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terça-feira, 31 de maio de 2011

Notáveis declarações do PM e a inferência estatística...

1.Duas notáveis proclamações do PM em exercício, hoje proferidas salvo erro, revelam-nos a sua costela de grande estadista, em plena forma, pronto para assumir todas as suas responsabilidades e nunca enganar cidadãos, como desde antanho nos habituou...
2.Essas declarações são: “O PSD sempre desejou que a Troika viesse para Portugal” e “Não haverá novas medidas de austeridade”...
3.Quanto à primeira, parece-me perfeitamente dispensável saber se o PSD desejou ou não desejou que a dita Troika “viesse para Portugal”.
4.Podemos até admitir que sim, que o PSD desejava ardentemente (salvo seja) que a Troika “viesse para Portugal”...
5.Mas, cabe perguntar: seria a Troika tão sensível aos desejos do PSD que só por isso ou sobretudo por isso tomasse a decisão de “vir para Portugal”, como o PM claramente sugere com esta preciosa tirada de “bom português”?
6.Não houve nenhuma razão objectiva, nenhum dado económico e financeiro que tivesse determinado essa visita?
7.O que nós sabemos é que tanto o BdeP como o FMI, como já neste espaço de opinião tive oportunidade de mostrar, divulgaram versões totalmente opostas às do PM quanto às razões do pedido de ajuda externa e da “vinda da Troika para Portugal” - e em caso nenhum esse ardente desejo do PSD aparece mencionado...
8. Coitado do PSD e dos seus desejos, só mesmo o PM lhes dá importância!
9. No tocante à promessa de que “Não haverá mais medidas de austeridade”, cabe dizer que ela é pelo menos surpreendente...pois todos tínhamos ficado convencidos, após a apresentação que o mesmo PM fez do acordo que celebrou (de olhos vendados, é certo) com a Troika, que este acordo não implicava quaisquer medidas de austeridade!
10.Esta segunda declaração do PM, para além de outro tipo de comentários que não cabem neste espaço, só nos permite legitimamente uma conclusão: de que vamos ter mesmo mais medidas de austeridade para além das contempladas neste acordo com a Troika...
11.Lamento certamente a conclusão, mas é apenas uma questão de inferência estatística, feita a partir de N declarações do PM contendo N outras promessas...

Argumentação patética. E pateta

Nunca ouvi apelo tão patético. Então Passos Coelho apela ao voto dos socialistas para pôr em causa o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, a proibição do despedimento individual sem justa causa?”.
José Sócrates, num comício em Almada


Argumentação rasteira.
À boa maneira pidesca e inquisitorial, Sócrates inventa intenções, para depois as criticar. O argumento dos fracos e a arma de quem não sabe o que dizer.

Porque Sócrates já nada tem para dizer. Patético e rasteiro!

"O pepino mata!"

Surtos epidémicos provocados pela Escherichia coli O157:H7 enterohemorrágica têm sido descritos ao longo do tempo, assim como muitos casos esporádicos. Agora a comunicação social descobriu uma “pepinada dos diabos!” E já começou a fazer a sua saladinha. Abertura de telejornais e entrevistas ao pessoal das alfaces, dos tomates e de muito vegetais nas diferentes praças. – Mas tem a certeza de que são nacionais? – São sim senhora, porque eu sei onde os compro. – São nossos, pois claro, eu como-os e não me fazem mal. E a conversa meio apatetada conduzida pela jornalista alia-se ao dramatismo do pivot que fala da bactéria mortal como se fosse o próximo fim do mundo. E se estivessem calados? Ou, então, se falassem menos, transmitindo a informação como deve ser, sem aquele alarmismo que os caracteriza? Seria muito melhor para todos, deixando aos entendidos na matéria a realização dos estudos necessários destinados a avaliar a cadeia epidemiológica do surto. Mas não, sempre que descobrem uma fonte de problemas saltam logo em cima pintando-os com as mais terríveis cores. Claro que os técnicos e políticos ao serem interpelados pela comunicação social sobre o assunto começam logo a encolher-se despejando algumas banalidades e considerações apropriadas para que não venham no futuro a ficar mal no filme. A comunicação social não “comunica” devidamente, gosta mais de alarmar, de provocar o caos, de divulgar a tragédia. Irra! É demais! Outra vez! Mas será que não aprendem e não veem que provocam mais prejuízos do que benefícios.
O pepino mata! O que mata são as formas estúpidas de informação.

Autoridade rasca

Passei ontem à tarde no Rossio, em Lisboa. Transformado numa nojice por meia dúzia de maltrapilhos que nem estudam, nem trabalham, nem, ao menos, se lavam e se entretêm a fazer da Praça uma lixeira. Panos e toldos para abrigar da chuva, roupa solta no chão ou pendurada em cordões, cartazes sem nexo, lixo. Estão lá para exigir nem eles sabem o quê, e exibem cartazes manhosos que nem poupam a estátua.
Tomaram conta do espaço público, anexaram para si um local que é de todos.
Impõem a sua lei e sobrepõem-se à lei do país, com a tolerância total das autoridades, do Governo, da Câmara, do Governo Civil. E são entrevistados pelas televisões e pelos jornais, que transmitem como facto relevante o nada que sai de tais cabeças ocas e ignorantes.
Uma manifestação rasca de meia dúzia de gatos pingados erigidos em vanguarda rasca de não se sabe o quê.
Mas ainda mais rasca é a autoridade que tal permite. O país de Sócrates e de Costa no seu esplendor. Muito valentes nos comícios e entre amigos, cobardolas perante quem, contra a lei, toma conta da praça nobre da cidade. Vão trabalhar, malandros!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Elegia socialista e umas contas de algibeira

O que se faz a um general que saia derrotado de todas as batalhas que trava, ou um gestor que falha todos os objectivos a que se propôs, ou um treinador que seja afastado da corrida ao título, da taça de Portugal e da Liga, e, também, das competições europeias?
Resposta: demite-se.
Este argumento tem sido – e bem – repetidamente invocado por Pedro Passos Coelho. A lógica impõe, de seguida, a seguinte questão:

O que se espera que faça um primeiro-ministro que não cumpre nenhuma das principais bandeiras eleitorais, que desrespeita reiteradamente as instituições democráticas, que utiliza despoticamente os recursos e o poder do estado, que sistematicamente falta com a palavra ao povo que é suposto representar?
Resposta: vitimiza-se, apelo ao medo, lança a discórdia entre diferentes grupos sociais, e cria um novo objectivo absolutamente estratégico e imprescindível para o progresso da pátria, no caso vertente: a sobrevivência do Estado de Providência.

Pouco importa que tal desiderato tenha sido inviabilizado pelo desvario financeiro dos últimos anos; o que interessa é possuir uma “narrativa” que explore a credulidade de um povo à mingua de esperança. Para reforçar a “narrativa” metamorfoseia-se o discurso da determinação e da força numa elegia lamentativa que faz da oposição anátema e do governo vítima. De tão delirante, seria de esperar uma expressiva rejeição da estratégia eleitoral socialista por parte do eleitorado; mas não é isso que predizem as sondagens.

Será, então, que o povo aderiu en masse às promessas quiméricas de José Sócrates? Não me parece! Aliás, o sucesso inequívoco do Banco Alimentar (BA) revela que as pessoas sentem o estado cada vez menos capaz de “intermediar” a sua solidariedade, pelo que preferem fazê-lo directamente ou através de instituições de credibilidade imaculada. O feliz resultado do BA denega, assim, a aderência popular ao logro socialista, algo que, acredito, irá ressoar alto no momento do voto; ao contrário do que vaticinam as sondagens. Até porque, actualmente, existem boas razões para sobrelevar os resultados das sondagens; não por manipulação, mas pela maldição de que enferma a utilização de métodos numéricos a qualquer disciplina social: a impossibilidade de testar a fiabilidade dos modelos em ambiente laboratorial, isto é, expurgados dos complexos efeitos da história.

Os modelos de que resultam as sondagens assentam em correlações históricas, cuja representatividade depende da constância do regime. Qualquer alteração da estrutura social implica falência do modelo, independentemente da sua capacidade preditiva anterior. (Este fenómeno explica o estrondoso falhanço dos modelos económicos na antecipação da crise financeira internacional.) Ora, qualquer observador atento se apercebe que o comportamento político individual está a mudar, em Portugal, como no resto do mundo; para o confirmar, atente-se no que se tem passado nas eleições mais recentes ocorridas nos países desenvolvidos. Daí ser plausível admitir que os resultados das sondagens sejam espúrios.

Se assim for, sobra o juízo analítico de cada qual na tentativa de antecipação do desfecho da contenda de 5 de Junho. Por considerar que o principal objectivo político da maioria dos portugueses é afastar J. Sócrates e que a única forma efectiva de o concretizar é o voto no PSD, eis o meu palpite (de algibeira):
PSD: 41%
PS: 29%
CDS: 10%
Alea jacta est

Vamos lá ter calma!

NO...OOO!!!! YOU CAN`...T!

domingo, 29 de maio de 2011

O mal e a caramunha

Na semana passada, Zapatero perdeu as eleições regionais e municipais espanholas.
Rapidamente soube tirar daí as devidas consequências, desistindo de se candidatar às próximas Legislativas de Março de 2012. E manifestou já o seu apoio ao sucessor, Pérez de Rubalcaba.
Um bom exemplo democrático que Sócrates devia seguir. E uma saída digna, depois de todas as indignidades cometidas.
A última, a de se ter comprometido perante a Troika com dois documentos diferentes, sem dar cavaco aos portugueses. Tendo acordado antecipação de prazos, criando assim dificuldades adicionais ao próximo governo. Onde, por certo, não estará.

O resto virá por acréscimo!

Gosto mais de falar pela positiva, mas Manuela Ferreira Leite, mais uma vez, acertou no alvo: o grande objetivo nestas eleições é que José Sócrates deixe de ser primeiro-ministro.
Tem toda a razão. José Sócrates foi, ele próprio, o maior passivo que Portugal teve que aguentar, pelo menos nos últimos 35 anos. E sendo muito benevolente quanto ao prazo.
Passivo tão grande que continua a inquinar o activo que a todos nos pertence, Portugal, mesmo se reduzido a líder da oposição.
Têm a palavra os socialistas. Como portugueses, também eles, vítimas do enorme passivo socrático. Passado delírio eleitoral, saberão reagir. E afastar quem tanto mal fez a este país.
O resto virá por acréscimo.

