Número total de visualizações de página

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A factura energética e o futuro


Agora, à custa de muito sofrimento actual e do muito que ainda nos prometem para o futuro, há que levar a sério os balanços que se fazem sobre os investimentos, a sua rentabilidade ou potencialidade, os encargos que teremos que pagar pelo que hoje se projecta e executa. A este propósito, o artigo publicado no Jornal Público por Mira Amaral e Pedro Sampaio Nunes “A factura da electricidade e a sustentabilidade económica de Portugal”merece uma leitura muito atenta. Aí se explicam os custos da “aposta excessiva nalgumas renováveis para a produção de electricidade”, custos esses que têm sido “disfarçados” e que “se irão agravar necessariamente no futuro, qualquer que seja a evolução do preço dos petróleo”. Para o aumento exponencial dos custos de interesse económico geral (CIEG), o artigo cita o alerta do Conselho Tarifário, que manifesta a sua “inquietação” para o facto de os seus avisos não estarem a ser considerados, assistindo-se "não só a um crescendo volume de encargos a suportar pelos contribuintes de energia eléctrica, como são criadas, com alguma regularidade, novas componentes”.O artigo põe ainda em causa a “aposta fantasista deste Governo no carro eléctrico, que se irá transformar noutro enorme elefante branco”. Já que estamos em maré de detectar elefantes brancos, talvez este tema valesse bem uma reflexão.

É pouco mas é alguma coisa...

Uma lufada de trabalho para quem está inactivo e/ou uma oportunidade de acesso a uma remuneração, ainda que precaríssimas, para 30.000 pessoas que o INE está à procura para realizar o CENSOS 2011.
Embora as habilitações académicas mínimas estabelecidas correspondam ao 9º ano, a candidatura de 17 mil licenciados não pode constituir surpresa. Não só dispõem de habilitações muito para além do que a tarefa exige, como concorrem com candidatos menos qualificados.
Quando não há trabalho e não há dinheiro, os mais qualificados aceitam o que outros menos qualificados estariam em condições mais ajustadas de fazer. Uma distorção económica e social do mercado, ditada pela elevada taxa de desemprego e reduzidas oportunidades de trabalho.
Nunca me esqueço de uma rapariga que uma vez encontrei a fazer trabalho de limpeza de rua. Calhou cruzar-me com ela por causa do estacionamento do carro. Era nova, com um ar fresco, cabelo preso com um lenço, por sinal bem bonito, com a tristeza escondida por um sorriso sereno. Alguma coisa nela me dizia que o fato que vestia não lhe assentava bem. Não que limpar a rua não seja uma tarefa digna como tantas outras e, aliás, muito útil.
A rapariga era licenciada, precisava de sustento. Depois de muitos currículos enviados, entrevistas frustradas, outras tantas prometidas que nunca se realizaram, não teve outra alternativa que não fosse concorrer a trabalho menos qualificado. E conseguiu. Foi contratada temporariamente para fazer aquela tarefa, recebendo pouco mais que o salário mínimo.
Uma situação que dá que pensar, balançando entre o sentimentos de justiça e o sentimento de injustiça, sobre o que é e deveria ser a realidade ou talvez que esta deixou de ser o que era. E depois, o desaproveitamento colectivo do investimento feito na formação da rapariga, por ela própria, pela família e pelos nossos impostos, a desilusão que sofreu e as perspectivas pouco animadoras, a actuação da entidade patronal que fez tábua rasa das suas habilitações, etc.

O leasing na política

PS e PND em guerra por Coelho!...
Fui aliciado pelo PS, diz Coelho…
O PS quer aproveitar esta época de Janeiro para reforçar a equipa e obter a transferência do ponta-de-lança Coelho que milita no PND, seu clube rival na região. Elemento polivalente, que também sabe jogar nas extremas do relvado e, sobretudo, fora dele.
O atleta e o seu clube colocam reticências tácticas, certamente por razão do preço. E de outras condições contratuais, já que, diz um circunspecto e expresso semanário, o atleta considera inegociável a liberdade de insultar o novo patrão sempre que as jogadas o requeiram.
Terminando hoje o período de transferências, e para evitar indesejáveis impasses, deixo aqui uma sugestão, que talvez contente a todos. Em vez da transferência pura e simples, pois que se negoceie uma operação de leasing.
O Coelho continua propriedade do PND, mas passa a correr pelo PS, que paga uma renda pela utilização. Se der bom rendimento, há lugar à opção de compra; se continuar a insultar o arrendatário, este fica com a opção de o devolver à procedência.
Em alternativa, pode ser experimentado o ALD. Aqui, o PND comprometia-se a entregar o Coelho nas condições óptimas requeridas para a performance desejada. Sem custos adicionais para o arrendatário. E com a devolução garantida à partida.
Todos ganhariam: o PND ficaria com a propriedade e o PS com o uso. E o coelho pronto a ser servido, ora por um, ora por outro, conforme as vicissitudes do contrato.


Propostas claras

Vantagem para quem não se deixa enredar nas polémicas menores. Passos Coelho continua corajosamente a apresentar as propostas que se impõem, visando inverter o PREC que ao longo destas décadas se foi paulatinamente instalando na economia portuguesa. Neste fim-de-semana exigiu que o governo apresente um plano de reestruturação do sector empresarial do Estado, envolvendo o encerramento daquelas empresas públicas cronicamente deficitárias, que produzam bens ou prestem serviços em competição com outras empresas do sector privado.
Os bons espíritos, à direita e à esquerda, sabem bem que nenhum benefício real o País colhe deste outro monstro que é um sector empresarial que se tornou verdadeiro sorvedouro dos magros recursos que conseguimos gerar, travando dinâmicas designadamente as que consentiriam mais investimento e mais emprego. Sabem que a razão de existir de muitas empresas é só uma: garantir a permanência de lugares, sumptuosamente remunerados, ocupados pelo pessoal político que é a garantia do status quo.
São estas propostas, claras,  que colocarão Passos Coelho, aos olhos dos portugueses, a caminhar na direcção certa, a atacar os problemas estruturais do País, entre os quais a dimensão de um Estado insustentável é porventura o maior. A melhor prova do bom caminho é o silêncio comprometedor do PS  e esta imediata reacção dos guardiões do PREC.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Em língua, somos mesmo bons!...

Por lá, no Egipto, é a revolução popular a vir para a rua e a derrubar o governo.
Por cá, a revolução linguística está mais adiantada e acabou já com o país. O Egipto deixou de existir. Nasceu o Egito.
Só não sei é como se passam a chamar os indígenas desse país nascente. Egípcios, não, com toda a certeza!... Egítios? Egícios?
Enfim, com tanta simplificação, é cada vez mais difícil falar português.
Porque escrever, já não interessa: é coisa que qualquer "magalhães", mesmo mal amanhado, lá vai resolvendo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Difíceis constatações...

Acho "graça" ouvir determinados comentadores políticos lembrar que Portugal tem níveis de cobertura da eventualidade do desemprego superiores a outros países europeus e que tem o subsídio social de desemprego que não existe em outros países. Uma generosidade extra do nosso Estado Social! Mas a verdade é que se assim não fosse, em lugar dos 45% dos desempregados que não recebem prestação social do desemprego, o flagelo seria muito maior.
O problema é que o desemprego está a aumentar e não há perspectivas de que a situação se inverta. Se a economia não for capaz de gerar emprego, não só teremos mais pessoas sem emprego, como vai crescer o grupo dos desempregados sem direito a subsídio. É que o desemprego de longa duração está a aumentar, assim como está a crescer o trabalho precário. No primeiro caso o direito ao subsídio esgota-se com o tempo e no segundo caso o tempo de descontos não é suficiente para formar direito ao subsídio de desemprego.
Com este quadro podemos esperar um aumento da pobreza e do número de pessoas com privações de bens essenciais à vida.
Se olharmos para a estrutura do desemprego, percebemos que teremos que ter soluções diferenciadas para resolvermos os problemas específicos dos vários grupos de desempregados, com idades e qualificações diferentes.
Segundo dados recentes do INE, o retrato do desemprego em Portugal é o seguinte;
. 609 mil desempregados, sem contar com os jovens que emigraram por não encontrarem trabalho em Portugal, os imigrantes que abandonaram o País e aqueles que desistiram de procurar emprego.
. Destes, 99 mil têm entre 15 e 24 anos e 185 mil têm mais de 45 anos.
. A maioria não tem formação superior: 418,5 mil têm até ao ensino básico – 3º ciclo e 122 mil têm o secundário e pós-secundário.
. Com formação superior, são 69 mil desempregados.
. À procura de emprego há mais de um ano estão 332 mil desempregados.

Os comentadores-fantasma

Como os candidatos das esquerdas perderam clamorosamente, continuam os lamentos e as lamúrias sobre os resultados das Presidenciais. O mau perder em todo o seu esplendor!...
Uma eleição de desencanto... A maior abstenção de sempre… O maior número de votos brancos da democracia portuguesa... Um Presidente reeleito com o menor número de votos de sempre... Discurso de acrimónia…E etc, etc, etc… é o que dizem os jornais, jornalistas e comentadores, deste fim-de-semana.
Já repararam essas luminárias escreventes e os Directores que os contratam na abstenção que vai por aí na compra dos jornais? Já repararam que, aí, todos os dias se batem recordes de abstenção?
Não reparam que cada vez se liga menos ao que escrevem? Não é verdade que, se assim não fosse, Cavaco sairia derrotado em toda a linha?
E por que não dizem que os resultados da abstenção são falsos, porque há mais de um milhão de cidadãos-fantasma recenseados e registados nos Cadernos Eleitorais?
E, mesmo que não houvesse, o resultado das eleições é o que resulta dos que votam ou dos que não votam?
Ou será que já só escrevem para a família e para os amigos do café?
Enfim, para além dos recenseados-fantasma, os jornalistas-fantasma e os comentadores-fantasma!... Já não andam neste mundo. Já não são deste mundo!...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ponha-se na fila, s.f.f.!

Nós pedimos primeiro.

