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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Milagre dos juros da dívida pública resplandece em Maio...

1. Em Post editado a 27 de Maio - “Endividamento pode valer a pena, afinal...” - procurei por em evidência o que me pareceu ser um comportamento anómalo da rubrica de “juros e outros encargos da dívida” que, nos primeiros 4 meses do ano, segundo a informação oficial da execução orçamental, apresentava uma queda de 15,2% em relação ao período homólogo de 2009.
2 Esse comportamento não era normal uma vez que (i) o saldo da dívida pública directa apresentou, nesse mesmo período, um crescimento médio de 12,5% em relação ao valor observado em 2009 e (ii) as taxas de juro subiram bastante como é do conhecimento público.
3.Portanto, com uma dívida maior e com taxas de juro mais altas, conseguimos o milagre de ter encargos bem menores…um verdadeiro milagre do “definhamento dos juros”…
4. A estranheza da situação era aguçada pela explicação oficial dada no texto para tão estranha evolução: o comportamento intra-anual desta rubrica da despesa…
5. Mas isso não dá para entender pois se a razão fosse essa, também os encargos nos primeiros 4 meses de 2009 teriam sido mais baixos – não dá mesmo para entender, em suma!
6. O mais curioso é que em Maio o fenómeno da queda dos “juros e outros encargos da dívida” ganha uma dimensão impensável: uma queda de 25,1% sobre o mesmo período de 2009!... Com o saldo da dívida sempre a subir (os mesmos 12,5%) e as taxas de juro sempre a aumentar!
7. E a mesma seráfica explicação oficial para este paradoxo contabilístico: o comportamento intra-anual destes encargos…
8. Atentando nas contas da execução orçamental de Maio, constata-se até que esse milagre do “definhamento dos juros” ajudou muito a compor as contas…
9. Bastava que estes encargos tivessem sido iguais aos do mesmo período de 2009 – o que já daria motivos para festejar – para que o crescimento da despesa corrente do Estado até Maio saltasse para 4,3%, muito acima da taxa de crescimento divulgada de 1,9%, deixando muita gente profundamente ruborizada...é assim que se promove a consolidação orçamental?
10. Vamos então ver o que nos trazem os próximos meses - seria a coisa mais
engraçada chegar ao final do ano com o “milagre do definhamento” dos juros
consumado…e se a explicação do comportamento “intra-anual”
resistir até Dezembro, isso seria admirável!

Ninguém parece querer ficar isento...

... de contribuição para aumento da confusão neste caso das SCUT que o vão deixar de ser.

Acabo de ouvir um presidente de câmara a declarar que a proposta do Governo a que Vítor Reis se refere no post infra, é uma "perfeita idiotice". Porquê? Porque «um concelho não é uma rede homogénea em que todas as pessoas tenham um nível de rendimento semelhante» e «há pessoas com rendimentos elevados e outras com baixos, significa que os ricos de um concelho considerado com baixo poder de compra passam de borla e os pobres do concelho ao lado pagam».
Qualquer dia ainda vejo algum PSD, inflamado, a gritar "os ricos que paguem a crise!"
Quando se trata de coisas sérias, seria bom que existisse consciência de que a demagogia tem de ter limites. Ou será que me passou despercebida a revolução ocorrida em Faro, em que os serviços onerosos prestados pela câmara discriminam os munícipes em razão do rendimento que auferem?
.
Noutro plano, passado que seja este lamentável cortejo de disparates em que se transformou o debate (?) sobre o fim das SCUT - vidé o espectáculo dado no "Prós e Contras" de 2ª feira passada - valia a pena reflectir no essencial, na validade do modelo Cravinho de financiamento para as estradas - e não só - ainda vigente, para a necessidade de reponderar todas as políticas públicas na óptica de um mundo que não será mais o mesmo depois da crise, esforço a que, e muito bem, apelou o senhor Presidente da República. É que enquanto todos incendeiam a discussão sobre uma solução prometida a Bruxelas, solução que pelos vistos o governo que a prometeu não tinha, esquece-se que há umas semanas atrás o mesmo governo autorizou a adjudicação da subconcessão rodoviária do Pinhal Interior e os protestos, ténues, finaram-se em poucos dias...

Vai mais uma isençãozita ?

Primeiro não tinha custos para o utilizador.
Era a grande invenção socialista.
Um verdadeiro ovo de colombo.
Até que chegou o dia em que é necessário começar a pagar.
E parece (digo parece) que não há dinheiro suficiente.
Então, cria-se um chip.
Outra grande invenção.
Mas surge um problema.
Um pequenino problema.
O principal partido da oposição decide (e muito bem) que têm todos que pagar.
Aí, o Sr. Primeiro Ministro concorda com a proposta do PSD, mas apresenta uma novidade.
Tem que haver isenções para os residentes e as empresas.
Mais outra grande invenção!!
Quando se pergunta pelos critérios dessa isenção...
Será uma brincadeira ?
Inqualificável certamente.
O Governo e o PS decidiram jogar ao gato e ao rato com os portugueses.
Nuns dias dizem-nos que temos que pagar. Noutros dias pretendem fazer crer que vamos pagar portagens por culpa da oposição.
Até porque, se dependesse deles, haveria mais uma isenção.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Alô, alô, daqui PlanIT Valley


Portugal foi eliminado do Mundial de futebol mas a vida continua. É verdade que vamos ter saudades destes dias em que os jornais eram muito fáceis de ler, só a primeira e a última página, porque tudo o resto era futebol, poupavam-se assim os detalhes arrepiantes da crise económica e as opiniões dos que sobre ela divagam. Os telejornais também eram levezinhos, praticamente só as legendas a correr porque de resto era tudo frissons desportivos.
Mas não seja por falta de matéria prima que a imprensa vai encolher a torrente noticiosa. Hoje mesmo, talvez prevendo o desânimo nacional, tivemos uma notícia estrondosa: vamos ter a primeira cidade inteligente do mundo, PlanIT Valley, em Paredes! Sim, isso mesmo, pioneiros como sempre, arrojados como nunca, erguemo-nos dos vales da derrota na bola para atirar uma bolada aos adormecidos da tecnologia mundial.
Segundo o Presidente da Cisco, esta multinacional descobriu um oásis em Paredes, Portugal, onde vai “desenvolver milhões de sensores para esta cidade inteligente, um projecto único no mundo. É aquilo a que chama de "smart connected communities". O que teremos é a próxima geração da internet, que é a internet das coisas e teremos tudo interconectado”. Todos ligados a tudo, em tempo real, sem sair de casa, suponho eu, tudo à distância de um clic, chips por todo o lado a facilitar-nos a vida, mas haverá certamente ocasião de tirarmos todas as dúvidas, as obras vão começar já já.
Chamou-me a atenção, para além do desenho futurista, tipo cidade ficção científica, o facto de já se tratar de um PIN (Projecto de interesse nacional), que não exigirá nem um tostão do Estado e que quem o vai fazer “não tem salário mas apenas acções”, uma prova de confiança absoluta no êxito do projecto.
Mas a parte da notícia que mais me entusiasmou foi a explicação dada para que esta maravilha única no mundo tenha escolhido este pobre e deprimido País para se instalar, logo aqui, onde os nativos não encontram ponta de esperança ou rasto de fulgor. Soube-me mesmo bem saber que factores decisivos foram “ensino de qualidade; engenheiros bons e mais baratos do que os norte-americanos; e pessoas colaborantes". A perspectiva destes novos descobridores é a de que, dentro de 5 anos, já floresçam em Paredes 12 mil empresas e que esta cidade inteligente venha a contribuir com 5% do PIB.
Ah, portugueses, aqui estamos nós a dar novos mundos ao Mundo, apesar da derrota no mundial! Para que é que nos maçam com notícias sobre a falta de capacidade de financiamento da banca?

Espanha 1 - Portugal 0

É sempre difícil ver acabar um grande sonho, transformado num desígnio nacional. As expectativas foram colocadas num patamar muito elevado e agora a desilusão é muito grande. Pelas notícias que li e os comentários que ouvi – as televisões estão a discutir em cima do acontecimento as “culpas” da derrota – a nossa equipa foi insuficiente para superar a equipa adversária. Antes do afastamento Portugal era bestial, mas agora que foi eliminado os comentaristas de serviço aí estão para revelar que a selecção tinha, afinal, “pés de barro”. É sempre assim. Perante um mau resultado, a crítica tem campo fértil para vencer.
E agora que a selecção está de volta, voltemos, então, à realidade. Está tudo muito parado. Tirando as SCUTS...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Constitucionalidades...

As questões de constitucionalidade e inconstitucionalidade estão na ordem do dia. E bem, porque havendo dúvidas, por maior que seja a urgência, a justiça e/ou a necessidade das medidas de austeridade, ou de quaisquer outras, o rigor do processo legislativo e a segurança jurídica, a que se juntam os direitos fundamentais dos cidadãos, devem ser sempre garantidos.
Não há normas mais ou menos constitucionais do que outras, nem há urgências mais urgentes do que outras, que justifiquem que havendo dúvidas fundadas as mesmas não sejam resolvidas.

Nem tudo vai mal

Concordo com aqueles que dizem que não podemos ter uma atitude de permanente pessimismo. Por isso, aprecio os casos notáveis de empreendorismo que a espaços vão surgindo. Para além de se multiplicarem os exemplos de que a socialite continua em grande dinamismo atendendo somente ao índice de eventos sociais que enchem as páginas de revistas e jornais (aliás, as da especialidade são das mais vendidas), contribuindo assim para o crescimento não tanto do produto mas seguramente de algumas produções, a imprensa revela-nos agora que rebentou uma guerra comercial lá para os lados de Cascais. Qual o negócio em disputa? Seguramente que as melhores famílias da Linha não iriam competir em coisas menores, que não puxam ou mantêm o lustro dos apelidos, esse capital fundamental que ao longo de décadas tem sido alavanca do progresso. São os geladuchos de Cascais. Isso mesmo, gelados da mais fina qualidade, daqueles que trazem em grande preocupação os mestres de Firenze, são o alvo da enorme capacidade de gerar riqueza já demonstrada pela fina flor da sociedade. Aliás, a importância desse - como se dizia há uns anos? -  cluster económico, já tinha sido sinalizada numa das crónicas semanais do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o que prova que se trata de facto maior no que respeita à economia, e mais do que isso, à dinâmica do nosso tecido empresarial, que, como se sabe, é do melhor, do mais educado, do mais bronzeado que se pode encontrar no velho continente.
Da dramática disputa sobre o controlo do negócio do gelado, dá-nos conta o semanário Sol num artigo significativamente titulado "Guerra de gelados agita Cascais".
Ainda há esperança...