Sem ruído

Prazer e tempo

Sexta-feira. Saí para a minha terra um pouco mais tarde do que é habitual por causa de umas aulas programadas para o final da tarde. Uma viagem mais longa do que o esperado, não devido ao trânsito, mas a um desvio forçado e a um cansaço que atraía magneticamente as pálpebras. Não foi preciso encontrar pretextos para descansar, o corpo pedia incessantemente repouso. No silêncio da noite o chiar da rolha fez eco na sala anunciando com alegria o prazer de saborear uma delicada bebida. Foi o que eu fiz. Depositei o líquido escuro na boca como se os meus lábios fossem um conta-gotas de precisão. Com os olhos semicerrados, a respeitar o eletromagnetismo do repouso, analisei o seu efeito, sensação de doce e amargo que se prolongava no tempo misturando-se com agradável queimadura, duas ondas a cavalgarem uma sobre a outra como se tivessem frequências diferentes. Quando o efeito ameaçava desaparecer, realimentava a minha fonte de prazer com mais uma a duas gotas. Um gotejar mecânico a atear o prazer no tempo. Durante esse tempo pensei no prazer e no tempo.
Ouvi a meia hora na torre, uma meia hora qualquer que mais parecia um segundo, uma contração inesperada do tempo a querer roubar-me o prazer. Maldito tempo. Odeia os momentos de volúpia, mas diverte-se no prolongar do infortúnio.
Tempo. Não nos entendemos e nunca iremos entender. Um ódio recíproco, entremeado por algumas tréguas, de curta duração!
À tarde, as aulas maratonas de um curso para o qual se lembraram de me convidar, deviam ter começado às 5 horas, mas já me tinham avisado, e mais do que uma vez, de que não valia a pena chegar a horas. Eu sabia de experiências anteriores, mas não consigo, um quarto de hora antes já estava no posto. Uma questão estrutural, quase que diria mesmo visceral. Depois, apareceram alunos a conta-gotas, quando já tinha iniciado a aula, muito tempo após a hora marcada, para menos de meia dúzia. Agruparam-se por afinidades comportamentais, atentos e interpelativos, descuidados, indiferentes e distantes. Falei de vários problemas e acabei por abordar a dinâmica de certos fenómenos de saúde que têm vida própria e que se alimentam de nós, “ignorando” as nossas intervenções ou deixando algum espaço, curto, para uma eventual ação humana. Concluí que muitos dos nossos males são devidos a “fenómenos” que têm vida própria, às vezes uns verdadeiros monstros, que gozam com as nossas arrogantes pretensões de querer mudar tudo e todos. Exemplifiquei com os diversos tipos de comportamento que estava a observar naquele preciso momento, num laboratório de ciências, sem quaisquer condições, transformado numa sala de aulas. Um curso de pós graduação na área da educação para a saúde! Não deixei de analisar outros comportamentos relacionados com a saúde, muitos dos quais são mais do que previsíveis, não havendo nada ou muito pouco a fazer. Manifestei o meu desejo de deixar de lhes dar importância. No entanto, apraz-me registar a atenção e a dedicação de alguns alunos em perfeito contraste com outros. Quanto à falta de pontualidade, que a grande maioria deve considerar como normal, é um sinal de défice da capacidade organizativa de uma sociedade. Podemos ser brilhantes e muito criativos, mas sem organização valemos pouco ou mesmo nada. Expliquei-lhes isto tudo, porque usaram o tempo contra mim, prolongando a espera numa tortura que queria evitar. O tempo riu-se e cansou-me. Não senti prazer à tarde, mas à noite, lutando contra a agitação do tempo, ainda consegui saborear uma boa bebida no recanto de um espaço perdido, um pequeno prazer diluído numa efémera fração de tempo. Enganei-o momentaneamente ou, então, foi ele que se distraiu, para amanhã me atormentar com mais raiva. Que mais posso esperar?

sábado, 28 de maio de 2011

Culpas e desculpabilização...

Acabo de saber que uma das jovens agressoras e o rapaz autor do vídeo envolvidos no caso de agressão que recentemente chocou a opinião pública ficaram em prisão preventiva. A segunda jovem agressora por ser menor foi encaminhada para um tribunal de menores. O juiz perante a gravidade dos factos decidiu aplicar a medida de coação mais gravosa a estes dois jovens, a prisão preventiva.
Chocante tamanha maldade e crueldade. Foi a violência física e a total incapacidade de defesa da jovem batida a pontapés, foi o prazer de quem lá estava a assistir e a negação de porem cobro à agressão e de socorrerem a vítima, foi a filmagem da cena de telemóvel em punho e a colocação do vídeo nas redes sociais.
Vem sendo hábito no nosso país perante a violência gratuita dos jovens levantarem-se vozes que logo surgem em sua defesa, rotulando-os de vítimas da sociedade, os coitados, apontando a responsabilidade desses seus actos violentos em todas as direcções. A culpa é do Estado, a culpa é da família, a culpa é da escola, a culpa é dos professores, a culpa é das más companhias, a culpa é das televisões, a culpa é das redes sociais e das novas tecnologias, a culpa é da crise. E a culpa é da falta de educação e formação cívica e da falta de autoridade. São muitas culpas e muitas faltas que não deixam de ter uma quota de responsabilidade colectiva, a começar pela culpa de não salvaguardarmos o direito das crianças e dos jovens à educação cívica.
Mas há limites. Não podemos admitir que todas estas culpas desculpem comportamentos criminosos. São jovens que precisam de compreender que na sociedade em que vivem há deveres e obrigações para cumprir, que há regras de conduta para respeitar, que existem leis, que a impunidade não anda à solta. Esperemos que a estes jovens seja dada uma oportunidade de reabilitação.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

As flores de jacarandá...

Não me esqueci das jacarandás. Nunca me canso de as ver, aguardo na Primavera a sua vinda. Lisboa foi de novo presenteada pela natureza. São as flores de jacarandá que em cada ano nos surpreendem. É a beleza da sua extraordinária cor que, aliada às grandes copas carregadas de cachos de flores, nos fazem ganhar um conforto especial. Lisboa fica mais charmosa e encantada. Há um claro benefício estético, aquele que mais facilmente percepcionamos e sentimos…

Relíquia

Abro o jornal, nem sei para quê, um velho hábito, e leio a notícia de mais uma beatificação, uma portuguesa. Parece que as coisas dos milagres estão a mudar por estas bandas. Beatos e santos a nascerem, não como cogumelos, mas como frutos da santidade. Milagres. Milagres, quanto mais milagres mais beatos e santos, e todos na área da saúde, uma verdadeira mina. Dizem que é por causa da fé. Não sei, às tantas até deve ser, mas não me importo muito, ou talvez importe. A descrição da vida destas pessoas revela atos, comportamentos e atributos notáveis e, por isso, deviam dispensar, para poderem obter os tais graus de santidade atribuídas pela instituição, os tais “milagres”. Mas não. São precisos “provas”. Mas para quê estes tipos de provas? Não bastaria o reconhecimento da obra e a dedicação aos demais para poderem obter o estatuto de beato ou de santo? Não compreendo. Já sei que algumas pessoas ao lerem estas reflexões deverão concluir, como é que ele pode compreender se estas coisas são do âmbito da fé? Está bem, mas eu não tenho nada contra a fé, nem posso ter, nem nunca tive, nem nunca irei ter. O que me aflige é a imposição de certas regras, de testemunhos, de provas que não me dizem grande coisa, pois não, voltamos ao mesmo, ao foro da fé,
Há quem acredite em milagres. O conceito de milagre é muito curioso, alberga tanta coisa fabricada à medida dos interessados e dos interesses. É preciso um para se ser beato e depois um segundo para ser graduado em santo. Chegados aqui, esmorecem os milagres. Mesmo que os titulares dos novos cargos continuem a realizá-los, deixam de ser relatados. Deviam ser noticiados. Devia haver mesmo uma atualização curricular dos milagres de quando em vez, para saber se continuam a fazê-los ou não. Não conheço nenhum que tenha sido despromovido por não continuar a miracular. Uma espécie de recertificação que deveria ser feita de tempos a tempos. Controlo de qualidade. Já estou a imaginar as críticas às minhas palavras. Críticas e epítetos pouco satisfatórios, que não me incomodam, pela simples razão de que não pretendo ofender os que têm fé, mas somente fazer algumas observações quanto aos “processos”, nada mais.
A novel beata, portuguesa, tem um currículo notável como benfeitora e humanista, não precisando de nenhum milagre para ser reconhecida a sua “santidade”. No processo de beatificação, que decorreu num estádio de futebol, outro tipo de templo, chamou-me a atenção a presença de uma relíquia da senhora, uma falange! Mas como é possível? Relíquias? Partes do corpo? O que terá aquele pedaço de osso de importante? A fé necessita de restos de pessoas para se manifestar? A fé precisa de matéria orgânica? Que raio de fenómeno é este? A espiritualidade necessita de matéria para se expressar em toda a sua plenitude? Uma falange? Ainda bem que não restam quaisquer vísceras da senhora, se não acabariam por andar a passear ou cair em qualquer altar. Já agora gostaria de saber onde é que foram buscar a falange! Há aqui qualquer coisa que não bate certo, ou talvez bata, se olharmos para os nossos antepassados, ou para os povos primitivos que sacralizam certos objetos, ou restos humanos, verificamos uma notável identidade.
Nada muda, apenas se transformam usando novas roupagens.
Isto, afinal, nunca mudou, nem vai mudar e continuamos com milagres só na área da saúde, porque onde eram mesmo precisos nem vê-los ou cheirá-los! Era bom, era, mas só com muito trabalho, dedicação, empenho e sacrifício é que se consegue fazer os verdadeiros “milagres”, sem necessidade de recorrer a falanges para manter a “fé” na mudança para um mundo melhor e mais justo.

Eleições: 10 questões fundamentais

Estamos em plena campanha eleitoral, a pouco mais de uma semana das eleições legislativas antecipadas, já foram realizados todos os debates agendados, e as sondagens continuam a não mostrar uma tendência de vota-ção mais vincada num dos dois únicos Partidos cujos líderes podem realmente aspirar a ser Primeiro-Ministro (PM): José Sócrates pelo PS e Pedro Passos Coelho pelo PSD. Neste contexto, entendi ser útil colocar e responder (de acordo, claro está, com a minha opinião) a 10 questões que considero fundamentais sobre o passado recente e o futuro de Portugal. Ei-las nas linhas que se seguem.

1. Quem é o PM cujo trabalho está a ser avaliado nestas eleições? José Sócrates é PM há mais de 6 anos, tendo liderado dois governos socialistas. É a sua acção que irá ser julgada neste acto eleitoral.

2. Como evoluiu a economia portuguesa durante a governação deste PM? Como as estatísticas mostram (1) , nos últimos 6 anos: Portugal empobreceu face à média europeia; perdeu competitividade; o número de desempregados cresceu 65%, registando consecutivos (e tristes) novos máximos e aproximando-se de 700 mil (!) indivíduos; a poupança nacional (em proporção do PIB) diminuiu cerca de 40%; apesar dos bru-tais aumentos de impostos, o valor do défice público mais que duplicou face à riqueza nacional; a despesa pública disparou (tendo ultrapassado 50% do PIB pela primeira vez em 2010); a dívida externa líquida e a dívida pública quase dobraram e atingiram os maiores valores de sempre. E se não tivesse havido o recente pedido de ajuda financeira externa, a insolvência seria inevitável (pela primeira vez desde 1892).

3. Não foi a crise internacional a responsável pela deterioração da situação financeira e económica de Portugal? As estatísticas também mostram que já em 2007/2008 – antes, portanto, dos efeitos da crise internacional – o empobrecimento relativo era real, bem como o aumento do desemprego, da dívida externa e da dívida pública, a perda de competitividade, a queda da poupança. E, durante o consulado de Sócrates, em todos os anos o défice público foi superior ao limite de 3% do PIB fixado no Pacto de Estabilidade e Crescimento. A crise internacional apenas apressou a catástrofe financeira, económica e social que vivemos – mas antes dela já o desgoverno era bem visível. Aliás, mesmo agora, com o PIB europeu a crescer, em média, quase 2% ao ano, Portugal deverá ser, em 2011/2012, o único país da UE em recessão.

