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quinta-feira, 31 de março de 2011

Há mais vida para além do défice!...

Défice de 2009: 10% do PIB
Défice de 2010: 8,6% do PIB
Despesa Pública na banda dos 50% do PIB;
Dívida Pública crescente, acima dos 100% do PIB
Dificuldades de financiamento do Estado e das empresas
Recessão económica
Desemprego: 11,2% (Janeiro de 2011).
Aumento de impostos
Cortes nos salários e nas pensões
Ora aí está a vida para além do défice.
O tal que Sampaio, o Governo de Sócrates e de Teixeira dos Santos e os "grandes economistas" diziam que era virtuoso.

Nota: O Governo caiu. Preocupante é que os "grandes economistas" inevitavelmente todos professores catedrátricos, doutorados e equiparados, vão continuar a ensinar. E preocupante também é que os Professores do Governo vão voltar às Universidades.

Crónicas da geração do meio

A terceira empregada em poucos meses declarou que não ia ficar, que sairia no dia seguinte sem mais demoras, deixando a senhora sem ninguém, logo agora que estava a correr tão bem a recuperação da cirurgia que lhe devolveria um pouco da mobilidade perdida. Sobraram os argumentos do costume, mas vocês não vêm que ela não quer ter maçadas, era o que faltava ter aqui uma pessoa dia e noite e não me fazer companhia, faz má cara às novelas, aos almoços e às limpezas da casa, não serve, filhas, não serve, é uma tristeza ter que aturar alguém que não está aqui de boa vontade. A quarta parecia óptima, tratava-a bem, fazia companhia, não era respondona e tinha boa apresentação. Mas, filhas, não vêm que a mulher não sabe cozinhar? Faz umas sopas horríveis, além disso deu-me um remédio errado, não costumo tomar o verde ao almoço mas sim ao jantar, não posso confiar numa pessoa assim, nem uma sopa sabe fazer, e trocou o remédio, garanto que trocou… A quinta tinha grande experiência de tratar idosos, currículo comprovado, recomendações, mas lá limpezas e cozinha é que não, arranja-se a mulher-a-dias para ajudar. A embirração começou logo às primeiras semanas, então vocês não vêm que a mulher é surda, eu chamo e não responde, deve mas é ficar a dormir à socapa, tem a outra para fazer o trabalho, é claro, ontem quis um copo de água e esperei meia hora, estou para aqui entregue a uma tonta, além disso não faz a cama logo de manhã, sim, claro, ela tem que me arranjar quando me levanto de manhã, mas não gosto de voltar ao quarto e ver ainda a cama por fazer, ontem deixou-me sozinha para ir fazer a cama e eu ia caindo, isto é lá pessoa de confiança, um dia destes deixa-me cair e sempre quero ver, claro, já disse que não serve, é muito desatinada. A sexta sim, longos anos a tratar de um doente idoso, que lhe deixou muitas saudades, bom sinal, é pessoa de se afeiçoar, fica toda a semana e em caso de necessidade fica também ao sábado, não, parece que não gosto do olhar dela, e arrasta os pés, essa mulher é lá capaz de poder comigo, mas se insistem experimento, é mais uma estranha a invadir-me a casa…. Uf, já lá vão quinze dias, tudo parece organizado e limpo, estás contente? Parece impossível!, então não vêm como ela é bruta, como é que ela me calça os sapatos, não tem cuidado nenhum, um dia destes arranca-me um pé, está uma pessoa que não se pode mexer e a ser tratada com sete pedras na mão, mas pronto, é muito triste chegar a velho e sofrer estes maus tratos, mais valia morrer… A sétima disse logo que sabe tratar de idosos mas quer organização, sai à sexta, volta à segunda, e nada de confusões lá em casa, visitas é só depois de avisar, era o que faltava!, eu agora ando às ordens das empregadas, nem pensar, na minha casa mando eu, não quero cá essa mulher, escusam de a contratar. A oitava…

Se gosta de ser aldrabado...

... aqui ficam mais umas afirmações dos nossos governantes em que pode acreditar:

"(...) os impactos que levaram a um défice de 2010 de 8,6% esgotam-se em 2010. (...) a revisão em alta do défice para os 8,6% resultou de mudanças metodológicas e não estão em causa os objectivos de redução do défice para 2011. (...) a execução orçamental de 2010, de acordo com as regras que estavam definidas anteriormente, cifrou-se em 6,8% do produto interno bruto (PIB), um resultado que cumpriu as expectativas e decorreu de forma mais favorável do que prevíamos (...)".

Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças

A minha homenagem

Bem sei que os povos não são gratos nem sabem pedir desculpa. Mas cada um de nós pode e deve homenagear quem merece. Nesta hora, vale a pena recordar quem, mais do que coerente, sempre soube ser consequente, revelando patriotismo. Do verdadeiro.

Espera-se a todo o momento que o Governo atribua oficialmente a responsabilidade à oposição

Péssimas notícias. Afinal o défice em 2010 foi de 8,6% do PIB e não de 7,3% que constituia o compromisso do governo português perante a Comissão da UE, valor este sem conta propagandeado também para consumo interno como um dos êxitos da governação. Isto sim, é fatal para a nossa credibilidade junto dos mercados. E perante quem nos pode ajudar.
Espera-se a todo o momento que um ministro ou um secretário de estado (o PM desde há uns dias para cá deixou de ter que ver com o assunto) venham explicar: (i) que o mundo voltou a mudar nos últimos dias; (ii) que a causa está na irresponsabilidade da oposição, designadamente do PSD ao precipitar uma crise política; (iii) que a Europa e os mercados não se enxergam e só querem o mal do País; (iv) que este resultado é fruto de uma conspiração de tenebrosos neoliberais que tudo fazem para demolir os fundamentos do Estado Social.

Embuste sobre embuste

Afinal, o défice de Portugal em 2010 ficou em 8,6%, acima do valor de 7,3% anunciado como grande êxito pelo Governo e apresentado como tal aos portugueses e em Bruxelas. Isto, depois de ter sido integrado no Estado o Fundo de Pensões da PT, com a correspondente receita.

Claro que há muito o Governo sabia que tinha que incluir no défice os prejuízos do BPN e os apoios a empresas cujos prejuízos são irrecuperáveios, como são algumas empresas de transportes. Por isso, deveria ter diminuído a despesa corrente nesses montantes para atingir o objectivo propalado de 7,6%.

Habilidosa e propagandisticamente não o fez. Foi mais um embuste para com os portugueses. Grosseiro e primário. Como muitos outros.

A agravar, foram ainda revistos em alta todos os défices públicos desde 2007!

Já li que o Ministro das Finanças vai fazer uma comunicação sobre o assunto. Pedir perdão, era o que devia fazer. Ele, Sócrates e todos os responsáveis por mais esta vergonha.

Sócrates não está só

Para além do apoio esmagador dos militantes do Partido que o voltou a eleger para secretário-geral, da ausência de oposição interna assumida, dos líderes europeus que lamentaram a sua queda, o apoio e solidariedade prestados a Sócrates vindos do outro lado do Atlântico não são disfarçados. Bem pelo contrário, sucedem-se as manifestações de tocante carinho. Lula primeiro, agora Chavez. Depois do discurso em que culpou o imperialismo e o capitalismo de terem acabado com a vida em Marte, veio o discurso de distribuição do "Magalhães" aos niños, onde aproveitou para comentar a situação em Portugal e na Europa. Imperdível, também porque o discurso, bem entendidas as coisas, não se afasta muito do que se ouve por cá. Pode escutar aqui, num registo, creio que da Susana Barros, da Antena 1.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Síndrome de Junot


Estou farto. Não sei como hei de conseguir forças ou ânimo para aguentar as tormentas políticas e sociais deste país. Estamos em crise? Estivemos sempre, só que agora as coisas parecem que são mesmo a doer e vão ser piores. Quando as coisas não correm bem, tem de haver responsáveis, e atribuir responsabilidades é muito fácil, tão fácil como urinar, desde que não se sofra de qualquer obstrução ou infeção. É o que está acontecer neste momento. Na televisão, os políticos são tão previsíveis que enojam. Já os conheço de ginjeira, ainda não abriram a boca e pressinto o que irão dizer. São tão estereotipados que, quando conseguem dizer algo diferente do esperado, obrigam-me a ficar de orelhas especadas como se tivesse ouvido a mais puras das heresias. Mas é apenas uma questão temporária, porque logo a seguir retomam o fio condutor do seu pensamento, fiéis aos seus princípios doutrinários. Parecem mesmo pregadores evangelistas, só que não anunciam a boa nova, anunciam a tragédia criada pelos outros. Irrita-me o despudor sistemático como distribuem as culpas a torto e a direito. Ouço-os, observo-os, analiso as suas palavras e tenho de concluir que não são honestos. Querem dar a entender que são e convencerem-se a eles próprios da sua superioridade, isenção, e de que são indispensáveis à sobrevivência nacional. Mas serão mesmo indispensáveis? Tenho dúvidas. Não ouvi até ao momento nenhum governante, ou responsável político ligado ao governo que fosse capaz de dizer que também tem algumas culpas, algumas, nem que seja meia dúzia delas. Nada! Não são capazes de um simples gesto de humildade. Arrogância atrás de arrogância. É demais! E querem convencer-nos, pelo menos muitos de nós, que não têm só culpa, como ainda transmitem a ideia de que sem eles as coisas poderão piorar. Mas há quem acredite nesta fauna? Se não houvesse, não estariam com este palavreado. Se olharmos, também, para os comentadores e analistas, podemos verificar que não são mais do que pirómanos em intensa e louca atividade. São tão vistos, dizem quase sempre a mesma coisa, que chego a perguntar-me: por que razão não se calam, não ficam em casa, não vão à pesca ou à caça de gambozinos? Seria muito mais saudável para o país. Os jornais também não ficam atrás. Uma luta sentida está instalada entre nós, valendo tudo o que possa ajudar a atribuir as responsabilidades a grupos e pessoas. Constroem-se factos e destroem-se vontades. Vivemos num país pobre. Pobre é o menos, o pior é comportarmo-nos como se fôssemos ricos.
Ia a pensar nestas coisas da vida política e económica do país, quando entrei nos claustros da Câmara Municipal de Pombal, onde decorre uma interessante exposição sobre os duzentos anos das invasões francesas. Por estas bandas as coisas, também, não foram pera doce. Bem documentada, proporcionou-me informações interessantes sobre aquele período, um dos mais trágicos, e cujas consequências se prolongaram durante muitas décadas, vitimando dez por cento da população. Não houve, decerto, outro povo por essa Europa que sofresse tamanhas agruras como os portugueses.
Estava quase a terminar a visita, quando me deparei com um painel que dizia o seguinte:
Napoleão estava cansado dos excessos, das extravagâncias e dos erros de Junot e, por isso, liquidou-o militarmente. Não obstante, em 20 de janeiro, nomeou-o governador de Veneza e, interinamente, das Províncias líricas. Mas quando Junot deu mostras públicas de loucura, aparecendo num baile com todas as condecorações, porém completamente nu, Napoleão decidiu exonerá-lo.
(TURRES VETERAS V, História Militar e da Guerra. Câmara Municipal de Torres Vedras, 2000, pg 64)
Excessos, extravagâncias e erros são o prato forte de alguns governantes deste país. A “Napoleona” Merckel irrita-se. Só espero que um dia destes não apareça nenhum dirigente nu com as respetivas condecorações ao peito! Mas Junot não devia estar totalmente louco, porque as condecorações que tivessem alfinetes não as iria pregar no peito, deve tê-las pendurado ao pescoço. Louco, mas não burro...

