intimamente relacionadas, “ajudam-se” mutuamente.
O segundo ponto é o de que para fazer face a este tipo de situação não há remédios simples.
Quer isto dizer que a política monetária (subir as taxas de juro) tem o seu papel mas não basta – pode até ser contraproducente, a partir de certo momento ou grau.
A justificada desvalorização do USD também não chega, podendo também ter efeitos indesejáveis se excessiva.
Há uma componente obrigatória neste processo de ajustamento, se o objectivo for o “soft landing”: a redução, significativa, do elevado défice do orçamento federal, que é da ordem de 4,5% do PIB.
Com efeito, a correcção do desequilíbrio externo (que excede 6% do PIB) - a face mais visível e preocupante da trilogia de desequilíbrios - exige que haja um aumento das exportações e uma diminuição ou contenção das importações.
Ora isto só será possível se houver uma alteração na composição da procura interna, diminuindo o peso do consumo privado e público e reforçando o peso do investimento produtivo (não investimento "à portuguesa", em projectos geradores de prejuízos).
Esse reforço do investimento deve ser suficiente para que a economia continue a crescer, a ritmo próximo do potencial.
E para que o investimento produtivo aumente a sua quota no PIB, é indispensável que o sector público liberte recursos, reduzindo a despesa em especial a de consumo. E que as famílias poupem mais.
Deve ser evitado o aumento de impostos, em especial os directos.
É necessário que a política monetária não seja penalizadora do investimento – taxas reais muito altas, por exemplo, compreensíveis na perspectiva de travar o consumo privado e aumentar a poupança, podem contrariar o aumento do investimento.
A desvalorização do USD pode ajudar, incentivando as exportações, mas não ao ponto de pressionar os preços internos, fazendo subir a inflação e as taxas de juro.
A evolução recente sugere que as hipóteses de “soft landing” serão agora maiores, embora não seja de excluir cenário menos favorável, sobretudo se a Reserva Federal (FED) vier a endurecer mais a política monetária.
Em suma, um sério desafio para os decisores da política americana e para o Congresso que sair das eleições de Novembro próximo.
Mas é um problema cuja solução interessa a todo o resto do Mundo.

Incompreensível incompreensão

Uma onda de perplexidade varre o colégio dos nossos habituais e omnicientes comentadores e oráculos. Os analistas não se conformam que um presidente eleito directamente pelo Povo seja súbita e sumariamente corrido pelo partido a cujas fileiras pertence; e também não se admite que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa não tenha previsto semelhante desfecho...
Não vejo razão para tanta incompreensão, tanto espanto.
Esta é a lógica de funcionamento do partido comunista.
Carlos de Sousa é militante do partido comunista português.
Ao candidatar-se a presidente da Câmara Municipal de Setúbal como militante do PCP aceitou a lógica de que um militante é um singelo instrumento ao serviço do partido. Descartável quando não convém.
Não vejo, para além da singularidade do facto, nada de espantoso. Só vejo coerência de um partido que é assim e assim continuará.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

“Dificuldades”…

Cada vez tenho mais dificuldade em conhecer a verdade. Sei que este mundo não é próprio para ingénuos, pelo contrário, não esquecer que os "espertos" e os menos escrupulosos são capazes de façanhas inimagináveis. Aquela fé de que o mundo pode mudar com as nossas acções e intenções falece periodicamente. Talvez o avizinhar do fim das férias e a expectativa da triste mudança de estação possam, em parte, explicar a detonação de bombas de pessimismo, cujo arsenal varia de indivíduo para indivíduo.
Não consigo compreender a atitude de renúncia do presidente da câmara municipal de Setúbal. Dizem que foi o PCP o responsável. Mas desde quando um partido é dono de uma autarquia? Depois apareceu a notícia das reformas "compulsivas", segundo a qual houve um conluio criminoso. O relatório está nas mãos do governo, o presidente não o conhece, mas a comunicação sabe! O presidente diz que deve ter sido o governo a ditar a fuga, mas este veio logo a dizer que lastima a afirmação do autarca. O secretário-geral do PCP afirmou que Carlos de Sousa é um homem honesto. Não consigo compreender o que é que está a acontecer! A única coisa perceptível é a atitude patética de um partido como o PCP, que ainda por cima se vangloria da sua superhonestidade.
Aquela notícia sobre Eduardo Cintra Torres é deliciosa. Já tinha comentado, no burgo familiar, que este ano o folclore dos fogos estava muito aquém dos anos anteriores. Nem se compara. Interpretei tal facto de duas formas: ou o governo pediu à comunicação social para ser mais cuidadosa ou, então, ela própria teria tomada tal atitude, o que não é muito credível. Agora, o comentador veio denunciar a pressão governamental. A tumultuosa reactividade do director televisivo deixa no ar muitas suspeições. Aguardemos.
A notícia da não promulgação dos contratos individuais no DR deu um brado dos diabos levando o responsável governamental às afirmações que todos conhecemos. No final um recuo mais que evidente. Não passou, por enquanto, mas se essa for a vontade, acabarão por conseguir esse objectivo. Uma questão de tempo. Veja-se o que está a acontecer com a co-incineração. O governo está perfeitamente legitimado para prosseguir com os seus intentos. Fazia parte do programa PS. Foi sufragado e ganhou. Nada a apontar, a não ser a metodologia, ou melhor as metodologias. Desde o uso de óleos e solventes, que não deviam fazer parte do processo, à desvalorização dos CIRVER, passando pela não explicação cabal do porquê de Souselas e o Outão e não de outras localizações à dispensa da avaliação do impacto ambiental, são apenas alguns exemplos. No tocante à última, e de acordo com as normas em curso, deveria ser feito um novo estudo, porque o primeiro data de 1998, data em que os descritores eram diferentes dos actuais. Na qualidade de Provedor do Ambiente e da Qualidade de Vida Urbana de Coimbra fiz um parecer fundamentado justificando a necessidade de um novo estudo.
O presidente da Câmara Municipal de Coimbra toma as medidas que entender para contrariar a co-incineração e que estão a ser polémicas. Sendo assim, é de esperar que a comunicação social me peça opinião. Foi o que aconteceu ontem. Disse à jornalista que não tinha nada a comentar quanto à atitude do Dr. Carlos Encarnação sobre a proibição de passagem de resíduos perigosos na estrada de aceso à CIMPOR. Trata-se de uma decisão política e eu entendi que não devia comentá-la. No entanto, afirmei que poderia fazer quaisquer comentários no âmbito técnico e científico. Também fiz observações sobre a dispensa do estudo do senhor ministro, explicando as razões. Enfim, uma pequena entrevista. Hoje, ao comprar o jornal fui ver o que é que eu “teria dito” sobre o assunto. Li a notícia e nada! Nem uma palavra minha. Não é que esteja muito interessado em aparecer, pelo contrário, já tive aborrecimentos que cheguem a propósito deste tema. Mas fiquei a meditar, e se eu tivesse elogiado a atitude da câmara? E se tivesse insultado o ministro, o secretário de estado e companhia? Ou seja, e se eu tivesse lançado fogo para a confusão? Teria sido citado com a devida distinção. Mas como limitei-me a ser objectivo e racional, enquadrando o problema no âmbito técnico, científico e legal, nada. Não interessou. Afinal dei uma entrevista a uma jornalista (que me telefonou seis vezes para o telemóvel!) da qual apenas nós os dois ficamos a saber do seu teor. A senhora tem todo o direito em “construir” a notícia de acordo com as suas “fontes”, mas palpita-me que a minha fonte está à beira de secar, porque não é a primeira vez que esta cena acontece….

Ter ou não ter carteira!...