4. Por que tivemos 4 versões do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) num ano (de Março de 2010 a Março de 2011)? Em Março/Abril de cada ano os países da União Europeia devem entregar uma actualização do PEC em Bruxelas, em que são reveladas as grandes linhas da política económica e os objectivos orçamentais para 4 anos. O PEC apresentado em Março de 2010 (o chamado PEC-1) não foi con-vincente, tendo-se sucedido novas versões para, supostamente, o endividamento público ser reduzido mais depressa: o PEC-2 (Maio de 2010), o PEC-3 (Setembro de 2010), e o PEC-4 (Março último, a única actuali-zação que devia ter acontecido depois de Março de 2010). Em todos estes Programas os objectivos orça-mentais eram os definidos no PEC-2, mas as medidas de austeridade foram-se somando – comprovando o total fracasso na concretização dos planos anunciados.

5. Por que razão foi reprovado o chamado PEC-4 no Parlamento? O PEC-2 desactualizou o PEC-1, o PEC-3 representou o fracasso do PEC 2, e o PEC-4 significou o fiasco dos anteriores… Ao ritmo do último ano, antes do Verão ter-se-ia um PEC-5 e, pelo Outono, certamente um PEC-6. Lá diz o povo: “1 é pouco, 2 é bom, 3 é demais”. Ora, no PEC só o 4 foi reprovado, tendo o PSD viabilizado todos os anteriores (bem como os Orçamentos do Estado para 2010 e 2011). Logo, se de alguma coisa o maior Partido da Oposição pode ser acusado, é de ter sido demasiado paciente e compreensivo com quem não o merecia.

6. Não podia (ou devia) Portugal ter pedido ajuda externa antes de Abril? Sim, podia e devia. E não o fez devido apenas à teimosia do PM. O Ministro das Finanças foi claro quando, no início de Outubro de 2010, definiu 7% como o nível de taxas de juro da dívida pública a 10 anos a partir do qual deixaria de ser sustentável o Estado Português financiar-se nos mercados. Ora, aquele patamar de juros foi ultrapassado irreversivelmente em meados de Janeiro deste ano, com custos de financiamento crescentes e excessivos que podiam ter sido evitados se um pedido de ajuda tivesse sido feito por essa altura.

7. Foi a reprovação do PEC-4 que levou ao pedido de ajuda financeira externa? Não. Como já se referiu, o PEC-4 foi reprovado porque o Governo fracassou na concretização de todos os anteriores quando lhe tinham sido dadas, pelo PSD, todas as condições para o fazer. Perante tamanha incapacidade, há uma altura em que é preciso dizer “basta!”. Portugal não podia continuar a ir de PEC em PEC até… sabe-se lá onde. E, como se viu, já em Janeiro último a ajuda externa devia ter sido requerida.

8. Atendendo ao facto de os objectivos definidos até 2014 no Memorandum of Understanding (MoU) elaborado pela Missão de BCE/CE/FMI, terem que ser cumpridos independentemente da cor política do próximo Governo, será indiferente quem ganha as eleições? Não. Os objectivos definidos no MoU têm (para nosso bem!...) que ser atingidos – mas a forma de o fazer pode ainda ser cali-brada e manobrada com alguma (embora reduzida) margem pelo próximo Governo.

9. Será quem conduziu os destinos de Portugal até ao ponto em que nos encontramos, capaz de nos tirar desta situação? As respostas às perguntas anteriores são esclarecedoras: é mais fácil acreditar no Pai Natal do que nessa possibilidade…

10. Em quem se deve, então, votar em 5 de Junho próximo? Deixemo-nos de fantasias: quem não quer ver José Sócrates novamente à frente do país e quer realmente aspirar a ultrapassar os (terríveis) obstáculos que Portugal enfrenta, só pode votar no PSD e em Pedro Passos Coelho. Quaisquer outras intenções, por mais estimáveis que sejam, representarão, neste sentido, um desperdício.


(1) Ver, por exemplo, o texto que escrevi e que foi publicado no passado dia 12 de Abril de 2011 no Jornal de Negócios, intitulado “O Orgulho (!?) de Sócrates”.


Nota: Este texto foi publicado no jornal Sol em Maio 27, 2011.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O choque de Sócrates

Ora vejam, que Sócrates está chocado!...

Com o maior desemprego de sempre? Não!
Com a maior dívida pública de sempre, que dinamizou até não mais poder? Não!
Com o facto de Portugal ser o único país da Europa, e um dos quatro ou cinco do mundo, que não cresce? Não!
Com a maior carga fiscal da Europa, que faz suportar aos portugueses? Não!
Com os seus discursos de mentira sobre o Programa do PSD? Não!
Com a contratação de imigrantes estrangeiros, indianos e paquistaneses, para decorar os comícios do PS? Não!
Com a mentira das contas públicas, sonegando despesas para melhorar o saldo orçamental? Não!
Com o processo de intenções, à boa maneira inquisitorial, que constantemente faz do Programa do PSD e das palavras dos seus dirigentes, criticando o que não está lá ou que eles nunca disseram? Não!
De facto, isso choca-nos a nós. Porque Sócrates está orgulhoso do que faz.
E, quer-me parecer, já nem consciência tem do que diz.

Propaganda negra!

A sondagem de ontem da Universidade Católica dava empate ao PSD e PS, mas incluía também uma série questões cuja resposta obtida é completamente contraditória com o resultado da sondagem. O que é revelador do “non sense” colectivo em que caímos.
Para 77% dos inquiridos, o Governo é mau ( 37%) ou muito mau (40%).
Para 43% dos inquiridos, Passos Coelho é o líder em que mais confiam (Sócrates, 34%).
Passos Coelho lidera o Partido que, segundo os inquiridos, tem as melhores propostas para a economia (23%), mais que o PS(17%).
Já para os inquiridos, Sócrates é quem apresenta melhores propostas, no campo da Educação (20%, contra 16% do PSD), na Saúde ( 20%, contra 17% do PSD) ou na Segurança Social (18% contra 17% do PSD ).
Em síntese, a maioria dos inquiridos considera o Governo Mau ou Muito Mau, confia mais em Passos Coelho do que em Sócrates, considera que Passos Coelho tem as melhores propostas para a economia, mas vota em Sócrates, pelos vistos por causa da saúde, da educação e da segurança social. Como se estas áreas fossem autónomas e não dependessem da economia. Economia que Sócrates destruiu e, com ela, muito do Estado Social. O que os levou a considerar o Governo como Mau ou Muito Mau e a não confiarem no seu líder. Mas votam nele da mesma forma que votam em quem confiam!
Um “non sense” completo, só explicável pela propaganda negra que Sócrates injecta no povo. Hora a hora. E sem contemplações de qualquer espécie.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Jornal Especial Sondagens

Abrimos este Jornal Especial Sondagens com a notícia de que a campanha eleitoral entrou agora numa fase renhida, com as empresas de sondagens a disputar palmo a palmo os votos dos eleitores. A decisão, como se sabe, irá recair sobre aquela que mais vezes, ao longo da campanha eleitoral, tenha conseguido acertar na ordem de preferências que os cidadãos vão manifestar sobre os objectos de estudo, a saber, a opinião dos portugueses sobre os Partidos Políticos que se candidataram ao Governo do País. Em primeiro lugar, até ao momento, a preferência dos eleitores vai para a empresa que, não tendo acertado em cheio nos estudos de opinião efectuados nas últimas eleições, propõe no entanto um ranking inovador, capaz de rasgar os novos horizontes da sondologia do futuro. Por outro lado, a empresa que repetidamente insistiu em apresentar conclusões que vieram a revelar-se ser completamente erradas, mesmo à boca das urnas, faz um esforço para recuperar a credibilidade, jurando que usou sempre as mais modernas técnicas de aferição de opiniões e não teve culpa nenhuma que os critérios de decisão dos indecisos tivessem mudado a meio do jogo.
Há ainda a considerar a forte contestação de algumas das estações de rádio até agora afastadas das parcerias empresas/universidades/comunicação social, as quais alegam que não é pelo facto de não terem aderido a essas modernices que devem ser afastadas dos tempos de antena, porque também têm uma palavrinha a dizer sobre as opiniões dos cidadãos, quanto mais não seja nos noticiários, que toda a gente sabe que se apoiam em power points. O caso mais aceso é o da rádio que, para levar à reflexão alguns temas manifestamente em desuso, como a mania da ética e outras vulgaridades, usava o slogan “vale a pena pensar nisto”, e que, agora, optou por um marketing agressivo com a nova frase “non è vero ma è bene trovato”, ainda por cima em estrangeiro, como prova de cedência aos ventos da globalização. O novo slogan tem causado furor, por traduzir uma leitura actualista do pensamento mais profundo da política portuguesa. Há ainda o caso da emissora que teima em passar só músicas clássicas dos anos 70, que alega que tem imensa audiência e que não fará concessões à barulheira que toca nos comícios onde se discutem as sondagens e que nem por isso terá menos direito a submeter-se ao vaticínio do eleitorado. Quem parece que não chegará a entrar nos boletins de voto é a estação do fado, não porque não tenha toda a dignidade mas porque, definitivamente, o que se pretende é virar as costas ao passado, mudar de onda, por assim dizer, e um Estado moderno não se constrói de modo nenhum a partir de lamúrias e de amores para sempre, como toda a gente sabe e a legislação comprova.
No entanto, o que poderá decidir o voto é a transparência da informação contida na ficha técnica que acompanha cada sondagem, a qual continua enigmática para os que terão que escolher a empresa líder, quer porque continua em letra miudinha que mal dá para ler no écran, quer porque a senhora que lê em voz alta o que lá está escrito ainda confunde mais, porque tem um ritmo de leitura e uma entoação que faz baralhar a ordem das linhas, não havendo óculos que resistam à dificuldade de decifração.

Liliana e Mariana

No mesmo dia, de tarde...

