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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Reformas estruturais lá para fora, nada de reformas cá dentro - em que ficamos?

1. Segundo rezam as crónicas, o Ministro das Finanças terá prometido aos seus pares europeus, na reunião extraordinária do Ecofin do último Domingo, na qual foi aprovado o pacote financeiro de ajuda à Irlanda, que Portugal iria adoptar novas reformas da legislação laboral e medidas estruturais em alguns sectores – em especial na saúde e na educação – para reforçar as medidas de contenção orçamental aprovadas no âmbito do OE/2011 e favorecer o investimento produtivo.
2. A intenção do Ministro teria sido tranquilizar os seus pares quanto à consistência dos objectivos da política orçamental, que deverá ser assegurada não apenas em 2011 mas igualmente nos anos subsequentes, e também quanto à criação de condições para um desempenho mais positivo da economia.
3. A intenção do Ministro, a confirmarem-se estas indicações, até é compreensível uma vez que a Comissão Europeia divulgou cenários pouco favoráveis quanto à evolução das finanças públicas portuguesas bem como do desempenho da economia.
4. E se não houver a curto prazo sinais de que o desempenho orçamental e económico em Portugal será capaz de superar esses cenários, o recurso à ajuda financeira do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e do FMI poderá tornar-se inevitável já no início de 2011.
5. Até aqui tudo bem (salvo seja), mas eis que ontem e hoje diversos responsáveis governamentais vieram a terreiro praticamente negar as promessas que o Ministro das Finanças teria feito aos seus pares europeus.
6. Assim, o Ministro da Economia veio esclarecer que reformas são as que estão no OE/2011 e nada mais...
7. A Ministra do Trabalho, num estilo muito próprio, “esclareceu” que as alterações à lei laboral não seriam propriamente alterações mas antes uma aplicação dinâmica das disposições já ínsitas no Código do Trabalho...
8. Ouve-se tudo isto e não se percebe – será que as tais reformas (independentemente da avaliação que delas se queira fazer) são apenas para europeu ver? E que cá dentro já não contam, ou faz-se de conta que as promessas nem foram feitas – e neste caso com a gravidade e responsabilidade do quadro em que nos encontramos?
9. Depois espantem-se ou indignem-se que os mercados continuem a castigar a dívida pública portuguesa...como se os mercados não soubessem ler o significado último destas conversas desgarradas...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Torneira e garrafas...

Esta é espantosa. É evidente que temos que poupar, racionalizar e reduzir custos. E a Assembleia da República deve dar o exemplo. Tem certamente muito por onde melhorar o seu orçamento, sem colocar em causa a dignidade e a qualidade do trabalho que desenvolve. Mas esta do corte radical nas águas engarrafadas traz água no bico. Vale a fotografia do Chafariz do Largo da Achada em Lisboa. Muito pitoresco. Sem a água da torneira não o teria encontrado!

A falta que faz o planeamento...

Gostei desta entrevista, da abordagem frontal e lúcida sobre as transformações inevitáveis, assim parecem, que terão que acontecer no Serviço Nacional de Saúde. Muito do que é dito tem aplicação em outros sectores públicos que fazem o nosso bem-estar individual e colectivo. Não que a mudança seja para pior, nada disso. O ponto é que a falta de “(...) um debate alargado entre as várias forças políticas, não havendo um plano para os próximos anos com o que deve ser atingido, em que áreas, sacrificando o quê, concentrando onde (...)” conduzirá, com uma espada apontada para um corte orçamental de 6%, ao improviso, com cortes irracionais e cegos, criando disparidades locais e regionais incompreensíveis e injustas.
Não adianta, em nome de uma ideologia teimosa e de um modelo de SNS que cumpriu com méritos o seu percurso, insistir que tudo ficará na mesma como dantes ou, pior ainda, que o modelo existente será reforçado.
Não será assim, porque a crise económica e financeira vai-nos obrigar a repensar os actuais modelos sociais. Haverá um primeiro momento de ajustamentos, em que as irracionalidades e injustiças se farão sentir, como, aliás, já hoje acontece, para no momento seguinte, e acredito no prognóstico apresentado, dispormos de unidades prestadoras de cuidados de saúde mais pequenas em lugar das megas organizações, de entidades não públicas com maior peso do sector social em lugar das tradicionais unidades do Estado, de uma gestão flexível e eficiente em lugar de uma administração pública pesada envolta num complexo mapa legislativo que tudo determina centralmente reduzindo a margem de manobra para soluções descentralizadas de gestão. Tudo a bem da qualidade dos serviços prestados, da satisfação dos cidadãos e da economia de custos e desperdícios. Será que o SNS “estará irreconhecível daqui a quatro anos”? E seremos nós capazes de o fazer para melhor, reduzindo as irracionalidades de um processo de mudança não planeado? Ouvi há pouco um responsável da Comissão Europeia apoiar a reforma da saúde que está em curso em Portugal. Fiquei espantada. Confesso que não conheço a dita reforma...

Madrugada

Raia o dia e apaga-se a noite escura que vi nascer de forma prematura. O nascer e o pôr de uma longa noite testemunha da chegada do inverno. Vi-a nascer, ontem, debaixo de um sol frio que, lentamente, ia perdendo o triste brilho domingueiro. Vi que chegava por detrás das palavras, através de um quadro de vidro rasgado na parede de uma casa dedicada à palavra. O quadro atraía-me, uma obra de arte, uma pintura em movimento que mudava a todo o momento. Um quadro vivo em que as cores, a luminosidade, as sombras, a alegria e a tristeza nunca terão duas vezes a mesma oportunidade de se manifestarem, nem mesmo a pequena e sensual laranjeira que, a meio do quadro, expunha, orgulhosamente, apetecíveis frutos como se fossem seios de adolescente.
Olho através de um outro vidro, agora sou eu que me movimento, e ao ver o amanhecer recordo de imediato o sofrimento, mas não lamento, porque deve ser o único momento em que não o sinto. Mas é um amanhecer de pouca dura, porque em breve começarei a sentir a amargura.
O dia nasce com vontade de viver. É tão estranho ver o inverso do anoitecer, mais belo, muito mais belo, talvez por ser mais silencioso ou, então, por ser menos humano. As cores começam a espreguiçar-se, os cinzentos abanam, fazendo adivinhar o que está escondido debaixo do capote que os protege do frio. Nuvens, hoje só se veem nuvens azuladas, algumas meio sujas, preguiçosas e que teimam fazer a toilette. Até vertem águas depois da longa e repousante noite. Tudo em silêncio. Nem o ruído do comboio, suave, entremeado por alguma chiadeira dolorosa ao curvar, nem o roncar de um vizinho, nem o dormitar suspiroso da maioria dos passageiros perturbam o silêncio do amanhecer. Tenho a sensação de ser o único a ver os breves instantes em que é possível ver a nudez, a beleza e a frescura da natureza, sem pudor, instantâneos únicos que se vão sucedendo sem interrupção e todos diferentes. Belezas que não se deixam captar, apenas permitem sonhar. O único momento do dia em que não lamento a vida, momento breve, tão breve que chego a esquecer que existo.

domingo, 28 de novembro de 2010

O exemplo ou o temor dos nossos mitos?

"Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los."
Marguerite Yourcenar in “O Tempo, esse grande escultor”

Cito de novo Marguerite Yourcenar a propósito do 30º aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro e das inevitáveis tentações de recriar o homem, o seu pensamento e o destino que talvez tivesse tido, não fosse a Parca cortar-lhe o fio da vida na plenitude da sua ascensão no xadrez da política nacional. Quando recriamos um mito, projectamos nele os nossos sonhos para confirmar a admiração que lhe temos, queremos dar novo fôlego à grandeza que atraiu as emoções, queremos prolongar-lhe a vida, em suma, resgatando-lhe a ausência ao acreditarmos que teria sido o que se confiava que seria. Como diz a autora, só os que morrem jovens merecem essa arte da recriação, não para os prendermos ao que apenas tiveram tempo de ser, mas para os libertarmos para aquilo que poderiam ter sido. Honra, pois, a quem morreu nessa glória das lágrimas merecidas.
No entanto, também nesta arte de recriar os mitos está vincada a nossa marca nacional de afundamento e de negação. Se repararmos, invocamos os grandes não só para lhes confirmar a dimensão mas, sobretudo, para nos assegurarmos de que ninguém mais será como eles, para avisar que não vale a pena tentar, a ousadia paga-se cara porque se sairá sempre a perder. À invocação de um grande nome, segue-se inevitavelmente “já não há homens como esse!” ou então elogia-se um grande artista, uma fadista, por exemplo, para logo a seguir ressalvar que “não chega aos calcanhares da Amália”. Sobretudo que não se atreva. Nem essa nem nenhuma outra, nunca mais, presume-se e será confirmado, inexoravelmente. Não há forma mais segura - nem mais mesquinha - de destruir uma carreira promissora, ou de ensombrar as provas já dadas, do que “denunciar” a ambição ou o risco de vir a suplantar, ou sequer a equiparar-se a quem está no pedestal da nossa memória.
Pegando de novo em Marguerite Y., são os nossos mitos que nos possuem, cultiva-se o temor e não o exemplo, fazemos deles barreiras intransponíveis e não estímulos à coragem de ousar ou fonte de orgulho que nos devia ajudar a engrandecer.
É pena que esta mentalidade continue a ser aplaudida e alimentada, a coberto de pretenso espírito crítico. Até desse modo afirmamos que não merecemos nem os que se distinguiram nem os que, com todo o mérito, insistem em querer dar o seu melhor ao País.

Cavaco, um homem sério

Cavaco Silva foi meu professor de Finanças. Sério, muito sério, para os tempos de hoje. Dava aulas a sério, vigiava as frequências a sério. Os exames eram exames a sério: quem sabia, passava; quem não sabia, era obrigado seriamente a marcar passo.
Cavaco foi Ministro das Finanças. A sério, num Governo a sério, dirigido por Sá Carneiro. Lamentavelmente, apenas por cerca de 12 meses.
Cavaco foi 1º Ministro a sério. E o povo, que o achou sério depois da primeira eleição, deu-lhe duas sérias maiorias absolutas. E Cavaco governou a sério para o povo. Tão a sério, que tudo fazia para nunca se enganar; porque um engano de um 1º Ministro é coisa séria para o povo.
Por seriedade, deixou de ser 1º Ministro e também por seriedade candidatou-se a Presidente da República e teve uma derrota séria. Tomou a sério a vontade do povo e recomeçou a dar aulas a sério, numa Universidade séria.
Mas tornando-se sérios os problemas do país, pela 2ª vez Cavaco candidatou-se a Presidente. Apresentou as suas ideias de forma séria, fez uma a sua campanha séria. E o povo elegeu-o, porque mais uma vez o achou sério.
Foi um Presidente sério: não como muitos gostariam, mas como, seriamente, julgou que devia ser.
É novamente candidato. Um candidato sério.
De uma seriedade feita de conhecimento, vontade, trabalho, inteligência, coração. Seriedade nas palavras e nos actos. Seriedade feita de muita sensibilidade debaixo de uma capa de aparente frieza. E feita de compaixão sentida. Que faz toda a falta nos dias de hoje. Cavaco Silva, um candidato a sério.

