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domingo, 31 de janeiro de 2010

Congelamento? Não, obrigado!

Véspera de Natal. Informaram-me para ir no dia seguinte a casa de uns parentes, porque tinham uma prenda para mim, um livro de Emílio Salgari. Fiquei muito contente, porque adorava ler as histórias aos quadradinhos de Sandokan. Disseram-me que era um livro sobre o futuro escrito há muitos anos. Depois do almoço de Natal fui ter com os meus primos. Deram-me o livro e a primeira coisa que fiz foi ver onde estavam as figuras. Não tinha. Só palavras. Fiquei dececionado. Como é que vou ler tantas páginas sem as imagens? Que chatice. Rapidamente esqueci o livro e fui brincar com os comboios elétricos dos primos, enriquecidos com novas máquinas e carruagens ao redor da gigantesca árvore. Quando a noite começou a invadir o dia agarrei no livro e ala que se faz tarde.
Em casa comecei a folhear “As maravilhas do ano 2000” e, rapidamente, fiquei preso quando soube que dois cientistas foram congelados, despertando no ano 2000, que na altura estava ainda muito longe, maravilhados com as conquistas entretanto produzidas. Comecei a imaginar ser congelado e despertar séculos depois. Deveria ser muito interessante. Ao fim de alguns dias consegui acabar de ler o meu primeiro livro sem figuras. Mas fiquei aborrecido, porque os cientistas enlouqueceram quando chegaram a Lisboa devido aos efeitos da eletricidade. Mas a eletricidade não faz mal às pessoas! Pensei. - Bah! Não gosto. Prefiro o Sandokan. Eletricidade a provocar loucura nas pessoas e logo em Lisboa!
Recordei esta passagem quando li um interessante artigo sobre preservação criónica, em que Robert Ettinger descreve a sua filosofia sobre a conservação dos corpos através do frio, tendo criado para o efeito o Instituto de Criónica que, a par de outras instituições, já têm corpos e cabeças ultracongelados, na expectativa de no futuro poderem retomar a existência, tratando dos problemas de saúde e beneficiando do rejuvenescimento.
O autor do “Prospeto da Imortalidade” abriu uma nova brecha na forma de ver a morte. Diz o longevo cientista que após a morte há três soluções para fazer desaparecer o corpo: enterrar, cremar e congelar. Esta última é para aqueles que não acreditam na vida depois da morte e que querem ter a “certeza” de que podem ressuscitar caso Deus não exista. Independentemente de no futuro conseguirem ou não descongelar os corpos, o que é certo é que se contam por centenas e centenas os que já estão mergulhados num profundo “sono” gelado. No caso de Ettinger, a mãe e as suas duas mulheres já lá estão há alguns anos. Face às inúmeras questões éticas, o “crioterapêuta” responde afoita e atrevidamente a todas sem exceção. Quando confrontado com o facto de esta técnica ser incompatível com o excesso de população, responde que não. Deixaria de haver procriação e umas vezes congelavam-se uns para dar lugar a outros que seriam descongelados e, desta forma, alternadamente, iriam revezar-se. Mas esta é apenas uma das múltiplas facetas ligadas a esta forma de transhumanismo. Por acaso não lhe perguntaram o que é que iria fazer com as suas duas mulheres crioconservadas. Se as descongelava ao mesmo tempo, ou uma depois da outra, qual é que escolheria em primeiro lugar. Enfim, perguntas simples. Não tenho conhecimento da criopreservação das suas sogras. Ter-se-á esquecido? Ou estas não estariam com paciência para o aturar daqui a 100 ou 500 anos?
Eu sei que Ettinger leu tudo, ciência e ficção, sobre congelamento, mas não abordou “As maravilhas do ano 2000” de Salgari. Pode acontecer que enlouqueça com aquilo que irá “ver” e “ouvir” um dia. É o mais certo. Entretanto, pensando bem, não estou muito pelos ajustes em embarcar num negócio destes. Prefiro o calor e as cinzas. Sempre evito qualquer forma de ressurreição. Até para Deus deve ser muito complicado, e trabalhoso, juntar as cinzas e elementos dispersos por tudo quanto é sítio. E também não acredito que esteja muito interessado. Faz muito bem!

O erro do Orçamento

Já se sabe que a realização do Orçamento de 2009 em nada teve a ver quer com os valores orçamentados, nem a evolução da economia com os valores do Quadro Macroeconómico subjacente à formação do PIB, e que estiveram na base da elaboração do Orçamento.
Claro que o Governo não domina a evolução de muitas das grandezas do PIB, mas desvios tão grandes e de sinal contrário não só puseram em causa a competência do Governo e do Ministério das Finanças, como sobretudo a confiança no presente Orçamento para 2010.
Não falando já no défice, que passou de 2,2% para 9,3%, grave foi o desvio verificado no aumento do consumo público, que passou dos 0,2% previstos para 2,6%, bem superior à inflação negativa de -0,8%. Facto que desmente categoricamente a contenção da despesa de que o Governo fala. Mas o investimento passou de um acréscimo previsto de 1,5% para o valor negativo de -11,8%, a procura interna dos 0,9% previstos para -2,9%, as exportações de 1,2% para -12%, o emprego passou de um aumento previsto de 0,4% para -2,9% e a taxa de desemprego dos 7,6% previstos para 9,5%.
Dir-se-á que foi um ano excepcional, devido à crise.
Mas, no que respeita a 2008, o Governo também começou por prever uma diminuição do consumo público de -1,1%, que passou a -0,2% no Relatório de apresentação do Orçamento de 2009 e se transformou num aumento de 1,1%, agora, no Relatório de apresentação do Orçamento de 2010. Mais uma prova do aumento da Despesa Pública. Com referência às mesmas datas, o aumento do Investimento, que começou por ser de 4%, passou a 1,7% e ao valor negativo de -0,7%. E o aumento das Exportações passou de 6,7%, para 2,4% e, depois, para o valor negativo de -0,5%.
No ano de 2007, também se previa uma diminuição do consumo público de -1,3%, que não se verificou, tendo, do mal o menos, a variação sido nula. E o consumo público é uma grandeza que o Governo tem obrigação de dominar e controlar.
É por isso que, face a este passado de erros sistemáticos, o Orçamento para 2010 não pode merecer grande crédito, pese as dificuldades reconhecidas de previsão. Segundo Sócrates, o pessimismo não cria emprego. Já se viu que os orçamentos “falsos” também não. Geram, sim, desconfiança.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Carrosséis e "carrosséis"...

Não percebo porque é que as televisões em vez de procurarem esclarecer os telespectadores sobre as reivindicações dos empresários dos carrosséis que se manifestaram hoje em marcha lenta nas ruas de Lisboa com uma centena de camiões, assim dizem as notícias, optam por fazer reportagens tipo show.
É claro que um comboio de camiões em marcha lenta, como convém, ocupando largos quilómetros de estrada, buzinando bem alto e dificultando o trânsito, é um acontecimento que tem todos os ingredientes para um espectáculo mediático. O aparato é de tal ordem que é evidente que os telespectadores não deixarão de se impressionar, não sei se positiva ou negativamente, e perguntar o que é que afinal se passa, quem é que tem razão.
Mas ficam a saber muito pouco ou nada. Ficam sem saber porque é que os proprietários dos carrosséis protestam contra as novas regras do licenciamento destes equipamentos de diversão. Numa das reportagens, um representante dos manifestantes questionado sobre as razões da descida à rua explica agitadamente que o povo tem que saber que as reivindicações têm que ser atendidas e que se até quarta-feira o decreto-lei não for revogado os empresários vão avançar com uma providência acautelar. Um pouco mais à frente um outro manifestante apressa-se a dizer que a nova legislação só deve ser aplicada aos novos carrosséis e que para os existentes tem que haver um período de adaptação/transição.
Às duas por três, o repórter anuncia um choque entre um camião e uma viatura ligeira e o acidente é transformado num acontecimento e passa para primeiro plano da cobertura, com todos os ingredientes que vendem, a confusão, o desentendimento entre os condutores, as agressões verbais, os curiosos que também botam sentença, a polícia, ninguém se entende...
E o trânsito caminha para o caos, informa o repórter, a coisa não é para menos, como convém, e a fome ao final de uma jornada de protesto já aperta, mas nada como umas pizzas ou umas bifanas em cima da estrada...
E a reportagem não ficaria completa se os condutores alheios à marcha, metidos nas suas viaturas à espera que os camiões passassem, não dissessem qualquer coisinha para apimentar o ambiente e já agora, porque não saber o que pensam os transeuntes parados nos passeios a ver passar a marcha, recordando os seus tempos de infância voando nos carrosséis...
Se as manifestações dos carrosséis justificam coberturas televisivas com honras de prime time, porque é que as televisões não cuidam de explicar aos telespectadores, com a necessária serenidade, o que é que a nova legislação concretamente estabelece sobre o funcionamento dos carrosséis, quais foram as razões do legislador para estabelecer novas regras e quais são as razões porque os empresários não concordam. Temos assistido a acidentes graves com carrosséis. As questões da segurança e da fiscalização destes equipamentos é matéria importante. Estes equipamentos de diversão continuam a fazer as delícias de muita gente, em particular em localidades no interior do país.
Assim prestariam um bom serviço, de outra maneira que outra coisa se poderá pensar que não seja venham daí mais "carrosséis" porque assim é fácil e é barato entreter os telespectadores...

Bergman-Grandes filmes

Hoje às 22:45 na RTP2, Sonata de Outono, absolutamente a não perder, com Ingrid Bergman e Liv Ullmann. Bom serão!,

