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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Conversa arqueológica

Entrou no gabinete com determinação, denotando alguma expectativa, sem conseguir esconder um ar inquiridor misturado com uma beleza natural e uma tonicidade física de pessoa saudável. Após as formalidades habituais, indispensáveis a uma relação equilibrada, perguntei-lhe em que é que ia trabalhar, respondeu-me, vender aço. Vender aço? Sim. É o primeiro emprego? Não! Sou arqueóloga. Arqueóloga? Foi o suficiente para adiar o exame e passei ao ataque, perguntando-lhe onde é que tinha trabalhado. Confessou-me que trabalhou durante sete anos em muitos sítios e passou a descrevê-los. Como sou um curioso empedernido ia-lhe dando lastro, vendo perfeitamente que a menina estava a gostar do meu interrogatório. Perguntei-lhe quais as descobertas que fez, quais as que lhe deram mais satisfação, o que originou ondas de respostas adequadas para fazer surf na ciência arqueológica. Falar a alguém daquilo que sabe e de que gosta é a melhor oferta que se pode fazer. Admirada com o meu comportamento, perguntou-me se tinha interesse pela área. Sorri, e disse-lhe, pela sua e por muitas outras, tenho que lhe confessar que deve ser um privilégio tocar no passado e dar-lhe sentido e significado. Mais um pretexto para referir um ou outro achado, datação e identificação. Sabe, parece-me que quando escavamos a terra, em Portugal, encontramos quase sempre um achado com interesse. Não em todos os sítios, mais no Alentejo. Sim, acredito. Olhe, nas minhas deambulações pelo centro do país também faço uma espécie de arqueologia, não a sua, técnica, científica, mas uma outra, emocional. Certos locais atraem-me e ponho-me a imaginar que, forçosamente, houve gente a viver naqueles locais, tem que ser, é inevitável. De facto, existem elementos que apontam para isso. Sabe, disse-lhe, presumo que não somos muito diferentes dessas pessoas, julgo mesmo que temos a mesma forma de pensar e até de ver o mundo. Claro que, hoje, dispomos de muitos conhecimentos e técnicas, mas em termos estruturais somos os mesmos. Riu-se. Agora era a minha vez de contar algumas das minhas "investigações", melhor dizendo, deambulações. Foquei a zona de Fiais da Telha, Oliveira do Conde, Concelho do Carregal do Sal, bem estudado e cuidado nestes aspetos arqueológicos e culturais. Fiz um pequeno interregno, perguntado-lhe se conhecia o museu deste concelho. Não. Pois olhe que vale a pena ver, porque é uma das mais belas pérolas museológicas que conheço. Agucei-lhe o apetite. Vi perfeitamente que ficou interessada. Passei a relatar-lhe o planalto daquela zona, onde é possível ver quase tudo num ângulo de 360 graus, e onde se pode contemplar belos e intrigantes vestígios arqueológicos. Quando vou até lá é para fazer uma viagem ao passado. Não ouço sons de origem humana, apenas os mesmos que eles ouviam, vejo os recortes das montanhas, a cor do céu e as nuvens como eles viam, sinto a brisa e o calor do sol como eles sentiam, e absorvo os mesmos aromas, quase com toda a certeza. Como vê, também faço a minha pesquisa arqueológica. A conversa continuou ao redor deste tema e de outros que entretanto iam surgindo, fruto de um amplexo pouco típico numa consulta médica. O resto do exame foi quase uma mera formalidade, não fiquei com problemas, e a senhora também não, via-se que era mais do que saudável. Pronto, está apta para trabalhar. Para vender aço, senhor doutor, para vender aço. Saiu da consulta muito admirada e, presumo, satisfeita com a consulta. Eu fiquei.

Certificados de Aforro: mais vale tarde do que nunca!

1. Na edição do jornal Público de 21 do corrente, encontrei (em férias) o seguinte título: “Fuga a produtos de aforro do Estado excede previsões”. No desenvolvimento da notícia era dito que a redução do stock dos Certificados de Aforro (CA’s) excedia, no corrente ano e até ao final de Julho, em € 500 milhões, a redução prevista no OE para todo este ano.
2. A manter-se até final do ano o ritmo de saída de fundos deste produto de poupança, hipótese bastante verosímil, o Estado teria de encontrar quase € 1.000 milhões em fontes de financiamento alternativas, necessariamente mais onerosas, para compensar essa saída de fundos.
3. Já aqui manifestei, por mais de uma vez, total discordância em relação à forma como o anterior Governo decidiu, no início de 2009, penalizar fortemente as aplicações em CA’s - alterando mesmo regras de remuneração previamente ajustadas com os aforristas (da Série B) - numa altura em que se impunha, por fortíssimos motivos de política económica, incentivar a poupança...
4. O resultado dessa absurda medida de política, ditada por razões generosamente obscuras – a justificação oficial de que não cabia ao Estado subsidiar o aforro privado, na altura avançada, era estapafúrdia - não poderia ter sido mais devastador: depois de no final de 2008 o stock de CA’s ter atingido € 17.198 milhões, iniciou-se uma sucessão de quedas, mês a mês, chegando em Julho último a € 9.941 milhões, queda superior a 42% em relação ao valor de Dezembro de 2008...
5. E só nos primeiros 7 meses do corrente ano a queda foi de € 1.443 milhões...
6. Finalmente hoje, 31 de Agosto, é anunciada uma revisão das condições de remuneração dos CA’s, para entrar em vigor já amanhã, consistindo essencialmente no seguinte:

- Para os CA’s da Série B (com subscrição fechada mas regatáveis, obviamente...), ao prémio sobre a taxa de juro que estiver em vigor (e que podia variar entre 0,25% e um máximo de 2%), é acrescentado um prémio fixo de 1%, passando a remuneração, de acordo com a notícia, para 3,2808%;

- Para os CA’s da Série C (subscrição aberta), o prémio actual, que varia entre 0,55 no 2º ano e 2,5% no 10º ano, é substituído por um prémio único fixo de 2,75%, aparentemente aplicável desde o momento da subscrição (?), passando a gerar uma remuneração de 3,268% em Setembro.
7. É ainda referido o estabelecimento de uma remuneração máxima de 5% e acrescentado que estas novas condições estarão em vigor até ao final de 2016, sendo que a partir dessa altura voltam a ser aplicadas as condições anteriores (esta parte confesso não entender).
8. Será motivo para lembrar o velho provérbio “mais vale tarde do que nunca”. Veremos, em todo o caso, qual será a reacção dos aforradores, pois a eles cabe a última palavra quanto à eficácia desta medida...



RTP-um novo condicionamento industrial

A ideia do condicionamento industrial de Salazar ressurgiu em pleno pela mão das “forças progressistas” que defendem a RTP tal como está: não se pode privatizar, porque a privatização põe em causa a subsistência das estações privadas existentes.
Argumento tremendo. Os progressistas querem vedar novo investimento, em defesa de interesses já instalados e arrogam-se o poder, como se o dinheiro fosse deles, de dizer onde se deve ou não investir. Se a privatização põe em causa as estações privadas, é porque os contribuintes indirectamente as estão a financiar, através das enormes dotações à RTP. O que significaria o público ao serviço do privado. Progressismo que se compreende: têm uma estação pública ao seu dispor e não têm que a pagar.  
Aliás, a argumentação é a mesma de há vinte e dois anos, quando os mesmos progressistas afirmavam não haver viabilidade, nem económica, nem financeira, para as estações privadas.
Embora o condenem, são essas forças as maiores defensoras de um novo condicionamento industrial. Pior do que o de Salazar. Porque é para se protegerem a si próprias.
Por isso, nem querem ouvir falar que sejam os privados decidir do seu próprio investimento.
 

Sem ética


O Professor Massano Cardoso anotou aqui uma prática de alguma banca que promove produtos para promover a oferta de crédito com uma remuneração verdadeiramente exorbitante. Preocupante, na medida em que estas práticas revelam que para alguns o mundo não mudou, continuando a apostar no fascínio que provocam bens fora do alcance das famílias a quem estas instituições se dirigem, com o intituito de procurar obter lucros seja por que meio for. Que moral têm os bancos para se queixarem do volume de incumprimentos no crédito ao consumo?
Hoje, o jornal Público divulga a notícia de que alguns bancos estão a substituir cartões detidos pelos seus clientes por cartões de crédito e de débito com  propósito de cobrar mais comissões. Um deles, nem mais nem menos, a estatal CGD, nem sequer substitui os cartões, pelo que cobrará comissão por ambos, se bem entendo a notícia. Eis uma prática que resiste a subjetividades na apreciação: desonestidade e falta de ética, não é possível ser benévolo na opinião.
A notícia diz também que o Banco de Portugal não gostou. Espera-se que a censura não se fique por esta mera manifestação de desamor.
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pois é!