"Un antipático contra todos"

Assim vê o jornal espanhol ABC o 1º Ministro português:

"El primer ministro portugués se parece a un conductor que avanza a toda velocidad por la autopista en dirección contraria, convencido que son todos los demás automovilistas los que se equivocan.

Los gobiernos europeos y las instituciones comunitarias dan por hecho que Portugal no puede salir de la crisis sin asistencia financiera, pero José Sócrates les contradice a todos diciendo que que el país puede superar sus problemas con sus propias fuerzas.

Después de ser derrotado en el Parlamento ha presentado su dimisión y ha lanzado a su partido, el socialista, de frente y a toda velocidad contra la oposición liberal-conservadora, esperando que en el último momento un volantazo de buena suerte le permita dar la vuelta a las encuestas y regresar victorioso..."

“Arte de curar”

O papel do placebo é conhecido desde há muito tempo e constitui um dos mais poderosos “medicamentos” que temos ao nosso dispor, facto que nos leva a equacionar o papel da mente no corpo e do corpo na mente.
Uma percentagem muito significativa dos médicos utilizam-no, não sob a forma clássica de comprimidos de açúcar ou de farinha, mas através de alguns remédios que não têm grande eficácia nas queixas dos doentes. Esta atitude, aparentemente aceitável, já que o que está em causa é o bem-estar das pessoas, começa a levantar problemas éticos, porque viola a relação de confiança entre o doente e o médico, em que o primeiro acredita estar a ser tratado. Muitos bioeticistas têm chamado a atenção para esta mentira, a ponto de a Associação Médica Americana proibir que se utilize placebos sem o consentimento informado dos doentes. Aqui levanta-se, de imediato, a seguinte questão: então, se o doente sabe que vai tomar um placebo, uma substância que é inerte, ineficaz, logo, não vai beneficiar na sua utilização. Não, curiosamente não é bem assim, porque estudos recentes, efetuados em crianças com perturbação de hiperatividade com défice de atenção e em adultos com síndrome do cólon irritável, por exemplo, revelaram que, mesmo sabendo que estão a tomar um placebo, houve melhorias significativas das situações clínicas. Os médicos, ao prescreverem produtos não eficazes, explicam por que o fazem, afirmando que nalgumas pessoas se acompanham de resultados positivos. Desta forma, comportam-se, eticamente, de uma forma correta. Tudo depende do modo como abordam o assunto. A forma como o fazem é muito importante, já que, presumo, condiciona a resposta. Apesar de haver outros pormenores interessantes neste fenómeno, não queria deixar de chamar a atenção para algo de mágico por parte do clínico. De facto, há algo de magia em todo este processo, que é dizer ao doente: olhe, vai tomar este produto que é ineficaz, mas, por razões que ainda não conseguimos descortinar totalmente, já que a relação mente-corpo é das coisas mais complexas que se conhece, poderá obter alguns ganhos substanciais no seu estado de saúde, não sei se será o seu caso, mas o melhor é “esperar e ver”. A assunção deste comportamento respeita os princípios éticos e deveria ser extensível a muitas outras atividades que se dedicam à “arte de curar”, arte que todo o ser humano pratica desde todo o sempre. O que me incomoda é o facto de várias práticas da “arte de curar” quererem obter o estatuto científico, sinal de credibilidade no mundo atual. Estar sujeito ao escrutínio científico é um imperativo moral e ético, a fim de que possamos compreender e lutar de forma correta contra muitos fenómenos que nos atormentam, sem arrogância, com humildade e, sobretudo, com respeito pelos outros. O que acontece na realidade é que muitas das ditas alternativas se arvoram de “científicas” sem o serem e quando são sujeitas ao crivo da ciência não se descortinam os mecanismos e as explicações para os seus “sucessos”, porque os têm, indiscutivelmente, já que o ser humano, quando procura a cura, cura-se, nem que seja momentaneamente, usando para o efeito tudo o que encontra pelo caminho, desde Fátima a Vilar de Perdizes, passando pelo Serviço Nacional de Saúde, ou pelo padre da freguesia ou aceitando os conselhos de uma vizinha, mais ou menos curiosa, que manipula “segredos” vindos do baú dos seus ancestrais. Não tenho muito a comentar sobre alguns operadores da “arte de curar”, uns mais hábeis, outros menos, uns com técnicas sofisticadas, outros com técnicas discutíveis, mas apenas os que se querem encostar à “medicina científica” para poderem usufruir do atributo “científico”, que não o têm, nem cultivam, e, então, sob o ponto de vista ético, nem vale a pena comentar. Assusta-me o facto de começar a ver que certas escolas começam a entreabrir as portas a esses mundos paralelos, acabando por lhes outorgar no futuro um estatuto que tem de ser comprovado. Essas áreas merecem ser estudadas profundamente, sujeitas à investigação e, caso se comprove que na maior parte dos casos não passam de meros placebos, então, têm, frontalmente, de dizer que são "técnicas" ou "produtos" ineficazes, mas podem ter efeitos positivos na saúde de algumas pessoas. Aceitarão entrar nessa onda? Duvido muito, mas congratulo-me pelo facto de a medicina começar a ter atitudes como as que relatei no início deste texto, revelando que a sua grandeza emergiu no momento em que começou a cientificar-se, meados do século XIX, e que mantém uma pujança ímpar, agora, em termos éticos que podemos e devemos cultivar.

E não o internam?


"Sempre ouvi dizer que há muitos anos havia vida no planeta Marte. O que aconteceu foi que o capitalismo e o imperialismo chegaram lá e acabaram com a vida no planeta"- Palavras do Presidente Hugo Chavez durante o discurso de comemoração do dia mundial da água.

terça-feira, 29 de março de 2011

Those were the days, my friend...

Já houve dias em que Sócrates explicava toda a crise pela crise do sub-prime, que mal ou nunca nos atingiu. Mas de que os EUA já recuperaram.

Já houve dias em que Sócrates explicava a crise pela crise internacional. Mas de que quase toda a Europa já se libertou. E cresce.

Já houve dias em que Sócrates explicava a crise pela gula dos especuladores. Os mesmos que, antes, compravam a dívida portuguesa com um spread pouco acrescido em relação à dívida alemã.

Já houve dias em que Sócrates explicava a crise da dívida pública pela relutância do PSD em ratificar a política do governo. E o PSD viabilizou os Orçamentos do PS. E viabilizou o PEC I. E o rating da República continuou a baixar.

Já houve dias em que Sócrates explicava a crise pela “recusa” do PSD em aprovar as novas medidas restritivas do governo. E o PSD viabilizou o PEC II. E o rating da República continuou a baixar. E o PSD viabilizou o PEC III. E o rating da República continuou a baixar.

Já houve dias em que Sócrates explicava a crise pela acção especulativa das Agências de Rating, que veementemente criticava. Aliás, as mesmas que, antes de Sócrates, davam boa nota a Portugal.

Mas, hoje, Sócrates concordou com o downgrading da dívida da República por parte das Agências de Rating. E deu uma razão. Porque o PSD não viabilizou o PEC IV.

Tudo o resto estava bem. O monstruoso défice de 2009, para ganhar eleições! O não menos monstruoso e, agora, misterioso défice de 2010, que não se sabe quanto atinge, mas que vai ficar perto do de 2009! O aumento inimaginável da Dívida Pública que em 2011 quase vai duplicar a de 2004.

Those were the days, my friend, esses de 2004, em que os spreads da dívida pouco diferiam da alemã e as taxas de desemprego, que Sócrates ferozmente criticava, eram 50% abaixo das actuais.

Então, como agora, a culpa é do PSD. Sócrates nunca foi Governo.

Sobrinho Simões: notável entrevista

Jornalista: Pensa que esta crise vai ser pior do que as outras?

- Penso, infelizmente sim. E quando ouço os economistas falarem ainda fico espantado. Como é que eles não se aperceberam de que aumentando progressivamente o défice tínhamos uma receita para o desastre?

Jornalista: Afirmou várias vezes que o que de melhor nos aconteceu foi a entrada no euro. Foi uma oportunidade perdida?

- Foi uma oportunidade muito mal aproveitada, mas teria sido muito pior para o país e para os portugueses se não tivéssemos entrado...Prefiro ficar sob o domínio da Europa do que ficar apenas entregue aos jogos políticos portugueses.

Jornalista: Os portugueses são condescendentes?

- Pior, nós admiramos o sucesso do aldrabão. Em Portugal não há censura social para a esperteza saloia nem para a corrupção a que passámos a chamar informalidade. Pelo contrário, admiramos os esquemas, os expedientes. Vivemos deles.

Sobrinho Simões, Prof. Catedrático de Medicina, Prémio Pessoa.

Apenas um comentário a tão notável entrevista. Admira-se Sobrinho Simões que os economistas não tenham percebido que, aumentando o défice, tínhamos uma receita para o desastre. Nada de admirar. Quem suportou a receita do governo foram os "grandes economistas" deste país. Os que a rejeitaram e criticaram eram logo acusados do crime de serem neoliberais.

É o que faz sentido...

É por aqui que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) deve caminhar para garantir o acesso dos doentes aos cuidados de saúde. Assegurar não significa prestar os serviços. Significa contratualizar com outras redes de cuidados de saúde – privadas e sociais – a prestação de serviços, através de programas que estabelecem as condições em que os cuidados são prestados, em tempo e qualidade e em preço. Significa assegurar que os cidadãos mais desfavorecidos e de menores rendimentos não são discriminados em relação aos cidadãos cuja situação económica lhes permite recorrer à medicina privada para resolverem o problema da inacessibilidade aos serviços públicos.

Tem ainda um outro significado muito importante. Trata-se de utilizar e rendibilizar capacidade de serviços de saúde que está instalada e subaproveitada. O que não faz sentido é que por teimosia ideológica se dificulte acesso à saúde – basta ver o que se passa com as filas de espera para consultas e cirurgias – quando existe capacidade instalada de qualidade – médicos, equipamentos, etc. - para complementar e integrar a rede de serviços de saúde que compete ao SNS disponibilizar à população.