Tarde rotineira. Entra um senhor com trinta e alguns anos, bem-parecido, mas com a barba por fazer, olhar triste, embora fizesse esforço para mostrar simpatia. Perguntas de rotina, se andava bem de saúde, respondendo logo que não, que tomava um medicamento, porque a mulher tinha falecido há pouco tempo, há seis meses. Mais uma tragédia, pensei. Não resisti e perguntei-lhe qual tinha sido a causa. Cancro, Silenciei-me momentaneamente à espera da localização, olhando-o. Do útero senhor doutor. Que idade tinha a sua mulher? Nova, muito nova, 38 anos. Estive tentado a perguntar-lhe se tinha filhos, mas evitei questioná-lo com receio de que me dissesse que sim e tudo o que isso envolveria para si como fonte de sofrimento e de inquietação para mim. O exame decorreu com normalidade, sem sobressaltos. No final despedimo-nos, e o senhor, ao sair, hesita, pede-me desculpa, perguntando se não me importava de ver uma coisa. Fiquei um pouco perplexo, porque, em termos de saúde, tínhamos chegado a algumas conclusões, inclusive o ter aconselhado a extrair dois nevos que pelas suas características poderiam originar problemas no futuro. Será que se esqueceu de me dizer mais qualquer coisa? Não, não me parece. Foi então, que, sem lhe dizer nada, retirou a carteira do bolso e mostrou-me três fotografias, a da mulher e de duas meninas. O homem deve ter lido o meu pensamento quando quis perguntar se tinha ou não filhos. Duas lindas meninas, uma de seis e a outra de três. Agora, tenho muitos problemas, porque faço de pai e de mãe. Mas a vida tem de continuar, não é senhor doutor? Pois, pois tem, mas não deixa de ser traiçoeira. Como se chamam as meninas? Liliana e Mariana. Sorriu orgulhosamente. Felicidades para as meninas e para si.
Saiu.
Claro que fiquei perturbado. E estou perturbado. Não consigo compreender nem aceitar estas situações. Se escrevesse o que já me passou pela cabeça esta tarde... Enfim, muitas das reflexões ficam comigo, mas há uma ou outra que não vou deixar de expor. Quando dizem que a vida é um dom, que é bela, que é filha da vontade divina, arrepio-me todo. Não. Não pode ser nada disso. E fico ainda mais incomodado quando há quem queira ver coisas “extraordinárias”, como desafios superiores, como caminhos insondáveis e outras maquinações mais adequadas à ficção do que à realidade. Comungo da expressão de Jostein Gaarder, na sua última obra, O Castelo dos Pirenéus, em que, a determinada altura, na troca de e-mails com a sua antiga namorada, que não via há 30 anos, dissertava em nome da razão contra a “espiritualidade” da sua antiga amada, antiga como quem diz, afinal, no fundo ainda permaneciam vivos os velhos laços. Dizia o cientista que as partículas, os átomos, as galáxias, as estrelas e os planetas têm razão de existir, mas a vida e a consciência não passam de “anomalias cósmicas”. Aconteceram por mera causalidade. O conceito de Monod ainda permanece vivo e atual, um acaso que se transformou em necessidade, mas não deixa de ser uma anomalia, só assim se compreende muitas coisas...
Liliana e Mariana....

Moinho de ideias






No mesmo dia, de manhã...

Como é habitual levantei-me cedo, um pouco cansado e não menos desmotivado. Tudo feito na calma certo de que mesmo assim ainda chegaria antes da hora marcada. Foi o que aconteceu, um bom motivo para dar um curto passeio antes de iniciar o trabalho. Soube-me bem. Gosto de sentir a ameaça de calor logo pela manhã, é reconfortante, dá-me a sensação de que o ar e o dia ainda estão limpos, suficientemente limpos para poder confiar nos seres humanos e na natureza, confiança que, ao longo do dia, irá desaparecer como se o novo ser, acabado de nascer, estivesse ameaçado de morte sem ter a possibilidade de saber da existência da noite. Breves momentos em que consigo sentir algum prazer. Dei a volta, ouvi a água a cair, sons tranquilizadores, bebi a frescura e o odor das árvores, viçosas, entumescidas de vida e reparo numa nora que, com uma lentidão precisa, ia espalhando a água na caleira com um toque de desprendimento comovente. Baldinho, atrás de baldinho e a água ia passando do nível inferior para o superior à custa do esforço do próprio percurso,
Curiosa, deixa-se elevar, fugindo ao seu destino, ainda que momentaneamente, para rever o moinho a executar as suas funções.
Um moinho. Sempre gostei de moinhos. Havia um, junto da casa da minha avó, aproveitando as águas da ribeira. Vi-o vezes sem conta a transformar o milho em pó que esbranquiçava não só o espaço interior, mas também o moleiro e quem se atrevesse a lá entrar. Eu entrava e via tudo, a mó, a água, o ruído das pedras a roçarem-se, o falar alto para contrariar os sons de fundo, o moleiro, a mulher, a meterem-se comigo, e o burro, branco, já não sei se de natureza ou pintado pela farinha, à entrada, à espera, pacientemente, da carga, mas não podia ser muita, porque o animal já era conhecido pelos cuidados que tinha com a sua condição. Quando sentia que os sacos eram demasiado pesados, dava sinal de si, zurrava furiosamente, reclamando que dali não sairia se não o aliviassem do tormento. Era burro, mas não era estúpido. Quando o chateavam não estava com meias-medidas, utilizava as patas traseiras num sincronismo tal que tomara muitos pugilistas. Tinha fama, e proveito, de escoicinhar por tudo e por nada, motivo mais do que suficiente para não me aproximar demasiado e nunca pelas traseiras.
Ao olhar para o moinho, verifiquei que estava muito bem preservado e que era de dimensões muito grandes. Além da nora, havia também uma roda a girar rapidamente que devia ou deve acionar os mecanismos. Circundei-o e deparei-me com um mural de azulejos onde se podia ler: O Primeiro Moinho de Papel em Portugal em 1411. Fiz os cálculos e conclui que estava perante um equipamento com 700 anos. Há 700 anos surgiu neste espaço um moinho, não para moer grãos, mas para fabricar papel. Papel, esse elemento precioso que ajudou e ajuda a alimentar o espírito, basta que, para o efeito, o decorem de frases e imagens. Fiquei satisfeito. Moinho de papel, que designação tão bela. Moinhos de vento, moinhos de água, moinhos movidos pelos elementos, mas moinho de papel, movido a água, fez-me pensar que poderia haver também moinhos de ideias. Há tanto espaço a convidar-nos para que possamos transformar pensamentos em belas ideias.
Precisamos de moinhos de ideias, sete séculos depois de ter sido criado o primeiro moinho de papel em Portugal.

Grécia: ou privatiza - já - ou vai para a falência...

1.Acentuam-se os sinais de que a Grécia não vai ter possibilidade de honrar os seus compromisso financeiros, caindo na bancarrota, se medidas drásticas não forem adoptadas...e muito rapidamente.
2.O caminho para evitar tão perturbadora consequência – no BCE havará gente que não dorme há vários dias perante tal perspectiva- é cada vez mais estreito e parece agora passar por uma aceleração de um amplo programa de privatizações que o governo grego se tinha comprometido a iniciar mas que até hoje se mostrou inteiramente incapaz de cumprir tal promessa.
3.Os interesses políticos e corporativos (lá como cá...) parecem estar a sobrepor-se à necessidade de o País assegurar os meios financeiros necessários para honrar os seus compromissos, arriscando uma insolvência de consequências desastrosas.
4.Por isso e também pela relutância com que o BCE tem encarado uma solução de reestruturação da dívida grega – que responsáveis do BCE chegam a apelidar de pesadelo e de poder produzir danos maiores que os da falência do Lehman Brothers – os responsáveis europeus parecem agora inclinados a uma forma original de intervenção no processo de privatizações na Grécia.
5.Concretamente, a ideia será a da criação de uma agência internacional incumbida de conduzir as privatizações, em ordem a por o processo rapidamente em marcha e conseguir as receitas de que o País desesperadamente carece para solver os seus compromissos.
6.Ou seja, as participações nas empresas estatais a privatizar seriam transferidas do Estado grego para um FUNDO gerido pela tal agência internacional, sendo esta por sua vez gerida por “experts” internacionais, incluindo representantes do FMI...
7.Esses activos, uma vez transferidos para o dito FUNDO e enquanto não fossem alienados no mercado, poderiam servir como colateral de empréstimos adicionais que a União Europeia e/ou o FMI venham a ter de conceder à Grécia para evitar o colapso financeiro do País...
8.Enfim, a confusão agrava-se, as taxas de juro não param de subir, a Grécia pelos vistos vai ser posta perante o dilema: ou privatizas, já, ou vais para a falência!
9.Continuemos a seguir os próximos episódios...
10.Por cá, temos a alegria e o privilégio de um PM que, para espanto de muitos - certamente mal informados ou mal intencionados - se prevalece do desconhecimento quase absoluto do documento que assinou com a União Europeia e o FMI, fazendo campanha contra o mesmo quase todos os dias!

Notícias da campanha eleitoral

A sondagem nº 32-B/RTP, saída há apenas 4 minutos já mostra uma diferença substancial da sondagem nº 44-A/UC, publicada há cerca de 1h, sendo visível que os dois maiores partidos se distanciam agora mais 0,5%, Esta evolução vai ser analisada pelo nosso comentador às eleições, o sondólogo J.Manuel, diga lá aos eleitores, como interpreta esta diferença?, será que a influência da sondagem nº 58/TSF, publicada com um intervalo de menos de 30 segundos entre a sondagem nº 27-N/RR, numa clara violação da lei das sondagens expressamente aprovada para apoiar os indecisos nestas importantes eleições nacionais, dizia eu, será que influenciou o sentido de voto dos que ainda não decidiram? Bem, se considerarmos que as 85 sondagens publicadas nos últimos dias já mostraram que os eleitores ainda não conseguiram ver com clareza os objectivos meramente informativos das sondagens, aliás, ilustrativos porque informativos não são, ilustrativos sim, e claro que não pretendem influenciar ninguém, são apenas o resultado de, como o nome diz, sondagens que sondam opiniões sem querer de modo nenhum influenciá-las, dizia eu que não, não me parece, o que a sondagem em causa mostra é que, de minuto a minuto, as opiniões mudam, talvez fosse importante fixar os sondados, quem sabe, proibi-los talvez de responderem à toa, porque isto sai caro, não é para responder o que lhes vem à cabeça, onde é que já se viu, mudar assim 0,5% em poucos minutos. Muito obrigada, Prof. Sondólogo, vamos agora ao sociólogo C. Joaquim, como explica que, considerando os blocos de sondagem da série 201, da semana passada, apresentem uma ascensão meteórica do partido que ia em 3º lugar e agora, no bloco 532, desta semana, já tenha havido uma pequena descida desse mesmo a favor do que ia em 4º lugar? Bem, é muito fácil, como todos repararam o lider desse partido engasgou-se ontem no jantar comício, como mostrou a reportagem de campanha, foi um azar, os eleitores não gostam de quem interrompe a conversa para tossir, um azar, já o líder do outro partido escolheu a gravata certa, mostrando um tino muito considerável para o cargo de Primeiro Ministro, isto das massas eleitoras são muito sensíveis às mensagens políticas e as sondagens, claro, espelham isso mesmo, as sensibilidades. Mas, diga-nos, Prof., também parece que a sondagem nº 94-L/TVI vai mostrar um aumento de abstenção, veremos em directo na abertura do próximo telejornal, como explicar o fenómeno? Ah, isso é claro, é que a campanha eleitoral não tem sido esclarecedora, ainda ontem os lideres só falaram das sondagens e cada um diz sua coisa, ele é porque interessa a um que suba, a outro que desça, o truque de fingir empate, já vê, o povo não ouve falar em nada que interesse e depois é claro, não vota. Isto dos políticos que se distanciam tanto do povo, só preocupados com as sondagens!, não dá, um dia destes ainda lançam o descrédito sobre esse importantíssimo instrumento de avaliação da vontade popular, depois queixem-se! Desculpe interromper, caro Prof, vamos já dar em directo os resultados da última sondagem, que nos mostra exactamente que….

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ainda por cima, Sócrates tem orgulho no que fez!

( Clicar, para ampliar o orgulho!)

AJUDA EXTERNA: depois do BdeP, FMI desmente também a tese do PM...e agora?