Para quem não viu em directo, pode ler no Blasfémias, "Um grande momento televisivo"!...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Amanhã dizem-nos como é

Fiquei surpreendido. Ainda consigo ficar.
Então não é que um dos partidos da Oposição parece ter entrado mesmo em férias profundas?
Então não é que chamados pelo Governo a manifestar a sua posição sobre o envio de tropas nacionais para o contingente da ONU a estacionar no Líbano, todos os partidos demonstraram ter posição fundamentada com excepção do maior partido da Oposição que adiou para uma reunião que irá decorrer, salvo erro, amanhã?
Pensemos na coisa.
Se a direcção nacional do PSD ainda não ponderou no caso, é grave. Quase tão grave como se, estando Primeiro-Ministro de férias, o Governo adiasse por esse motivo os preparativos da decisão, designadamente ouvindo a Oposição como é seu dever.
Se é uma manobra táctica, de gestão de expectativas para encarecer uma posição que todos adivinham, é infantil por um lado e perigoso por outro, pois há domínios em que não se admitem manobrismos. E este, pela delicadeza de que se reveste, é um deles.
Mas amanhã prometem dizer-nos como é.

Combustíveis renováveis: debate recomenda-se

Em comentários ao Post de Pinho Cardão sobre o encerramento (subsidiado) da fábrica de açúcar de beterraba de Coruche, foram sugeridas alternativas para a aplicação dos fundos afectos a esse investimento, designadamente os combustíveis renováveis.
Refira-se que a utilização dos combustíveis renováveis é um tema muito actual nos EUA, onde a produção de ETANOL (sobretudo) e de BIODIESEL deverá aumentar bastante nos próximos anos.
Em concreto, a produção destes bio-combustíveis nos EUA deverá passar dos 4 mil milhões de galões (1 galãoUS= 3,783 litros) no corrente ano para cerca de 7,5 mil milhões de galões em 2012, taxa de crescimento anual superior a 10%.
Esta evolução é consequência de uma lei sobre a energia, entrada em vigor em Agosto do ano passado (assinada pelo Presidente a 8 desse mês), a qual traduz um forte compromisso oficial para a expansão do consumo de combustíveis renováveis.
O ETANOL e o BIODIESEL são obtidos a partir de recursos renováveis, ao contrário dos combustíveis fósseis cujas reservas não podem ser renovadas, sendo muito menos poluentes.
Porque são renováveis e menos poluentes, estes combustíveis apresentam um grande potencial para transformar o mercado energético, a médio e sobretudo a longo prazo.
A sua extracção faz-se a partir de produtos agrícolas – o ETANOL a partir do milho ou da cana do açucar, o BIODIESEL a partir de óleo de soja (para além das gorduras residuais como os óleos de cozinha queimados).
Quer dizer que a mais do que provável expansão da produção destes novos combustíveis vai implicar uma nova oportunidade para a produção agrícola em muitos países.
A produção de ETANOL está bem mais avançada do que a de BIODIESEL nos EUA.
Os 4 mil milhões de galões produzidos no corrente ano são na quase totalidade ETANOL.
O consumo de BIODIESEL anda pelos 30 milhões de galões (0,75% do consumo de etanol).
O ETANOL é misturado com a gasolina, em duas modalidades distintas, o E10 (mistura com 10% etanol) e o E85 (mistura com 85%). A primeira pode ser usada em qualquer veículo, a segunda requer uma adaptação ( FFV ou flexible fuel vehicles).
Os FFV, como o nome sugere, podem utilizar qualquer tipo de combustível: gasolina, E85 ou uma combinação dos dois.
Quanto ao BIODIESEL, utilizam-se actualmente em mistura de 20% no gasóleo (B20), a qual podem ser utilizadas em qualquer veículo. Também é possível a utilização de 100% (B100), mas esse requer uma modificação nos motores.
Resta dizer que o Brasil é o país mais avançado na produção/consumo de ETANOL, pois 20% dos combustíveis consumidos actualmente consistem em misturas deste combustível, contra cerca de 1% no resto do Mundo.
No caso do Brasil, o ETANOL é extraído a partir da cana do açúcar, processo que é cerca de 30% mais barato do que o da extracção a partir do milho.
Estará aqui uma oportunidade interessante para a agricultura portuguesa? Parece-me bem que sim, mas é curioso que não exista qualquer debate sobre o assunto.

A OPA do Bota!...


O PSD, e bem, a meu ver, tem sido sempre contra a regionalização. Foi-o no referendo, como o foi há três meses, no último Congresso, quando rejeitou uma moção de Mendes Bota, Presidente da C. Política do PSD do Algarve.
Não tendo nunca a regionalização constituído objectivo político do partido, a inscrição “O Algarve é uma Região” no púlpito dos oradores da “festa” da Quarteira organizada por Bota só se pode entender como uma OPA do Bota sobre o PSD.
Isto é, Mendes Bota organizou um evento, supostamente para unir e mobilizar o Partido, para dele oportunisticamente se utilizar na sua própria propaganda pessoal e nos seus particulares desígnios políticos.
Tanto assim é que o comunicado que a Comissão Política do PSD do Algarve, por si liderada, refere, expressamente e sem qualquer sinal de vergonha, que a “intervenção mais marcante da noite pertenceu a Mendes Bota”, que conseguiu “mobilizar a assistência”!....
O auto elogio e a forma como pretendeu exibir, para mero proveito próprio, ideias que nunca foram aprovadas pelo seu partido, colocando-o ao seu serviço, retratam a mediocridade de muita da acção política e assim o descrédito de grande parte dos seus agentes.
Como social-democrata com cartão, de há um ano e meio a esta parte, não fiquei satisfeito.
Marques Mendes só podia não comparecer. Tem alguns passivos, mas este é também um crédito que lhe deve ser concedido.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

A admirável economia de Bruxelas!...

Há uns 15 anos, a União Europeia deu, a fundo perdido, cerca de 10 milhões de contos para viabilizar a fábrica de açúcar de beteraba de Coruche.
A produção agrícola correspondeu e a fábrica tem sido um êxito.
Agora, a União Europeia dá outros 10 milhões de contos(50 milhões de euros), para encerrar a fábrica, dizendo que há excesso de produção!...
Cá por mim, aceitava, na condição de virem outros 10 milhões para nova fábrica de um novo qualquer produto, assumindo já o compromisso de a fechar, reiniciando o ciclo!...

Cortar o mal pela raíz!...


Segundo Luís Filipe Vieira, o sempre zangado Presidente do Benfica, como referido ontem nos jornais A Bola e DN, “…o Campeonato vai começar e vão continuar as dúvidas, nomeadamente se os resultados vão ser ou não falseados…”
A ser assim…quando o Benfica ganhar, as dúvidas serão todas nossas…e quando o Benfica perder, Luís Filipe não terá dúvidas nenhumas!…
E se não tiver dúvidas regularmente, despede o treinador…como normalmente acontece quando os resultados são falseados!...
O que significa cortar o mal pela raíz!...

Uma medida acertada

No início do ano o Governo determinou por via de lei que as actividades de polícia do ambiente e da protecção da natureza caberiam à GNR. Para dar exequibilidade a esta opção veio agora regulamentar a lei. Trata-se de uma medida que merece aplauso.
O Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR existe há já alguns anos. É consensual a meritória acção do SEPNA neste período em prol da defesa dos valores ambientais, a despeito da endémica insuficiência de meios. Ao comando do Serviço estão oficiais com sólidos conhecimentos em matérias ligadas ao ambiente e à protecção da biodiversidade, conjugados com uma particular sensibilidade para a necessidade de prevenir, mas também reprimir firmemente quando necessário, agressões durante muito tempo impunes a bens e valores cuja permanência são garantia de futuro.
Além destes factores, que infelizmente não são tão comuns quanto isso a outras forças policiais nos respectivos domínios de actuação, foi ultrapassada a fase das desconfianças que num passado não muito distante opuseram outros corpos com competências de fiscalização ambiental à prevalência da actuação do SEPNA, igualmente pelo reconhecimento da eficácia e competência com que os militares afectos áquele Serviço souberam realizar as suas missões.
Afinal entre o Ministério da Administração Interna, o Ministério do Ambiente e o Ministério da Agricultura não há só desentendimentos. Quando se quer porque se percebe que a articulação de actuações é o passo decisivo para atingir objectivos de interesse comum (mais a mais no ambiente que é transversal a todos os restantes sectores da política e da administração), as medidas são acertadas e incontestáveis. Um bom exemplo de demolição de "capelinhas" a seguir em outros domínios.
Por isso aqui deve ficar o registo e o aplauso que tem também o significado do reconhecimento do mérito da actuação do SEPNA.

domingo, 20 de agosto de 2006

Compêndio da boa gestão hospitalar!