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Dor

Sentir dores é algo que pode ser bastante desagradável, oscilando entre uma ligeira perturbação a situações excruciantes suscetíveis de provocar ou levar a desejar a própria morte. Presumo que todos já tenham passado por esta experiência. Nalguns casos ainda bem, porque permite evitar males maiores, e até salvar a vida, mas noutros assusta só pelo facto de recordar esses momentos quanto mais voltar a senti-la.
Contacto com relativa frequência com a dor. Ninguém escapa, crianças, jovens, adultos, velhos e animais. Recordo um dia em que a minha cadela começou a gritar desvairadamente com dores. É tão fácil perceber as cores da dor. Corri e vi que a pequerrucha tinha qualquer coisa espetada numa das patas. Olhou-me com uns olhos de súplica inesquecíveis. - Dói-me muito, gritava o animal. Tira-me a dor. E assim fiz. Num ápice, como que por artes mágicas, o animal deixou de sofrer. Os olhos vidrados desfizeram-se subitamente adquirindo a tranquilidade do suave olhar mortiço. Ainda a pata estava no ar e já me lambia, cara e mãos, com a língua rugosa num agradecimento sincero. Também já vi e senti reações semelhantes em humanos. Quando se sentem aliviados, a fácies, os olhos, as mãos, é tudo carinho e ternura, gestos de agradecimento que nunca se esquece.
A dor é um dos mais importantes sinais de aviso de perigo. Urge interpretá-la e corrigir o que está na sua génese. Por vezes é fruto da violência, acidental ou intencional. Neste último caso, o homem, ao infligir dores aos seus iguais, revela uma das suas múltiplas facetas negativas em que a maldade e a iniquidade atingem a expressão máxima. Mas a dor também pode surgir em consequência das doenças. E algumas são terríveis. Expressam-se com tal violência ao ponto de, não obstante todo o arsenal terapêutico ao nosso alcance, serem praticamente refratárias. Temos de as combater. Por vezes é a única coisa que se pode fazer, tentando respeitar os mínimos da dignidade humana, se é que nalguns casos se consiga mesmo. Mas a dor também surge em muitas doenças que são filhas de comportamentos e de estilos de vida que, em devido tempo, não foram acautelados. Nestes casos, e sem querer enveredar por campos moralistas, são compreensíveis as mensagens e os conselhos para que todos cuidem o melhor possível do seu corpo. Considero natural e perfeitamente aceitável que as medidas de cariz preventivo sejam anunciadas e propagadas de forma a contribuir para a saúde e bem-estar.
Tenho muita dificuldade em compreender certos fenómenos, como é o caso da autoflagelação. Como é possível alguém procurar a dor, autoflagelando-se? Claro que, num contexto de certas doenças psiquiátricas, é fácil interpretar e analisar certos comportamentos, como é o caso das automutilações. Eu próprio cheguei a ver alguns exemplos. Mas o que me perturba, e muito, é o facto de a autoflagelação ser praticada por pessoas ditas normais, algumas, até, com responsabilidades sociais e religiosas ao mais alto nível, e cujas palavras são bebidas, sofregamente, por centenas e centenas de milhões de pessoas. Li, à laia de explicação, que seria uma forma de estar mais perto de Cristo! Não sei. Não creio que Cristo se deixe impressionar por estes comportamentos estranhos e bizarros, nem tão pouco deixará que se aproxime quem O procure através de uma ofensa deliberada do corpo, o qual deveremos cuidar o melhor possível, a não ser que se sofra de alguma perturbação mental. Não sei se na altura em que retirei o corpo estranho da almofadinha da minha cadela, aliviando-a do sofrimento, não estivemos os dois mais perto... Agrada-me esta ideia, independentemente de todas as construções que se criaram à volta do tema.
Tratar as dores do corpo é um imperativo, assim como tratar as dores da alma. O que é incompreensível é alguém tratar as dores da alma autoflagelando-se...

Desgaste visível

Calhou assistir a uma parte do debate parlamentar quinzenal com o governo.

Surpreendente só o facto de, ao que parece, o Sr. Engº Sócrates desta vez não ter tirado da cartola nenhum daqueles anúncios de boas novas com que consegue desviar a atenção dos media das interpelações mais incómodas. O tema do debate era a política orçamental, e dessa cartola não sai nada de favorável à imagem do governo.

Mas o que me chamou mais a atenção foi a a agitação do ministro das finanças a cada intervenção crítica, fosse da direita, fosse da esquerda. Imagino a pressão, o stress do ministro que não pode deixar de sentir o peso da responsabilidade pelos resultados da condução das finanças públicas em Portugal nos últimos anos. Faça Teixeira dos Santos o que fizer, é inexorável que a História o registe como o ministro das finanças responsável pelo maior déficite, pelo maior dívida soberana, mas sobretudo pelos maiores desvios de que há memória entre as previsões e a realidade.

Vítima das circunstâncias? Em parte. Mas sobretudo, como aqui Tavares Moreira e Pinho Cardão o têm demonstrado, vítima dos erros de política de um governo que tarda em os assumir como hoje de manhã se viu no Parlamento.

A imagem de um ministro profundamente desiludido é bem a imagem de um governo cansado. Não, não são as escassas semanas de uma governação em ambiente político difícil. São os quase cinco anos de maioria que pesam. Enormemente.

Descaramento consolidado

Sócrates, mais uma vez e, ainda hoje na Assembleia da República, proclamou o rigor na gestão orçamental.
Como gerir é prever, nota-se pefeitamente o rigor, quando as previsões orçamentais para 2009 passaram de um défice de 2,2% em Dezembro de 2008 (aprovaçãodo OE), para 5,9% em Maio de 2009, para 8,3% em Dezembro de 2009, para 8,7%, já em Janeiro de 2010, aquando das conversações com os Partidos e, agora, para os 9,3%, constantes do Relatório anexo ao Orçamento para 2010. Não menciono outras transições intermédias.
Sócrates, mais uma vez e, ainda hoje na Assembleia da República, proclamou o rigor na consolidação da despesa. Também se vê:
Em 2005, o peso da Despesa Corrente no PIB era de 43,3%; em 2008, apresentava o mesmo peso; em 2009, o peso aumentava para 44,9% e em 2010 é previsto que aumente para 45,2%.
Por uma vez, Sócrates está cheio de razão: temos, de facto, uma sólida consolidação da despesa, consolidação do crescimento, claro está.
Da Despesa Corrente, também é claro…

Por favor, não digam nada a ninguém...

Ana Jorge negoceia em segredo devolução das vacinas da gripe A - título do Sol, 29 de Janeiro

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ler de cor...

Ao fim de poucos meses de escola lia como qualquer miúdo, soletrando e cantando as sílabas transformando-as em palavras maravilhosas. Entoava-as num crescendo de felicidade porque podia identificá-las na base de uma oralidade já adquirida. Mas, naquele dia, em que o professor apontou para aquela página, que eu já tinha lido, papagueei de imediato o curto texto como se fosse um perfeito leitor de português. Resultado? Dois valentes estalos acompanhados de berros porque eu estava a ler de cor! Fiquei emudecido e aparvalhado, porque tinha lido pela primeira vez, sem soletrar, e com uma eloquência que devia fazer inveja a qualquer adulto, algumas frases. De cor? Sim, de cor. Mas, afinal qual era o problema? Pensei. Será que não podemos aprender de cor? Que raio de mal virá ao mundo se souber algo de cor? Eu tinha olhado para as palavras e identifiquei-as de imediato sem ter que as soletrar.
Mais tarde, muito mais tarde, acabei por saber que falar de cor era falar com o coração, o qual, durante muito tempo, foi considerado como a sede da inteligência.
O homem falou sempre de cor. Ao longo da existência exercitou as suas capacidades para memorizar e foi através da memória que registou todos os acontecimentos e os transmitiu à descendência. Não havia livros, apenas tradição oral. Ao decorar, o homem apropria-se de algo e, ao mesmo tempo, acaba por ser possuído por aquilo que transmite. E, assim, de era para era, conseguiu transmitir os seus anseios, aspirações, dúvidas e interpretações, que ainda hoje se perpetuam na transmissão oral. O meu professor tentou matar, travar, adiar, impedir, limitar o recurso à mais velha e sublime técnica de transmissão de conhecimentos. E, por cima, levei no “focinho”. Fiquei de boca aberta. Tanto mais que, nesse mesmo dia, fomos obrigados a decorar o alfabeto. Raio de dualidade. Por que é que nos obrigavam a decorar, também, as orações? Liam em voz alta, e repetíamos frase a frase, como se estivéssemos numa qualquer madrassa. Em seguida, obrigavam-nos a entoá-las sem qualquer erro. Não percebia porque é que um dia tinha de ler as palavras, muitas das quais já as conhecia, juntando as sílabas, e noutro tinha que decorar as orações. Ao menos, nestas últimas, não nos batiam, graças a Deus que devia proteger os seus iniciados. É pena que não se lembrasse de nós quando ficávamos frente a frente com o estupor do professor.
Hoje sei ler e também escrever, mas admiro e respeito os que não sabem e que usam as suas memórias para reproduzir histórias, poemas, contos e acontecimentos, transmitindo-os como se não houvesse ainda livros, relembrando que antes de os haver era assim que se fazia.
O exercício da memória era uma manifestação das musas inspiradoras. Estimulava o conhecimento, despertava emoções, burilava as histórias, aperfeiçoando-as e humanizando-as. Ainda hoje fico embevecido com a oralidade literária e criativa de muitos analfabetos. Não conseguem ler um livro, mas conseguem transmitir emoções, valores, princípios e histórias, uma verdadeira literatura oral que faz inveja à palavra escrita tamanha é a beleza com que se exprimem.
Em pequeno levei na cara por ter a tendência de ler de cor as pequenas frases do meu livro de texto. À tarde era premiado por conseguir dizer o alfabeto sem uma falha. No dia seguinte, relevavam-me para os cornos da lua quando conseguia dizer sem um único erro o Padre-nosso ou a Ave-maria.
Aprender de cor é o mesmo que aprender com o coração e quando se aprende com este é porque aprendemos com a alma. “Dois vezes um, dois”; “Dois vezes dois, quatro”; “Dois vezes três, seis”... “Pai-nosso que estais no céu...”; “Ave-maria cheia de graça...”; “No tempo em que os animais falavam...”. E as histórias, enriquecidas com a entoação oral, a beleza dos gestos enquadrados em ambientes de sonho que nos rodeavam, adquiriam uma força e beleza únicas capazes de ultrapassar, e em muito, a força ficcionada dos mais apaixonantes escritos.

O Orçamento de 2010: a ficção do Ministro

Eu podia simplesmente escrever sobre o Orçamento de Estado o seguinte:
A Despesa Corrente aumenta de 74 mil milhões de euros, em 2009, para 75,6 mil milhões de euros, em 2010, um aumento de 1,6 mil milhões de euros, equivalente a um acréscimo de 2,2%. Por outro lado, a Despesa com Investimento diminui de 6,9 mil milhões para 5,6 mil milhões de euros, uma diminuição de 1,3 mil milhões de euros, equivalente a um decréscimo de cerca de 19%.
Podia escrever só isso, mas não posso nem devo. Porque, depois das declarações do Ministro na exposição power-point, que definiu o orçamento como um orçamento de rigor, de ajuda ao investimento, e de contenção da despesa, fiquei indignado perante o despropósito (palavra esforçadamente meiga para definir a ideia...) do Ministro, face aos números concretos constantes do documento.
Por isso escrevo:
O Orçamento para 2010 não é sério nem rigoroso, já que a Despesa Corrente aumenta 2,2% em termos nominais, cresce em termos reais (inflação prevista é de 0,8%) e aumenta em termos de PIB, passando de 44,9% para 45,2% do PIB.
O Orçamento para 2010 não serve a economia, já que a despesa cujo aumento se poderia justificar era a despesa de investimento, e esta diminui 19% em relação ao ano anterior.
O Orçamento para 2010 sacrificou o investimento à despesa corrente, colocando-a num patamar ainda mais elevado, do qual mais dificilmente se poderá sair.
Por isso, o Orçamento para 2010 é um duplo logro: não é nada do que o Governo anuncia, e vai trazer dificuldades adicionais à economia, agora e no futuro. Um dos piores orçamentos de sempre.
É o que, sem eufemismos e contemplações, tem que ser escrito, dito e redito.

China pode dar uma "mãozinha" à zona Euro?...