Uma das maiores preocupações do homem é encontrar causas para justificar os muitos fenómenos que o circundam. Esta observação aplica-se a todos os campos do conhecimento. Trata-se de uma forma de ver o mundo que não é de hoje, foi objeto, há muitos séculos, de análise e reflexão que culminou na famosa Lei da Parcimónia, também conhecida por Navalha de Ockham. Segundo este princípio, devemos eliminar todas as premissas exceto as absolutamente necessárias à explicação de um fenómeno. Ockham, no seu desejo de conhecer e interpretar o Universo, considerou que a Natureza é intrinsecamente económica (“Não multiplicar as entidades para lá da necessidade” e a entidade dele «necessária» é Deus) logo, esta, a Natureza, deve escolher a via mais simples. Há aqui algo de novo, é compreensível que a Natureza escolha as vias mais simples. No entanto, pretendo por em causa, dentro de certos limites, naturalmente, que o princípio definido por Ochkam não ajuda a resolver alguns problemas. Muitos deles são extraordinariamente complexos e exigem uma abordagem multifactorial, o que não é nada fácil de fazer. Vejamos o seguinte exemplo, obesidade. A grande maioria dos peritos, e não peritos, abordam esta temática de uma forma extraordinariamente simples, falta de exercício e aporte exagerado de energia. Quando ambos estão presentes ficam criadas as condições para o seu aparecimento. Logo, toda a política de ataque ou de aproveitamento da obesidade passa a ser centrada no "faça exercício" e "consuma menos energia". Mas as coisas não são tão simples como isso. Existem muitos outros fatores que merecem ser destacados. Ultimamente, ao ler a comunicação social, vi que alguns estudos apontam para o efeito de antibióticos nos primeiros meses de vida que podem modificar a flora intestinal, provocando condições para uma maior propensão para a obesidade. De facto, há muito que se sabe que os antibióticos são utilizados na indústria animal para favorecer a "engorda". Agora querem transpor para a nossa espécie tal conhecimento. A seguir, nem passados três dias, vem nos jornais a notícia de um trabalho científico que afirma que o não respeito pelo ritmo circadiano também pode ser responsabilizado pela epidemia da obesidade. Já estou a ver o amigo da onça a dizer para o obeso, olha lá, o teu médico deve ter-te enfardado em criança com antibióticos e depois puseste-te a fazer da noite dia e do dia noite! Seria possível continuar a enumerar muitos outros fatores para explicar este problema, como os epigenéticos ocorridos durante a gravidez, e até nas gerações anteriores, que atingiram os pais e avós, até certos poluentes químicos e determinados agentes microbiológicos. No fundo, é preciso "complexizar" a abordagem de um problema a fim de não descurar as múltiplas vertentes do mesmo, permitindo definir as melhores políticas para o seu combate e prevenção. Isto, no pressuposto de que a associação existe mesmo, mas as coisas na prática dão-nos muitas dores de cabeça, obrigando a um constante reformular de conceitos e paradigmas. A ciência é mesmo assim. A par do que acabei de enunciar, um outro estudo pôs por terra o paradigma de que a restrição calórica seria o verdadeiro elixir da juventude. Muitos estudos experimentais, realizados em diversas espécies, comprovaram que a diminuição da ingestão calórica era acompanhada de um aumento significativo do prolongamento da vida. Pois é, parece que não se aplica à nossa espécie. E agora? Agora temos de reconverter certos conceitos, mas, vá lá, a restrição calórica não prolonga a vida mas melhora a qualidade de vida. O que já não é mau.
Estes pequenos exemplos demostram a forma simplista como são analisados determinados fenómenos. Nos "entretantos", muitos conselhos, muita prosa, muitas condutas e muitos aproveitamentos, de natureza variada, foram realizados. À simplicidade é preciso contrapor alguma "complexidade", de forma a evitar a criação de certos estereótipos, que podem ser contraproducentes e indevidamente utilizados. O mundo da ciência é mesmo assim. O pior que pode acontecer é ter de desmontar certas ideias, sobretudo quando passaram a estar intimamente ligadas a interesses económicos, a novas indústrias e até a certas formas de "religionismo científico".
Pois é! É preciso usar uma navalha para cortar "velhas" ideias, mas não a de Ockham.

Só para adultos!

O Parlamento autorizou que o Canal Parlamento seja emitido em sinal aberto.
Programação com bolinha vermelha ao canto, claro está. Para adultos, com sérias reservas.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Os donos da RTP

Afinal, parece que quase toda a gente, partidos políticos da oposição, centrais sindicais, pensadores mediáticos, não querem mudanças na RTP e querem a RTP tal como está. E as estações privadas fazem barragem informativa contra a privatização.
O que criticavam a cada momento passou a ser bom do dia para a noite. Os pensadores acham que o serviço público é óptimo e bem distintivo  do serviço privado.
Não admira. Estão sempre lá. Apropriaram-se do serviço público para as suas acções privadas. Tornaram-se os verdadeiros donos da empresa. Com os outros a pagar. Custe o que custar!...
PS: Li que o CA da RTP se sublevou publicamente contra a anunciada privatização. Mas eles não foram nomeados pelo Governo apenas para gerir a empresa? E continuam por lá?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Dionísio numa noite de domingo...

Hoje, recebi um email do meu banco a informar de que posso adquirir uma caixa de vinho distinto, seis garrafas. Dão-me esse privilégio. Não costumo ler estes emails. Li-o e fiquei confuso. O preço é excessivo, penso eu, 237,00 euros, embora esteja incluído tudo.
Eu gosto de bons vinhos, confesso. Presumo que este deve ser mesmo especial. Mas, a par da oferta, o banco, preventivamente, foca um outro aspeto, a possibilidade de obter um crédito para a sua compra, e especifica as condições: "TAEG de 20,0%, TAN de 16,000%, prestação mensal de € 45,93 para um exemplo de um financiamento de € 500 a 12 meses. Montante total imputado ao consumidor de € 555,70, incluindo juros e Imposto do Selo pela utilização do crédito e sobre os juros". Credo! Crédito para comprar meia dúzia de garrafas de vinho? Este pequeno reparo fez-me lembrar a dificuldade que tive em encontrar um restaurante para jantar no último domingo. Dei uma volta pela zona. Ao chegar a Mangualde, convencido de que poderia jantar, bati com o nariz na porta de vários restaurantes. Nada. Tudo fechado, e não procurei poucos. Ao fim de algum tempo desisti, e pensei, vou para a casa, como uma lata de sardinhas ou de atum, um pedaço de pão, uma maçã, bebo um copo de vinho e resolvo o problema. Na viagem de regresso para Santa Comba ainda fiz algumas considerações sobre as razões deste fenómeno dominical, estival e de crise financeira em que vivemos até esbarrar num restaurante de estrada. Olhei e fiquei desconfiado se estaria ou não aberto. Vi um casal no extenso parque de estacionamento, vazio, e perguntei se estava aberto. O cavalheiro, muito surpreendido, respondeu-me, claro que está, acabámos de sair, olhe, o senhor não se vai arrepender, aqui come-se muito bem, isto numa estranha surdina como se fosse portador de um grande segredo. Agradeci-lhe, naturalmente, e fiquei aliviado. Entrei numa sala enorme, às escuras. Ao fundo, uma televisão debitava um jogo da liga espanhola. Atenderam-nos simpaticamente. Foi então que acenderam as luzes. Uma decoração kitsch, que não me incomodou, nem me tirou o apetite. Nada de especial, o jantar, mas também não importava. Vinho? Sim, da casa se faz favor. Uma pichorra de meio litro. Quando o saboreei nem quis acreditar. Uma coisa divinal! Até parecia que tinha sido o próprio Dionísio que tinha descido do Olimpo para compensar a minha tristeza. No final meti conversa com o dono, simpático e experiente. Explicou-me, com muitos detalhes, onde era produzido tão gostoso néctar, e como o obtinha. Fiquei com o seu sabor na boca e os seus efeitos na alma.
Garanto-vos que um dia destes vou até lá. Ai vou, vou. Preço? Quase água da chuva. Não corro risco de me endividar, posso, de facto, correr outros riscos, mas vou ter cuidado, e quem sabe se com alguma persuasão e charme não consiga um garrafão do dito. Quem não pode saber desta história sei eu quem é, o meu banco, claro. Chiça! Se eles sabem que existe uma coisa destas...

Fraude "demográfica"!

Desapareceram 135.000 crianças nas declarações do IRS desde 2010. Uma fraude. Castigo? Proponho o seguinte: os falsos declarantes vão ter de fazer os filhos que declararam. Ficam isentos de coimas e ainda têm direito a um fim de semana à escolha em Portugal pago pelas Finanças. Serve?

Modelo de privatização da RTP- colossal asneira


Não sei se o modelo de privatização da RTP há dias conjecturado por António Borges é ideia do Governo ou do próprio António Borges. E também não sei se as interpretações a que deu aso configuram verdadeiramente o que o Governo (ou António Borges pensam). Mas sei que tudo isto é uma colossal asneira.
De acordo com a interpretação mais generalizada e divulgada pelos media, a RTP 1 seria privatizada, a RTP2 extinta, o serviço público concessionado a quem ganhasse a privatização da RTP1, as taxas de televisão perdurariam e seriam entregues ao novo concessionário. O absurdo mais completo.
Primeiro, porque RTP1 e RTP2 não são realidades empresariais distintas, mas apenas duas unidades da mesma empresa, compartilhando instalações, pessoal e equipamentos. Logo, a entidade a privatizar é a RTP, simplesmente. Privatizada, os seus accionistas fariam dela o que melhor entendessem.
Segundo, porque o serviço público de televisão, a considerar-se que deveria perdurar, deveria ser concessionado a quem se propusesse cumprir melhor e mais barato o respectivo caderno de encargos. Colocando os operadores actuais em igualdade de circunstâncias ou possibilitando mesmo a constituição de um novo operador para o efeito. Com as entropias da estrutura da RTP, mesmo privatizada, difícil é que o custo do serviço público a propor seja o mais baixo.
Terceiro, porque não tem qualquer sentido consignar receitas de taxas ao novo operador do serviço público. O serviço público definido pelo Governo deve ser pago directamente pelo Orçamento de Estado. Se o Estado considerar que os seus beneficiários devem pagar directamente pelo serviço, institui uma taxa. Que, como qualquer taxa, é entregue ao Estado.
As decisões têm que ser claras e assumem-se ou não se assumem, não importando a contestação que sempre trazem. Seria tudo muito mais simples se, pura e simplesmente, se decidisse:
1.      Privatizar a RTP através de concurso público.
2.      Elaborar caderno de encargos, definindo a extensão e compreensão de um serviço público de televisão (se se considerasse que devia existir), nomeadamente conteúdo da programação, defesa da cultura e da língua, número de horas de emissão e outros items relevantes.
3.      Concessionar esse serviço público a quem, em concurso público aberto, apresentasse a melhor proposta.  
Método simples e claro. Toda a gente compreenderia. Mesmo que não gostasse.