domingo, 27 de junho de 2010

Sobrescrito

Sábado. Manhã de rituais. Entro na pequena papelaria, escolhos dois jornais, o diário e o semanário, e coloco-me junto ao balcão para os pagar. Tive de aguardar, porque uma senhora, que devia ter ultrapassado os setenta anos, de aspeto fino, voz suave e delicada, demonstrando tiques diplomáticos e olhares a desafiar a cultura, estava prestes a pagar as suas aquisições, quando perguntou à menina: - Desculpe, tem sobrescritos com janela? Ao ouvir a palavra sobrescrito dei um salto de meio século no tempo. Vi-me subitamente de calções, no largo da Estação, ao princípio de uma quente noite de verão em que o cheiro da tília se fazia sentir com intensa atividade. Férias grandes, as desejadas, em que os petizes se sentiam livres das agruras e violências escolares. Durante mais de três meses gozávamos uma liberdade única, em que conseguíamos evitar a menina-de-cinco-olhos, as canas da índia, as humilhações e os insultos, os bicos dos sapatos e as mãos papudas dos educadores. Um período em que, apesar das muitas asneiras que fazíamos, os castigos familiares não tinham, nem de perto, nem de longe, uma carga negativa característica das “prendinhas” dos professores que, de forma contínua e reiterada, se vangloriavam das suas façanhas. Se fosse hoje, e por muito menos, alguns já estariam atrás das grades de uma prisão. Mas não, na altura eram o máximo da pedagogia e nós é que pagávamos.
O cheiro a tília, o calor e a liberdade de prolongar até mais tarde a ida para casa eram regalias que não posso esquecer. Ao ouvir “sobrescrito”, vi-me nessa noite frente ao estabelecimento do Zé do Café. Como era verão, o altar televisivo, que na altura atraia pequenas multidões de fiéis, era deslocado para o exterior, onde, num pequeno pátio, as pessoas se sentavam como se estivessem no cinema ao ar livre.
Gostava de ver televisão debaixo do céu estrelado, saboreando a brisa da noite e o perfume das tílias. Nessa noite, a noite do “sobrescrito”, parei com a minha bola debaixo do braço e fiquei preso à figura do padre Raul Machado e as suas Charlas Linguísticas. Apesar da minha idade, já compreendia algumas coisas que o senhor, com uma voz grave e forte, ia explanando, socorrendo-se de um quadro preto igual ao da minha escola onde deslizava o giz. Explicava o senhor que a forma correta não era envelope, mas sim sobrescrito. Envelope vinha dos franceses e nós já tínhamos uma palavra. Chegou, inclusive, a mostrar um papel escrito e depois fechou-o dando-lhe o formato de carta, como nós conhecemos, e escrever o endereço sobre o “escrito”, daí sobrescrito. Posteriormente individualizou-se a fim de colocar dentro o escrito. Interessante. A partir dessa altura quando me mandavam ir ao senhor Costa buscar papel de carta e um envelope, eu entrava e dizia – Por favor, queria um papel de carta e um sobrescrito.
Estas recordações surgiram à velocidade da luz e foram interrompidas quando a menina, sorridente, pediu à senhora: - Desculpe, será que a senhora podia explicar-se melhor? A senhora, apanhada de surpresa, tentou encontrar um sinónimo, mas balbuciava sem lhe sair nada, até que, educadamente, intervim explicando à menina da papelaria: - A senhora quer um envelope. Dois ahs, um de surpresa, a da menina, e o outro de alívio da senhora. Disse que em termos linguísticos ambas as formas podem ser usadas, mas, de facto, a mais correta era sobrescrito. A senhora de idade agradeceu e comentou algumas dificuldades que sente em fazer-se entender, talvez por ter estado fora muito tempo e a incompreensão como são tratados os tempos do conjuntivo, esboçando um discretíssimo sorriso. Foi a minha vez de pagar. Entreguei uma nota de cinco euros e deveria receber cinquenta e cinco cêntimos, mas deu-me apenas cinco. Fiquei na dúvida se trataria de um erro de cálculo mental ou um inesperado aumento, mas, para não causar qualquer embaraço, saí, verificando que não tinha havido agravamento do preço. Restou o sorriso e a frescura da menina e as recordações que me fez viver graças ao seu desconhecimento sobre o significado de sobrescrito. Valeu bem os cinquenta cêntimos de prejuízo...

"Eles são piores alunos"...

Estava a ouvir uma reportagem na TVI – “Eles são piores alunos” - sobre a avaliação dos alunos em que o tema central era o aproveitamento escolar dos rapazes. Achei graça aos comentários das raparigas e dos rapazes.
A reportagem procurava mostrar porque é que eles, os rapazes, são piores alunos que elas, as raparigas. É sabido que as raparigas são em geral mais aplicadas, mais compenetradas, mais crescidas do que os rapazes. Os rapazes, ao contrário, são mais distraídos, gostam mais da brincadeira e são mais acriançados até mais tarde.
Estas características têm implicações ao nível do aproveitamento escolar. Em geral, o insucesso escolar tem maior incidência nos rapazes. Esta diferenciação de características explica em muito o crescimento acentuado dos níveis de acesso bem sucedido das raparigas ao ensino superior, ultrapassando em muito os rapazes. Há, aliás, licenciaturas dominadas por raparigas.
Nada que não possa ser corrigido, ou pelo menos atenuado, com o trabalho coordenado de todos os intervenientes mais directamente ligados ao trabalho escolar dos rapazes, os professores e os pais. Mas sem a colaboração dos rapazes será sempre difícil contrariar aqueles traços.
Um dos miúdos entrevistado explicou assim o pior aproveitamento dos rapazes, a começar pelo seu: Falo mais do que oiço, porque tenho duas bocas em vez de uma e um ouvido em vez de dois. Com uma certa ingenuidade se dizem as verdades. Engraçado porque se aplica a muito boa gente...

Alegres presidenciais

O Partido Socialista decidiu acelerar o calendário das presidenciais.
Manuel Alegre apanhou a boleia.
Desta forma procuram retirar espaço a Cavaco Silva e acima de tudo desviar as atenções do estado a que chegou o nosso país.
Importa por isso colocar algumas perguntas que considero pertinentes face ao actual momento.
Manuel Alegre tem alguma autonomia estratégica face ao PS para conduzir a sua campanha eleitoral ?
Porque será que ainda não ouvimos a opinião do candidato sobre o estado do país ?
E sobre as medidas que o Governo do "seu" Partido Socialista anda a tomar ?
Será que Manuel Alegre acha que pode perguntar a Cavaco Silva o que é que o Presidente da República fez para evitar o estado "insustentável" do país, esquecendo-se de dirigir a pergunta ao seu principal apoiante José Sócrates ?

sábado, 26 de junho de 2010

Pessoal e intransmissível

Por vezes consigo ouvir ao fim da tarde o programa “Pessoal e Transmissível”, durante o qual são feitas interessantes entrevistas. A última foi com James Ellroy, escritor norte-americano, autor de várias obras. A curiosidade aguçou-me o apetite, reforçada pela forma pausada e sintética como falava, à semelhança da sua forma de escrever. As respostas às perguntas caracterizavam-se pela heterodoxia e por um profundo jargão. Ao fim de poucos minutos já me apercebia de que a resposta iria fugir a quaisquer convencionalismos e, sem entrar em contradição, rematava as suas opiniões com um “estou-me a cagar”. Pode ser que seja um misantropo, atendendo à forma como vive e se relaciona com o mundo. Não é que estranhasse tais condutas, mas num escritor julgava ser impossível, a não ser que estivesse a mentir ou a manifestar alguma forma de diletantismo. Mas não, o homem parecia ser sincero e direto.
“Estou-me a cagar”! Lembrei-me, a propósito desta forma peculiar de exclamação, quando terminava algumas das suas frases, dos detritos de cães que andam por aí a conspurcar passeios e jardins. Os donos, durante os passeios, não têm quaisquer cuidados e, deste modo, dia para dia vão-se acumulando marcas da passagem dos canídeos, ou melhor, marcas das passagens dos humanos, porque os animais, c´os diabos, não são obrigados a eliminar os dejetos em casa ou numa qualquer latrina pública. “Cagam e andam”, como é usual dizer-se. Mas não são só eles. O pior é o exercício que, diariamente, muitos de nós tem de fazer para não ser premiado em muitos campos de batalha e zonas próprias de emboscadas. Face a esta situação, há que restabelecer e fazer cumprir normas que evitem atentados deste género. Mas não é só a nível dos passeios, o problema também se coloca em parques, incomodando muitas pessoas. Claro que estas têm todo o direito de protestar, mas chegar ao ponto de quererem impedir que os donos passeiem com os seus animais não me parece ser uma solução correta, porque o binómio homem-animal é demasiado importante para ser ignorado e as vantagens decorrentes são muito positivas. Como não há bela sem senão, surge o incómodo que constitui o tema desta crónica. As próprias autoridades têm de ser mais participativas e vigilantes e não optar por soluções fáceis do tipo: “aqui não podem entrar cães”. Uma solução disparatada, sinónimo da arrogância humana face às outras espécies. Também não sou adepto de proibir a entrada a seres humanos, se bem que, às vezes, seria desejável, sobretudo aos que não têm cuidados com o não uso de trela, e de açaimos para os cães de raça perigosa, e aos que não limpam a merda dos seus animais. É necessária a existência de infraestruturas adequadas, bebedouros, “pipicans”, locais para lançar os dejetos e espaços próprios para que os animais possam correr à vontade. Mas é preciso igualmente uma vigilância policial para “ensinar” os menos responsáveis e uma demonstração inequívoca de bons procedimentos por parte dos que sabem e gostam de viver com os animais.
A minha cadela morreu há cerca de um ano e meio, de velhice, tinha já feito dezoito anos. Encantadora, foi tratada como um elemento da família e encheu-nos de muitas alegrias. Um dia, o “meu” carteiro, no decurso de uma consulta, derivou para os animais e disse ter assistido a algo que lhe chamou a atenção e que o tinha sensibilizado. – Ah sim! E o que foi? - Reparo que ao fazer a distribuição, a sua esposa limpa no passeio as sujidades da Boneca. Com bom carteiro sabia o nome do animal, não só porque ouvia chamá-la, mas também porque entregava a correspondência da veterinária endereçada a “Boneca” Massano Cardoso! Esta coisa de anexar o meu apelido ao nome do animal deixava-me perplexo, mas divertia-me. – Pois faz. Tem de ser. – É pena que as outras pessoas não façam também. – Pois é! É tudo uma questão de educação. Estou fortemente convicto de que com o tempo as pessoas irão proceder da mesma forma. O carteiro ripostou sorrindo: – Isso é que era bom, mas não acredito. – Vai ver, é uma questão de tempo.
Pessoalmente estou convencido de que irá acontecer, porque muitos donos não podem "estar a cagar-se" para os outros cidadãos, e não devem esquecer que a merda de cão é "pessoal" e não "transmissível".
Toca a limpar e toca a brincar.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ainda a propósito de José Saramago

Os mesmos que à esquerda têm passado as últimas semanas a falar da necessidade de unir em vez de dividir, usaram o falecimento de José Saramago para incentivar as clivagens existentes na nossa sociedade e em especial para atacarem o Presidente da República.
As ausências no funeral de Saramago foram o motivo. O Presidente da República o alvo.
Para essa esquerda que tem uma memória muito curta e selectiva, transcrevo algumas afirmações de José Saramago numa entrevista ao DN, em 9 de Novembro de 2005, antes das últimas eleições presidenciais:
"(...) Nunca tive medo de dizer o que penso. Há 48 horas disse que Cavaco Silva é um génio da banalidade e mantenho, da boca dele só saem lugares-comuns. (...) Não se pode estar de bem com toda agente e não vou cair na banalidade de dizer que tenho de estar em paz com a minha consciência. Isso é uma banalidade e eu não sou Cavaco Silva. (...) No caso de ganhar Cavaco Silva, não é que não o reconheça. Não se trata disso. Apenas não consigo imaginar este país tendo como Presidente da República uma pessoa como Aníbal Cavaco Silva. Custa-me. Provavelmente não estarei em qualquer evento oficial com ele. (...)"
Depois destas afirmações qualquer um seria levado a respeitar a vontade de Saramago.
E acho que o Presidente da República fez muito bem em respeitar essa vontade.