1. No meio da avalancha de notícias e comentários que tem enchido por estes dias os media domésticos sobre a proposta de OE para 2010 – a qual suscita um sem número de interrogações que ainda não será tempo de explicitar e tentar desenvolver neste espaço – um outro tema tem ocupado com destaque as notícias dos media externos e internacionais: o possível apoio da China à Grécia através de uma aquisição de dívida grega em montante avultado (falava-se ontem em qualquer coisa como € 25 mil milhões, quase 40% das necessidades brutas de financiamento da Grécia neste ano).
2. Esta notícia teve já dois efeitos opostos ontem e hoje, que nos dão uma imagem do nervosismo e da incerteza que se instalaram nos mercados acerca da capacidade dos gregos para resolverem o seu problema orçamental e (bem pior) económico.
3. Ontem, a simples notícia da possibilidade dos chineses adquirirem dívida grega, no montante atrás mencionado, dava alguma acalmia e uma ligeira redução dos “spreads” da dívida grega sobre as obrigações alemãs: “Athens turns to Beijing for bond sale” era o título mais destacado da 1ª página da edição de ontem do F. Times, que referia a intermediação da Goldman Sachs nesse negócio.
4. Hoje, a não confirmação daquela notícia criou uma nova onda de cepticismo, levando os "spreads" para valores da ordem de 370 pontos base e a taxa de juro da dívida grega a 10 anos para um nível próximo de 7%, mais próprio de dívidas de economias em desenvolvimento: “Chinese whispers hit Greek bonds” é o título de hoje...
5. A não confirmação da notícia levanta justificadas interrogações acerca dos motivos que poderão estar por detrás de um eventual recuo dos gregos apesar de um mais do que provável interesse em colocar dívida no investidor chinês por excelência - o State Administration of Foreign Exchange, entidade encarregada de gerir as reservas oficiais da China em moeda estrangeira.
6. Segundo o F. Times de ontem, os chineses não estariam interessados em comprar dívida grega apenas e só, quereriam ao mesmo tempo adquirir participações relevantes em empresas gregas de renome, nomeadamente no National Bank of Greece (NBG), uma espécie de “CGD” local, com maior projecção internacional até do que a “CGD” que conhecemos...
7. Segundo as mesmas notícias, o Governo grego, apesar de muito necessitado dos fundos chineses, estaria bastante relutante em aceitar essa contrapartida. Isso poderia gerar uma comoção nacional, dado que o NBG é considerado uma “jóia da coroa” e a alienação de uma boa parte do seu capital para conquistar um financiador, por muito importante que seja, seria considerada uma capitulação humilhante do Governo perante os credores, podendo mesmo arrastar a sua queda...
9. Essa notícia mostra também que os chineses não estão disponíveis para fornecer “almoços” grátis e que poderão estar dispostos a servir de muleta no financiamento dos países da zona Euro em maiores dificuldades mas...apenas mediante adequadas contrapartidas, para além dos juros altos. Eles lá terão as suas razões...
10. Curiosamente, um habitual comentador dos mercados financeiros observava ontem que “recorrer à China para manter a solvabilidade financeira de países da zona Euro transmite um sinal bem pior do que um eventual recurso ao FMI”...

O Túnel da Luz!...

O Benfica encaixou 65 milhões de euros à custa do contrato-programa firmado com a Câmara de Lisboa, no âmbito do Euro 2004, diz o Relatório da PJ citado pelo Jornal de Notícias.
À custa do contrato-programa é eufemismo; à custa de nós, é que foi.
Ainda por cima, e o que mais me dói, é ter sido assim obrigado a financiar o Túnel da Luz!...

A lei, esse conveniente alibi

A sessão solene que assinala o início do ano judicial ocorre em fins de Janeiro. Pensar-se-ia que o ciclo anual da justiça começa em Setembro após as férias judiciais. Ou mesmo no princípio do ano civil. Não. Ocorre quando a agenda dos actores determina, atrasando-se em relação a estes marcos sem outra curial explicação. Este facto simbolicamente retrata, a par da rotina da cerimónia, o desfasamento no tempo e no modo da justiça nacional.
Mas não é o desfasamento no tempo a causa do mal. É somente uma das consequências de um sistema completamente disfuncional, que tem origens tão conhecidas como dificilmente assumidas por quem tinha o dever de as assumir primeiro.
Ouço o Senhor Presidente da República, uma vez mais, condenar a má qualidade das leis. Com toda a razão. A intervenção de um vice-presidente da bancada parlamentar do PS que procurou menorizar a intervenção teve aliás o condão de tornar mais evidentes algumas responsabilidades denunciadas na mensagem presidencial, uma vez que a cabeça do deputado se mostrou pequena para tão grande carapuça...
Mas se a desgraça da má qualidade das leis é um facto – que começa na hemorragia legislativa a que nenhum poder resiste… - a verdade é que a lei se tornou o álibi para todo e qualquer problema, em especial, todo e qualquer problema da justiça.
Infelizmente os problemas da justiça não se resumem às más leis ou às deficiências do nosso ordenamento jurídico, que são de facto muitas e graves. Com são muitas e graves, e discutidas no mesmo tom, as questões que a este nível se colocam em Espanha, em França, na Alemanha, no seio da União Europeia, aliás o centro produtor do pior Direito que por estes dias nos condiciona. Os problemas da justiça assentam sobretudo na má aplicação da lei, quando não se devem à omissão de aplicação da lei que existe.
Há muito tempo que o legislador sábio pressupôs a incompetência provável de alguns membros da sua família e apresentou solução para a má lei. A solução está na confiança em que o sistema venha gerar aplicadores competentes da lei, que compensem as deficiências na formulação das normas ou até as opções políticas vertidas em lei que se mostrem incongruentes do ponto de vista sistémico. A solução encontra-se num pequeno conjunto de normas – como se diz agora, estruturantes – do Código Civil (artigos 5º a 13º) mas em especial no artigo 9º, que reza assim sobre como se deve interpretar (aplicar) a lei:
1. A interpretação não deve cingir-se à letra da lei, mas reconstituir a partir dos textos o pensamento legislativo, tendo sobretudo em conta a unidade do sistema jurídico, as circunstâncias em que a lei foi elaborada e as condições específicas do tempo em que é aplicada.
2. Não pode, porém, ser considerado pelo intérprete o pensamento legislativo que não tenha na letra da lei um mínimo de correspondência verbal, ainda que imperfeitamente expresso.
3. Na fixação do sentido e alcance da lei, o intérprete presumirá que o legislador consagrou as soluções mais acertadas e soube exprimir o seu pensamento em termos adequados.

Não cabem, nem verdadeiramente interessam neste apontamento, as teorias que a propósito da essência desta norma se elaboraram ao longo do tempo. Para quem, como eu, faz desta escrita um exercício de catarse, esta nota é talvez uma reacção ao facto de todos os anos, numa rotina mais aborrecida e desinteressante que alguns dos inúteis rituais da nossa justiça, ouvir em tom solene sempre o mesmo, dito sempre pelos mesmos, no mesmo tom e com a cínica consciência de que o que se disse nada resolve mas tem de ser dito para que da próxima haja razão para de novo o dizer.
O que fica por dizer, isso sim é decisivo mas não se vê quem com autoridade o afirme. É que na raiz do problema está o facto de no sistema rarear quem saiba medir o alcance de normas como as do artigo 9º do velho Código. Raiz que se estende às escolas de Direito que, como infelizmente me apercebo todos os dias, perderam o orgulho de bem formar, preferindo acentuar a vertente negocial do ensino; e nas instituições da Justiça – leia-se, nos profissionais do Direito que as constituem – que se encarregam de deformar os que ainda se apresentam com talento e conhecimento para contribuir para a boa administração da Justiça e assim dar utilidade à lei, deformação deliberada e quase sempre em nome de interesses da corporação a que pertencem, mas não raro para disfarce da angustiante impreparação ética, científica e técnica com que actuam.
Desabafei. Mas não me sinto melhor.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Orçamento 2010: orgia de despesa e de palavras

Ontem, o Ministro das Finanças falou, falou, falou. Com power-point, power-point, power-point. Ministro que fala através de power-point é porque não sabe do que fala. Ou porque não quer falar do que sabe. Falou muito, mas disse pouco. E, se bem ouvi, nada disse do essencial: simples conversa “pour épater le bourgeois”.
Não salientou que as receitas não dão sequer para pagar as despesas que prevê, mesmo subtraindo-lhes os juros da dívida. O que significa que o pagamento dos juros só poderá ser feito se nos emprestarem dinheiro para tal.
Como já aconteceu em 2009.
Para os cidadãos leitores saberem:
Receitas totais previstas: 67,3 mil milhões de euros
Despesas totais previstas, sem juros: 75.881 milhões de euros
Défice, não incluindo juros (saldo primário): 8.620 milhões de euros
Juros: 5.335 milhões de euros
Défice global: 13.955 mil milhões de euros
É o aumento da dívida pública neste ano da graça de 2010. A juntar aos 15.367 mil milhões de 2009.
Ao fim de uma hora de power-point, os portugueses ficaram a saber de tudo, menos do essencial. Isto é, ficaram a saber nada.

Este Vieira da Silva dava um bom ministro da economia...


Actualização:
"Sei como reduzir o défice. Já o fiz."- José Socrates, Primeiro-Ministro, 2010/01/27.
Não seria curial o Primeiro-Ministro elucidar o seu ministro da economia?

Bridget

Envelhecimento e perda de memória andam, frequentemente, de mãos dadas e, por vezes, abraçam-se tão intimamente que nem dão conta de que fazem parte do mundo. Neste caso, talvez seja uma felicidade para alguns, porque passam a ignorar as injustiças que os vitimaram. Em contraponto, também não é menos verdadeiro que uma vida sem memórias pode ser pior que a própria morte. Mas são muitos, aqueles que se esforçam por recordar imagens e vivências frescas, leitosas, carnudas e nutritivas que um dia os seduziram para a vida! Passam a descascar as inúmeras camadas concêntricas, velhas, secas e acastanhadas até atingirem o núcleo da recordação dos momentos felizes em que o mundo prometia felicidade a rodos.
Essa felicidade, por vezes, desaparece entre os dedos e com ela vai a própria filha que, ansiosa por se libertar do infortúnio que a atingiu, sem saber porquê, e sem compreender a finalidade do mesmo, pede a morte. E a mãe ajudou-a. Agora está a ser julgada por ter auxiliado o suicídio da filha. Há muito que sofria de uma doença incapacitante, desde os 14 anos, que a obrigava a permanecer, permanentemente, acamada, necessitando de auxílio para se alimentar.
Pedia a morte. A mãe recusava sistematicamente. Os anos passavam e os pedidos multiplicavam-se. Um dia entregou-lhe duas seringas com morfina que a doente injetou em si própria. Nada! Então a mãe adicionou comprimidos de hipnóticos e antidepressivos através da sonda nasogástrica. Nada! Uma noite e um dia. E nada! Na madrugada seguinte mais algumas doses de morfina. Nada! Socorreu-se então de uma organização que lhe explicou o que deveria fazer. Mais comprimidos. Agora sim. Ao nascer do dia acabou por se libertar.
A mãe está a ser julgada. Não chegou a ser acusada de homicídio, porque os exames toxicológicos não permitiram excluir se Bridget morreu por causa da auto aplicação da morfina ou pelos comprimidos. O acusador teceu elogios quanto ao caráter e devoção da mãe, mas logo a seguir declarou que não lhe competia fazer apreciações de ordem moral. O seu objetivo é saber se houve ou não violação da lei. Como é que a mãe terá ouvido as acusações? Como é que reagirá ao veredicto final? Sentirá vergonha? Arrependimento? Constrangimento de alguma espécie? Importar-se-á com as críticas de muitos? Sentirá algum conforto com a compreensão de outros? Às tantas, não! Imagino-a num plano inatingível a qualquer um de nós, previsivelmente, indiferente às deambulações jurídicas e acusações morais que muitos se apressarão a proferir. Os tribunais poderão reportar, eventualmente, que a sua atitude terá violado a lei, com a perspetiva de avisar os outros, ou, melhor, as outras, de que não poderão fazer aquilo, como se os outros ou as outras ouvissem tão sábias decisões. Mas a sociedade sentir-se-á mais aliviada, sem sombra de dúvida. Estará cumprido o ritual da aplicação da lei. Quanto às acusações de ordem moral, a mãe nem deverá reagir, talvez seja levada, mais uma vez, a questionar o porquê e quais as vantagens do sofrimento da filha e do seu. E por mais explicações que possa ouvir, verá sempre nelas algo de inexplicável e de injustiça. Talvez lhe reste a compensação de poder ainda descascar as camadas concêntricas, velhas, secas e acastanhadas que rodeiam a memória de outros tempos em que o mundo prometia felicidade a rodos, até que a sua memória se apague e se apague da memória dos outros.
Tinha escrito esta pequena crónica há alguns dias, mas entendi não a publicar. Pensei: - Vou esperar um pouco para ver o desfecho. Hoje, casualmente, acabo de tomar conhecimento que a acusação do Ministério Público foi duramente criticada pelo juiz. Os comentários proferidos foram muito violentos por ter levado ao banco dos réus a mãe de Bridget. O júri absolveu a arguida e o juiz elogiou a decisão. Eu também aplaudo e, sobretudo, sinto um alívio. Afinal o “bom senso, a decência e humanidade” prevaleceram. A mãe pode agora desfrutar livremente as belas recordações de antanho.

