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domingo, 31 de março de 2013

Pardalada...


Através da janela que dá para a varanda, à minha frente, reparo que aparecem pássaros, pardais e melros, com uma frequência pouco comum. Veem-me e eu vejo-os. Levanto-me, espreito, e eles não se assustam. Saltam em direção ao beiral, novo em folha, e, num exercício de ginasta de circo, mantêm-se a bater as asas sem sair do sítio até que se enfiam debaixo das telhas. Hum! Fizeram casa. Mas não é só um casal. O apartamento ao lado também foi tomado. E no beiral de cima nem se fala. Parecem mesmo uns "okupas". Antes de entrarem nas suas "residências" poisam, durante um bom bocado de tempo, na grade da varanda em frente da janela e espreitam com um olhar de admiração para mim, talvez pensando o mesmo que eu, quem é aquele indivíduo, atrevido, a querer importunar-nos na nossa casinha. A "pardalita", é capaz de ser mesmo "uma", junta-se ao pardal, gordo, robusto, a querer demonstrar que está bem na vida. Pelo aspeto deve ter mesmo uma vida flauteada e de bom sustento, só pode. A pardal, mais miudinha, também espreita e não se assusta. Já devem saber que o vidro que nos separa é suficiente para os proteger. Que olhos. Pequenos, vivos e irrequietos a questionarem o porquê da minha intromissão. Aproximo-me novamente da janela e o macho levanta o peito, mostrando penas despenteadas por um respirar profundo, inchado. Não sei o que é que ele quis dizer-me. Às tantas, nada, ou, então, deu-lhe para fazer-me frente, enchendo o peito. A pardoca nervosa, volteou-se e começou a pipilar, como que a dizer-lhe para se deixar de parvoíces e ir para a casa. Ele não via que o tempo estava chuvoso, triste e que hoje, domingo de Páscoa, tinha ainda muito para fazer no seu novo e muito confortável apartamento? Olhou novamente para mim e subiu, sempre a piar, para a sua casa. Entrou. Em seguida, a pardoca fez o mesmo, mas teve que esperar para entrar batendo as asas freneticamente e pipilando muito alto como que a gritar-lhe para desentupir a entrada. Ao fim de alguns segundos entrou. Calaram-se os dois.
Agora começo a entender, de madrugada, ainda o sol não sabe que vai levantar-se, já ouço uma chilreada dos diabos. Sempre ouvi, mas agora a música é outra, mais intensa, mais próxima, mais populosa e agradavelmente mais desafinada. Sinal de vida, sinal de um novo dia, numa zona que já teve mais vida e outros “chilreares”. No dia de hoje, os falares dos residentes e passantes afogavam quaisquer outros sons. Uma musicalidade humana difícil de reencontrar. Hoje, ao toque da campainha do compasso, descaracterizado, a querer relembrar um passado perdido, não ouvi vozes humanas, nem de adultos, ansiosos por se afogarem em carnes deliciosas e  em vinhos generosos, nem de crianças deslumbradas pela festa e pelas doçarias. Não ouvi vozes de alegria da alma e do corpo. Não ouvi vozes de confraternização. Não ouvi vozes de esperança. Não, não ouvi. Ouvi apenas a chuva a cair e o chilrear da pardalada numa alegria e irreverência sem par. 

sábado, 30 de março de 2013

O meu "Cristo" e a Páscoa...


Na véspera do Natal de há três anos escrevi um pequeno texto sobre o meu "Cristo". Na altura, ao escrever, pensei que a melhor época para o publicar seria a Páscoa e não o Natal. A expectativa de me cair nas mãos levou-me a isso. No entanto, as histórias que vivi em seu redor dizem respeito a este período. Hoje, véspera de Páscoa, fui relê-lo. Gosto de o ler. É a segunda vez que o publico, a primeira foi na véspera do seu nascimento e a segunda na véspera do seu segundo "nascimento". Como não tenho mais nada para oferecer aqui o deixo com votos de uma Boa Páscoa. O meu "Cristo" encerra em si emoções, vivências e recordações únicas sem as quais não seria o que sou hoje. Uma confissão que me sabe bem...