Agravamento da crise da dívida...e uma proposta original

1. Distraídos com as peripécias do World Soccer na África do Sul, nem nos damos conta de que na frente financeira se assiste a um agravamento da crise das dívidas soberanas - nesta altura a Grécia tem de pagar mais de 10% na dívida a 10 anos (!), Portugal e Espanha continuam sob suspeita dos investidores, à medida que vão emitindo dívida, vão pagando cada vez mais caro.
2. Neste contexto, percebe-se que as soluções ensaiadas pela União Europeia e pela Zona Euro em especial parece não convencerem os mercados (os temíveis “especuladores” na retórica da desculpabilização dos apaniguados do regime...) – nem mesmo a criação do “Fundo de Apoio às Vítimas da Especulação e das Agências de Rating” (FAVEAR), apesar de ter reunido € 750.000 milhões de compromissos dos Estados membros e de ter dado já a mão à Grécia, consegue superar a falta de credibilidade destes emitentes soberanos.
3. Talvez esta seja uma boa oportunidade para dar atenção a uma proposta original, avançada por um colunista do F. Times na edição de 15 do corrente, Cambiz Alikhani, visando uma solução radical para este problema larvar das dívidas soberanas da zona Euro.
4. Curiosamente, Alikhani,tal como o 4R (será visita habitual deste blog?) considera “naive” a reacção dos políticos europeus quando acusam os especuladores de causarem um problema de liquidez das dívidas europeias, iludindo dessa forma a verdadeira natureza do problema com que estamos defrontados, que é na sua opinião um problema de solvência e não de liquidez apenas.
5. Exemplificando com o caso da Grécia, Alikhani sustenta que, não fora o apoio de emergência facultado pelos seus Pares do Euro, a Grécia teria já entrado em incumprimento, necessitando de uma reestruturação da sua dívida pública,tendo desencadeado um “event of default”.
6. Mas vamos à proposta de Alikhani, que se desenvolve em 4 pontos, a saber:
- Criação imediata de um Fundo Monetário Europeu (FME), que seria dotado de um capital de € 750.000 milhões, valor idêntico ao do pacote de emergência acordado pelos países do Euro para o dito FAVEAR;
- A primeira missão do FME consistiria em adquirir no mercado a totalidade da dívida grega, calculada em € 260.000 milhões, passando a negociar as condições dessa dívida com a Grécia, como credor único. Em contrapartida desta “benesse”, o FME ficaria com autoridade absoluta sobre a política orçamental e financeira grega até que a situação das finanças públicas deste país se pudesse considerar normalizada, ficando teoricamente em condições de voltar aos mercados;
- Ao mesmo tempo, o FME anunciaria que, durante um período de 18 meses, cobriria a totalidade dos financiamentos do Estado em Portugal e Espanha, tendo igualmente como contrapartida um controlo directo sobre a política orçamental e financeira dos dois países;
- A União Europeia assumiria o objectivo de, até 2015, adoptar uma política orçamental unificada – os países que não quisessem aceitar essa nova dimensão da politica europeia anunciariam desde já a sua intenção de se retirar do Euro embora podendo manter as suas novas moedas ancoradas ao Euro através de uma relação cambial explícita.
7. Alikhani sustenta que deste modo a União Europeia seria capaz de comandar os acontecimentos em lugar de andar a reboque destes como até agora tem sucedido.
8. Será este plano proposto por Alikhani técnica e politicamente viável? Tecnicamente até admito que sim, embora não fosse fácil...mas parece-me que o seu destino é o fundo da gaveta...e talvez tivesse condições para resolver o problema, quem sabe?

Mais uma confusão...

Estrada Marginal Lisboa - Cascais
(fotografia de autor desconhecido)
*
Está instalada a confusão das SCUTS (“Sem Custos para o Utilizador”) e dos chips. As pessoas ainda não perceberam bem a controvérsia. Uma coisa as pessoas sabem, é que não querem pagar. Com toda esta confusão, relega-se para segundo plano o verdadeiro problema que é o custo incomportável das SCUTS e a necessidade do seu financiamento. A ideia de que o Estado é que deve pagar volta a ganhar peso, como se o Estado fosse a solução para os problemas que o próprio Estado se encarrega de criar e as pessoas estivessem a salvo dos seus caprichos. Mas aos poucos, com a crise a ajudar, as pessoas começam a perceber que não há almoços grátis.
A oposição em peso revogou a legislação que aprova a obrigatoriedade de instalação dos dispositivos electrónicos nos automóveis. Um chumbo há muito previsto, desde o ano passado, quando a oposição votou contra a implementação obrigatória dos chips. Talvez que a revogação agora votada pudesse ter ocorrido há mais tempo. Porquê deixar tudo para a última da hora?
O Governo já anunciou que a partir do dia 1 de Julho o pagamento de portagens das SCUTS do Norte vai mesmo entrar em vigor, mas espera agora que o PSD volte atrás e que afinal revogue o chumbo dos chips. Como a votação é intercalar, porque ainda a falta a votação final global, parece que o chumbo não tem, afinal, implicações legais, já que a legislação revogada continua em vigor e só deixará de estar após a votação final global, promulgação do Presidente da República e publicação em Diário da República.
No entretanto, o Governo vai reafirmando que o pagamento de portagens das SCUTS e a instalação dos chips nos automóveis vão mesmo para a frente no dia 1 de Julho. Nem que seja por uns dias, digo eu. E depois? Deve-me estar a escapar alguma coisa. Não seria melhor o Governo/PS parar para pensar e para negociar com calma com o PSD?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Orvalho de São João

Véspera de São João. A manhã apresentou-se com um colorido cinzento prenunciador de uma tarde quente. Faltou o orvalho, cujas gotinhas, muito suaves e cálidas, são de encantar. Afagos de lembranças de muitos dias de São João.
Fui à terra, porque à tarde tinha de participar numa reunião do Conselho de Segurança. Como ainda não eram horas para almoçar, aproveitei para desfrutar o tempo lendo o jornal e saborear um café debaixo de um chorão adolescente mas viril e viçoso. Ainda consegui deitar uma olhadela a três páginas do livro “Margarita e o Mestre”. Livro fabuloso e, ao mesmo tempo, inquietante. Foi quando me interromperam, convidando-me para ir almoçar à feira. – À feira? Ah! Sim, hoje é quarta-feira, dia de feira. Não me fiz rogado e acompanhei-os. Nem perguntei qual era a ementa, vi logo que deveria ser frango assado. Com esta é a terceira vez que vou ao Teixeira. As outras duas foram durante a campanha eleitoral para as últimas autárquicas. Recordo que foi muito agradável, quer pelo convívio quer pelas histórias que ouvi, além de ficar a saber que frango assado com vinho branco fresco é mesmo bom. Desta vez não fiquei de boca aberta quando me puseram em frente uma valente pichorra do dito. As razões para esta opção são muito fáceis de explicar, o tinto da feira não presta. Uma razão como qualquer outra. Mas esta ao menos é válida. Sentámo-nos na mesa mais afastada do assador, para não sermos vítimas da mesma violência que os pobres frangos, debaixo de um toldo. Os animais vinham trinchados em peças muito pequenas, mas saborosas, inundadas de picante. Não estava com muita fome, mas foi sol de pouca dura, porque ao meter o primeiro bocado na boca fiquei com um apetite dos diabos. Até as próprias batatas fritas, com as quais tenho de me acautelar por razões de conflito metabólico, perturbaram a minha razão. E, assim, calado, deixei aos meus parceiros a primazia na conversa, enquanto ia, de peça em peça, de asa em asa, de coxa em coxa, dando cabo dos pobres animais, ao ponto de, por instantes, ter ficado com um problema de consciência ao recordar o “Diálogo do Frango e da Franga” de Voltaire! Mas um delicioso trago do saboroso e fresco branco conseguiu, rapidamente, afugentar a alegoria do filósofo.
Conversas de ocasião, histórias, relatos e comentários, uma miscelânea típica a refigurar a própria vida das feiras com as suas encantadoras diversidades.
Uma das histórias fez-me estremecer de alegria, porque pensei que o meu colega de infância já era avô. Mas acabei por verificar que tinha sido fabricada durante uma viagem para brincar com o meu amigo. Confesso que antes de ter detetado a tramoia fiquei aborrecido por não me ter dito nada. Não posso esquecer que pertencer ao clube dos avós é algo de muito importante, dá-nos um estatuto único e devemos partilhá-lo. Afinal foi uma construção urdida para lhe criar algum embaraço. E não foi difícil perceber isso. Enfim, só a amizade pode gerar estas historietas.
A outra história prende-se com facto de o recinto da feira estar no corredor de entrada e saída dos helicópteros. Os Kamovs são umas bisarmas e fazem um estardalhaço tal que, em dias de feira, levam tudo pelo ar e, depois, quem tem de pagar os prejuízos é a câmara. Há tempos, o helicóptero ao levantar voo sugou literalmente a tenda dos comes e bebes. O efeito aspirador foi de tal ordem que até os frangos voaram, assim como os ossos dos pratos. Só não voaram os que estavam a ser assados e bem presos na grelha. O pior foi a seguir quando começou a chover ossos de frango na feira! Desta vez foram roupas e tendas, 258 cuecas de senhora, 83 casacos e dezenas de meias, a maioria das quais caíram na ribeira. Os feirantes foram queixar-se. Acontece que, como seria de esperar, não tinham faturas, acabando por ser atribuído um valor residual às diversas peças. Perguntei se tinham contado todas. O meu amigo, vereador, disse-me que sim e eu perguntei quem foi o desgraçado. Quando soube ri-me, porque não consigo vê-lo a contar as cuecas peça a peça e ainda por cima enlameadas. - Vê lá tu. Isto não pode continuar. Estamos a pensar em distribuir os feirantes pelas ruas e sair daqui. Da outra vez tivemos que pagar 1.500 euros aqui ao Teixeira dos frangos, e agora foram mais 3.500. Enquanto me contava mais este episódio, reparo que estava mesmo ao lado da ribeira junto a um daqueles faróis próprios da aeronáutica. Pensei: - Estou com sorte. Hoje ainda não levantaram voo, senão ainda poderia levar com uma chuva de ossos de frango - é que o meu prato já estava cheiinho -, ou com uma chuva de cuecas de senhora ou até cuecas com ossos! Chuva por chuva prefiro o orvalho de São de João.
O almoço soube-me bem, a companhia encheu-me o espírito e o ambiente aldeão libertou-me da ansiedade do dia-a-dia.