Estado Novo, Unitário e Corporativo...ao jeito socialista

A aplicação do novo Regime Jurídico das Federações Desportivas ao futebol, a discutir amanhã na A.G. da Federação, se evidencia uma clara e duradoura desobediência à lei, com a agravante de o Governo se ter demitido de intervir de forma rápida eficaz, também consagra o regresso do Estado Corporativo em todo o seu esplendor. Salazar pula de contente!...
A rebelião das Associações que formam a Federação prende-se com o facto de perderem a maioria na Federação, transferindo para outrem, assalariados da actividade desportiva, jogadores, treinadores e médicos, parte da sua representação no órgão máximo federativo. E esquecendo injustificadamente outros intervenientes, como massagistas ou enfermeiros.
É assim como se, na CIP, o órgão de cúpula integrasse a representação, enquanto tal, dos trabalhadores das empresas associadas, electricistas, empregados têxteis, engenheiros ou juristas. Ou como se a Assembleia Geral da FENACAM, Federação que agrupa as Caixas de Crédito Agrícola, incluísse a representação dos Informáticos, Analistas de Crédito, Empregados de Balcão ou Avaliadores que trabalham naquelas instituições. Ou como se os patrões integrassem a Mesa e votassem no Congresso da Intersindical.
Para ajudar ao paradoxo, também a imprensa desportiva, mas não só, vem ameaçando com a intervenção da UEFA, o que é um saloísmo sem nome. Se alguma coisa a UEFA preserva é a auto-regulação das Federações. Daí, os castigos que impendem sobre os clubes que recorrem à justiça do Estado.
Mas, elevando o paradoxo ao mais alto grau, aí está a UEFA a querer assistir à Assembleia Geral, sem propósito válido nem utilidade visível. Não ficando o ridículo por aqui, os mesmos que pediam a intervenção da UEFA são os que agora pedem para não vir. Enfim, grandes jogos de poder sobre insignificantes minudências.
Entretanto, vamos institucionalizando o Estado Corporativo. Que, com as Regiões, depressa também se tornará unitário. Enfim, um Estado Novo, Unitário e Corporativo, ao jeito Socialista.

Auto-elogio balofo: no exterior, já não convence ninguém...

1.“Investidores no mercado da dívida da zona Euro já viram este filme”...Esta expressão, carregada de ironia, encerra um artigo da última edição da revista Economist, dedicado à situação portuguesa, e tem a ver com os auto-elogios proferidos pelo PM aquando do anúncio de um défice orçamental de 7,3%do PIB, ou inferior, em 2010.
2.Nesse mesmo artigo é referido que a procura no último leilão de dívida pública (de médio e de longo prazo) não consegue mascarar os sérios problemas com que se debatem as finanças públicas portuguesas...
3.Num comentário que serve para percebermos até que ponto os mercados externos atribuem crédito às declarações de auto elogio de responsáveis governamentais lusos, a revista refere-se à declaração do PM, anunciando um défice de 7,3% do PIB em 2010, nestes termos:
4. “O PM afirmou que o défice de 2010 iria ficar abaixo de 7,3% do PIB e que Portugal seria um dos países em que o défice iria cair mais de 2% do PIB em relação ao ano anterior”. Mas acrescenta,
5.“Todavia, o rendimento contabilizado pela transferência do fundo de pensões da PT representa uma grande parte dessa redução”. E ainda,
6.“Este arrastamento do processo de consolidação orçamental não irá mudar, por muito tempo, o estado de espírito dos investidores. O sucesso do leilão de dívida deverá proporcionar um alívio apenas temporário”...
7.E o artigo remata com a frase irónica citada no ponto 1...
8.Torna-se claro que o discurso balofo de auto-elogio, se ainda produz alguns efeitos internamente – pelo menos ao nível dos habituais “media” colaborantes e graças ao esforço “patriótico” das agências de comunicação – no exterior está esgotado, não convence ninguém...

Ainda a questão da auto-responsabilidade política

Em Portugal a questão da auto-responsabilidade política é tema recorrente. Voltou agora, a propósito do caso, gravíssimo, das falhas nos sistemas de informação do eleitor, impedindo muitos cidadãos de exercer o direito maior em democracia.

Com excepção, que me lembre, de dois casos, não se conhecem nestes quase 37 anos de democracia, políticos que, perante falhas graves a eles imputáveis ou de responsabilidade de altos funcionários ou outros políticos deles dependentes, tenham retirado consequências e entregue os mandatos. Pode aliás afirmar-se que se estabeleceu entre nós um costume, uma cultura alérgica à responsabilidade dos governantes por actos e omissões de governo.

O caso do ministro Rui Pereira é paradigmático. Mesmo sem conclusões do inquérito, o que se conhece aponta para uma omissão de tal forma grave que, respondendo o ministro perante os cidadãos, deveria ter renunciado ao cargo antes de alguém exigir que o fizesse. Não foi assim. E salvo milagre, não acontecerá nada a Rui Pereira por sua iniciativa. O apego ao poder, o penacho, a vaidade prevalecerão sobre os valores que lá fora, com naturalidade, levam a que o governante saiba quando não tem condições para exercer a função, quando cessou a confiança em si, e entrega a pasta. Os próprios consideram esse gesto como um imperativo de natural depuração da democracia. Os próprios sentem que não são ministros, estão ministros, expressão que alguém um dia – e bem – usou.

O Dr. Rui Pereira é a pessoa que, dias após a sua investidura como juiz do Tribunal Constitucional, não viu problema em demonstrar por actos que a neutralidade e imparcialidade do juiz constitucional é uma impostura (sendo eventualmente injusto para alguns dos seus episódicos colegas), aceitando então demitir-se para integrar um governo de partido. Não admira, pois, que hoje não veja quaisquer razões para considerar que está a mais.

Uma nota final. O Sr. Ministro da Presidência veio declarar, com ar grave, que este caso deve ser encarado com seriedade. Não posso estar mais de acordo. Pena é que assim não pense o seu colega de governo Rui Pereira.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Não há notícias grátis

Um sujeito prescinde do ordenado, para não descontar 10%!...
É por esta e por outras que as tiragens do DN andam pelas ruas da amargura. Mas há-de arranjar-se qualquer forma de pagarmos a factura.
Não há notícias grátis.

Continua a propaganda, cada vez mais enganosa!...

No canto inferior esquerdo, mas com grande relevo, e depois em notícia mais desenvolvida, o DN de ontem noticiava que Cavaco Silva tinha que devolver ao Estado mais de 350.000 euros de subvenção para a campanha, e que a lei assim o obrigava.
O que, pela composição dos títulos e da descrição imediata, desde logo inculcava a ideia de Cavaco tinha praticado qualquer fuga à lei ou efectivado prática abusiva, que implicava reembolso de dinheiro indevidamente recebido.
Nada mais mentiroso e falso. Como é sabido, o valor da subvenção do Estado para a Campanha Presidencial é calculado em função do número de votos, que só é conhecido após as eleições. Isto numa democracia, que ainda somos. Assim sendo, Cavaco não recebeu ainda qualquer subvenção do Estado para a Campanha. Como, aliás, os outros candidatos. Nada tendo recebido, naturalmente nada tem para devolver.
Ao valor da subvenção devida pelo número de votos há que deduzir os donativos feitos por cidadãos e empresas, nos termos da lei. Assim, ao candidato Cavaco Silva compete receber uma subvenção de 1,9 milhões de euros, correspondente ao número de votos, deduzida dos donativos recebidos.
Como tal, havendo apenas recebimento do valor resultante de acerto de contas, nunca há devolução de dinheiro recebido a mais.
Não é digno dar notícias erróneas ou susceptíveis de induzir em erro.
Mas, quando à indignidade se junta a forma canhestra, boçal e primária como são dadas, confirma-se mais uma vez que muito vai mal na informação em Portugal. Propaganda, ainda por cima, enganosa, não é informação. Embora alguns, já tão habituados, pensem que sim.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Débil inteligência...pura e política!...

A não contarem os votos brancos ou nulos, como nas Presidenciais, o PS teria uma percentagem de 46,4% nas Legislativas de 2005 (de acordo com a lei, e contando esses votos, teve 45%, que lhe deu a maioria absoluta).
Ninguém de boa fé contestou a força que advinha da consulta popular e a legitimidade do PS para governar, apesar de ter ficado aquém dos 50%.
Agora, Cavaco Silva teve uma votação de 52,94%, que compara com os 46,4% do PS em 2005.
Nas Legislativas de 2009, em que o PS teve uma votação de 36,6% e maioria relativa, se não contassem os votos brancos e nulos, a percentagem seria de 37,7%.
Agora, Cavaco Silva teve uma votação de 52,94%, que compara com os 37,7% do PS em 2009, mais 15,2 pontos percentuais.
Mas logo proeminentes socialistas, a mando do Partido, puseram em causa a vitória de Cavaco, vitória escassa, que o fragilizava de morte. Isto é, num caso, 37,7% dão toda a legitimidade ao PS para governar; noutro, 52,94% não chegam para dar força à função!...
Diz também o PS que o Presidente eleito o foi apenas com o voto explícito de uma minoria de cidadãos.
Ora, nas Legislativas de 2005, em que o PS teve maioria absoluta, apenas 21,8% dos inscritos votaram no Partido Socialista.
Agora, Cavaco Silva, teve uma percentagem superior, de 23,2%, em relação a um universo bem maior (mais 580.000 recenseados).
Pelo que a Campanha do Partido Socialista e comentadores arregimentados no sentido de apoucar a vitória de Cavaco Silva é um acto de forte demagogia e de muito débil inteligência, pura e política.
Argumento tão parvo que se vira contra os próprios, estilhaçando-os. Mas é procedimento a que começamos a estar mais do que habituados.

A abstenção e a arena política

Muito se tem dito e escrito sobre os resultados eleitorais e os malabarismos contabilísticos que intervieram nesse balanço trouxeram à tona insuspeitas habilidades matemáticas. Diz-se que os números, bem torturados, confessam o que se quiser... O maior quebra cabeças parece ser o da abstenção, em relação ao qual um coro de carpideiras arrepela os cabelos e reflecte dolorosamente sobre o muito que será preciso mudar “na política”.
O candidato vencedor manifestou, muito justamente, a sua indignação pelo modo como decorreu a campanha eleitoral, assumidamente dedicada por outros candidatos ao ataque pessoal, ao inquisitório e ao culto medíocre da suspeição. Para os que se arrepiaram com tal franqueza e recomendavam mais hipocrisia política, deixo aqui um excerto da entrevista que Maria de Belém Roseira, mandatária nacional do então candidato Manuel Alegre, deu à TSF no dia 14 de Janeiro:
"O que me preocupa mais é a taxa crescente de abstenção que tem existido nos vários actos eleitorais e designadamente em (re)eleições presidenciais. (…) Acho que estes temas (BPN) serem depois considerados como ataques pessoais ou porem em causa a honorabilidade das pessoas é que fazem com que as pessoas se afastem. Pessoalmente tenho tido sempre uma intervenção no sentido de considerar que fazer do espaço político uma arena é absolutamente considerado inadequado para as pessoas. É a minha visão. Eu própria não gosto de participar num espectáculo em que as pessoas se agridem umas às outras e em que depois nos corredores se encontram e se abraçam esfuziantemente. Acho que as pessoas não gostam deste tipo de coisas porque não as entendem. (…) quando há uma diminuição do nível das intervenções , quando há uma agressividade na linguagem, que eu pessoalmente não aceito e que critico de uma maneira feroz, nós transmitimos para a opinião pública uma imagem que é a de que, se as pessoas não se entendem umas com as outras, como é que vão entender-se para conduzir os nossos destinos. Essa é uma das coisas que mais contribui para cavar esse divórcio das pessoas pelo que se passa no mundo da política."
Foi pena que não tivessem ouvido a mandatária, mas vão sempre a tempo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A dignidade é 30 euros por sessão

A Ministra da Educação indignou-se com a participação de crianças na manifestação do movimento SOS Educação, contra os cortes nos financiamentos no ensino particular.
Mas, digna, digna, foi a participação, como figurantes, de crianças de dez anos, contratadas a 30 euros, para colorir a apresentação feita por Sócrates do Plano Tecnológico da Educação.
Contratadas por uma agência de casting da NBP, produtora de programas de televisão, especialmente novelas...
Dignidade a 30 euros por sessão!...
Foi um erro de Sócrates, grave, apoiar Manuel Alegre...
Mário Soares, em artigo no DN
E, digo eu, virtude excelsa ter apoiado Soares nas eleições de 2006!...
Nota: Mais uma vez estou em desacordo com Mário Soares. Sócrates tem acertado sempre, com precisão absoluta, na escolha dos candidatos que o povo rejeita. Por larguíssima maioria.