O fumador

Horace Fabregoulle era um misto de pobre diabo e de impertinente que era preciso ter em conta, uma figura absolutamente desconcertante que ficava na memória dos que tinham que conviver com ele. Era rotundo e baixo, movia-se com passos incertos e uma moleza indolente, como se hesitasse sempre no caminho, e falava pausadamente ao mesmo tempo que fazia rebolar nas órbitas uns olhos azuis aguados, desmesurados e infantis, parecendo que sentia emoções intensas que a sua fala não conseguia acompanhar ou enunciar. Esse gesto habitual, acompanhado de abundantes movimentos que lhe agitavam os braços ao calhas, como se fosse desarticulado, atraía as atenções daqueles a quem se dirigia, que ficavam a ouvi-lo, pelo menos enquanto não o conheciam bem, à espera que finalmente olhos e mãos e palavras se conjugassem para que dali saísse alguma coisa com sentido e com interesse. Mas Fabregoulle perdia-se invariavelmente nos seus discursos, inventava estratégias para reter as atenções e metia-se por labirintos incoerentes, dizia piadas tolas e ria-se delas e, quando sentia a impaciência de quem o ouvia, desesperava-se, procurava retomar o fio à conversa, suava e finalmente desistia, tomado então, só então, de uma timidez doentia que fazia sentir culpados os que antes se tinham distraído de o ouvir. Inspirava sentimentos contraditórios, ora irritantes ora compassivos, de modo que lá ia progredindo na carreira de forma misteriosa, beneficiando do facto de a organização internacional ter, ela própria, grande rotação de dirigentes, cujos mandatos se esgotavam antes da tolerância que ele tinha a arte de inspirar. A sua vida pessoal era, de resto, um importante elemento desta espécie de cumplicidade que parecia gerar-se em torno da sua existência na organização e que o tinha protegido, tantas vezes, de ser pura e simplesmente afastado das suas funções.
Fabregoulle tinha casado tarde, já perto dos 50, quando a mãe lhe morreu e se viu incapaz de se governar sozinho. Encontrou um mulher disposta a casar com ele e confiou naturalmente que pouco mudaria na sua vida, a mulher tratava-lhe da casa e do que ele precisasse e ele lá continuaria com a sua vidinha e os seus hábitos de sempre. Erro total. A mulher era uma enfermeira reformada, disposta a dedicar-se por inteiro à missão de cuidar de Horace Fabregoulle e, sobretudo, de fazer dele um aristocrata ou, pelo menos, um tecnocrata elegante como os que ela via nas revistas. Magra e seca, ainda bastante energética na sua idade indistinta, gabava a grande inteligência do marido ao mesmo tempo que lhe dizia rispidamente que não deixasse cair nódoas na gravata e que não “maçasse as pessoas" com as suas conversas sem fim. Apropriou-se dele de uma forma feroz, controlava-lhe os gastos até à minúcia, dando-lhe um mínimo por dia, comprava-lhe as roupas sem lhe pedir opinião e, quando o acompanhava, metia-se nas conversas com a sua voz aguda e autoritária para contar como era escrupulosa com a ordem dos objectos em casa, com a arrumação das gavetas, com a limpeza, oh sim, a limpeza, sem higiene não há saúde, não é Horace?, o Horace já sabe, nem pensar em entrar de sapatos em casa, os jornais são uma fonte de micróbios e nada de bebidas, dieta rígida, o Horace dá-se mal com as gorduras, eu trato dele, parece outro. Frabregoulle ouvia aquilo tudo e encolhia-se, com um sorriso aterrorizado, rebolava os olhos e dizia que sim com a cabeça na esperança de que acabasse aquele tormento mas não, ainda lhe dava mais fôlego, as pessoas riam-se e ele imaginava o que sofreria de piadas e graçolas ao corrupio de colegas que lhe iriam falar ao gabinete no dia seguinte. Mas o pior, o pior de tudo, era que ela o proibira de fumar. Proibira terminantemente, nem queria ouvir falar disso. Ora, Fabregoulle fumava desalmadamente, na altura ainda era comum fumar-se em todo o lado mas na casa dele fora de questão, a mulher revistava-lhe os bolsos antes de o deixar entrar, a conferir a ausência de cigarros, nem ao menos na varanda, nem isso!, ele até aceitaria ir para a varanda fumar, apesar de ter terror dos aviões, e logo a ela lhe dera para comprar o apartamento novo junto ao aeroporto, não houve como convencê-la, querida, tinha ele ousado ainda a caminho do notário para fazerem a escritura, sabes que não suporto ver aviões, dá-me tonturas, dá-me nauseas, tenho pesadelos só de pensar que voam por cima da minha casa, mas ela não se comoveu, deixa-te disso, nem ouves o barulho porque o andar tem janelas duplas, fechas as cortinas e nem vês os aviões, um apartamento de categoria, por aquele preço, habituas-te, um dia até gostas. Fabregoulle ia cada vez mais tarde para casa, demorava-se no escritório, tentava reter um ou outro colega com as suas conversas absurdas mas ali ficava sozinho, sentado à secretária, e a mulher da limpeza, uma vez que abriu a porta já de madrugada, estranhou-lhe o ar sonhador, estranhamente feliz, com um pacote de batatas fritas a espalhar-se na secretária, uma garrafa de cerveja já a meio e um cinzeiro a abarrotar de beatas. Horacio Fabregoulle, com os pés em cima do estofo de uma cadeira, fumava o milésimo cigarro com um sorriso idiota, acima do queixo gorduroso a sua boca abria e fechava como a dos peixes,de modo a que o fumo saísse em argolas precisas, de tamanhos diferentes, uma e outra, subiam e chocavam, misturavam-se, desmanchavam-se e ele ria-se, sustinha a respiração, lançava novos círculos, e assim se deixava ficar, horas esquecidas, até que no aeroporto terminassem as escalas dos aviões e a mulher se deixasse finalmente cair no sono profundo, depois de arrumar na cadeira, por ordem de vestir, a roupa que tinha destinado que ele usaria no dia seguinte. De manhã, ele queixar-se-ia, na sua voz lenta e palavreado confuso, das reuniões demoradas e do terrível hábito dos colegas fumadores, que lhe impregnavam as roupas daquele cheiro que, bem sei, querida, tu tanto detestas e eu próprio, como bem dizias, desde que deixei de fumar também já mal consigo suportar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Constituição para todos os gostos ou para desgosto de todos?

A discussão provocada pelo anúncio da solução que o governo alegadamente pretende para cumprir a promessa da privatização da RTP está a gerar efeitos colaterais dignos de atenção. Um deles tem que ver com a conformidade da solução com a Constituição. Ainda não se conhece o diploma que enquadrará normativamente a medida, mas já se conhecem pelo menos as seguintes opiniões de denominados, auto-denominados, reconhecidos e menos conhecidos constitucionalistas:
  • Venda dos canais públicos - inconstitucional;
  • Venda da RTP1 e a manutenção da RTP2 - inconstitucional;
  • Venda da RTP2 e a manutenção da RTP1 - inconstitucional;
  • Concessão da RTP1 e o fecho da RTP2 - inconstitucional;
  • Concessão a estrangeiros - inconstitucional;
  • Concessão ou venda a grupos nacionais de comunicação social promove a concentração - inconstitucional;
  • Concessão com entrega do produto da taxa - inconstitucional;
  • Concessão sem entrega do produto da taxa - mesmo assim inconstitucional.
Claro que já se perdeu a noção de que a RTP como está pode ser constitucional, mas é insustentável. E curiosamente ninguém retomou a questão de saber se a taxa que alimenta a RTP é conforme à Constituição
Seja como for, e a latere desta discussão, começa a revelar-se que uma Constituição que não reune consenso em relação às suas normas mais básicas, sobretudo entre os que alegadamente a estudam com mais profundidade, deixou de ser aquilo que obrigatoriamente tem de ser - o maior denominador comum -, para se tornar o que não pode ser - um dos maiores divisores.
Quando assim acontece, impõe-se uma reforma constitucional a sério para que a lei das leis, que deveria constituir o fundamento do ordenamento jurídico, não se transforme ou seja vista como um empecilho ou, bem pior do que isso, numa lei de eficácia nula.

Emoção

Emoção. Quem é que nunca a sentiu? O que significa? Para que serve? Como a definir? Curtas questões que merecem alguma reflexão. A morte de Neil Armstrong obrigou-me a saborear o seu significado e a criar uma imagem de forma a retê-la para o futuro. Sem esforço surgiu-me uma bela queda de água entoando sons encantadores impregnando os minúsculos espaços vazios deixados pela miríade de gotas de água com as quais os raios de sol se entretêm a brincar, desenhando coloridos quadros da vida. Emoção, combinação da pureza da água, da alegria da luz, do canto de sons únicos, do calor do sol e do doce sabor que tamanha visão pode proporcionar. Quando surge, desaparece tudo. É o momento em que a verdadeira essência da vida consegue manifestar-se em toda a plenitude, embora numa pequena fração de tempo. A eternidade só teria sentido se se confundisse com este sentimento.

Foram muitas as situações que me provocaram tamanha sensação. Muitas e múltiplas. A visão do corpo sem vida da minha amiga de brincadeira em criança, a de um amigo mais velho enviado de África embrulhado na bandeira nacional na adolescência e a de um amigo que desapareceu depois de me ter ensinado o significado da arte de ouvir na vida adulta. Três mortos que ainda sabem despertar a emoção da vida. A par da morte, a vida também é fonte de emoção. O nascimento de um filho, a recompensa inesperada do nosso trabalho ou a pequenina lembrança oferecida pela criança a quem a vida queria fugir. A emoção surge, também, quando partilhamos a vivência de outros, como o caso da judia que vai à floresta beijar a terra onde os seus familiares foram mortos, o ato heróico de um anónimo que sacrifica a sua vida em nome da vida de outros ou a determinação de quem sabe que vale a pena embriagar-se de altruísmo, mesmo que a humanidade não seja merecedora. A emoção surge em momentos de alegria e de conquista, como na prática desportiva em que o atleta vencedor transporta em si algo de nós ou em momentos coletivos onde as diferenças, sejam quais forem, desaparecem como por artes mágicas. A emoção surge quando a alma necessita de ser refrescada pela bela cascata de água pura, seja perante a beleza de um por de sol, seja perante a visão de uma obra de arte ou um poema mágico. A emoção também terá ocorrido quando vimos pela primeira vez a beleza do nosso ponto azul a partir do espaço ou na noite em a Lua foi acariciada pelo homem.