Ainda que mal pergunte...

... que têm os tribunais que ver com este assunto?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Aprender matemática com os olhos...

Nesta época de exames, o Público de hoje publica em Caderno Especial dedicado à Matemática. Da sua leitura resulta um melhor conhecimento dos problemas que se colocam ao ensino da disciplina. Entre os quais avulta a peregrina, mas inominável ideia, de que a aprendizagem tem que ser lúdica, tem que dar prazer.
Para alguns, "quando os estudantes aprendem (matemática...) com os olhos e com as mãos é melhor". Acontece contudo que "a matemática ainda se faz muito com papel e lápis...".
Pois é, tanto ensinam matemática com os olhos, que a maioria dos alunos nem a pode ver!...
PS: A Sociedade Portuguesa de Matemática é digna de encómios pela posição que vem mantendo e mais uma vez reafirma: aprender matemática exige esforço, exige papel e lápis, exige praticar, praticar, praticar. E que se saiba a tabuada. E que se eliminem as máquinas de calcular nos primeiros anos. Reaccionários, digo eu!...

Terra pródiga


Não é que precisemos delas para nos puxar pelas lágrimas - tantos os motivos que nos dão para chorar baixinho... - mas este ano a horta que me ocupa um cantinho do jardim, foi pródiga em cebolas.
Tal como o casal de velhotes do delicioso post publicado aqui pela Suzana, também eu vou montar banquinha à porta e tentar compensar com estas cebolinhas do mais biológico que há, o rendimento que a crise levou.

Competição a quanto obrigas!

Há dias comentámos aqui o episódio do exame de admissão a estágio a que a Ordem dos Advogados decidiu submeter os novos licenciados em Direito pelo regime de Bolonha. Do outro lado do atlântico a competição entre as escolas de Direito por um lado, e os licenciados no mercado de trabalho, leva a isto que se pode ler neste artigo do NYT.


De novo, produtos tóxicos, agora na economia

Dois Professores, Prémio Nobel da Economia em 1997, Myron Scholes e Robert Merton, estiveram entre os fundadores do Long Term Capital Management, Fundo de Investimentos que faliu em 1998, depois de ter atingido 20 mil milhões de dólares de activos, causando um abalo enorme no sistema financeiro.
Economistas matemáticos, criaram produtos financeiros derivados (derivativos) de alto risco que, por um sistema de compensações associado, assumiriam teoricamente uma probabilidade ínfima de incumprimento. Modelos matemáticos sofisticados e sistemas potentes de cálculo analisavam volumes gigantescos de informação em tempo real, permitindo a escolha dos investimentos, verdadeiras apostas em alta velocidade.
Os génios da matemática proliferaram em Wall Street e procuraram substituir os analistas financeiros e investidores que privilegiavam a análise fundamental das empresas. Os primeiros foram dos maiores responsáveis pelos produtos tóxicos que inundaram os mercados e fizeram a desgraça de muitos. Os segundos, mais prudentes, tinham e têm o seu expoente máximo em Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo.
Passando do mundo das Finanças para o da Economia, também alguns iluminados Professores e também Prémio Nobel da Economia, como Krugman, vêm criando teorias, porventura atraentes na sua aparência imediata, que constituem verdadeiros produtos tóxicos que submergirão de vez qualquer relançamento económico.
Devido à má gestão das finanças públicas e a políticas económicas erradas, que trouxeram um endividamento insuportável e crise económica e social, muitos Governos foram obrigados a efectuar cortes orçamentais. Pois agora, quando uma nova política, necessária e realista, está a ser iniciada para combater a crise instalada, vêm esses génios afirmar que os cortes na despesa pública irão levar a uma crise económica generalizada. Isto é, receitam como remédio o veneno que levou à doença. Tratando-se da economia, as consequências são incomparavelmente piores do que as dos produtos tóxicos financeiros.
Abençoados Professores!…E abençoados Prémios Nobel!...

A caça aos "ricos" circula na net...

Circulam pela net cada vez mais mails indignados com o que ganham uns e outros dos cidadãos cá do burgo. Passados os escândalos que realmente mereceriam o tom escandalizado, passa-se agora à descoberta dos que simplesmente ganham acima da média, ou da mediania. Começa com um cabeçalho onde os autores manifestam o seu apurado sentido de justiça, bramando contra os escândalos de tão alargado leque salarial nacional e seguem-se as listas com os nomes dos “privilegiados”, respectivos postos de trabalho, cargos e visibilidade pública e, claro, tudo o que recebem, até ao tostão. É claro que os alvos preferidos são os políticos de toda a escala de responsabilidade, sejam bons ou sejam maus no exercício desses cargos, mas já vi um ou outro que expõe os salários de gestores, directores ou funcionários de empresas públicas ou privadas a que tenham tido acesso. Esta devassa espalha-se como um veneno, suscita invejas, assomos de raiva, finalmente propostas justiceiras de como meter isto tudo na ordem, arrasando com a escala até que tudo fique igualzinho e ordenado, numa tabela simples de não permita quaisquer ambições e que saia limpa de comparações. Escusado será dizer que não há uma palavra para ponderar as responsabilidades de cada um, ou o custo de algumas opções de vida, nem sequer o tempo e o esforço que muitos terão tido que fazer para chegar a tais níveis salariais. Isso interessa pouco, agora abriu a caça às bruxas aos que pensaram ser legítimo lutar por ganhar mais dentro da carreira ou da profissão que escolheram e que tiveram a sorte de ter êxito.
O que é interessante verificar é que ainda há bem pouco tempo, menos de meia dúzia de anos e uma crise atrás, o que era bonito e aplaudido era precisamente o êxito financeiro, o direito a subir na carreira, o mérito, o impulso da vitória. E a mentalidade abria-se um pouco, disposta a reconhecer que quem merece tem que ser reconhecido, que a perspectiva era a de viver melhor, cada vez melhor, com esforço e trabalho, com certeza, mas que havia o direito de ir subindo no patamar.
Agora, de repente, aponta-se a dedo quem tem um carro melhor, quem tem uma casa boa, quem tem os filhos a estudar nos colégios, quem tem uma velhice confortável, olha-se com rancor o vizinho, os amigos e o próximo, agora há o direito de entrar pela vida dos outros e devassá-la com o à vontade mesquinho de quem se entretém a demolir o que outros conseguiram conquistar.
Há muita gente que ganha bem e que merece bem o que ganha, precisamos cada vez mais de quem queira e saiba desempenhar com competência cargos e profissões exigentes e que devem ser bem pagas. Se deixarmos crescer este espírito “contra” o que se entende que são os “ricos”, escusamos de lamentar a saída dos que têm ambição, dos que não têm medo de se distinguir e dos que trabalham com orgulho e mérito, a lutar por uma vida de desafogo bem merecido.
Confundir tudo é perder tudo, parem lá de fazer circular mails mesquinhos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Momento de advinhação...

Antes que o dia acabe. Recebi hoje esta imagem com uma legenda que não me lembraria de pensar. Mas depois, bem vistas as coisas, até tem lógica. É o início de um acontecimento. Começou hoje...

Posso estar enganado...

... mas coisas destas, frutos ou do voluntarismo ou da sede imensa de protagonismo de alguns dos seus colaboradores, vão ser os principais escolhos no esforço de afirmação de Pedro Passos Coelho.
As propostas sobre o regime são por demasiado sérias para, num partido que se leve a sério, constituírem meras criações, intenções, convicções ou desejos de um grupo ou de uma pessoa.

O caso paradigmático da interrupção do funcionamento dos postos SOS nas estradas

O JN de hoje dá conta que até 2011 - não especifica até que mês nesse ano - deixarão de estar funcionais os comunicadores para pedidos de socorro colocados nas principais estradas do País, vulgo postos SOS, em especial naquelas que não estão concessionadas. Razão: a substituição de toda a rede de comunicações por outra mais moderna. Neste interim, a Estradas de Portugal aconselha aos utentes da estrada utilização dos telemóveis.
O caso é paradigmático. Primeiro porque prova que o absurdo não tem limites, mesmo quando lidamos com coisas muito sérias como é a vida e a integridade física que era suposto o Estado assegurar com prioridade, uma vez que se trata dos bens mais fundamentais, mas também porque pagamos antecipadamente esse serviço com os nossos impostos. Depois, porque o caso põe a nú a nossa manifesta incapacidade de planeamento.
Absurdo é o conselho dado pela Estradas de Portugal para a utilização do telemóvel. Se o telemóvel substitui o sistema de postos fixos espalhados pelas estradas, então não se percebe porque vai gastar-se certamente muito dinheiro (público, obviamente) na modernização de um serviço que tem um sucedâneo à altura. Claro que não é assim, uma vez que, como dita a experiência de qualquer de nós, nem sempre existe cobertura nas redes móveis, em especial onde as estradas são mais perigosas e mais isoladas, nem as redes de telemóveis são fiáveis ou asseguram um contacto imediato com os meios de socorro.
A falta de planeamento é o mais gritante. Manter inactivos os postos SOS por meses a fio e em toda a parte, significa que tudo vai ser substituído de uma só vez. Naturalmente que me falha a informação. Mas dificilmente me convencerão da impossibilidade de proceder à substituição por fases, e mesmo a manutenção em funcionamento do actual sistema enquanto se instala o novo. Se estas alternativas não são viáveis, caberia aos responsáveis esclarecer. Procurei esse esclarecimento onde era suposto que ele estivesse disponível, mas não o vislumbrei. Fica assim o absurdo. Mais um.

Faz de conta...