1.Em Post editado no final da semana passada, procurei mostrar como o BdeP, no seu Relatório Anual, divulgado no dia 19, desmentia em definitivo a peregrina tese do PM segundo a qual a necessidade de recurso à ajuda externa foi motivada pela crise política e pelo chumbo do lamentável PEC 4...
2.O desmentido do BdeP foi claro e bem fundamentado, explicando com rigor e de forma objectiva, como lhe competia, as verdadeiras razões que determinaram o recurso à ajuda externa e que, como se vai tornando cada vez mais claro, não tiveram nada que ver com o PEC 4 chumbado...muito menos com a chamada “crise política” que se lhe seguiu!
3.É agora a vez do FMI confirmar a explicação dada pelo BdeP, num documento em que noticia a aprovação pelo seu Board do “€ 26 Billion Extended Arrangement” para Portugal.
4.Em anexo a esse documento é feita uma breve resenha dos factos que conduziram até ao pedido de ajuda externa, em lado nenhum se encontrando a mais ínfima referência ao chumbo do PEC 4 ou à crise política...esses episódios carnavalescos, aliás muito mal encenados pelo PM apesar da ajuda preciosa do Luís, não fazem parte deste assunto, em definitivo!
5.Citando o texto, para ser mais exacto, “Problemas estruturais persistentes – incluindo baixa produtividade, fraca competitividade e alto endividamento – prejudicaram o crescimento e deram origem a elevados défices externo e das contas públicas”...
6.Continuando, “A melhoria orçamental em 2010 foi marginal, com medidas correctivas adiadas, em parte reflectindo uma fraca capacidade de gestão orçamental. Como resultado, o défice global das Adm. Públicas reduziu-se apenas de 10,1% do PIB em 2009 para 9,1% do PIB em 2010”; “Adicionalmente, o ambicioso objectivo de 4,6% do PIB para 2011 estava também posto em causa”...
7.Concluindo, “Efeitos de contágio e riscos orçamentais provocaram dificuldades de financiamento para a República e para os bancos”...”Neste cenário, as preocupações sobre as perspectivas de crescimento do País e a sustentabilidade da sua dívida externa intensificaram-se nos últimos meses, culminando num pedido de ajuda financeira externa”.
8.Chumbo do PEC 4? Crise política? Nem uma palavra...essas matérias são para o PM e para os seus “yes men” tentarem vender em campanha, ao jeito de “banha de cobra”...não são assuntos que mereçam qualquer tipo de apreciação tanto do BdeP como do FMI.
9. E agora? Cicuta para o FMI como recomendaria o P. Cardão?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Finalmente...

Finalmente, a tradução oficial do memorando de entendimento! Custou, mas foi. Alguém alvitrou que o trabalho ficou retido porque foi preciso ir à procura de verba para o pagar...
Mas falando a sério, é realmente incompreensível como é que um documento desta importância não foi redigido simultaneamente em língua portuguesa. Porque é que somos tão bons nestas falhas?

O Centenário do ISEG

Comemorou-se hoje o centenário do ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão, antes I.S. de Comércio, depois I.S. de Ciências Económicas e Financeiras, a seguir Instituto Superior de Economia e agora ISEG.
Disse hoje o actual Director, Prof. João Duque, na Cerimónia comemorativa do centenário, que no ISEG coabita a diversidade, dos keynesianos aos liberais e neo-liberais.
Acontece que a grande marca da Escola, divulgada por muitos dos seus professores, tornados figuras mediáticas devido ao prestígio da Instituição, tem sido o de um keynesianismo radical. Nos tempos recentes, muitos deles deram o suporte teórico para muitas das más medidas deste Governo. Transpondo de forma automática para a realidade portuguesa pressupostos e princípios que, válidos na Inglaterra ou na Europa há cerca de 80 anos, de forma alguma se poderiam aplicar, aqui e agora.
A elevada dívida pública, a pesadíssima carga fiscal, o baixo nível de poupança, a abertura da economia, entre muitos outros parâmetros, desaconselhavam medidas keynesianas, traduzidas no aumento da despesa ou do investimento público em Grandes Projectos. Que muitos Professores do Quelhas aconselharam ou a que deram suporte teórico.
Um passivo na vida do ISEG. Mas, mesmo com tal delapidação do seu Activo, que todavia não deve esquecer-se, o Capital Próprio do ISEG é altamente positivo, pelos muitos e valiosos activos que deu à Sociedade
Parabéns ao Prof. João Duque. Um Director dos tempos modernos e um Professor aberto às novas ideias. Com ele, o ISEG entra bem no seu segundo século.

Grécia: à beira da implosão financeira?

1.As notícias dos últimos dias dão-nos conta de uma rápida deterioração da situação financeira da Grécia bem como de uma evidente dificuldade da União Europeia em encontrar uma solução para esse problema.
2.O governo grego não foi capaz de apresentar no Parlamento, no prazo a que se tinha comprometido, um pacote de reformas económicas – com destaque para um ambicioso programa de privatizações de empresas e de venda de outros activos - e de medidas de austeridade adicionais a que se tinha comprometido com a U.E. e com o FMI no âmbito do plano de resgate celebrado em Maio do ano passado.
3.Essa incapacidade, a persistir (e não há nenhuma certeza quanto a este ponto) levará ao adiamento dos esperados desembolsos do empréstimo de € 110 mil milhões, concedido por aquelas entidades.
4.No caso das medidas de austeridade, o que está pendente é um 5º programa (PEC-V numa versão aportuguesada), após os 4 anteriores não terem atingido os objectivos pretendidos e de, concretamente, o défice de 2010 ter ficado acima do prometido.
5.Para complicar este cenário, existe uma clara divergência entre a direcção política da U.E. (personificada no ECOFIN e no EUROGRUPO) e o BCE no que se refere à necessidade de reestruturar a dívida grega.
6.Membros destacados do ECOFIN e do EUROGRUPO reconheceram já a quase inevitabilidade de reestruturação da dívida da Grécia – embora apontando para uma reestruturação “soft”, que apelidam de “reprofiling” ou seja apontando para uma reformulação dos prazos da dívida, sem aplicação do famoso e temível “haircut”.
7.O BCE, adepto de uma política de "avestruz", opõe-se ferozamente a essa possibilidade, “ameaçando”, caso isso aconteça, que a dívida da Grécia deixará de ser aceite como colateral nas facilidades de financiamento que mantém para os bancos gregos – ameaça que, a ser concretizada, arrastaria quase inevitavelmente a insolvência dos principais bancos helénicos e, consequentemente, uma situação generalizada de bancarrota no País.
8.Face a estas incertezas, os mercados penalizam naturalmente a dívida da Grécia: as taxas de juro (yields) no mercado secundário, para os prazos de 2 e 3 anos ultrapassam 25%, a taxa da dívida a 10 anos está próxima de 17%...na prática, a Grécia está impossibilitada de se financiar no mercado a não ser em prazos muito curtos, quase à vista...
9.Segundo notícias divulgadas na edição de hoje do F. Times, a situação de tesouraria do governo grego é desesperada, ao ponto de, por exemplo, só ter conseguido pagar 1% do valor da facturação emitida desde o início do ano pela indústria farmacêutica ao SNS helénico, encontrando-se ainda por pagar uma parcela elevada (mais de 50%) da facturação emitida no ano passado...lá como cá, neste particular?
10.Em declarações feitas este fim-de-semana, o 1º Ministro grego afirmava que se a U.E. e o FMI não libertarem rapidamente a próxima tranche do empréstimo, a Grécia entra em colapso financeiro...deixando de ter condições para honrar as suas dívidas financeiras perante o mercado...
11.Quais serão os próximos episódios deste pesadelo? A implosão?

Os Filhos do Dragão

Ai estes são os filhos do Dragão
Unidos para vencer
Ansiosos por fazer
Deste Porto campeão!


Depois de 1987, mais um Ano de Ouro do Dragão: Campeonato, Super-Taça, Liga Europa. E, agora, a Taça de Portugal.

Um clube global, competindo dentro e fora de fronteiras. O clube português com maior número de títulos, desde sempre. A equipa europeia do Século XXI, três Taças Europeias. Centro de decisão nacional. Vitórias no campo desportivo e na economia: um dos maiores exportadores nacionais, em termos líquidos. Vitória da gestão, da organização, da hierarquia, da disciplina. Enfim, do ambiente que propicia o bem-estar e motivação dos treinadores e dos atletas. E faz sobressair as suas enormes qualidades.

Um clube da era da globalização.

Desculpas aos não portistas, mas estas coisas têm que ser comemoradas!

E na hora das comemorações, honra também aos adversários. Sem eles, a vitória não existiria.

domingo, 22 de maio de 2011

A vergonha das novas fronteiras do PS

O caça ao voto do PS atingiu novas fronteiras. Da insentatez e falta de decoro. Já não convencendo os portugueses, passou a explorar estrangeiros, pobres imigrantes indianos e paquistaneses, para decoração das suas sessões da propaganda. A troco de refeições e transporte. Atingiu fronteiras proibidas e foi longe de mais. Uma miserável indignidade.

Da série ´Coisas de fazer chorar o Primeiro-Ministro´

Relato de uma formadora das Novas Oportunidades.

O Voo do Falcão

Pura magia, golpe de asa, arte em estado puro. Que deu a vitória na Liga Europa.
Lesionado, o Falcão não pode voar hoje no Jamor. Mas fica lembrado o gesto do insigne artista!

Pare, José Sócrates!

Segundo o Correio da Manhã de hoje, imigrantes indianos e paquistaneses foram contratados para seguir José Sócrates para todo o lado, durante a campanha, de norte a sul do País, em autocarros pagos pelo PS. Depois são usados para compor os comícios, agitar bandeiras, e puxar pelo partido, apesar de muitos deles não perceberem uma palavra de português e não poderem votar. Em troca têm refeições grátis.

Mesmo em campanha eleitoral, não pode valer tudo. Pare, José Sócrates!

Notícias da alucinação em campanha

"Não se deixem enganar pela cantilena que o País está pior" - Francisco Assis no jantar-comicio em Vila do Conde.

"Bem-vindo a bordo da Estação Espacial Internacional, Sua Santidade"




"Estou muito feliz de ter esta oportunidade extraordinária de poder conversar convosco durante a vossa missão. Neste momento, a humanidade atravessa um período de grande progresso do ponto de vista do conhecimento científico e aplicações tecnológicas. Vocês são os representantes dessa tecnologia, com a qual levais em frente a capacidade humana e as novas possibilidades do futuro, que tornam melhor a nossa existência de todos os dias. Admiro a vossa coragem e compromisso para o qual vos preparais toda a vida”. (Papa Bento XVI aos Astronautas da Estação Espacial Internacional, 21 de maio de 2011)

O Papa Bento XVI tomou a iniciativa de comunicar em videoconferência com os astronautas da Estação Espacial Internacional. A iniciativa, já de si extraordinária, assume um significado muito especial quando se sabe que um dos objectivos da missão é deixar no espaço um equipamento destinado a estudar umas moléculas que podem explicar a origem do universo. Conseguirá a máquina ir além do que alcançam os espíritos, conseguirá a descoberta conduzir a Deus, no que Ele significa para os crentes, esperança, amor, paz e misericórdia?
O Papa perguntou ainda aos astronautas se, lá de cima, se lembravam das condições em que vivem muitos povos na terra, no que podia muito bem ser uma suave e quase maliciosa ousadia de questionar o que tantas vezes parece a distracção de Deus... Enfim, a mim pareceu-me mais a compreensão de um homem inteligente perante as dúvidas que a ciência levanta a quem tem fé, ou a falta de fé a quem conhece tanto da ciência, quem sabe? Em qualquer caso foi um gesto simbólico de alcance universal, uma revolução, diria mesmo, nesta modernidade em que a ciência e os seus prodigiosos avanços desafiam domínios que até agora estavam reservados à Fé.
Incompatíveis? O Papa vem dizer que não, vem dizer que a procura do bem estar e do progresso da humanidade é uma causa da qual ninguém deve reclamar-se dono absoluto, todos são precisos e, de mãos dadas, encorajando-se uns aos outros, desejando-se felicidades, talvez se encurte o longínquo e árduo caminho.
Admiração, apreço e encorajamento, tudo o que os grandes homens da Fé e da Ciência, unidos no mesmo objectivo, devem prestar-se mutuamente.
Um momento virado para o futuro que há-de ficar para a História. Se Deus e os Homens quiserem.

sábado, 21 de maio de 2011

Nós somos "laranjinhas"!