Com o título Demita-os, Dr. Correia de Campos…”, referi no 4R, há dois dias, o facto de o Ministro da Saúde ter exarado um Despacho em que proibia as administrações hospitalares de praticar gastos ostentatórios e desnecessários, como a “ aquisição de novas viaturas para uso pessoal da administração, mudança de mobiliário ou aquisição de dispendiosos elementos decorativos, para dar apenas alguns exemplos…”, como refere o despacho.
Sustentei que, em vez de proibir, o despacho devia demitir as administrações que praticam tais gastos desnecessários.
Mas, segundo hoje li no Diário de Notícias, o despacho é bem mais suave, por um lado, ao mesmo tempo que, também ele, contraditório com os bons princípios de gestão.
Mais suave, porque só se aplica “até ao final do ano corrente…”.
Contraditório com uma boa gestão, porque o seu conteúdo é justificado com o “ esforço que a todos é exigido para o equilíbrio das contas públicas…”.
Isto é, incorrer em gastos ostentatórios e desnecessários não contende com os bons princípios de gestão, só é um mal meramente conjuntural face ao desequilíbrio das contas públicas; e tanto é assim que já não é proibido praticar tais gastos no próximo ano, o que significa, caso neles se incorra, boa gestão!...
Estamos pois conversados quanto à filosofia de gestão e objectivos do despacho!...
Obviamente que não ponho em causa as boas intenções do Ministro...mas de boas intenções, sem conteúdo ...

Há gente que não se enxerga

Sempre foi para mim um enigma a razão do tempo informativo dado ao senhor Dr. Manuel Monteiro.
O Dr. Monteiro rompeu com o CDS-PP na sequência de um disputa, que perdeu, com o Dr. Portas. Poderia ter feito como muitos e aguardado no partido pela mudança de tempos, mantendo-se nele como reserva de liderança já que a tendência para liderar qualquer coisa é mais do que patente, obsessiva.
Preferiu legitimamente seguir outro caminho. Formou um novo partido. Que os portugueses legitimamente transformaram numa pequeníssima amostra.
O Dr. Monteiro, atendendo à representatividade do partido que lidera, está para a direita como Carmelinda Pereira está para a esquerda: vale um pouco mais de zero. Porém, enquanto com Carmelinda só nos divertimos nas campanhas eleitorais, o senhor Dr. Manuel Monteiro aparece-nos todos os dias, com aquele ar doutoral, nos jornais, nas rádios, nas TV´s com receitas para tudo, em especial para a cura dos males da direita. Um novo endireita mediático, sem dúvida.
Hoje, no Correio da Manhã, lá está ele a provocar o seu antigo partido, querendo que lhe devolvam a sigla.
Gente com dificuldade em enxergar-se, como se diz na minha santa terrinha.
Não é o único, porém.

sábado, 19 de agosto de 2006

"Os cérebros dos políticos"...

As descobertas científicas têm invariavelmente consequências a diferentes níveis. Mesmo as mais controversas, que inicialmente são objecto de preocupação, acabam, mais tarde ou mais cedo, por serem integradas na rotina ou serem alvo de atenção especial com fins não previstos.
Saber como funciona o cérebro é uma das áreas mais deliciosas, que digam os neurocientistas na sua procura incessante em esclarecer os mistérios do órgão pensante.
Hoje, com as novas tecnologias, caso da ressonância magnética funcional, é possível ver onde se processam certos pensamentos e emoções com uma precisão que até assusta.
Já foram efectuadas várias experiências para localizar e conhecer a dinâmica do pensamento em inúmeras situações, desde o cálculo mental à excitação sexual, passando pela identificação de zonas de tristeza, entre outras, mas tentar aplicá-las a cérebros de políticos é que novidade. E que novidade! Parece que as predilecções dos cérebros dos ditos são frutos de vieses inconscientes!
Vejamos como tudo se processa. Certas zonas do cérebro foram identificadas com o raciocínio, com as emoções, com a resolução dos conflitos, com os juízos morais e com a satisfação emocional, entre muitas outras, localizadas, na sua grande maioria, no córtex pré frontal e frontal.
Colocar republicanos e democratas convictos face às contradições de Bush e de Kerry permitiu aos investigadores, através das leituras das imagens dos seus cérebros, concluir que ambos os grupos criticavam a conduta dos seus líderes. Mas, curiosamente, quando se passou para a análise das políticas de cada um deles, apenas uma zona se manteve “fria”, a zona do raciocínio! As outras foram activadas terminando na estimulação de uma zona que está relacionada com a recompensa e prazer. A partir daqui, ou seja, desde que a zona de satisfação emocional é activada, as outras zonas responsáveis pela resolução de conflitos, juízos morais e emoções eram estimuladas de forma a reforçar a zona de recompensa e prazer. Entretanto, a zona do raciocínio não sofria qualquer “ignição”. Desta forma o “verdadeiro” adepto político pensa de uma forma enviesada. O estímulo do centro de prazer é uma recompensa que lhe permite accionar determinados circuitos que poderíamos catalogar como “políticos” e dos quais está excluído a zona do raciocínio.
Aqui está uma boa maneira de seleccionar candidatos políticos, verdadeiramente fiéis. “Bastaria” fazer-lhes uma ressonância magnética funcional aos cérebros enquanto aplicassem certas perguntas. Um bom discurso e boas respostas acompanhadas de emoções, da estimulação da zona de conflitos e da zona de recompensas desde que mantenha “fria” a zona do raciocínio é mais do que uma garantia de um leal subordinado. Quantos ao que dispararem o centro do raciocínio, nada feito! São perigosos e imprevisíveis….

Demita-os, Sr. Dr.Correia de Campos, demita-os!...

Ouvi hoje na Antena 1 que o Sr. Ministro da Saúde fez um pitoresco despacho proibindo os Administradores dos Hospitais de fazerem gastos desnecessários!...
Admirável mundo este o dos Administradores competentes que o próprio Ministro, com toda a boa fé, nomeou ou que, sem qualquer fé, teve que nomear!...
"...E os nossos, Senhor Ministro, e os nossos!...foi das expressões que mais se ouviram nos corredores do Ministério, aquando das nomeações que não agradavam à clientela partidária!...
E lá iam muitos dos nossos!...
Mas o Ministro, que muito prezo, para além da sua boa fé, evidencia uma ainda melhor ingenuidade.
Então há lá administrador competente que prescinda de exibir o seu carro novo, se a principal razão, para além do ordenado, por que pressionou ser nomeado foi precisamente exibi-lo aos parentes e amigos?
Então há lá administrador competente que prescinda de um gabinete renovado e redecorado e de aí exibir o seu poder perante os fornecedores que lhe mendigam o que há muito lhes é devido?
Administrador que faz gastos desnecessário é uma contradição no conceito e nos termos.
Contradição que não se corrige, elimina-se!...
Demita-os, senhor Ministro, demita-os, mesmo que depois eles forcem V. Excia à demissão!...
Mas ficará o testemunho!...