Cavaco rancoroso ou politicamente incorrecto?

1.Um velho ditado português reza: “Quem não se sente, não é filho de boa gente”.
2.Admito que pela mente do Presidente da República reeleito no passado Domingo,tenha passado esse velho ditado, quando se referiu aos ataques pessoais, violentamente desprimorosos, a tocar a ofensa da honra e do bom nome, que lhe foram dirigidos durante a campanha (sobretudo) por três outros candidatos, M. Alegre, D. Moura e J. M. Coelho.
3.Classificar a referência de Cavaco Silva a esse tema, na noite de Domingo, como expressão de rancor, como faz hoje Mário Soares, parece-me claramente inapropriado. Expressão de mágoa e de indignação, por parte de quem se sente ofendido no seu bom nome, certamente, mas expressão de rancor não me parece o qualificativo adequado.
4.Cavaco Silva limitou-se a exprimir a sua enorme incomodidade face a uma “campanha de sujidade”, como lhe chamei em Post anterior - uma campanha que, visando incentivar à abstenção, procurou sujar o seu nome até aos limites do impossível, alimentada por fontes talvez facilmente detectáveis...
5.Campanha que, não tendo conseguido um grande sucesso, uma vez que dois dos seus agentes materiais sofreram pesados insucessos eleitorais (M. Alegre e D.Moura), a verdade é que terá atingido parte dos seus objectivos ao induzir muitos cidadãos para a abstenção.
6.O que se pode dizer desta intervenção de Cavaco Silva é que terá sido politicamente incorrecta. Seria mais convencional, na noite da vitória, esquecer esses atritos e enveredar apenas pela celebração do triunfo, com um discurso abrangente do tipo “tradicional”, politicamente correcto.
7.Mas Cavaco Silva não quis ir por aí e na minha opinião estava no seu pleno direito, pois “quem não se sente não é filho de boa gente”- e aquele era o momento de deixar essa palavra de especial indignação.
8.Poderei anotar que foi pena ter metido todos demais candidatos no “mesmo saco”, sendo certo que pelo menos um deles, Fernando Nobre, utilizou um discurso bem mais limpo, tendo resistido, quase sempre, à tentação de sujar o nome do seu adversário. Teria ficado bem a Cavaco Silva reconhecer pelo menos essa excepção, foi pena.
9.Dito isto, devo acrescentar que estou convencido que Mário Soares também é capaz de ter entendido a reacção quente de Cavaco Silva na noite da vitória...mas, tendo de dirigir uma crítica especialmente violenta a J. Sócrates, pelo apoio a M. Alegre a reboque do B. Esquerda (o que não teria lembrado ao diabo mas lembrou a JS...), seguiu a técnica de balancear essa crítica com uma referência acessória negativa para Cavaco Silva...quis ser politicamente correcto...
10.Técnica que neste caso resultou em cheio, sublinhe-se, pois os “media” acabaram por dar mais ênfase ao acessório que ao essencial...como é habitual, de resto...

O gesto de Jorge Sampaio

Ouvi hoje numa rádio, creio que na TSF, que o ex-Presidente da República Jorge Sampaio fez questão de depor pessoalmente a favor de José Penedos no processo Face Oculta. Jorge Sampaio explicou que considera que o depoimento escrito, que teria a prerrogativa de fazer, não teria a mesma força porque pareceria ser “cozinhado num gabinete” , e que a sua experiência como advogado lhe ensinou que o testemunho pessoal demonstra melhor a sua convicção. Acrescentou que conhece José Penedos e a sua vida profissional e pessoal e que lhe merece todo o respeito, incluindo pelo modo como exerceu as suas funções enquanto membro do governo.
É cada vez mais raro assistirmos a alguém que tem a coragem e a frontalidade de defender publicamente os que são objecto de processos mediáticos e se vêm envoltos na habitual onda de suspeições e juízos na praça pública. Os que são lançados nesta fogueira raramente encontram quem queira queimar as mãos em sua defesa, sobretudo se forem figuras públicas.
Sumariamente afastado das funções que exercia há vários anos como Presidente da REN, José Penedos remeteu-se ao silêncio e aguarda julgamento. Jorge Sampaio vai a Tribunal defender quem lhe parece que merece ser defendido, sem olhar a cálculos políticos ou sem aproveitar a reserva que a lei lhe permitia. Felizmente, a política ainda tem quem assume os seus valores de justiça e de lealdade, num ambiente que convida à cobardia e se alimenta de declarações esquivas, de entrelinhas e de olhares desconfiados. E que não gosta de ver socorridos aqueles que já condenou.
Jorge Sampaio assume a defesa de um amigo, ou alguém que lhe merece respeito e consideração. A minha homenagem ao seu gesto, um grande exemplo que merece todo o respeito.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A culpa não deve morrer solteira...

Faço votos que a culpa não morra solteira. Quero que sejam apuradas responsabilidades e sancionados os responsáveis pelo caos administrativo e logístico que ontem atingiu dezenas de locais de votos.
Não foi um qualquer caos administrativo, não! Foi só apenas um caos que impediu que muitos cidadãos exercessem o seu direito de voto. Quiseram fazê-lo, deslocaram-se ao seu habitual local de voto acompanhados do cartão do cidadão e foram, confrontados, na hora, com a inexistência de informação sobre o seu número de eleitor e a sua mesa de voto. Muitos eleitores ficaram impossibilitados de votar porque os sistemas informáticos do ministério da administração não aguentaram a afluência de pedidos recebidos.
O que é surpreendente é que numa operação da importância e envergadura de um acto eleitoral que envolve milhões de eleitores e milhares de secções de voto, os ditos sistemas de informação não tenham sido preparados para aguentar a função para que foram criados e não tenham sido testados antes do dia das eleições para verificação e garantia que estava em condições de dar resposta sem rupturas.
E também não se percebe, afinal, quais são as vantagens do cartão do cidadão. Se é para não funcionar numa ocasião tão importante e única, então é mais um caso de fachada “simplex”. Já estamos habituados a estas coisas. A ideia é boa, fazem-se investimentos de milhões de euros, mas depois falhamos na implementação e na gestão da solução. É assim!
Muitos eleitores não votaram porque os sistemas de informação colapsaram, muitos foram obrigados a deslocar-se para outros locais de voto quando confrontados com a ausência do seu número de eleitor no seu habitual local de voto e outros permaneceram horas em filas de espera para serem esclarecidos pelas improvisadas delegações das juntas de freguesia existentes nos locais de voto que não tinham mãos a medir, mas em muitos casos sem capacidade de resposta porque os sistemas de informação não estavam operacionais.
Pela parte que me cabe esperei pacientemente duas horas, sim duas horas, das 14h às 16h, para exercer o meu direito de voto. Não desisti, mas muitos outros eleitores não tiveram a mesma paciência ou resistência para permanecerem ao frio e ao vento gelado durante tanto tempo. Vi pessoas idosas entrarem na fila para depois darem meia volta e irem embora, sem antes se revoltarem com o caos instalado, e também vi jovens que ao constatarem a longa fila rapidamente fizeram contas e desistiram de tentar por entre palavras de um calão que não consigo reproduzir. Não posso censurar nem uns nem outros.
São inadmissíveis as condições existentes em alguns locais de voto, provocadas pela negligente redução das secções de voto e redistribuição dos eleitores. Mas a culpa nunca é de ninguém. A junta de freguesia declinou responsabilidades e atirou com as culpas para a Comissão Nacional de Eleições e este órgão não fez a coisa por menos e remeteu a culpa para os sistemas de informação. Pelo meio, os eleitores foram mal tratados e obrigados a não votar. Votei, mas sem hoje ter passado o dia a chocar uma gripe. Não admira, depois do frio que apanhei! Esperemos, então, que desta vez a culpa não morra solteira...

Cavaco, o Presidente de Portugal

Com vitória em todos os concelhos do país, com excepção de doze, nove no Continente e três na Ilha da Madeira, Cavaco Silva é bem o Presidente de todo o Portugal. Como em 2006.
E ao contrário dos mandatos de Jorge Sampaio que, se por duas vezes ganhou o país, em ambas sempre perdeu o Norte!...
Nota: A vermelho, no Continente, os 9 concelhos ganhos por Francisco Lopes. José Manuel Coelho ganhou 3 concelhos na Madeira.

Presidenciais: é tempo de prestar contas...