Casa da escrita




Está frio em Coimbra. Presumo que o resto do país não esteja melhor.
Acabo de assistir à inauguração da Casa da Escrita, a casa onde João José Cochofel, poeta e ensaísta, conjuntamente com outros autores portugueses, deram forma e conteúdo ao neorrealismo português.
Ouvi várias intervenções, momentos de poesia e pausas musicais, mas a intervenção de Eduardo Lourenço foi notável. É uma honra ter como compatriota uma sonoridade intelectual de tão elevado nível. Ao sair do espaço, nem o frio nem a tristeza dos malditos dias curtos conseguiram arrefecer o calor que transportava na alma.
Adquiri o livro, Breve, uma antologia do poeta. Vale a pena lê-lo. Contem um poema intitulado “Breve”.

Uma casa diferente, uma casa para escrever...
Uma casa em que “O fogo do lar é a escrita”.


Breve,
o botão que foste,
e o pudor de sê-lo.

Breve,
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve,
a flor que abriu
- e o sol mudou.

Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

Percepções públicas

Mais do que os significados diversos que os meus Colegas têm dado à re-eleição do Dr. Marinho e Pinto como bastonário da Ordem dos Advogados, tem sido para mim particularmente significativa a percepção pública desse facto, aferida pelos comentários feitos por quem não pertence à corporação. Um, lido no CM, pleno de inocência e ingenuidade, rezava assim: "Parabéns Dr. Marinho Pinto, desejo-lhe muitas felicidades. Acabe com as despesas judiciais que o povo fica-lhe agradecido". Reacções como esta dão bem a ideia da tremenda eficácia da mensagem que o de novo bastonário quis publicamente fazer passar, e passou. O que é mais grave é que a mesma eficácia se fez sentir perante quem não é "leigo"...

sábado, 27 de novembro de 2010

Massacre da Katyn - o reconhecimento que tardava




Imediatamente após a assinatura do protocolo secreto entre Alemanha e União Soviética (conhecido pelo pacto Molotov-Ribbentrop), o exército alemão invadiu a Polónia. Seguiu-se-lhe o exército soviético. O Exército Vermelho fez prisioneiros 250 mil militares polacos, e às ordens de Estaline executou oficiais e intelectuais. Corria a primavera de 1940. Perderam assim a vida, às ordens de um louco, em Katyn, Kharkov e Kalinine, 22 mil polacos.  Triste ironia, são as tropas da Alemanha nazi - subscritora do pacto que "legitimou" a  agressão militar à Polónia -, a descobrir a primeira vala comum onde foi sepultada parte dos militares e intelectuais chacinados. Decorria a campanha alemã em território soviético. A URSS nunca reconheceu a responsabilidade histórica pelo genocídio. E o Tribunal de Nuremberga, desconfiado da denúncia alemã, recusa apontar o dedo a Moscovo e a Estaline. Mas em 1992, o presidente polaco Lech Walesa recebe da Rússia os primeiros documentos que confirmam o hediondo crime, apesar de continuar vedado o conhecimento mais aprofundado dos acontecimentos e não assumida a responsabilidade pelo massacre. O mundo acaba de saber que o parlamento russo reconheceu formalmente a responsabilidade da URSS e de Estaline. É verdade que esta declaração da Duma não restitui a vida a ninguém. Mas repõe a verdade histórica que aqui tem o valor acrescentado de expor e nos fazer recordar quanto  valem a paz e a democracia; e o perigo de as degradar ao ponto de permitir que desequilibrados sem qualquer respeito pelos valores mais básicos, possam tomar nas suas mãos o destino dos povos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Malditas empresas de rating!

Nem o Guia Michelin nos poupa. Lá foi a estrelinha do Eleven. Nenhum respeito pelas catedrais da nova burguesia, nem pelos simbolos da situação. Isto está mesmo mau...

Execução orçamental em 2011 e estabilidade política...

1. Está a nascer uma nova teoria política em Portugal, segundo a qual é necessária “estabilidade política” para assegurar a execução do OE/2011 - ainda hoje o MdasF reiterou essa ideia aquando da votação final do dito OE.
2. Não deixa de ser curiosa esta posição, que aparece como uma forma de pressão (nem muito velada diga-se) sobre a Oposição para que “deixe o Governo trabalhar”, para usar uma expressão em voga há alguns anos...
3. É interessante constatar que nesta criação de teorias políticas em Portugal, o passado, mesmo o recentíssimo, nada conta...
4. Caberia perguntar, desde logo: foi a instabilidade política que tem impedido o Governo de cumprir a execução orçamental no corrente ano de acordo com as metas estabelecidas, falhando rotundamente o objectivo do défice?
5. E foi também a instabilidade política que provocou as enormes derrapagens na despesa – essas sim, vieram contribuir para uma séria instabilidade financeira – obrigando a realizar uma operação de engenharia financeira com a PT para evitar um défice na “orla” dos 10% do PIB em 2010?...
6. Pode pois existir uma significativa dose de falácia neste apelo à estabilidade política...
7. Para uma exigente e eficaz execução orçamental o primeiro requisito não é a estabilidade política mas sim uma vontade séria e firme por parte do Governo de aplicar sem hesitações as medidas aprovadas, pondo termo ao evidente descontrolo orçamental que tem grassado, em grande escala, em áreas como a saúde e a educação...
8. E se vamos para o domínio da estabilidade política, então também aí o próprio Governo e o partido que o apoia têm a primeira palavra a dizer, não arrastando conversas públicas ou semi-públicas sobre remodelações governamentais...
9. Em rigor, este requisito da estabilidade política não deveria tampouco admitir qualquer hipótese de remodelação governamental a partir do momento em que o Orçamento fica aprovado...e muito menos na pasta das Finanças!
10. O que o Governo de forma nenhuma pode pretender é que a Oposição seja menos responsável na fiscalização da sua actividade financeira...
11. Bem pelo contrário, num ano em que os riscos de uma ineficaz execução orçamental são maiores do que nunca – pelas dramáticas implicações que teriam no plano do financiamento da economia – a Oposição e sobretudo aquela que ajudou a “viabilizar” o OE, tem mesmo especiais responsabilidades na fiscalização da respectiva execução, não deixando de “chamar o Governo à pedra” ao menor sinal de desvio das metas estabelecidas...
12. Esperemos assim que essa actividade essencial da Oposição não venha a ser apelidada de factor de instabilidade política, porque então iremos de mal a pior...

Novelas e decotes


Uma novela portuguesa chamada “Meu Amor”, da autoria de António Barreiras, ganhou um Emmy em Nova Iorque. As notícias são abundantes mas o maior destaque vai para o decote que uma das protagonistas da novela exibiu na cerimónia de gala, como se nos dias que correm fosse uma novidade digna de títulos de jornal e muitos comentários sobre a ousadia.
Ao ver a fotografia de corpo inteiro e a escandaleira que produziu o modelo, lembrei-me do comentário que o meu sogro, austero pai de família, fez, há mais de trinta anos, a uma jovem convidada de uma das filhas, que estava a passar uns dias de férias com a família. Ao jantar, numa noite de Verão, a rapariga apresentou-se com um vestido do estilo “africano”, que se usavam muito na época, em tecido de capulana. A saia do vestido era até aos pés, para tirar o máximo efeito dos desenhos exóticos e coloridos da estampa, e depois a barra do tecido, que era diferente, era usada para fazer o corpete, numa combinação que em regra resultava muito bem.
Acontece que a convidada tinha os mesmos dotes físicos da actriz agora galardoada e a barra do tecido era manifestamente estreita para a superfície que deveria tapar. Gerou-se um silêncio embaraçoso quando ela entrou na sala, muito descontraída, sem levar em devida conta os hábitos austeros da casa e, sobretudo, o temor reverencial que se cultivava em relação ao chefe da família, cuja reacção os filhos aguardavam em pânico. Mas o patriarca, com a presença de espírito um pouco desconcertante que lhe era habitual, deitou-lhe uma olhadela rápida, entre o intrigado e o divertido e, enquanto puxava a cadeira para se sentar à mesa, disse-lhe:
- Olha, menina, não sei se reparaste mas vestiste o vestido ao contrário, sobra-te tecido em baixo e falta-te em cima, não queres voltar ao quarto para corrigir o engano?
Foi uma risota geral e a pobre da rapariga foi salva por um gesto pronto da dona da casa, que lhe chegou um casaquinho de malha bem aconchegado que a protegeu do embaraço e lhe arrefeceu a ousadia pelo menos até ao fim das férias na praia.
Mas o alvoroço do decote que agora foi célebre era bem diferente, a beldade em causa limitou-se a ter que garantir aos espantados repórteres que os seus dotes eram pura natureza, afinal tanta estranheza era só sobre se o decote seria ou não um tributo de marketing a algum cirurgião de estética! Novelas...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Simplesmente...

... vergonhoso!

"Je ne veux pas travailler"

A mais grave das descapitalizações


Em dia de protesto, o ´Público´ dá à estampa algo que infelizmente já não é notícia: a contínua erosão do capital humano em Portugal. Há dias o poder auto-elogiava-se ao elogiar o esforço que o País fez na democratização do ensino superior e no investimento na ciência e na investigação. E manda a verdade dizer que, apesar das vicissitudes, muitos progressos se fizeram nos últimos trinta anos nestes domínios. Porém, aqui chegados, a cruel realidade é que estamos a formar quadros e investigadores de grande competência, mas não asseguramos com eles a inversão, sequer a travagem, da tendência nacional para o empobrecimento. Estamos a contribuir para a recuperação e enriquecimento dos outros que sabem como acolher os melhores quadros, os melhores cientistas e os melhores investigadores.
Podemos censurar em especial os jovens que escolhem um destino que os afasta do País em que se formaram? Seria uma injustiça. À semelhança do que aconteceu com o êxodo da mão-de-obra da geração de 60 do século passado, só pode ser condenada uma sociedade que ciclicamente desbarata o recurso que, em qualquer outra parte do mundo, é considerado o factor dos factores  do desenvolvimento: as pessoas.

A greve geral

"Les syndicalistes et les fonctionnaires ont tellement l'habitude de ne rien faire que lorsqu'ils font la grève, ils appellent ça une journée d'action..."