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

OTA: debate urgente

Tive há poucos dias a oportunidade de conhecer, em ambiente informal, a opinião de um perito europeu acerca do polémico projecto da OTA.
Este perito é responsável pela gestão de vários aeroportos europeus de grande tráfego, conhecendo como poucos a problemática da gestão aeroportuária face às tendências de evolução do tráfego aéreo.
Na opinião dessa pessoa, que conhece o caso português, o projecto OTA não faz qualquer sentido. Vários argumentos concorrem para justificar esta posição.
Em primeiro lugar, as tendências do tráfego aéreo.
Parece que todo o aumento que se tem verificado nos últimos anos se deve ao chamado “low-fare”, os voos de tarifa reduzida praticados cada vez mais por companhias que se especializaram nessa modalidade.
Também parece que os passageiros do “low-fare” têm hábitos bastante diferentes dos que frequentam os voos normais, por exemplo gastando muito pouco nas lojas “duty-free” e noutros espaços comerciais.
O problema do “low-fare” resolver-se-ia, segundo este especialista, com um pequeno investimento no Montijo, para onde passariam a ser canalizados estes voos (uma parte, pelo menos).
O importante seria assegurar boas ligações – autocarro sobretudo – entre Montijo e Lisboa, para o rápido escoamento aos passageiros desembarcados ou para embarcar.
Para além deste apontamento, existe outro muito relevante, que tem a ver com a situação actual das condições de exploração da ANA (Aeroportos e Navegação Aérea)
Concretamente, a ANA tem uma operação rentável no aeroporto de Lisboa, tem uma exploração equilibrada em Faro e perde bastante dinheiro no aeroporto do Porto que, em termos económicos, constitui o que se chama um “elefante branco” (excesso de investimento).
Com a OTA, a situação passará a ser, segundo esse perito, de elevados prejuízos no Porto e na OTA, continuando Faro mais ou menos em equilíbrio.
Desaparecerá a única fonte de “cash-flow”, o aeroporto de Lisboa.
Existe ainda um terceiro argumento, que de certo modo reforça os primeiros.
Trata-se da mais que provável derrapagem nos custos de construção da OTA, actualmente estimados (por alto) em qualquer coisa como 2 mil milhões de Euros, mas que facilmente poderão duplicar ou triplicar.
A experiência diz-nos que essa derrapagem é quase certa, agravando assim o cenário de prejuízo da OTA.
Eu, que pouco mais conheço do tema para além do que a comunicação social tem vindo a referir, confesso que fiquei “disgusted” ao conhecer esta opinião.
Que não posso deixar de considerar muito respeitável e cheia de bom senso.
Em primeiro lugar, a pessoa em causa não tem qualquer interesse no assunto, emitindo uma opinião totalmente independente e desinteressada.
Em segundo lugar não deve ser fácil encontrar alguém que conheça melhor esta problemática.
Concluo, logicamente, que este assunto precisa de ser debatido com muito maior profundidade entre nós – e com urgência. Se assim não for, corremos o risco de coleccionar mais um “elefante branco”.
E, com todos estes “elefantes brancos” entretidos a consumir os nossos cada vez mais escassos recursos, o futuro terá por certo uma cor bem diferente: será cada vez mais negro.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Redescobrir a Índia!...

A Fitch, uma das três mais importantes agências de rating, acaba de fazer um up grading do risco soberano externo e interno da Índia, face ao progresso no processo de consolidação fiscal e ao forte crescimento do produto interno e da balança comercial.
As finanças públicas estão controladas: o rácio da dívida pública é de 80% do PIB, menor que o nosso, e o deficit desceu, nos últimos 5 anos, de 10,1% para 7,5% do PIB, esperando-se que baixe para 3,8% no próximo ano.
São números notáveis para um país imenso, com mais de mil milhões de habitantes e em que só três cidades, Bombaim, Dehli e Calcutá têm 40 milhões de habitantes, equivalente à população de Espanha, debatendo-se com problemas difíceis nas políticas externa e interna.
Com finanças públicas saudáveis, que não constituem entrave ao desenvolvimento, a economia vem crescendo de forma notável. A Índia é já a 12ª economia mundial, embora o seu PIB ainda seja apenas 5 vezes superior ao português( 36ª economia).
De uma visita à de 15 dias à Índia que fiz em Julho do ano passado e da qual registei algumas impressões neste blog, não esclareci para mim o mistério de aquele país, com as suas enormes contradições e problemas, desigualdade imensa e aparente desorganização, conseguir disciplina orçamental e fiscal, controle da inflação, crescimento económico, desenvolvimento científico e crescimento económico.
Portugal, que cabia todo inteiro em Dehli, apresenta piores indicadores de finanças públicas do que a Índia.
A explicação estará na competência de uma classe política e na profunda incompetência de outra.
A da Índia, pelos resultados conseguidos, mostra saber ocupar-se com o essencial; a nossa entretém-se a gerir a imagem e a aparecer na televisão, com gravata ou sem gravata, a correr ou compostamente sentada.
Diz-se, para desculpar, que as nossas elites, nomeadamente a política, são o reflexo da sociedade. É uma contradição nos termos, pois ou é elite ou é reprodução da média e se não é elite devia abdicar de o querer parecer.
A Índia mostra a verdadeira influência de elites bem preparadas e por isso progride.
Temos mesmo que redescobrir a Índia!...

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

"Não há ausentes sem culpas, nem presentes sem desculpas"...

...diz o Povo.
Divertida vai a preparação da festa algarvia do PSD que no tempo em que os incêndios eram incêndios e não ignições (como diria o nosso Pinho Cardão), se designava "rentrée política dos social-democratas".
Os tempos mudam. E com eles a relevância dos factos. O facto político da temporada para a oposição não é nenhuma das acções ou omissões do governo. É a festa do PSD, quem a ela falta e quem a ela vai. Ameaça mesmo bater aos pontos o interesse sempre gerado pela célebre e relevantíssima romaria de Chão de Lagoa!
Alguns dos media têm feito eco e elevado as expectativas sobre o não menos alto significado político das ausências. Do mesmo modo que ressaltam e apregoam as comparências. No melhor estilo da publicidade dada às estrelas pimba de uma qualquer festa de aldeia.
Anote-se esta pérola do Correio da Manhã
"A tradicional festa conta já com as presenças de Morais Sarmento, João de Deus Pinheiro, Arlindo de Carvalho, Helena Lopes da Costa, entre outros. Fernando Negrão tentará chegar a tempo da festa, mas Miguel Frasquilho e Mira Amaral já informaram que não podem estar presentes por se deslocarem para o estrangeiro. Eurico de Melo, um histórico do partido, informou Mendes Bota que, por “motivos de saúde” não pode estar presente".
Informa ainda aquele diário que António Borges não sabe se vai. Mas foi convidado por Bota que acha que lhe fazia bem ir.
Oh, como seria diferente a festa com Borges!
Apesar das ausências, ou se calhar por causa delas, é garantido que teremos festa.
Exultemos também!

"Caramelos de Elvas"...

A Ana teve o seu filho em Badajoz. Sabem o que ela disse? Que o seu filho vai ter dupla nacionalidade. Deste modo, o miúdo, mais tarde, poderá ter mais oportunidades sendo espanhol!
Já nasceram 50 crianças em Badajoz com provável “tendência” para se fixarem no lado de lá!
Chama-se a isto oferecer a Espanha “Caramelos de Elvas”…

Variações Climáticas: como interpretar?