"Ainda hoje recordo com nostalgia os momentos das férias, que aspirava ansiosamente, não para descansar, porque energia era coisa que não faltava na altura, mas para desfrutar mais à vontade as brincadeiras e as festividades que os embrulhavam. Quantas recordações desses tempos me acariciam o pensamento.
Mas não se pense que não tinha de dar, também, o meu contributo para as festividades. Dava, e com muito gosto. Nessas alturas, a turbulência infantil desligava-se, momentaneamente, quando era encarregado de limpar com cuidado um Cristo de marfim, que vinha do antigamente. Limpar o Cristo não era a mesma coisa que limpar as pratas com o “coração limpa metais”. Tinha que ser feito com o coração e o máximo de respeito. A minha avó, na altura da Páscoa, encarregava-me dessa tarefa. Em primeiro lugar retirava o pó, e, depois, com um pano embebido em água dava-lhe o tradicional banho, olhando sempre para a face, tentando observar se não estaria a incomodá-lo, porque quando me esfregavam a fuça, faltava-me sempre o ar, e eu não queria problemas. O olhar do Cristo era forte, não revelava propriamente sofrimento, mas intimidava, impunha respeito, era como se fosse um rei e era bonito. Ao longo dos braços compridos viam-se as veias, coisa que eu nunca tinha visto em mais nenhum, e imaginava o sangue a correr. Também não tinha as chagas, o marfim é duro. Por mais voltas que lhe desse não conseguia retirar aquele amarelo, nalguns pontos a descair para o torrado, mas, apesar de tudo, ficava com outro aspeto, sobretudo quando o expunha ao sol a” secar”. O amarelo, que parecia ser sujidade, passava a brilhar de forma dourada a responder ao sol na mesma moeda.
No domingo de Páscoa ficava na mesa, no meio da sala, rodeado de tudo quanto era bom, à espera do compasso. Aos pés, numa salva de prata, um envelope com dinheiro. Quando ouvíamos a sineta a avisar a chegada, corríamos todos para a sala. Entrava o puto a ribombar o sino, e a repetir a ladainha da ocasião, acompanhado pelos demais. Será que este ano alguém irá reparar no Cristo e dizer ao menos que é bonito? Era a pergunta que colocava sempre, porque o Cristo que nos davam a beijar era frio, de metal, uma imitação que não chegava aos calcanhares do “meu”. Mas não, nunca disseram nada. O homem da pasta de cabedal só se preocupava com duas coisas, recolher o envelope e enfiar mais um copo a tantos outros, ao ponto de não dizer coisa com coisa, nem olhava para o Cristo, e mesmo se olhasse devia vê-lo a duplicar ou a triplicar e muito embaciado; os outros despachavam-se fazendo deslocar o metal debaixo dos nossos olhos e bocas, mas mesmo assim ainda tinha tempo para ver que não tinha a categoria do rei da mesa. Esse sim é que merecia ser beijado. O padre, blá, blá, blá, corado, testa cheia de suor, espalhava a água benta por cima dos bolos e guloseimas sem se aperceber do Cristo de marfim, com enfado e desejoso de se ir embora. O pessoal acompanhante aproveitava o momento para enfardar novamente as suas panças de gula pascal, e eu ficava, mais uma vez, aborrecido por ninguém ter dito nada sobre o Cristo. No final do dia, colocava-o no seu poiso, a aguardar a Páscoa seguinte.
A vida roda e nunca mais soube dele. Acontece que há algumas semanas vi-o em casa de um familiar. Foi o suficiente para recordar numa fração de segundos tantos episódios. Não o cobicei, mas uma sensação de vazio foi-se construindo dentro de mim, sem me aperceber, até que, por uma mera casualidade, acabou por cair em minhas mãos, preenchendo esse espaço repleto de lembranças prontas a serem vividas.
Está mais escuro, sujo, até mais magro e um pouco triste, embora não tenha perdido aquele ar de rei, de senhor, e continua detentor de uma beleza que as imitações não conseguem atingir, as próprias veias dos seus longos braços deixam transparecer o sangue a circular; é quente, não é frio, mas está a precisar de um bom banho, tomara, há decénios que ninguém o limpa como eu fazia. Sei que não é Páscoa, estamos no Natal, mas é um bom momento para o fazer. Daqui a uns dias já deverá estar mais composto, com outro aspeto, mais alegre e, decerto, mortinho para reviver alguns episódios, meus, porque com a idade que tem quantas e quantas histórias não ficaram por contar..."