Que raio de vida a minha, agitada até dizer basta. Reuniões, aulas, conferências, consultas, fome de ler, sede de escrever e pouco tempo para dormir. Mesmo assim vou acompanhando o que se passa no país, meio desconfiado e cobiçoso de esperança. Ontem, por motivos académicos, fui obrigado a não assistir, em direto, ao debate entre Passos Coelho e Sócrates. Aulas de um mestrado para o qual fui convidado há muitos meses. Um esforço que deu cabo das minhas cordas vocais. Tomara! Falar das 17 às 22 horas com meia hora para jantar é razão mais do que suficiente para dar cabo do quer que seja, até da paciência dos alunos. No curto intervalo para jantar, um dos mestrandos, jovem político do PS, perguntou-me se não ia assistir ao combate. Não, pelo menos em direto. Compromissos são compromissos e hoje tenho que dar as aulas. Percebi perfeitamente que o aluno estava em ganas para assistir ao espetáculo. Passado algum tempo do regresso à sala de aulas, qual sala, um laboratório sem o mínimo de condições, mas o que se há de fazer? Olho para o fundo, e o único rapaz, entre tantas senhoras, que é ainda por cima muito alto, levantou-se e, olhando para mim, quase a querer justificar que mais valia trocar a aula pelo debate, começou a andar em direção à porta. Olhei para o relógio, faltavam dois minutos para o “acontecimento” do ano. Foi então que lhe disse: Bom jogo! Ao intervalo, não se esqueça de me dizer quem é que está a ganhar! E continuei com as minhas prédicas, análises, reflexões e interpretações sobre saúde no trabalho.
Dez horas. Acabei a aula, cansado. Ao chegar a casa vi a minha mulher irritada, muito incomodada com o debate e com o comportamento do ainda primeiro-ministro. Fiquei de boca aberta, porque não lhe conhecia este tipo de reação, a ponto de ter posto em risco a integridade do televisor! Ao fim de muitas décadas consegue surpreender-me. É obra, pensei.
As novas tecnologias permitiram-me ver o debate e as conclusões coincidiram com a da minha mulher. O futuro primeiro-ministro esteve à altura, sem dúvida. Conheço-o. O facto de não ter convivido muito – já estivemos juntos algumas vezes -, não me impede de dizer que, além do que já escreveu e falou, possui características interessantes que só se conseguem apreender num contacto mais direto.
Como tinha de me levantar muito cedo, fui descansar um pouco. Por causa de Lisboa. Sempre Lisboa. Reunião importante. Manhã de trabalho. Atrapalhado, com medo de não conseguir apanhar o comboio de regresso, permaneci até ao último momento, porque me facilitaram o transporte até Santa Apolónia. Ao chegar à estação, reparo que a minha filha do meio me tinha telefonado. Pavloviamente, liguei-lhe, pensando, o que é que terá acontecido agora? Afinal, o que tinha acontecido merece ser contado. A mãe, com a minha neta que ainda não tem dois anos e meio, foram confrontadas junto de casa com uma manifestação partidária, pessoas, carros, música, barulho. A miúda ficou assustada com tanto barulho e perguntou o que era aquilo. A mãe disse-lhe para não ter medo, era uma festa. Não satisfeita, perguntou como se chamava a festa e porque andavam com bandeiras azuis. A festa chama-se “política”, como o avô faz, e as bandeiras são azuis porque os senhores gostam da cor azul, mas nós, como o avô, gostamos mais das bandeiras “ laranjinhas”. Não disse mais nada. Passado um pouco, no café, foram intercetadas por uma senhora que queria entregar um panfleto. No momento da entrega, a minha neta disse-lhe: Não senhora, nós somos laranjinhas. A mãe, meio embasbacada, corou, não abriu a boca, a pobre militante recolheu o material, afastando-se, mas as restantes pessoas, que estavam a assistir, riram-se, soltando sonoras gargalhadas. Imagino o que deverá ter passado por algumas mentes, “Esta miúda promete!”.
Com que então, “laranjinha”, Leonor!

Uma mentira repetida...

... muitas vezes, nem sempre se torna verdade.
E percebe-se que a narrativa de Sócrates tem cada vez menos adesão por parte das pessoas, dos comentadores e da própria comunicação social.
O principal objectivo de Sócrates e do PS é criar medo nas pessoas.
Medo por causa da "destruição dos Estado Social", medo dos "despedimentos sem justa causa", medo dos "cortes na saúde", medo do "fim da escola pública".
Medo, medo e mais medo.
Sócrates aposta em assustar as pessoas.
Mas o principal efeito do debate de ontem com Passos Coelho é que o feitiço virou-se contra o feiticeiro.
Sócrates deixou uma impressão de temor e de alguém que já não consegue transmitir confiança.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma abada!

Pois foi. No debate com Passos Coelho, Sócrates foi só jogar para trás. Não passou do meio campo e nenhum remate à baliza.
Passos Coelho usou sobretudo a cabeça e jogou ao ataque. Goleou e deu uma abada!

"Sopa social" tributável...

Não param de crescer as dificuldades económicas para um número crescente de famílias, muitas delas a braços com o desemprego, que se vêem sem capacidade para satisfazer necessidades básicas da sua vida. O recurso à ajuda das instituições de solidariedade social (IPSS), seja no acesso a alimentação e a medicamentos, seja na gratuitidade da frequência de creches e jardins-de-infância, tem estado a aumentar de forma alarmante. O Estado não tem dinheiro para reforçar, muito pelo contrário, os apoios sociais às famílias em situação de carência económica efectiva, seja directamente às pessoas por via das prestações sociais, seja indirectamente às instituições de solidariedade social através de compensações financeiras.
Num cenário em que o Estado deixou de cumprir com as suas responsabilidades sociais de assegurar às famílias pobres e de baixos rendimentos e em situação de carência económica os apoios mínimos, é incompreensível que esteja previsto no acordo da Troika que as IPSS cobrem IVA nas ajudas que prestam e que, portanto, estas famílias tenham que pagar IVA sobre as ajudas que recebem. Como é possível admitir que os pobres paguem IVA sobre a "sopa social"? Sopa social paga em parte com os dinheiros dos contribuintes e cada vez mais com os donativos da sociedade civil.
Não se invoque a bancarrota para justificar a imoralidade desta miserável medida. Haja bom senso e dignidade. Talvez seja pedir muito, mas que por uma vez os nossos governantes tenham um comportamento decente e não exijam dos pobres o que o Estado não é capaz de lhes garantir. Acima de tudo, haja humanidade e sensibilidade social.
Assim se vê, como vai longa a nossa crise de valores e como anda ofuscada a lucidez política. Esta história é má de mais para ser verdade. Que Estado (anti)Social é este?

Evolução da dívida pública e do défice do Estado não batem certo: mais uma "trapalhada"?

1.Foi hoje noticiada – como sempre ao som de estridentes trombetas – uma queda do défice do Estado, nos primeiros 4 meses do ano, de 45% em relação ao período homólogo de 2010 - sendo que o défice das administrações públicas até terá caído 75%...
2.Mas esta semana o IGCP tinha divulgado os números da dívida pública directa do Estado até final de Abril (DÍVIDA FORMAL, reconhecida), concluindo-se que essa dívida cresceu este ano € 6.402 milhões, enquanto no mesmo período de 2010 havia crescido € 7.201 milhões.
3.Quer isto dizer que enquanto a dívida (em termos diferenciais) apresenta uma diminuição de 11%, o défice, a crer nas notícias divulgadas pelo governo, teria caído muito mais, os tais 45%.
4.Mas isto não se entende. Já em 2010 tinha acontecido a mesma coisa e a conclusão foi de um défice (para já, ainda não está fechado) de 10,7% do PIB sem a operação cosmética de transferência do F. Pensões da PT.
5.Há que acrescentar, a fazer fé nas notícias que vão saindo sem serem desmentidas, que as DÍVIDAS INFORMAIS do Estado (e de outros sub-sectores da Administração Pública) continuam a aumentar, o que permite um crescimento da dívida formal mais moderado.
6.Também têm sido divulgadas notícias da existência de diversos departamentos do Estado (forças de segurança, por exemplo) em que as verbas disponibilizadas para o pagamento de salários não incluem os montantes necessários para os valores a entregar ao Fisco e à C.G. Aposentações...o que permite encurtar a despesa artificialmente, ajudando à queda do défice.
7.Tudo isto se torna de compreensão muito difícil, estaremos provavelmente perante mais uma enorme “trapalhada”...
8....Bem se podendo dizer que em matéria de percepção da real situação das contas públicas nos encontramos numa fase de completa escuridão!
9.É evidente que tudo isto vai sobrar para o próximo governo, que terá que começar por acender a luz...e vamos ver o que é que então se vai encontrar, haverá por cautela que ligar o "airbag" para aguentar a primeira reacção da "Troika"!

Suicídio em público!


"O que é Passos Coelho já fez para melhorar a vida dos portugueses?",
perguntou Sócrates, ontem, em Queluz.

Vinda de quem só tem piorado a vida dos portugueses, a pergunta é verdadeiramente assassina para quem a produziu. Tiro na cabeça, suicídio em público!

-O maior desemprego dos últimos 80 anos.
-A segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos

-O maior decréscimo do nível de vida

-A mais elevada carga fiscal da Europa (suplantando mesmo os países nórdicos em paridade de poder de compra)
-O único país europeu (e um dos três ou quatro do mundo...) onde não há crescimento económico em 2010, 2011 e 2012.
-A maior Dívida Pública em 120 anos
.........

Ajuda externa: BdeP desmente, em definitivo, tese do PM - e agora?