Segundo hoje revela o Instituto de Análise Económica IFO (Alemanha), o clima empresarial, depois de ter alcançado no 2º trimestre deste ano os valores mais altos dos últimos 5 anos (103,4 pontos), terá piorado na zona Euro no trimestre em curso (101,7 pontos).
Essa evolução ter-se-á dado na generalidade dos países da zona, com excepção da Itália e de Portugal, em que a confiança empresarial terá subido.
Numa outra perspectiva, todos os países se mostram mais satisfeitos com a situação económica actual do que em inquérito anterior, com a excepção da Espanha (!).
São curiosas – no mínimo – estas variações climáticas.
Itália e Portugal são as duas economias da zona Euro com pior desempenho, ao longo dos últimos anos.
São também aquelas que enfrentam problemas estruturais mais sérios, devido às acentuadas perdas de quota de mercado das suas exportações e ao estado muito débil das respectivas finanças públicas.
O relatório Bruegel, aqui apresentado e debatido há poucos meses, com grande participação dos Comentadores, ofereceu uma perspectiva clara dos sérios problemas que os dois países enfrentam para suplantar as suas fragilidades económicas.
De repente, contrariando a tendência dos demais, parecem exibir um optimismo de excepção.
Como interpretar este fenómeno? Várias hipóteses/reacções se podem considerar.
A 1ª, de senso comum, consiste em dizer que já batemos tão fundo que não é possível que as expectativas continuem a baixar. Qualquer variação, só pode ser de sentido positivo.
A 2ª, que no caso da Itália até tem melhor cabimento – foi campeã do Mundo de futebol – tem uma raiz desportiva e de contágio ao clima de negócios. Isto é, os sucessos desportivos animaram os homens de negócios.
A 3ª, para os mais pessimistas, de que estamos sempre do lado errado. Neste caso, se o clima de negócios melhora, seria preferível que não melhorasse, seguindo o exemplo dos países que estão em melhor posição.
Pois não é verdade que o claro afrouxamento da economia americana, no 2ºtrimestre, foi recebido pelos mercados de capitais como “muito boas notícias” tendo contribuído para um comportamento positivo nas bolsas de valores?
Pela minha parte prefiro uma 4ª reacção, mais ao jeito de La Palisse: vamos ver no que este optimismo vai dar, quando forem divulgados os dados do 3º trimestre. Lá para o início de Dezembro, apenas.
Mas acredito que os senhores Comentadores terão interpretações bem mais engenhosas do que estas. Por exemplo, o talento neo-realista de Pinho Cardão é sempre susceptível de nos oferecer uma surpresa.

A diferença existe!...

Por alturas dos Verões de 2002 e 2003, quando os incêndios ainda não se chamavam ignições, mas eram muitos e intensos, o Partido Socialista montou a mais descabelada e demagógica campanha contra o Governo que me foi dado ver, exploração indigna dos sentimentos das pessoas, numa luta política de mero carácter partidário.
Muitos dos actuais responsáveis do Ministério da Administração Interna, o deputado José Sócrates e muitos outros deputados das zonas ardidas competiam entre si para atribuir todas as responsabilidades ao Dr. Figueiredo Lopes, ou acusá-lo de incompetência, para exigir diariamente a sua presença no Parlamento ou pedir a sua imediata demissão, para pedir a demissão do 1º Ministro ou do Governo. As acusações estendiam-se aos Governadores Civis e a todos os responsáveis que estivessem mais à mão.
Estes defendiam-se e tínhamos então Protecção Civil, Serviço Nacional de Bombeiros e demais Autoridades de coordenação uns contra os outros e todos contra o Governo, gastando energias num espectáculo deplorável, enquanto os fogos continuavam a sua marcha implacável.
As extremas condições climáticas verificadas não valiam, a falta de limpeza era culpa do Governo, as chefias eram mal escolhidas, as reestruturações um falhanço absoluto...
Como mais uma acha para a fogueira, foi criada uma Comissão Parlamentar, onde os deputados “regionais”, hoje nos Governos Civis ou nas Câmaras, tinham como único objectivo gritar mais alto, procurando seu momento de glória!...
Era, na altura, deputado independente pelo PSD e fui um observador atento dessa realidade.
Como talvez nunca, pensei aí que a política não era a “nobre arte” ao serviço das populações, mas uma forma abandalhada de conseguir meros objectivos pessoais, explorando a angústia alheia.
Este ano, os incêndios também vogam ao sabor da natureza, devastando parques nacionais e matas particulares, fazendo vítimas, algumas mortais.
O PSD não teve uma atitude “revanchista”, mantendo-se geralmente calado, não alimentando a combustão.
Foi responsável, fez bem e com isso mostrou que os Partidos nem sempre são iguais.
E as populações sabem reconhecê-lo, muitas vezes mais cedo do que se espera!...

Ciclismo, doping e viagra

Os últimos acontecimentos no ciclismo vieram provar que a fraude desportiva é um facto, e uma constante, que dificilmente se consegue evitar ou extinguir. “Os ladrões andam sempre à frente da polícia”. No caso do doping são inúmeras as substâncias sintetizadas e manipuladas de forma a não serem detectadas. Com o tempo são descobertas e indexadas à lista de proibições.
Uma breve análise permite-nos verificar que foram usadas em todos os tempos e condições. Quem não se lembra das “nadadoras masculinas” da antiga RDA? Ganhavam tudo e mais qualquer coisas! Uma forma de demonstrar que “somos os maiores”! Uma tragédia. Que digam as centenas ou milhares de vítimas de morte prematura, tumores e infertilidade e até de suicídios. Alguns foram a tribunal, mas muito poucos. Não os atletas, mas os responsáveis que os obrigavam a tomar as substâncias perigosas.
Todos querem ser os “melhores”. Para o efeito, muitos, não se importam de dar cabo da saúde, além de revelar uma faceta fraudulenta, pondo em causa a verdade dos factos. O que interessa isso? Desde que consigam ser famosos e ganhar umas boas massas…
Floyd Landis parece que produz testosterona a mais! Coitado, o que é que lhe tinha de acontecer, logo a testosterona que tem um importante efeito anabolizante. Afinal, o efeito foi da testosterona sintética e não da produzida pelos seus testículos.
Parece que a situação da dopagem é tão comum nos ciclistas que leva a tomadas de posição curiosas como a do adepto deste desporto, o ex-ministro da educação Marçal Grilo que, de acordo com duas citações transcritas ontem, no Jornal Público, parece aceitar esta prática: “Temos que ser realistas e, como um ex-ciclista me disse um dia, perceber que ninguém sob a Serra da Estrela, o Tormalet ou o Galibier a comer bifes com batatas fritas”. Nada mau para um ex-ministro da educação. Já agora gostava de lhe perguntar: - O senhor doutor também já usou algum dopingzito? Às tantas! Quem sabe se durante a experiência governativa…
O melhor é avisar o Floyd Landis que, não produzindo tanta testosterona endógena como queria que acreditássemos, passe a utilizar o Viagra. É verdade! Além do seu papel na disfunção sexual e na hipertensão pulmonar, descobriu-se ser uma excelente droga para aumentar a performance dos ciclistas quando se encontram em condições de hipoxémia. Assim, nas subidas das montanhas é só tomar o comprimido azul e mais ninguém o apanha. Claro que podem ocorrer algumas complicações dignas de Priapo, o que não é nada aconselhável com aquele equipamento…
Palpita-me que os inibidores da 5-fosfodiesterase ainda acabam por parar à lista de substâncias dopantes.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Que raio de oposição!