Boa ou má notícia? Continuamos a gastar como se fossemos ricos. Mas os que são ricos fazem o contrário, gastam menos. Leituras diferentes sobre a economia e o bem-estar, a crise e o futuro…

domingo, 20 de junho de 2010

Um duplo Sentido de Estado

Na morte, salienta-se o bem, todo o mal se esbate e quase sempre se esquece. O sentimento de perda a isso naturalmente conduz.
Contra o politicamente correcto, os dois mais altos dignitários do Estado Português, o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República, coincidentemente ambos nos Açores, embora se tivessem feito representar, não estiveram presentes no funeral de José Saramago. Fizeram bem.
Ainda não há três anos, em 15 de Julho de 2007, em entrevista ao DN, hoje recordada pelo Público, José Saramago defendia a integração de Portugal em Espanha, dizendo que os portugueses só tinham a ganhar com essa integração.
“Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal…”.
Não seria pois sustentável que os dois mais altos representantes da República estivessem pessoalmente presentes na despedida de alguém que preconizava o fim do Estado português e da República, integrando-o na Monarquia espanhola.
Cavaco Silva e Jaime Gama honraram as suas funções institucionais. Fizeram o que devia ser feito perante quem, deslocando a soberania, acabava com as funções. Denotaram sentido de estado. Mas, de forma idiota, são vergastados pela opinião publicada. Acontece que o pesar pela morte não pode tudo esquecer.
Cavaco Silva e Jaime Gama compreenderam bem a situação e agiram de forma irrepreensível.

sábado, 19 de junho de 2010

Tolerância

A intolerância é inversamente proporcional ao tamanho do mundo, o que explica o seu gigantismo desmesurado porque à medida que os dias passam a terra fica cada vez mais pequena e encarquilhada. É dolorosamente insuportável a leitura de notícias que revelam tal conduta. Intolerância social, intolerância económica, intolerância étnica, intolerância ideológica e intolerância religiosa são algumas das principais manifestações de um atavismo primário que muito dificilmente será um dia ultrapassado, abrindo perspetivas para futuros e graves confrontos.
A tragédia no Quirguistão, entre quirguizes e uzbeques, embora muçulmanos, baseia-se em velhos conflitos étnicos entre povos de origem nómada e sedentário. Conflitos étnicos e religiosos sempre na berlinda a provar a insanidade humana. Até a civilizada Europa não escapou, recentemente, a conflitos étnicos religiosos de uma gravidade inusitada.
A intolerância religiosa só é “compreensível”, embora não aceitável, devido ao proselitismo e à arrogância de superioridade por parte de muitos adeptos das diferentes confissões que pretendem impô-las aos demais. Já tenho alguma dificuldade em compreender a intolerância, mas quando ocorre dentro da mesma etnia e religião, então, é que fico mesmo confuso.
Judeus ashkenazis não permitem que as filhas estudem com as filhas de judeus sefarditas num qualquer colonato israelita. Face à situação, o Supremo Tribunal Israelita determinou que se as meninas ashkenazis não voltassem às aulas os pais teriam de cumprir duas semanas de prisão. E não é que os pais preferem ir para a prisão? Mas qual a razão para esta conduta? A resposta veio de um pai: “É como por africanos e americanos juntos. Não é possível estudarem juntas com tamanhas diferenças mentais”. Diferenças mentais?! Aqui está um excelente exemplo da conduta humana a revelar uma forma de intolerância intra religiosa. Ambos são judeus, ambos professam a mesma religião, mas não querem nada uns com os outros. Exemplo de intolerância cultivado à exaustão, fonte da criação de novas espécies humanas, não biológicas, mas culturais, a competirem para os mesmos espaços e para os mesmos patrimónios, e desejosos de tomarem conta do poder para subjugar os outros.
Diversidade, sim! Nada a opor desde que sejam respeitados os direitos e as liberdades. Não querem uma determinada religião? Então escolham a que quiserem ou nenhuma, mas cuidado para não ficarem refém de certas condutas que possam levar à intolerância.
Entre nós também existem focos de intolerância que têm vindo a ser combatidos, muitas vezes com enormes dificuldades. Um desses movimentos tem a ver com a educação sexual. Há uma corrente ideológica que há muito vem defendendo que tem de ser expurgada do ensino. Não deve haver educação sexual nas escolas, porque é uma questão privada, diz respeito apenas aos pais e filhos, e é “contrária aos valores tradicionais”. O receio por parte desses movimentos obriga-os a encontrar e a divulgar alternativas para o planeamento familiar, “dando a conhecer os métodos naturais de prevenção à gravidez” e reforçar “os adolescentes a cultivarem o amor verdadeiro”! A senhora ministra da Educação já deve saber a esta hora que pode contar com a desinteressada assessoria deste movimento, levando-a à defesa dos “valores tradicionais”. Incrível!
Considero, face aos problemas relacionados com a educação sexual, ou melhor, à sua falta, que deverá ser obrigatória, como já defendi em tempos, permitindo aos que se opõem por motivos religiosos ou ideológicos a não frequência. É um direito que lhes assiste.
A melhor forma de lutar contra a intolerância é através da tolerância sem abdicar dos esforços que contribuam para o progresso e o bem-estar da sociedade.

O outro Saramago

São naturalmente de pesar os sentimentos pela morte de José Saramago. Lamenta-se sempre a morte de um ser humano. No caso, de um escritor muito considerado, Prémio Nobel da Literatura, que projectou o nome e a cultura do país. Na circunstância, Saramago faz as primeiras páginas dos jornais e das televisões e é enaltecida aos píncaros a sua obra.
Embora politicamente incorrecto, e por isso os jornais não tratam o tema, é bom também recordar outra faceta de Saramago, a de censor, castrador da liberdade de informação e do pluralismo e de saneador de jornalistas. Enquanto responsável pelo Diário de Notícias, em 1975, Saramago impôs uma informação de sentido único, colocando o jornal ao serviço da revolução, expressão entendida como ao serviço exclusivo do pensamento do Partido Comunista Português. Para isso, utilizou todas as armas possíveis do radicalismo, utilizou o medo, expulsou comentadores, perseguiu e saneou jornalistas que teimavam em manter algum resquício de liberdade de informação. O processo de saneamento, de uma assentada, de 24 jornalistas ficou célebre, pelo método e pela violência moral de que se revestiu, depois de um Plenário de Trabalhadores, convocado de modo a vergar o espírito e a subjugar qualquer vontade da redacção não coincidente com a da direcção em que Saramago pontificava.
Creio que o Partido Comunista de hoje, pese a sua ortodoxia, não aprovaria, até mesmo se envergonharia, dos métodos censórios utilizados por Saramago.
Por ironia do destino, anos depois, Saramago foi acolhido como articulista no jornal em que foi saneador. E os media de hoje exaltam a sua figura, esquecendo a de censor. Ou a justificam, pelos tempos conturbados que se viviam. Mas não foi por falta de esforço de Saramago que então não se instalou uma nova ditadura.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dinheiro para que te quero...

Numa época em que há tanta pobreza no mundo e milhões de pessoas que nem forças têm para lutar pela sobrevivência, é louvável o apelo de Bill Gates e Warren Buffett para que os milionários de todo o mundo comprometam 50% das suas fortunas a causas sociais.
Warren Buffett reconhece no seu manifesto de intenção de doação de 90% da sua fortuna a obras de caridade que o seu compromisso deixa intocável o seu estilo de vida e dos seus filhos, que a sua família continuará a receber significativos rendimentos para seu uso pessoal e que os 10% sobrantes lhe permitirão ter tudo aquilo que é possível ter na vida.
Tenho para mim que os milionários devem ter um relacionamento difícil e até doentio com o dinheiro, nunca estando satisfeitos com cada patamar de fortuna alcançado, procurando insaciavelmente novas marcas.
Talvez que as crises profundas que se vivem agitem a consciência social desses milionários, com gestos de retorno à sociedade dos lucros que esta lhes proporciona. Um retorno reciclado que se traduzirá numa redistribuição renovada da riqueza gerada.
Poderá ser excessivo considerar que dar o que se tem é um gesto de solidariedade, quando sabemos que há por esse mundo fora quem tendo pouco ou quase nada tem sempre alguma coisa para dar.
Mas não será excessivo apreciarmos a iniciativa dos milionários Bill Gates e Warren Buffett e congratularmo-nos com a mudança que poderá acontecer. É uma esperança…

Uf!, Deco já pediu desculpas

Fiquei muito aliviada quando vi confirmado em todos os telejornais, que "não há nenhum problema com Deco, ele já pediu desculpa", todo o quase-drama devidamente comprovado pela conferência de imprensa que ocupou todos os espaços das notícias que não falaram de futebol. Ainda bem que há mais vida para além dos jogos, não fossem as tricas dos bastidores a comprovar que a política está viva e bem viva, com a moda das desculpas a fazer o seu caminho, e pensaríamos que o Mundo anda suspenso de uma bola escorredia que meteu medo aos maiores cromos que os meninos colam nos seus álbuns de estrelas. Uf!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Subsídio de estacionamento da Carris

Os motoristas da Carris têm um subsídio para "estacionamento de veículos", diz o Tribunal de Contas, no seu Relatório sobre a empresa. E os juízes dizem que não entendem a lógica de tal remuneração, porque "não é uma tarefa dissociável da função de condução".
Aí é que eu estou em perfeito e total desacordo. Um motorista é para andar e não para estar estacionado. O estar estacionado nega a função de conduzir. E se um motorista, contratado para conduzir, fica estacionado, vê-se privado de exercer a arte e é natural que aos poucos vá perdendo a mão. Como tal, tem que ser devidamente compensado.
Enfim, os juízos destes Juízes do Tribunal de Contas deixam mesmo muito a desejar...

Política de dívida pública de vento em popa!

1. É notícia de hoje: em Maio continuou a hemorragia dos Certificados de Aforro, com uma saída líquida de quase € 90 milhões...
2. No corrente ano o total de saídas já soma € 347milhões, superando as saídas totais do ano anterior, que foram € 326 milhões...
3. É caso para dizer que a gestão da dívida pública prossegue eficazmente o objectivo de eliminação dos Aforristas, essa espécie abominável, herdada do antigo regime mas agora felizmente em vias de extinção, substituída por financiadores externos bem menos exigentes em matéria de taxas de juro.
4. É sem dúvida mais moderno e mais inovador colocar dívida no mercado externo, até para aproveitar a imensa folga de que continuamos a beneficiar nesse mercado e a taxas de juro muito convidativas.
5. Temos assim motivos para concluir que a política de dívida pública vai de vento em popa!
6. E, claro, ganham os contribuintes, que assim poderão ver os seus impostos reduzidos com a diminuição dos encargos de financiamento do Estado!

A fraude de Bolonha

São raras as vezes em que me identifico com as posições públicas do meu Bastonário e as prevalecentes no actual Conselho Geral da Ordem dos Advogados. Muito menos me identifico com o estilo de intervenção que é a imagem de marca do primeiro representante dos advogados. Mas em relação à questão da admissão na profissão dos licenciados em Direito no regime de Bolonha, estou ao lado de Marinho Pinto. Tem ele inteira razão quando considera Bolonha uma fraude. A palavra, mesmo saída da boca do Bastonário, não perde impacto nem significado: é mesmo uma fraude. Para o País, mas sobretudo para os jovens licenciados.
Os resultados do exame de admissão a que foram obrigados os novos licenciados, não são um escândalo e sobretudo não constituem surpresa: não obtiveram aprovação mais do que 10% dos que a ele se habilitaram.
Não ignoro que a imposição de um exame prévio de admissão a estágio de advocacia somente para os licenciados do regime bolonhês, põe problemas jurídicos, que aliás estão em discussão nos tribunais. O que não é possível ignorar, sob pena da mais absoluta irresponsabilidade, é que para aceder a uma profissão, mesmo que seja à fase do tirocínio cuja conclusão há-de determinar se o estagiário tem ou não condições para exercer esse ofício, é indispensável possuir um mínimo de conhecimentos. Ora, se mesmo as licenciaturas em Direito com 8 semestres (quatro anos lectivos) não garantem esse mínimo, muito menos o garantem as de seis semestres (3 anos lectivos).
Recordo-me que nas duas décadas em que ensinei Direito e as licenciaturas se concluiam em 5 anos, sendo a formação complementar nos mestrados obtida em mais dois ou três, a questão que se punha era sempre a de os 10 semestres serem curtos para acomodar disciplinas fundamentais para a formação geral (ciência política, economia política, história do direito e das instituições, finanças públicas, filosofia do direito...) e as disciplinas destinadas a fornecer as ferramentas técnicas que os estágios profissionais ou a formação de especialidade mais tarde se encarregariam de afinar (direito civil, direito administrativo, direito comercial, económico, fiscal, os processos civil declarativo e executivo, o processo penal...).
E recordo-me também que tendo eu desempenhado as funções de presidente da comissão nacional de avaliação da Ordem dos Advogados num dos últimos anos da era pré-bolonha, pude nesse papel perceber que o agravamento da perda de prestígio profissional da classe se devia - entre outros factores a que os advogados instalados e a sua Ordem não são alheios -, também à falta de qualidade do ensino ministrado nas faculdades de direito, que nas últimas décadas se multiplicaram como cogumelos sem que ninguém se preocupasse em saber das habilitações científicas (já nem digo pedagógicas) de quem ali ensinava e das condições que essas novas "escolas" tinham ou não para ensinar. Era já assim quando os cursos tinham 5 anos de duração. Facilmente se calcula com que nível de preparação chegam à porta da Ordem dos Advogados, os candidatos à advocacia sem mestrado ... 