Boa Páscoa



A Páscoa da minha aldeia

Era dia de gloriosa primavera. O Sr. Abade, de sobrepeliz e estola, e os mordomos, capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha da água benta, outro com a campainha, que anunciava a comitiva, calcorreavam a freguesia, povo a povo, caminho a caminho, casa a casa, da mais rica à mais pobre, da mais perdida no monte à mais central, junto à fonte ou à igreja.
O mordomo da campaínha fazia também de tesoureiro, guardando os envelopes das ofertas em dinheiro que as casas mais abastadas faziam ao Senhor Abade. E havia ainda o homem do cesto, o membro hierarquicamente mais baixo da procissão, cuja função era guardar os ovos, presente dos mais pobres ao Senhor Abade.
A profusão das flores da primavera e o perfume das glicínias junto aos muros apareciam realçadas pelo sol brilhante da estação e davam um ar de incontida festa, que os tapetes de rosmaninho, junto às portas, mais acentuavam. E as escadas, decoradas a alfazema e a alecrim, anunciavam a alegria da visita. As casas, sujeitas à lavagem anual, mostravam o ar limpo e fresco do chão esfregado com sabão amarelo.
Na melhor sala da casa juntava-se a família: pais, filhos, avós e netos.Boa Páscoa, Boa Páscoa, saudemos o Senhor que nos vem visitar, dizia o Senhor Abade. As pessoas ajoelhavam e a cruz passava de boca em boca para o beijo pascal. Por vezes o crucifixo era mesmo beijocado com grande profusão e intensidade, nada escapando, desde a cara, aos joelhos e aos pés de Jesus Cristo. Nos casos mais extremos, o mordomo tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.
Mesmo as casas mais humildes, em cima de uma mesa mais ou menos tosca, tinham sempre uma cruz, um folar, uma garrafa de vinho e ovos. Vai alguma coisa, Sr. Abade? Não, que temos caminho a andar. E tem aí os seus filhos; olhe que eles estão com apetite!...Ao sinal discreto do Senhor Abade, o homem do cesto retirava ou não os ovos da oferta.
As casas mais ricas caprichavam na recepção.Na melhor toalha de linho, sempre o folar, mais uma profusão de bolos e doces e vinho fino, para acompanhar. Mas aí não havia ovos. Normalmente, um envelope com dinheiro. Vamos lá fazer as honras da casa, dizia o Senhor Abade!... E então alguns dos mordomos tiravam a barriga de miséria, dado que os pitéus expostos e o vinho do porto não eram manjar habituado a passar por aquelas gargantas.
O que o Senhor Abade sempre fazia era ir junto à cama dos doentes. E se era recebido com queixumes, na despedida sentiam-se sempre mais reconfortados.
Por vezes, o mordomo da cruz hesitava entrar numa ou noutra casa. E cochichava com o Sr. Abade. Que lhe dava ordem de entrar. Ao que eu me sujeito, ter que levar a cruz a gente amamcebada...
A Páscoa era um dia festivo. Os tempos mudam e fica a nostalgia. Hoje, na minha terra, continua a haver visita pascal, mas sem o Senhor Abade. Saem diversas cruzes para despachar serviço e tudo acaba mais depressa, logo de manhã. As pessoas têm outras coisas que fazer!..
Já não é o mesmo, dizem! É verdade. Mas coisas melhores virão, diz-nos a esperança.
Nesta boa esperança, uma Páscoa festiva e excelente para todos!...

Sociologia da diabetes

Quem tiver algum interesse neste assunto, "Sociologia da diabetes" (as desigualdades sociais do risco de morte por diabetes), pode aceder ao texto da conferência no Quarto da República. Um quarto que estava às escuras há muitos meses. Hoje apeteceu-me arejá-lo. Deve ser a velha mania das limpezas da Páscoa...

Falar dos aspetos médicos sociais da diabetes é um desafio interessante porque obriga a analisar a vida, a sua evolução, a nossa adaptação, a criação da cultura, o despertar das civilizações, a organização social e económica e prever o que é que irá ocorrer no futuro.
Todos temos as nossas memórias e, por vezes, fazemos algum esforço para tentar saber qual ou quais as lembranças mais antigas. Não deixa de ser curioso que apesar de não serem as mais antigas, na parte que me toca, a grande maioria das minhas memórias estão aureoladas de dor, de sofrimento, de doença, coisas incompreensíveis para uma criança indefesa. 
Doenças? Sofrimento? Recordo que me metiam medo e estava sempre desejoso de as ver pelas costas.(...)