O modelo de contratualização pode e deve ser estendido a outras áreas da saúde. Basta pensar, por exemplo, no número absurdo de centenas de milhares de cidadãos que não têm médico de família. Não faz sentido que o SNS fique orgulhosamente só, não cumprindo a sua função, agarrado à concepção de que a prestação de serviços não pode ser assegurada por outros, deixando os doentes sem resposta para satisfazer uma necessidade básica. Não faz sentido...

Fazer bem feito...

Estive a ouvir na televisão uma parte do programa “E agora Portugal”? Retive algumas ideias interessantes e realistas, que partilho inteiramente, que explicam em muito a crise em que nos encontramos. Os convidados do programa concordaram de um modo geral que vivemos uma crise de princípios e valores e uma crise de identidade. Retive a falta de brio dos portugueses. É uma realidade. Vivemos numa sociedade que não valoriza o esforço e o mérito e quando assim é o nivelamento é puxado para baixo. É fundamental fazermos bem feito o que fazemos e deixarmos de culpabilizar os outros porque não queremos assumir responsabilidades. Esta ideia de culpabilização dos outros é também um reflexo de uma cultura em que só há direitos e os deveres são para os outros. O reforço da participação cívica passa também por alterar esta forma de estar, muito ligada aliás à mentalidade instalada de que o destino é ganhar mais para consumir mais, deixando para um segundo plano, quando existe, a dimensão do ser. Num país em que precisamos de uma maior intervenção cívica, faz sentido que tenhamos que ser mais exigentes connosco próprios e com os outros. Não trabalhar com brio, não fazer bem feito o que está nas nossas mãos, não favorece a responsabilização. Alguém dizia que é preciso dar mais liberdade às pessoas para que sejam mais responsáveis, que as pessoas estão instrumentalizadas e que precisamos de nos libertar desta infantilização. É verdade, mas a responsabilização também se conquista e essa liberdade no sentido da criatividade só se conquista com maior envolvimento cívico. É por isso muito importante a educação. Vamos sempre bater à mesma porta…

segunda-feira, 28 de março de 2011

Comichão

Tenho dificuldade em entender certos comportamentos, mas acredito que o problema seja meu. Desconhecia a existência de um movimento cujo objetivo é obter um certificado de “desbatismo”. Essas pessoas defendem o direito a serem desbatizadas por múltiplas razões, tornaram-se ou foram sempre ateus ou agnósticos, contestam a igreja e, provavelmente, não sei, terão mudado de religião. São os chamados apóstatas. Não me compete julgar esse procedimento, mas não posso deixar de tecer alguns comentários. Para obterem o dito certificado têm de o solicitar ao pároco. Não sei se vão emoldurá-los em gabinetes ou nas salas de visita. Na perspetiva de um cidadão comum, a minha, por exemplo, não consigo vislumbrar qualquer vantagem nesse ato, a não ser o simbolismo de uma rebeldia levada ao extremo. Para desligar-se da igreja presumo que não seja necessária tal atitude. Nem imagino quantos ateus ou agnósticos continuaram na sua senda sem se preocuparem com esse ato, que, afinal, representa para muitos um acontecimento social e familiar incrustado numa tradição de séculos. Ufanos, vangloriam-se dos seus feitos, mostrando os certificados de desvinculação. Fazem-no porque estão, felizmente, numa sociedade livre e sem receio de qualquer retaliação, ao contrário do que lhes poderia acontecer em tempos mais ou menos remotos e, até, mesmo hoje, caso vivessem em estados islamizados, onde a apostasia se paga bem caro, por vezes até com a própria vida.
Congratulo-me, não com o ato de “coragem” em si, porque há várias maneiras de contestar certas ideologias ou doutrinas, mas, pela liberdade que tais gestos significam. Uma liberdade que aprendemos a conquistar e que devemos respeitar. No entanto, o uso da liberdade tem de ser feita com elegância, com sobriedade e não com tiques arrogantes.
A propósito de batismo – já agora informo que não vou, naturalmente, pedir nenhum certificado de desvinculação -, estava sentado ao lado do meu pai, no decurso de uma cerimónia fúnebre, quando me chamou a atenção: - Olha, eu fui batizado naquela pia. Estava lá em baixo. – Pois estava, respondi. E eu também fui. – Pois foste. Quem me batizou foi o padre António. Disse o meu pai. – Olha lá, eu fui batizado por quem? – Também por ele. Afinal fomos os dois batizados pelo mesmo padre. Depois, como lhe é típico, apesar de ir a caminho dos oitenta e oito anos, pôs-se a descrever a minha cerimónia com tal detalhe que só ele consegue imprimir. Sorri e lembrei-me do velho padre, já muito idoso.
Quando ouço o nome deste padre associo-o de imediato às frieiras, flagelo que atacava as orelhas durante o inverno. Graças a ele nunca as cocei, porque se o fizesse poderia maltratá-las e ficar com sequelas.
O padre António tinha umas orelhas volumosas e ratadas. A minha mãe, em pequeno, ralhava-me para as não coçar: - Não coças as orelhas, olha que ficas como o padre António! Sempre que o via, olhava de imediato para elas e, realmente, metiam dó e até assustavam. Eu bem queria coçá-las, a tentação era grande, mas nada, não as tocava, não fosse o diabo tecê-las e ficar como o padre.
Agora, depois de ler a tal notícia com que iniciei este texto, estou convicto de que a comichão que sofria em miúdo era muito superior a qualquer outra. E, na altura, também tinha a liberdade de coçar, felizmente que não fiz, senão...

Europa: sinais de mudança

Fraqueja o eixo franco-alemão com os sinais de impopularidade dos líderes nos respectivos Estados. Alemanha e França parecem cansados dos seus dirigentes, o que equivale a prazo a uma mudança na liderança efectiva da Europa.
Na Alemanha, os Verdes impõem à chanceler Merkel um derrota no poderoso Lander de Baden - Württemberg, impensável há não muito tempo  A somar às derrotas na Renânia do Norte - Vestefália e Hamburgo.
Em França e nas eleições regionais o partido de Sarkozi obtém metade dos votos do PSF, com a extrema-direita a atingir cotações eleitorais que chegaram a 40% nalgumas circunscrições.

É cedo para perceber se estes sinais se refletirão nas políticas europeias pensadas para consolidar a zona euro. Mas não me espantaria que em próximos actos eleitoriais nestes Estados nucleares na actual UE, os partidos no poder venham a trilhar o caminho, eleitoralmente mais seguro, do abandono do sul da Europa à sua sorte.

Cambalhotas e outras manobras

José Sócrates, o "novo" secretário-geral eleito por uma maioria de fazer corar albaneses, deu o mote para a campanha eleitoral. Recuperado o seu papel de animal feroz, liberto da pose de homem de Estado, com uma postura mais próxima do "porreiro, pá!" que tanto encantou, sentiu-se à-vontade para,  neste estilo que lhe assenta melhor, acusar Passos Coelho de cambalhoteiro. A resposta do outro lado não se fez esperar, e foi por sua vez acusado de socar. Mas de socar "verbalmente", o que, convenhamos, é prática que não se pode considerar adquirida na célebre secção de pugilismo de Alvalade. Ali sim, praticava-se pugilismo à séria, como ainda neste fim de semana se comprovou.
.


Deu-se, pois, o tiro de partida para a campanha eleitoral. Desiludam-se os senadores que apelam à elevação. De nada servirão os apelos e a coisa far-se-à como nas anteriores ocasiões: muitos golpes baixos, sound bites que bastem para imprensa difundir (porque não difunde tudo o que garantidamente não venda publicidade), miserável debate.
Entendo que os dirigentes partidários, todos sem excepção, defendam que as eleições aconteçam rapidamente. Não, não é a emergência das soluções que lhes impõe a pressa. É a noção de que não se pode, por muito tempo, disfarçar com "bocas" a falta de soluções. Não vá o Povo, desta vez, apressar-se a perceber e a provar nas urnas que percebeu...

domingo, 27 de março de 2011

Super-Sócrates...

... a quem o País tanto deve.
Cada vez que o ouvimos falar, fica sempre a ideia de que está a resolver os problemas e que até encontrou solução para a crise.
Que grande herói!
Infelizmente, o que a realidade nos mostra é que de discurso em discurso, orçamento após orçamento, mês após mês, PEC após PEC, a situação se vai degradando, o cinto vai-se apertando e as contas vão piorando.
A diferença entre a ficção da narrativa de Sócrates e a mais pura aldrabice é cada vez mais ténue.

sábado, 26 de março de 2011

Tomar, Fatias de Cá e O Nome da Rosa


“ - Este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é sapiência (…) poderia ensinar aos doutos os enigmas argutos com que legitimar a subversão.(…) O riso desvia por alguns instantes, o vilão do medo.Mas a lei impõe-se através do medo e, a partir deste livro, o riso designar-se-ia como a arte nova, para anular o medo(…). “
“ - Mentiram-te. O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância do espírito, a fé sem sorriso, a verdade que nunca é aflorada pela dúvida(…).”

Diálogo entre Jorge e Guilherme a propósito do livro de Aristóteles que “vê a disposição para o riso como uma força boa” in O Nome da Rosa, de Umberto Eco (Difel ed.)

Fui no domingo passado com um grupo de amigos a um passeio organizado ao Convento de Cristo, em Tomar. Para além da belíssima tarde a conhecer a longa história do edifício, acabámos o dia a assistir à representação de O Nome da Rosa pelo grupo de teatro amador Fatias de Cá. Devo dizer que me parecia muito difícil que se realizasse uma peça que desse ao menos uma pálida ideia da densidade e beleza do livro de Umberto Eco, mas enganei-me. A ideia é ousada mas muito bem conseguida. Com muito poucos meios e aproveitando ao máximo os cenários naturais das diferentes zonas do convento, os actores conseguem prender-nos a atenção num crescente tal que quase acabamos a sentirmo-nos um daqueles monges beneditinos do séc.XIV, atormentados pelo mistério da sucessão de crimes na abadia no momento em que é esperada a delegação do Papa João XXII, nos conturbados tempos do Cisma, a qual tinha como missão avaliar a heresia dos franciscanos, que exigiam o regresso da Igreja à pobreza evangélica. A pacatez do Convento é atravessada pelas forças do mal, internas e externas, políticas e religiosas, que ali se cruzam numa trama intensa.
Cada cena tem lugar no sítio próprio, ora nos claustros, ora no refeitório, na biblioteca, nos corredores ou no sótão, onde se situa o esconderijo do velho Jorge, o monge cego que queria defender o mundo do livro de Aristóteles sobre a comédia e o riso, que considerava profundamente subversivo. Os espectadores andam também de um lado para o outro, a acompanhar o desenrolar do quotidiano dos monges naqueles dias sombrios e é assim que no refeitório tomamos assento na mesa comprida onde se serve o jantar, simples mas saboroso como requer o ambiente da época, incluindo uma caneca do delicioso vinho quente com canela e um fatia de pão grosso, para melhor saborear a canja, ou nos sentamos solenemente na sala da conferência das delegações e, depois, na sala do julgamento, ou que subimos por uma escada de madeira íngreme até à zona decrépita que fez parte dos aposentos do Conde de Tomar, cenário para a fantástica recriação do incêndio final.
A noite estava morna e limpa, a beneficiar da luz irreal da Lua Grande a iluminar a quietude dos recantos do convento ou a fazer brilhar como prata as folhas das laranjeiras nos claustros, acentuando a sombra do desfile dos monges encapuçados e silenciosos, cada um com uma lamparina mortiça.
Um ambiente mágico para um trabalho de grande qualidade e simplicidade, apenas um pouco cansativo para as pernas citadinas, pouco habituadas ao sobe e desce das escadas de pedra com degraus altos e à dimensão fria dos corredores belíssimos, muitos deles forrados a azulejos, a contrastar com o inevitável abandono de grande parte do Convento, mesmo assim majestoso.
Visitar estes sítios e poder assistir a esta peça de teatro do grupo Fatias de Cá, que dá vida a um lugar precioso com uma obra que merece aquele cenário, reconcilia-nos com este Portugal surpreendente que consegue, miraculosamente, fazer brotar das pedras e da imaginação um programa de encantar.
Não deixem de ir ver, vale bem o esforço e o passeio. E não esquecer uns sapatos confortáveis porque tudo o resto, beleza, arte e jantar, está incluído no bilhete. E marquem com antecedência porque, apesar de estar em cena há cerca de seis anos, aos domingos, está sempre esgotado. Vão perceber porquê…