Este episódio dos exames de admissão ao estágio de advocacia é só a face mais exposta do logro de Bolonha. A menos visível, mas a que transporta mais sofrimento, é a da vida dos jovens feitos licenciados à pressa, a quem esta Europa prometeu um risonho ingresso na vida activa, que infelizmente se vai transformar num arrastado calvário de desemprego.

CP Carga - um caso paradigmático

1. Tenho aqui mencionado, vezes sem conta, que uma das razões da dificílima situação em que a economia portuguesa se encontra – obrigada a endividar-se para além de todos os limites aceitáveis – advém do excesso de recursos consumidos pelos múltiplos sectores públicos, administrativos e empresariais, que constituem um ónus insuportável para o resto da economia.
2. Esta semana o Tribunal de Contas lançou um alerta, em termos muito vigorosos, para a “necessidade de travar a extrema degradação em que estão a cair as empresas públicas de transportes”, degradação essa evidenciada em prejuízos galopantes e níveis de endividamento rapidamente crescentes.
3. Compreende-se o alerta do TC, mas também se compreende que a degradação crescente da situação dessas empresas públicas é agora um facto inelutável uma vez que:
- O Estado não tem dinheiro para lhes dar, seja em capital estatutário seja a título de indemnizações compensatórias;
- A banca, pelo seu lado, tem a sua capacidade de financiamento destes “monstros de dívida” cada vez mais limitada, devendo passar a cobrar-lhes juros “proibitivos”.
4. A única solução aparente é passarem a cobrar mais, mas muito mais, pelo serviço de transporte que prestam - o que certamente irá provocar uma reacção muito negativa por parte dos utentes, pessoas que em geral são de rendimentos baixos ou médios, já fustigadas por aumentos de impostos e por cortes em benefícios sociais.
5. Feito este intróito à temática da grave situação das empresas públicas de transportes, vale a pena referir o caso da CP Carga, empresa detida a 100% pela CP e que foi notícia esta semana por uma situação algo insólita.
6. A CP Carga, criada em Agosto de 2009, com € 5 milhões de capital social mais € 15 milhões de prestações acessórias de capital, no final de 2009 acumulava já € 14 milhões de prejuízos e nesta altura, final do 1º semestre de 2010, terá seguramente consumido a totalidade do capital com que foi dotada...apresentando já situação líquida fortemente negativa...
7. Não é possível entender este tipo de situações: que sentido faz criar uma empresa (pública, ainda que indirectamente) que ao fim de um ano se encontra em situação de falência técnica? Por que não foi decidido mais simplesmente descontinuar a actividade que constitui objecto dessa empresa?
8. É claro que esta empresa já entrou pelo caminho das suas velhas congéneres e, consumido o capital com que foi dotada há apenas 6 meses, começou a endividar-se junto da banca para financiar...prejuízos!
9. E enquanto essa empresa recorre à banca para financiar prejuízos, beneficiando ainda que indirectamente da garantia do Estado, as empresas privadas situadas nos sectores concorrenciais estão agora a ser confrontadas com “spreads” de 3, 4, 5, 6% ou mais quando pretendem recorrer à mesma banca, agravando seriamente os custos de capital e enfraquecendo a sua competitividade...
9. Este é um caminho impossível...por este andar, o endividamento do País até vai chegar “Céu”...mas pela estação do inferno!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mundial de Futebol: A empresa Portugal sem Director-Geral IV

Durante o Portugal-Costa do Marfim dei por mim a pensar que a organização de uma equipa de futebol é muito parecida com a de uma empresa industrial.
Numa empresa, não há vendas sem produção, não há produção sem aprovisionamento, não há aprovisionamento sem dinheiro. E vice-versa. E tudo soçobrará sem um back-office de suporte, e nada funcionará sem liderança e gestão que congregue e harmonize as diversas funções.
Ontem, a nossa Selecção foi uma empresa desorganizada, sem liderança e sem gestão, com os diversos departamentos a actuarem sem qualquer lógica ou objectivo compreensível.
O Departamento de Vendas, isto é, o ataque, nunca funcionou. Primeiro, porque o Director Ronaldo se armou em vedeta, ocupava o lugar dos outros vendedores, estorvava-lhes a acção e raramente estava no sítio em que devia. Os clientes das extremidades nunca eram abordados, porque o Director disputava com o vendedor Liedson os clientes do centro. E na disputa esqueciam o argumentário de venda. Sob a total complacência do burocrata Director-Geral.
Mas o Departamento de Vendas também não funcionou, porque pouco produto teve para vender. A produção, isto é, o meio-campo, ficou tolhida face às directivas traçadas pelo burocrata Director-Geral, que ordenou aos técnicos da fabricação que se voltassem sobretudo para o apoio ao aprovisionamento, isto é, à defesa, em vez de curarem do fabrico. O próprio e muito competente Director de Produção, Deco, foi desviado das suas naturais funções e depois substituído pelo burocrata Director-Geral.
Como consequência, os especialistas do aprovisionamento, isto é a defesa, ficaram manietados com tantos técnicos a actuar na sua área de acção. E começaram a trocar entre si a matéria-prima, até compreenderem a situação. Por longos períodos, o Bruno Alves passava a bola ao Ricardo Carvalho, este ao Paulo Ferreira, voltando a bola ao Bruno Alves. Até que um irrequieto especialista recém-contratado, Coentrão, pretendeu dinamizar a entrega da matéria-prima. Mas à segunda investida foi logo travado pelo Director-Geral. A páginas tantas, impedidos de praticar a sua função de municiar a produção, começaram a municiar directamente as vendas, mas nem o produto era adequado nem a distribuição se fazia com jeito. O que deu um desperdício enorme de matéria-prima. No fim, cada qual trabalhava a seu modo e a seu gosto, esgotada que foi a confiança nas orientações da Direcção-Geral, da qual deu conta pública o Director de Produção, Deco.
Defendendo-se, o Director Geral acusou os adversários de especuladores, vendo aí a causa maior de não conseguir vendas adequadas às expectativas dos accionistas.
Têm agora estes a palavra, perante a ausência de dividendos.

Funcionários públicos agora preocupados

Rezam as crónicas do dia que o Engº José Sócrates, questionado sobre se iria baixar os vencimentos da função pública para enfrentar a crise, terá respondido: "Não, não vai ser preciso".
Pela primeira vez a função pública sentiu haver razão para séria preocupação.


O verbo "encerrar"...

A discussão sobre o encerramento de escolas com menos de 21 alunos prossegue. O governo invoca o insucesso escolar para justificar a medida. É evidente que as condições escolares devem ser atendidas no ordenamento territorial escolar. Mas a meu ver não podem ser as únicas, nem tão pouco é aceitável um número mágico que sirva de referência para matematicamente determinar o encerramento. Uma escola com 20 alunos encerra, mas uma escola com 22 alunos não encerra.
O anúncio do encerramento das escolas há muito que foi decidido e planeado pelo ministério da educação e no caso em concreto com o envolvimento das autarquias. Pergunto-me como é que só agora a oposição reage a um processo que está no terreno há já muito tempo.
As escolas e outros equipamentos básicos, como por exemplo as unidades de saúde ou os tribunais, determinam a fixação ou a deslocalizam das populações no território, e consequentemente das actividades económicas, uma vez que aquelas infra-estruturas são fundamentais para a organização e a qualidade de vida das famílias.
Coisa diferente é a abordagem que deveria ser feita quando está em causa o encerramento de equipamentos públicos que são fundamentais à vida das pessoas porque interferirem em escolhas fundamentais, com consequências nas actividades económicas das regiões.
Não me lembro de alguma vez se ter feito uma discussão alargada sobre qual o modelo de desenvolvimento regional que queremos ter. Sem um modelo estabelecido não é possível garantir a coerência das diversas políticas públicas - educação, saúde, justiça, obras públicas, cultura, desporto, fiscalidade, turismo, etc. – e a sua coerência inter-temporal, nem definir um quadro estável de previsibilidade que é fundamental para as decisões dos agentes económicos. A demografia e as políticas demográficas são também factores a ter em conta.
O encerramento “cego” de escolas e de muitos outros equipamentos públicos, a que se juntam em sentido oposto investimentos públicos vultuosos, sem um fio condutor que nos oriente para onde queremos ir, é bastante perturbador em termos de sustentabilidade das regiões que ainda povoam o interior do País e coloca uma pressão economicista de curto prazo que prejudica a qualidade das decisões. E assim vamos, aos poucos e poucos, encerrando aldeias e vilas do interior. São pedaços de Portugal que, também, se vão perdendo...