A denúncia efectuada pela Associação das Empresas de Dispositivos Médicos (Apormed), a propósito da reutilização indevida de materiais (após esterilização) mas que só podem ser utilizados uma única vez, é muito grave.
É fácil de compreender que as infecções hospitalares são uma das principais fontes de dores de cabeça dos que trabalham nos meios da saúde. São frequentes, temíveis, podendo provocar mesmo a morte. O ambiente hospitalar é propício a esta complicação, agravada pelo facto de as bactérias hospitalares não serem nada meigas, serem mais resistentes aos antibióticos e terem como fonte de alimentação os organismos debilitados dos doentes. Volta e não volta surgem notícias de casos e vítimas de infecções hospitalares. Os responsáveis têm de tomar, e penso que tomam, as medidas adequadas. Dentro das diferentes medidas os cuidados na utilização do material é indispensável para o controlo da infecção hospitalar.
A par da Apormed também os membros de Associação de Enfermeiros de Salas de Operações Portuguesas denunciam estas práticas. Vários responsáveis contactados negam ou desconhecem esta prática nas suas unidades e departamentos. Quanto às autoridades que superintendem nestas esferas revelam alguma discordância quanto às suas responsabilidades. O Infarmed diz que não é da sua competência e a Direcção-Geral de Saúde remete para a primeira o problema.
A situação descrita, a ser verdade, é muito grave e põe em causa muitos princípios, não esquecendo que somos todos potenciais vítimas.
Subentende-se da denúncia que as razões têm a ver com factores económicos: reutilização igual a poupança. Como o ministério da saúde tem tido uma política de cortes, a fim de assegurar o funcionamento do SNS, até que ponto não são um "convite" à má prática? Como é possível que duas instituições, Infarmed e Direcção-Geral de Saúde não se entendem quanto à responsabilidade da situação? Como é possível a oposição não chamar a si a condução deste processo, inquirindo da veracidade dos factos e da responsabilidade dos titulares, nomeadamente do ministro? O problema em questão não é só técnico, é fundamentalmente político. Mas parece que é mais importante saber se um avião israelita fez escala nos Açores transportando lagartas para tanques ou "pastilhas elásticas" do que defender a saúde dos portugueses.
No Parlamento, por muito menos, vi as comissões parlamentares, através dos requerimentos da oposição, exigir explicações aos responsáveis. E agora, não dizem nada? Que raio de oposição é esta!

Quem nos acode?

A gestão do Serviço Nacional de Saúde apresenta verdadeiros study cases, bem dignos de aturada análise nas cadeiras e cursos de pós graduação de psiquiatria. Aliás, a mente dos seus mentores também deveria constituir um alvo preferencial da investigação médica.
Quando os hospitais foram empresarializados, houve gestores hospitalares que, passado um ano, ainda não tinham tocado nas dotações de capital entregues, em dinheiro fresco, para constituir o capital social das novas empresas, apesar de aumentarem os atrasos de pagamentos a fornecedores e aos bancos. Aventavam como razão o facto de não quererem ser acusados de delapidar o capital recebido!...
Agora, o Jornal do Nordeste, citado na última edição do Expresso, revela o caso espantoso que se descreve a seguir.
Em meados de Abril, o Centro Hospitalar do Nordeste, em Bragança, abriu um concurso público para convencionar o serviço de ressonâncias magnéticas necessárias aos diagnósticos dos seus doentes, que vinham sendo feitas numa clínica de Bragança.
Feito o concurso, ele foi ganho por uma clínica do Porto!...
Muito bem...mas agora os doentes terão que se deslocar a essa cidade, a duzentos quilómetros de distância!...
Os autores da medida devem estar satisfeitíssimo com a performance, quer pelo que poupam, quer pelo menor trabalho dado ao hospital, que tem muito mais que fazer do que ver doentes, para mais necessitados de ressonâncias magnéticas!...
Merecem sem dúvida o Prémio Nobel da Medicina Psiquiátrica, devendo também ser já laureados com a Grande Ordem Tecnocrata e o Grande Colar do Burocrata!...
E o Ministério da Saúde que faz?

A sleepy season da oposição

Acontecem coisas relevantes na economia europeia e fazem-se sentir alguns sinais de reacção da economia doméstica.
Contra as melhores expectativas do governo, afinal as medidas preventivas e os dispositivos de combate aos fogos florestais não lograram obter melhores resultados do que em anos anteriores.
Arde uma parte importante do único parque nacional que o País possui e descobre-se, entre acusações abertas e outras moderadas pelo discurso político mais hábil do senhor Ministro da Administração Interna, que nem tudo vai bem nas relações entre este ministério e os ministérios da agricultura e do ambiente (com especial destaque para o papel omissivo deste último que ainda tentou fazer do secretário de Estado do Ambiente o bombeiro capaz de apagar o fogo nascente nas relações governamentais na sequência do incêndio do Gerês).
É hoje anunciado que o senhor ministro do Ambiente autoriza a co-inceneração de resíduos industriais perigosos desta vez em Souselas, de novo (como no Outão) sem avaliação de impactos ambientais.

Enquanto isto, a oposição, porventura cansada de tanto mal-dizer, de tanta trica interna, descansa.

Não sei se o governo não agradecerá o repouso da oposição porque descansa em dobro.
O que sinto é que uma oposição que vai a banhos e se despreocupa, não reflete e não faz saber o que pensa sobre o que de bem e de mal se passa no País, não ganha credibilidade como alternativa.
E as alternativas, e os seus protagonistas, não se constroem e não se impõem nas campanhas eleitorais.
Essa é a ingénua ilusão de alguns...

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Zona Euro: boas notícias

Foram hoje divulgados pelo Eurostat dados relativos ao desempenho (performance, na linguagem agora mais em uso) das economias da zona Euro e da União Europeia (EU) para o 2º trimestre deste ano, francamente positivos.
Assim, em relação ao 1ºtrimestre (crescimento em cadeia), a variação foi de 0,9% em ambos os casos.
Em termos de variação anual – 2ºtrim.2006/2ºtrim.2005 – a variação foi de 2,4% na zona euro e de 2,6% na EU.
No caso da Alemanha, também com variação de 0,9% em cadeia, este foi o ritmo mais elevado dos últimos 5 anos, levando a admitir que a economia possa crescer 2% este ano.
Em Espanha o crescimento continua mais elevado, com 0,9% em cadeia e 3,6% em termos anuais.
Na última 6ª Feira tinha sido antecipada informação sobre o forte desempenho da economia francesa no mesmo período, cerca de 1,1 a 1,2% em cadeia e 3% em termos anuais. O melhor resultado nos últimos 6 anos (Boost for France as growth hits 6-year high, era o título do F.Times do fim de semana).
Já no seu boletim de Junho, o Banco Central Europeu tinha antecipado este bom desempenho das economias do euro no 2ºtrimestre.
Esta evolução deve-se ao crescimento robusto das economias dos principais parceiros comerciais da zona euro, bem como à gradual recuperação do consumo privado.
Curioso notar que o consumo privado, especialmente em Junho, beneficiou bastante do clima gerado pelo Mundial de futebol na Alemanha.
E também é interessante observar que este desempenho se dá à revelia do forte agravamento dos preços do petróleo que, como se sabe, se encontram a níveis historicamente altos.
Algumas questões se podem colocar nesta altura.
A primeira é a de saber se os países do euro com dificuldades orçamentais – França e Alemanha, em especial - vão aproveitar esta fase mais favorável do ciclo para colocarem as suas finanças públicas em ordem.
Têm uma boa oportunidade, se souberem tirar partido do crescimento das receitas fiscais e controlarem o aumento da despesa, adoptando uma política orçamental anti-cíclica ou neutra.
A segunda, qual será o efeito destas notícias nas decisões do BCE. Irá este continuar a subir a sua taxa principal, pelo menos até aos 3,5% como antecipam muitos analistas?
À primeira vista dir-se-á que sim, pois a partir do momento em que a economia ganha maior ritmo de crescimento o BCE não terá necessidade de manter um estímulo monetário.
Mas esse não será o único factor a considerar. Muito importante também será a evolução do câmbio Euro/USD. Se por exemplo o Euro vier a valorizar bastante em relação ao USD, o BCE poderá sentir-se menos inclinado a subir as taxas de juro.
Quanto a Portugal, só lá para o início de Setembro deverá ser divulgada a variação do PIB no 2ºtrimestre. Mas tudo indica que a EU/zona euro nos vai dar uma pequena ajuda, apesar da fraqueza evidente da procura interna.

Ministeriais "ignições"!...