sexta-feira, 25 de março de 2011

A entrevista de Pedro Passos Coelho

Enquanto ouço os comentadores habituais jogarem com as palavras e analisar a forma, a postura, a voz e o estilo de Pedro Passos Coelho, creio que a entrevista revela coisas importantes que não passarão despercebidas. Em primeiro lugar, percebe-se que não aposta na hostilização mas na afirmação de alguns princípios essenciais e na desmistificação corajosa e esclarecedora como foi o caso do papel do FMI e da ajuda externa se necessária. Positivo. Depois, o ter reconhecido que muita gente o aconselha mas nem toda  o convence. Muito positivo

Milhões em tempos de crise...


Em tempo de crise não seria, à primeira vista destituído de razão, pensar que também no jogo há contenção, com as pessoas a fazerem contas à vida, a pouparem naquilo que, à primeira vista, é supérfluo. Mas não, não é assim que as coisas se passam. Li que há estudos, nos EUA, que demonstram que em tempo de crise são as pessoas mais pobres que tendem a jogar mais, porque procuram no jogo a solução para problemas concretos.
Em tempo de crise, parece fazer sentido procurar as receitas do jogo. Quem joga procura o milagre da multiplicação dos milhões, quer ser milionário, quer gastar nem se sabe bem em quê, e quem recebe encontra no jogo uma fonte de receita preciosa para fazer face às crescentes necessidades de dinheiro.
Os nove países europeus que participam no Euromilhões decidiram passar a fazer dois sorteios por semana. Em plena crise, vamos ter um segundo sorteio do Euromilhões e novas regras que, segundo anunciado, visam incentivar mais jogo. É que os apostadores desejam maiores valores de jackpot e mais hipóteses de ganhar prémios. Atrás da vontade de ganhar vem mais jogo. Haverá mais prémios e mais receitas.
O novo sorteio vem satisfazer a febre dos jackpots que deixam as pessoas quase em estado de sítio nas sextas-feiras em que as bolas andam à roda. É que quando há jackpots as pessoas vão a correr apostar mais, não que haja mais hipóteses de serem contempladas, mas se a sorte lhes bater à porta ficam ainda mais milionárias. É assim que crescem as receitas do jogo.
Portugal é um campeão do Euromilhões, é o segundo país do grupo que mais gasta per/capita. E os jackpots têm ajudado. À frente está o Luxemburgo, talvez que a grande comunidade de portugueses aí residente contribua para este lugar.
Se considerarmos que as receitas do Euromilhões e dos outros jogos promovidos pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa se destinam a financiar causas e objectivos sociais, o jogo acaba por ter uma função de redistribuição, com a particularidade de a origem dos fundos ser totalmente voluntária, ao contrário do que se passa com os impostos. É, portanto, um jogo “bondoso” à medida da “bondade” dos apostadores, embora muitos deles não tenha se quer consciência do bem que pode estar a fazer porque o que intressa, mesmo, é ser milionário.
O que se espera é que esta generosidade seja criteriosamente redistribuída pelo Estado e cuidadosamente gerida pelas entidades beneficiárias. Seria importante conhecermos periodicamente o valor social gerado pelas receitas distribuídas pelo jogo, não apenas do Euromilhões, mas do conjunto dos jogos sociais. Este é o lado do jogo que menos interessa aos jogadores. O que interessa, mesmo, é jogar e ser milionário...

Voluntários...

... à força !!
Este PEC 4 tem pormenores interessantes.
Um deles dá pelo título de "Simplificar e facilitar a poupança".
Transcrevo dois trechos:
"(...) Propõe-se, assim, que as famílias sejam incentivadas à vinculação ao denominado Plano de Auto-Poupança Individual. (...) A adesão a este programa deve ser sempre voluntária (...)". Tentei perceber.
E realizei que estamos certamente perante uma nova modalidade de poupança.
Primeiro proclamam a necessidade de poupar e anunciam-se facilidades.
Depois ficam-nos com a massa.
De seguida colocam-na no dito plano de auto-poupança.
E no final mandam-nos um papel para assinarmos a adesão voluntária, caso queiramos alguma vez num futuro mais ou menos distante, reaver o dinheiro.
É um voluntariado vinculativo...

Como foi possível terem feito isto ao País?!

1.A frase em título terá sido hoje proferida pelo PM ainda em funções, em Bruxelas.
2.E eu concordo, EM ABSOLUTO.
3.De facto, decorridos 6 anos de uma governação no decurso da qual:
- Tantas vezes foi cantado sucesso nas mais diversas frentes da política económica;
- Destacados porta-vozes do Governo chegaram ao ponto de afirmar alto e bom som que o País ficaria imune à crise financeira internacional;
- Nos foi prometido vezes sem conta que o desemprego iria baixar;
- Nos foi prometido, também vezes sem conta, que “desta vez é que era”, no que respeita à decantada consolidação orçamental;
- Nos foi garantido que não seriam necessários mais sacrifícios quando começamos a perceber que sem sacrifícios não chegaríamos a lado nenhum;
- Nos foi garantido que num breve prazo iríamos entrar num processo de retoma da convergência para o nível de rendimento médio da União Europeia, nos vários formatos desta;
- Nos foi dito que os grandes projectos de obras públicas entretanto realizados iriam induzir um ritmo de crescimento cada vez mais elevado;
- Nos foi assegurado que o endividamento externo era um assunto de somenos importância numa união monetária como a zona do Euro;
- Etc, Etc, Etc...
4....Termos chegado a esta lamentável situação em que (i) no exterior já quase ninguém está disponível para nos conceder crédito, (ii) os ratings da República se aproximam do nível “junk”, (iii) precisamos como “pão para a boca” da ajuda financeira da União Europeia (para já do BCE, o resto esperemos para ver...) para sobreviver, (iv) perdemos a confiança e o respeito dos nossos credores externos e (v) perdemos toda a margem de liberdade para decidir do nosso futuro...(v) continuamos a afastar-nos, pela negativa, do nível médio de rendimento da União Europeia...
5....É mais do que motivo para exclamar, em voz indignada, “COMO FOI POSSÍVEL TEREM FEITO ISTO AO PAÍS?!!

Os enormes equívocos e os riscos da questão "resgate finaceiro"

1.Desde meados de 2010 em especial, o BCE acorreu em auxílio financeiro do nosso País por duas vias: (i) financiamento directo aos bancos nacionais, mediante a concessão de vários tipos de facilidades de crédito a taxa de juro fixa de 1%; (ii) financiamento indirecto à República mediante a aquisição, em mercado secundário, de títulos de dívida emitidos pela República, em montantes suficientes para permitirem que a mesma República pudesse continuar a financiar-se no mercado a taxas suportáveis (a curto prazo pelo menos).
2.Os valores atingidos por estes apoios são do domínio público: até data recente, o crédito concedido pelo BCE aos bancos era de cerca de € 42 mil milhões, o montante de títulos da República detidos serão alguns milhares de milhões de Euros, no conjunto teremos certamente mais de € 50 mil milhões.
3.No caso dos bancos, o BCE passou a ser, a partir de meados de 2010, a sua principal fonte de financiamento, substituindo os instrumentos de mercado que se foram vencendo e que não foi possível já renovar. Esta situação persiste, segundo tem sido noticiado, uma vez que os mercados monetário e de capitais continuam nada ou quase nada disponíveis para financiar o sistema bancário português.
4.Na ausência deste resgate financeiro do BCE, a nossa situação financeira, económica e de finanças públicas seria catastrófica, impossível de sustentar socialmente tal a dimensão da crise...
5.Neste cenário nu e cru de resgate financeiro pelo BCE, insistir hoje em dia na ideia de que podemos e devemos evitar um resgate financeiro (com receio da condicionalidade associada a tal resgate) como tem sido persistentemente afirmado sobretudo da parte de responsáveis governamentais, constitui uma negação infantil da realidade em que vivemos e coloca-nos numa situação de altíssimo risco com consequências que podem ser bem mais penosas do que o necessário.
6.Expliquemo-nos.
7.Com efeito, a situação de resgate “informal” pelo BCE, acima sucintamente descrita, comporta riscos consideráveis uma vez que não dispomos de quaisquer garantias de que o BCE venha a manter este tipo de apoios por tempo suficiente até que a nossa situação financeira em relação ao mercado exterior possa ser normalizada.
8.Ainda menos garantias temos de que o BCE se mostrará disponível, caso seja indispensável, a alargar estes apoios nos mesmos termos que até aqui – a menos que o País negoceie com as autoridades europeias um programa de saneamento das finanças públicas e de reformas da sua economia que dê inequívocas garantias de que a prazo não muito longo os apoios do BCE possam ser substituídos por financiamento de mercado.
9.Acontece no entanto que esta forma de viver em situação de resgate financeiro semi-formal - em que estamos mas fazemos de conta que não estamos resgatados - do ponto de vista da condicionalidade que nos é exigida implica seguramente obrigações em nada inferiores às que nos seriam exigidas num processo de resgate formal, do tipo do que foi negociado com a Grécia e a Irlanda.
10.Muito provavelmente, pelo contrário, teremos de aceitar obrigações de ajustamento orçamental e doutros tipos ainda mais gravosas - exactamente para justificar e cobrir o risco da “margem de liberdade” que nos é concedida (teoricamente, pelo menos) por não ficarmos ao abrigo de um plano de resgate formal do tipo dos anteriormente citados.
11.Assim, este debate "meio" acéfalo em torno do não-recurso a um resgate financeiro, não só se mostra totalmente inquinado como pode vir a impor-nos sacrifícios maiores do que os necessários num cenário de resgate formal. E agora, que fazer?