Felicidade

Há dias em que sou poupado à rotina e, em vez de ficar satisfeito, sinto uma estranha inquietação, e um sentimento de fragilidade, como se fosse uma bola de trapos nas patas de um gato brincalhão. Não é que a minha rotina se confunda com os movimentos repetitivos de qualquer operário fabril, ávido do fim do dia para poder queixar-se à vontade da sua tendinite, nada disso, é uma rotina diversificada, bastante rica e suficientemente absorvente para não ter de pensar em temas que não quero abordar. Não é que tenha medo deles, penso eu, mas às tantas talvez tenha, não sei. E aqui é que surge a ansiedade e um certo mal-estar. Nem o malfadado futebol conseguiu manter-me sentado. Pudera! Sempre o mesmo. Ao fim de cinco minutos já andava a vasculhar uma revista, um jornal, fui até à cozinha, voltei a sentar-me e pressentia que não iria sair dali grande coisa. Mas como toda a gente ia comentar o assunto, também não queria passar por parvo. Não seria muito natural ter de responder a qualquer questão futebolística como: - Ah eu não vi o jogo! Não, assim ao menos podia largar o meu breve comentário, mas sem aquela profundidade e sabedoria próprias dos comentadores profissionais, verdadeiros oráculos e psicanalistas da bola. Acabou o jogo e a ansiedade da não rotina tinha-se apoderado novamente de mim. Cedo! Muito cedo e muito tarde para fazer qualquer outra coisa. Como tenho dificuldade em pensar sempre que sinto o cabelo a roçar no pescoço, lembrei-me de ir cortá-lo. Mas como se tratava de um dia que me roubou a rotina, também eu violei a rotina ao não ir ao cabeleireiro habitual. Abriu um novo junto à antiga passagem de nível. Cheguei. Não estava ninguém. Assim que me sentei, o rapaz, educadamente, começou a perguntar-me se tinha visto o jogo e qual a minha opinião. Eu tinha razão, olha se não tinha visto o jogo, como é que poderia fabricar uma empatia com alguém desconhecido e que, ainda por cima, manuseia tesouras e lâminas? Fiz o meu papel. Sóbrio, sem ter sido logorreico, mas muito longe dos comentadores da bola.
Gostei do corte.
E agora? Ainda é cedo. O que é que eu vou fazer? Lembrei-me de ir até a uma esplanada simpática e ler qualquer coisita. Um bom pretexto para beber uma cerveja ao final da tarde. E assim fiz. Sentei-me, rapei do livro de Mikhail Bulgakov, Morfina, e retomei a leitura. Um livro pequeno de um autor russo, médico, que descreve, através de uma narrativa sedutora, a vida infeliz de um colega que caiu nos braços da morfina, para a qual deverá ter contribuído a sua própria experiência de morfinómano. A ação passou-se no inverno da revolução bolchevique, 1917.
Ao fim da tarde é habitual soprar uma brisa fresca que, mesmo nos dias de sol, faz-nos estremecer sobretudo quando estamos à sombra. Estava a sentir os seus efeitos, quando para um carro grande defronte à esplanada. Olho. Reparo que dois passageiros, o que estava ao lado do condutor e o que vinha atrás, usavam máscaras cirúrgicas, denunciando que deverão estar a ser sujeitos a quimioterapia. Abriu-se a porta de trás e ouvi a conversa. Uma conversa suave mas, ao mesmo tempo, eivada de um certo conformismo em que se misturava tristeza, alegria, incerteza e dor, combinavam a ida no dia seguinte desejando saúde um ao outro. Sai do carro seguido da esposa, senhora forte, que logo se apraz a ampará-lo ao sinal de um momentâneo desequilíbrio, quase que impercetível. Houve uma primeira reação de desagrado, mas foi tão rápido que deu logo lugar à aceitação do carinho e apoio da mulher. Acenaram ao carro e dirigiram-se para casa a passo lento, ele amarelecido da doença, ela branca de preocupação, falando baixinho como se fossem namorados. Vão refugiar-se em casa, pensei. Pensei mal, porque passado pouco tempo saíram, passando à minha frente, desta vez ela mais apoiado nele. E lá foram, a falar baixinho, em direção aos raios solares, confortando-se com a brisa que soprava do oeste. Reabri o livro de Bugalkov, procurei a primeira página, e reli esta passagem: “Desde há muito que as pessoas inteligentes vêm notando que a felicidade é como a saúde, basta que exista para que deixemos de pensar nela”. O melhor é pensar mesmo nela, na felicidade, enquanto posso, e não ter que andar à sua procura...

Oh homem, ao menos não faça previsões!...

O Ministro das Finanças garantiu que Portugal engrenou numa "trajetória de forte confiança" que levará o país a ser bem sucedido na "obtenção de um défice não superior a 7,3% do PIB no final de 2010".
Mas que garantia e confiança podem dar as previsões de um Ministro que, para 2009:
a)previu um défice de de 2,2% e o défice foi de 9,3%
b) previu um aumento do consumo público de 0,2% e o consumo público aumentou 2,6%.
c) previu um acréscimo de investimento de 1,5% e o investimento decresceu -11,8%.
d) previu um acréscimo da procura interna dos 0,9% e e a procura interna diminuiu -2,9%
e) previu um acréscimo das exportações de 1,2% e elas decresceram -12%
f) previu um aumento de emprego de 0,4% e o emprego diminuiu -2,9%
g) previu uma taxa de desemprego de 7,6% e ela foi de 9,5%.
Nestas circunstâncias, é mesmo preciso grande lata para garantir o que quer que seja. Não garantiu ele também já este ano que não havia aumento de impostos? E que haveria cortes drásticos nos grandes investimentos? Que credibilidade, pois, que confiança, tais garantias podem merecer? Pelo menos, não faça previsões, que o tempo não está para galhofas!...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Navegação subterrânea...


Como é que é possível? Como é que é possível que o Estado não tenha na sua posse toda a documentação relevante do dossier da aquisição dos dois submarinos alemães, incluindo a falta de comprovativos de pagamento das prestações?
É que é impensável que uma situação destas aconteça. E não se apuram responsabilidades? Fica tudo na mesma? Onde é que entra a fiscalização? É que não estamos perante uma operação qualquer. Ainda que estivéssemos. É que já não há paciência para tanta navegação subterrânea. Incrível!

Organizar ou castigar? Faz toda a diferença.

Confesso que me irrita um bocado o modo como a questão dos feriados é trazida à praça pública, associada a mais um “sacrifício” que é necessário fazer em nome da crise e da maior produtividade. Assim, colocada como uma retirada de “benefícios”, ainda por cima cheia de entrelinhas sobre as “pontes” abusivas e mais umas quantas apreciações negativas sobre este povo de preguiçosos que têm que ser metidos na ordem, é evidente que só pode suscitar animosidades e má vontade.
Na verdade, a origem dos feriados não resultou de actos de bondade patronal ou da decisão política de adoçar a boca do povo com uns diazinhos de descanso extra. Concorde-se ou não com os critérios que elegeram as datas como merecedoras de festejo ou de respeito, o facto é que todas elas estão associadas a rituais com um sentido de celebração. Daí a dispensa de ir trabalhar, a vida também é feita de marcos e de rituais e não se resume tudo a umas contas mais ou menos fiáveis sobre o que se perde ou ganha em riqueza nacional com essas folgas.
Coisa bem diferente é considerarmos que essas mesmas datas podem ser celebradas de um modo muito mais prático, sem perturbar de modo significativo, haja ou não haja crise, a vida das pessoas e do País, até porque algumas delas são convencionais e não perdem especial significado se foram atendidas num dia ou noutro da semana em que calhem. Conheço de perto o que se faz noutros países, como a América ou o Reino Unido e não me parece nada pior que os feriados passem a transferir-se sempre para a segunda feira mais próxima, calhem ao dia de semana ou calhem ao domingo, isso permite que eles sejam usufruídos plenamente, sempre em blocos seguidos de 3 dias de descanso, em vez de andarmos aos soluços. Se há feriados a mais, e quais, já não sei dizer nem me parece nada importante, é uma questão completamente diferente e associar essa avaliação só vem atrasar uma boa solução para a questão principal, que é a organização lógica e cómoda da vida económica e laboral.
Por mim, já que agora a ideia pode ser posta em cima da mesa sem provocar gritarias indignadas como já aconteceu quando a ideia veio de outros, acho que seria um benefício. Pena é que estes temas sejam sempre atirados como punições justiceiras, como se fossemos um bando de idiotas que só percebem as coisas quando são impostas pelos moralizadores de serviço.

Retórica da Desculpabilização renova arsenal de argumentos...

1. É cada vez mais perceptível, nos discursos oficiais ou quase-oficiais, o recurso a uma Retórica da Desculpabilização...e consequente desresponsabilização pelos erros de política económica acumulados ao longo dos últimos (bons) anos e que conduziram a nossa economia ao beco sem saída em que se encontra.
2. Essa Retórica tem feito uso de uma carteira de argumentos variada:
- Em 2008/09, foi a crise financeira internacional, que certamente nos atingiu tal como a muitos outros países, permitindo-nos encontrar aí uma escapatória para problemas domésticos que nada tinham que ver com essa crise (enorme excesso de endividamento, por exemplo);
- Mais recentemente, com as sequelas da crise grega, em que as nossas específicas fragilidades estruturais se tornaram bem mais evidentes, a Retórica da Desculpabilização voltou-se contra os especuladores, as agências de rating, os americanos na sua fúria destruidora do Euro (sem Obama saber, pasme-se!), etc.
- Ainda mais recentemente, à medida que o anterior arsenal de desculpabilização ia perdendo vigor, a criatividade desta Retórica encontrou na “crise da Europa” e na “falta de um governo económico no Euro e na EU” uma nova forma de justificar os nossos graves insucessos, tentando continuar a ocultar suas verdadeiras causas.
3. Curiosamente, esta Retórica da Desculpabilização pretende passar a ideia de que “estamos a fazer o que nos compete”, “tomamos as medidas de austeridade que são necessárias e suficientes” (até ver, claro), “as nossas reformas estruturais até concitam admiração quase universal”...mas não temos culpa nenhuma da “crise da Europa” nem da “insuficiência de governo económico da EU” de que somos todos vítimas...
4. A “crise da Europa”, tal como aparece na Retórica da Desculpabilização é um conceito bastante difuso - uns falam de falta de liderança, outros em falta de ousadia, outros na falta de vontade em “aprofundar” (que bela palavra...) o projecto europeu...
5. Esse carácter difuso ajuda bastante aos efeitos pretendidos pela Retórica da Desculpabilização...quanto menos claro for o conceito, maior dificuldade terão os cidadãos para perceber que a “crise da Europa” nada tem a ver com os nossos problemas e mais tempo o argumento gozará de crédito...
6. Quanto à “insuficiência de governo económico” trata-se de uma interessantíssima ideia: para a Retórica da Desculpabilização, mais “governo económico” significará obviamente maior disponibilidade dos nossos parceiros para assumirem responsabilidade pelas nossas dívidas e para aceitar que continuemos a gastar muito para além do que produzimos...
7. De resto, a descoberta, só nesta altura, da “insuficiência de governo económico” não deixa de ser surpreendente, uma vez que nunca na EU ou na zona Euro tal forma de governo existiu...a denominação União Económica e Monetária é apenas um título, pois em matéria de política económica toda a gente sabe (ou devia saber) que cada País vive para si, faz mais ou menos o que quer com algumas excepções (nestas a política agrícola em especial).
8. O grande problema é que enquanto nos dedicarmos a esta retórica de desculpabilização isso significa que continuamos a iludir o essencial dos problemas, que não estamos realmente dispostos a enfrenta-los e a resolve-los...e não saímos disto!

Mundial de Futebol: Todos para um!...III




Pelo que tenho visto, ouvido e lido, a Selecção Nacional vai alinhar logo com a Costa do Marfim com uma equipa poderosíssima, assim constituída:
Guarda-Redes: Ronaldo
Defesas: Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo e Ronaldo
Meio-campo: Ronaldo, Ronaldo e Ronaldo
Ataque: Ronaldo, Ronaldo e Ronaldo

Caso o Seleccionador opte pelo 4*4*2 simples ou na forma losango, Ronaldo desloca-se do ataque para reforçar o meio-campo; caso opte por um 4*3*3 com triângulo invertido, Ronaldo muda de posição, colocando-se no ângulo esquerdo avançado do triângulo.
Outras soluções tácticas foram treinadas e serão postas em prática, de acordo com o decorrer do prélio. Como o 4*1*4*1, em que Ronaldo ocuparia o lugar de único avançado, ao mesmo tempo que reforçaria o meio-campo e distribuiria o jogo.
Do que não tenho dúvidas é de que, com tão excelentes jogadores e com tal versatilidade táctica, a vitória está assegurada!...