O Orçamento e a História

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo. No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.
Ramalho Ortigão- Farpas-1882

O tempo era de luta partidária intensa e de dolorosa crise das finanças públicas. Os défices agravavam-se ano a ano, e sobretudo após 1888. Com a diminuição das remessas do Brasil, a crise económica e financeira do início da década de 90, levou a desvalorizações da moeda e aumento dos preços, dos impostos e do desemprego. Agravaram-se as condições de vida do operariado e das classes menos favorecidas. Entretanto, recrudescia a luta entre os partidos ou facções, com a maçonaria e a carbonária muito activas. Preparava-se assim o "caldo" para o Regicídio, primeiro, e a implantação da República. Depois, a continuada crise financeira e as lutas entre republicanos geraram a revolução de 1926 e a chegada ao poder de Salazar.
Em 30 anos, a descida das remessas do Brasil, um regicídio e duas revoluções.
Alguns anos de crise continuada já lá vão. As remessas da EU vão desaparecer. Estamos a preparar um bom “caldinho”. O Orçamento para 2010 junta-lhe mais uns suculentos ingredientes.
A história ensina muito. Mas os nossos líderes partidários e de opinião e os nossos governantes nem sonham que, antes deles, possa ter havido história!...

Espelho meu...

Nunca me tinha acontecido. Fui almoçar a uma casa que serve comida mais ou menos caseira, perto do local onde trabalho, a justificar um passeio a pé, finalmente, que há já umas semanas o mau tempo não convidada a fazer.
Apesar da brisa muito fria que corria, sentei-me numa mesinha virada ao sol, aconchegada pelo casaco comprido que ainda hesitei em vestir pese embora a descida de temperatura que hoje se fez sentir.
Foi então que vi passar uma rapariga que me chamou a atenção, não por mera distracção mas porque instintivamente lhe notei qualquer coisa de familiar. Fiquei um pouco a olhar, desconfiada, na esperança que a pudesse voltar a ver, o que por sorte aconteceu, pois a rapariga acabaria por se sentar a almoçar, numa posição que me permitia observá-la discretamente.
Ora, tratava-se de uma rapariga nova tal e qual a rapariga nova que fui há duas décadas atrás. Não era apenas o aspecto físico, mas era também o modo de estar e de se expressar e até no vestir as parecenças eram para mim evidentes. Um estilo muito próximo do meu, apesar da diferença de idades. Fiquei deliciada a observar como era possível, no meio de milhões de pessoas, todas tão diferentes, alguma vez encontrar alguém desconhecido mas tão “familiar”. Uma verdadeira lotaria!
Acabei de tomar o café e foi, então, que me enchi de coragem e me abeirei da rapariga, que estava ainda a meio da refeição, para mais de perto constatar o que a olho me deixou impressionada. Como é que era possível!
Foi uma conversa rápida, como não poderia deixar de ser. Contei-lhe a minha curiosidade que rapidamente passou também a ser dela. Éramos de facto muito parecidas, até a voz não destoou. A rapariga achou muita graça e ficou divertida. Quisemos saber se não teríamos eventualmente uma qualquer costela comum, algures perdida. Até poderia ser, porque não, pensei eu, num país tão pequeno. Mas não, não tínhamos qualquer hipótese de nos tornarmos umas primas afastadas. Mas o mais espantoso ainda estava para vir. É que a rapariga chamava-se Margarida!
Há coisas na vida fantásticas. Esta é única e irrepetível. Foi um dia de sorte. A vida também é feita destas pequenas coisas grandes…

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pandemia informativa

Por mim estou saturada de ver grandes planos de agulhas a enterrarem-se nos braços tenrinhos dos que vão vacinar-se, repetidos mil vezes com um detalhe que raia a paranóia. Antes destas imagens tivemos durante meses a transmissão em directo de cenas de filme de suspense com ambulâncias a “resgatar” eventuais contaminados com a gripe. Também fomos massacrados com previsíveis colapsos de empresas e serviços essenciais, incluindo hospitais, cenários apocalípticos de um milhão de infectados e sabe Deus quantos mortos, e até houve histórias da vida real dos primeiros infelizes que foram aos centros de saúde com dores de cabeça e acabaram praticamente sequestrados.
Tivemos isto todos os dias como prato forte, contámos um a um os engripados, ouvimos com comoção e pânico as notícias das primeiras mortes, tivemos leituras ministeriais de boletins clínicos, em concorrência com o boletim meteorológico, notícia de revoltas por causa de meninos que foram à escola com sintomas e foi mesmo possível apontar a dedo, com acusação de tentativa de contaminação criminosa, uma mãe que se recusou a usar a máscara na sala de espera do hospital onde foi com o seu filho.
Depois da pandemia global vem agora a escandaleira global, o Presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa a dizer que foi um exagero criado pelos interesses e influência das farmacêuticas. Vem também a OMS defender-se dizendo que depois do mal passado é fácil criticar, cabia-lhes prevenir de acordo com a informação de que dispunham e que cada Governo tomou as decisões e fez os alarmes que entendeu.
Tudo bem, temos que admitir que jogaram pelo seguro. O que já não podemos aceitar é o pandemónio noticioso que houve entre nós, o debitar insano de detalhes que deixavam à livre interpretação de cada um o grau da ameaça, na falta de conhecimentos científicos que permitissem distinguir o trigo do joio. O Director geral de Saúde disse hoje que nunca disseram que houvesse risco de morte, que se limitaram a informar para que se tomasse medidas de prevenção. É caso para perguntarmos o que fariam se fosse mesmo um risco muito grave? O que faltaria fazerem? Se afinal foi rebate falso ou a prevenção em dose maciça foi eficaz, óptimo, só temos que nos alegrar, mas que fica uma profunda sensação de abuso e de manipulação do medo colectivo, agravada com as suspeitas agora lançadas contra a OMS, isso fica.
Mas não temos emenda. Há dias vi a cobertura jornalística de um congresso de ginecologia e de imediato se anunciou que “uma em cada quatro jovens portuguesas está infectada com o vírus do papiloma humano” e, claro, como podia faltar? Que somos o caso mais grave de toda a Europa. Depois, mal deram tempo a um congressista para esclarecer que “só” 20% dessas “infectadas” é que poderão vir a ter cancro do colo do útero, o que foi logo traduzido para os jornais com um título bombástico com o número de “jovens infectadas” (sic) seguido da “especificação de que 80% podiam afinal não vir a desenvolver o cancro…
Já se tornou recomendação habitual dos médicos aos seus doentes que não vão à net tirar informações sobre os seus sintomas e derivados porque criam medos e terrores sem fundamento, próprios de quem não sabe interpretar conceitos nem ler relatórios e notícias científicas. Ora, essa recomendação devia ser feita insistentemente aos jornalistas e a quem divulga informações desta natureza à população, que não sabe nem tinha que saber os meandros das definições e critérios médicos para avaliar as situações.
Nem tudo cabe na prevenção das responsabilidades, cada cargo tem as suas e uma delas é não suscitar situações de medo e insegurança só para não se poder vir a ser acusado de não ter dito tudo. O excesso de zelo informativo pode ser uma forma grave de irresponsabilidade!

O Rapto de Ganímedes


Hoje, após provas académicas na Universidade do Porto, a segunda no prazo de uma semana, fui almoçar a um restaurante simpático, comer tripas. Uma delícia. Após o almoço, embora estivesse frio, o sol convidava a dar uma volta. Ainda entrei nalguns alfarrabistas, que estavam abertos, mas não senti grande vontade em adquirir qualquer obra. Habitualmente tudo começa com um livro que me atrai sobremaneira, e depois, depois devo desencadear alguma reação meio esquisita e compro uma série deles. Desta feita não houve nenhum que tivesse despoletado a ignição. Fui por aí acima. Muitas lojas, casas antigas a precisar de cuidados, um certo desleixo a esconder nostalgias de um passado rico e febril. É pena. Acabei por ir até à Praça da República. Espaçosa e “habitada” por muitas pessoas. Algumas eram velhas, mas outras eram novas com aspeto de estarem habituadas a navegar, ociosamente, naqueles espaços, chupando cigarros e escapando-se de vez em quando até alguma taverna perdida nas ruas transversais. O jardim merecia um pouco de mais cuidado. Uma estátua chamou-me a atenção. Era do padre Américo que, transformada em verdadeiro altar, denunciava sinais evidentes de fervorosa devoção à sua figura. Gostei da beleza da estátua. Um sentido estético profundo. Continuei a marcha em direção ao topo. Foi quando vi um bronze a acenar-me. Aproximei-me e fiquei embasbacado. Que obra mais bela! “O Rapto de Ganímedes”. O que é que faz aqui uma preciosidade destas? Quem é que a terá parido? Porquê na Praça da República? Não vejo qualquer relação com a república! Incrível. Tenho a sensação de que fiquei durante alguns minutos a olhá-la. Tirei uma foto que reproduzo aqui. Depois fui ver e acabei por ler que é uma escultura de um artista de Avintes, António Fernandes de Sá.

Em 1898 nascia a primeira obra de Fernandes de Sá, “O Rapto de Ganímedes”, uma prova admirável de assimilação do espírito da arte francesa de então, ensinada pelos Mestres Falguiére e Puech, dois vanguardistas de oposição ao revolucionismo estético de Rodin. “Serviu-me de modelo para o Ganímedes um lindo rapazinho italiano. Trabalhei dias e dias com todo o ardor e toda a vontade. Por vezes, esquecia-me de comer e ia almoçar às três e quatro horas da tarde. Ah, mas valeu a pena! O Rapto de Ganímedes, para deslumbramento dos meus 23 anos, foi admitido no Salon (1989), na Exposição Universal de Paris (1900) e na Exposição da Sociedade de Belas-Artes de Lisboa (1902).”

Quando voltar ao Porto, vou dar uma saltada até aquele espaço e deliciar-me com o efeito produzido por uma excecional obra de arte...