1.No início da campanha eleitoral apresentamos aqui, como tem sido hábito noutros pleitos eleitorais, uma previsão dos seus resultados, que agora recordamos:
- Abstenção: 40%
- C. Silva: 57,5 a 60,5%
- M. Alegre: 22,5 a 25,5%
- F. Nobre: 6 a 8%
- F. Lopes: 6 a 8%
- Outros: 1 a 2%
- Brancos e Nulos: 1 a 2
2.Podemos hoje constatar que esta previsão, não constituindo um rotundo fracasso – não foi pior nem melhor do que sondagens divulgadas por empresas profissionais - falhou em alguns pontos capitais: no nível de abstenção e nos chamados votos de protesto.
3.A abstenção, 53%, foi bastante superior à nossa previsão. Não dramatizando excessivamente este fenómeno, como alguns comentadores do regime têm feito por razões que facilmente se entendem – basta recordar que na reeleição do Presidente Sampaio a abstenção foi superior a 50% e ninguém parece ter-se incomodado com isso – julgo terem existido factores específicos que explicam este agravamento relativo da abstenção, para além dos factores comuns que foram o facto de haver um vencedor antecipado e de já então, como hoje (embora não tanto como hoje) existir um elevado cansaço da política.
4.Dos factores específicos destacarei três: (i) a “CAMPANHA de SUJIDADE”, sobretudo por parte de Manuel Alegre e de Defensor de Moura, (ii) as anomalias técnicas com a identificação dos números de eleitor a partir do cartão de cidadão (indesculpável e que num país civilizado teriam já determinado a demissão do Ministro responsável pelo serviço em causa) e (iii) o intensíssimo frio que se fez sentir em quase todo o País e que terá desincentivado muita gente de se deslocar até às secções de voto.
5. Uma referência especial ao factor “CAMPANHA de SUJIDADE”, estratégia materialmente executada por Alegre e Defensor (este último nem no dia das eleições desistiu de voltar ao tema...). Refiro-me a “sujidade” em sentido literal: a campanha desses dois candidatos foi especialmente dirigida a "sujar" a imagem do candidato C. Silva...e quase conseguiram os seus objectivos – ao contrário da opinião da maior parte dos comentadores que entendem que essa estratégia não resultou.
6. Essa estratégia só não resultou em termos de votação nos seus executores materiais – Alegre e Defensor foram os grandes derrotados da noite eleitoral – mas só por ingenuidade se pode pensar que os objectivos da campanha de sujidade consistiam em obter votos para os executores materiais...o objectivo seria precisamente provocar uma abstenção tão elevada que forçasse a uma segunda volta...e ficaram perto de conseguir os seus intentos...
7. Portanto e em relação à nossa previsão, C. Silva e M. Alegre ficaram um bom bocado aquém das percentagens previstas (-4,5% e -2,75% respectivamente), F. Nobre ficou muito acima (6%) e tb ficou muito acima o candidato “Gavroche” da Madeira (+3%), este último conseguindo a proeza de quase provocar uma revolução na R.A. Madeira...
Ainda bem acima ficaram também os votos brancos e nulos, que excederam 6%.
Acertamos em cheio apenas na votação de F. Lopes – uma votação bem mais previsível, refira-se.
8.O chamado voto de protesto superou também bastante as nossas expectativas, certamente impulsionado, entre outros factores (cansaço, já referido, desilusão com a classe política) também pela tal “CAMPANHA de SUJIDADE” que terá funcionado como “driver” das diversas formas de protesto: abstenção, voto branco ou nulo, voto nos candidatos independentes...
9. Está feita a história destas eleições, realizadas num dia de clima muito hostil, nem S. Pedro quis ajudar....
Resta saber as suas consequências.
10.Uma delas, ou me engano muito ou vai consistir na alteração do que até agora se convencionou chamar "cooperação institucional".
Vamos continuar a ter cooperação, certamente, mas em vez de "institucional" ela vai ser "amarga"...muito "amarga", mesmo...

Passos de estadista

Caiu o pano sobre as eleições presidenciais com o resultado esperado face aos candidatos dados à escolha dos portugueses. Tudo como previsto, nenhuma novidade quanto à expressão da vitória, à quantidade dos que se abstiveram, dos que se revelaram tristes e fracos opositores a quem saiu vencedor. Falta de novidade também em relação às candidaturas que servem de acantonamento aos mais desencantados, mas que tanto comentário suscitaram e alguma tinta ainda farão correr face à atracção dos nossos media pelo circo.
Também não constituiu coisa inesperada a avaliação desapaixonada de Sócrates, disfarçando bem o alívio sentido com a imediata reeleição do Professor Cavaco Silva, poupado a um apoio na segunda volta a um candidato indesejado, ou - pior! - à ameaça, ainda que remota, de Alegre na Presidência, alçado por frentismo que uma vez levou Soares a derrotar o candidato vitorioso na primeira volta.
Surpreendente foi, essa sim, a intervenção de Passos Coelho. Estou certo que desiludiu profundamente quem esperava que ali, perante a vitória do candidato que apoiou, não resistisse à tentação do aproveitamento. Era o que muitos, no lugar dele, não hesitariam em fazer. Se as palavras que Passos Coelho proferiu foram sentidas, para além de sabedoria e inteligência, revelam então a confirmação da primeira qualidade de um estadista: a consciência que acima do grupo está o País.

Vitória de Cavaco Silva

Parabéns Portugal!

sábado, 22 de janeiro de 2011

A nova barbárie

"O desparecimento do privado, que nada respeite a intimidade alheia e que esta se tenha convertido num espectáculo que excita o interesse geral e que haja uma indústria informativa que alimente sem tréguas nem limites esse voyeurismo universal é uma manifestação de barbárie". Mario Vargas Llosa, in El País de 16 de Janeiro

Há dias liguei a televisão e lá estava aquele homem-sem-cor-e-sem-idade cujo nome se dilui em sons fechados ou nasalados mas que se tornou um ícone da modernidade tecnológica e da novissima liberdade de informação ao divulgar documentos secretos aos milhares, que obteve por métodos que dantes se chamavam roubar mas que hoje são geniais. Lá estava ele, na sua figura sempre esquiva e olhar branco, cabelos de velho e cara sem vincos, boca sumida, sem traço ou expressão, ombros descaídos, uma figura estranha e intimidatória, a lembrar aqueles fantasmas dos filmes que aparecem por todo o lado mas que se imaterializam quando os querem agarrar. Ao seu lado um homenzinho rotundo, visivelmente excitado com o momento mediático, a entregar-lhe com ar triunfante um cd com os registos de contas bancárias, na Suiça e off shores, dizem eles, é sempre preciso começar por qualquer coisa que pareça justiceiro, logo a seguir virão todas as outras, nunca perceberei por que estranha ingenuidade se aplaude um bandido a contar que ele se contenha a actuar no terreno que nos convém, diz a experiência que essas fronteiras só existem na cabeça dos tolos, na dos que se servem deles não haverá fronteira nenhuma.
Não deixa também de me deixar perplexa a chocante contradição de tantos opiniadores mediáticos, que esfregam as mãos perante a promessa de tanto “material” que alimentará essa fonte de tão largo filtro, a fonte da liberdade informativa. Pasmo que muitos deles se tenham indignado, (eu pensava que bem), ainda há bem pouco tempo, com a divulgação de alguns kilómetros de gravações de conversas privadas, pasmo que tantos deles tenham mesmo gritado contra quem se serviu delas para acusar este e aquele, para fazer juízos e tirar conclusões. Pois agora esses mesmos, ou outros parecidos, entendem que há toda a legitimidade em divulgar tudo isso, em fazer juízos e pedir explicações, ai se fossem escutas já era outra coisa!, pois claro, mas se forem documentos privados ou secretos entre as diplomacias ocidentais já é bem diferente, não há vozes, só há transmissões e registos cibernéticos. A distinção estará, pois, não no que deve ser preservado pela sua natureza, mas na via pela qual se transmitem, registam e se obtêm. E nas vantagens imediatas de quem se aproveita, há que reconhecer. Estranhos critérios, os deste império do relativismo.
Sobre este tema sugiro que leiam o notável artigo de Mario Vargas Llosa, no El País, onde explica com clareza porque é que “a libertinagem informativa não tem nada que ver com a liberdade de expressão”. Provavelmente será tarde demais para que ressurja a consciência da liberdade e se imponha inexoravelmente o império da libertinagem, mas é sempre um consolo saber que há quem resista...

O frio quente...

Hoje está um daqueles dias que chama ao recolhimento em casa, com o frio lá fora aquecido timidamente pelo sol e o barulho do vento que não pára de correr. Cá dentro um chá de ervas aromáticas, acompanhado de uma fatia de bolo de manteiga, reforça o conforto do aconchego do lar, na companhia do descanso pelo qual tantas vezes procuramos mas que arranjamos sempre maneira de não o ter. Uma conversa, um livro, uma música, uma paciência ou um puzzle juntam-se ao ambiente de um dia frio virado quente...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A crise da Europa...na retórica da desculpabilização, claro!

1.A “retórica da desculpabilização” (RD), a que aqui me tenho referido, consiste numa técnica de propaganda, intensamente utilizada pelos nossos dirigentes governamentais nos últimos meses, visando atribuir a causas externas a responsabilidade pela dramática situação económica e financeira com que o País se defronta.
2.Ao atribuir a responsabilidade a causas externas, os utilizadores da RD tentam desviar a atenção dos cidadãos incautos da verdadeira causa dessa dramática situação: a acumulação de graves erros de política económica ao longo dos últimos anos, significativamente ampliados nos últimos seis...
3.A referência sistemática à crise (económica) da Europa tem sido um dos “cavalos de batalha” ultimamente mais utilizados pela RD: a crise portuguesa, segundo a RD , não passa de uma consequência e um reflexo da crise da Europa e, muito em especial, da zona Euro…
4.O PM, cultor exímio da RD (catedrático), acrescentou-lhe há dias uma nova e riquíssima ideia: segundo ele, a Europa passa por uma “crise sistémica” – expressão que tem a enorme vantagem de nada significar e de ninguém entender – e nós não somos mais do que vítimas dessa mesma “crise sistémica”…
5.Pois bem, na edição do F. Times da última 6ª Feira (14 do corrente), em notícia de 1ª página, foi dada uma grande ajuda à RD, ao explicar a mudança de tom adoptada pelos responsáveis do BCE na sequência da divulgação de uma taxa de inflação de 2,2% na zona Euro em Dezembro de 2010 - pela primeira vez, ao fim de mais de 2 anos, acima de 2%.
6.Segundo o F. Times, a mudança de tom dos responsáveis do BCE reflecte um certo nervosismo decorrente (i) da ROBUSTEZ da recuperação global da economia da zona Euro, a despeito das crises da dívida que atingiram a Grécia, a Irlanda e Portugal e ainda (ii) da aceleração da inflação nas economias emergentes…
7.Aqui temos pois a crise económica da zona Euro bem caracterizada pelo F. Times como “ROBUSTEZ da recuperação económica…a despeito das crises dos 3 países periféricos…
8.É então a ROBUSTEZ da recuperação económica da Europa que, segundo a RD, nos tem arrastado para o estado de penúria em que nos encontramos e que dia a dia vai conhecendo novos episódios nesta nova diplomacia de mão-estendida…
9.A verdade é que a charlatanice militante assentou arraiais entre nós e não vejo sinceramente como sair disto…

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Serviu o povo e nunca se serviu da política. Voto nele!...