Lamentavelmente, não consegui identificar o autor da frase
Justificar-se-ia uma greve geral contra o Governo?
Claro que sim. Pela mentira com que foi iludindo a generalidade dos portugueses. Pela falta de seriedade e rigor na gestão. Pela manipulação das contas públicas para fins eleitorais. Pela demagogia infrene que exibiu nestes 5 anos. Por ter usado o Estado para satisfazer interesses meramente partidários. Pelas políticas públicas que promoveu, bem enfeitadas, mas erradas e desastradas e que só poderiam causar dor e desastre.
Acontece que a greve geral não é por nada disto. Os Sindicatos apoiaram todas as medidas erradas deste governo: sempre reivindicaram mais e mais despesa pública, que trouxe a actual desgraça; sempre insistiram em mais e mais impostos, delapidando a poupança e o investimento em favor do desperdício; sempre clamaram por grandes investimentos, que secaram a já pouca liquidez do sistema bancário e o crédito à imensidão das PMEs; e sempre vilipendiaram os apelos sensatos de Manuela Ferreira Leite ao rigor da governação.
Sem tirar um milésimo das culpas do Governo, os Sindicatos são também responsáveis por esta situação.
Hoje estão a manifestar-se contra os efeitos das medidas que permanentemente preconizaram.
Mais uma vez, hoje, e como sempre, querem o sol na eira e a chuva no nabal.
Não é possível. A acção devia ter sido antes. Então, estiveram inactivos. Agora, é tarde demais!...
Nota: Claro que os Sindicatos são necessários em qualquer sociedade moderna e democrática. Mas não Sindicatos cujo fim último parece ser a perpetuação dos seus dirigentes no poder.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Irlanda vs. Portugal, ou Sociedade vs. Estado

Depois da Grécia, obrigada a recorrer à ajuda do FMI e do mecanismo de estabilização europeu em Abril último, eis que chegou a vez da Irlanda, que aceitou a criação de um plano de auxílio que decorre das urgen-tes necessidades de refinanciamento e recapitalização do sector bancário.

É conhecido que sou, desde há muito, um admirador confesso das opções que as autoridades irlandesas tomaram em matéria de política económica desde a segunda metade dos anos 80. Que, no espaço de pouco mais de uma década, guindaram o país para o topo do nível de vida europeu, só com o Luxemburgo acima.

Também não é novidade que, em Portugal, toda a esquerda (PS incluído) sempre viu com desconfiança o sucesso irlandês – pelo que não é surpreendente a mal disfarçada satisfação, e mesmo o sarcasmo, perante as tremendas dificuldades financeiras que desde há cerca de dois anos a chamada “ilha verde” tem vindo a viver crescentemente: “Oh, então a Irlanda não era um sucesso?!... Pois agora até está pior do que Portu-gal!...” – eis, entre outras, duas expressões que alguns, pouco informados e ávidos de mostrar que não esta-vam errados, (me) têm referido, com um sorriso nos lábios, nos últimos tempos.

Desengane-se quem pensa que mudei de opinião sobre a Irlanda. E não mudei por um motivo simples: as origens da crise irlandesa nada têm a ver com as opções de política económica das autoridades do país. O que, por outro lado, faz com que as dificuldades de curto prazo da economia irlandesa não sejam, felizmente para nós, minimamente comparáveis com o que se passa em Portugal. Explico porquê em seguida.

A crise financeira da Irlanda, que levará à intervenção do FMI e da Comissão Europeia tem a ver, única e exclusivamente, com uma gestão imprudente, irresponsável e, por isso, absolutamente condenável, dos ban-queiros e gestores do sector financeiro do país. Sobretudo devido ao desmedido avolumar de uma bolha imobiliária financiada internamente, e a uma elevada exposição ao fenómeno do subprime. Quando a crise conhecida por este nome rebentou nos EUA, originando uma forte quebra nos preços da habitação, começa-ram as dificuldades nos bancos irlandeses: os “buracos” foram sendo conhecidos pela abrupta perda de valor dos activos inscritos – quer os do outro lado do Atlântico, quer os resultantes do rebentamento da bolha imobiliária doméstica – nos balanços. E, quando a recapitalização total necessária no sector financeiro ainda está por apurar, mas se julga poder ascender a próximo de EUR 100 mil milhões (!), ou cerca de 60% do PIB irlandês, percebemos que não há Estado que resista – por mais acertadas que tivessem sido as políticas prosseguidas*. E foram: nos 12 anos entre 1996 (ano em que foi decidido que o projecto do euro se iniciaria em 1999) e 2007 (ano em que foram conhecidos os primeiros efeitos da crise), a Irlanda registou 10 (!) excedentes orçamentais, que em média representaram 1.5% do PIB por ano; a dívida pública média foi de 40% do PIB (25% em 2007); o défice externo (balança corrente) foi, em média, de 1% do PIB por ano e a dívida externa (medida pelas responsabilidades externas líquidas da economia) era pouco superior a 15% do PIB no fim de 2007. No mesmo período, o PIB cresceu a um ritmo médio anual superior a 7%; o nível de vida (PIB per capita corrigido pelas paridades do poder de compra) subiu de 106% da média da UE-27 para 144%; a produtividade cresceu, em média, quase 3% ao ano; a taxa de desemprego média foi de 5.8% da população activa (4.6% em 2007).

Já em Portugal, no mesmo período, em todos os anos existiram défices públicos e externos que, em média, representaram 3.6% e 8.8% do PIB, respectivamente; a dívida pública média anual foi de 57% do PIB (mais de 62% em 2007) e, em 2007, a dívida externa atingia mais de 90% do PIB (10% em 1996). O crescimento médio anual do PIB foi de 2.3% (abaixo da média europeia de 2.5%); o nível de vida desceu de 80.5% para 75.3% da média da UE-27; a produtividade cresceu, em média, 1.3% ao ano; a taxa de desemprego média foi de 6.1% (8.1% em 2007). Creio que os números falam por si, tornando notórias as diferenças…

Felizmente que em Portugal o sector bancário não foi gerido como na Irlanda (onde estaríamos agora se tivesse sido?...), o que faz com que a situação financeira não seja, nem de perto nem de longe, tão aflitiva como a irlandesa. Só para se ter uma ideia, a dívida pública celta deverá, em 2010, rondar 100% do PIB (recorde-se, 25% em 2007) e o défice público subirá, ainda que pontualmente, é certo, para cerca de 32% do PIB!... Tudo para evitar o colapso do sector financeiro (só o salvamento do Anglo Irish Bank será respon-sável pela deterioração do défice de 2010 em quase 20 pontos percentuais do PIB…).

Mas não tenhamos ilusões: se a curto prazo a situação portuguesa é financeiramente bem menos dramática do que a irlandesa, já a médio e longo prazo, estamos… pior. Uma vez salvos os bancos na Irlanda e coloca-das as contas públicas em ordem (num plano a 4 anos), aquele país tem todas as condições para recuperar o dinamismo que ainda recentemente o caracterizava. Já em Portugal… o problema é estrutural e prende-se com (falta de) competitividade, como os números atrás referidos bem mostram.

Essencialmente, porque o trabalho de casa – impopular, é certo, mas com repercussões positivas a médio prazo – não tem sido feito como devia pelos decisores políticos em múltiplas áreas que já muitas vezes apontei em escritos anteriores.

De forma simplista, creio não ser descabido concluir-se que na Irlanda foi a sociedade que tramou o Estado; já em Portugal, tem sido o Estado a tramar a sociedade. Uma diferença elucidativa que, felizmente, nos é favorável no imediato – mas cujas implicações a médio e longo prazo não podem deixar de nos preocupar.


* Claro que se pode sempre falar em falhas de supervisão e regulação na área financeira – mas deve recordar-se que elas não foram um exclusivo da Irlanda (muito pelo contrário) e têm mais a ver com a actuação das entidades reguladoras do sector (nomeadamente o banco central) do que propriamente com o Governo. E que dizer quando os dois bancos irlandeses (Bank of Ireland e Allied Irish Bank) submetidos aos stress tests realizados pelo Comité das Autoridades Europeias de Supervisão Bancária em conjunto com o Banco Central Europeu em Julho último cumpriram os requisitos mínimos exigidos?...


Nota: Este texto foi publicado no Jornal de Negócios em Novembro 23, 2010

A invenção da matemática...

Acerca de uma semana escrevi um post "4 * 9 = 2 * 3 * 6" sobre a matemática, ou melhor, sobre a falta que tanto faz. O nosso Caro Zuricher sugeriu a possibilidade de em capítulos seguintes abordarmos a questão do interesse da aprendizagem da matemática nas perspectivas de desenvolvimento e potenciamento do investimento num país. Aqui estou a tentar dar um contributo.
Foi uma óptima sugestão, porque, com efeito, não podemos ignorar a importância da matemática em domínios que são fundamentais para a modernização e a competitividade. E aqui entra a inovação que continua a ser o problema principal da nossa economia. Sem inovação não há exportação e, como bem sabemos, precisamos de aumentar o peso do sector exportador no PIB.
Foram divulgados recentemente indicadores sobre a evolução do investimento em investigação e desenvolvimento (I&D) realizado pelas empresas portuguesas que apontam para um aumento de 10% em 2009 face a 2008, correspondente a 1,7% do PIB. Esta melhoria está concentrada nas grandes empresas, sendo que as empresas de serviços – sistemas de informação, telecomunicações e energia - respondem por 58% do total da despesa, seguidas pela indústria transformadora com 25% e o sector químico, farmacêutico e agro-alimentar com 17%.
Apesar destes resultados animadores, a verdade é que continuamos a ter níveis insuficientes de inovação. Há vários factores que, tanto quanto me é possível compreender, explicam esta situação, entre os quais estão as baixas qualificações das empresas e os reduzidos orçamentos destinados à I&D e falta de investigação aplicada, esta última pela falta de ligações entre as empresas e as universidades e pela desadequação dos modelos de parceria entre ambos os pólos, através dos quais é feita a transferência de conhecimento e tecnologia.
A superação destes factores implica que tenhamos, também, que fazer grandes progressos na preparação em matemática, já que as áreas científicas mais envolvidas na inovação são as áreas, nos diversos ramos, da economia, gestão, engenharia e medicina. São domínios que requerem uma forte componente de raciocínio lógico e abstracto, quantitativo e analítico.
Deveríamos, por isso, fazer um grande esforço no ensino da matemática, alargando a base dos nossos jovens com boa preparação para seguirem os seus estudos com êxito nas áreas científicas referidas.
O discurso político da inovação, da competitividade e da exportação deveria ter a montante idênticas preocupações, primando por acabar com o insucesso escolar da matemática e buscando contextos e metodologias de ensino que assegurem uma formação de bom nível nesta disciplina.
Curiosamente, uma das maiores inovações de todos os tempos foi, justamente, a invenção da matemática, enquanto linguagem lógica para expressar a ideia de quantidade e de relação entre quantidades. Sendo ela inovação é, também, ela própria fonte de inovação. Para quem a domina…