Queima do Judas


Para regressar ao passado basta montar um cometa, depois da sua passagem pelo sol, e voar até às mais longínquas distâncias esquecidas pela memória. O cometa tem o condão de saber o local onde nascer e morrer é igual. Mas não é preciso ir tão longe, porque pode ser uma experiência muito assustadora. 
Estou a olhar para o céu e não consigo ver as estrelas. Já não as vejo há muito. Começo a ter saudades, tantas como do sol, perdido ou roubado.
Imagino que um cometa se aproxima. Agarro-me à sua cauda e precipito-me em velhas recordações. Anda depressa o cometa. Peço-lhe que abrande e me deixe ver o que é aquilo, são vozes a espreguiçarem-se, sons confusos, interjeições brejeiras e risos sardónicos, envoltos em longas labaredas, com um estranho cheiro a petróleo, das quais evola um espesso fumo branco acinzentado capaz de obrigar os olhos mais secos a lacrimejarem e a interromper a deliciosa gritaria com acessos incómodos de tosses secas.
E vi, vi um sábado de aleluia em que queimavam o Judas. Um sábado que desejava com uma paixão especial, não propriamente por ser sábado, não por queimarem o Judas, mas porque anunciava o fim de um período triste, em que éramos obrigados a ser, também, tristes. Uma tristeza. Começava com as regras impostas pela Quaresma, que sempre me incomodaram. Ao aproximar-se a quinta-feira santa as coisas complicavam-se, não se podia fazer nada. A televisão programava a tristeza e emitia música religiosa. A rádio a mesma coisa, sem o mínimo de encanto, maçuda a dizer basta. Então, na sexta-feira as coisas pioravam. Não havia programa na televisão, era o único dia do ano que fechava. Rádio? Nem isso. Um silêncio mortal. Só procurando estacões estrangeiras, em onda curta ou em onda longa, mas ouvia-se muito mal. Vá lá, a partir das três da tarde já emitia sons, não agradáveis, mas o suficiente para dizer que havia vida vinda através do éter. O sábado demorava a chegar e só o sono infantil é que conseguia acelerar o nascimento do novo dia. De manhã, acordava bem disposto, sentia que havia mais movimento, e a perspetiva da queima do Judas, à noite, prometia uma alegria furiosa capaz de afogar a tristeza imposta dos dias anteriores. Nessa noite, pendurado do pontão do caminho de ferro, uma figura de palha montada numa moto, retratando o Arlindo, dono do café que ficava precisamente nas costas do local do enforcamento motorizado, provocou uma explosão de risos, qual concerto sinfónico, o mais desafinado que Judas decerto ouviu. Regado com petróleo, explodiu num ápice lançando fumo, fagulhas e sons de bombas de foguetes colocadas no interior, provocando, mais uma vez, gritaria da mais sardónica possível, numa noite estrelada e fria em que um invisível cometa passeava com toda a tranquilidade.
Quem não gostou nada, mas mesmo nada, foi o Arlindo, que, com o seu temperamento emotivo, lançou pragas e impropérios proibidos para o período. Nunca lhe disse nada, era pequeno, e ele andava a ensinar-me a jogar bilhar francês, e eu não queria perder a oportunidade de aprender.
Hoje, se fosse vivo, decerto não se importaria de ouvir que me deu um gozo dos diabos vê-lo a ser "queimado", um Judas de moto a fazer inveja aos Teddy Boys dos anos cinquenta e sessenta. Nunca lhe disse nada, nem eu nem ninguém, e agora, que já foi no cometa que nos leva ao ponto onde nascer e morrer é a mesma coisa, lembrei-me deste sábado de aleluia. Escrevo esta mensagem e peço ao cometa que me trouxe até aqui que a leve. Estou certo que vai dar uma gargalhada de alegria.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Um Estado mal comportado...

As dívidas do Estado às empresas constituem um verdadeiro cancro da economia. Esta situação põe em causa a capacidade financeira das empresas e a sua continuidade, afectando muitas pequenas e médias empresas com viabilidade económica. Esta situação imoral em muito contribuiu para transformar a pessoa de bem que o Estado deve ser numa entidade que há muito deixou de merecer a confiança e o respeito dos contribuintes e dos cidadãos. 
Empresas saudáveis não conseguem cumprir os seus compromissos – salários, fornecedores e impostos – por não receberem atempadamente os créditos que acumulam sobre o Estado. Mas o Estado não se coíbe de processar e executar as empresas que não cumprem com as suas obrigações fiscais embora tenha para com elas dívidas por regularizar.
Agora, o governo adiou a transposição da directiva europeia que obriga os Estados a pagarem aos fornecedores em 30 dias consagrando a possibilidade de cobrança automática de juros de mora. Esta directiva é especialmente importante no actual contexto de crise em que milhares de pequenas e médias empresas abrem falência por falta de pagamento de facturas e o Estado fortemente endividado se vai alimentando do incumprimento.
Se o Estado pagasse as dívidas que tem ao sector privado a economia receberia um balão de oxigénio importantíssimo, impedindo a destruição de empresas e actividades económicas sufocadas em dificuldades de tesouraria sem alternativas de liquidez para manterem a normalidade da actividade.
É o próprio Estado que viola o estado de direito que todos devemos respeitar. O Estado adjudica fornecimentos de bens e serviços sabendo que vai desrespeitar os prazos de pagamento contratados. Um comportamento ilegal e imoral que vem de longe e que a crise se encarregou de agravar. A dita directiva europeia parece ter vindo atrapalhar. Com ou sem ela já se percebeu que o Estado vai continuar a não cumprir...

"Médica das letras"