Mundial de Futebol: RTP não chora miséria II

Um número record de 32 câmaras, um helicóptero, uma câmara aranha que corre em cabos ligados às coberturas das bancadas (spider-cam), e uma ultra super slow motion da organizaçãoda FIFA vão assegurar a transmissão do jogo Portugal-Brasil. Nos outros jogos de Portugal, como o de logo à tarde com a Costa do Marfim, são utilizadas 30 câmaras.
Não contente, a RTP ainda vai ter, em cada jogo de Portugal, oito câmaras suplementares, para dar imagens ainda mais particulares e especiais. Com o apoio de 2 carros-satélite, um deles ido de Lisboa e outro contratado localmente. E, porque o material não funciona sozinho, são 19 os funcionários deslocados.
Confortavelmente respaldada nos 298 milhões de euros a receber do Estado e dos cidadãos em 2010, fora a publicidade (121 milhões de euros de indemnizações compensatórias, 64 milhões de aumento de capital, 113 milhões de taxa audiovisual), a RTP não chora miséria.
Assim, convenhamos, 30 ou 32 câmaras da organização é número miserável para assegurar transmissões de estação tão rica. Pelo que mais 8 câmaras suplementares, 2 carros satélite e 19 funcionários não deixam de ser uma ninharia em tão vastos proventos.
Nota: A SIC e a TVI enviaram oito funcionários cada e repartem entre si a utilização de um carro-satélite; por seu lado, a Sport TV, que transmite todos os 64 jogos, enviou 12 profissionais. Estes dados e os referentes aos da RTP foram retirados do jornal A Bola de 7 de Junho corrente.

Pensar livremente...

Ajudar as pessoas a pensarem e a terem uma atitude crítica sobre o que se passa no País faz muita falta. Para tal é preciso que as pessoas conheçam a realidade. Uma opinião pública bem informada, capaz de fazer o contraditório da informação estatística das fontes oficiais e formais que os agentes políticos tantas vezes utilizam para manter o status quo, será uma opinião pública mais exigente.
A regeneração dos partidos e da classe política - uma mudança que se afigura necessária - só acontecerá se a opinião pública for capaz de exercer uma pressão esclarecida.
É neste contexto de exigência e necessidade que se insere o meritório projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que lançou hoje o livro "O ensino do Português" de Maria do Carmo Vieira. Como explicou António Barreto, a colecção de ensaios que será lançada sobre temas fundamentais, na qual se insere a obra agora publicada, tem um desígnio principal: pensar livremente. Pois que assim seja e que a Fundação prossiga, com muita vontade e sentido de serviço à comunidade, os seus objectivos. Ficaremos a ganhar...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mundial de Futebol: o ronco das vuvuzelas I


Na África do Sul, o absurdo, grosseiro, monótono, enlouquecedor e insuportável ronco das vuvuzelas substituiu a alegria, os aplausos, as vaias e os cânticos dos espectadores que, nos Mundiais anteriores, prolongavam nas bancadas a festa do espectáculo no terreno do jogo.
Os espectadores não gesticulam nem aplaudem, que as mãos mal dão para suportar tais primevos, rudes e grosseiros instrumentos. Nem, tão pouco, incitam, ou gritam, nem assobiam ou protestam, nem aprovam ou desaprovam a genialidade do passe ou a entrada de pé em riste, que a boca permanece muda, ocupada a soprar a pérfida, inestética e roncadora corneta.
Os media, que foram os primeiros a divulgar as vuvuzelas e a fazer-lhes graciosamente o marketing, agora queixam-se dos efeitos e pedem a sua abolição nos jogos.
Não creio que sejam atendidos, que a populaça, independentemente da origem e dos países, aderiu à ideia. E a FIFA é das organizações mais "cafrealizadas" do mundo.

domingo, 13 de junho de 2010

A traumática tabuada indiana dos 19!...

Li no Expresso que na Índia os alunos são obrigados a saber de cor a tabuada, não apenas até aos 9, mas até aos 19. Para “disciplinar, estruturar e agilizar o raciocínio matemático dos jovens”. E para mostrar que “estudar e aprender não é um exercício lúdico e uma brincadeira, antes exige esforço, dedicação, persistência”.
Ao contrário de Portugal, em que o aluno sabe que a regra é passar e que, se por excepção reprovar, quem se mete em trabalhos é o professor.
E diz o Público de hoje, os alunos que deveriam reprovar são "desviados" para as vias profissionalizantes”. Nas quais não há reprovações!..
Corta-se o mal pela raiz e fica assim o assunto resolvido.
Em Portugal, a máquina de calcular logo nas primeiras classes tornou-se o símbolo de uma escola lúdica e facilitista, cujos maus resultados todos os conhecemos. Menos, claro está, o 1º Ministro e as doutorais cabeças do Ministério da Educação.
Ao contrário, a Índia seguiu a via da exigência na educação e está a tornar-se uma das maiores economias do mundo. Pelos nossos padrões, certamente à custa de milhões de criancinhas traumatizadas para a vida!...

sábado, 12 de junho de 2010

O fim da caneta vermelha, símbolo de opressão!...


A caneta vermelha deixou de ser instrumento adequado para corrigir os exercícios escritos. Para não “traumatizar” os alunos, o Ministério da Educação exige caneta de outra cor!...
E também para não obrigar os delicados seres a fazer exercícios escritos, mudou o nome para testes.
É o que diz a resistente professora de português Maria do Carmo Vieira, lutadora incansável por um ensino de qualidade, em livro a publicar na segunda-feira, “O Ensino do Português”, citado pelo Expresso de hoje.
Vá lá, vá lá, digo eu, ainda não estamos mal de todo. Não tarda, utilizar lápis vermelho ou azul para corrigir testes é abominável censura sobre o pensamento dos alunos. Censura perfeitamente intolerável. Como é óbvio!...

Milagres

Os períodos de hiperatividade futebolística são férteis em matéria de negócios. Imaginação aliada a uma certa dose de persuasão é mais do que suficiente para atrair consumidores. Acabo de saber que posso voltar a colecionar cromos, desta feita de forma virtual, sem gastar um centavo, basta ir ao site da FIFA e seguir as instruções. Este achado fez-me recordar velhos tempos em que fazia coleções de jogadores de futebol. Quando tinha uns tostões ia logo a correr até à tasca onde, entre outras coisas, também vendiam as carteiras. Em seguida, sentava-me num degrau qualquer e ficava cheio de esperança para encontrar os que ainda não tinha. Ao princípio corria tudo às mil maravilhas, mas com o tempo começava a ficar cheio de cromos repetidos. Ainda assim conseguia trocar alguns com os amigos. No entanto, chegava-se sempre a um ponto em que era muito difícil encontrar as raridades que, curiosamente, eram sempre do Benfica, porque na altura batia praticamente todos os outros com uma perna às costas. Em consequência, os cromos iam engrossando o maço. Andávamos com os bolsitos dos calções transformados em verdadeiros chumaços. Tínhamos que encontrar alguma utilidade para tamanho desperdício o que nos levava a jogar ao abafa (Jogo que consistia em colocar dois cromos um por cima do outro. Com a mão encurvada batia-se neles. Se algum se virasse pertencia ao abafador, se não virasse tinha que pagar um) ou ao “par ou ímpar” (Quem acertasse recebia em troca o respetivo número de cromos, se perdesse tinha que dar dos seus o mesmo número). A partir daqui o divertimento era ter o maior número possível de cromos, já que a expectativa de um dia completar a caderneta, e ganhar a respetiva bola de couro, diminuía de dia para dia, a não ser para um ou outro capaz de comprar todo o stock das carteiras de cromos onde estava o de “ouro”.
A par da coleção de cromos, também tínhamos o hábito de colecionar santinhos. Quem se portava bem recebia um santinho, quem não faltava à catequese ganhava um santinho, as tias beatas premiavam-nos com santinhos em vez de vinte cinco tostões que davam muito mais jeito. Os mais velhos faziam a comunhão e recebíamos santinhos como lembrança. Eu também fazia coleção, mas depressa verifiquei que não dava muito gozo: não havia cadernetas para os santinhos e nem estavam numerados o que impossibilitava jogar ao “par ou ímpar”, e como eram cartonados também não dava muito jeito para jogar ao abafa. De qualquer modo começava a conhecê-los e perguntava porque é que eram santos. Acabei por saber que faziam milagres, uma coisa muito esquisita, mas que decerto daria jeito em certas ocasiões quando não havia soluções para os problemas. Havia, e há, santos para todos os gostos. As pessoas da altura faziam promessas e rezas aos ditos por dá aquela palha. Curiosamente, ou não, quando perguntava se o santo ou a santa tinham feito o milagre pretendido, olhavam para mim com ar de quem acabavam de ouvir uma pergunta estúpida. Nem me atrevia a questionar segunda vez. Com o tempo acabei por conhecer muitos santos e santas, além das romarias, um bom pretexto para fugir à rotina, e saber quem foram. Para um miúdo vê-los empoleirados nos altares das igrejas era sinal de importância porque fizeram coisas que os outros não conseguiram. Mas terão feito mesmo? A desconfiança, face à ausência de milagres - parece que depois de lá terem chegado esquecem-se de continuar a fazê-los -, começou a germinar na minha cabecita. Foi então que comecei a notar que os milagres só se faziam na “medicina”. Havia santos de clínica geral, poucos, enquanto a maioria eram especialistas e até, mesmo, ultra especialistas. Olhava para a minha coleção de santinhos e à medida que ia recebendo mais um perguntava para que doença é que ele servia. Quase que me apeteceu fazer equipas, mistas, claro está, para as mais diversas maleitas, a que não eram estranhas as orações para o efeito, uma espécie de manual de “terapêutica hagiográfica”. Não foi difícil, com o tempo, concluir que o que contava mais eram as histórias à volta do pessoal. E que histórias!
Mais tarde, também fiquei a saber que fabricar um santo não fica nada barato e, às vezes, chega a demorar séculos, embora outros o consigam enquanto o diabo esfrega o olho. Deve ser quando está mais distraído. Também não sabia que “não há obrigatoriedade de acreditar nos milagres dos santos porque fazem parte das Revelações Privadas”. Assim fico mais satisfeito. Mas o que me inquieta mais é o facto de precisarem da “medicina” para chegarem aos altares. Sem um milagre médico nada feito. Realmente, pergunto: - Mas não há milagres fora da medicina? Eu sei que foi a última área do conhecimento a ser cientificada, e que ainda não está totalmente, e nem sei se algum dia estará completamente, mas o que queria saber é por que razões não ocorrem milagres nas outras áreas? Na economia, na gestão e na política, por exemplo? Que raio! São poucos, que eu saiba os milagres não médicos. Santo António protagonizou alguns, como o teletransporte de Itália a Portugal, antecipando em séculos a série “O Caminho das Estrelas”, mas não sei de foi por isso que chegou a santo, penso eu! Já era altura de serem produzidos outros tipos de milagres. A necessidade de quem os faça é mais do que evidente, mas, pelo andar da carruagem, “santos ao pé da porta” ou melhor “santos deste planeta” não fazem milagres! O melhor é colecionar jogadores da bola, até porque alguns são capazes de fazer verdadeiros milagres, de vez em quando, claro...