Inquietude

Não há dois dias iguais, mas alguns adquirem tonalidades e sonoridades próprias que nos obrigam a meditar e a compartilhar. Hoje foi um desses dias. Pela manhãzinha cumpri com as minhas obrigações académicas. Gosto de dar aulas, gosto ainda mais do debate e inebria-me a perspetiva de criar e desenvolver novos conceitos. Para que tal aconteça preciso do estímulo dos alunos, mas, ultimamente, tenho reparado um comportamento estranho. Alguns comparecem tarde à aula, tão tarde que a dez minutos do fim ainda estão a entrar e, cúmulo dos cúmulos, duas alunas tiveram o desplante de se sentarem na coxia a dois minutos das nove horas. Vieram ouvir o professor? Claro que não, entraram para poderem assinar uma folha de presença que lhes permite ter acesso à avaliação contínua, evitando o exame final. Comentei os casos? Claro! Um incómodo académico desta natureza não poderia deixar passar em falta. Qual vai ser o resultado? Vai dar em nada. Irão continuar na mesma. Frustrante.
Cumpri igualmente com os meus deveres profissionais ao examinar trabalhadores muitos dos quais são meus conhecidos desde há longos anos. No entanto, verifico que alguns continuam a não seguir os conselhos para corrigir os seus fatores de risco e mesmo patologias. Consequências? Inevitavelmente irão ocorrer mais cedo de que o previsto. Falta de capacidade em os mobilizar? Não sei, talvez. Frustrante.
Desloquei-me em seguida a Santa Comba onde acabei por almoçar. Um almoço que não me caiu bem. Ouvi queixas devido a atrasos nos pagamentos das refeições de muitos escolares por parte de entidades oficiais. A angústia, bem visível, orlava-se de um olhar marejado e muito contido, o que me incomodou. Frustração social.
A Assembleia Municipal decorreu naturalmente com elevação e sentido de responsabilidade cívica e política. Foram debatidos vários assuntos, entre os quais o orçamento. Não costumo intervir, não é o papel do presidente, mas de vez em quando não consigo resistir, sobretudo quando estão em causa a necessidade da intervenção dos cidadãos, a responsabilidade de todos no bem comum e, também, a lealdade. Embora não tenha pronunciado esta última palavra, dei a entender a sua importância, porque é um requisito básico para que todos se façam compreender, seja entre partidos ou dentro do mesmo partido. Prezo muito a lealdade e fico frustrado quando a afogam no gélido rio da amargura. Frustração política.
Debaixo da noite prematura, e após longa gestação de circunstâncias óbvias, idade, limitações físicas e cognitivas, necessidade de cuidados permanentes e sobretudo preservar a dignidade humana, transportei ao lar um familiar. Uma noite dentro da noite. Custa? Muito. Conheço aquele olhar há muitos anos, mas hoje tive alguma dificuldade em penetrar no seu íntimo. Fiz várias tentativas mas fiquei confuso. Indiferença, resignação, compreensão, revolta, mal-estar, alegria, esperança, surpresa? Não sei o que senti ou o que vi. Pela primeira vez fiquei na dúvida do que estaria aquele cérebro amuralhado a pensar. Frustrante? Sim.
Cheguei a casa e fui atacado por três pequeninos, cada um à sua maneira. Uma expressão coletiva de alegria infantil que conseguiu neutralizar alguns dos acontecimentos do dia. Bela recompensa para continuar a viver mais um dia.
Após o jantar fui até à livraria. Não sabia que estava prestes a começar uma conferência, “Tolerância e Pobreza”, da responsabilidade de um colega da Faculdade de Economia. Fiquei e gostei. Muitas coisas foram ditas com profundidade e sabedoria. Não apresentou soluções milagrosas, mas compete aos que estão em “baixo” associarem-se, terem voz e debaterem soluções e não esperar pelas que venham de cima. Mas para que tal aconteça é preciso uma forte e exemplar intervenção cívica. Olhando em redor quase que diria que é também uma pobreza.
Um dia de inquietude; inquietude académica, inquietude profissional, inquietude social, inquietude familiar, inquietude política, inquietude cívica. Tanta inquietude! Valeu-me o conforto dos pequenitos...

M. Alegre: zurzir Cavaco por não zurzir Angela Merkel...

1. Alguns “media” ofereceram eco significativo a declarações interessantes, algo inovadoras mesmo embora incompletas, proferidas no último fim-de-semana pelo Candidato Manuel Alegre, no Porto.
2. Nessas declarações o referido Candidato escolheu dois alvos principais - o outro Candidato Cavaco Silva e a Chanceller alemã Ângela Merkel (por feliz coincidência também em Portugal, na mesma altura) acusando C. Silva de não acusar A. Merkel e os mercados em geral por, na sua opinião, serem os principais culpados das medidas de austeridade que o Governo, bem contra a sua vontade, coitado, se viu obrigado a adoptar em Portugal.
3. Segundo esta inovadora análise, as medidas de austeridade não seriam necessárias se os mercados financeiros tivessem uma postura quase selvagem e a Snra. Merkel não estivesse a “aplicar um garrote financeiro aos países de periferia, como Portugal”.
4. Realmente não se entende esta postura dos mercados (e o garrote da Snra. Merkel) em relação a um País (e um Governo, em especial) que tem sido um modelo de rigor financeiro, que sempre tem cumprido esrupulosamente as regras da disciplina financeira.
5. Sem prejuízo do carácter inovador das suas declarações, o Candidato Manuel Alegre omitiu dois outros aspectos importantes pelo menos, de que aqui nos cumpre dar a devida nota.
6. O primeiro, seria apontar o dedo aos outros convencionais culpados da nossa infeliz situação, nomeadamente os americanos que continuam a conspirar contra o Euro, com Nouriel Roubini à cabeça (mas sem Obama saber, disso o candidato está certo, acredito) e os especuladores de casino que têm escolhido Portugal como um dos seus alvos preferidos.
7. O segundo, seria aconselhar o Governo português para não ir atrás do jogo destes especuladores, suspendendo indefinidamente a emissão de dívida pública enquanto os especuladores não mudarem de atitude e a Snra. Merkel não for “metida na ordem” pelo Candidato C. Silva...
8. Uma vez que a culpa do que está a acontecer é sobretudo dos mercados e da Snra. Merkel – sem os quais as medidas de austeridade não seriam necessárias para coisa nenhuma - então o melhor antídoto contra a avidez de tais abutres será mesmo o Governo deixar de recorrer à emissão de dívida nos mercados.
9. Com efeito, esta ideia de recorrermos ao mercado, sem termos necessidade para tal - levando em conta a tese do Candidato em questão - assume todas as características de um exercício de auto-flagelação, que nenhum motivo sério justifica e muito menos recomenda...
10. Esperemos que em próxima intervenção o Candidato não volte a incorrer em tal omissão, e se lembre de ensinar ao Governo e ao Candidato C. Silva que em tempo de especulação desenfreada dos mercados da dívida o melhor que temos a fazer é mesmo viver das poupanças que temos vindo a acumular...

Todos contra todos

Está marcada uma greve geral. Esta greve é geral e contra tudo em geral, não há muito que perceber. O maior exemplo de discórdia é entre o Estado e os seus empregados, mas também entre o Estado e os governados, entre a Europa e os Estados, muitos dos que vão desfilar com bandeiras não estão contra os que os empregam ou contra quem os desempregou, mas contra quem manda no País, ou mesmo contra quem manda em quem manda no País, talvez mesmo contra quem manda em quem manda nos que pensam que mandam nos Países. Também já ninguém sabe o que é a classe média e o proletariado, essa palavra desaparecida, nem a luta de classes que animava as greves de outrora, agora há ricos, mesmo que muito pouco ricos em risco de ficar pobres, e pobres, mais ou menos pobres e muito pobres. O que parece também é que todos parecem estar convencidos de que não há grandes alternativas às decisões de que agora se queixam, estas ou outras parecidas, venha o Diabo e escolha. Por cima desta confusão pairam umas entidades estranhas que passámos a tratar pelo nome próprio mas de que só os especialistas de mercados antes tinham ouvido falar, umas tais agências, que tratam de números e não de pessoas, que olham papéis e estudam contas e dossiers mas não conhecem Países, e chega-se ao absurdo de já ninguém saber ao certo quais são afinal as diferenças entre a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha ou mesmo a Califórnia.
Não se percebendo quem manda, nem porque manda o quê, nem no que manda, não se percebendo quem protesta porque quem está pior não pode protestar, não se percebendo o que querem porque parece que o que querem ninguém lho pode dar, então a única coisa que se percebe ainda é o que é uma greve. Um protesto. Sendo geral, é de todos. Sendo contra incertos, é contra todos. Mas talvez alivie a sensação de impotência, quem sabe?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O perigo das aparências...

Quando era pequena lembro-me de os meus Pais nos avisarem, a mim e aos meus irmãos, vezes sem conta, para não apanharmos cogumelos e não os levar à boca. A preocupação era acertada porque naquela época, volta e meia, havia notícias de pessoas que morriam por comerem cogumelos venenosos. Lembro-me de alguns casos, passados, com crianças. É que cerca de 80% dos cogumelos não são comestíveis e de entre estes alguns são venenosos. E há cogumelos comestíveis e venenosos muito parecidos. Somente pessoas que tenham muita experiência ou estudiosos podem dizer quais os cogumelos que podem ser comidos e quais contêm veneno mortal. Recordo-me que naquela época os cogumelos não entravam na mesa portuguesa. Não eram encontrados à venda com facilidade e os que apareciam eram muito caros.
Hoje em dia, os cogumelos já fazem parte dos hábitos alimentares dos portugueses. Encontramos, aliás, à venda uma variedade grande de cogumelos, com apetécíveis formas, texturas, cores e sabores que fazem deles verdadeiras “obras de arte” e que, por isso mesmo, fazem as delícias de apreciadores de uma cozinha mais requintada e, também, mais sofisticada.
Vieram nos últimos dias a público notícias sobre pessoas em estado de saúde muito crítico, a necessitarem de transplantes de fígado para sobreviverem, por terem ingerido cogumelos venenosos. Não sei se são casos pontuais que por coincidência se concentraram num curto período de tempo ou se são casos a juntar a outros que vão acontecendo mas sem tratamento mediático. Mas são muitas vítimas ao mesmo tempo.
As notícias dão-nos conta do estado de saúde de pessoas que ingeriram cogumelos não comestíveis, pelos vistos venenosos. A bem dizer, é um alerta, mas que pode transformar-se num alarme, com reacções de medo, pelo menos enquanto a memória estiver fresca, ao consumo de cogumelos. Ora, não parece ser o caso. Mas, com efeito, pouca ou nenhuma informação é prestada sobre as circunstâncias da ingestão pelas vítimas dos ditos cogumelos. Como é que aconteceu? Os cogumelos foram comprados ou, pelo contrário, foram apanhados pelos próprios? Onde? Foram consumidos em casa ou foram ingeridos num estabelecimento público? Que sintomas tiveram as vítimas?
Para além destas omissões os media deveriam fornecer ao público informações úteis no sentido de chamar a atenção para os cuidados a ter com o uso dos cogumelos e para os sintomas de mal estar provocados pela ingestão de espécies venenosas. Tudo aspectos pedagógicos e educativos que também compete aos media tratar. O seu poder de informação também lhe advém da sua capacidade de difusão. Prestariam um melhor serviço se o fizessem…

Uma campanha (pouco) alegre!...