As ignições, para usar a picaresca terminologia de António Costa, depois de alastrarem pelas matas, começam a devorar os membros do Governo, segundo bem entendi da edição de hoje do Diário de Notícias!…
Como é sabido, tem lavrado forte ignição no Parque-Nacional da Peneda-Gerês, ao ponto de ontem o Secretário de Estado do Ambiente, de seu nome Humberto Rosa, ter que fugir de uma conferência de imprensa que improvisara no local, com medo que a ignição lhe chamuscasse o seu ecológico traseiro.
Na véspera, o Secretário de Estado da Administração Interna tinha acusado o Ministério do Ambiente de responsabilidades na dita ignição, pelo facto de impedir a abertura de aceiros no Parque.
Humberto Rosa ainda antes da fuga, respondeu ao seu colega do Governo, dizendo que nem pensar nisso, já que a ignição se desenvolvera devido ao facto de “faltarem pontos de água”; quanto aos aceiros ou corta-fogos, garantiu mesmo, a confirmar a ideia, que “…isso não será permitido”.
Ascenso Simões , no Diário de Notícias, não perdeu tempo a responder, dizendo que “é necessário acabar com teorias fundamentalistas para as áreas de alto valor ecológico" , afirmando ainda que “…havia alguma dificuldade de diálogo com o Instituto de Conservação da Natureza…”.
Entretanto, algumas matas do Parque, como a do Ramiscal, uma das áreas mais sensíveis em termos de biodiversidade e onde pelos vistos não podem ser feitos aceiros, ficaram irremediavelmente perdidas.
Isto é, não se pode fazer um aceiro, porque estraga, mas depois vem a ignição e tudo leva!…Pelos vistos, é preferível…pois é a natureza a trabalhar!...
Bons patuscos, estes ecologistas e governantes fundamentalistas!... Reparem que a qualificação é de um membro do Governo, não minha!...

Ide a Lamas de Mouro, correi!...

A não perder o texto de Helena Matos no Blasfémias sobre o Acampamento de Jovens do Bloco de Esquerda, intitulado "Ide a Lamas de Mouro, correi... e depois vereis de que género sois ".

domingo, 13 de agosto de 2006

HIV e penalização dos médicos

Passaram-se 25 anos sobre o início oficial da SIDA. Todas as partes do globo foram atingidas. Neste período de tempo ocorreram 65 milhões de casos dos quais 25 foram mortais.
Na fase inicial, como atingia a comunidade homossexual, chegou a ser considerada como um castigo divino. Rapidamente, através de medidas de prevenção, as vítimas homossexuais começaram a ceder a primazia aos heterossexuais.
As tentativas de encontrar meios para a luta contra este novo flagelo deram lugar não só às medidas de protecção e cuidados comportamentais, mas, sobretudo, ao desenvolvimento de novos fármacos que se têm revelado cada vez mais eficazes a ponto de modificar completamente o percurso e prognóstico. Com o tempo, esta doença diabólica e sinónimo de morte, passou à categoria de doença crónica.
Nos primeiros anos, raro era o dia em que não tinha honras de primeiras páginas, havia debates, as campanhas multiplicavam-se revelando criatividade, além de serem fonte de enriquecimento de muita gente, tudo com o objectivo de evitar a sua disseminação. Qual quê! A situação não melhora, sendo, nalguns países, nomeadamente africanos, asiáticos e da América Latina, particularmente gravosa. Agora, no Ocidente, os grupos etários mais avançados também começam a sofrer deste problema e não é raro ver pessoas com idade mais do que suficiente para ter e dar juízo apresentarem-se como portadoras de HIV!
Em Portugal a situação não é nada brilhante, sendo, inclusive, um dos países mais atingidos na Europa. Desconhecem-se os números reais e as características dos atingidos. Sem o conhecimento factual do fenómeno é difícil definir estratégias de luta e prevenção. O coordenador nacional da Comissão de Luta Contra a Sida sabe bem que é necessário um conhecimento epidemiológico mais aprofundado deste fenómeno. Os médicos são obrigados a notificar a doença e não o fazem. Propõe que sejam punidos em caso de não cumprirem com as suas obrigações. Compreendo-o. Mas que tipo de penalização? Quem é que vai aplicá-la? E as outras situações de obrigatoriedade de notificação que, até hoje, não têm sido respeitadas? É muito complexo e, pessoalmente, não acredito no sucesso. Os médicos têm responsabilidades acrescidas nestas matérias e deveriam ser respeitadores exemplares. Mas uma percentagem significativa não cumpre e nem para lá caminha, tal como grande parte da população que, apesar de ser conhecedora de muitos factos e fenómenos, também se "esquece" de respeitar certas normas e princípios.
Sabem dos perigos do não acatamento do código da estrada? Sabem! Mas continuam a não respeitá-lo. Sabem dos perigos do consumo de substâncias tóxicas? Sabem! Mas não as evitam ou moderam o seu uso. Sabem do perigo que correm nas relações sexuais não protegidas? Sabem! Mas continuam a não precaverem-se. Sabem das consequências sociais e económicas do não cumprimento dos deveres fiscais? Sabem! Mas uma parte significativa borrifa-se. Sabem quais os efeitos do não respeito pelos direitos individuais? Sabem! Mas muitos desprezam-nos.
Os problemas do nosso país só se resolvem através de medidas de fundo, bastante complexas e demoradas, exigindo o aceleramento dos chamados fenómenos de transição sociológica e epidemiológica. Mesmo conhecendo, em Portugal, mais aprofundadamente a realidade do fenómeno HIV/SIDA, tal não significa que iremos observar uma mudança radical nos tempos mais próximos. Era bom, era! Mas é um ponto de partida que se insere numa realidade mais vasta, perspectivando que daqui a muitos anos (mas mesmo muitos) a mentalidade dos nossos concidadãos seja diferente. O mesmo se passa com os responsáveis da saúde que, emergindo da realidade nacional, não conseguem esconder as mesmas virtudes e as mesmas deficiências e insuficiências. É preciso mudar, mas é muito difícil, demorado, frustrante, mesmo, mas não impossível...

Quem sabe...sabe!...

Estamos todos felizes, por já não haver nem fogos nem incêndios!...
Hoje o Ministro António Costa reenunciou mais uma vez as medidas tomadas para combater o elevado número de "ignições"!...
Como estava em cenário de fogo, entendi que se referia aos incêndios.
É isso: terminogia forte deve ser banida e ignição é eufemismo bem mais fresco e tolerável!...
Não sei se as ignições electrónicas também contam e então o êxito de as apagar ainda será maior!...
Mas sei que, passadas poucas horas, lá estava o noticiário de uma estação a enumerar umas tantas ignições e a sua localização, no país e na Galiza!...
Quem sabe...manda!...

sábado, 12 de agosto de 2006

Fogos florestais, o ritual

Quando o número e o impacto dos incêndios demonstram a insensatez dos optimismos exagerados, o insucesso das medidas e a temeridade das promessas de que este ano é que vai ser diferente, é certo e sabido que lá vem um ministro ou um secretário de Estado acusar as populações de negligência na conservação das matas.
É um clássico. Não estranhei por isso ouvi-lo de novo este ano.
Há tempos, aqui no 4R anotaram-se e discutiram-se razões que levam à incapacidade dos proprietários florestais, em especial os pequenos, de proceder a uma exploração que diminua as quantidades de combustível nas matas.
A resolução do problema concerteza que não dispensa quer o esclarecimento, quer a chamada de atenção ou o estímulo a boas práticas de conservação das matas e manchas florestais, não só das privadas mas também das públicas, muitas delas raramente objecto de limpeza.
Mas exigem-se outras medidas, imaginativas e bem mais eficazes no que respeita à prevenção do que o recorrente queixume ministerial.
Porque não canaliza o Governo, por exemplo, apoios para a instalação de unidades de aproveitamento da biomassa que todos os anos alimenta milhares de incêndios, designadamente os que Bruxelas tem disponíveis para o desenvolvimento das energias alternativas?
Para além de se conseguir o indispensável estímulo económico à recolha dos resíduos florestais, o efeito ambiental é significativo. Para além da diminuição do combustível nas matas, o aproveitamento energético de um só metro cúblico de biomassa significa a poupança de 250 litros de petróleo e evita a emissão de 600 kilos de gazes com efeito de estufa.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