Voto em Cavaco Silva, porque tem ambições para os Portugueses e não visa a mera glória do poder.
Voto em Cavaco Silva, porque vê na Presidência da República uma missão e não a manifestação pública de ambição e vaidades pessoais.
Voto em Cavaco Silva, porque, conhecendo o que é o povo, por si e não por ouvir dizer, sabe bem interpretar os seus anseios mais profundos.
Mas também voto em Cavaco Silva, porque foi o homem das rupturas necessárias com os preceitos mais retrógrados da Constituição de 1975, que permitiram o início da modernização do tecido económico português.
Voto em Cavaco Silva, porque é um homem honesto, rigoroso, competente, sinceramente preocupado com o povo.
Voto ainda Cavaco Silva, porque tendo servido a política, nunca se serviu da política.
O meu voto é em Cavaco Silva.

Eu voto em Cavaco Silva. No dia 23 de Janeiro, a decisão é nossa.




A propósito da escolha de um novo presidente para a Sad do Sporting, ouvi hoje um antigo dirigente desportivo dizer que “não deve ser determinada por fervores clubísticos” mas sim pela competência, experiência e projectos concretos que os candidatos apresentem para captar a confiança dos sócios e dos mercados.
Se isto é verdade para um clube de futebol e para qualquer empresa, se isto corresponde ao puro senso comum ditado pelo instinto de sobrevivência, é indiscutível que terá que ser levado muito a sério quando se trata da escolha do Presidente da república, o mais alto magistrado da Nação.
É natural que os que sabem não estar à altura queiram desvalorizar a importância do cargo ou distrair as atenções da enorme responsabilidade que este implica no equilíbrio democrático de todos os poderes de soberania.
É natural que os que nada tenham para dizer ou para oferecer ao País se entretenham a tentar demolir ou fragilizar a consideração pública por Aníbal Cavaco Silva, o único candidato que sobressai, a grande distância, nas qualidades, nas competências e na obra provada do muito que já soube fazer nos cargos públicos que lhe foram sendo confiados ao longo dos anos.
É natural que quem nada tem a acrescentar ao presente ou ao futuro, se fique pela invocação dos papões do passado em que cristalizou e aceite apoios de grupos de poder e de grupos de anti poder, deixando-se vogar ao sabor de ventos que sopram de direcções tão opostas.
Poder decidir pelo voto é uma oportunidade e uma responsabilidade na determinação do rumo que se pretende para o País e de quem o represente. A função presidencial decorre essencialmente da capacidade, das qualidades pessoais e da visão que o eleito tenha quer da função constitucional, quer do exercício global das outras funções de soberania.
Nesta eleição escolhe-se uma pessoa, não um grupo político. Mas, se escolhermos mal, poderemos ter o domínio enviesado desses grupos e desembocar numa situação em que se diluem as competências, se degradam as instituições e se perde por completo o equilíbrio democrático que a Constituição prevê e a que dá um sentido útil.
Aos que querem exercer o poder sem obstáculos, sem prestar contas e sem ter quem tenha a autoridade, pessoal e institucional, para garantir esse equilíbrio, convém desprestigiar a função, ou quem a exerce, e reduzir a escolha a uma irrelevância.
De nada serve usar esta oportunidade para outro objectivo que não seja o de escolher a pessoa que irá ocupar este cargo em concreto nos próximos cinco anos. De nada serve alijar a responsabilidade abstendo-se, porque não será por isso que alguém deixará de ser eleito. Por isso, não devemos desperdiçar a oportunidade de escolher o candidato que melhor interpreta os seus poderes ao serviço do interesse público e que mais dignamente poderá representar o País.
No dia 23 de Janeiro, teremos a oportunidade e a responsabilidade de escolher.Por mim, vou votar em Cavaco Silva, por Portugal.

A voz da reacção

Vinha no carro e a rádio dizia que Manuel Alegre tinha reagido (às palavras de Cavaco...claro)...
Chegado a casa, liguei a televisão e vários canais informavam que Alegre reagira...
De antifascista ardoroso... a voz da reacção.
Triste fim político, Manuel Alegre!...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dívida pública EXPLODE em 2010: como foi possível?...

1.A recente divulgação da informação sobre a dívida pública directa do Estado em 2010mostra que se assistiu a uma verdadeira EXPLOSÃO da dívida, que passou de € 132.746 milhões em 31.12.09 para 151.775 milhões em 31.12.10, um agravamento de € 19.029 milhões, passando a equivaler 88% do PIB...
2.Lembramos que em 2009, com um défice orçamental de 9,3% do PIB, a dívida tinha aumentado € 14.283 milhões, o que quer dizer que a dívida se agravou em 2010 por um montante que é mais de 33% superior ao verificado em 2009...
3.Apesar de se tratar de dados oficiais, isto é quase inacreditável...como é possível que a dívida pública tenha crescido desta maneira, mais € 4.746 milhões do que o registado em 2009, quando se anunciaram tantas medidas de contenção da despesa, com a aprovação de um PEC 1 e de um PEC2?...Será que foi tudo ficção?
4.E como é possível que o défice orçamental, segundo se diz, tenha baixado 2,0% do PIB em relação ao valor observado em 2009 (pelo menos, até parece que poderá ser mais...) com um tal agravamento da dívida? Fará isto algum sentido?
5.Há aqui qualquer coisa que não bate certo: com uma subida da dívida de cerca de 11%do PIB, pelo menos, será possível o défice ser de 7,3% do PIB (ou ainda menos) ? Como explicar essa diferença de 3,7% do PIB ou seja de € 6,3 mil milhões?
6.Além dos € 500 milhões de aumento do capital da CGD realizado em 2010 - uma efectiva saída de fundos que não tem de ser contabilizada como despesa (são activos financeiros) - como foram utilizados os restantes € 5,8 mil milhões? Não foi na realização de despesa? E essa despesa não teve impacto orçamental?!
7.E nem estou a considerar o conhecido fenómeno do aumento das dívidas de diversos Departamentos do Estado a fornecedores, com relevo para os Departamentos integrantes do SNS, que em 2010 terá assumido valores muito elevados, de muitas centenas de milhões de Euros...com isso, então o cenário fica ainda mais obscuro...
8.Há aqui muita coisa que não bate mesmo nada certo...e depois queixem-se dos mercados, das agências de rating e de toda a restante corte de “génios do mal” que duvidam da nossa capacidade para consolidar as finanças públicas – será que com exemplos destes contribuímos para restabelecer a confiança dos investidores?

Trovas fora de tempo...

"...Esta de que as eleições são uma «luta de vida ou de morte para a democracia nacional» é que me parece bem arrancada — já estou a ver Alegre de novo exilado em Argel, fato de cheviote claro, panamá branco, trovando longe da pátria e chorando o fim da democracia às mãos de Cavaco. Mesmo para uma campanha, é bastante".
Francisco José Viegas, em A Origem das Espécies

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As escolhas dos portugueses...

Ainda não tive acesso às conclusões do estudo “As escolhas dos Portugueses e o Projecto Farol”, mas do que li mantêm-se as contradições que ajudam a explicar a resistência às mudanças necessárias. Os portugueses desconfiam do sistema político, mas confiam no Estado para resolver os problemas económicos e sociais.
Com efeito, os portugueses não confiam no sistema político e na administração pública - desconfiam ou não confiam na classe política (94%), nos governos (90%), nos partidos políticos (89%), na Assembleia da República (84%) e na administração pública (75%).
Em simultâneo, consideram que o principal motor para a competitividade e o desenvolvimento económico do País é o Estado (78%).
São dados que dão que pensar sobre quais são os factores de mudança capazes de alterar este quadro que compromete o desenvolvimento do País.

O eco invertido

Quando, por razões naturais ou por dispositivos montados para o efeito, o eco sofre reverberações várias, inverte-se e torna-se indistinguível o som original.
Na Campanha em curso, Alegre decidiu utilizar por sistema o efeito eco invertido. E programou o seu potente aparelho fonador para, de forma automática e imediata, perturbar o sentido e o eco do que Cavaco diz. Forma preguiçosa e fácil de não ter que pensar e de alimentar uma triste caminhada.
Se Cavaco diz sim, logo o aparelho fonador de Alegre diz não. E se Cavaco diz não, o mesmo aparelho logo se apressa a reproduzir o sim.
Se Cavaco salvaguarda o Estado Social, logo o aparelho fonador alegrista reproduz que o quer destruir.
Se Cavaco diz que será o Presidente de todos os portugueses, logo o aparelho fonador alegrista reproduz que Cavaco não tem passado anti-fascista é um perigo para o 25 de Abril. Exclusivo do generoso povo de esquerda.
Se Cavaco diz que a excessiva dívida pública põe em causa a nossa soberania, logo o aparelho fonador alegrista reproduz que Cavaco está ao lado dos grandes especuladores internacionais. E apela à luta contra os homens sem rosto do grande capital financeiro.
Se Cavaco diz que é preciso falar verdade aos portugueses, logo Alegre reproduz que Cavaco quer interferir na política do Governo. Com a qual até Alegre diz que não concorda.
Se Cavaco fala da óbvia crise por que passamos, logo o aparelho fonador alegrista reproduz que o que Cavaco quer é dissolver o Parlamento e convocar novas eleições.
Forma preguiçosa e fácil, esta, de fazer campanha eleitoral. Alegre deixou de pensar. Apenas se limita a reproduzir o contrário do que Cavaco diz. Transformou-se num eco invertido.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Não é fácil ado(p)tar...

Recebi por e-mail este bonito texto de Manuel Halpern. Nele encontro as razões da minha dificuldade em me desligar do português sem acordo ortográfico. Compreendem-se as resistências...

Um cê a mais

Quando eu escrevo a palavra ação, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Há flores que nunca murcham...

Não é todos os dias que temos o privilégio de conhecer e falar com uma senhora centenária que, apesar de os cem anos lhe pesarem fisicamente, mantém uma impressionante lucidez e força emocional. É gratificante verificar como se pode ter cem anos com um espírito tão jovem e sonhador, com esperança para fazer e assistir a novas realizações.
A Graciete teve a sorte de sempre viver com a família que sempre rejeitou qualquer hipótese de a transferir para um lar, depositando-a, como hoje em dia se usa, e acelerando-lhe o fim da vida como acontece a tantos idosos que acabam por ter este triste destino.
Foi a própria Graciete que não se cansou de manifestar o amor e a amizade que os filhos por ela sentem, enaltecendo a sua generosidade. Claro que com a sua provecta idade, a Graciete se sente muito dependente e muita carente dos filhos e, em particular, da filha com quem vive.
Conheço há muito esta filha e sei da gratidão que sente pela educação que dos pais recebeu e por a vida lhe ter permitido cuidar da mãe por muitos e bons longos anos. Não sem sacrifícios e dificuldades de toda a ordem porque as ajudas exteriores são poucas ou nenhumas. A sociedade não está organizada para apoiar e não acarinha quem opta por viver com os seus idosos. O egoísmo e a indiferença reinam entre nós e pouco ou nada se tem feito para os corrigir.
A Graciete é uma mulher com uma vida fantástica, com uma vida cheia de histórias e um baú grande de recordações. Tem uma memória ainda muito viva. É uma maravilha ouvi-la contar, por tudo e por nada, uma história ou uma lembrança dos tempos antigos para depois dizer “os tempos já não são como dantes, mas antes havia muitas coisas boas”.
A Graciete vai votar no dia 23 de Janeiro, diz ela que “espera estar viva, afinal só falta uma semana”, porque ainda tem esperança de ver um país melhor, além de que não se pode desistir de lutar. Os seus cem anos são a prova, diz ela, que enquanto há vida há esperança.