Alegre queixa-se de que o PS não o apoia.
Alegre queixa-se de que Cavaco Silva não fala.
Assim, Alegre dá a entender que só é capaz de funcionar mediante estímulos que venham do exterior.
Não tendo força para agir, limita-se a reagir. E quando não tem por onde reagir, queixa-se.
Nesta campanha de queixumes, o que faz é negar-se enquanto líder.
Os portugueses compreendem e Cavaco vai subindo nas sondagens. Naturalmente.

A aula de dança


A jovem ficou muito contrariada por não poder ir àquela aula na Escola de Dança que frequentava em Roterdão. Tratava-se de um único seminário que seria dado por uma professora, já com mais de 60 anos que, nos seus tempos áureos, tinha sido bailarina de dança moderna, uma referência para todos os que a conheciam e tinham podido aprender com ela.
Hesitou uns dias, receando não ser bem recebida, a sua área era a dança oriental, será que ela ia levar a sério o seu interesse?, mas depois ganhou coragem e mandou-lhe um mail, tive muita pena de não ter podido ouvir a sua aula, gostava tanto que me ensinasse o que perdi, pode dar-me uma aula individual? A senhora respondeu-lhe prontamente, manifestou-se encantada por encontrar uma jovem tão interessada, o que mais pode desejar uma professora? E marcou-lhe uma hora, dizendo ainda que tinha muita curiosidade pela dança oriental, ela só tinha feito dança moderna mas estava na altura de aprender, também ela, as técnicas e os segredos dessa dança que fascina as jovens de hoje. E brincou, dizendo que nunca tinha tido coragem de pedir a uma aluna que lhe desse uma aula de dança oriental…
Começou aí uma colaboração fantástica, a bailarina de sessenta anos e a jovem estudante de dança oriental. Numa das aulas, a professora disse-lhe qual era, a seu ver, a maior dificuldade da aluna, e que essa dificuldade era que ela se fixava nos defeitos em vez de desenvolver as qualidades, que essa atitude era redutora e não a deixava progredir. A aluna espantou-se. "Mas então não tenho que trabalhar para que os pontos fracos se atenuem ou deixem de o ser?" -" Não", disse ela, "tens que te concentrar no que são as tuas qualidades, essas é que te vão dar o brilho e fazer a diferença, senão gastas energias, não te aperfeiçoas e tudo fica apenas no plano médio. E, se tens ambição, acabas por desistir. Pelo contrário, se trabalhares bem as qualidades, os pontos fracos vão perdendo importância, ganhas confiança e aprendes a defender-te deles. Não tomes isto como uma facilidade, pelo contrário, é um caminho de grande exigência e humildade, porque se te fixares nas qualidades não tens desculpa para não progredir. Temos que saber quais são os nossos pontos fracos, sem dúvida, mas para que eles não nos traiam, para que não se sobreponham às qualidades e as abafem. Defende-te deles, mas o que tens que trabalhar são os pontos fortes, se queres ser excelente no que escolheres fazer na vida".

domingo, 21 de novembro de 2010

Diz o roto ao nu!...

"Foi uma barbaridade que o Governo de José Sócrates só em 2010, com dois anos de atraso, tenha reconhecido que a crise ...ia atingir em cheio o nosso país..."
João Cravinho, no Jornal de Negócios
E as tais SCUTS, Auto-estradas sem custos para o utilizador? Boa previsão, essa!...

sábado, 20 de novembro de 2010

Orgulhoso!

Depois de Obama nos ter revelado que a mais famosa presença portuguesa em Washington, o cão Bo, se encontra bem e por todos é amado, revelação que mais do que justificou a cobertura noticiosa desse glorioso momento do briefing presidencial e os comentários e análises feitas sobre tão feliz quanto ansiada novidade,  hoje não é só felicidade, é emoção. Não quero conter-me e deixar de partilhar o meu orgulho de português com esta notícia. Neste vale de lágrimas, só mesmo Obama para nos dar alegrias destas. Um grande bem-haja, do coração. Somos grandes!

Dieta mediterrânica – Património cultural imaterial da humanidade?

Há dias li um editorial em que o autor começou com a seguinte frase: “O mundo está louco!" E está mesmo, mas não é preciso andar pelo mundo fora para testar essa afirmação, basta olhar para o que se anda a passar entre nós, no nosso micromundo, ou submundo se quiserem.
Abro o jornal semanário e vejo uma página dedicada a informar que a dieta mediterrânica passou a ser considerada como “património cultural imaterial da humanidade” após a UNESCO assim o ter decidido numa reunião no Quénia. Dieta mediterrânica como património da humanidade! Porquê? Porque comer verduras, usar azeite, comer peixinho, comer pouca carne, comer leguminosas e frutinha e comer tudo isto em família é razão para ser apodada de património mundial? Não, mas, também, porque quem faz dieta mediterrânica tem mais saúde, sofre menos doenças cardíacas. E acidentes vasculares cerebrais? Bom, passemos à frente. Lindo, belo! Mas será que os portugueses fazem dieta mediterrânica? Não é preciso recuar até ao século XIX, basta ir ao anterior, ao século XX, para ver como é que os portugueses se alimentavam. Será que já se esqueceram como é que comiam os portugueses? Mal, muito mal, comiam o que podiam e quando podiam. Aquilo a que chamam dieta mediterrânica seria praticado por muito poucos, os mais abastados, porque a maioria das pessoas passavam fome. E quem passa fome dificilmente consegue ser obeso, apanhar diabetes e morre mais cedo por outras doenças. Queriam que morressem de enfarte? Era o que mais faltava. Quando houve alguma melhoria do poder de compra, os portugueses deram asas à sua natural ânsia de matar a fome e comiam o que podiam e o que podiam passou a ser alimentos altamente energéticos e saborosos o que contribuiu para a crescente onda de obesidade e de diabetes. Passaram ao lado da dieta mediterrânica e mergulharam noutros tipos de alimentos que não têm nada a ver com aquilo que a nossa terra dava, sim, porque parece que já não dá. É quase tudo importado!
Não ignoro o valor alimentar dos tais alimentos que fazem parte do cabaz mediterrânico, ou de quaisquer outras dietas espalhadas por esse mundo fora, o que considero um pouco ridículo é dar-lhe este estatuto, precisamente num momento em que a “dieta mediterrânica” está muito longe do alcance de milhões de portugueses. Cresce dia para dia a fome. Uma realidade incontestável que faz estremecer qualquer responsável. Desempregados, velhos e crianças começam a passar fome. E que tal dizer-lhes que a “dieta mediterrânica” é património mundial? Não deveriam sentir-se orgulhosos desta conquista? Além do mais ficam, também, a saber que a sua saúde é a melhor de todas desde que pratiquem a dita dieta! Anedota, atrás de anedota. É preciso dizer que os tais benefícios relacionados com a dieta mediterrânica é, ou foi, devido mais à eterna pobreza mediterrânica do que a outras coisas. Sim, pobreza mediterrânica é uma realidade e aí está ela mais uma vez, em força como nunca.
Não seria melhor substituir dieta mediterrânica por pobreza mediterrânica, senão como património mundial, ao menos como “património cultural imaterial nacional”? É que para muita gente é mesmo imaterial...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Assuntos sérios...


Lamentável que a falta de recursos financeiros seja a razão invocada para que o número 116000 só funcione nos dias úteis das 9h às 19h. É um argumento estafado.
Desaparecimentos de crianças só no horário de expediente, porque à noite e ao fim-de-semana não há pessoal. Tanto dinheiro gasto com falsos progressos e tanta falta dele para o essencial...

Prestam-se a tudo!

E não temem o ridículo nem têm pinga de vergonha.
Assustador!

A relevância política dos cidadãos

"A abstenção é uma resposta racional a uma percepção de auto-insignificância política"
José Maria Ruiz Soroa in "A Democracia funciona em automático?" El Pais, 13 de Novembro de 2010.
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O que resulta muitas vezes do nosso panorama político é que a chamada “esquerda” actua em bloco como se assumisse que tem uma legitimidade natural para ocupar o poder. A maturidade democrática já devia há muito ter atenuado esta lógica dos “bons” e dos “maus” transposta para a alternância política. Os “bons” são os que pertencem à “tribo da esquerda”, que reclamam para si a presunção de defensores do povo, governem bem ou mal, defendam ou não o presente e o futuro do tal povo. Os “maus” são os outros todos, incluindo os que, sendo da tribo, ousem criticá-la, dando armas ao inimigo. Ser “de esquerda”, apesar de ninguém se dar hoje ao trabalho de definir com clareza e verdade o que é que isso possa querer dizer em termos práticos para o governo do País, dá uma espécie de salvo conduto para todo o tipo de afirmações contraditórias, de comportamentos poucos democráticos ou de desgovernos insensatos. Ser “de direita”, por sua vez, resulta mais como acusação condenatória do que como imputação de uma linha ideológica que integra com plena legitimidade o campo democrático. De mil e uma maneiras, umas mais subtis e outras escancaradas, os modernos paladinos da “esquerda” invocam o rótulo sem estremecer perante contradições e resultados, e justificam e desculpabilizam a sua prática política como não fosse sequer admissível que “os outros” pudessem fazer melhor. À “esquerda” a que assistimos hoje, basta ser de esquerda para que todo o debate seja um incómodo fútil e atrevido e todas as críticas ou sugestões uma agressão de má fé. E todos os adversários políticos se tornam inimigos pessoais a abater pela intriga e pela vitimização. O simétrico deste preconceito político instalado é que tudo o que não traga o rótulo miraculoso merece desconfiança e labéu de intruso, a pedir que se cerrem fileiras contra a ameaça aos “naturais” detentores do poder. A este baluarte convém a abstenção, convém que o voto democrático seja talhado fechando-se alternativas, agitando-se papões e medos irracionais, impedindo que os eleitores acreditem que há outras formas de exercer o poder. A essa “esquerda” convém que as pessoas acreditem que não há nada a fazer, que o seu voto não conta nada se não for a favor deles, que fiquem nas suas vidinhas e os deixem tomar conta de tudo em paz e sossego. As pessoas que desistem de participar e de votar aceitam este preconceito obsoleto e prepotente e sujeitam-se ao estatuto de autoinsignificância política de que fala o autor que acima citei.
Assim se submetem, passivamente, ao que os outros lhes queiram servir como uma fatalidade.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

E aos 17 de Novembro..."milagre" dos juros terminou!