Existem tantas fontes de beleza capazes de despertar emoções que é pena que as não procuremos, e as outras, aquelas que vêm ao nosso encontro, muitas vezes contra a nossa vontade, temos de as aceitar, no fundo, emoção é aquilo que desejamos sentir, mesmo que não aceitemos ou compreendamos muitas das causas.

domingo, 26 de agosto de 2012

A utilidade da "actividade socialmente útil"...

O governo instituiu a actividade socialmente útil a desenvolver por parte dos beneficiários do rendimento social de inserção (RSI). O governo quer que estas pessoas prestem um contributo cívico a favor da comunidade ode se inserem.
Encaro esta medida não como uma medida castigadora ou penalizadora que actua sobre pessoas que são preguiçosas e que não querem trabalhar. Criou-se na sociedade a ideia, não por acaso, que os beneficiários do RSI são oportunistas e vivem à custa do Estado. No essencial, trata-se de um grupo de pessoas fragilizadas, normalmente pertencentes a grupos económicos de baixos rendimentos e socialmente vulneráveis, sem qualificações, com graves problemas de integração social.
A verdade é que o RSI não deveria ser administrado como um mero subsídio, quando tem subjacente na sua criação a função de combate à pobreza e exclusão social. Este deficiente desempenho explica a habituação e a acomodação de muitos beneficiários e a fraude no acesso.
A medida pode ser vista como um factor de inclusão social. Com efeito, o trabalho dignifica, a integração numa organização ou comunidade cria práticas de trabalho e responsabilidade, valoriza as capacidades e cria oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. O trabalho cívico beneficia a sociedade, mas é também uma oportunidade de aprender e receber. A actividade socialmente útil pode ser uma oportunidade de autonomia para os beneficiários do RSI.
Mas a aplicação da medida esbarra com uma barreira difícil, a barreira da mentalidade, há uma barreira cultural. O país não tem tradição de trabalho cívico e comunitário, com o simples (mas igualmente complexo) objectivo de contribuir para uma realização comum ou uma causa social, colocando o interesse comum acima do interesse individual. Não menos importante, é a cultura que está instalada sobre direitos e deveres, as pessoas habituaram-se a exigir direitos esquecendo o lado dos deveres.
A realização de actividades socialmente úteis implica que as pessoas estejam preparadas, tenham gosto em fazê-lo e o façam em liberdade. De contrário, é de prever conflitos nas organizações onde sejam integradas, o que é potenciado neste caso pela natureza da ocupação. Não é trabalho remunerado, nem é trabalho voluntário, não pode substituir e concorrer com postos de trabalho, mas também não pode ser uma “força de trabalho explorado”.
Eis uma medida que em condições normais teria gerado polémica. Mas não. Até ao momento esteve fora da discussão política e dos holofotes da comunicação social. O assunto da privatização da RTP falou mais alto, monopolizou tudo e todos, até parece que não há mais nada de importante e preocupante no país…

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"Sorriso diabólico"

Levanto-me depois de uma noite de pesadelos, coisa muito pouco habitual. A esta hora ainda consigo lembrar-me de algumas passagens desse filme, um terramoto com edifícios a deslocarem-se por inteiro em betesgas e a tombarem uns sobre outros, enquanto via as pessoas desesperadas a gritar dentro deles, e eu, não sei por que carga de água, conseguia sempre evitar os acidentes e ainda aproveitava a deslocação dos edifícios como se fossem trenós. É o diabo, é o diabo que anda à solta, ouvia perfeitamente por tudo o que era sítio. Não sei se posso considerá-lo como um verdadeiro pesadelo, porque não me recordo de ter tido medo ou manifestações de ansiedade. Agora que penso nisso tenho uma explicação para tão insólito sonho. Quem é que me mandou andar a escrever sobre "o dia em que o diabo anda à solta"? Bem feita, pões-te a dissertar sobre certos temas e depois tens a paga. Paciência, pensei. Abro a televisão e vejo a notícia sobre a condenação de Breivik, o norueguês responsável pela horrível matança. O olhar e a forma como sorria, à medida que a juíza ia proferindo a sentença, assustou-me. Senti medo e até ansiedade. Vi aquilo que posso considerar como o mais diabólico sorriso. O mal consciente, a verdadeira personificação do diabo estava ali, satisfeito por não o terem considerado como doente mental, mas como alguém que soube o que fez. Sem qualquer manifestação de remorso, pelo contrário, via-se uma estranha satisfação, prazer mesmo, sensação de superioridade face às vítimas, face à justiça e face à humanidade. Foi condenado a vinte e um anos, mas no final pode continuar por períodos de cinco anos a solicitação do ministério público norueguês. Ou seja, na prática, devido a ser altamente perigoso, não mais sairá da prisão. Ainda bem. Deus queira que sim. Neste caso nunca poderá ter um dia livre por ano, que, segundo a tradição, São Bartolomeu, o guardador do diabo, lhe concede por comiseração. No dia em que "o diabo anda à solta" a sentença proferida pelos seres humanos irá encarcerar até à morte o diabo. Sim, ele existe, eu vi-o, e não quero vê-lo mais.
Não quero ver aquele sorriso, nunca mais.

O biombo e o que está por trás

São inevitáveis leituras como esta do anúncio pelo Dr. António Borges da decisão política muito relevante sobre a rádio e televisão públicas em Portugal. De facto, ao invés do que acontece noutras paragens em que as medidas dos governos, mesmo as mais relevantes, são anunciadas por porta-vozes qualificados que não integram os executivos, a verdade é que não é essa a nossa tradição.
Creio, no entanto, que a questão do mensageiro não tem a dimensão institucional que alguns lhe dão, e sobretudo é pouco importante (mesmo que o mensageiro tenha influenciado a decisão, coisa que não me escandaliza pois foi para isso que contrataram o Dr. António Borges). Mais relevante é saber se o que foi anunciado (apagar o canal 2 da TV e a antena 3 da rádio e concessionar os restantes canais, mantendo a propriedade pública) é o caminho certo. Não estou seguro que a discussão vá por aí dada a tendência de ligar mais ao biombo do que aquilo que o biombo encobre...

Joseph-Ignace Guillotin!

Acabo de ler este artigo de Juan José Millas. Está a fazer furor na Europa. Depois de o ler veio-me à memória, instintivamente, a "invenção", ou melhor, a reutilização do instrumento do médico francês Joseph-Ignace Guillotin. Não é que seja adepto da pena de morte, mas volta e não volta associo certos fenómenos ao seu uso. É o que me está a acontecer neste momento.

Cuidado, hoje é o "dia em que o diabo anda à solta"

Não se esqueçam de que hoje é o "dia em que o diabo anda à solta", tudo por causa da bondade do santo que o aprisionou, São Bartolomeu, que todos os anos lhe concede uma saída precária para que o mafarrico não fique irritado ou triste. Pois é! O pior é que entre nós, Portugal, o gajo deve andar à solta há muito tempo sem que o pobre Bartolomeu saiba. Esta coisa de os santos andarem a meter-se nos copos é o que dá! Tenham muito cuidado. Quem vos avisa, amigo é...

Atenção. O amigo Bartolomeu, comentador deste blogue, não tem nada a ver com isto, que eu saiba, ou imagino, ainda não é santo!

Provença - Montes de Luberon

Uma das paisagens mais bonitas deste nosso passeio pela Provença foi o da Route des Crêtes, depois de passada a bela cidade de Marselha, rumo ao sul, até La Ciotat e depois Cassis, duas cidadezinhas com porto de pesca, lindas falésias e praias. Toda aquela região é rochosa mas a cor branca do calcário e as caprichosas formas que assume quando desaparece por completo a vegetação, já perto dos cumes, criam duas ilusões de óptica tão “reais” que por várias vezes nos fez parar no caminho para termos a certeza do que víamos. Por um lado, apesar da proximidade do mar, do calor imenso que fazia e de as montanhas serem pouco elevadas, o facto é que a brancura das pedras é tão luminosa que parece neve a brilhar ao sol; por outro lado, ao longo da cordilheira as cristas dos montes mais altos terminam com formações rochosas totalmente geométricas, verdadeiras fortificações alinhadas que parece isolarem os cumes, protegendo-os de qualquer tentativa de acesso. Os topos surgem debruados como se tivessem sido encarcerados por rochas perfeitamente alinhadas, é preciso apurar a vista, serão ruínas de castelos, será possível tão gigantesca muralha, o que esconderiam estes ermos de tão valioso para que se quisessem inexpugnáveis? Mas não, não foi mão humana, se bem que em toda a região, desde Toulouse até ao coração da Provença, tenha sido palco de acesas lutas religiosas contra os Cátaros, no séc. XIII, numa perseguição brutal que durou quase um século e que levou os perseguidos a escolher alturas cada vez mais a pique, agrestes e inóspitas que fortificavam e onde viviam em aldeias inteiramente construidas em pedra, que se confundiam com a rocha. Há inúmeros vestígios das cidadelas suspensas dos Cátaros, verdadeiros prodígios da sobrevivência e do desespero dos perseguidos, mas nenhuma se assemelha aquelas cristas brutais, violentas, paredes de rocha firme numa muralha natural e impossível que se alinha por quilómetros e quilómetros de montanha.
Já em plena Provença, para além das cidades obrigatórias de Aix-en-Provence, Avignon e Arles, grande destaque para a região montanhosa e reserva natural do Luberon, com capital em Apt, que era o nosso destino em visita a uns amigos que passavam férias em Bonnieux, uma das aldeias mais bonitas de França, com vista para o Monte Ventoux e para o seu enganoso cume calcário, branco como a neve. Bonnieux, tal como outras aldeias em redor, é encimada pelo pináculo em agulha de uma bela igreja do séc. XII e toda muralhada, perdendo-se em labirintos de rocha e muros, em socalcos, de tal modo que, visto da curva da estrada onde se desvenda, parece um presépio de pedra branca abrindo-se num manto de casinhas amontodas à medida que escorrega para o sopé da montanha. Mesmo em frente, na enconta da montanha vizinha, fica a aldeia de Lacoste, dominada pelo ainda imponente Castelo do Marquês de Sade, também ela quase inexpugnável pelos seus muros pedregosos e pelas ruas íngremes e estreitas que quase ocultam as habitações da mesma cor. O castelo e a aldeia foram comprados pela Fundação Pierre Cardin, que aí fez uma escola de arte e design e que está a reconstruir o original da aldeia, fazendo das antigas moradas residências de estudantes, salas de aula e tudo o que é preciso para aí manter um grupo de jovens artistas. Mas a mais imponente das aldeias da região é sem dúvida Gordes e o seu castelo do sec. XVI, amparada por fortes muralhas em socalcos, sem outra cor que não a do calcário luminoso e das portadas rústicas em madeira escura, num equilíbrio impossível e misterioso de ruelas, arcos, túneis, tudo salpicado de cafés, esplanadas e intenso comércio turístico. Ainda nesse círculo encantado e numa volta da estrada damos com a aldeia de Roussillon que, num capricho da natureza, se eleva sobre um conjunto rochoso vermelho vivo de que se extrai o ocre, falésias ardentes no meio da brancura das aldeias irmãs, aí o casario é rosa e amarelo forte e todo o comércio é centrado na cor, nas paletas dos artistas, nas casas de decoração e na múltiplas formas de arte em que a cor predomina estridente e calorosa.
O Luberon é uma viagem à História, às antigas formas de viver e sobreviver, à harmonia mas também á luta com a natureza, penhascos e canais de água serpenteando pela aridez, bosques frondosos e rochas nuas e escarpadas, branco e verde, azul intenso no céu, quem diria que o calor sufocante apenas aliviado pelos ramos generosos dos castanheiros seculares e dos pinheiros imensos era apenas uma breve trégua no assobio agreste do Mistral, o vento da Provença que tudo dobra e a que tudo obedece.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Espermatozoides velhos? Velhos são os trapos!