Sexta-feira santa, chuvosa, triste, a convidar ao descanso merecido de lutas sem fim, de guerras perdidas, combatendo numa sociedade desestruturada, vazia de ideias, pérfida, idiota, capaz de capar o mais otimista. Acordo cedo. Um castigo imposto pelos dias de trabalho que desconhecem a existência dos feriados. Fiz um esforço adicional para prolongar o tempo de repouso. Soube-me a algo mais simbólico do que prático, mas deu para rememorar outras sextas-feiras santas, tantas, e todas cheias de histórias. Hoje, sexta-feira santa, colecionei mais uma. Gosto de as colecionar, gosto de as registar, gosto de as reler e de as dar a conhecer. Gosto de juntar "as palavras para ficarem boas e bonitas". 
Toca o telefone. A voz, nova, doce, timbrada, eivada de encanto e de fantasia, cumprimenta-me com um bom-dia que nem o sol consegue nos dias de verão ao nascer. 
- Bom-dia, meu amor. 
- Vovô, tens que me ajudar, a mamã acordou com dores de cabeça e não se levanta para tomar o pequeno-almoço. Que é que eu faço? A preocupação era sentida e, no cenário de fundo, ouvia o riso divertido da mãe. Tive de lhe explicar o que é que a mamã deveria fazer, e à medida que ia debitando os meus conselhos divertia-me com os recados amorosos que ela retransmitia, como se fossem os meus ecos, mas mais divertidos e convincentes do que as minhas próprias palavras. Ficou tranquila, a ponto de mudar de conversa e perguntar-me: 
- Vovô, queres que te conte umas histórias? 
- Conta. Em seguida, demonstrando uma capacidade narrativa invulgar, cheia de tons coloridos, de comentários soberbos, de entoações vocais a lembrarem as ondas a baterem nas rochas ou a espraiarem-se nas areias, lançando risos de estupefação, debitou, mesmo sem conseguir perceber algumas frases, devido à emoção de quem conta com rapidez inexperiente e um aparelho vocal infantil, o relato de um vídeo com "Maique Jesse", que, pelos vistos, adora ver e ouvir e, até, imitar num inglês inexistente. 
Uma delícia, confesso.
A mãe apercebeu-se que eu não tinha compreendido bem a história e, por isso, procedeu ao envio do vídeo que esteve na base da história que tentou contar-me. Fez-me gostar do mesmo, porque vi-o com outros olhos. Comentei em seguida que a miúda, apesar de ter quatro anos e três meses, três meses aos quatro anos é muito importante, daqui este preciosismo, é uma excelente narradora. Tem estilo, imaginação e é capaz de prender a atenção. Talvez com o tempo, quem sabe, possa ver o nascimento de uma escritora. Eu gostava. Ainda não sabe as letras, mas com o tempo... Comuniquei à mãe esta minha reflexão, terminando, vou estar atento.
O que é que a mãe fez? Foi-lhe dizer o que eu pensava, que poderia ser mais tarde uma escritora. Ouviu e respondeu: 
- Olha, era uma boa ideia, mas gostava mais de ser médica das letras... A mãe, surpreendida com a resposta, perguntou-lhe o que era ser médica das letras.  
- Humm... não sei bem, mas é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas".
Nunca me tinha passado pela cabeça que ser médico das letras é tratar delas, juntar as palavras para ficarem boas e bonitas. Mas a miúda tem razão, as letras têm de ser bem tratadas, com carinho, com amor e serem transformadas em palavras bonitas. Que mais podemos desejar? Palavras bonitas ditas e contadas por uma criança que ainda não sabe desenhar palavras. Só espero que um dia consiga para meu prazer e de todos que as leiam.
E assim, a sexta-feira santa, chuvosa e triste, transformou-se num símbolo de vida, a convidar à ressurreição, graças a uma criança.
As crianças ensinam-nos. Só temos de estar atentos.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Politicamente incorreto

Faço saber que há pelo menos um português que se está literalmente nas tintas para o que José Sócrates disse: eu. 
Preocupa-me, isso sim, que um Parlamento se entretenha com as declarações do antigo PM, com os deputados a imitarem os comentadores televisivos que lhes moldam ou condicionam o discurso, em vez de discutirem as soluções para o País. Mas é o que temos, há que tristemente reconhecer...