1. Em diversos Posts aqui editados nos últimos meses fui chamando a atenção para a inconsistência dos dados da execução orçamental, mensalmente divulgados pela Direcção Geral do Orçamento (DGO), no que respeitava à rubrica da despesa “Juros e outros encargos da dívida”.
2. Com efeito, o montante de juros e outros encargos da dívida apresentado até Setembro último foi sempre inferior ao do período homólogo do ano passado - o que não se conseguia entender, pois com a dívida mais levada em cerca de 13% (média dos valores mensais) e com as taxas de juro bastante mais elevadas, como podiam os encargos da dívida baixar?
3. Só mesmo um “milagre” poderia explicar um tal fenómeno de emagrecimento dos juros...que até Setembro ainda estavam 5,7% abaixo dos suportados em idêntico período de 2009...
4. A explicação que era dada no Boletim Mensal da DGO só adensava o mistério, quando dizia que se tratava do perfil intra-anual destes encargos...tratando-se dum perfil intra-anual, devia em princípio ser de um fenómeno que se repete de ano para ano, não servindo para explicar divergências homólogas muito pronunciadas...
5. Esse “milagre” foi no entanto muito útil para permitir ao Ministério das Finanças "evidenciar" até Setembro uma taxa de crescimento da despesa efectiva do Estado em desaceleração, de mês para mês, tendo supostamente atingido 2% em Setembro...sabendo muito bem que tal não era exacto uma vez que os encargos financeiros estavam subavaliados...
6. Mas eis que de súbito os “juros e outros encargos da dívida” disparam em Outubro - foi ontem pré-anunciado pelo MdasF que até Outubro essa rubrica regista já um crescimento de 4,9% - pelo que o milagre dos juros parece ter os dias contados, levando o crescimento da despesa a aumentar de ritmo em Outubro...
7. Mas ainda faltam Novembro e Dezembro para se ter uma ideia mais verdadeira do agravamento registado nesta rubrica da despesa, que pode ter novos saltos até ao final do ano...
8. Em matéria de finanças públicas a ficção criativa (para não usar uma expressão mais invernosa) não pode durar sempre, como estamos vendo...

Os rios de Cavaco e Alegre

Ainda que de longe em longe, os politógos e sociólogos desarrincam algumas coisas relevantes e originais em termos da análise dos comportamentos.
Tive recentemente acesso a um estudo sociológico sobre tendências de votos, combinando Eleições Presidenciais e Legislativas. Interessante, pela sua originalidade, o desenho das zonas geográficas em que cada um dos diversos candidatos tem votação mais significativa.
No estudo, e relativamente às últimas Presidenciais, e sublinhadas com coloração mais forte, aparecem as zonas em que Cavaco e Alegre tiveram as votações mais impressivas. Surpreendentemente, elas desenham os vales dos principais rios portugueses. Cavaco é fortíssimo nos vales do Minho, do Lima, do Cávado, do Ave, do Tâmega, do Sousa, do Douro e do Vouga. Aí, as cores de Alegre aparecem muito esbatidas.
Onde Alegre aparece com cores mais fortes é nos vales do Mondego e do Tejo, assim como nos dos rios que correm ao contrário, de sul para norte, Sado e Mira. Não é que Cavaco tivesse aí menos votos que Alegre, mas é nos vales desses rios que este tem mais apoiantes.
Concluí que os rios de Cavaco são os mais agitados, os que lutam para vencer barreiras, para ultrapassar montanhas, para passar por caminhos difíceis, para triunfar e ganhar o desafio de chegarem ao seu destino, que é o mar. E concluí também que os rios onde Alegre pesca são rios de planície, de águas aburguesadas e instaladas em doce remanso, por vezes pantanosas e correndo ao sabor dos ventos dominantes, receosas de chegar ao oceano, temerosas de deixar o conforto das terras baixas e planas.
Portugal identifica-se mais com os rios de Cavaco: fortes, lutadores, persistentes nos objectivos, intrépidos, mas contidos na luta do dia a dia. Sabem para onde vão e aonde querem chegar. Ao contrário dos rios de Alegre, acomodados, parados, sempre à espera de quem, ventos ou marés, os faça mexer e os empurrem para um qualquer destino.
Cavaco tem mais e melhores rios. Mas, como em tudo, há que esclarecer e lutar. Não se chega a bom porto sem lutar pela chegada. Não há vitórias antecipadas.
O que se conclui e pode aprender com os (bons) sociólogos!…

O país que somos é o país que temos

De entre as notícias da manhã uma houve que me pôs a matutar. Era sobre a inauguração de mais uma grande superfície comercial, igual às que proliferam por aí. Dezenas de milhar de metros quadrados de construção, acomodação para uns largos milhares de automóveis, centenas de lojas, hipermercado num formato que ali, a uns escassos quilómetros de distância do sítio onde esta abriu, se replica não sei quantas vezes numa região tida como a das mais afectadas do ponto de vista económico e onde os problemas sociais são mais graves. Mas o que me chamou a atenção foi o registo de pessoas que esperaram em fila que fossem abertas as portas, porventura desde madrugada. Entrevistados os consumidores, creio que da Quinta do Conde/Coina, mostravam perante as câmaras da TV uma visível alegria. Nas entrevistas, uma senhora revelou que faltara ao trabalho para não faltar ao momento da abertura e poder fazer compras nos novos espaços. Um jovem respondeu que não trocava as aulas por aquele momento, e por isso falou à escola. E uma outra, carregada com um grande saco de compras, veio dizer, entre um sorriso de indisfarcável bem-estar, que estava desempregada e fora ali gastar os últimos tostões.
Dia 24, dia de greve geral, aposto que não vai haver mãos a medir por aquelas bandas. Este país que somos, explica o país que temos...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Não vale tudo...

A proposta do Orçamento de 2011 inclui o corte do subsídio de refeição dos trabalhadores do sector público no excedente ao montante do subsídio de refeição que é pago em geral aos funcionários públicos – 4,27 euros/dia. Se esta medida avançar teremos trabalhadores que só por via deste corte terão variações no seu salário mensal de cerca de 20%. São justamente os trabalhadores com salários mais baixos que mais sofrerão com esta medida.
Se não vejamos:
- Um trabalhador com um salário mensal de 500 euros que tem direito a um subsídio de refeição de 10 euros/dia, que corresponde a um montante mensal de 220 euros.
-Terá um corte no subsídio de refeição de 5,73 euros/dia, que corresponde a um montante mensal de 126,06 euros.
- No final do mês em lugar dos 720 euros que hoje recebe, só terá direito a 594 euros. Sofrerá uma redução salarial de 18%. Se as contas foram feitas em relação ao salário líquido, então o corte atinge 20%.
Trata-se de uma medida chocante, como muitas outras que se traduzem em cortes nos rendimentos e nas prestações sociais e no aumento de impostos, com efeitos dolorosos que trarão muito desespero às famílias que já hoje vivem com muitas dificuldades.
No final de Outubro, depois de esta medida ter sido denunciada publicamente por várias entidades, vieram a público notícias de que o Governo iria recuar no corte do subsídio de refeição tal como consta da proposta do Orçamento.
Nunca mais se ouviu falar deste assunto. Esperemos que o silêncio, de lá para cá, seja sinal de que efectivamente a medida não vai para a frente e que os trabalhadores serão poupados a mais esta brutal amputação do seu “ganha-pão”…

Contar, cantar e sonhar

Aprender é um prazer, mas quando os mais jovens nos ensinam, dando verdadeiras lições, então o prazer duplica. Por esta razão, simples, e a propósito de coisas simples – um pouco de filosofia pré socrática, mais propriamente de Anaximandro – uma aluna minha, não médica, levou-me a escrever este texto. Uma forma de lhe agradecer alguns desafios da arte de pensar...