1.No seu relatório anual referente a 2010, ontem divulgado, o Banco de Portugal (BdeP) explica, com toda a clareza, a origem e as razões do processo que conduziu ao pedido de resgate financeiro que o Governo apresentou à União Europeia no passado mês de Abril (página 21 do documento, para quem tiver curiosidade).
2.Dessa explicação não consta – está totalmente excluída mesmo – a tese, obnóxia mas repetida até à exaustão - do PM e dos seus “yes men” segundo a qual o pedido de ajuda externa se deveu à crise política desencadeada após a rejeição do famoso (nado-morto) PEC-4.
3.De acordo com o BdeP - citando, para que não restem dúvidas “ Na sequência de um recrudescimento intenso da crise de dívida soberana na área do euro, as condições de acesso aos mercados de financiamento internacionais deterioraram-se de forma acentuada ao longo de 2010 e início de 2011”.
4.E prossegue, “Os investidores internacionais singularizaram a economia portuguesa principalmente em função do elevado endividamento externo e do baixo crescimento tendencial, em conjugação com níveis do défice e da dívida pública altos e superiores ao esperado”...
5.E conclui, “Estes desenvolvimentos contribuíram para avolumar os receios dos investidores internacionais sobre a sustentabilidade das finanças públicas e sobre a dinâmica intertemporal da dívida externa, TORNANDO INADIÁVEL O PEDIDO DE ASSISTÊNCIA FINANCEIRA INTERNACIONAL, concretizado no início de Abril”...
6.Onde estão as referências à crise política e ao chumbo do PEC-4? Em lado nenhum, por mais que se pesquise...nada têm nada a ver com o assunto, não pode ser outra a conclusão...
7.Noutro ponto do mesmo documento (em caixa, pág. 27) existe uma nova referência, esta numa perspectiva mais histórica, à origem do pedido de ajuda externa, sendo aí salientado o “débil desempenho da economia” ao longo da última década, “acompanhado por um aumento gradual do endividamento da economia e uma diminuição da poupança interna, levando a uma deterioração acentuada da posição de investimento internacional”...
8.Acrescentando: “Em simultâneo, assistiu-se a uma deterioração significativa das finanças públicas portuguesas, o que levantou preocupações crescentes acerca da sua sustentabilidade. Neste contexto, assistiu-se a um aumento dos “spreads” das taxas de juro da dívida soberana, no quadro de tensões nos mercados de dívida soberana do euro”...
9.E, concluindo: “A interacção entre estes desenvolvimentos económicos e financeiros levou ao aparecimento de crescentes dificuldades de financiamento dos agentes públicos e privados. E ESTE PROCESSO LEVOU O GOVERNO A UM PEDIDO DE ASSISTÊNCIA À UNIÃO EUROPEIA”...
10.Mais uma vez, onde estão as referências à crise política e ao chumbo do PEC-4? Em lado nenhum, por mais que se pesquise...
11.E agora? Cicuta para o BdeP, tal como o P. Cardão sugeriu para o INE?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sim, nós podemos!


F.C.Porto, a equipa do século, a única equipa a conquistar três Taças europeias no século XXI.

Nem Manchester, nem Real Madrid, nem Bayern Munique, nem Liverpool, nem Inter, todos com uma Taça, nem Milão ou Sevilha(2 Taças) podem igualar o número de vitórias europeias do grande FCPorto neste século XXI. Só o Barcelona (2 Taças), se ganhar este ano ao Manchester!Também a vitória da competência e da competitividade no mercado global.

Nas outras áreas, também podemos. Sim, também podemos. Se escolhermos os melhores.

Palavra que vi

Palavra que vi. Vi no telejornal da RTP 2, em repetição do que já tinha dado na 1. Vi que a repórter enviada a NY para cobertura do caso DSK foi a Bronx, onde fez um “directo”. E que directo foi esse? Pois fiquem sabendo que começou por interrogar diligentemente uns transeuntes sobre que tipo de bairro era aquele. Este é um bairro calmo ou é um bairro problemático, onde há insegurança? , perguntava a um jovem afro-americano. O jovem olhou-a intrigado, hesitou e por fim respondeu com ar de troça, fique cá uns dias e logo vê.
Ela foi então direitinha a um prédio de tijolo, igual aos outros todos e aí parou e perguntou a outro cidadão se era ali a morada da mulher que tinha apresentado queixa contra o director do FMI. O homem disse que sim. E conhece-a? Que sim, que era mulher discreta e pessoa de trabalho. Segue-se a repórter em directo a explicar que ninguém queria levá-la até ao apartamento em concreto, mas depois lá apareceu um voluntário que, com cara de poucos amigos, se dispôs a orientar a equipa de reportagem.
Por esta altura podíamos perguntar-nos qual era a ideia, talvez esperar que alguém abrisse uma frincha ao engano, ela metia o pé para impedir o recuo, avançava o microfone e perguntaria assim à queima roupa se era verdade ou mentira o que circula nos jornais, diga lá aqui à RTP Portugal, dê-me lá essa caixa, foi ele ou foi a senhora quem começou tudo? Faz parte de uma conspiração ou não? E depois, heroicamente, a repórter sairia agarrada à gravação com a imagem da mulher cuja identidade está protegida pela polícia - ou de quem quer que aparecesse a espreitar pela frincha, tanto faz.
Se tudo isto já era surreal, as cenas seguintes são inconcebíveis. A câmara filma a entrada no elevador, o dedo do guia a pressionar o botão para o andar num grande plano emocionante, depois os longos e deprimentes corredores típicos de um prédio miserável, por fim a porta escura, com um postigo com rede.
A repórter esclarece, virada para a câmara e numa voz de grande suspense, estamos agora à porta do apartamento onde a presumível vítima vive há mais de seis meses, mas dizem que desde aquele dia que não voltou cá, está algures, fortemente guardada por medidas de segurança. Vamos ver. Toca à campainha. Espera. Nada, ninguém abre. Pois, não está cá ninguém, diz ela. E então, não fosse estar alguém a tentar enganar o seu faro policial, encosta o ouvido à porta e aguarda uns longos instantes, a detectar eventuais ruídos que pudessem denunciar a presença de alguém! No nosso écran ela aparece assim, colada à porta, o ouvido encostado, os olhos expectantes de emoção. Desistiu, desiludida. Não, nada, devia estar mesmo vazio o apartamento, era mesmo verdade que a senhora não estava lá. E a câmara filmou o mesmo caminho de volta.
Entre o anúncio da "reportagem" e a "reportagem" propriamente dita, foram uns largos minutos de telejornal.

Palavra que vi.

Um superdotado estadista, saibamos reconhecer!

1.O mais esclarecido dos políticos nacionais produziu hoje algumas declarações que merecem ser valorizadas/encaixilhadas pela profundidade de pensamento que projectam e também porque se ajustam, na perfeição, ao perfil do ilustre palestrante.
2.Permito-me destacar, com a devida vénia, três dessas declarações, pelo imenso simbolismo que encerram, sem prejuízo de reconhecer que quase todas as demais exibem grau muito elevado de sabedoria e de “sentido de Estado”...
3.Essas três são as seguintes:
- “Sectarismo político é nocivo e corrói”...
- “O País precisa de moderação e equilíbrio”...
- “O meu governo fez o melhor que podia para responder à crise internacional”
4.Tem toda a razão o consumado estadista quando ataca o sectarismo político, até porque ele próprio tem sido um verdadeiro campeão no combate a essa praga...Quando lembramos as suas pedagógicas intervenções em sucessivos debates na AR, quando lembramos a forma corajosa e verdadeira como apresentou ao País o duríssimo
programa de austeridade que “negociou” com os representantes dos nossos novos
credores externos...não podemos deixar de admirar e corroborar esta
desassombrada declaração!
5.Quanto ao País precisar de moderação e equilíbrio...reconheço que é de mais difícil apreensão, pois não se sabe bem a que tipo de equilíbrio se refere o palestrante, uma vez que já são muito poucas as "MATÉRIAS" que ainda estarão equilibradas entre nós...contas públicas, dívida, economia, empresas públicas... tudo está desequilibrado e como está desequilibrado...
6.Sabemos no entanto que o palestrante nada tem a ver com isso, pois é público e notório que ele sempre pugnou, até ao limite das suas forças, para que tudo estivesse em equilíbrio e tudo fosse sempre gerido com muita moderação – mesmo quando em 2009, por exemplo, adoptou uma política orçamental absurda e catastrófica, foi a crise internacional que lhe forçou a mão...a maldita crise internacional é que nos atirou para os desequilíbrios que agora nos consomem!
7.Finalmente, "o governo fez o melhor para responder à crise internacional"...nem precisava de o dizer, atrevo-me a acrescentar, pois quase todos nós (só os de muito má vontade não reconhecem) sabemos que era impossível fazer melhor...embora, por uma dessas raras e azarentas ocorrências fenomenológicas, o “fazer melhor” tenha sido neste caso equivalente a “fazer pior”...
8.Em resumo e conclusão, estamos perante um estadista superdotado, sem dúvida, oxalá o País tenha a lucidez de lhe reconhecer o histórico feito de nos ter trazido, de sucesso em sucesso, até ao ponto glorioso em que nos encontramos...

Ora abóbora!

Participei ontem numa conferência promovida pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida a propósito de dois grandes temas e duas leis, a da interrupção voluntária da gravidez e a da procriação medicamente assistida. A razão do encontro foi devidamente justificada, passaram-se quatro e cinco anos sobre a promulgação das leis. Sempre que estejam envolvidos aspetos de natureza bioética, faz todo o sentido, passado algum tempo, refletir sobre as mesmas e, até, porque não, proceder a alterações. Nalguns países, caso da França, por exemplo, é obrigatório proceder a análise deste tipo de leis ao fim de quatro ou cinco anos.
Coube-me intervir logo de manhã, fui o primeiro. O tema que tinha sido proposto ao Conselho Nacional da Procriação Medicamente Assistida, do qual sou vice-presidente, foi: “Procriação Medicamente Assistida - Para quê, para quem, com que custos?”. Não estava previsto ser eu o preletor, mas, devido a várias circunstâncias, acabei por ter essa missão. Não foi fácil abordar o tema, delicado e complexo, mas fi-lo com dedicação, pesquisa e reflexão, ajudado ainda pela minha experiência enquanto deputado, porque, na altura, fui relator de um projeto-lei que acabou por não discutido, devido à dissolução da Assembleia da República em 2004.
Abordei muitos aspetos, mas houve dois que quero destacar. Ao contrário do que estava à espera não levantaram celeuma durante a discussão! Um deles tem a ver com o direito de as mulheres “sós” poderem recorrer às técnicas de procriação medicamente assistida (a nossa lei não permite de momento) e o outro à maternidade de substituição em casos excecionais. Relativamente a este último, o Conselho já tinha proposto ao legislador alterações nesse sentido, mas como a Assembleia foi dissolvida, vai ser preciso voltar ao principio na próxima legislatura.
A conferência foi muito concorrida e publicitada. Como seria de esperar a comunicação social também andou por estas bandas, porque estes assuntos são muito apetecíveis. Hoje, uma doutoranda, que também assistiu a todas as intervenções, perguntou-me o que é que a comunicação social tinha dito sobre o que lá foi exposto e debatido. Para ser mais exato a mensagem foi a seguinte: “Saiu alguma coisa de jeito nos jornais?” Como tive um dia atribulado, respondi-lhe a meio da tarde: “Não sei, ainda não li nenhum jornal, mas se saiu deverá ter a ver com as taxas moderadoras das abortadoras! É muito importante! Pelo menos foi o que eu vi ontem à noite na TV. Portugal no seu melhor!” À noite li um ou outro jornal e o tema era “Mulheres que abortam devem pagar taxas moderadoras”. Está bem, que paguem! Qual é o problema? E o resto? Tantos assuntos que foram debatidos e que deveriam ser do âmbito público de forma a preencher o “vazio” dos problemas bioéticos em áreas tão delicadas como as que foram objeto de atenção por parte dos organizadores e dos participantes! Por que é que a comunicação social não utiliza estes eventos para um melhor e cabal esclarecimento de matérias que, direta ou indiretamente, dizem respeito a todos? Talvez ande mais preocupada com outras prioridades, e assim, concluiu que o principal problema é o “não-pagamento das taxas moderadoras das mulheres que fazem interrupção voluntária da gravidez”!
Ora abóbora!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O céu continua azul!