Diariamente surgem notícias que abalam algumas convicções e promovem uma certa ansiedade quanto ao futuro da nossa espécie. Faz capa de muitos jornais a notícia de um trabalho realizado com base no genoma da única população mundial onde isso é possível, a islandesa, revelando que, "a cada ano que passa, os espermatozoides do pai têm, em média, mais duas mutações novas no seu genoma que transmitem aos filhos". Sendo assim quanto mais velho for o pai maior é o risco de mutações que, neste estudo em concreto, estaria associado a um aumento da esquizofrenia e do autismo. É um facto que estas duas doenças estão em crescendo, havendo quem fale de uma epidemia de autismo. Relativamente a esta última, foi implicado há alguns anos a utilização de um composto mercurial, conservante das vacinas, como sendo o principal responsável originando uma fobia social a vacinas sem precedentes, o que fez com que muitas crianças deixassem de poder usufruir os benefícios da maior conquista da medicina. O trabalho que despontou este fenómeno foi publicado na prestigiada The Lancet, em 1998. Passados doze anos a revista foi obrigada a retratar-se na medida em que foi provado que o estudo era falso. Há cerca de dois anos comentei este assunto de onde transcrevo a seguinte passagem: "Pois bem, agora, ao fim de 12 anos, a revisa médica britânica acaba de retirar do seu arquivo o polémico artigo. Esta retratação surge na sequência de um pedido formal nesse sentido efetuado noutra publicação científica, The British Medical Journal. Afinal, o autor do artigo, Andrew Wakefield, é acusado de má conduta científica. Trabalhava para os advogados de pais que achavam que os filhos tinham sido vítimas das vacinas".
Agora surge esta notícia, maior risco de autismo caso o pai seja de idade avançada. Talvez, porque o processo de envelhecimento é acompanhado ou devido a acumulação de erros. No entanto, é preciso destacar que em ciência existe um fenómeno que merece ser destacado; a associação entre um factor e uma doença é uma condição necessária mas não suficiente para explicar a causalidade, logo, não pode nem deve ser considerada como sinónimo desta. A pluricausalidade das doenças é uma realidade que merece ser destacada.
Votando ao tema "envelhecimento do espermatazoides e acumulação de erros no genoma e sua transmissão às gerações seguintes" não me parece ser nada de preocupante e mesmo que seja podemos ter a certeza de que estamos perante um fenómeno de evolução cultural e biológica.
O homem vive a maior parte da sua vida num estado de excecão, a velhice. As espécies têm uma finalidade evolutiva, chegar à idade de reprodução. Após esta os seus elementos já não são necessários. No caso dos humanos, a evolução passou a ter, também, um importante contributo cultural com efeitos biológicos não previsíveis. A reprodução, influenciada por forças sociais, tem passado a ser cada vez mais tardia, tanto nas mulheres como nos homens. É perfeitamente natural que surjam efeitos mutacionais decorrentes deste fenómeno. Muitas das mutações são neutras, outras são negativas e terá de haver, forçosamente, algumas positivas. Quais? Não se sabe, até porque são necessárias muitas gerações para se poderem manifestar como algo "natural". É preciso, igualmente, não esquecer que a propensão para certas patologias podem ser positivas, caso daquele "toque" ligeiro a apontar em direção à esquizofrenia, por exemplo, que acaba por tornar os seus portadores mais criativos, mais inteligentes, mais afoitos, enfim, mais "diferentes". Como a doença é um continuum, os que estão na mesma linha, e que não são categoricamente doentes, são dotados de alguns atributos benfazejos.
Curiosamente, os espermatozoides, ao contrário de outras células, em que os telómeros (apêndices dos cromossomas) vão ficando mais curtos com a idade, e quanto mais curtos menor é a longevidade, aumentam com a idade transmitindo esta característica à descendência. Tudo aponta para que a longevidade de um indivíduo seja definida mais pelo lado paterno do que materno. Sendo assim, o provérbio, “homem velho e mulher nova fazem filhos até à cova” deve ser complementado pelo seguinte: homem velho e mulher nova fazem filhos que nunca mais chegam à cova... Maior risco de autismo? Maior risco de esquizofrenia? E depois? Maior longevidade, e talvez "maior propensão para a criatividade e inteligência". Esta última frase é mera especulação minha, mas nunca se sabe, porque o Homo sapiens originou a subespécie Homo sapiens, sapiens e esta poderá originar outra, Homo sapiens, sapiens, "sapiens", graças à forma como estamos a evoluir. Espermatozoides velhos? Velhos são os trapos!



Julgar pela sensibilidade olfativa

Sinto um certo desconforto quando vejo um juiz com tendência para se substituir ao legislador, fazendo a lei para o caso concreto que tem diante de si por apelo ao que julga ser a sensibilidade social e, não raro, à sua convicção pessoal sobre factos que a lei qualifica e valora. Dir-me-ão que o juiz que assim põe ao serviço da justiça o seu apurado olfato, reage como quase todos os seres humanos neste mundo permanentemente interpretado pela mediação comunicacional: deixa-se influenciar pelo que aparece repetidamente publicitado como socialmente justo. Esquece-se, porém, que o que tem de considerar justo é o que é legalmente devido.
À minha frente tenho a lei e tenho a sentença. Ambas versam sobre as mesmas realidades da vida. A lei, é certo, representa-as em abstrato e determina as consequências para o que nela se consideram desvios ao que estabelece como norma. A sentença, avalia uma situação concreta da vida prevista e regulada por aquela lei. A lei não é daquelas equívocas, esburacadas, que abrem campo largo à discricionariedade do julgador. É até invulgarmente clara e assertiva. Preferiu o tribunal escapar ao silogismo que a lei impõe e optou pelo que o nariz do magistrado informa ser a medida do socialmente justo.
Lembrei-me de Piero Calamandrei e encontrei o que a propósito escreveu o célebre advogado no seu Elogio dei Giudici Scritto da un Avvocato:

  • "Mais do que os virtuosismos cerebrais da dialética, os juizes fiam-se na sua sensibilidade moral e quando são obrigados a encher de argumentos jurídicos as razões das suas sentenças, consideram essa tarefa como um luxo de intelectuais desempregados, visto estarem convencidos que, desde que aquela sua íntima voz da consciência tenha falado, já não são precisos argumentos racionais"

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"Santo Soldado"