Para a Jeune Dame de Jazz



O seu maior sonho era aprender a contar, a contar números grandes, grandes como o mundo, saber quantas formigas havia dentro daquele buraquito por onde entravam e saíam, poder passar a tarde no rio a contar as pequeninas e fascinantes pedrinhas redondas e também as estrelas do céu, embora lhe tivessem dito que não as devia contar porque provocava cravos, coisa que não lhe metia medo.
E começou a contar antes de aprender a ler e a escrever. A princípio até dez, depois, com um pouco mais de dificuldade, chegou aos vinte e a partir daqui verificou que a cantilena era sempre a mesma, passando aos trinta, quarenta, cinquenta e assim sucessivamente até aos cem. Quando chegou aqui sentiu uma satisfação difícil de explicar, ao ponto de dizer, muito orgulhoso, sempre que lhe perguntavam: - Já sabes contar? – Sei sim senhor, até cem! A forma como pronunciava o “cem” era única, porque estava perante um número muito grande, um número mágico, uma prova de que era sabedor.
Muitas vezes contava alto, outras contava só para si, dentro da cabeça, mas cantava sempre; uma música muito harmoniosa e que “batia” sempre bem, terminando em um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e depois rematava com os “entas” após ter ultrapassado o “dez” e o “vinte”. Os “entas” eram entoados como sendo fins de linhas, períodos que duravam um a dois segundos, o tempo suficiente para absorver uma boa fatia de ar para ir até à próxima sequência. Quando chegava aos cem fazia uma pausa maior, profunda, devido ao cansaço. Mas era uma satisfação. Cem!
Com o tempo verificou que as sequências dos “entas”, depois do dez e do vinte, tinham um equivalente nos cem, duzentos, trezentos e assim sucessivamente até chegar aos mil. Mil! Mil era coisa de adultos e o menino sentia-se muito feliz, mas custava chegar lá. Demorava muito tempo, mas conseguia. E depois do mil? Depois vinha dois mil, três mil, quatro mil e assim sucessivamente até que de repente começou a pensar que poderia contar sem parar. Chegado a este ponto perguntou aos mais velhos: - Até onde se pode contar? Qual é o maior número? Não lhe responderam, mas fizeram-lhe a seguinte pergunta: - O que é que tu achas? O menino pensou, pensou e depois disse: - Não tem fim! Como é possível não ter fim? Quando é que podemos acabar de contar? Riam-se e não davam respostas. Foi um novo conceito que lhe surgiu na sua cabecita e que o incomodou. Uma pergunta tão simples para a qual ninguém sabia a resposta. Uma coisa pode começar e não acabar. – Também há coisas que nunca começaram? – Coisas que nunca começaram? – Mas estás bom da cabeça? Se nunca começaram não existem! Mas o fedelho, que era esperto que nem um alho, perguntou se não era possível contar ao contrário, do fim para o zero, isto porque aprendeu a contar de forma decrescente, dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, zero!
Os adultos entreolhavam-se e não conseguiam dar uma resposta ao garoto, o que para ele era uma tristeza, porque pensava que os adultos sabiam tudo. Afinal não sabem.
E agora? Pensava, pensava mas não conseguia encontrar uma resposta. Talvez a dormir consiga, pensou. Assim, à noite, durante o sono, sonhava com muitos algarismos de cores e formas diferentes, pequeninos, grandes, sisudos, brincalhões, irrequietos; eram tantos que não os conseguia contar, estavam sempre a mudar de posição, nunca se mantinham no mesmo lugar e era impossível saber para onde iam. Tentava acalmá-los, pedindo-lhes para ficarem quietinhos e todos ordenados uns ao lado dos outros para que pudesse ver como seria o tal grande número, o maior de todos. Mas qual quê! O três, que era um invejoso, gostava de ser o oito, andava sempre à procura de um espelho ao qual se encostava transformando-se com a sua imagem num oito, algarismo antipático, que parecia ter o rei na barriga. O dois tinha a mania de ser um bailarino e gostava de deslizar como um cisne no lago. O um julgava-se o maior, pensava que era superior a todos os outros; sempre empertigado, de costas direitas, não olhava para nenhum outro; ferrava os olhos no chão, como quem diz, eu sou o primeiro. O quatro pensava que era o polícia; andava sempre de arma ao ombro e queria manter a ordem, mas os outros não o levavam a sério, um fanfarrão que não metia medo a ninguém. O cinco, um brincalhão, sempre com o boné com a pala para trás, gostava de ser ciclista e andava sempre em alta velocidade. O seis era um aldrabão, um fingido, porque umas vezes se punha a olhar para cima e outras fazia o pino, transformando-se no nove. O sete andava sempre aborrecido porque teimavam em o puxar com uma corda a meio. Fartava-se de dizer que não era preciso, mostrando, gentilmente, como era fácil distinguir-se do um, mas este não queria confusões, ele é que era o primeiro e não gostava de ser confundido com mais nenhum outro. O zero, um ai ó linda, andava sempre a rebolar por todos os lados deitando ao chão os outros algarismos que ficavam fulos com ele.
O menino tinha a sensação de que ali, no seu sonho, era possível construir o tal número, mas não conseguia lembrar-se quando acordava. Ficava um pouco confuso. Como os seus sonhos eram tão reais começou a pensar se aquilo que via no dia-a-dia não seria fruto da sua imaginação. Se assim fosse, então, no sonho, poderia encontrar e brincar com o que não tem fim e quem sabe se princípio...

Deslocalize-se a greve. Enquanto é tempo!...

É injusta a greve geral do próximo dia 24 contra o Governo e a política de austeridade. Porque o Governo não tem culpa nenhuma da crise. Fez o que pôde, como pôde e quando pôde.
A culpa é dos desgovernos da Grécia, da Irlanda, da Itália e da Espanha, que produziram défices descontrolados e dívida pública excessiva.
A culpa é dos mercados financeiros e dos especuladores internacionais.
A culpa é da União Europeia, que não previu os mecanismos adequados a sanar os problemas da Grécia, Irlanda, Itália e Espanha.
A culpa é da Srª Merkel, que avisou os credores que é seu o risco dos créditos e não quer os contribuintes alemães a pagar os devaneios dos gregos, irlandeses, italianos e espanhóis.
Pelo que a greve e as manifestações do dia 24 deveriam ser feitas em Atenas, Dublin, Roma e Madrid.
E à porta da sede dos Mercados Financeiros e dos Especuladores Internacionais e da União Europeia que os abriga.
E debaixo da janela da residência e das barbas da Srª Merkel, em Berlim.
Assim, e como está planeada, a greve falha o alvo e só prejudica os portugueses.
Pelo que a greve devia ser deslocalizada para os sítios onde estão os verdadeiros responsáveis. E punisse os governos culpados. Deixando em paz o inocente Governo português.
O justo não pode pagar pelo pecador. Deslocalize-se a greve. Enquanto é tempo!...

A emergência de uma valente desparasitagem

Sucedem-se as notícias sobre contratações políticas em catadupa. É quase sempre assim quando os governos se aproximam do estertor ou a situação política se degrada a tal ponto que se acumulam os candidatos a lugares susceptíveis de se convertem noutros, mais estáveis, numa qualquer empresa controlada pelo Estado. Mas se o "clima" favorece estas colocações, também é propício à denúncia. Nessa medida as notícias são a confirmação de uma lamentável prática de que nenhum dos partidos, nenhum!, está isento. O que mais chama a atenção é, no entanto, a desfaçatez com que, num momento difícil em que se cortam consideravelmente os salários dos funcionários públicos, se reduzem os até aqui chamados "direitos" associados às mais diversas funções e tarefas efectivamente prestadas, se acaba com benefícios sociais às famílias ou a pessoas em grande dificuldade, em geral se exigem sacrifícios de quem trabalha, acontecem coisas como esta que o ´Publico´ de hoje dá à estampa. Espanta menos que os mais altos responsáveis tolerem tais situações pois elas jamais aconteceriam sem a sua cumplicidade.
Há algum tempo atrás chocou-me saber que um dos actuais vereadores da Câmara de Lisboa, então no mesmo estatuto mas representante do Bloco de Esquerda e sem qualquer pelouro distribuído, tinha ao seu serviço, generosamente pagos pelo erário municipal, qualquer coisa como meia dúzia de assessores, numa aproximação ao que, também há uns anos atrás, constituía prática no Brasil com os "aspone" (*).
É chegado o tempo de os cidadãos se mostrarem intolerantes com estas práticas. Exigir medidas de saneamento, por razões de boa gestão dos dinheiros públicos é imperativo de higiene, mas também e sobretudo impostas pelo  respeito devido a quem efectivamente trabalha horas a fio para receber uma parte do que esta gente recebe, para além de ter de suportar com os seus impostos a parasitagem.
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(*) Aspone, era o acrónimo pelo qual era conhecido no Brasil o pessoal que orbitava à volta de todas as figuras políticas, significando "Assessor de Porra Nenhuma"

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dia mundial do não fumador

Colegas da Sociedade Portuguesa de Cardiologia pediram-me, há alguns dias, um pequeno texto, destinado ao público, relativamente ao "Dia mundial do não fumador". Aceitei o convite e escrevinhei algumas linhas, ideias e comentários.
Amanhã, dia 17 de novembro, comemora-se mais um dia na preservação da saúde do não-fumador. Por curiosidade fui ao portal da sociedade ver o artigo. Como o objetivo é a análise da problemática do tabagismo passo a transcrever na íntegra o mesmo.


"Não fumadores, fumadores e ex-fumadores...

Os comportamentos das pessoas e os ambientes em que vivem são determinantes para o bem-estar e saúde, mas podem ser, também, responsabilizados pelo sofrimento e doença.
Apesar do muito que se sabe – e não é de agora -, relativamente às consequências da exposição tabágica, que também ocorrem nos não fumadores expostos ao “fumo passivo” – cancro do pulmão e de outras localizações, enfarte do miocárdio, alterações graves da vascularização dos membros inferiores que podem terminar em amputações, patologias respiratórias responsáveis pela mais terrífica e diabólica forma de morrer, asfixia lenta -, muitas pessoas continuam a praticar esse hábito.
Os seres humanos são dotados de características próprias que os distinguem de outras espécies. Partilham comportamentos idênticos, por exemplo, comer, sem o qual não podem sobreviver. Mas a par dos “alimentos para o corpo”, o homem inventou, descobriu e desenvolveu outros tipos de alimentos, eufemisticamente designados “alimentos do espírito”. Como é a única espécie pensante, ou melhor, a única que tem consciência da sua existência e do advir, acabou por encontrar algo capaz de lhe provocar alterações no seu cérebro, através de vários mecanismos, entre os quais se destaca a procura do prazer. Nada a opor à procura de sensações que proporcionem bem-estar e prazer, o pior é quando esses hábitos, mecanismos ou atitudes acabam por provocar alterações da saúde.
A liberdade é um direito inalienável à condição humana, mesmo quando o seu uso esteja na base de prejuízos graves para a saúde do indivíduo. Deste modo, qualquer ser humano deve desfrutá-la, mas tem de ter a noção, e assumir a responsabilidade, de que alguns dos seus hábitos podem provocar-lhe a doença e levá-lo à morte precoce.
Quantas pessoas morreram no século XX devido ao tabaco? Cem milhões! E quantas irão morrer no decurso do atual século? Mil milhões! Um paradoxo próprio da conduta e interesses humanos. Sabem cada vez mais sobre tudo e sobre nada, mas não conseguem, à escala planetária, reduzir ou travar certos fenómenos, como é o caso do tabagismo.
O que se está a observar neste momento é uma dualidade de comportamentos e atitudes entre os dois mundos em que vivemos. No civilizado, ou dito como tal, diminui o número de fumadores, enquanto no mundo subdesenvolvido aumenta o efetivo de consumidores. Como nos povos subdesenvolvidos a população é substancialmente numerosa, face ao primeiro mundo, e bastante vulnerável face aos interesses económicos, aliados à falta adequada de informação, logo, podemos explicar a tendência para a decuplicação da mortalidade que irá decorrer ao longo do século XXI devido ao tabaco.
Nos povos mais desenvolvidos, a consciência dos cidadãos e a implementação de medidas legislativas foram determinantes para a redução deste fenómeno, tabagismo ativo e passivo. É a altura ideal para provar os efeitos das medidas de cariz legislativo. Tudo aponta, com base nalguns estudos, caso da vizinha Espanha, que as leis antitabágicas já começaram a dar um contributo significativo em número de vidas salvas e na redução de patologias associadas com o tabaco. Afinal, os detratores da legislação antitabágica, que em Portugal tiveram algumas atitudes lamentáveis, chegando ao ponto de utilizarem expressões ofensivas ao conotá-la com o espírito nazi, como um atentado à liberdade, uma expressão de “talibãs da saúde”, não têm razão nenhuma na sua “cruzada” pró tabaquito. A legislação não tem como objetivo impedir a liberdade e as opções individuais. Não, a legislação, neste caso concreto, tem como objetivo defender os que não fumam, a sua saúde e bem-estar. E estamos a conseguir.
Precisamos de “alimentos para o corpo”, devemos escolher os melhores “alimentos para o espírito” (há-os com fartura, sem prejuízos e até com benefícios) e devemos optar pelos melhores “alimentos para a sociedade”, neste caso medidas legislativas capazes de contribuírem de forma inequívoca para a saúde e a riqueza da nossa sociedade, que tão bem precisa.
Uma saudação a todos os que não fumam, aos que já deixaram de fumar e aos fumadores, porque todos têm os seus direitos e responsabilidades. Importa, pois, que cada “grupo” saiba representar com elevado sentido cívico o seu papel na sociedade, não caindo em fundamentalismos nem em falsos moralismos, mas respeitando sempre a saúde do próximo e, se possível, caso assim o entenda, também a sua...
Salvador Massano Cardoso
Professor Catedrático de Epidemiologia e Medicina Preventiva
(ex-fumador há 27 anos)"

Escutando a justificação dos queridos governantes sobre as opções orçamentais...