As palavra dos sábios são intemporais

"Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente e moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. Financeiro, administrador, estadista, chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingente situação e assustadoras responsabilidades, é a pedir de boca, o que se diz mão de pronto desempenho, fórmula viva a quaisquer dificuldades, chave de todos os enigmas.
Tenham por averiguado que, onde quer que o colocarem, dará conta o sujeito das mais árduas empresas e solução aos mais emaranhados problemas. Se em nada se aparelhou, está em tudo e para tudo aparelhado. Ninguém vos saberá informar por quê. Mas todo o mundo vo−lo dará por líquido e certo. Não aprendeu nada, e sabe tudo. Ler, não leu. Escrever, não escreveu. Ruminar, não ruminou. Produzir, não produziu. É um improviso onisciente, o fenômeno de que poetava Dante:

“In picciol tempo gran dottor si feo”.

A esses homens−panacéias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor à admiração do estrangeiro".

Rui Barbosa, Oração aos Moços, reedição, Rio de Janeiro, 1999

quinta-feira, 24 de março de 2011

A 17 de Fevereiro, ainda sem PEC IV, escrevemos aqui:

A evidência

"O destino dos governos minoritários é, normalmente, acabarem por ser derrubados por uma moção de censura, votada por sectores diversos da oposição". Esta frase dita pelo Professor Freitas do Amaral teve grande repercursão nos media. O distinto professor limitou-se, porém, a verbalizar uma evidência, que aliás a história recente do Portugal democrático confirma.
Porque esta instabilidade essencial aos governos minoritários é uma evidência, torna-se muito inquietante que continuemos a gerir o futuro do País como se a realidade política fosse radicalmente diferente da que é. Nada pode explicar que um governo fraco, cujos membros vão deixando cair, aqui e ali, confissões de impotência perante as dificuldades, considere que mantém condições para continuar a conduzir os destinos do País. Como se percebe mal que alguns dirigentes da oposição esperem pelo apodrecimento total da situação, para colherem os frutos. Quem, em boa consciência ou no seu perfeito juízo, prefere colher frutos assim? Só quem se deixou cegar pelo poder a tal ponto que não vislumbra que é verdadeiro suícidio aceitar exercê-lo quando o caos se instalou.
Entendo bem que a perspectiva de novas eleições não contribua para melhorar a situação económica e social. Mas já não percebo como é que lideranças partidárias não colocam em nome do interesse nacional aquela alternativa a eleições que é tão óbvia como evidente é a fragilidade deste governo: um acordo alargado entre os partidos gerador do apoio maioritário a um Executivo plural na sua composição,constituído numa base programática consensual sobre medidas essenciais para superar a crise.
Difícil de obter esse acordo no actual quadro parlamentar? Não, se os dirigentes partidários pensarem mais no País e menos em si próprios ou nos grupos que chefiam.

Continuamos a sustentar exactamente o mesmo. Agora com o apoio incontornável dos factos.

Bem prega Frei Tomás...

... foi a expressão que me ocorreu quando li a página 23 do PEC 4.
"Incentivar a disciplina orçamental das famílias e a gestão prudente do crédito".
GESTÃO PRUDENTE DO CRÉDITO ?!!
PRUDENTE ?!!
Depois do completo desvario com o endividamento dos últimos anos, com as SCUT, com o TGV e com as PPP ??
Mais vale tarde do que nunca.
Só é pena que o Governo e o PS tenham chegado tão tarde, mas mesmo tão tarde a esta conclusão que ainda há poucas semanas contiunuavam a proclamar as virtudes do TGV e das obras públicas.
Agora, temos que pagar as suas imprudências...

quarta-feira, 23 de março de 2011

O paradoxo do FMI

Em várias ocasiões, o primeiro-ministro justificou a sua relutância em recorrer a ajuda externa pelo efeito perverso que a intervenção já ocorrida na Grécia e na Irlanda teve nas taxas de juro das respectivas dívidas públicas. Importa, por isso, perceber a relação de causalidade entre a submissão a um programa de financiamento externo e o agravamento dos custos de financiamento. Estes programas têm como principal benefício a garantia de financiamento a custos inferiores aos exigidos no mercado. Em contrapartida, é exigida a adopção de um conjunto alargado de medidas que visa, por uma lado, o rápido saneamento orçamental e, por outro lado, a melhoria do crescimento económico potencial. Daqui decorre, necessariamente, uma capacidade acrescida do país intervencionado em honrar os seus compromissos financeiros. Desse modo, por que haveriam os investidores exigir taxas de juro mais elevadas? Parece um paradoxo…mas não é!

A explicação normalmente avançada para desmontar este paradoxo apela aos efeitos reputacionais adversos que um pedido de ajuda alegadamente comporta – nas palavras do primeiro-ministro: a incapacidade do país resolver o problema pelos próprios meios. Acontece que para os investidores pouco importa quem resolve o quê: a sua preocupação é garantir o recebimento integral do capital emprestado.

A explicação correcta reside no facto do crédito contraído junto do FMI ser sénior relativamente à divida contraída junto de todos os outros investidores. Ou seja, em caso de incumprimento, o FMI tem primazia na cobrança, o que implica prejuízos maiores para os demais credores. Noutras palavras, a “entrada do FMI” tem como consequência a eventual penalização dos “tais especuladores” a que tanta gente aponta o dedo – muitas vezes sem saber do que fala.

Seja como for, parece incontestável que o aumento das taxas de juro onera o financiamento do estado. Esta asserção também não está correcta, pois durante o período de vigência do programa de auxílio financeiro, os estados não necessitam de recorrer ao mercado - afinal, esse é o objectivo único do recurso à ajuda externa -, tornando o nível majorado das taxas de juro praticamente irrelevante.

No cenário mais provável de eleições, é crucial que estas questões decisivas sejam tratadas com a seriedade devida e sem demagogias.

Crise de inteligência...

Ao reler o livro de Michel Crozier “La crise de l'intelligence” (1995) não pude deixar de sorrir ao verificar a sua actualidade e ao encontrar um paralelismo entre a crise moral e intelectual francesa e a mediocridade das elites governantes, encostadas ao status quo da burocracia e do imobilismo, e a crise de princípios e valores em que estamos mergulhados, aqui em Portugal.

“ (…) La crise que nos vivons est d'abord une crise morale et intellectuelle. Nous sommes em désarroi parce que nous n'avons plus confiance en nos elites, et même désormais de moins en moins en nous-mêmes.Nous avons perdus tous nos repères, et nos élites sont impuissantes car, quel que soit leur engagment partisan, elles parlent ce qui apaaraît maintenant à tous leus concitoyens comme une langue de bois.
Une crise de cette nature pourrait être salutaire si elle pouvait amener à une prise de conscience de la realité! Elle pourrait ainsi ouvrir la voie à la reforme intellectuelle qui nous permettra de trouver enfin dês réponses adaptées aux changements trop rapides du monde. Que les idéologies contratictoires qui nous ont paralysés aient enfin été balayées par les faits nous apparaîtrait alors comme une bénédiction et non pás comme le signe de l'absence de pensée.
Mais tel n'est pás le cas. Nos elites se crispent. Moins elles sont efficaces, moins elles supportent la critique. Il est proprement inconcevable que des gouvernants responsables, des dirigeants d ' institutions puissent déclarer sans vergogne qu ils sont incapables d ' effectuer le moindre changement à cause des rigidités, dês cloisonnements et du conservatisme de la société ou des organisations qu ils dirigent. Car c'est bien au sommet de l'État, des administrations, du système des grandes écoles et des grands corps de l'État que l'on découvre la raison de cês rigidités et de ces cloisonnements.
La société change et s'adapte tant bien que mal. Ce sont ses organismes faîtiers que la paralysent. Et le seul vrai danger qui nous menace ce n est pás la crise en elle-même mais le risque de régression que leur comportmente devant celle ci entraîne.
La société française de ce point de vue est menacée d'une vague régressive qui se développe aussi bien sur le front des responsables, des décideurs, que dans le débat public perturbe par la démagogie.
Du cote de l'État et de tous les autorités publiques on en revient instinctivement aux mécanismes classiques du rassemblement autour du préfet arbitre et de l'État aménageur. Dans ce pays qui souffre d'anémie collective on ferme toutes les fenêtres et on disserte sur la façon de répartir la pénurie au lieu d'essayer de stimuler l'activité. Ce n'est pas la faute des interest, c'est une faute profonde de raisonnement.
Si nous nous préocupons seulement de maintenir l'equilibre tradicionnel, qui n'est pourtant en fait qu'une apparence, nous n avons aucune chance de fair face au défi de l'avenir.
Le problème derrière les problèmes c'est, tout compte fait, l'intelligence à la française. Nous nous croyons intelligents et, en fait, nous sommes complètement inadaptés au monde dans lequel nous vivons. (…)”

Numa fase em que vamos ser obrigados a fazer a desalavancagem do elevado fardo da dívida pública que nos está a consumir, ao qual se junta o fardo da dívida do sector privado – empresas e famílias - que será também submetido a processos de emagrecimento, seria importante que a desalavancagem da sociedade portuguesa não se resumisse a uma abordagem exclusivamente financeira.
Precisamos de assumir de plena vontade a necessidade e o benefício de reorientarmos princípios e valores, comportamentos e hábitos, ambições e vontades na condução das nossas vidas, incorporando esta mudança nas nossas decisões e escolhas, com reflexos na vida colectiva, seja nas famílias, nas empresas ou nos serviços públicos.
O nosso problema é, antes de tudo o mais, um problema de inteligência, não à la française, mas à portuguesa. Julgamo-nos inteligentes e, afinal, não fomos capazes de nos adaptar ao mundo que mudou e de antecipar um modelo de desenvolvimento económico e persistimos nas mesmas soluções. Sofremos de uma anemia de visão e mudança que nos conduziu a resultados desastrosos. Precisamos de umas vitaminas vigorosas que nos dêem forças e energia para encarar a crise como uma oportunidade de mudança...

Restará algum Ministro para a votação?

Sócrates, 1º Ministro, abandonou o debate do PEC depois de Teixeira dos Santos ter falado.
Teixeira dos Santos, Ministro de Estado, também se apressou a dar corda aos sapatos, abandonando a ministerial tribuna logo após a sua última intervenção.
Silva Pereira, salvo erro, também não o vi.
Restará algum Ministro no fim do debate?