Os duplos

Nas cenas em que os actores não se arriscam, o realizador faz entrar os duplos em acção.
Eles também chegaram em força a esta Campanha Eleitoral, já que os realizadores viram na figura a melhor forma de fazer render o filme.
No festival que nos apresentam, Defensor de Moura tornou-se o duplo de Alegre e José Manuel Coelho, o duplo de Francisco Lopes.
O PS e o PCP têm assim dois actores, o principal e o duplo figurante. Um e outro declamam versões autorizadas; a diferença é que a versão reconhecida foi distribuída ao actor, enquanto a não reconhecida ficou a caber ao duplo.
O conteúdo da trama não é dizerem o que pensam para o país. Pelo contrário, todo o enredo da declamação consiste em vilipendiar e levar à morte o principal opositor.
Aconteceu porém que actores e figurantes não respeitaram o guião; perante as luzes do palco, foram-se ultrapassando mutuamente, sem que o realizador tivesse controlo da representação.
Ao ponto de já não se saber qual é o actor principal ou o duplo da farsa.
E, quando assim acontece, falhou a realização e os artistas saem forçados da cena pela esquerda baixa, sob pateada geral. Merecidamente.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ensinamentos da Campanha

Esta Campanha Eleitoral tem sido pródiga em ensinamentos.
Por exemplo, a avaliar pelo que dizem, todos os quatro Candidatos ao lugar de maior opositor de Cavaco sabiam muito bem, de há 10 anos a esta parte, o que iria acontecer na SLN e no BPN.
O que me espanta é que, na altura, não tivessem dito nada e guardassem segredo até hoje!…
E, ao que lhes tenho ouvido, fico também muito perplexo, estupefacto, mesmo, quando penso como é que Cavaco, um bom economista, não tenha previsto, há 25 anos, as tropelias que um seu Secretário de Estado iria fazer no BPN largos anos depois!...
Como é que ele não viu isso? Francamente!...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

La loi c`est moi!...

Caso seja eleito Presidente da República e caso a direita vá para o poder, a revisão da Constituição "não passará".
Manuel Alegre, em Portalegre, citado pelo i.
Art. 286, nº 3 da Constituição: o PR não pode recusar a promulgação da lei da revisão.
Democracia representativa? Constituição? Vontade do povo? O que é isso perante a vontade pessoal de Manuel Alegre? La loi c`est moi!...
Fica tudo dito!...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O PS e a campanha presidencial

Depois de todos os episódios dos últimos três anos com a escolha do candidato presidencial do PS, dificilmente se anteciparia o que está a suceder nesta campanha eleitoral.
Perante a clara dificuldade de afirmação e mobilização de Manuel Alegre, o PS decidiu contornar este problema e estilhaçar a campanha.
Lançou Defensor de Moura com o tema do BPN e a sua recorrente obcessão em denegrir Cavaco Silva. É hoje claro que este deputado do PS faz o papel do idiota útil que se dispõe a sujar as mãos e a fazer o frete ao chefe.
De seguida, através do Presidente do Governo Regional do Açores, deu palco a José Manuel Coelho, que desde esse dia se dedica a relatar de forma caluniosa episódios da vida passada de Cavaco Silva.
Hoje, perante algumas afirmações - contidas - de Cavaco Silva que o distanciam de forma clara do Governo e da actual situação do país, o PS vem armar-se em vítima e invocar o interesse nacional para calar o Presidente da República.
O PS encontou para esta campanha três candidatos - Manuel Alegre, Defensor de Moura e José Manuel Coelho. As coincidências entre as suas agendas de campanha e discursos é tão grande, que até somos levados a pensar que alguém as coordena... e se calhar também as paga.
Agora, lança o seu último candidato - a rolha do interesse nacional para tentar calar Cavaco Silva.
Para o PS esta campanha eleitoral resume-se hoje a um único objectivo: reduzir a dimensão da vitória de Cavaco Silva para o condicionar no exercício do próximo mandato presidencial.
É triste, mas é o beco a que chegou a actual direcção do PS.

Emissão de dívida: entre a ficção e a realidade...

1.Muito já se disse sobre o resultado da dupla emissão de dívida ontem colocada pelo Tesouro Português: dívida a 4 anos (€ 650 milhões) e a 10 anos (€ 599 milhões).
2.E muito do que se disse foi dito – sobretudo nos meios do poder ou a este ligados – em tom de grande regozijo pelos resultados conseguidos nas emissões, ou melhor pelo resultado conseguido na emissão a 10 anos, curiosamente a de menor montante…
3.O PM foi o mais exuberante, proclamando, alto e bom som, que esta colocação de dívida demonstra que não vamos precisar da ajuda externa – coisa que não deveria ter dito pela simples razão de que não se pode concluir daqui nem que vamos nem que não vamos precisar dessa ajuda…
4.Não esquecendo a ajuda, preciosa, que já recebemos do BCE, sem a qual nem dívida haveria...
5.Atentando nos resultados das duas emissões, chega-se a uma conclusão bizarra: em relação às últimas colocações de dívida, nos mesmos prazos, o juro na emissão de 4 anos subiu de 4,0% para 5,4% - 154 pontos base, +35% - enquanto que na emissão a 10 anos baixou muito ligeiramente, de 6,80% para 6,712% (9 pontos base)...
6.Como explicar que em duas emissões de dívida realizadas no mesmo dia se tenham verificado comportamentos tão divergentes das taxas de juro? E que a taxa de juro mais favorável tivesse sido a da emissão a 10 anos, que envolve em princípio maior risco?
7.Sabemos, é claro, que a dívida a 10 anos concitava as atenções do mercado, para saber se ultrapassava ou não a fasquia dos 7%...tendo-se formado um consenso na comunicação social (errado, na minha análise) de que seria inevitável o recurso à ajuda externa, vulgo FMI, caso aquela fasquia fosse excedida.
8.Assim, as atenções concentraram-se quase exclusivamente na dívida a 10 anos, cujo juro não subiu, omitindo-se praticamente a dívida a 4 anos, cujo juro encareceu e muito.
9.Assim a dívida ontem emitida, no seu total, saiu bastante mais cara, mas a leitura política e de muitos comentadores foi no sentido inverso, de que saiu mais barata...
10.O prestidigitador Luís de Matos não teria feito melhor trabalho...
11.Continuamos na senda de preferir a ficção, procurando iludir a realidade - não nos queixemos pois das “surpresas” desagradáveis com que temos sido e iremos ser frequentemente defrontados.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O factor Sócrates

Refere hoje o Público que o Nobel da Economia Paul Krugman diz no seu Blog que a situação portuguesa é mais difícil de explicar do que a da Grécia, Irlanda ou Espanha, porque os nossos rácios de dívida pré-crise eram comparáveis aos da Alemanha e não houve bolha no imobiliário ou na banca.
Pois é. Krugman pode saber muito de teoria económica, mas ainda desconhece o factor Sócrates. Trata-se de um efeito, ainda em desenvolvimento, de consequências devastadoras nas variáveis económicas, na dívida e no défice, sobretudo quando potenciado pelo multiplicador de despesa Teixeira dos Santos.
Para Nobel tão renomado, exigir-se-ia que já tivesse incorporado esse parâmetro na sua teoria económica.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Irracionalidades do quotidiano (ou vulgaridades da vida portuguesa)

Tenho instalada no meu computador uma aplicação que reúne as principais noticias do dia. Com ela consigo ficar a par do que se publica sem grandes perdas de tempo e com a vantagem de reter uma visão panorâmica do que se publica. E o que tem prevalecido nos últimos dias nos media, entre opiniões, comentários, notícias e relatos, é o pessimismo sobre a situação do País, a total rendição perante circunstâncias desfavoráveis, reais ou virtuais, que condicionam a vida colectiva. Em especial, fica-se com a real noção das irracionalidades do tempo presente que explicam em boa parte as dificuldades por que passamos.
Hoje chamou-me a atenção a notícia sobre a audição do presidente do CA do BPN pela comissão de economia e finanças da AR à qual foi chamado por causa - julgo eu - da pretensão de aumento do capital do banco. Ora, ao que parece, um dos deputados  preocupado com o preço que os contribuintes têm de pagar pela desgraça do banco, confrontou-o com o facto de terem voado para outros  bancos cerca de 3, 4 mil milhões de euros outrora em depósito naquela instituição. Tendência que se acentuou nos últimos dias em que a fama do banco andou pelas ruas da amargura e a competência dos seus gestores foi posta em causa. Confesso que antecipei que o presidente do BPN desabafasse que o que o espantava era a existência de criaturas que, perante o que se diz e escreve acerca da situação do banco, ainda a ele confiavam o seu dinheiro. O que na realidade veio a fazer, mas de um modo inusitado ao divulgar que aquele sujeito que o interpelava excitado com a fuga de capitais do BPN, pertencia a uma instituição - nem mais nem menos do que a Assembleia da República - que se apressou a  levantar o que tinha em depósito nesse banco, numa prova inequívoca de confiança na sua regeneração.
Trágico? Cómico? Não. Vulgar episódio do quotidiano nacional.
 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A formação da liquidez e do preço das acções não cotadas