Memória


Não sei o que fizeram à memória. Alguns esquecem-se porque a idade assim o exige, outros porque as toupeiras da demência destruíram o passado e minam o futuro, mas há também os que se fazem esquecidos, umas mulas que sabem viver e como enganar o próximo. A estes tipos de faltas de memória acrescento a atrofia do desenvolvimento da mesma. 
Começa a ser anedótico ir às compras e pagar.
- Faz favor? Quanto é? Uma pergunta banal para quem acabou de adquirir um jornal e uma revista. Feitas as contas, mentalmente, 3,75 €.
A menina saca de uma máquina calculadora e consegue fazer a conta.
- 3,75€.
- Muito bem! Aqui tem uma nota de cinco euros.
Fiquei a aguardar o troco, 1,25€. A menina volta a pegar na pequena máquina de calcular e em voz alta digita, 5 euros menos 3,75. Com um sorriso bonito e simpático dispara, triunfantemente:
- Tenho de lhe dar 1,25€. Aqui tem.
- Muito obrigado. Ripostei um pouco incomodado pela lentidão do processo. A moça deveria ter o curso secundário e conseguiu baralhar as minhas ideias. A lentidão mental que demonstrou não deveria ter equivalente à forma como se relaciona e fala com os outros. Esta insuficiência de cálculo mental, evidente, levou-me a pensar que, hoje em dia, os jovens não fazem exercício adequado aos seus neurónios como se fazia ainda há poucos decénios ou em tempos idos em que as fontes de conhecimento eram mais do que reduzidas. Maquinetas de todo o tipo, acesso à net, livros e bibliotecas aos trambolhões permitem, rapidamente, obter as informações necessárias. 
Quem não deveria ter sofrido de atrofia da memória foi Giovanni Pico della Mirandola, filósofo, que viveu na segunda metade do século XV e que morreu cedo, aos trinta e um anos. Lembrei-me dele, porque em tempos li um livro intitulado "O homem que sabia tudo". Fiquei fascinado, sobretudo pela forma como absorvia e fixava tudo que lia, numa altura em que os livros valiam mais do que os diamantes. Mas não era só Giovanni Pico, outros também demonstravam uma enorme capacidade em fixar e decorar praticamente tudo. Não tinham outra forma. Um livro tinha que ser "memorizado". Esta capacidade em fixar com um pormenor magnético fascinou-me desde sempre. Tinha de haver técnicas capazes de estimular a memória. Descobri algumas dessas técnicas, anos mais tarde, após a leitura de um livro, quando entrei pela primeira vez na bela e sedutora Livraria Lello no Porto. Deparei-me com um pequena obra, intitulada "Tratado da Magia", de uma outra figura que chegou a debater com della Mirandola, Giordano Bruno, que acabou por ser churrascado pelas suas ideias. Um homem curioso, que conseguiu um feito, nunca alcançado por ninguém, ter sido excomungado por três igrejas, católica, luterana e calvinista, facto que abona a favor do seu poderoso e inquieto cérebro. Nesse livro, que li com muita curiosidade, chamou-me a atenção para os capítulos dedicados à memória, às técnicas mnemónicas. Um pouco complexas, sem dúvida, mas que deveriam ser eficazes. Um dia, ensaiei uma delas, de forma simples, básica, desenhando círculos, losangos, triângulos, anotando dentro de cada um dessas estranhas figuras geométricas, a relembrar cabalas, os principais conceitos de uma conferência para a qual fui convidado a comentar. Quando chegou à altura de criticar e analisar o que o orador tinha dito, consegui algo inimaginável, sem perder o fio à meada fiz uma síntese e análise interessante que acabou por ser compreensível e admirada por parte da assistência. Quem me ouviu deverá ter ficado surpreendido com a minha "memória". Ainda hoje recordo alguns desses aspetos que subjazeram à minha intervenção. Curioso, afinal, a memória pode ser treinada, ensinada e desenvolvida com meios que  passaram à história. Compreendi, finalmente, o porquê das elevadas capacidades mnemónicas dos nossos antepassados. Uma mera questão de técnica e exercício, que hoje estão arredados da prática e do ensino. Que diriam Giordano Bruno ou della Mirandola se vissem a menina que me atendeu? - Que rapariga tão simpática e linda! Nem reparariam na máquina de calcular, nem nas suas dificuldades em fazer cálculo mental, e tinham razão para tal...

INCORRIGÍVEL

1. Já de muito se tinha essa percepção, tendo em conta: (i) os sucessivos, reiterados e graves erros nas opções de política, em especial de política económica, (ii) a incapacidade para interpretar os resultados dessas políticas, (iii) a permanente negação da realidade, prosseguindo uma via claramente interdita, (iv) a hábil condução do País até à inevitabilidade de um resgate financeiro que, a não ter ocorrido, lhe teria oferecido a suprema glória de gerir uma situação de bancarrota...
2. Já de há muito, portanto, existia a percepção de se tratar de um personagem incorrigível...
3. Mas, agora, com a confissão do próprio, essa percepção adquire outro valor.

quarta-feira, 27 de março de 2013

PR: está muito certo, mas não basta...

1. Segundo noticiários on-line, o PR terá declarado esta manhã, durante visita que efectuou a uma empresa do concelho de Loures, e em resposta a perguntas de jornalistas sobre a moção de censura ao Governo (e de auto-censura, obviamente) que o PS anunciou, o seguinte: “ As intrigas, as jogadas político-partidárias não acrescentam um cêntimo à economia do País, não criam um único emprego”.
2. Cumpre comentar, dizendo: está muito certo Snr. PR, mas isso não basta...importa aditar que essas manobras e intrigas não se limitam a acrescentar valor zero à economia  - salvo, porventura, nalgum aumento do consumo de bebidas espirituosas na zona de S. Bento e áreas circundantes, mas não é garantido que não sejam importadas...
3. ...elas destroem valor pela instabilidade e pelo clima de pessimismo que geram ou acentuam, concorrem objectivamente para a perda de empregos e para uma quebra ainda maior do investimento...
4. Cria-se assim um paradoxo, aparentemente insanável: iniciativas políticas supostamente dirigidas a contrariar os efeitos das políticas que dizem combater acabam por agravar, consideravelmente, esses efeitos...para onde vamos, por este caminho?