O preço das escutas

Os meios tecnológicos permitem a mais completa devassa da vida particular de um cidadão: conversas, correspondência, onde esteve, o que fez, o que escreveu, o que recebeu, o que pagou, onde jantou ou almoçou, por onde passou e onde se demorou.
Na defesa dos direitos do cidadão, e com a memória ainda fresca das escutas da PIDE ou da DGS, antes do 25 de Abril, a Constituição proibiu as escutas e qualquer violação da correspondência, salvo em razão de investigação de processos criminais. E, mesmo nesses casos, a Lei sujeitou tais procedimentos a decisão prévia de um Juiz. E determinou o segredo das escutas, que só poderiam ser divulgadas mediante o acordo dos intervenientes, maxime do escutado.
Perante este quadro legal, do qual não é possível eticamente discordar, causa repulsa que gente ainda apareça que defenda as escutas para meros fins disciplinares. O que levaria à lei da selva e as escutas fossem utilizadas para os mais variados motivos, como despedimentos por ofensas ou desabafos contra o patrão em conversas particulares, via telefone ou e-mail. O valor das escutas e a sua validade têm que ser aferidos pelo valor de direitos maiores que urge defender.
Mas mais repulsa deve causar ainda que as próprias escutas apareçam difundidas pelos mais variados meios, quando deviam estar seladas e lacradas, à guarda da justiça, ou deviam mesmo já estar destruídas, por força de processos transitados em julgado, lançando mais uma acha na fogueira da desconfiança em que já ardem muitos dos principais agentes da justiça portuguesa.
Com gáudio de muita comunicação social, que colocou as escutas nos seus sites e promoveu julgamentos populares, e com o babar de gozo de muitos cidadãos para quem o espreitar pelo buraco da fechadura da casa da vizinha é o momento mais alto e realizado das suas vidas.
Claro que não tardará que escutas dos mais altos responsáveis surjam também na internet ou transcritas nos jornais. E as escutas de todos e cada um de nós. O dinheiro também paga as escutas. E os pagantes de agora que se precatem. Também terão um preço.

A ética não se impinge!

Faz honra de primeiras páginas há já dois dias, um diálogo no Facebook entre pilotos da TAP, Associa-se agora ao episódio um curso que a empresa quer que os seus trabalhadores frequentem sobre ética nas relações entre o pessoal da TAP, curso que, segundo o sindicato, custará a módica quantia de 2 milhões de euros. Os responsáveis dizem que não senhor, o curso nada tem que ver com as mensagens trocadas nas redes sociais.
Para lá da estranha coincidência de a TAP ter acordado para o problema da falta de ética dos seus trabalhadores no preciso momento em que se incendiavam as relações entre pilotos por causa das ditas mensagens, é extraordinário com se formou uma onda de inusitado interesse motivado por conversa que, por muito censurável que tenha sido, se confina às relações entre pessoas, umas que supostamente difamaram, outras que pretensamente se consideram ofendidas. A SIC abriu mesmo um forum para discutir o caso, interrogando gravemente até onde se poderá ir nas redes sociais! E os noticiários entrevistam eméritos professores de direito para saber que constitucionais princípios estão em perigo de extinção com o caso!
Espanta tudo isso. Não tanto o interesse da comunicação social que liga a isto tal como faz reportagem sobre a pata partida do piriquito da minha vizinha. Espanta pelo cúmulo da desresponsabilização individual que o caso traduz. Se a conversa, seja no Facebook ou à mesa do café, é ofensiva da dignidade e honra de outrém, corresponderá a um banal episódio de difamação, que o difamado deve saber resolver pela forma que achar mais adequada à reposição da honra ofendida. E se a TAP entende que a falta de ética revela alguma infracção a obrigações laborais, chama os responsáveis à responsabilidade. Não se oferece para os vacinar contra a doença. Nem nos oferece a todos a noção da crise de consciência do dever que parece ter conquistado todos os sectores da vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Uma questão de solidariedade...

Congratulo-me com a aprovação na Assembleia da República, na passada sexta feira, do projecto de diploma que institui o regime de majoração (em 20%) do montante do subsídio de desemprego para as situações em que ambos os cônjuges estão desempregados. A medida abrange também os desempregados que tenham filhos portadores de deficiência ou doença crónica.
Embora não conhecendo os detalhes do diploma e a sua aplicação em concreto, considero que se trata de uma decisão justa e equilibrada que procura minorar, numa situação de grave crise, as famílias que estão numa situação mais complicada.
A despesa adicional que decorre da medida, que poderá variar entre os 80 milhões de euros na versão do proponente da iniciativa legislativa, o CDS/PP, e os 93 milhões de euros estimados pelo Governo que, aliás, se manifestou recentemente contrário à sua viabilização, deve ser considerada e enquadrada numa lógica de prioridades políticas e de contenção da despesa pública, reduzindo ou anulando despesa onde ela pode ser cortada ou dispensada.
Um facto político interessante é que esta medida acabaria por ser aprovada com os votos favoráveis do PS e do BE.
Desconheço o texto aprovado e, portanto, se a majoração agora aprovada será paga pelo Orçamento de Estado ou pelo Orçamento da Segurança Social. Este aspecto é relevante, na medida em que está em causa saber se estamos perante uma medida de redistribuição, assim sendo financiada pelos impostos, ou se está em causa um reforço da função de seguro social, neste caso financiada pelas contribuições das empresas e dos trabalhadores para a segurança social .

Alegria no trabalho...

Não conheço a origem do "desenho". As reacções à “alegria no trabalho” podem ser várias. Cada um fará a leitura que muito bem entender.
Neste momento ocorre-me pensar nos desempregados e jovens à procura do primeiro emprego que pagariam alguma coisa para trabalhar. O trabalho dignifica e é fonte de sustento…

"As Cinderelas devem comer perdizes!"

Era muito pequeno, deveria ter sete ou oito anos, não mais, quando vi o meu primeiro filme. Foi na Figueira da Foz, num cinema mesmo ao lado de um parque de diversões que se manteve, ainda, por décadas. Andei num carrinho de choque e fiquei deslumbrado com os efeitos de uns espelhos que refletiam as nossas figuras, baixas e “gordas”, altas e “magras”, sempre acompanhadas de deformações da cara a qual ainda ficava mais afeada quando punha a língua de fora e repuxava os cantos dos lábios com os dedos. Duas novidades a que se juntou uma terceira, ver um filme. Uma tarde de sol inesquecível. Ao ver aquelas imagens projetadas num écran, parecia ter penetrado no reino dos gigantes. Uma coisa “monstruosa” para um petiz em que as dimensões do que vê são muito superiores à realidade, porque, para quem é pequeno, o padrão das medições é definido pelo tamanho do seu corpo.
O filme era sobre a Cinderela. Ainda hoje consigo recordar algumas passagens com as cores muito vivas próprias dos filmes animados de Walt Disney. As emoções produzidas foram muito fortes ao ponto de viver as cenas como se fossem verdade. E, durante muito tempo, quase que o conseguia reproduzir mentalmente como se o meu cérebro fosse um animatógrafo com apenas um filme e que punha a rodar sempre que me apetecesse. Não me cansava.
Perturbou-me muito as cenas em que a pobre Cinderela era mal tratada quer pela malvada da madrasta quer pelas duas filhas cuja fealdade contrastava com a beleza da enteada. Uma injustiça, pensei eu. - Como é possível ser-se tão má?
Mais tarde, muito mais tarde, depois de ter visto o filme, li que o seu nome tinha sido associado a uma síndrome. É frequente em medicina, e também em psicologia, a criação de síndromes para personalizar e identificar algumas doenças.
Peter Lewin, há cerca de 35 anos, inspirou-se nesta história para criar a síndrome de Cinderela com o propósito de descrever as falsas acusações de maus-tratos ou negligência praticada pelas mães adotivas. A par desta síndrome, foi criado, muito mais recentemente, o complexo de Cinderela, o qual se prende com o desejo inconsciente de uma mulher ter medo de se tornar independente, aspirando encontrar alguém que tome conta dela. Aliás, é muito comum determinadas interpretações psicanalíticas de histórias como a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida e muitas mais.
Agora, num período em que a liberdade feminina é uma realidade, conquistada apenas em certos cantos do mundo, não é de estranhar que histórias de encantar sejam objeto de redefinição. Foi o que aconteceu em Espanha com a feitura de um livro intitulado “A Cinderela que não queria comer perdizes”. Quando li o título, fiquei surpreso com esta de não querer comer perdizes. Foi então que soube que, enquanto em Portugal, estas histórias têm o tradicional final: “Casaram e foram felizes para sempre”, em Espanha não é assim. O equivalente é o seguinte: “Foram felizes e comeram perdizes”. Aqui está um final, pelo menos, muito mais original e apetitoso. Sem sombra de dúvida. Mas afinal qual a razão de ser deste livro? Contribuir para o combate à violência contra a mulher. Nesta nova versão, que ainda não li, mas vou tentar, a Cinderela borrifa-se para a meia-noite, sai do baile alta madrugada, manda às malvas o príncipe encantado e parece que se torna vegetariana. Neste último caso não consigo compreender muito bem. Mas não é só a Cinderela que pretende mudar de vida, também as suas amigas. A Bela Adormecida não precisa mais do beijo do príncipe para acordar, mas tenho que ler o livro para saber como é que ela conseguiu e até a Branca de Neve deixou de ter depressões, passou a tomar Prozac, apenas enquanto teve necessidade, e depois foi para a praia bronzear-se.
Ora aqui está como se pode mudar as histórias que nos contaram por outras mais adequadas aos nossos tempos, sem corrermos o risco de condicionar o comportamento dos mais jovens. Não quer dizer que sejam as mais apropriadas para os pequenos, mas também as outras, as clássicas, parece que não são grande ajuda. Para isso seria conveniente ouvir dissertar o pessoal que se dedica à educação das crianças. Entretanto, muitas das mulheres que já leram o livro, deverão ter-se libertado do complexo de Cinderela. E ainda bem! Mas, apesar de tudo, acho que as mulheres espanholas deveriam continuar a comer perdizes...

A larga gaveta socialista

O Orçamento de Estado, dizem, é o instrumento fundamental da governação, por nele se concretizarem as grandes linhas que presidem ao Programa de Governo. Aliás, os governos consideram-no tão importante que a sua recusa normalmente leva a novas eleições.
Segundo hoje vem sendo noticiado, o Orçamento de Estado para 2010 vai ser viabilizado pela direita.
Pois é. A esquerda é cada vez mais uma abstracção alegre. Boa para espectáculo folclórico.
Quando chega a hora da verdade, lá se vão para a gaveta as grandes profissões de fé socialistas.
Que, todavia, em breve clamarão pela unidade, em alegres slogans sem senso nem sentido.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Divórcio de cisnes

Esta coisa dos divórcios já atinge espécies que se caracterizam por acasalamento “perpétuo”, como é o caso dos cisnes. Em caso de morte do parceiro arranjam outro(a), mas agora ambos vivos, e morando na mesma zona, é que é de espantar. Não estiveram com meias medidas, cada um acasalou-se novamente. Os cientistas andam às “aranhas” e não conseguem explicar o que aconteceu. Aventam a hipótese de não terem procriado, mas é apenas uma mera hipótese. Andei à procura de outras razões, como incompatibilidade de feitios, adultério, falta de atração sexual, mas nada. Aguardo futuros desenvolvimentos...