Se não foi ópera afinada, foi opereta bem cantada.
Glória ao glorioso tenor azul e branco, o sempre invicto FCPorto! E honra ao valoroso naipe do SCBraga, que assegurou brilhantemente o coro da partitura!

Cicuta para o INE. Já!

Pronto! A culpa é de todo o mundo, todos, mesmo todos, estão contra Sócrates. Agora é o INE que também inventa cabalas negras. Deu-lhe assim a aleivosia para aumentar o desemprego para 12,4%!

Mas não, tal desemprego é um mito. Trata-se apenas de mudança metodológica. Porque os desempregados não estão desempregados. Os desempregados estão muito bem empregados. O método do INE é que diz que não!

Para além do mais, uma injustiça para Sócrates, esta inépcia do INE. Que merece condenação imediata. Cicuta para o INE. Já!

Grécia:nem a reestruturação da dívida será suficiente?

1.Um notável artigo do colunista Martin Wolf, publicado na edição do F. Times de 11 do corrente, deixou claro que a reestruturação da dívida da Grécia, agora tema de moda, deixou de ser questão de saber “se” mas apenas de “quando e como” vai acontecer.
2.Wolf apresenta alguns cenários do comportamento da economia e das finanças públicas gregas para que o País conseguisse estancar a subida do nível da dívida pública que se situa actualmente em cerca de 160% do PIB.
3.Admitindo um nível de taxa de juro de 6%, em vez dos 16% que a dívida grega de longo prazo teria actualmente de pagar no mercado, e com a economia a crescer 4% ao ano em termos nominais, seria necessário que a Grécia gerasse um excedente orçamental primário (antes de juros) de 3,2% do PIB para que a dívida pública deixasse de aumentar...
4.Dentro dos mesmos pressupostos de taxa de juro e de crescimento do PIB, para que a dívida descesse até 2040 para o limite estabelecido no Tratado de Maastrich, de 60% do PIB, seria necessário que o País gerasse todos os anos um excedente orçamental primário de pelo menos 6% do PIB...
5.Basta enunciar estes cenários e conhecer a realidade das finanças públicas gregas, com um défice superior a 11% do PIB em 2010 apesar das duras medidas de austeridade adoptadas desde Maio desse ano quando negociou um acordo de resgate com a EU/FMI, para se perceber que tais cenários mais não são do que uma miragem...
6.A conclusão é óbvia: a dívida pública da Grécia não poderá ser paga nas condições actuais, o País irá entrar em “default” mais cedo ou mais tarde, quanto mais tarde mais penosa será a insolvência para os credores e para o País.
7.Daí que Wolf enuncie duas teóricas soluções: (i) a primeira é a totalidade da dívida pública grega ser assumida pelas instâncias oficiais, FMI e Mecanismo de Estabilidade Europeu (que deverá substituir o Fundo de Estabilização Financeira em 2013), por tempo indefinido; (ii) a segunda é uma reestruturação da dívida, tão rapidamente quanto possível, em termos que permitam o seu cumprimento futuro.
8.A primeira hipótese está excluída por ser politicamente inviável: não é imaginável que os restantes países europeus queiram aceitar uma solução com uma tal dose de “moral hazard”, e que os membros não-europeus do FMI estivessem dispostos a aceitar uma intervenção do Fundo em tais termos.
9.Resta pois a reestruturação, mas se esta não tiver uma componente (significativa) de “hair-cut”, atingindo todos os detentores de dívida incluindo os privados, de pouco valerá, pois significará apenas um adiamento do problema...
10.Mas mesmo essa reestruturação não garante a solução do problema económico da Grécia pois a economia padece de uma enorme perda de competitividade que a redução da dívida pública não corrigiria como é evidente...anos sucessivos de deflação seriam ainda necessários...
11.Depois de um período de negação sistemática, os responsáveis europeus começam agora a admitir a necessidade de reestruturação da dívida grega – mas apenas uma reestruturação do tipo “soft”, alterando o perfil temporal da dívida, sendo proibido falar em “haircut”...
12.Transcrevo uma das considerações finais de Wolf: “The saga is most unlikely to end with Greece. Other peripheral countries – Ireland and Portugal for example – are also likely to find themselves locked out of markets for a long time...”.
13.Só espero que Martin Wolf não tenha razão quanto a este último aviso...

Sobre o “Inquérito ao Emprego” do INE e atitudes politiqueiras

Em Janeiro passado o INE anunciou que iria alterar a metodologia de elaboração do “Inquérito ao Emprego” a partir do primeiro trimestre de 2011. Fê-lo de forma desajeitada, sem assegurar devidamente a comparabilidade entre o passado e o futuro.

Recordo-me bem o aproveitamento político que então foi feito, com todos os Partidos da Oposi-ção a reclamarem porque, supostamente, a alteração metodológica iria “beneficiar o Governo”, não só pela interrupção da série estatística, mas porque o número de desempregados – e a taxa de desemprego – poderia diminuir. O quê?... Disse “todos os Partidos da Oposição”?... Não, não é verdade: o PSD, por meu intermédio, não reagiu neste tom. Recordo-me de ter, então, referido, que apesar de ter havido pouco cuidado na forma de comunicação do INE, alterações meto-dológicas em métodos de recolha de dados estatísticos eram habituais de tempos a tempos, acompanhando o progresso e a investigação – como era manifestamente o caso.

Soube-se hoje que a taxa de desemprego do primeiro trimestre de 2011 foi de 12.4% da popula-ção activa, um (triste) record histórico a que corresponde o também nível record de 689 mil desempregados. Sucede que, com a anterior metodologia, a taxa ter-se-ia situado em 11.4% e o número de desempregados em 633 mil (ambos os registos record). Logo, se estes dados foram desfavoráveis para alguém, foi para… o Governo!... Ao mesmo tempo que, por mais desajeitada que tenha sido a comunicação feita pelo INE na altura, a entidade estatística nacional estava, apenas, a fazer o seu trabalho. De forma séria – como, aliás, lhe compete.

Prova-se, assim, que atitudes politiqueiras e jogos meramente tácticos aproveitam muito pouco a quem os produz. E se da parte do BE (mais) e do PCP (menos) é frequente assistirmos a manobras deste género, já causa mais espanto a postura do CDS, que afinou pelo mesmo diapasão. Sendo que antes deste assunto, e depois dele, manteve a mesma atitude em várias outras matérias.

Por mim, só posso estar satisfeito pela posição que, na altura, o PSD tomou. E por ter sido eu a dar-lhe visibilidade.

Creio que todos teríamos a ganhar se as forças partidárias, que – pelo menos em teoria – deviam constituir um exemplo e uma referência para toda a sociedade apreendessem com casos como este – e deixassem de apostar em atitudes e comportamentos que eu, pelo menos, tenho muita dificuldade em perceber por que são, muitas vezes, adoptados.

Também se pode falar da "antiga" classe média

Diziam os jornais há dias que uma em cada sete famílias não consegue cumprir os compromissos financeiros que assumiu, dizem os jornais todos os dias que fecham empresas umas atrás das outras, diz toda a gente que os jovens querem é ir-se embora daqui logo que possam. A vida real chega pesada, a palavra insolvência passou a integrar as conversas, ao princípio envergonhada, não se falava mas havia sinais, agora já sem rodeios as pessoas explicam o que aconteceu, sabes da fulana? Insolvente. Sabes de cicrano? A empresa faliu, estão a vender tudo. Outros não esperam pelo desfecho anunciado, assistem impotentes à redução de clientes, à crescente dificuldade em manter actividade, passam pela dura prova de ter que despedir colaboradores de sempre, desistem e vão-se embora. Um amigo anunciou a sua partida em breve para um longínquo ponto do globo, algures em África, tive que ir ver ao mapa a cidade de que me falava, vais para tão longe, é preciso coragem, tenho sorte, disse-me ele, não sou dos últimos a saír, os outros que demorarem mais nem isso vão conseguir. Outra amiga do grupo ouvia em silêncio, o marido arranjou emprego em Angola, ela ficou cá com os filhos e juntam-se no skype para enganar as saudades. Por quanto tempo? Suspiro profundo, sabe Deus, nem vale a pena pensar nisso, cinco anos pelo menos, até lá é tudo para pagar as dívidas enterradas na fábrica de família, várias gerações a ergueram, duas gerações se afundaram com ela.
O Expresso de sábado passado conta-nos vários casos de pessoas que tiveram que tirar os filhos do colégios, outras que tentam vender as casas com prejuízo e livrar-se dos encargos que subiram como a maré alta e quase os afogam. Há muitos, muitos casos. Não são jovens, são pessoas que fizeram carreira, que criaram ou fizeram crescer empresas, não são ladrões nem vigaristas, nem oportunistas, são pessoas comuns, pessoas de bem, que acreditaram que tinham chegado ao auge das suas vidas, conquistado algum desafogo e segurança, que tinham assumido cargos de responsabilidade e confiavam poder encarar a meia idade com orgulho e dignidade. Agora, a meio da vida, com filhos adolescentes que os olham estarrecidos, com pais idosos que contavam com o seu apoio, fazem as malas e partem para reiniciar a vida, deixam os lugares de director, de quadros no topo de carreira, ou de patrão e voltam a ter chefes, vão ter que voltar a provar, passar dificuldades de principiante, integrar-se em meios que não conhecem e onde nunca ninguém os viu. É preciso muita coragem para não desistir, é preciso muita força para segurar os laços que se teceram e que são postos à prova quando tudo o mais se desfaz.
Quanto à política, aguarda-se que o documento da troika comece a ser traduzido em português, se façam os estudos rigorosos para “calibrar” a TSU, se decida quem é que de certeza não governa com quem. Aguarde-se, pois e, lembrando os velhos tempos, "o último a sair que pague a luz".


Adenda: Não reparei logo no lapso da frase que cita a velha máxima anarquista que ficou célebre no PREC "o último a sair que apague a luz". É caso para dizer que me fugiu a mão para a verdade actual. A conselho de um comentador atento, não vou corrigir o lapso, mas não quero ficar com um mérito humorístico que resultou apenas do acaso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Mentira!

É o cartaz que Pedro Passos Coelho deverá mandar fazer, para exibir no próximo debate televisivo com Sócrates.

Quando Sócrates falar e mais uma vez se mostrar vítima da crise internacional (da qual todos recuperaram, excepto Portugal...), e mais uma vez invocar a cassete da crise política provocada pelo PSD, da destruição dos serviços públicos pelo PSD, do radicalismo neo-liberal do PSD, da privatização dos serviços de saúde e da educação e da segurança social pelo PSD.

E é o cartaz que Passos Coelho deve exibir, quando Sócrates estiver a proclamar a sua defesa do Estado social, o êxito das suas políticas económica e orçamentais, as vitórias das grandes e novas oportunidades.

Até pode deixar Sócrates falar o tempo todo. E durante todo o tempo exibir o cartaz. Estou certo que, durante o debate, o cartaz nunca faltará à verdade!