As lendas não são mais do que lembranças de memórias coletivas embriagadas de desejos e aspirações. Muitos factos são reconhecidos ao acordar, mas, face às imperfeições, exigem sucessivos retoques, qual deles o mais fantasioso e o mais belo. E assim, pincelada sobre pincelada, palavra sobre palavra, som sobre som, constrói-se um final, ou algo parecido, que, ansiosamente, pede para ser perpetuado. As lendas têm esse condão, pedem para que as perpetuemos, precisam do nosso sopro de vida e em troca concede-nos o dom de as recriar, alimentando a nossa imaginação. Não há vila, cidade ou lugarejo que não tenha a sua lenda, que a alimente, que a projete e que a proteja. Andei por várias localidades, casualmente tropecei com algumas lendas que já conhecia, outras não. Sou um amante de lendas, nelas vejo um passado cheio de fantasia, de amor, de sofrimento, de fome, fome de justiça, fome de esperança e fome de felicidade, mas também me cativa fazer as minhas próprias interpretações. Noite de verão, quente, embora suavizada pelo encantamento do rio Lima. Olho para a torre e um belo painel de azulejos descreve o episódio de Afonso Henriques, em que um frade, simpático, levou a merenda ao novel rei e aos seus homens que se entretinham na caçada, mas que, sobressaltados pela ameaça dos leoneses, puseram-se em guarda, interrompendo o repasto, e foram de encontro ao tropel ameaçador que se avizinhava ao longe. Tranquilo, o abade continuou a comer e a beber. Passado algum tempo, apareceram os homens de peleja mais o seu rei que, espantado com a atitude do abade, lhe disse: Cabras são, senhor! E daí surgiu o lugar de "Cabração" com todas as mordomias reais. Ao saltar de localidade para localidade caíam-me lendas e mais lendas. A sabedoria do abade, face à real ignorância em distinguir um rebanho de cabras selvagens de gente de armas, contrastou com o patriotismo da Inês Negra que duelou à espadeirada, à forquilhada e ao arrancar de cabelos com a Arrenegada, adepta de Castela, que a desafiou, definindo o futuro de Melgaço a favor dos portugueses. Uma luta singular a relembrar o bafordo de Arco de Valdevez, este mais real, menos lenda, mas mesmo assim a tombar para a beleza inerente à última. O galo de Barcelos teima em levantar-se sempre que se conta a lenda, não deveria ser capão com toda a certeza, mas a história da lenda das cruzes revela as consequências do mau carácter de alguém que acaba por mostrar o seu arrependimento, uma lenda que justifica muita coisa, sobretudo a necessidade da conversão, uma lenda com finalidade evangelizadora, tal como está provado no Templo do Senhor Bom Jesus da Cruz. Em Vila Real fui à Igreja da Misericórdia. Desta feita consegui visitar o monumento. O pavimento, de madeira, dividido em pequenas câmaras, numeradas, tradutor da velha prática de enterramento nas igrejas merece particular atenção. Um das campas não tinha a cobertura em madeira, era de mármore, com a seguinte inscrição,"AQUI JAZ O SANTO SOLDADO JOSÉ CUSTÓDIO INOCENTEMENTE ARCABUZADO EM 12-5-1813". Fiquei intrigado e meti conversa com o zelador da igreja que muito prestavelmente me informou que o soldado em questão foi condenado à morte por ter roubado uma píxide de ouro de uma igreja. O soldado de Mirandela não foi o ladrão, mas sim um primo que o quis comprometer. Jurou sempre a sua inocência, mas acabou por ser arcabuzado. Foi-lhe encontrado no corpo apenas uma bala, a do primo, o tal que lhe quis fazer mal. Os outros soldados dispararam para o ar. E o pai, acabado de regressar de Lisboa com o indulto real, pedido pelos próprios oficiais, que tinham o maior apreço e respeito pelo seu filho, não chegou a tempo de o salvar, mas ainda ouviu a salva de tiros ao entrar na cidade. Existem outras versões, mas esta é paradigmática daquilo de que são capazes alguns seres humanos quando querem comprometer ou destruir a vida do próximo, mas também da cegueira da justiça e da não aceitação da palavra dos que até à morte clamam pela sua inocência. A má consciência dos humanos levou-os a considerar José Custódio como o "santo soldado", como se o atributo de santo fosse uma espécie de consolação pelos males da sociedade que o levaram à morte. É mais fácil ressuscitar um galo ou converter um qualquer pervertido do que salvar a vida de um inocente...

Quem tem razão?

Está lançada a polémica. Não é nova, é recorrente o assunto relativo às taxas cobradas pelo sistema bancário aos comerciantes pela utilização de cartões de débito e cartões de crédito.
A cadeia Pingo Doce anunciou que a partir de Setembro deixará de aceitar pagamentos com cartões multibanco e cartões de crédito em compras com valor inferior a 20 euros.
O espanto parece ter sido grande e as reacções não se fizeram esperar. Confesso que não fiquei admirada. Há já muitos estabelecimentos comerciais que não permitem o pagamento electrónico. Quem é que ainda não se confrontou com situações de comerciantes com avisos nas lojas “multibanco avariado” ou “sistema fora de funcionamento” ou de comerciantes que simulam o pagamento através do equipamento, para logo de seguida informarem que a culpa é das comunicações que não estão a funcionar e convidarem os clientes a dirigirem-se à máquina Multibanco mais próxima, aquela que fica logo ali ao virar da esquina. Estas práticas são o reflexo da crise que obriga à descida das margens do negócio. Poderemos assistir à sua generalização. Os comerciantes queixam-se que as taxas cobradas são muito elevadas.
Compreende-se a posição dos comerciantes, mas no final todos perdem, incluindo os bancos porque o volume de pagamentos electrónicos terá tendência a diminuir. No meio da polémica que opõe os comerciantes e os bancos estão os consumidores que pagam por tabela. Perdem em segurança,  comodidade e eficiência.
Será que não há espaço para uma solução em que todos continuem a ganhar com a utilização do Multibanco? Como será que esta polémica vai evoluir?

Amiguismos


Lembro-me bem dele na faculdade, do seu feitio irrequieto, quase truculento, que no entanto não destoava no ambiente daqueles tempos. Tínhamos todos mais sangue na guelra e a inquietude permanente, reflexo da revolução recente, ainda se fazia sentir na academia. Fizémos o estágio ao mesmo tempo, apressando a confirmação de presença nas conferências inúteis e a fugir delas direitinhos à "ginginha da Ordem", como lhe chamávamos, tomada ali, em amena cavaqueira, no conhecido estabelecimento em frente do Largo de S. Domingos. Encontrei-o, depois, nas duas ou três ocasiões em que a profissão nos reuniu. Percebi pelas referências que fui colhendo aqui e ali, na comunicação social, que a vida lhe corria bem. Contrariando os vaticínios de muitos dos seus antigos colegas que não lhe viam grande capacidade para apreender teorias, nem disposição para práticas esforçadas, afinal não se podia queixar de falta de sucesso na profissão.
Desta vez foi o acaso que nos fez sentar à mesa do café neste agosto cálido, numa Lisboa entregue aos turistas. O assunto da conversa, o mesmo de que partilham milhões de portugueses: a crise, os sacrifícios, as dificuldades. A necessidade de nos adaptarmos a novos tempos, a advocacia já não é o que foi, nem vai voltar a ser. Concordei. E desfiei o discurso treinado com os colegas mais novos, a quem procuro convencer que há que apostar cada vez mais nas novas ferramentas, na atualização de conhecimentos, na atenção aos efeitos do contínuo experimentalismo a que teimam chamar "reforma da justiça", a necessidade de repor o prestígio social perdido pela profissão, pelos profissionais e pela associação pública que os representa e que se deveria mostrar capaz de mudar este estado de coisas.
- Ó pá! Isso não interessa nada! Contactos, pá! Contactos! Temos é que estabelecer redes de contactos. Nada neste país se resolve sem contactos. Olha o exemplo do J... Tinha o escritório de rastos, estava a dispensar colegas. Hoje não o ouves queixar-se da crise...
No estilo que foi sempre o seu, excitado, foi-me relatando êxitos de outros colegas, pessoas de decisão aqui, nomeados para o conselho de administração além, de influência ali, êxitos de que contava em breve poder beneficiar. Estava prestes a fazer também seus os amigos e os contactos dos outros, dizia-me. Tinha jantado com este, tinha almoçado com aquele, reunido com o sócio de...
Despedimo-nos. Da conversa sobrou a recordação de bons e divertidos tempos. E a confirmação dos que continuamos a viver...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Por caminhos "dourados"...


Gosto do Douro, em especial do Douro Vinhateiro. Para quem quer descansar, repousar na beleza e no encanto da natureza e desfrutar um ambiente romântico e bucólico a região do Douro é realmente um destino de eleição. Nunca cansa, pelo contrário, quanto mais se conhece mais vontade se tem de voltar. São muitos os locais de refúgio, especialmente situados nos socalcos do magnífico rio Douro. Talvez seja da idade, mas noto uma cada vez mais necessidade de quebrar suavemente a rotina do dia-a-dia, de sossegadamente não repetir os mesmos trajectos, de ir ao encontro de ambientes que convidam ao relaxamento. A natureza é tão magnífica que compensa os atentados urbanísticos que também atingem esta zona, num contraste óbvio entre uma arquitectura agrícola esmerada que enaltece o rio, as montanhas e os seus vales e uma anarquia urbanística a revelar falta de sensibilidade e o que de pior conhecemos do negócio imobiliário.
O passeio começou em Amarante, cujo centro histórico merece ser visitado. Trata-se de uma parte da cidade, que embora pequena em área tem uma grande concentração de monumentos, é grandiosa em história, cultura e tradições, com o enquadramento harmonioso e fresco do Rio Tâmega. Justifica a ida, uma dormida se possível, para pela manhã cedo ver as cores do nascer do dia despontarem e matizarem-se numa pintura que combina os azuis do céu, os verdes das águas do rio e das margens ladeadas por frondosas e centenárias árvores e a pedra dos monumentos históricos.
Amarante é conhecida pela Ponte de São Gonçalo que atravessa o Rio Tâmega, uma ponte com muita história para contar. A construção da velha ponte é atribuída a São Gonçalo, santo padroeiro da cidade, destruída em 1763 devido às cheias do rio. Foi reconstruída nos anos seguintes e, muito mais tarde, foi palco de um dos episódios mais marcantes da segunda invasão francesa.


Depois de Amarante a viajem prosseguiu para o Douro. A opção não foi o caminho mais rápido – por autoestrada – mas antes a estrada nacional que liga Amarante a Mesão Frio (está em muito bom estado). É um passeio lindíssimo de montanha que permite o contacto com um património paisagístico que não se pode perder. Mesão Frio é uma vila ancestral, rica em solares e igrejas, mas o que mais impressiona são as vistas grandiosas. É um anfiteatro voltado ao Douro, do qual se podem mirar paisagens a perder de vista, feitas de montanhas e vales forrados de vinha e recortados pelas águas brilhantes do rio. São paisagens deslumbrantes. De Mesão Frio ao Peso da Régua é um saltinho…

domingo, 19 de agosto de 2012

Noite...