Vigarice e evolução

A evolução do homem é uma realidade e tudo aponta para que no futuro a nossa espécie se transforme em verdadeiros “cabeçudos”. Pelo menos é o que dizem alguns antropólogos com base nos seus ensaios e evidências. É provável que assim seja, já que tudo aponta para um aumento e complexidade da nossa estrutura cerebral. De acordo com Yves Coppens, Lucy, australopiteco que viveu há mais de três milhões de anos, se nos visse hoje morreria de susto perante o nosso tamanho e, sobretudo, a nossa cabeça. Passar de 400 cm³ para 1500 cm³ é obra. Há quem diga que um dia teremos uma capacidade da ordem dos 5000 cm³. Para o efeito, o corpo terá de se adaptar às novas circunstâncias. Resta saber se tal aumento da capacidade craniana se acompanhará de uma evolução no sentido de comportamentos diferentes, mais “humanos”. Tenho muitas dúvidas. De facto, os primatas têm, relativamente ao corpo, cérebros grandes. A par da inteligência mecânica há que destacar a inteligência social. Tudo aponta para que o aumento do tamanho do cérebro e, consequentemente, da inteligência sejam devidos mais a exigências sociais do que mecânicas.
Segundo a hipótese da “inteligência maquiavélica” – curiosa designação! -, os mamíferos sociais, com necessidades que os animais solitários não têm, foram obrigados a desenvolver a inteligência a fim de manter as relações próprias de grupos, que são cada vez mais complexas e exigentes, dentro das quais se destacam, prioritariamente, manipular e explorar os colegas, conseguindo, assim, alcançar evidentes vantagens a menor custo. Se este aspeto é uma exigência, logo, surge outra como resposta, ou seja, a capacidade de evitar a tal manipulação e exploração.
Manipular e explorar são frutos do verbo enganar, fácil, de baixo custo e grandes benefícios. Verdadeiro sentido económico. Deste modo, a vigarice foi, é e será determinante para o desenvolvimento das espécies sociais que dependem da inteligência e do tamanho do seu cérebro, ao contrário de outros seres sociais baseados na química como alguns insetos. Somos enganados? Constantemente, e em todas as épocas. Como reagimos? Descobrindo as vigarices e tentando evitá-las. Comportamentos que revelam inteligência, sem sombra de dúvida. É a necessidade imperiosa de manipular e enganar os outros que leva ao desenvolvimento da inteligência e, assim, num crescendo, lá vamos subindo na escala da evolução à custa de um processo que nunca se irá extinguir, mesmo que alcancemos um dia uma capacidade craniana de 5000 cm³! Nessa altura as vigarices deverão ser muito sofisticadas. Nesta perspetiva tenho que dar razão à minha avó que me dizia em pequeno que andava meio mundo a enganar outro. Na altura não percebi bem o que queria dizer e perguntei-lhe se pertencia aos que andavam a ser enganados, porque não a via enganar quem quer que seja. Riu-se e disse que sim, que fazia parte do mundo que os outros queriam enganar. Mas para evitar que tal acontecesse, ser enganado e vigarizado, era preciso estar atento, olho aberto e estudar muito, porque quanto mais estudássemos e lêssemos mais dificilmente seriamos vítimas das más intenções. E, ato contínuo, perguntou-me se já tinha feito os deveres e se tinha lido as notícias da primeira página do O Primeiro de Janeiro. Uma espécie de exame oral que fazia antes do jantar, porque como já tinha lido o jornal, ficava a saber se eu entendia o que tinha lido. E se não compreendia bem, não havia problemas, porque logo de seguida explicava-me por “miúdos” as mesmas, não deixando de lançar as suas interpretações pessoais, eivadas de histórias, algumas verdadeiras encantadoras e, até, meio mirabolantes – um timbre muito pessoal -, como se estivesse a iniciar-me na arte de como evitar ser vigarizado, não obstante ter apenas a quarta classe. Às tantas, tenho de lhe agradecer ter adquirido – quem sabe? -, umas gramitas a mais de córtex cerebral...
Não me posso queixar-me muito, apesar de já ter sido vigarizado... Mas a evolução humana é isso mesmo!


"O aumento da inteligência é o resultado de dois imperativos: conspirar mais do que ser vítima da conspiração e mentir mais do que ser vítima de mentiras (Mark Rowlands, in O filósofo e o lobo)"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Canja de Galinha (último episódio)

Passaram os dias e as melhoras estavam à vista de todos. Com os cuidados da Gracinha, entre canjas de galinha e companhia alegre e apaixonada, em breve o patrão novo retomou a faina e se desassombrou a tristeza da aldeia.
Casaram poucos meses depois, numa festa rija que juntou todo o povo dos arredores, ela lindíssima, morena e sorridente no seu vestido branco de noiva, feito pela mãe, ele pouco à vontade no seu fato completo, um pouco largo, a calvície acentuada pela fraqueza da doença. Mas a alegria estampada no rosto e o amor intenso com que olhava a noiva fizeram com que muitos pensassem, surpreendidos, que ele até era um homem bonito e que havia de a fazer muito feliz.
Viveram sempre na aldeia mas ela nunca aceitou mudar-se para o casarão, para desgosto dos sogros. Fizeram a sua própria casa, já inspirada na moda trazida pelos emigrantes, a meio caminho da casa grande e da casa dos caseiros, ai nasceram os filhos e aí vão visitá-los os netos. Gostam de se sentar junto ao avô, já muito velhinho, a contar-lhe as novidades de Lisboa enquanto a avó, sempre risonha mas a que a idade acrescentou umas formas generosas, se esgueira com surpreendente ligeireza para a cozinha, a preparar aquela canja de galinha, que não há outra que se lhe compare no mundo inteiro. Dizem na aldeia que cura todos os males, mesmo os que os médicos não sabem tratar, e os netos acreditam. Pois se os mais velhos garantem que viram!…

Não há justificação para corte de salários este ano" - o que significa?

1. Esta “meia afirmação” parece ter sido feita hoje por um conhecido co-responsável pela política económica em Portugal a propósito do nível de esforço requerido para a correcção do défice orçamental em 2010 - considerando suficiente o congelamento nominal dos salários...
2. Recorde-se que o congelamento nominal dos salários foi na pretérita semana prometido pelo Instituto de Gestão do Crédito Público aos mercados financeiros, em aflição, depois de o Governo ter anunciado um não aumento em termos reais, o que não é a mesma coisa...
3. Uma “meia afirmação” como esta presta-se a um sem número de interrogações e de especulações (no bom sentido do termo), nomeadamente as seguintes:
- Se não há justificação este ano para cortes nos salários, quer com isso dizer que já se admite tal necessidade em 2011?
- Se assim for, qual a razão de adiar para 2011 o que poderia ser feito em 2010 – está-se à espera de um milagre?
- A haver corte dos salários, que tipo de cortes deveriam ser feitos – à irlandesa como pareceria mais adequado, com cortes percentualmente mais elevados nos níveis salariais mais altos e cortes mais baixos nos níveis salariais inferiores?
- Se a meio deste ano se verificar a necessidade de um rectificativo – não seria nada surpreendente – face a uma eventual execução orçamental abaixo do previsto, antecipa-se nessa altura o corte nos salários?
- Terão os senhores deputados coragem para reduzir, significativamente, os seus próprios salários e mordomias?
4. Existe um número crescente de portugueses que tem vindo a sofrer cortes (e que cortes) nos seus salários: refiro-me aos desempregados, que não cessam de aumentar...para estes portugueses, vítimas de uma conjuntura adversa mas não menos vítimas dos erros da política económica, os cortes nos salários não começam este ano – pela simples razão de que já começaram há pelo menos dois anos e vão continuar não se sabe até quando...
5. O que esta “meia afirmação” parece significar é que estará a chegar a hora de os sectores protegidos da sociedade e da economia portuguesa começarem a sentir os efeitos da crise, eles que até agora têm da crise uma noção essencialmente literária, de exterior, pela leitura dos jornais e pelos ecrãs das notícias...
6. Nessa perspectiva, o que esta “meia afirmação” pretenderá em última análise dizer é que se torna mesmo necessário um corte salarial na função pública (em sentido alargado, compreendendo o Estado Central, Regional, Local e os respectivos sectores empresariais) mas que face à dificuldade em implementar agora tal medida, melhor será deixar correr as águas até ver...
7. Está muito arreigada na nossa classe política esta filosofia de deixar o mais difícil para amanhã...que maçada! Só que deixar o mais difícil para amanhã significa as mais das vezes nada fazer, nunca, pela razão de que fazer amanhã será tão ou mais difícil do que seria hoje – no caso vertente mais difícil, certamente...

"24 canais de televisão por cabo obrigados a transmitir intervenções de Hugo Chávez"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Canja de Galinha (4º episódio)

O filho chegou, magro e triste, mais calado que nunca. O regresso ao casarão agravou-lhe as lembranças, via a Gracinha em cada dobra dos montes, ouvia o seu riso no correr do rio, sonhava-lhe os cabelos negros na ondulação das árvores ao cair da noite. Foi definhando em silêncio até que um dia não teve forças para sair do quarto, no outro ficou de cama, por fim uma febre teimosa prostrou-o numa sonolência que alarmou os pais. Chamaram então o médico da vila e esperaram, ansiosos, o diagnóstico que havia de resultar da longa observação que se desenrolou no quarto.
O médico saiu de semblante carregado e olhar severo. Usou a sua voz pesada para dizer que o doente sofria de tristeza, uma tristeza tão grande que o consumia sem remédio, sem luta e sem esperança. Que não lhe encontrara moléstia tratada nos livros que falam do corpo, mas que antes tivesse encontrado, porque a que via era da alma, tão grave e tão oculta que não havia mezinha que lhe devolvesse o gosto da vida. A menos que eles soubessem a causa de tão grande pena e o segredo para a resolver, o mais que o médico podia fazer era apaziguar-lhe os dias num adormecimento suave e confiar num milagre. Pegou o chapéu e saiu, deixando atrás de si um silêncio atormentado e incrédulo.
A mãe do doente tomou a decisão, ao acudir-lhe de súbito à memória a devoção com que o filho saboreava as ceias preparadas por Maria da Graça. Em tanta aflição não havia que medir os remédios, quem sabe se o médico não teria razão e aquela estranha doença fosse apenas um grande mal de amor? Mandaram em urgência um moço à casa dos caseiros, suplicando que deixassem vir a rapariga e que com ela trouxesse um caldo de galinha, apurado pelas suas próprias mãos.
Vieram os pais da rapariga, alvoraçados na madrugada, acompanhando a filha, que corria à sua frente, carregada com a marmita bem aconchegada no cesto da merenda que tantas vezes tinha levado ao encontro do pai, e parecia que tinha asas nos pés quando viu a luz pálida na janela do quarto, a esbater-se na claridade da manhã como um apelo que desesperava de ser ouvido.(continua)

“Pé descalço”