A prova real

Jornalista: Eng. José Sócrates, vamos vê-lo, um dia, Primeiro-Ministro?
Eng. José Sócrates: Não! Primeiro, porque não tenho o talento e as qualidades que um Primeiro-Ministro deve ter... Ministro é o meu limite.
DN, 16 de Setembro de 2000, entrevista feita por Pedro Quartim Graça
Está feita a prova real.

O poder da demagogia

A retórica é - sempre foi - o instrumento por excelência do tribuno, do político. Esta é uma herança da Antiga Grécia, em particular dos sofistas, para quem, mais do que a solidez e consistência das ideias, importava a força do argumento. Nos tempos de hoje, em que a comunicação é rainha, a capacidade de fazer passar uma mensagem nos meios de comunicação social é decisiva, na esfera política, como na económica, na religiosa ou na cultural. Acontece que relativamente à primeira, qualquer governo em funções dispõe de uma vantagem desproporcionada que decorre da maior notoriedade das figuras que o compõem, das inúmeras ocasiões de “corta-fitas”, no controlo que exerce – directa ou indirectamente – sobre as empresas de comunicação social. Esta assimetria no acesso e controlo da comunicação social é negativa, mas dir-se-á: faz parte da vida democrática. Porém, a vantagem de que os governos auferem deve ser usada com decência, sob pena de distorção grave da democracia. Serve este delongado prólogo para ajudar a perceber porque razão se gerou, nas instâncias europeias e nos mercados financeiros internacionais, a percepção de que o “chumbo” do PEC IV enfraquece a posição financeira de Portugal.

Como é absolutamente claro, qualquer ministro ou secretário de estado do governo português tem mais eco na imprensa e agências de notícias internacionais do que qualquer dirigente da oposição. Esta constatação justifica a reacção adversa do "mercado" à possibilidade de antecipação das eleições: afinal, nos últimos dias, os membros do governo têm insistido veementemente na relação entre a queda do governo e o colapso financeiro do país. Contudo, essa reacção não é a mais racional do ponto de vista financeiro; senão vejamos: (i) A crise internacional veio pôr a nu a total inadequação da política económica do governo socialista, pelo que a sua remoção deveria ser encarada com alívio por credores e investidores; (ii) o programa do PSD, que está "a milhas" do socialista na vertente económica, inclina-se de forma inata para um maior conservadorismo orçamental e para um recuo nas funções económicas do estado - algo que é tido pelo FMI, CE, Eurogrupo, etc, como promotor do potencial de crescimento da economia. Deste modo, a vantagem eleitoral do PSD que ressalta das sondagens deveria reduzir a apreensão dos “mercados” relativamente à condição financeira de Portugal e não o contrário, como parece estar a acontecer.

Existe, porém, outra possível explicação para esta reacção contranatura dos mercados internacionais, que não a assimetria do acesso à comunicação social entre governo e oposição. Reza assim: a urgência da situação financeira e a pressão dos parceiros europeus implica pouco espaço de manobra na definição das políticas com implicações orçamentais, tornando, nesta matéria específica, menos relevante a côr que compõe o governo; daí que preocupação dos “mercados” possa simplesmente advir do receio que o PS, tal como fez no governo, continue a prejudicar o país na oposição, desta feita gerando instabilidade nas ruas, ao lado dos partidos de esquerda que hoje acusa de radicalismo e irresponsabilidade.

O défice traz conforto, palavra de Sócrates

"...o défice nacional vai aumentar...o que trará o conforto que todos precisamos".
José Sócrates, em 23.07.2009, em sessão com empresários, fazendo gala no aumento do investimento público.
Lapidar, como visão global da interconexão das diversas variáveis macroeconómicas!...

Indecência...

... pode parecer uma palavra politicamente pouco correcta e nada simpática para retratar a conduta do Primeiro-Ministro e do Governo.
Mas no dicionário há palavras mais contundentes para retratar este comportamento.
Dispenso-me de as usar, para não ferir as susceptibilidades dos "calimeros" que se apressarão a transformar estas críticas em insultos ao seu amado líder...
Portugal está mergulhado numa grave crise - económica, financeira, política e social.
Mas esta crise possui ainda uma outra dimensão.
A total e absoluta desconfiança que José Sócrates irradia.
As sucessivas mentiras, enganos, truques, aldrabices, malabarismos, dissimulações e acima de tudo incompetência e irresponsabilidade na condução da coisa pública, criaram um pântano onde todos aqueles que têm que lidar com este Primeiro-Ministro correm o sério risco de ficarem "contaminados".
Não há acordo que seja respeitado.
Não há promessa que seja cumprida.
Não há PEC que resista mais de quatro meses.
Até o orçamento para 2011, que foi apresentado como uma emergência nacional, não sobreviveu ao seu primeiro trimestre.
Os sacrifícios a que os portugueses estão a ser submetidos, parecem uma sucessão de actos tão sádicos quanto inúteis.
Num dia somos bombardeados com notícias que nos apresentam o enorme sucesso do nosso Governo na execução orçamental.
No dia seguinte descobrimos que, afinal, a estória estava mal contada.
As contradições, as trapalhadas e as incoerências sucedem-se a um ritmo tão acelerado, que só falta candidatar esta governação ao Recorde Mundial do Guinness dos disparates...
... e da indecência!

terça-feira, 22 de março de 2011

Sexo e género

A minha filha mais velha perguntou-me se eu achava correto identificar o sexo e a idade dos respondentes num inquérito destinado a avaliar os estudantes de uma instituição. Mas antes de poder responder-lhe, explicou-me as razões. No decurso de uma reunião, os colegas disseram-lhe que não tinham qualquer importância, dando a entender que, até, se tratava de uma medida discriminatória em termos de género, impróprio numa altura em que se luta tanto pela igualdade entre homens e mulheres. A rapariga não se deixou ficar e retorquiu que o que estava em causa não era uma questão de género, mas sim diferenças entre sexos, cujas características biológicas influenciam muito o comportamento podendo ter efeitos marcantes nos resultados. A conversa continuou - eu pouco falei! -, acabando não só por lhe dar razão, como fui obrigado a refletir sobre o assunto.
Sou um acérrimo defensor da igualdade de género, desde que não “violem” as diferenças sexuais biológicas. Mesmos direitos, mesmos deveres, acesso às diferentes profissões, não haver discriminação de qualquer tipo, em termos sociais, culturais, económicos e políticos entre os géneros masculino e feminino constituem aspetos indiscutíveis. Temo que os defensores radicalistas da igualdade de género queiram ir mais longe a ponto de “apagarem” as diferenças entre “machos” e “fêmeas”.
Em toda a parte, em todas as culturas, os machos produzem espermatozoides e as fêmeas óvulos e dão à luz e amamentam, entre outras coisas que não vale a pena citar. Regras biológicas universais que comprovam as diferenças entre sexos.
As diferenças culturais masculinas e femininas variam muito, havendo sociedades em que as primeiras continuam a predominar de forma obscena. Os conceitos masculino e feminino, apesar das influências biológicas, são, sobretudo, moldados pela cultura, havendo, no entanto, em todas as sociedades, evidências desses efeitos fisiológicos impossíveis de anular. Lutar contra a discriminação é um imperativo, mas não se pode “apagar” o sexo! Era o que mais faltava. Há limites para tudo.
Todos sabem que nos machos predomina a testosterona, uma hormona que tem dois objetivos: obrigá-los a fornicar e a matar. Duas inquietações dos diabos, que têm, permanentemente, de ser controladas, e com que sacrifício. Nas mulheres, que têm, também, testosterona - graças a deus! porque, apesar de as possuir em doses baixinhas, são a razão da sua libido, e de alguns pelos -, predomina outro tipo de hormonas, caso da ocitocina, a “droga relacional”, indutora de fortes sentimentos associados à ligação, à proteção, à dispensa de cuidados e à maternidade, só para falar de alguns pormenores.
Já se nota que a igualdade dos géneros pretende invadir a ordem biológica. Machos a quererem ser femininos e fêmeas a quererem ser masculinos. Muitos jovens rapam os pelos do peito produzindo tojos que acabam por raspar a membrana do meu estetoscópio. E o raio daqueles pelos que crescem de forma diferente do cabelo. Que ideia! Ao menos podiam fazer a barba peitoril com mais frequência. Dizem que faz parte da metrossexualidade crescente. Então que faça, pouco me importa, só espero que não cheguem a outras coisas! Quanto às jovens, algumas começam a adquirir aspetos e comportamentos andróginos. Fenómenos curiosos que, espero, não vinguem, porque é possível manter a igualdade de género, respeitando os efeitos vulcânicos emergentes dos poderes biológicos sexuais que foram determinantes na evolução humana.

A angústia de um apelo dirigido à pessoa errada

O Dr. Mário Soares dirigiu hoje ao PR através das páginas do Diário de Notícias um "apelo angustiado", exortando-o a intervir numa situação que considera muito grave se esta triste novela do PEC IV vier a ter o desfecho já esperado.
Lamenta-se que o apelo seja dirigido ao destinatário errado. Não acreditando eu que o Dr. Mário Soares  possa ter qualquer influência sobre o PR, poderia contudo tê-la sobre o PS. Soares sabe como ninguém que o problema tem um rosto e um nome. O rosto e o nome do Engº José Sócrates. Se, como parece decorrer do seu escrito no DN, pensa ser possível uma solução patriótica no actual quadro parlamentar - e eu também estou convencido disso - então não pode ignorar que da esquerda à direita ninguém se dispõe a estabelecer um compromisso com o ainda PM. E assim sendo esperava-se que a angústia e o apelo fossem direitinhos para os dirigentes do Partido Socialista e para o Engº José Sócrates, pedindo-lhes que em nome dos superiores interesses do País dessem oportunidade à recuperação da credibilidade perdida.

PS - Leio que o Dr. Jorge Sampaio, outro dos líderes históricos do PS e ex-PR, alinha pelo diapasão angustiado do Dr. Mário Soares. Se ambos canalizassem as energias da angústia que sentem e as dirigissem para o remover o problema, creio que seria bem mais fácil atingir o objectivo, que aliás estou em crer que é nesta altura partilhado por muitos socialistas.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Crise empurra-nos para os braços da ajuda externa: outra vez não, por favor...