O conhecimento de como é assegurada a liquidez interna e o preço dos títulos em grupos ou empresas não cotadas, mas com um número razoável de accionistas, como era a SLN, é a melhor e mais óbvia forma de enquadrar devidamente e assim comprovar a justeza das afirmações de Cavaco Silva quanto à transacção dos títulos que possuía naquela empresa.
Por isso, aqui deixo uma abreviada abordagem da questão, prevalecendo-me da experiência de trabalho de mais de dez anos num Banco de Investimento. Embora tenha a convicção de que essa abordagem de pouco poderá servir, já que não há tecnicidade, nem esclarecimento técnico, que possam ultrapassar pré-juízos ou preconceitos estabelecidos.
Não conheço concretamente o que se passou na SLN, mas os procedimentos tendem a ser os mesmos em todos os grupos com dimensão, estrutura ou características semelhantes. Em empresas não cotadas do tipo da SLN, que se apresentam em fase de grande investimento, com algumas dezenas ou centenas de accionistas sem grande coerência entre si, sem estratégia comum, predominantemente desejosos de uma boa aplicação de capitais, a captação de novos capitais é crucial para o seu desenvolvimento. E sobretudo quando o objectivo é uma futura dispersão de capital em bolsa. Como forma de facilitar a obtenção de novos fundos, essas empresas criam mecanismos com vista a assegurar liquidez aos possuidores das acções. Para que, em caso de necessidade, oportunidade ou conveniência, o investidor tenha possibilidade de transaccionar com alguma facilidade os seus títulos. Forma-se assim um “mercado interno” ao Grupo, no qual vão convergindo posições vendedoras ou compradoras. Mercado esse alimentado por essa convergência de posições ou ainda potenciado por um “fundo de maneio” constituído por acções próprias na posse da empresa, directamente adquiridas a accionistas, provindas da execução de garantias, etc. É ainda tal “mercado interno” que permite colocar acções não absorvidas em aumentos de capital ou transitoriamente parqueadas em empresas constituídas para o efeito. Este “mercado interno” é muito facilitada quando no Grupo existe um Banco, pela óbvia possibilidade de “vender” aos clientes a transformação de Depósitos em aplicações accionistas, ou de transformar essas aplicações em tesouraria imediata.
Claro que o preço não segue uma trajectória linear, aliás como na própria Bolsa. Depende da premência da venda, que diminui o preço, ou do interesse manifesto pela compra, que faz aumentar esse mesmo valor.
O papel do Banco ou do gestor do tal “mercado interno” que assim se forma consiste em “casar” as posições vendedoras com as compradoras. Daí a diversidade de preços e a sua variação de operação para operação. Quando o assegurar a liquidez aos accionistas se configura como um valor estratégico para a obtenção de fundos, o grupo pode estar disposto a perder dinheiro, comprando a um preço para o qual não tem assegurada a venda imediata ou mediata. Perda essa potencialmente compensada pelo lucro de outras operações.
A diversidade de situações conduz a uma natural diversidade de preços, sem que daí resulte qualquer tratamento de favor e, muito menos, de fraude. São situações que acontecem diariamente, em Portugal ou no estrangeiro, sem que qualquer suspeita sobre elas se levante.
Quando um Grupo nestas circunstâncias detém um Banco, é natural que o gestor de conta siga esse “mercado interno”, colocando os clientes e depositantes perante a oportunidade de comprarem ou venderem os seus títulos. É um serviço prestado aos Clientes proporcionar-lhes as aplicações que desejam, ao melhor preço.
Por exemplo, e segundo foi noticiado, no mesmo dia em que Cavaco vendeu o seu lote de acções à SLN por 2,4 euros, a SLN vendeu outro lote delas ao preço de 2,72 euros, obtendo aí um ganho.
Claro que os candidatos que atacam Cavaco não são obrigados a saber como as coisas se processam, mas mandaria o decoro que, na ignorância, se abstivessem de pôr em dúvida a honestidade alheia, sobretudo quando almejam o cargo de Presidente da República.
Não os honra terem começado por afirmar que o preço de venda era preço de favor; esgotado o argumento, o preço de favor passou a ser o preço de compra.
Neste “mercado interno”, como na Bolsa, não há preço de favor. Há apenas uma convergência de oportunidades. E bom é o gestor de conta que, por esse meio, proporciona mais-valias ao cliente.

Presidenciais: é tempo da habitual previsão do 4R...

1.Em anteriores actos eleitorais domésticos, o 4R tem emitido uma previsão de resultados, com um registo muito razoável de "pontaria", diga-se sem modéstia e de passagem...
2.Mal nos ficaria, assim, se deixássemos passar o acto eleitoral do próximo dia 23 sem uma previsão dos votos (em % dos votos expressos) que cada candidato poderá arrecadar...poderia até significar algum receio em relação a tal pleito, sentimento que, por aqui, manifestamente não tem cabimento...
3.Aqui vão pois, a pouco menos de 2 semanas do acto eleitoral, as “nossas” previsões, com indicação individualizada para aqueles que consideramos os 4 candidatos mais votados:
- Cavaco Silva: 57,5 a 60,5%
- Manuel Alegre: 22,5 a 25,5%
-Fernando Nobre: 6 a 8%
-Francisco Lopes: 6 a 8%
- Outros: 1 a 2%
- Brancos e nulos: 1 a 2%
4.No tocante à abstenção, a “nossa” previsão é de um valor elevado, da ordem de 40%.
5.Um último ponto, aliás importante, a propósito do uso da expressão “nossa” ou
nossas”, para qualificar estas previsões:
-Em caso de eventual desacerto das mesmas, a responsabilidade cabe por inteiro ao
autor deste Post...
-Em caso de acerto, o mérito é do 4R.
6.Como sempre, aceitam-se sugestões e até protestos, todos serão bem vindos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma farsa sem protagonista

Que a honra, seriedade e honestidade de Cavaco não estavam em causa, mas que Cavaco devia esclarecer a pitoresca questão da compra das cento e tal mil acções da SLN foi o teor de judiciosos artigos e de conspícuas declarações nos media deste fim-de-semana.
Há uma total falta de coerência e lógica em tão abstrusas tomadas de posição.
Pois se, como dizem, a honra, seriedade e honestidade de Cavaco não estão em causa, é porque, das duas uma: ou consideram essa honra e honestidade um pressuposto e não se vê que necessitem de esclarecimentos, quaisquer que sejam; ou consideram que essa honra e honestidade não foram de forma alguma infirmadas pelos factos conhecidos e profusamente esclarecidos, não se vendo então a necessidade de mais explicações.
Isto, se houvesse lógica e coerência. Mas, claro, essas tomadas de posição podem-se fundamentar em tudo menos na lógica e na coerência.
Derivam talvez mais da contumaz tendência de estar bem com Deus e com o diabo.
Nada de afrontar muito Cavaco, porque o mais que provável é ele ganhar as eleições e um Presidente sempre é um Presidente.
E nada de ignorar, nem que seja por omissão, as vozes e posições das esquerdas, o que constituiria verdadeiro atentado fatal ao politicamente correcto. E capaz de hipotecar qualquer futuro nos media ao melhor comentador independente.
Se esses comentadores não põem em causa, como dizem, a honestidade de Cavaco, então honesto seria absterem-se de lançar novas suspeitas, para já não falar no dever deontológico de utilizar a informação que recolheram ou a que acederam para informar, no sentido nobre da palavra. Ou então referir, de forma concreta e explícita, o que desejam saber. Porque exigir sempre mais e mais esclarecimentos, sem dizer de quê, é apenas querer prolongar a telenovela e exigir que Cavaco nela intervenha em todos os actos e intervalos. Postas as cenas nesse palco, faz muito bem Cavaco em não aderir à farsa.

O poder da comunicação...

Ontem na SIC Notícias, a propósito do seu 10º Aniversário, numa das mesas redondas, discutia-se a questão muito interessante que é a de saber em que medida o carácter espectacular da comunicação tem influência na qualidade da actividade política.
Com efeito, o carácter espectacular é fornecido pela permanente novidade da informação e alteração da agenda noticiosa, conseguida pelo recurso crescente aos directos através dos quais é gerada nova informação à velocidade da luz sem que haja tempo para ser feita a necessária digestão por parte de todos os intervenientes, incluindo a opinião pública. Informação não é significado de conhecimento, pode ser antes sinal de dúvida, de confusão, de falta de clareza. Muitas vezes a informação transmitida sofre de falta de utilidade, que lhe advém da falta de interpretação e do seu significado. E com o sistema dos directos é também alterada a própria agenda política, dando lugar a uma nova agenda onde pontificam questões perfeitamente laterais ou acessórias. A partir daqui há como que uma cumplicidade entre comunicação e política que afasta da notícia as grandes questões nacionais, entrando-se na exploração do acessório, não raras vezes dando lugar a círculos viciosos difíceis de quebrar que nada contribuem para a formação de uma consciência política de qualidade.
A aceleração do serviço noticioso faz esquecer os assuntos, originando uma espécie de apagão da memória, como se os factos ou os acontecimentos não tivessem ocorrido ou tendo ocorrido tivessem sido pouco importantes. Produz uma espécie de desvalorização de opinião. A pressão noticiosa retira capacidade técnica e científica e não contribui para a investigação que requer tempo e estudo. Perde-se em profundidade para se ganhar no imediato. Ganha-se em informação, mas não chega a haver conhecimento.
Alguém ontem dizia que nós portugueses somos recordistas europeus em horas consumidas com a televisão. Gastamos em média três horas por dia. Se juntarmos a este hábito, o facto de a nossa sociedade civil não ser dinâmica e interventiva, percebemos que, embora o acesso e a difusão da informação sejam ganhos inalienáveis, o carácter espectacular da comunicação parece não ser um factor de elevação da qualidade da actividade política.

Nem os socialistas o querem!...

Segundo a sondagem do Correio da Manhã/Aximage hoje publicada, 35% do eleitorado socialista vota em Cavaco, e apenas 27,5% em Manuel Alegre.
Cavaco vai ainda buscar o voto de 24% dos tradicionais apoiantes da CDU.
Quanto a Alegre, parece que nem já os socialistas suportam retórica tão vazia de substância e sentido.

Que as há, há!



"Na Roménia, uma parte dos impostos pode estar amaldiçoada. Pelo menos a acreditar num grupo de bruxas do país, que decidiu lançar um feitiço contra o presidente e o governo, depois da entrada em vigor de leis que obrigam os profissionais das ciências ocultas a pagar taxas sobre os vencimentos" noticia-se aqui.

A noticia revela que as bruxas foram oficialmente reconhecidas na Roménia (de par com os instrutores de condução!) e a sua actividade é agora legal - razão para a tributação dos seus rendimentos -, mas terá sido sempre levada a sério naquelas paragens.
Entre nós a coisa é um pouco diferente. Ninguém oficialmente reconhece que existem, poucos são os que admitem recorrer a elas. Mas o que é verdade é que só por artes mágicas se pode explicar a velocidade a que, em Portugal, se multiplicam impostos, taxas e contribuições, ritmo só comparável ao do desaparecimento dos cofres do Estado do chorudo produto das colectas. E isto sem que se conheça bola de cristal capaz de surpreender o destino que justifica o acelerado sumiço dos dinheiros públicos. Donde só se pode concluir que em Portugal os impostos estão mesmo amaldiçoados.
Acresce que as próprias contas do governo português não resistem a qualquer das ciências conhecidas, sendo alérgicas, até, à matemática e à lógica como chamam a atenção Miguel Frasquilho e Pinho Cardão nos posts antecedentes. Só podem, pois, ver-se explicadas pelas ciências ocultas. Pelo que, mesmo que por cá não as haja, só podemos acreditar nelas.