Por mais que viva não consigo conciliar certos acontecimentos que me fazem despertar sentimentos e emoções tão díspares. Além de não conseguir fico com uma estranha sensação de que algo não está bem ou, então, acabo por sentir uma indisposição na alma que não me deixa em paz. Estou em férias e tento descansar no verdadeiro sentido do termo. Mas como é já habitual, acabo por ter de passar por situações menos agradáveis. É uma sina a que não consigo fugir. Eu queria descansar o corpo, mas também a alma. O primeiro ainda vai resfolgando na modorra estival, mas a alma não tem esse direito. Um amigo, a quem foi diagnosticado uma situação grave, muito grave, e com quem tive há poucas semanas a última conversa, tem-me perturbado o meu sossego. Nesta semana, tive de tentar arranjar outros meios, mais sofisticados, para poder aliviar-lhe o seu sofrimento. Contactos, mais contactos e ficou tudo preparado para que na segunda-feira pudesse dar início à última fase da vida, minimizar as excruciantes dores. Sexta-feira, hora de jantar, comunicaram-me que tinha acabado de falecer. Velório em casa. Fui vê-lo. Evito olhar para a face de um morto conhecido. Desta feita não consegui. Comecei a reviver alguns períodos, sobretudo os das campanhas eleitorais autárquicas. Gostava tanto, que, apesar de não fazer parte das listas, tirava sempre uma semana de férias para nos acompanhar, transformando-se praticamente no meu ajudante e motorista. Trazia as suas bandeiras. Uma delas, a nacional, um belo estandarte de tecido fino, soberanamente bem cuidado, que não deixava ninguém tocar, era o seu orgulho. Como era seu amigo e médico, tinha o privilégio de a empunhar sempre que o desejasse. Bom, e as histórias que passámos juntos? E as histórias que me contava e as que revivíamos? E as festanças durante as campanhas, a ponto de corrermos o risco de ter de as encurtar por motivos óbvios? E o último dia da campanha em que éramos os últimos a fechar a caravana? Tantas recordações. Mentalmente disse-lhe que não ia ao funeral no dia seguinte, já tinha tudo preparado para passar três dias paras as bandas de Ponte de Lima e como já nos tínhamos despedidos em vida há poucas semanas, agora era eu que me despedia dele, morto, mas, ao menos, sabia que estava tranquilo e sem sofrimento. Apeteceu-me pedir-lhe a bandeira que tantas alegrias nos deu e que está impregnada de bons e saudáveis sentimentos e recordações. Não é que me seja difícil arranjar uma, mas aquela, aquela é muito especial. Ou aquela ou nenhuma. Saí. No dia seguinte fiz o percurso e à noite, sábado minhoto, sábado de alegria, no meio daquelas aldeias espalhadas pelos montes e várzeas, deslumbrei-me com inúmeras manifestações de vida. Arraiais e músicas ecoando por toda a parte, misturando-se umas com as outras e sinos das igrejas a darem as meias-noites, perfeitamente dessincronizadas, como se cada uma tivesse o seu próprio tempo, o mesmo acontecendo ao fogo de artifício que emanava de todos os pontos cardeais, num verdadeiro foguear ao desafio. Uma noite suave, cheia de encanto, de cor, de som, de vida, de esperança, de alegria, tudo a emergir da terra em direção ao céu, como se fosse a melhor forma de dar significado à existência, deixando, o que lhe fica nas suas entranhas, entregue ao esquecimento.
Na varanda da casa minhota, rodeada por uma natureza única, bela e fértil, começo a sentir uma brisa fria transportada pela noite. Deve ser o Lima, pensei. Há pouco passei o rio de uma margem até à outra e olhei para as suas águas na esperança de que me fizesse esquecer. Não surtiu efeito. Será que esta brisa riscada de humidade, proveniente do rio do esquecimento conseguirá ajudar-me a passar a noite?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Seguro total: sol na eira e chuva no nabal e vice-versa


António José Seguro é um poço de contradições. Por um lado, critica o Governo por um suposto défice superior ao previsto em 2012 e desafia Passos Coelho a tapar o “buraco” das contas públicas. Por outro, insiste diariamente em que os cortes na despesa são a causa do desemprego e da crise e promovem a falência dos serviços  públicos.
 Se fosse coerente, Seguro devia exigir que o Governo não tapasse o buraco, pois tapar o buraco é diminuir a despesa e diminuir a despesa é obrigar os portugueses a mais sacrifícios, no dizer de Seguro. E os impostos não devem aumentar, também diz, e agora bem, Seguro.
Se há um desvio no défice, é porque os cortes na despesa pública não foram os suficientes, face às receitas efectivas. Se esses cortes não foram os suficientes, Seguro devia estar satisfeito, pois, na lógica que vem desenvolvendo, minimizam os sacrifícios dos portugueses.
Enfim, Seguro quer mais despesa para gerar crescimento, mas quer simultaneamente menos despesa para tapar o buraco. E menos impostos.
Seguro quer sol na eira e chuva no nabal e, ao mesmo tempo, chuva na eira e sol no nabal. Quer tudo; arrisca-se a ficar sem nada.


A caminho da Provença

Este ano resolvemos vir conhecer a Provença, uma das poucas regiões de França que ainda não tínhamos visitado. Viemos de carro desde Toulouse e apartar daí começou o passeio até à Camargue, onde fica o primeiro sítio que escolhemos para ficar os dois primeiros dias.Depois de Carcassonne rumámos para a costa mas tenho que reconhecer que não foi boa ideia viajar a meio de Agosto, o trânsito bloqueava junto às praias e foi praticamente impossível sequer chegar perto do mar. Valeu a pena vir ao longo do Canal do Midi que oferece lindas paisagens e depois entrar em Aigues Mortes, onde o Rei Luis IX fez construir uma cidadela medieval no sex.XII para marcar o seu domínio do Medierrâneo e daí partiu para a cruzada à conquista de Jerusalém. Atravessada a meio por um braço de mar e dominada pelo imponente forte medieval, Aigues
Mortes tem uma notável indústria de salinas, um incessante movimento de barcos que cruzam o canal até ao Porto em paralelo com um comboio cuja linha se cruza com o trânsito. A conjugação de tudo isto levou-nos quase duas horas a percorrer o pequeno espaço até à praia no meio de uma multidão de veraneantes. Soube-nos bem chegar à Bouche do Rhône e descobrir o local do nosso alojamento, um encantador "Logis" que, seguindo uma velha prática, marcamos pela net e vamos à aventura sem saber bem o que nos espera. Trata-se desta vez de uma quinta familiar, adaptada a hotel rural, com um alpendre enorme, suportado por grossas vigas de Madeira no topo das quais há uma enorme caveira de boi, ao melhor estilo da zona, conhecida pela criação de gado e o elos seus belíssimos cavalos brancos, alguns dos quais pastam pacificamente na pradaria que se estende bem na frente da casa. Tirando os mosquitos, verdadeiros bisontes locais, o sítio é muito agradável e um belo ponto de partida para começarmos a explorar os arredores. 

Que mundo tão estranho!

Há histórias que não sendo originais acabam sempre por nos fazer refletir sobre a condição e a pretensa superioridade dos seres humanos que, segundo alguns, foi definida por interesses divinos, o que é de desconfiar.
Descanso na esplanada, junto à ribeira, que chora de tristeza pela forma como a têm tratado ultimamente. Nota-se que perdeu a alegria, já não consegue elevar-se com o seu habitual cheiro de água fresca. Está envergonhada, e eu também. Conseguimos partilhar o mesmo sentimento, vergonha.
A minha mulher senta-se a meu lado, depois de ter ido assinar um documento qualquer. Conta-me que encontrou uma pessoa conhecida. - Está velho. - Sim? - É verdade. - Disse-me que estava no advogado para tratar uns assuntos nada agradáveis por causa dos irmãos. - Mas vocês, os setes, eram tão amigos, tão juntos. - Pois éramos. Continuei no meu silêncio de espanto para a estimular a contar mais pormenores. - A mãe morreu-lhe e antes de morrer foi um corrupio, doente, esteve em sua casa e depois teve que a colocar num lar. Continuei com o meu silêncio. - Sabes? Contou-me que nenhum dos irmãos foi ver a mãe, nem quando esteve na casa dele, nem ao lar e nem foram ao funeral. - Às tantas vivem no estrangeiro. Avancei. - Não! Vivem todos no país. - E não foram ao funeral da mãe? Que estranho. Ripostei. Não me foi particularmente difícil de analisar tão estranho comportamento o qual contrastava de forma perfeita com mais um relato emocionante. Tinha acabado de ler que um cidadão espanhol, aos dez anos, se viu envolvido no meio da maior manifestação da perversidade humana, a guerra sem tréguas e sem honra, se é que há ou tivesse havido alguma digna desse epíteto. Conheceu o sabor amargo das sevícias praticadas contra a sua mãe e irmãos e viu desaparecer alguns que foram fuzilados sem piedade apenas por terem ideias diferentes, como se os homens fossem obrigados a pautar pelo mesmo credo ou ideologia. Quando pensar de forma diferente é "crime", os homens acabam, muitas vezes, por se entreterem a exterminar-se uns aos outros. Nestas ocasiões, os cães têm mais sorte e são mais respeitados. Passados tantos anos sobre a guerra civil, e depois de uma vida atribulada, conseguiu finalmente recuperar os restos mortais de um dos irmãos. Falta-lhe ainda resgatar ao anonimato ofensivo da humanidade um outro. Ao fim de mais de setenta anos de separação, deu a devida sepultura ao irmão junto do pai, também fuzilado. No ato levou consigo uma velha caixa de engraxar sapatos, que conseguiu obter um dia, após a guerra, e que o irmão utilizava aos domingos. Presumo que deveria ser o único bem herdado. Este homem, de oitenta e oito anos, está feliz, ou qualquer coisa que isso possa significar. Agora anda à procura do outro, perdido numa vala dos desafortunados da vida e da morte. Não desiste. Ainda bem que há quem não consiga deixar os seus mortos em valas desconhecidas e desprezadas, homens e mulheres violados em nome da maior perversidade humana, matar em nome de credos ou ideologias. Em contrapartida, há quem consiga esquecê-los em vida e humilhados aquando da morte.
Que mundo tão estranho!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Faz falta animar a malta