... tenho de dar razão ao amigo que ao almoço comentava: exumaram Keynes para o mortificar!

O contágio e o antibiótico

"...O risco é elevado porque não estamos perante um problema apenas nacional ou do país. Trata-se de problemas da Grécia, de Portugal e da Irlanda...os mercados olham para essas economias em conjunto porque estamos todos juntos na zona do euro, mas provavelmente olhariam de forma diferente se lá não estivéssemos. O risco de contágio poderia ser menor...".
Teixeira dos Santos, ao Finantial Times, referindo-se à possibilidade de Portugal recorrer ao fundo de emergência.
Pois é, o contágio...E sair da União Europeia, o antibiótico anti-contágio. Ficaríamos bacteriologicamente puros de défices e a dívida certamente liofilizada...
Razão tem Cavaco: nos tempos que correm, o silêncio é de ouro!...E, concluo eu, também com razão: a palavra do Ministro é lata. Lata que mata. Não há antibiótico que lhe acuda!...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Simplesmente...

... ensandeceram!

Curiosidades...

Não tenho nada contra a "bola", muito pelo contrário, mas tenho dificuldade em entender que a prática de um desporto ou de um exercício físico seja menos importante do que um espectáculo de futebol. Os critérios para esta diferenciação não são óbvios. O contrário seria mais acertado: exercício no ginásio a 6% e futebol na bancada a 23%!

Estatuto de Pedinte Internacional, para fim de festa?

Estatuto de Pedinte Internacional fica-nos muito bem, para fim de festa?...

1. Confesso que me impressionou muito mal a notícia ontem divulgada aventando a possibilidade de Timor-Leste vir a adquirir dívida pública portuguesa...
2. Um país que depende da ajuda internacional, que tem tudo para realizar em matéria de infra-estruturas, extremamente sub-desenvolvido, que tem por tudo isso muito mais que fazer ao dinheiro que vier a receber das concessões petrolíferas, dispõe-se a emprestar dinheiro a Portugal? Quando ainda há muito poucos anos para lá enviávamos ajuda (ainda enviamos provavelmente)?
3. E não foi estimulante ver o grande estadista Ramos-Horta dissertando pomposamente sobre o tema, em estilo de titular de qualquer reino das Arábias, admitindo dar uma ajuda a Portugal mediante a aplicação em dívida pública portuguesa de uma parte das reservas do Fundo que vai gerir as receitas do petróleo do país...
4. Mais lamentável, muito mais lamentável, foi verificar a reacção aparentemente feliz de alguma comunicação social doméstica, como se de um grande feito se tratasse aparecermos agora em Timor, de mão estendida, a pedir dinheiro...não têm mesmo cura estes inefáveis génios da comunicação!
5. Cabe notar que Timor aparece na lista de credores potenciais a seguir à China, a países árabes, a Macau, num cerimonial de mão estendida a que parece estarmos agora votados com grande pompa, depois de termos gasto tudo o que tínhamos para gastar e de nos termos endividado até mais não poder...
6. Só falta mesmo o camarada Hugo proclamar que a Venezuela está disposta a comprar dívida pública portuguesa, para nos salvar das garras dos especuladores internacionais...pese embora o facto de o camarada Hugo mostrar mais aptidão para celebrar contratos-promessa de compra (sem prazo, de preferência...) e não propriamente para comprar...
7. Em resumo, estamos a criar um sólido e distintíssimo estatuto de Pedinte Internacional, estendendo a mão a qualquer “bicho-careta” que nos apareça pela frente admitindo que está disposto a comprar dívida pública portuguesa...será para fim de festa?...
8. Em curioso contraste, parece que fugimos como “o diabo da cruz” quando nos falam em pedir ajuda ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira/FMI...como entender este paradoxo no quadro da política de mão-estendida?...

Só no meio da multidão

"Conhecia-o? Pessoalmente, não. Habituei-me a vê-lo e a saudá-lo ao longe ..." Este um dos muitos testemunhos que vieram no jornal após a sua morte.
Espanta-me que tanta gente se tenha reunido na rua para fazer uma “última homenagem” a essa figura estranha e simpática que ficou conhecida como “o senhor do adeus”. Eu nunca passei por ele, nem nunca o vi acenar, à noite, sozinho, para os carros que passavam, provavelmente a sorrir quando lhe sorriam, essa era, segundo contam, uma forma desesperada de sentir algum calor humano na imensa solidão da sua vida de velho. Teria também um amigo ou outro, mas isso não chega, as pessoas precisam de socializar, de se sentir parte de alguma coisa, e quando não se tem nada qualquer migalha serve para preencher o vazio. Dizer adeus a um velhote que está na rua à espera que passem os carros não é integrá-lo e, muito menos, considerá-lo um “amigo” , as pessoas sentem a falta dele porque pelos vistos, ele ainda foi capaz de transmitir alguma coisa aos outros. Mas alguém se lembrou de lhe fazer uma homenagem em vida, usando os mesmos meios de comunicação que agora conseguiram juntar a multidão?
Digo isto porque fazer companhia a quem está só dá muito trabalho, cria dependência e obrigação, é preciso ir uma vez e outra, é preciso passar a ir sempre à hora ou no dia em que o outro espera por nós, não é só quando a nós nos faz falta. O problema, e é sempre esse o problema, é que qualquer gesto de aproximação quebra a liberdade de continuar a passar só a acenar, é isso mesmo que fazemos a maior parte das vezes, e consideramos que já é muita simpatia da nossa parte não ignorar pura e simplesmente, vá lá o sorriso, vá lá o adeus, o homem ficava contente e não custava nada, nem sequer uma moeda porque não era isso que ele pedia. Precisamente, ele não era um pedinte de dinheiro mas de afectos, “dê lá um adeuzinho”, não custa nada, e as pessoas davam, achando graça à originalidade, perguntando-se se não seria um louco inofensivo.Mas pelos vistos o que ele queria, dois dedos de conversa e uma roda de pessoas interessadas nele, só conseguiu depois de morto. Talvez ele também lá tenha estado, como sempre, a acenar ao longe, parado, a vê-los perder agora, tarde demais, uns minutos da sua vida enquanto falavam dele para as câmaras de televisão. "Alegrava a cidade", dizem, em homenagem a um homem tristemente só no meio da multidão.

domingo, 14 de novembro de 2010

4 * 9 = 2 * 3 * 6

O Expresso apresenta neste fim-de-semana um artigo (para o qual não consegui fazer o link) no qual são reveladas algumas conclusões constantes dos relatórios de análise às provas de aferição de Português e de Matemática do 4º e 6º anos elaborados pelo Gabinete de Avaliação Educacional.
A Matemática continua, invariavelmente, a ser um “quebra-cabeças” nacional, com os alunos a não responderem correctamente a problemas considerados elementares, a manifestarem dificuldades na análise e compreensão dos problemas e na elaboração do raciocínio matemático.
Eu que dei aulas de matemática durante muitos anos sei que os métodos utilizados no ensino da matemática são fundamentais para que os alunos percebam a lógica dos números. É a falta de conhecimento lógico e de treino que impede os alunos, e mais tarde quando adultos, de fazerem operações simples de multiplicar e dividir. Os miúdos hoje em dia não sabem, em geral, a tabuada porque não lhes é ensinada e explicada a lógica da sua construção.
O quebra-cabeças da matemática é mais uma daquelas fatalidades nacionais que teimamos em não enfrentar de frente, que as autoridades continuam ciclicamente a tentar desvalorizar, jogando com percentagens, mais à esquerda ou mais à direita, que na época das provas nacionais servem para dourar a pílula, tentando convencer as pessoas que as coisas estão muito melhores, sabendo-se que a maioria da população não faz uma pálida ideia da importância da matemática, nem tem consciência da falta que lhe faz.
Nos ditos relatórios o GAVE faz as seguintes recomendações: “Nesse sentido, recomenda-se aos professores que façam mais vezes experiências matemáticas em que os alunos tenham de resolver problemas num dado contexto, discutir estratégias de resolução, analisar o significado das soluções e comunicar os resultados a que chegaram”.
Mas é preciso fazer estas recomendações? É que sem elas não se entende como podem ensinar matemática. Não admira, pois, que seja complicado para os alunos interpretar, resolver e pensar as soluções...

Diabetes



Hoje é o dia mundial da diabetes. Uma das mais graves epidemias que atinge a espécie humana. Os portugueses sofrem cada vez mais de diabetes que, além das complicações e sofrimento que estão associados, é fonte de graves prejuízos económicos. Um país pobre como o nosso esvai-se em perdas com esta doença, que só no tratamento absorve mais de 7% do orçamento para a saúde, qualquer coisa como 1,0% do produto interno bruto nacional. Uma doença de pobres que empobrece cada vez mais o país. Há pouco mais de uma semana fui convidado para fazer uma conferência sobre “Diabetes e Condição Social”, na qual pretendi demonstrar certas causas que merecem ser analisadas e tomadas em linha de conta no combate a tão terrífica e invalidante doença.

A menina que calou o mundo por 5 minutos.



Na sequência de um comentário a um texto que publiquei no Quarto da República, "Poluição Atmosférica e Doenças Cardiovasculares", o comentador fez a seguinte afirmação: "As vezes é demasiado fácil resolver problemas tão complicados", remetendo para a visualização do presente vídeo. Vale a pena ouvir. Foi em 1992, na Conferência do Rio, quase há 20 anos. O que foi feito desde então?

O novo Senhor do Adeus