A Nova Matemática de Sócrates

A receita de 2010 ficou acima do valor previsto.
A despesa de 2010 ficou abaixo do valor previsto.
O défice de 2010 fica no valor previsto de 7,3%.

Sócrates no Debate de 6ª feira, dia 7 de Janeiro, na Assembleia da República

Alguém me explica esta nova e sofisticada matemática, que só por mim não atinjo?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Extraordinário e inesperado...

... o anúncio de um Congresso das Exportações.
No meio da maior crise que o país já viveu - e que infelizmente está para durar - vamos assistir no próximo mês de Fevereiro a uma iniciativa tão inédita quanto desajustada aos tempos que vivemos.
Que podemos esperar de um congresso no meio desta crise ?
Discursos, notícias, anúncios, medidas e a continuação do showoff do combate à crise.
Até porque a melhor coisa que este Governo sabe fazer para combater esta crise, é falar dela !
E tentar distrair a malta durante mais um dia...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

“Três boas notícias”?!...

No debate quinzenal hoje realizado no Parlamento o Primeiro-Ministro apresentou o que, no seu entender, se trata de “três boas notícias” relativamente às contas públicas de 2010.

Primeiro: a receita fiscal cresceu acima do previsto.

Segundo: a despesa cresceu abaixo do que inicialmente constava do Orçamento para o ano passado.

Terceiro: o objectivo de 7.3% do PIB para o défice público será cumprido.

Ora, a verdade é que estas supostas “três boas notícias” são, na verdade… uma boa notícia, uma “não notícia” e uma má notícia. Vejamos.

A receita fiscal ter crescido acima do previsto é, de facto, uma boa notícia.

Contudo, a despesa ter ficado abaixo do inicialmente orçamentado nada indica – e isto porque, com o PEC-2 e o PEC-3, e os cortes de despesa que lhes estavam subjacentes, o objectivo deixou, naturalmente, de ser o do Orçamento inicial… A comparação não pode, pois, ser feita, nos termos apresentados por José Sócrates. Trata-se, assim, de uma “não notícia”.

Finalmente, acompanhe o meu raciocínio, caro leitor: se a receita cresceu acima do previsto e a despesa cresceu abaixo do previsto, não seria lógico admitir que o objectivo para o défice, afinal, tivesse sido melhor do que o esperado?!... Isto sim, isto é que seria uma boa notícia!... E já nem vale a pena referir que o objectivo de 7.3% só será cumprido porque se lançou mão de uma receita extraordinária: a integração do fundo de pensões da Portugal Telecom nas contas públicas (como todos, incluindo os “mercados” bem sabem). Não fora isso, e o défice situar-se-ia acima dos 8.3% inicialmente projectados no Orçamento para 2010.

Além disso, falar de uma “boa notícia” quando a despesa pública continua a subir só pode ser mesmo uma brincadeira. E de mau gosto, porque o que precisamos é que a despesa pública se reduza (e não que aumente, mesmo que abaixo do originalmente previsto). Em 2010, dos países europeus periféricos em dificuldades financeiras, a despesa pública apenas subiu face a 2009 em Portugal. Desceu em Espanha, na Irlanda e até na Grécia. Sinceramente, é difícil de perceber como é que se pode falar em “boas notícias” com este panorama e esta realidade. Não me parece que seja assim que se vá aumentar a confiança de quem quer que seja… E a trajectória ascendente dos juros da dívida pública (já bem acima de 7% na maturidade de 10 anos), mesmo durante a apresentação destas “boas notícias” é a prova disso mesmo…

Extraordinário!

Não alimente esta ideia! Vivemos um tempo em que os senhores políticos tudo decretam, como se a lei fosse solução para tudo, como se o Estado tivesse vocação para tudo fazer. Que não tem. Melhor seria que fizesse o que lhe compete fazer. Mais palavras para quê?

Mais um alerta...

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz no relatório de "Avaliação do desempenho do sistema de saúde Português", elaborado em 2010, “que as famílias portuguesas mais pobres têm maiores gastos com a saúde e arriscam, por isso, vir a ter um acesso mais limitado a cuidados”. De acordo com a OMS, Portugal tem de reduzir as barreiras à capacidade de pagamento por estes cuidados, afirmando que "o peso dos custos directos das famílias é demasiado elevado em Portugal", em comparação com outros países.
Com este relatório da OMS, torna-se ainda mais pertinente questionarmos sobre a justiça de algumas das medidas tomadas recentemente pelo governo na área da saúde: pensionistas e desempregados que auferem o rendimento mínimo deixaram de estar isentos das taxas moderadoras do SNS; pensionistas com baixos rendimentos deixaram de beneficiar de medicamentos totalmente comparticipados pelo Estado. Medidas que contribuem para acentuar as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde em especial das pessoas mais desfavorecidas. A OMS está bem informada!

Faz-nos bem a claridade...

"(...) a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como inoportuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade".

Agustina Bessa Luís

As contradições insanáveis da política económica...

1.Foi objecto de muita controvérsia a antecipação para Dezembro de 2010 do pagamento de dividendos por parte de algumas empresas de nomeada, com especial relevo para o caso da PT - para evitar um tratamento fiscal mais desfavorável desses mesmos dividendos em 2011.
2.No caso da PT a controvérsia decorreu da forte associação da Empresa ao poder político: a decisão de antecipar os dividendos, se bem que compreensível no plano empresarial, suscitava as maiores dúvidas no plano político...no fim valeu a lei do “mais forte”...
3.Controvérsias à parte, aquilo que nos importa aqui assinalar é o sinal completamente errado que esta medida de agravamento fiscal dos dividendos distribuídos pelas empresas (quando os beneficiários sejam sujeitos passivos de IRC) representa no plano da política económica.
4.Com efeito, a nova disciplina entrada em vigor em 2011, constitui um sério retrocesso em matéria de dupla tributação dos dividendos.
5.Assim, enquanto até final de 2010 os beneficiários de dividendos respeitantes a resultados que tivessem sido já tributados na origem podiam evitar a dupla tributação, essa possibilidade fica agora restringida apenas àqueles que detenham participações sociais superiores a 10% na sociedade pagadora...
6.Alarga-se assim o fosso entre o tratamento fiscal do capital social (equity) e da dívida das empresas...enquanto que os juros pagos por estas por exemplo a título de remuneração de suprimentos evitam a dupla tributação, o mesmo não se passa com os dividendos...
7.Para já não falar no tratamento fiscal da dívida VERSUS capital social das empresas, pois enquanto os juros suportados são contabilizados como custo, os dividendos que remuneram o capital social não têm esse benefício...
8.Numa altura em que o País precisa desesperadamente que as empresas, tanto financeiras como não financeiras, reforcem os seus capitais próprios e invistam, esta medida agora entrada em vigor representa uma tremenda machadada neste objectivo fundamental...
9.Confesso que não entendo medidas deste tipo...existe contradição insanável entre os objectivos de política e as medidas que depois são adoptadas...
10.Será que os objectivos de política económica não passam de propaganda? Custa-me a crer, mas se assim for, estamos mesmo perdidos...
11.Nem o habitual argumento da “fome de receitas” convence...se existe “fome de receitas”, medidas como esta vão contribuir para que a prazo a “fome” se transforme em MISÉRIA extrema...repito, confesso que não entendo!

Uma alegre tosquia

No mesmo dia em que Cavaco ordenou a venda das suas acções da SLN a 2,4 euros, foi vendido um lote bem superior pelo valor unitário de 2,75 euros.
Há quem vá por lã e saia tosquiado. O que, no inverno, pode dar maleita séria.
Mas aposto em que ainda não é desta que metem a viola no saco. É que argumentar com fundamento dá muito trabalho.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Perdão?!... Importam-se de repetir?!...

Ontem, dia 5 de Janeiro, Portugal emitiu pela primeira vez dívida pública em 2011, tendo colocado 500 milhões de euros num prazo de seis meses, a uma taxa de 3.686%. A procura foi 2.6 vezes superior à oferta.

Para o Secretário de Estado do Tesouro, Costa Pina, “o resultado reflecte a confiança dos investidores, nacionais mas sobretudo dos investidores estrangeiros (…) nas medidas do Governo de consolidação orçamental”.

E para o Secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, a taxa de juro de 3.686% paga por Portugal para emitir 500 milhões de euros em bilhetes do Tesouro a seis meses, foi “muito alta”, tendo em conta a maturidade. Mas destacou que “tivemos procura para colocar mais de mil milhões de euros”, “não obstante o preço ter subido.”

Dá vontade de perguntar: perdão?!... Importam-se de repetir?!...

A questão é esta: Portugal não conseguirá pagar taxas a este nível se elas perdurarem no tempo Depressa se percebe porquê: Ainda há cerca de um ano, para o mesmo prazo, o juro foi de 0.592%; e mesmo em Setembro último, também para uma emissão a 6 meses, a taxa foi pouco superior a 2%.

Ou seja, face a Setembro (nem vale a pena comparar com o sucedido há cerca de um ano…), o custo de financiamento para o Estado agravou-se em mais de 80%. Sim, não há engano: 80%. Claro que com os juros a este (elevadíssimo) nível, a procura só podia ser... robusta!... pudera!... Mas pior: a taxa paga está na vizinhança do que, aqui ao lado, Espanha pagou para se endividar… a 3 anos em Dezembro (para o prazo de 6 meses, o juro pedido aos espanhóis foi de 2.597% há duas semanas)!...

Tendo em conta que teremos que emitir cerca de 46 mil milhões de dívida em 2011, como será, sobretudo, quando tivermos que emitir em maturidades maiores, por exemplo a 5 e 10 anos? Que níveis de juros iremos pagar?!...

… Na próxima semana já saberemos: o IGCP anunciou hoje que tentará colocar dívida a 3 e 10 anos na próxima quarta-feira, dia 12. Mas independentemente do que vier a acontecer, o que é lastimável é a falta de bom senso e de adesão à realidade dos dois responsáveis políticos do Ministério das Finanças.

Não, não é preciso ser miserabilista, nem trágico ou catastrófico… Trata-se apenas de ter a dose necessária de realismo que é sempre tão necessária a quem exerce o poder e tem responsabilidades políticas. Porque só dessa forma será possível mostrar aos nossos credores (esses terríveis “mercados”) que percebemos o que se passa e estamos, por isso, aptos a apresentar soluções. Agora, reacções daquelas, bem que todos as dispensávamos…