1.O titular da pasta das Finanças continuou a insistir hoje nesta tecla de que o desencadeamento da “crise” – crise ou festa a que ele próprio ajudou não sei se com total consciência mas em qq caso de forma objectivamente muito generosa – é condição necessária e suficiente para colocar o País em situação de ter de solicitar ajuda externa.
2.Eu não sou “bruxo” e não posso saber com exactidão o que se passa na cabeça destas pessoas...até devo admitir que se encontrem em fase de grande perturbação - o caso não é para menos, convenhamos - e que portanto seja justificado dar um desconto especial a algumas declarações.
3.Mas esta ameaça de recurso iminente à ajuda externa, quando nos encontramos já totalmente dependentes da mesma (concretamente do BCE, como procurei explicar em Post editado em 17 do corrente, “Chumbar PEC IV é empurrar País para a ajuda externa?”), ultrapassa os limites do aceitável, pois constitui uma total mistificação...
4.Não se concebe como é possível o Governo usar este tipo de argumentação que sabe ser totalmente destituída de fundamento – qual o interesse em ameaçar com a iminência de um cenário que já nos entrou pela porta adentro há quase um ano?
5.Será que a perturbação já chegou ao ponto de o Governo desconhecer a situação de dependência total do BCE em que a economia do País se encontra, via sistema bancário e dívida pública? E na falta da qual a economia portuguesa estaria nesta altura em fase de implosão?
6.Se assim for, se o Governo realmente desconhece isso, então a situação swerá bem mais dramática do que se possa imaginar, significando que o Governo já não tem quaisquer condições para exercer a sua função.
7.Se assim não for, qual então a razão de insistirem neste erro, tão evidente e fácil de desmontar?
8.Será que já não existem mais argumentos e usam este que equivale a terem-nos na conta de criaturas desprezíveis, sem qualquer capacidade de discernimento?

Rebate de consciência?

"Estamos há demasiado tempo a jogar aos dados com o destino da economia portuguesa e dos portugueses. Sempre defendi que devia haver mais responsabilidade política no País", foi esta a declaração do MNE português à entrada para uma reunião dos chefes de diplomacia da UE.
Declaração que saúdo, embora lamente este tardio rebate de consciência ou confissão, como quiserem.
Uma declaração que soa a nostra culpa, a contrastar com a posição assumida ontem também em nome do MNE pelo ministro Silva Pereira, e hoje pelo deputado Francisco Assis para quem a responsabilidade cabe a quem não governa, a quem não decide.

Quanto a Amado, é desta que se demite?

domingo, 20 de março de 2011

“silêncio é o sangue cuja carne canta”

Na primeira vez em que fui interpelado na qualidade de escritor, o que para mim foi uma novidade perturbadora, porque não me sinto como tal, talvez, no máximo, um escrevinhador, um dos miúdos, que fazia parte do elenco do Auto da Barca do Inferno, perguntou-me por que é que falo tanto da morte? Respondi-lhe, sem hesitação: - Porque tenho medo! E tenho. Continuei a explanar que, desde muito cedo, comecei a conviver com ela. E passei a contar muitos casos em que a vi. Pareciam relâmpagos numa noite de tempestade. Constituem as lembranças mais poderosas que possuo. Começaram a nascer por volta dos cinco anos. Tantas, meu Deus! A minha melhor amiga, que tinha a mesma idade, deitada, sem dizer nada, cor de cera. Toquei-lhe e não respondeu. A mão que tantas vezes peguei estava fria. Guardo a sua imagem. Um tio velho, contador de histórias, fumador de cigarros feitos com barba de milho, a quem ouvi o último suspiro. Alguns anjinhos, desconhecidos, sem nome, sem batismo, que os mais novos, diligentemente, levavam ao cemitério sem os tradicionais ritos fúnebres, conferindo um ar infantilmente despreocupado como se fosse a coisa mais natural do mundo. Depois, muitos mais, à medida que os anos se iam acumulando. Contei-lhes alguns casos na qualidade de médico que me marcaram para sempre e com os quais se aprende às vezes mais num estertor do que em muitas horas de estudo ou anos de vida. E falei, falei sempre e os miúdos ouviam com interesse, sem anseios como se estivessem a imaginar as cenas. Apercebi-me que lhes estava a fazer bem.
Falar da morte com naturalidade não perturba, não traumatiza, ajuda a aliviar certos anseios, dando à vida um outro significado. Os seus olhares, serenos, cheios de atenção foram os responsáveis pela majestática tempestade sobre este tema. Não ficaram assustados. No final, depois de muitas outras perguntas, o “anjo”, que estava ao meu lado esquerdo, perguntou-me qual foi a maior experiência que tive como médico até hoje. Foi então que eu soube qual tinha sido. Até aquele momento desconhecia por completo. O “anjo” perguntou-me e eu lembrei-me de um anjo desconhecido, pequenino, com poucos dias de vida, que, a meio da noite, na primeira vez que fiz urgências, praticamente sozinho com mais três colegas, cem por cento inexperientes nestas andanças, entrou ao colo da mãe na sala do banco. Vi uma senhora, nova, simples, ar triste, que me colocou nas mãos o filho, porque estava doente e não respirava. Recebi-o, olhei-o e vi um anjo com fácies azulada. Toquei-lhe e confirmei o que os olhos já tinham previsto. Não tinha sinais de vida. A mãe olhou-me e vi um derradeiro apelo para que lhe reativasse o sopro da vida. Defraudei-lhe a esperança e, gentilmente, coloquei-o nos seus braços, cobri-o com a mantinha e disse-lhe para o levar. Foi-se embora. Os meus colegas que estavam a passar pelas brasas perguntaram-me o que é que se estava a passar. Nada, respondi. Depois conto. Nunca lhes contei.
Agora, numa madrugada, em que a passarada costuma já estar desperta e agitada para iniciar um novo dia, não a ouvi. A morte ensurdeceu-me com o seu silêncio. Mais uma vez vi, toquei, senti e vivi a morte, mas sem qualquer receio. Quando estou a seu lado fico, estranhamente, tranquilo e sou invadido por uma onda de paz. Passadas poucas horas recebi uma mensagem, um poema de Cummings: “penetra nenhum (silêncio é o sangue cuja carne canta) silêncio: que não seja canto. Em espetral tão vasta esta quietude, uma folha morta movendo-se é um clamor”.
Um dia hei de deixar de ter medo da morte...

Tem dias!...

A culpa da crise tem dias.
Às segundas e terças, a culpa é dos especuladores.
Às quarta e quintas, a culpa é da Alemanha e da Senhora Merkel.
Às sextas, sábados e domingos, a culpa é da crise internacional.
E, todos os dias, a culpa é do PSD.
Sócrates, Teixeira dos Santos e todos os Silvas, Pereira, Santos e Vieira e nunca existiram.
Para eles a culpa não tem dias!...

Lua Grande no Dia do Pai


É lindíssimo olhar o céu numa noite limpa, cheia de estrelas e com a lua a brilhar. No campo, longe dos candeeiros brancos de luz estridente e do bulício que nos prende ao concreto, podemos ficar a olhar o céu durante muito tempo, até o silêncio se deixar ouvir e a abóbada celeste nos envolver no seu esplendor. É incrível como o céu cresce, se alarga e aproxima até tudo desaparecer à nossa volta e nos encontrarmos de repente perdidos naquela imensidão sem caminhos, numa espécie de levitação entre as estrelas, a passar entre elas devagarinho, pé ante pé, para não lhes perturbar a ordem e a quietude cintilante.
Quem me ensinou essa magia de passear entre as estrelas foi o meu pai, sempre fascinado e curioso por esse abismo de mundos que o homem tenta decifrar com os seus telescópios imensos, com estudos, matemáticas e cálculos infinitos, de onde em onde um sobressalto haverá vida noutros planetas, e só houver como será?
Era ele o guia desse exercício de levitação, olha até não veres mais nada senão o céu, mergulhamos nele como no mar, e depois, pai, não nos perdemos, parece tudo igual! As estrelas misturam-se à nossa volta, de repente são milhares, pontilhados minúsculos e caóticos, aqui e ali há uma que parece porto seguro, talvez se nos fixarmos nelas…Deixa, não pares aí, essas não têm graça nenhuma, são sozinhas, se olhares mais longe com atenção vês as formas, um trapézio, um W, um bule, a auto estrada da Via Láctea, procura, procura… Distraíamo-nos no passeio até que passava por nós a correr uma estrela cadente, o primeiro que a visse dizia faz um desejo, faz um desejo!, apanhávamos a boleia e num instantinho voltávamos a casa.
Hoje foi dia de Lua Grande, a maior em 20 anos, fiquei a olhá-la no silêncio do campo ali quase ao alcance da minha mão, lá estavam os olhos, o nariz e a boca, hoje está a rir-se, pai, parece mesmo que quer falar, isso é a tua imaginação, diria ele, só a vês melhor porque a órbita é em forma de elipse e está agora no ponto mais próximo da terra, é o perigeu, quando está no oposto é o apogeu, não te lembras?
Linda!, a Lua Grande, a rir-se tão perto e a iluminar tão intensamente o Dia do Pai.

sábado, 19 de março de 2011

Um 1º Ministro pró-forma

Afinal, Sócrates escreveu o que Teixeira dos Santos afirmou, Sócrates reafirmou, Costa negou, Sócrates reajustou , Silva Pereira adaptou, e a maioria dos ministros nunca pescou.
Em cartas para o BCE e para a Comissão Europeia, Sócrates comprometeu-se a aplicar as medidas de austeridade anunciadas na manhã de sexta-feira, dia 11.
Que, perante a reacção geral, logo Sócrates transformou em «cartas pró-forma», meras «formalidades normais».
Enfim, um governo pró-forma, um 1º ministro pró-forma, um ministro das finanças pró-forma, mais um PEC pró-forma. Lógico e natural. Para eles, o interesse pelos cidadãos e pelo país é um mero pró-forma.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O cordeiro pascal


Cordeiro Pascal de Josefa de Óbidos

Não é extraordinária a declaração de ontem de António Costa no Quadratura do Círculo da SIC sobre o ainda ministro das finanças e a apresentação do PEC IV. Que a crítica que fez ao seu colega de partido é certeira, disso não há dúvidas. Que constitui uma manobra para encobrir o principal responsável, só os mais distraídos ou ingénuos é que não reparam.
Costa disse que o discurso do ministro das finanças da passada 6ª feira ficará na história como a mais "desastrada e desastrosa comunicação política que alguma vez foi feita em Portugal, se não mesmo no hemisfério norte". Não sei porque excluiu o hemisfério sul. O que sei é que em tempos de Quaresma, este episódio traz-nos à lembrança o Antigo Testamento. A Páscoa era então celebrada com pão ázimo, sensaborão, sem vestígio de fermento, como o pão que este governo amassa. E com o sacrifício de um cordeiro. Creio bem que para manter a aliança com o seus deus menor, o povo do PS já escolheu o seu cordeiro pascal. Tem nome: Fernando Teixeira dos Santos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Bom rating










Ao contrário do rating da República de Sócrates, o rating dos clubes atingiu notação máxima.

E não há especuladores internacionais que lhes resistam.



O discurso encantatório...

... é o título do artigo de opinião da jornalista Helena Matos no Público de hoje.
Um retrato muito lúcido e desassombrado do Primeiro-Ministro e do Governo que temos.
A não perder!

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
(...)