Rentrée. Palavra que entrou no vocabulário político para designar o fim do período de abrandamento da atividade política, substituída pelos noticiários de factos que revelam que a inteligência e sensatez, mais do que em outras épocas do ano, também vão a banhos nesta época.
Por esta altura todos os anos se repete o ritual de um comício do PSD no Algarve, o comício da rentrée, aproveitando - creio eu - o concentrado de dirigentes do partido naquela zona. Este ano a pronúncia do líder do partido era aguardada com mais expetativa pois é ele o chefe do governo de um país assolado por dificuldades financeiras e por uma recessão económica que muitos dizem sem precedentes, cujo desfecho nem o mais arguto e laureado dos visionários economistas arrisca.
Não ouvi da boca do próprio (avesso como sou a trocar uma boa leitura ou um filme, mesmo um filme menos bom, pela assistência em direto ou em diferido de comícios), mas informam-me que Passos Coelho anunciou que em 2013 terminaria o ciclo de recessão económica. Não disse que terminava a crise, verifiquei que disse que o próximo já não seria um ano de recessão.
Socorrendo-me do muito que aprendo com os textos publicados em especial neste blogue, creio que o PM quis dizer que em 2013 não teríamos crescimento negativo da economia (curioso conceito paradoxal que parece fazer sentido). Já não foi pouco ao invés do que dizem os detratores habituais. É certo que não disse que o desemprego vai diminuir pois crescimento económico não implica necessariamente crescimento do emprego. Não disse que as políticas de austeridade e de sacrifício acabariam para o ano, pelo contrário confirmou que os inconstitucionais cortes nos subsídios de férias e de natal teriam inevitáveis sucedâneos. Não prognosticou que o fim do ciclo de extinção de empresas  estava aí, pois é do senso comum que a falta de liquidez e uma banca à defesa não criam condições para manter empresas descapitalizadas ou negócios sem mercado atual. Não prometeu, enfim, facilidades. Limitou-se a dizer que, pelas contas que faz, o PIB crescerá em 2013. Tecnicamente sairemos da recessão.
Dizem quase todos - incluindo alguns ressabiados do partido do PM - que na rentrée, confirmando os vaticínios, o líder do PSD e PM trouxe uma mão cheia de nada mesmo que o seu prognóstico se verifique, o que poucos acreditam que venha a acontecer. Eu discordo. Passos Coelho trouxe uma verdadeira novidade no discurso, pois pela primeira vez anunciou algo que as pessoas concretas vão encarar como esperançoso e animador. Se se quer evitar que à crise económica se some uma profunda crise social, é decisivo animar a malta. Faz falta. Faz muita falta.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Por Hollande...bem podemos esperar sentados!...


Afinal, após cem dias de presidência, a maioria dos franceses já não confiam em Hollande.  Segundo uma sondagem francesa hoje publicada no DN (não  consegui o link), 54% dos franceses não estão satisfeitos com a presidência e 57% dizem que não está a cumprir as promessas eleitorais. Em todos os quesitos, Hollande tem mais de 50% de opiniões desfavoráveis:
. 51% não confiam em que encontre uma solução para a crise
.56% não confiam em que lute eficazmente contra a insegurança
.63% não confiam em que reduza o desemprego
.62% não confiam em que lute eficazmente contra a imigração clandestina
No entanto, Hollande tem sorte, pois resta-lhe o apoio de Seguro e dos seus camaradas portugueses. Quanto ao que receberão de troca, bem poderão esperar sentados. E nós todos, porque o caminho não é por ali. Só na imaginação de Seguro.

"Mimi"...

Tenho muitos hábitos com os quais me dou razoavelmente bem. Um deles é não planear uma saída, vou à deriva, à bolina, esperançado em encontrar algo que me dê prazer, qualquer coisa nova, desconhecida, de preferência ambos. Nem sempre acontece, mas também não me lembro, o que é natural, mas quando encontro sinto uma enorme satisfação, e não me esqueço.
O dia, que deveria ser de verão, despertou aborrecido, com saudades de uma boa invernia, acontece quando se inicia os idos de agosto. Mesmo assim embiquei em direção a Viseu, cidade onde vou cumprir ritualmente promessas que nunca prometi. O instinto levou-me à procura de uma pequena peça, fosse o que fosse, desde que me desse satisfação e prazer. Desta feita não encontrei nada que me agradasse. Paciência. Entrei no recinto da Feira Franca, onde vou há dezenas de anos. Apesar de todas as modificações operadas nos últimos anos, continua a mostrar teimosamente uma velhice resistente a quaisquer liftings ou operações plásticas. No pavilhão das exposições vi logo à entrada um aviso de exposição de pintura do Museu Grão-Vasco sobre Joaquim Lopes. Um cartaz com uma mulher, meio impressionista, atraiu-me com uma força indescritível. Entrei na sala onde pude observar vários quadros a óleo, a pastel e aguarelas que fazem parte do acervo do museu viseense. Nem queria acreditar no que estava a ver, tamanha era a beleza das obras expostas, uma mistura de naturalismo e de impressionismo. Confesso que nunca tinha ouvido falar deste pintor (1886-1956) que foi professor na Escola das Belas Artes do Porto. Seduziu-me particularmente a forma como pintava as diferentes luzes enviadas pelo sol e a sensibilidade com que realçava as paisagens. Tive que adquirir o catálogo, através do qual me apercebi de quem se tratava, o que fez, como fez, como pensou, como se relacionou, como produziu, com quem conviveu e como sofreu. Uma figura notável das nossas artes, que também foi o autor do magnifico painel de azulejos, que me seduz desde que me lembro que existo, e que se encontra no Rossio de Viseu. Mas a mulher, a Mimi, é um encanto. Olho para o quadro e ponho-me a pensar quem seria. Há qualquer coisa de muito especial e que deverá atrair qualquer um. Um enigma para ser descoberto e redescoberto conforme os nossos desejos e emoções, seja o que for que pensemos sobre esta senhora não deverá estar muito longe da realidade.
Partilho esta pequena impressão, porque vem confirmar aquilo que há muito me apercebi. Temos gente genial, artisticamente de um valor difícil de quantificar, somos "donos" de um património de que nos deveríamos honrar, mas não o fazemos, porque os desconhecemos, pelo menos a grande maioria de nós. Conhecemos de cor e salteado nomes de artistas de outros países, indiscutivelmente excelentes, que nos proporcionam prazer e que fazem parte da essência cultural de qualquer um, mas não temos, nem de perto nem de longe, a mesma atitude e carinho pelos nossos. Estou certo de que se fôssemos capazes de criar uma aura idêntica ao redor dos nossos artistas seríamos muito melhores em tudo o que fazemos, ficaríamos mais ricos e o nosso ego atingiria outros patamares com reflexos nas múltiplas atividades que estão na base da grandeza de uma nação. Mas, infelizmente, tal não acontece. É pena, porque temos pessoas verdadeiramente geniais. Só é preciso divulgá-las até à exaustão. Que os responsáveis as promovam e verão que ficaremos mais ricos. Eu, pelo menos, confesso que fiquei.
Vale a pena ver a exposição e adquirir o respetivo livro-catálogo sobre um brande mestre da pintura portuguesa, Joaquim Lopes.

"Não sei o que se passará quando estiver morto"

Ontem, um amigo enviou-me um pequeno texto, publicado no El País, com o seguinte título, "O que se passa quando estou morto?". Um texto escrito por um filósofo espanhol, Isidoro Reguera. No fundo, trata-se de uma análise à obra de um cardiologista holandês, Pim van Lommel, que, com base na sua experiência em lidar com situações de "quase morte", escreveu um interessante artigo científico, publicado numa das mais prestigiosas revistas médicas, e que agora desenvolveu concetualmente numa obra, um best seller, "Consciência além da vida". Em síntese, o autor tenta demonstrar, ou melhor, equaciona a hipótese de que a consciência existe independentemente do corpo. Põe em causa as hipóteses habituais para explicar a vivência que algumas pessoas têm quando "morrem" e depois regressam à vida. Não é um fenómeno comum, de facto, muitos dos que o experimentaram ficaram aborrecidos com a "reanimação" e passaram a ser diferentes, perdendo o medo à morte e tendo atitudes com a família que merecem ser esclarecidas. É provocante, não é esotérico, abana a ciência, mas o facto de a consciência ser considerada como "não localizável", ou seja, existe sem espaço e lugar concretos, abala seriamente os tradicionais paradigmas científicos. É um pouco difícil aceitar e até seguir a tese em causa. No entanto, mesmo que não haja fundamentos para esta visão, considero que, sob o ponto de vista cientifico, é sempre bem-vinda toda a opinião que nos obrigue a pensar e a investigar. Há aqui algo de quântico associado com a consciência. É provável que sim. Ao ler e reler o texto do filósofo espanhol, e ao ler o artigo científico publicado por van Lommel, no The Lancet, veio-me à ideia dois acontecimentos. O primeiro com a única experiência de "quase morte" que tive, enquanto jovem médico, quando reanimei uma pessoa que tinha "morrido". A propósito deste assunto já alinhavei, em tempos, um pequeno texto, intitulado, "Quase morte". O segundo aspeto tem a ver com o ICloud. Esta forma de manter presente em qualquer sítio as nossas informações é uma espécie de memória de uma consciência informática sem "corpo". Não sabemos onde está, está em toda a parte e em parte nenhuma. Reconheço que estamos perante uma nova área capaz de desmembrar conceitos clássicos e, mesmo que não venha a ser comprovada a tese em causa, é capaz de originar novos conhecimentos impossíveis de prever.
A ciência tem destas coisas, não explica tudo, mas abre-se sem preconceitos a novas ideias sabendo que só assim o mundo pode evoluir.
Não sei o que se passará quando estiver morto. Também nenhum morto regressou para contar, os que regressaram é porque não estavam mortos, mas sim "quase", pelo que não é correto dizer que se tratavam de casos de experiências depois da morte. Mas, se se provar a tese de van Lommel, então, deverá haver no espaço, onde não sei, mais de cem mil milhões de consciências, as correspondentes aos seres humanos que já habitaram este planeta, uma espécie de ICloud à espera de ser utilizada. Agora é preciso arranjar o respetivo hardware, se conseguirmos, claro, e também equacionar a seguinte pergunta, valerá a pena?