Hoje, ninguém anda de descalço, a não ser em determinadas circunstâncias ditadas por imperativos mais do que óbvios. Os pés, sobretudo os “pés portugueses”, têm sido muito mal tratados ao longo dos tempos. Os desgraçados, que estão na extremidade do corpo, têm que carregar com o peso do dono, muitas vezes mais do que exagerado, além de vários acessórios e cargas. Por outro lado, a escolha de calçado apropriado ao conforto e saúde das “patinhas” é relegado para um plano secundário, ao ser dada prioridade a aspetos mais estéticos do que funcionais, chegando a provocar deformações e problemas a nível da coluna.
Atendendo ao envelhecimento da população portuguesa e às inúmeras patologias com reflexos na circulação dos pés tem de haver mais atenção e cuidado para evitar complicações, algumas mesmo graves, que chegam, em certas circunstâncias, a amputações. Acontece que em termos práticos só agora é que se começa a avizinhar alguma preocupação neste sentido por parte das autoridades de saúde. Mas é muito importante que seja dada mais atenção ao conforto e saúde dos pés, mesmo nos que não sofram de patologias. Andam muitos preocupados com a estética, nomeadamente das “dentuças”, mas esquecem-se de tão importantes apêndices, base da nossa sustentação, e que, pelo facto de não andarem expostos, não são bem tratados.
Portugal pautou-se durante muito tempo por um dos mais interessantes fenómenos, o “pé descalço”, que levou muito tempo a ser combatido.
Foi em janeiro de 1928 que a Liga Portuguesa de Profilaxia Social “iniciou a campanha contra o indecoroso, inestético e anti-higiénico hábito do pé descalço”.
“O pé descalço – Uma vergonha nacional que urge extinguir”, publicado em 1956, faz uma interessante análise deste fenómeno. Adquiri-o há dias num alfarrabista no Porto.
Lembro-me muito bem, nos meus tempos de criança, de ver inúmeras pessoas que andavam descalças quer fosse verão ou inverno. O perigo de contrair o tétano era uma realidade, além de outras infeções. Apesar de muitas pessoas morrerem, mesmo assim, teimosamente, continuavam com aquela prática, ainda na década de cinquenta.
No Porto, o governador-civil proibiu o hábito do “pé descalço” em 1928, e, no mesmo ano, Lisboa seguiu o exemplo. Em Coimbra, na sequência de uma palestra proferida pelo diretor da liga, em 1933, um tio dos assistentes, Nicolau da Fonseca, que então dirigia a Agência do Banco de Portugal, encabeçou a campanha publicando vários artigos no jornal Gazeta de Coimbra, motivando o meio culto da cidade para o despertar deste assunto, e que veio a culminar na proibição a partir de 1 de Maio de 1934.
Uma coisa é proibir, outra é acatar as ordens. Tudo aponta para que os portugueses, à exceção dos alentejanos, que protegiam os pés, fosse o único povo da Europa a andar com solas naturais. Os relatos de estrangeiros atribuíam-nos epítetos de selvagens. Nem os marroquinos andavam descalços. O argumento da pobreza não era suficiente para explicar este fenómeno. De facto, em 14 de Fevereiro de 1904, o Professor Daniel de Matos proferiu, em Coimbra, uma conferência intitulada “A luta contra o pé descalço”. A certo trecho fez a seguinte afirmação: “O nosso povo mais depressa deixa de comprar um par de sapatos do que deixa de ter um cordão, anel, brinco, cadeia ou outro objeto de adorno para seu uso”.
Cheguei a ver mulheres com arcadas de ouro a levarem cestos à cabeça com os tamancos ou sandálias em cima, ou até botas presas pelos atilhos a baloiçarem como se fossem duas grandes orelhas!
Alguns relatos de julgamentos publicados na imprensa da época são muito curiosos como o seguinte que passo a transcrever: “A senhora Maria Joaquina da Silva Teixeira, que tem 29 anos e reside no largo de Santa Marinha, em Gaia, foi ontem responder ao Tribunal de Policia – por, no dia 30 de novembro do ano passado (1954), ter sido encontrada descalça numa das ruas da cidade.
- Era só um pé, Sr. Dr. Juiz. - E porquê? – Perguntou o Sr. Dr. António Quintela.
A ré alega que andava doente do pé que trazia descalço. Tem duas feridas. E, para comprovar a acusação, levanta o pé doente – mostrando-o ao magistrado. Este ergue-se do seu lugar, olha – e comenta: - O que vejo é que está sujo, pelo menos... E depois: - Mas, se tem o pé doente com alguns ferimentos, isso é mais uma razão para andar calçada. Esta medida é para vossa defesa!
A certa altura, apareceu uma testemunha, uma outra mulher: - Eu ia com a ré. E também fui autuada. Venho cá responder terça-feira... - Pois então, espere pela sua vez...
Claro que a Maria Joaquina acabou por ser condenada na multa (que é de 16$50) e no mínimo do imposto de justiça (que é de 50$00).”
Hoje, os pés, felizmente, não andam descalços, o pior é a outra “extremidade”, onde se aloja o “juizinho”, e, vendo o que circula por aí, também anda “descalça”, descalça de ideias, descalça de valores e descalça de princípios. No fundo, passámos de um povo “pé descalço” a um povo de “cabeça descalça”...
É a altura de começarmos uma campanha “contra o indecoroso, inestético e anti-higiénico hábito de insultar e julgar na praça pública”.
“Uma vergonha nacional que urge extinguir”.

A lei do mercado!...

Assisti ontem ao maior jogo do futebol português: cena normal, prolongamento e bónus de trinta grandes penalidades, como extra. Mais de três horas de espectáculo, vibrante e cheio de suspense.
E também o bilhete de mais barato custo por minuto!...
O FCPorto é grande em tudo e conhece bem as leis do mercado: se preza a quantidade e diminui a qualidade, sabe que deve baixar o preço...

Palavras, só palavras...

Os Bancos americanos continuaram, já este mês, a reembolsar o Tesouro dos Estados Unidos dos fundos cedidos aquando da crise do sub-prime. Claro que irão pagar até ao último cêntimo.
A Justiça americana resoveu o problema da falência da General Motors em três meses e a empresa salvou o seu património, os trabalhadores o seu posto de trabalho e os accionistas e fornecedores o essencial dos seus interesses.
Em Portugal, os casos dos bancos BPN e BPP, diminutos até à escala nacional e que cabem numa pequena gaveta de secretária de um banco internacional, ainda não foram resolvidos pelo Governo, nem se sabe quanto o Estado irá suportar.
A falta de competência e de liderança torna tudo mais complexo, para adiar decisões com base em pretensas dificuldades. Por isso, estamos com estamos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Não há paciência...

É indiscutível que há falta de médicos. Estamos a braços com um problema muito grave que não se vai resolver de um momento para o outro. Não é novo. A verdade é que governos sucessivos não foram capazes de criar condições para obviar à situação a que se chegou. Não tinha que ser assim. É a falta de organização e planeamento a que já estamos habituados. Se há coisa que o tempo permite, é que com tempo se tomem decisões, se planeie o futuro.
Hoje no Parlamento, o Bastonário da Ordem dos Médicos recordou que no passado alertou para a “falta gritante” de médicos e avisou que o aumento de vagas nos cursos de medicina pode conduzir ao excesso de médicos, ao desemprego destes profissionais. A "falta gritante" desapareceu. Francamente, não há paciência!
É por estas e por outras que estamos na situação em que estamos, com serviços públicos essenciais sem capacidade de resposta adequada às necessidades, na saúde, na educação ou na justiça.
Não há paciência, mas é triste...

Para quando o elixir da juventude?

No nosso dia a dia somos confrontados com várias situações perante as quais temos de tomar uma decisão. O pior é quando ficamos indecisos sem saber o que fazer. Neste caso, podemos vir a sofrer consequências nada agradáveis. Esta afirmação não é passível de contestação, penso eu, e poderá ter sido já vivida por qualquer um. Além do mais, apesar do acumular da experiência com a idade, também aumenta o número de situações com estas características, como é fácil de prever. Curiosamente, este fenómeno tem, também, um equivalente a nível molecular.
É fácil de compreender que à medida que envelhecemos corremos mais riscos de vir a sofrer doenças degenerativas, cancros e doenças cardiovasculares, entre outras. Quanto ao envelhecimento, os sinais são mais do que evidentes e constituem uma grande preocupação para muitos. A busca de elixires da juventude não é de hoje. Podíamos enumerar uma catrefada deles. No entanto, eles existem mesmo. O mais eficaz, pelo menos até ao momento, é o CR. Não tem nada a ver com o Cristiano Ronaldo, mas sim com Caloric Restriction (Restrição Calórica). Desde os anos trinta do século passado que já se sabia do efeito da restrição calórica no prolongamento da duração da vida. Nos ratos uma restrição de 30% de calorias acompanha-se de mais 30% de duração de vida. E não é só nos ratos, também ocorre noutras espécies. O pior é que os seres humanos não são muito adeptos em fazer restrição calórica. Era o que mais faltava. Mas, mesmo assim, não desistem em descobrir uma molécula ou substância que faça a mesma coisa que a restrição calórica sem se privarem de bons pratos. Um sonho. Comer que nem uns alarves e, ao mesmo tempo, viver mais anos e sem doenças. E não é que este sonho pode ser mesmo viável? Já existem dados de que uma substância, por exemplo, o resveratrol, tão propalado por esse mundo fora, comporta algumas das características próprias de um “elixir de juventude”. O vinho é uma das suas fontes, mas seria necessário beber algumas centenas de garrafas para obter o efeito, diariamente.
Mas, afinal, o que faz o resveratrol? Atua, estimulando a produção de sirtuína através de um gene, o SIRT1. Esta molécula é responsável pelas reparações a nível do DNA e faz, ao mesmo tempo, com que os diferentes genes entrem ou não em atividade, consoante as necessidades e ocasiões. Acontece que à medida que vamos envelhecendo, a sirtuína tem muito que fazer a este nível, não havendo em quantidade suficiente para modular a expressão dos genes. Como estes “não sabem” o que fazer, ficam ao deus-dará e, consequentemente, poderão enveredar por caminhos que levam ao cancro e a vários tipos de doenças, metabólicas e cardiovasculares.
A descoberta de uma substância que estimulasse o tal gene SIRT1, seria uma bênção, porque permitiria, ao mesmo tempo, fazer as reparações próprias do envelhecimento e permitir a expressão mais adequada e equilibrada dos diferentes genes, sem risco, ou muito pouco risco, de enveredarem por caminhos nada agradáveis.
Poderão afirmar que estas medidas não são naturais. E daí? Qual o problema? Não devemos o nosso bem-estar e vida a muitas conquistas? Se continuássemos a viver de acordo com o “natural”, onde estaria a maioria de nós? Do outro lado, claro está, e há muito tempo.
Atendendo ao crescente envelhecimento da espécie humana, e às inúmeras doenças associadas, não vai haver dinheiro que resista para fazer face a tamanha despesa. Cálculos já efetuados, permitem afirmar que uma redução de apenas 1% da mortalidade por cancro se acompanharia numa poupança na ordem dos 500 mil milhões de dólares!
Um dia destes ainda vamos acordar com a notícia da descoberta de uma substância capaz de mimetizar os efeitos da única, ou principal, técnica para prolongar a vida, a restrição calórica. Seria uma ótima notícia para todos e, sobretudo, para os alarves gastronómicos que andam por aí, incapazes de saciarem os seus apetites.
Depois é altura de encontrar um equivalente a nível social, que impeça certos lambões de comerem tudo, e de nos comerem com todo o descaramento. Mas não estou convicto desta última, ao contrário da primeira.