Hipocrisias e dores de cotovelo

Declaração de interesses: sou amigo de Miguel Relvas e tenho por ele o apreço e a estima que se dedicam aos amigos. Posto isto, não resisto ao impulso de escrever o que segue, depois do que li aqui.
Acho execrável a ideia de que as pessoas, em especial as que desempenham funções públicas, devem ser julgadas pelo que parecem ser e não pelo que são. A ideia que mais estragos tem causado à correta conceção do que está mal na vida pública nacional é essa que expressa que sobre a mulher de César não interessa saber se é séria, interessa que pareça séria. Atrás dela escondem-se aqueles que, na vida pública, optam por parecer ser, protegidos por este moralismo quase constitucional. 
Miguel Relvas é, já se percebeu há muito, o bombo da festa de quem não aprecia este governo e até de alguns que o apoiam. Muitas responsabilidades lhe cabem, sou dos primeiros a reconhecê-lo. Apontem-nas, critiquem-nas, censurem-nas. Mas não pode valer tudo. E sobretudo não pode valer esta hipocrisia de alegados impolutos senadores que não suportam a dor em certo ponto do corpo, ainda por cima alçada a moralidade oficial!

Quando a independência é temperada com sensatez dá nisto:

Entrevista de Vitor Bento à Rádio Renascença.

"Quem vê de fora vê melhor"!


Primavera instável, chuva por tudo o que é sítio, lágrimas de um tempo desesperado e sem futuro a querer atormentar-nos a existência. Chuva da semana santa a lembrar que as divindades que se passeiam nesta época também sofrem connosco. Só podem.
O trabalho obrigou-me a viajar até à capital. Há algum tempo que não prestava vassalagem à gorda, à dona, à meretriz, à amada mais odiada. Levantei-me de madrugada. Cedo de mais!  Enfim, um erro de horas, mas mais vale assim, porque não se pode fazer esperar a mãe do país, pode irritar-se. Esperei eu, não me custou nada, arranjo sempre maneira de usar o tempo em meu favor. Lá fora, a chuva e o vento dançavam freneticamente como se fossem atingidos pela doença de São Vito, atemorizando-me, como quem diz, quando saíres daí vais ver o que te vai acontecer. E aconteceu, molhou-me e irritou-me. Na baixa, abrandou a sua irritação, permitindo que almoçasse em paz. Depois, passeei, tinha de fazer horas para outra atividade, a conferência ao final da tarde. Fiquei incomodado, porque de cem em cem metros um pedinte perturbava-me o meu sossego, nem a chuva os conseguia demover daquela necessidade em procurar no bolso dos outros aquilo que não tinham nos seus. O incómodo provocado pelos pedintes contrastava com a indiferença e, até, porque não dizer, o desprezo dos sem-abrigo, que, através de olhares enigmáticos, conseguiam afugentar o meu. Mas não pediam nada, olhavam, simplesmente. Passei por locais conhecidos. Gosto de passear por locais conhecidos, sem tempo, sem destino, sem razão, apenas passear. Nem o vento, nem a chuva, nem o incómodo dos transeuntes, com as suas tristezas, olhares sem sentido e cheiros a falta de água me impediram de procurar velhas referências, muitas desaparecidas e outras vilipendiadas pelo destino. Acabei por encontrar um velho livro, "Le Portugal", num dos alfarrabistas. Gosto de ler o que os estrangeiros dizem de nós, talvez devido à máxima, "quem está de fora vê melhor". Publicado em Grenoble, em 1935, rico de belas ilustrações, permitiu-me, num dos acessos de raiva de um tempo epilético, que o acariciasse num velho café, paredes meias com uma livraria desaparecida, para meu desencanto, e numa zona que já conheceu melhores dias. Semi degradado, ou, então, seria a minha visão, a descambar para a decadência, que lhe dava esse aspeto. Não interessa. Como tinha muito tempo para cumprir o meu compromisso de fim de tarde, deixei-me embalar no seio da bela cidade, hoje cinzenta e chorosa, lendo o livro acabado de adquirir. Sempre estava abrigado do mau tempo, do ataque grosseiro dos pedintes, do olhar enigmático dos sem-abrigo e de uma estranha patetice citadina a bailar nos olhares dos transeuntes. Mesmo assim, amo esta cidade, apesar da tristeza do dia. Confortaram-me os autores de "Le Portugal", logo na abertura, no capítulo, "Chegada a Lisboa". Contam a seguinte lenda que desconhecia: "Um dia, há muito tempo, um cruzado, ao chegar a Jerusalém, pediu a um mágico que lhe mostrasse num espelho a mais bela cidade da Europa. Aos seus olhos deslumbrados apareceu Lisboa..."
Deixei-me embrenhar no texto, saboreando a leitura em francês da nossa forma de ser, de estar e da riqueza de um povo que desconhecia poder ser apreciada por outros, numa época em que a pobreza e as dificuldades seriam muito mais gravosas do que são atualmente. Soube-me bem. Talvez, um dia destes, possa esmiuçar alguns capítulos deste livro, a testemunhar que quem "vê de fora vê melhor"...

terça-feira, 26 de março de 2013

A questão de Chipre e a "dislataria" nacional...