"Feiticeiros"

Há alguns anos, numa curta estadia na adorável cidade de Bolonha, ao passear à noite debaixo das convidativas arcadas, chamou-me a atenção alguns indivíduos vestidos de negro, sentados nas soleiras das portas a pegar nas mãos de senhoras e meninas. Pensei: - Que raio de namoro é este! Afastados um do outro, numa cumplicidade esquisita, escondidos e simultaneamente à mostra, espalhavam-se ao longo das arcadas, contribuindo para adensar o ar de mistério típico daquela parte da cidade. A minha perplexidade foi tal que o meu colega, italiano, começou a rir e explicou-me o que se passava: - São consultas de rua dos nossos feiticeiros! - Feiticeiros? Aqui? Em Bolonha, cidade universitária? Tantos? - Ora, ora, o que dirias se fosses a Turim! Turim é a cidade do mundo com a maior densidade de bruxos por metro quadrado.
O fenómeno não é apanágio dos povos menos desenvolvidos. Em Itália o ocultismo é prática corrente. Dizem que há mais de 100.000 feiticeiros em tempo integral, três vezes mais do que sacerdotes católicos.
Para um homem de ciência determinados tipos de comportamento incomodam. Seria de esperar que à medida que os conhecimentos, a cultura e a ciência vão crescendo e se democratizam fossem acompanhados da eliminação ou redução de certas práticas. Mas não. Não acontece nem nunca virá a acontecer.
Se analisarmos as actuais relações entre ciência, religião e espiritualidade da New Age verificamos alguns aspectos curiosos. A ciência separou-se da religião e adquiriu o estatuto que todos reconhecemos. A religião entrou em conflito, gerou reacções negativas que ainda hoje perduram, teve necessidade de criar lóbis contra certas descobertas da ciência que, sendo difíceis de assimilar, abalam certos princípios teológicos, caso da evolução natural e das descobertas na esfera da biologia, factos que irão obrigar a adopção de novas atitudes e favorecer o aparecimento de religiões menos dogmatizadas, logo, não incompatíveis com a ciência. O que é certo é que o número de crentes não tem diminuído, pelo contrário, em muitos países verifica-se um incremento, mas também uma viragem com preocupação muito séria nas áreas sociais e culturais e menos nos problemas teológicos.
No tocante à espiritualidade da New Age, equivalente da função psicológica da religião, mas separada desta, apesar do conflito com a ciência ser menos intensa, não deixa de a considerar, frequentemente, como alienante e potencialmente catastrófica nas suas acções. Claro que os cientistas consideram este tipo de espiritualidade como perigosa. É curioso o facto da New Age usar a "ciência" para adquirir credibilidade, até certo ponto, porque logo a seguir não quer obedecer às regras científicas. Desde a homeopatia ao uso dos cristais, das cores, dos cheiros, passando pelas filosofias mais variadas, todas promotoras de cura, a racionalidade científica é afastada a todo o transe.
O crescente populismo destas práticas é uma realidade. Muitas delas até estão regulamentadas por lei, outras à espera. Sendo assim, porque admirarmos com o facto de, por exemplo, no Zimbabué, a feitiçaria passar a ser permitida por lei (desde que não seja usada para fazer mal a alguém!)? Para o governo se o sobrenatural existe nada melhor do que a legalização de muitas práticas tradicionais.
O irracional é intrinsecamente humano e nunca desaparecerá.
Quanto à feitiçaria nacional, apesar de não estar totalmente legalizada, tem bons cultivadores, desde artistas desempregados a comentadores televisivos, passando por alguns membros do governo e da assembleia da república. Mas precisam de cursos de especialização. Para isso tanto podem ir a Turim como ao Zimbabué... Clientes não faltam, nem nunca faltarão!
Religião, espiritualidade e ciência têm futuro e terão de conviver com mais ou menos conflituosidade, dependendo do grau de tolerância de cada uma.

Ameaça Nuclear

Decorre ainda por esta altura no tribunal de Manheim o julgamento de um homem de negócios, Gottard Lerch, que se encontra em prisão preventiva, acusado pelo Ministério Público alemão de ter colaborado com o famoso cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan na venda ilegal de equipamento nuclear.
O enredo de ligações e de suspeitas que estão por trás deste julgamento oferece uma história fascinante para os apreciadores de filmes ou romances de tipo policial, e vem descrito em detalhe na edição da revista The New Yorker de 7&14 de Agosto.
As centrais nucleares e as bombas nucleares utilizam o urânio ou o plutónio como matéria prima, por serem materiais de fissão: são capazes de provocar uma libertação de energia, em cadeia, chamada fissão nuclear.
Os especialistas preferem habitualmente o urânio, por se poder extrair directamente da natureza e ser de manuseamento mais fácil.
Para produzir energia ou uma explosão nuclear, o urânio precisa de ser enriquecido, quer dizer reforçar a sua característica de fissão, através de um complexo processo de centrifugação.
Para alimentar uma central nuclear é necessário urânio enriquecido a 5% de U-235. Para uma bomba nuclear o grau de enriquecimento é muito superior, 95%.
Em qualquer dos casos, é necessária a instalação de uma bateria com milhares de centrifugadores, ligados em cascata, semelhante a uma instalação para filtragem de água.
A detenção de Lerch teve a ver com a tentativa de fornecimento de equipamento para enriquecimento de urânio à Líbia, abortada em Outubro de 2003, após uma operação de busca num cargueiro alemão (BBC-China) ancorado em Itália, em trânsito para Tripoli.
Na sequência dessa operação, foram detidos cerca de 12 homens de negócios na Europa, Malásia, Dubai e Africa do Sul incluído, todos suspeitos de colaboração com Khan em fornecimentos ilegais à Líbia e a outros países: Índia, Paquistão, Africa do Sul, Coreia do Norte e Irão.
Em qualquer destes casos, tratou-se de projectos nucleares conduzidos à revelia do Tratado para a Não Proliferação de Armas Nucleares.
Desses países, a Índia e o Paquistão são já potências nucleares (anulam-se mutuamente), a Líbia e a Africa do Sul desistiram dos seus projectos, a Coreia do Norte e o Irão representam hoje um quebra-cabeças para a diplomacia ocidental.
Existe a suspeita de que a rede Khan estivesse envolvida no programa nuclear iraniano. Mas não tem sido fácil reunir provas dessa cumplicidade.
Que os iranianos estão a desenvolver um projecto nuclear em grande escala, não há dúvidas, apesar das suas repetidas afirmações de que só prosseguem fins pacíficos.
Esse projecto está localizado junto da cidade montanhosa de Natanz, cerca de 200 milhas a sul de Teerão, num complexo de edifícios em forma de estrela.
Só num desses edifícios os inspectores da I.A.E.A. encontraram, em 2005, seis blocos de cimento cada um deles capaz de albergar uma cascata com 164 centrifugadores.
Muito próximo desse complexo de edifícios existe uma entrada para uma instalação subterrânea, a qual, uma vez concluída, poderá albergar cerca de 50 mil centrifugadores.
Acontece que os inspectores da IAEA não são autorizados a entrar no Irão desde o final de 2005.
De acordo com alguns peritos, citados neste artigo, o Irão será capaz de ter uma arma nuclear dentro de 2/3 anos.
Ou me engano muito ou vamos ter aqui um sério problema.