A Canja de Galinha (3º episódio)

No casarão também souberam ler os sinais. O lavrador começou a vigiar o filho quando lhe estranhou os modos alegres com que falava da Gracinha, as demoras em sair de casa nos dias em que ela vinha, ou o brilho dos olhos que nunca antes se lhe iluminavam.
Percebeu e não gostou do que viu. Como era possível que aquele lunático se embeiçasse por uma garota da aldeia, jeitosa, é certo, mas filha de um camponês e ela própria uma criada da casa? Não que fosse gente para um capricho, isso não, por isso mesmo o problema, não queria que acusassem o filho de estar a levar a desonra a casa de quem sempre servira lealmente a família e outra hipótese não se punha, nada de sério poderia sair daquela loucura. Ah, se ele tivesse imposto a sua autoridade de pai e o tivesse casado com a filha do Mendes!, mas não, deixou-se levar na teimosia do rapaz e o resultado estava à vista, uma paixoneta tola e serôdia de que era preciso dissuadi-lo sem demoras.
Chamou o filho e falou-lhe asperamente, proibiu-o de voltar a falar com a Gracinha e que nunca mais a queria ver lá em casa, fosse por que motivo fosse. E, se ele insistisse, ver-se-ia obrigado a despedir o pai dela, causando a miséria à família e a vergonha a quem durante uma vida o tinha servido lealmente. Mas que o faria, disso não tivesse dúvidas, assim ele o obrigasse.
Gracinha deixou de ir servir à casa grande, num acerto que nunca lhe revelaram, e o filho do patrão abalou para Lisboa sem se despedir, num desgosto de que não queria testemunhas nem conversas. Na aldeia sentiu-se um pairar de tristeza que ninguém conseguia explicar e que contrariava a prática do falatório das velhas e das confissões da vida dos outros, em que entretinham os serões.
Começou a notar-se um abandono dos campos até então férteis e bem cuidados, o pai de Gracinha queixava-se de que o patrão velho não tinha ânimo para lidar com as querelas dos camponeses e ele, ao fim de tantos anos, já sentia que lhe faltava força e autoridade para se impor ao trabalho.
Na aldeia, comentava-se a tristeza da rapariga, antes tão alegre e amiga de ajudar, agora esquiva, fechada em casa, movendo-se na lida como uma sombra. A mãe limpava as lágrimas furtivas, não via forma de compor as coisas, quem havia de dizer que a sua menina se ia perder de amores por aquele homem tão mais velho, sem beleza nem garbo, quem a dera tê-la deixado abalar para fora, como tantas outras da terra, agora vi-a ali, sem gosto nem viço, perdida num amor insensato e inútil.
Foi a patroa que decidiu mandar que o filho viesse de Lisboa. Pesava-lhe a solidão, já não suportava ouvir o marido resmungar diante das janelas, a ver o desleixo nos campos, a olhar para o relógio de horas lentas, tão lentas quanto o esmorecer dos sentimentos contrariados e imprevisíveis. Era tempo de dar por finda a cura de Lisboa. (continua)

Grelhador da dívida: Grécia vai ter companhia?

1. O que se está a passar por estes dias nos mercados financeiros com a dívida grega e por arrastamento com a dívida portuguesa (e não só) não poderá continuar indefinidamente assim, sob pena de implosão: o spread da dívida da Grécia, no principal benchmark (10 anos), ultrapassa já os 300 bps, duplicando a taxa de juro da dívida alemã, sendo o da dívida portuguesa superior a 100 bps.
2. Tem-se verificado um agravamento contínuo nos últimos dias, face aos rumores de um possível “default” por parte da Grécia, em prazo não muito longo, que tem sido aventado por comentadores com impacto nas opções dos investidores.
3. Hoje foi a vez do conhecido investidor e consultor de investimentos Marc Faber, de cidadania suíça, actualmente com base de negócios em Hong-Kong ter profetizado o default de alguns Estados membros do Euro, nomeadamente da Grecia e de Portugal, num prazo de 2 anos.
4. Porque Marc Faber foi capaz, noutras situações, de fazer previsões arriscadas mas certeiras – crash bolsista de Outubro de 87, crise asiática de 98 – este tipo de profecias tem influência no comportamento dos investidores, que estão fugindo da dívida grega e (também) da portuguesa e da espanhola agravando consideravelmente os custos de emissão de nova dívida.
5. Não vai ser fácil inverter este clima de incerteza e de desconfiança dos mercados em relação às dívidas soberanas dos países do “arco da dívida”...arriscamo-nos a viver mais uns meses neste clima e a ter de aumentar pesadamente a dotação da rubrica dos juros da dívida pública, bem como a suportar os efeitos perversos sobre toda a economia de um agravamento generalizado dos custos de financiamento.
6. Estamos numa encruzilhada extremamente complexa, em que, contrariamente ao que ainda há duas semanas afirmava com segurança o PM, teremos mesmo de esquecer a crise e dar prioridade ao défice...
7. Não encontro com franqueza outra solução, pois esta tremenda pressão dos mercados não vai diminuir – podendo até agravar-se consideravelmente – enquanto não forem tomadas medidas duras de combate ao défice, medidas de contenção/diminuição efectiva da despesa, não medidas de meia-cosmética que não convencem já ninguém.
8. Bem sei que a situação de frágil saída da crise em que nos encontramos torna esta opção muito mais dolorosa...era só o que nos faltava ter de regressar a uma austeridade a doer, quando ainda nem saímos de um período de crise económica profunda, com o desemprego a caminho de 11% da população activa...
8. Mas se assim não for a situação de encarecimento da dívida pode tornar-se insuportável, obrigando, porventura a meio do ano ou ainda antes à apresentação de um orçamento rectificativo extraordinário, com medidas adicionais de combate ao défice...
9. Este é um momento em que se exige grande lucidez e coragem políticas...e é o momento em que devemos recordar os avisos sérios feitos há tanto tempo por pessoas de opinião independente como Medina Carreira, infelizmente tratados como descartáveis pessimistas...que não criam empregos! Viu-se no que está a dar o optimismo, em matéria de criação de empregos...
10. Não parece que tenhamos muitas opções nesta altura...ou aplicamos agora medidas correctivas que não permitam dúvidas de uma diminuição visível do défice orçamental ou arriscamo-nos a fazer companhia à Grécia no grelhador da dívida...até quando?

Por uma questão de elementar justiça

De entre as condições que as Oposições vão colocando ao Governo para viabilizar o orçamento, há uma que me parece da mais elementar justiça. Trata-se da proposta do CDS/PP no sentido de permitir a compensação entre os créditos detidos pelas empresas sobre o Estado e as dívidas destas ao Fisco. É imoral que o Estado exija o cumprimento pontual de obrigações tributárias, muitas vezes resultantes de rendimentos que as empresas não auferiram porque o Estado não prestou aquilo a que estava obrigado. Mas não é só uma questão de moralidade. Para muitas pequenas empresas é mesmo uma questão de sobrevivência na medida não só se vêem privadas de proveitos durante meses e meses, como também são oneradas e perseguidas por uma administração fiscal que é absolutamente surda a estas e outras dificuldades que os gestores são absolutamente impotentes para contornar.
O princípio da compensação deveria, aliás, estender-se a todos os sectores da Administração, permitindo a extinção das dívidas perante o Fisco, mas também as obrigações paratributárias impostas pela Administração Local.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Você é estúpido?

Retenho de um pequeno ensaio que li em tempos esta pergunta: - Você é estúpido?

O autor faz uma abordagem do que hipoteticamente poderia pensar um extraterrestre sobre a vida neste planeta. Se viesse com intenção de saber qual a principal forma de vida, esbarraria nos seres unicelulares, tipo bactérias, se focasse a sua atenção nas formas multicelulares mais comuns passaria o tempo a estudar as algas e o plâncton, se optasse pelos seres que mais facilmente se movem, então, os insetos seriam uma delicia e se fosse obcecado por sociedades mais avançadas em termos de organização ficaria surpreendido com as formigas e abelhas. E, caso quisessem comunicar com algumas espécies, até poderiam escolher os chimpanzés ou os golfinhos. Nesta fase do campeonato, começamos a questionar porque é que nós, seres humanos, que até somos uma espécie que está espalhada por tudo quanto é sítio, não somos alvo dessa preocupação? Se for por uma questão de domínio da ecúmena, então, as baratas poderiam ser também selecionadas, já que estão, também, em toda a parte. Mas por que carga de água quereriam os extraterrestres comunicar connosco, uma cambada de seres que se autodestroem e destroem o ambiente e outras espécies? Os seres que viessem de outros planetas deveriam dominar outros conceitos e serem dotados de conhecimentos e princípios muito para além dos que caracterizam os terrestres. Nós temos a mania de que somos súper inteligentes. É curioso verificar que a ficção científica é useira e vezeira em apresentar os alienígenas como seres cruéis e com aspetos de monstros com o objetivo de destruir a nossa civilização. Obviamente que não faz qualquer sentido esta representação. Alguém imagina que seres provenientes de outros planetas e galáxias procurassem a Terra para estudar ou comunicar com o Homo sapiens? Credo! Deveriam ser mesmo muito loucos para não dizer estúpidos. Somos muito convencidos e julgamos que não há criatura mais esperta no planeta e até criámos escalas para medir a inteligência, mas fazemos coisas que as outras espécies não fazem e não conseguimos fazer outras inerentes a elas.

Imaginem agora se alguém fosse por aí fora e interpelasse as pessoas na rua, perguntando: - Desculpe. Podia responder a um curtíssimo inquérito? Muitos argumentariam que não tinham tempo e afastar-se-iam se não fosse a persistência do inquiridor. – É rápido. É apenas uma pergunta! – Uma pergunta? Então diga lá. – O senhor é estúpido? - Como?! E o entrevistador com o ar mais solene do mundo repetiria: - O senhor é estúpido? Claro que podia sujeitar-se a vários tipos de respostas, algumas mesmo a fugir para o violento. Estou convicto de que nem um diria que sim fossem mil ou dez mil os inquiridos. Era o que mais faltava!

Lembrei-me deste ensaio ao confrontar-me com um trabalhador que, periodicamente, é obrigado a realizar exames médicos. Bem-parecido, extrovertido, com algum nível cultural, pelo menos aparentemente, sofre de diabetes que lhe diagnostiquei há dez anos. Na altura, aconselhei-o a ir ao médico assistente para se tratar. Chamei a atenção de que se trata de uma doença traiçoeira que acaba por ter consequências graves. No exame periódico seguinte, o doente revelou, após alguma insistência, que não tinha feito nada. O mesmo aconteceu nos exames anuais posteriores. Hoje, a situação, sobreponível às anteriores, revelava perturbações mais graves, algumas mesmo muito preocupantes, nomeadamente a nível da visão. Dez anos de avisos e conselhos. Resultado? Nada! Coloquei uma face muito formal e disse o que tinha a dizer. À medida que ia debitando o meu discurso, a cara do trabalhador começou a acinzentar-se, os olhos a esbugalharem-se, e a respiração a acelerar. Expliquei-lhe que não conseguia compreender a sua atitude. É claro que cada um tem a liberdade de fazer o que lhe der na mona. Não discuto. No entanto, no caso vertente, a preocupação manifestada pela mímica do trabalhador permitiu-me concluir que o senhor afinal tem medo. O homem devia pensar que era imortal. Mas consegui demonstrar-lhe que era mais mortal do que imaginava e a curto prazo. Trata-se daquele género de pessoas que, se um dia lhe acontecer algo de grave, então, a responsabilidade é do destino que lhe pregou uma partida, um azar dos diabos. Nessa altura aqui d’el-rei. Fiquei mesmo incomodado. Não consigo compreender estas situações. Tive mesmo vontade de lhe perguntar: - O senhor é estúpido? Claro que poderia receber uma resposta meio torta, mas estou perfeitamente convencido de que a última coisa que lhe poderia ser assacada seria a da estupidez, ou melhor, nunca seria capaz de admitir que é estúpido. Mas é mesmo!