Fernando Pessoa

quarta-feira, 16 de março de 2011

A desfocada visão do Secretário de Estado

O Secretário de Estado do Tesouro atribuiu a subida das taxas de juro ao facto do PSD recusar aceitar o PEC IV.
Penso que o Secretário de Estado é curto de vistas e não tem capacidade de análise.
É que o PSD aceitou o PEC I, o PEC II e o PEC III e as taxas de juro foram subindo sempre.
A culpa tem sido sempre toda, e só, do PSD.
Pobre Secretário de Estado, com visão tão desfocada. Só agora viu que a culpa é do PSD!...

Democracia suspensa

E se a oposição não criar condições para viabilizar o novo PEC e isso conduzir a um pedido de auxílio a Bruxelas e ao FMI, teremos de responsabilizar os responsáveis”.
Teixeira dos Santos, hoje, na A.R.
"Crise política pode resultar na ruptura quase imediata do financiamento do país".
Silva Pereira, hoje, em conferência, na Assembleia da República.
Ora aí está a mais acabada teoria política de conservação do poder: quanto pior for o caos, mais difícil correr com o Governo que o originou. Porque o caos se agravaria. Porque se correria o risco de implosão.
Para evitar a implosão, paralisa-se a acção partidária e suspende-se a democracia. Deixando o Governo à rédea solta para potenciar um novo caos de valor superlativo. O que dificultaria, ainda mais, a substituição do Governo.
De caos em caos, o Governo tornar-se-ia insubstituível: um verdadeiro golpe de estado.
Justificável, porque sem ele a desgraça seria ainda maior.
Maquiavel era um aprendiz.

Olhar enigmático

Considerá-la como uma mulher bela seria um exagero, logo, porque o nariz, pequeno e ligeiramente arrebitado, chama de imediato a atenção, e como o raio do apêndice é uma peça central na definição da beleza, tive de a passar para a categoria de interessante.
Olhando para a sua estrutura reparo que mantém, com toda a certeza, um velho hábito: pavonear feminilidade. Curvas um pouco alteradas por gorduras meio demenciadas, que já não sabem encontrar o lugar devido, coisas da idade a que, também, não são alheias.
O cabelo, curto, bem cuidado, e tingido de amarelo, contrasta com a face redonda e morena, a querer manter, teimosamente, traços de adolescente.
Veste bem, com elegância, sem exageros, o suficiente para realçar formas e gestos meio teatralizados. Inteligente, e determinada, sabe, como ninguém, combinar estes atributos com a forma de se exprimir, fácil, mas um pouco intimidatória, talvez devido à sua formação e prática profissional. Portadora de uma voz suave e forte, mas não demasiado alta, não consegue esconder ânsia de confronto e fome de argumentar.
Conheço-a há algum tempo, do tempo em que as formas eram mais puras, mais próximas da idade de ouro. Nessa altura, não me foi difícil ver que se tratava de uma senhora um pouco complicada. Reparei que estava perante alguém permanentemente atenta a tudo o que dizia, fazia ou comentava com o objetivo de rebater e contra-argumentar, uma necessidade fisiológica que poderia ser bastante inconveniente na relação médico-doente. Confesso que, sempre que a via, não me sentia seguro, nem confortável, coisas que o seu aspeto e elegância não conseguiam minimizar.
Deixei de a ver, no consultório, o que me aliviou e entristeceu, mas à distância conseguia vê-la com muita facilidade. Com o tempo, reparei num alargamento do seu tronco, o qual atribuí a fenómenos fisiológicos próprios da idade. Agora, mais elegante, voltou e contou-me toda a história clínica, périplos laboratorial e imagiológicos muito sofisticados. Não consegue que os médicos lhe digam quais as razões do seu problema, afirmando que alguns, muito considerados, nunca observaram nada semelhante. Ao dizer isso, ainda tive vontade de lhe dizer que o seu caso seria muito apropriado a um milagre. Mas ai de mim se tivesse dito algo nesse sentido. Mantive toda a serenidade possível, sempre à custa de uma entropia negativa, que sentia estar a esgotar as minhas pobres reservas mentais. Mantive o diálogo por baixo, dando-lhe todo o palco, limitando-me ao essencial. Tenho a certeza de que não estaria à espera da minha reação. Nunca foi inconveniente, sempre educada, mas com os olhos abertos e ouvidos atentos para qualquer comentário que pudesse produzir. Numa semana vi a senhora duas vezes, por motivos distintos. No entanto, voltou ao tema e desafiou-me: - Sabe, eu vou descobrir o que me aconteceu. Não acredita? Pois pode ter a certeza de que vou. Foi então que deixou escapar uma frase que eu aproveitei logo para comentar. - Acha que houve alguém que lhe fez mal? Não respondeu. Quanto às técnicas que queria utilizar, disse-lhe que, passado todo este tempo, era impossível. Entendi, tarde demais, que não lhe devia ter dito nada, porque passou a ditar as regras do jogo e eu, para me defender, tive de ripostar que, face à ausência de todos os elementos do seu historial, não podia sugerir rigorosamente nada. Compreendeu, ou fingiu que compreendeu, porque ao sair reafirmou, em tom de desafio, que iria descobrir o que é que lhe tinha acontecido, apesar de todos os exames serem negativos. Não disse uma única palavra, porque estava a escrever qualquer coisa. Interrompi a tarefa e vi-a no corredor, a fechar a porta. Foi então que reparei no seu olhar apontado na minha direção. Que olhar mais estranho! Um olhar enigmático. Estaria à espera que alimentasse a sua determinação? Não sei, mas confesso que me perturbou...

Chumbar PEC-IV é "empurrar o País para a ajuda externa"?!

1.O responsável pela pasta das Finanças terá afirmado hoje, entre outras declarações de muito discutível fundamento, que chumbar o decantado “PEC IV” seria empurrar o País para a ajuda externa...
2.Ao ler isto interrogo-me onde é que terão andado os responsáveis governamentais para só agora se lembrarem do perigo da ajuda externa, tendo mantido rigoroso silêncio quando, já em 2010, o País começou a depender, de forma vital, da ajuda externa do BCE...
3.Terão os nossos responsáveis governamentais a noção do que aconteceria à economia portuguesa se o BCE retirasse o apoio que tem vindo a prestar aos bancos portugueses, a ponto de ter sido a principal fonte de financiamento dos seus balanços nos últimos 12 meses?
4.Terão os responsáveis governamentais a noção de que isso representaria a implosão da economia e, só a título de exemplo, o disparo da taxa de desemprego para valores superiores a 20%?
5.Terão também os nossos responsáveis governamentais a noção do que aconteceria às taxas de juro exigidas à República Portuguesa para a colocação de dívida se o mesmo BCE decidisse recolocar no mercado, ainda que docemente, a carteira de títulos da dívida pública portuguesa?
6.Os responsáveis governamentais já se imaginaram a pagar juros a taxas superiores a 10%, mesmo na dívida de curto prazo - que é o que sucederia se o BCE alienasse a carteira de títulos portugueses que devotadamente acumulou nos últimos meses, quando resolveu conceder-nos uma preciosa ajuda externa?
7.E já imaginaram sequer o que sucederia se essas duas ajudas externas cessassem em simultâneo?
8.É caso para perguntar em que Planeta têm vivido os responsáveis governamentais para serem capazes de afirmar que sem o PEC IV seremos empurrados para a ajuda externa - quando a realidade pura e dura é a nossa actual e plena dependência da ajuda externa...
9....Será em Plutão como tem sugerido o nosso ilustre comentador João?
10.E perguntar em que Planeta têm vivido até será uma forma muito suave de colocar o problema, uma vez que ameaçarem com o fantasma da ajuda externa, nesta altura dos acontecimentos, equivale a tratar-nos como idiotas “profundos”...e justificaria, por isso, um comentário bem mais animoso...

Lições do frio

Em artigo publicado recentemente, o investigador Anders Aslund , do Peterson Institute (EUA), sumaria as principais conclusões do seu livro “The Last Shall Be the First: The East European Financial Crisis” onde descreve a queda e ascensão das economias bálticas na crise de 2007-2009. Rendido à eficácia do plano de superação da crise dos países bálticos, Aslund retira algumas lições da experiência do Báltico para os países da “periferia” da UEM. Pela relevância que o tema tem para Portugal, achei interessante sumariar o referido artigo.

Os países bálticos foram os mais afectados pela crise financeira, com quedas do PIB acumuladas de 25%, no caso da Letónia e de 17%, nos casos da Estónia e da Lituânia. Em 2010, os três países exibiram crescimento económico robusto, alicerçado nas exportações. Todos eles procederam a cortes salariais transversais à economia, que no caso da Lituânia, em 2009, ascenderam a 28%; todos eles aplicaram violentos cortes na despesa pública sem grande perda aparente na qualidade final dos serviços públicos. A sua estrutura fiscal sui generis - de impostos sobre o rendimento baixos e de taxa única - foi mantida. Nenhum deles efectuou qualquer desvalorização cambial, o que para pequenas economias abertas que são, implicaria um aumento intolerável dos custos de produção. A vital recuperação da competitividade foi garantida pela “depreciação interna” que resultou da redução dos salários, manutenção de impostos baixos e do aumento da produtividade promovido pelas reformas estruturais. Segundo Aslund, a instabilidade política (na acepção eleitoral e não social do termo) que abundou nos países bálticos no apogeu da crise, foi fundamental para encontrar e promover os executivos mais bem preparados para implementar a políticas necessárias – por mais “radicais” que estas fossem considerados pelo status quo. As tensões sociais foram mínimas, pelo que o autor conclui que os eleitores, uma vez convencidos da seriedade da situação, percebem a necessidade de mudança – por custosa que se venha a revelar – e que a “crise” política pode ser uma benção no sentido em que possibilita a mudança.


Admitindo como boas as “lições” dos países bálticos, como é que elas se aplicariam à realidade portuguesa?

i) Forte redução da despesa pública, com particular incidência sobre a massa salarial de todos os níveis do estado, incluindo o seu sector empresarial. Como a redução dos vencimentos já foi implementada, faltava “somente” proceder a uma racionalização rigorosa da máquina do estado, o que certamente libertaria muitos “postos de trabalho” - amiúde muito onerosos mas pouco úteis (a não ser aos seus detentores) -, para além de promover um aumento da eficiência da máquina do estado;
ii) Flexibilização do mercado de trabalho e do sistema fiscal por forma permitir fechar o hiato entre custos de trabalho e produtividade das empresas portuguesas; hiato que, variando imensamente de sector para sector, no agregado não deverá exceder os 10%;
iii) Last but not least, mudança de governo, de políticas, de estilo, reflectindo a incapacidade da equipa governativa que nos trouxe até esta situação, dela nos retirar. Neste ângulo, os desenvolvimentos mais recentes da vida política nacional são animadores.


Nota: A Estónia integrou o clube do euro, no princípio do ano e a Letónia, depois da intervenção do FMI, viu a notação da sua dívida pública ser, esta semana, melhorada por duas agências de ratings: S&P e Fitch.