1. Aparte o erro inicial da proposta de penalização dos depósitos de saldo não superior a € 100.000, cobertos por um sistema de garantia oficial – mas em que as autoridades cipriotas, nomeadamente o seu Presidente, tiveram especiais responsabilidades, é bom não esquecer – a questão de Chipre dificilmente poderia ser tratada doutra forma daquela que acabou por ser acordada entre as autoridades nacionais e a tenebrosa Troika.
2. Com um sistema bancário sobredimensionado face à economia do País – os activos bancários representam cerca de 700% do PIB nacional enquanto na média da zona Euro serão cerca de metade desse valor e em Portugal andarão por 275% – funcionando como paraíso fiscal para milhares de cidadãos russos (incluindo muitas empresas) , gregos, ucranianos e outros, especialmente “endinheirados “, que lá depositavam os seus magros haveres, em depósitos cujos juros são tributados a 0% (enquanto nós cá suportamos a módica taxa de 28%)...
3. ...faria algum sentido impor aos cidadãos dos outros países do Euro, nós incluídos (no nosso caso usando a “imensa” folga de que ainda dispomos para suportar mais encargos e sacrifícios) os custos de uma operação de salvamento do sistema bancário cipriota, em especial dos dois maiores bancos (o Bank of Cyprus e o Laiki Bank), deixando intactos os interesses dos maiores depositantes, nomeadamente estrangeiros, que se aproveitaram deste paraíso fiscal?
4. Sabendo-se, ademais, que as dificuldades destes dois bancos, para além dos enormes prejuízos sofridos com o “hair-cut” da dívida grega acordado no final de 2011, resultaram de avultados créditos incobráveis concedidos a empresas russas (o Bank of Cyprus) e a empresas gregas (o Laiki)?...
5. Neste contexto, a solução de impor aos titulares de depósitos de saldo superior a € 100.000 (e na parte excedente a esse saldo) uma penalização de 30% - e que vai ser utilizada para o salvamento desses mesmos bancos, assegurando o cumprimento de todas as obrigações que assumiram - aparece como (re)solução óbvia...
6. ...tanto mais que o funding desses bancos era representado, em mais de 91%, por depósitos, ao contrário do que sucede com muitos outros bancos da zona Euro em que o recurso ao mercado de funding por grosso (incluindo BCE) e ao mercado de capitais têm muito maior expressão...
7. Mas por cá, como cumpre, os comentários em estilo de dislate agudo sucederam-se, desde o prenúncio do fim do Euro ao doloroso lamento pela imposição de sacrifícios aos "inocentes" cidadãos/depositantes russos, gregos, etc...
8. Nem repararam na absoluta indiferença das autoridades russas numa matéria que em princípio lhes dizia bastante respeito mas, para além de terem em vão tentado atirar as culpas para a União Europeia, se limitaram a receber o Ministro das Finanças de Chipre que lá foi pedir ajuda e a oferecer-lhe o bilhete de regresso a Nicósia de mãos completamente vazias...
9. Absolutamente incorrigíveis, estes “media” de uma forma geral, opinion-makers grudados ao politicamente correcto e políticos com eles conexoniados! Uma verdadeira “dislataria” nacional, em plena laboração!

segunda-feira, 25 de março de 2013

As "campainhas" da natalidade...

De cada vez que há indicadores sobre a natalidade tocam as campainhas. Hoje voltou a repetir-se. Ainda há quem se admire com a trajectória do fenómeno em Portugal. Não há qualquer novidade como mostram os números. Era previsível o que está a acontecer. Desde 1982 que deixámos de substituir gerações. Desde 2009 que o número de nascimentos foi ultrapassado pelo número de óbitos. Estamos a envelhecer a passos largos. 
Vivemos mais tempo, felizmente. Os ganhos de esperança de vida obtidos nas últimas décadas são uma grande conquista. Uma vida longa permite acumular mais saber e conhecimento. O capital humano é uma determinante do crescimento económico e do bem estar de uma sociedade. Mas com a natalidade a afundar-se a quem vamos transmitir a maior acumulação de capital humano? Sem esquecer todas as outras consequências...

Condenados a viver com elefantes em lojas de loiça?

"O modelo seguido para o resgate de Chipre poderá passar a ser exemplo para futuras intervenções em países da zona euro com situações de risco no seu sector financeiro, disse o presidente do Eurogrupo em entrevista ao Financial Times e à Reuters, depois da reunião de esta madrugada. As declarações de Jeroen Dijsselbloem são tidas como a revelação da nova estratégia do Eurogrupo para as crises de dívida. Recorde-se que em 15 de março, em anterior reunião do Eurogrupo, o modelo de resgate defendido recorrendo a um imposto extraordinário sobre depósitos foi defendido como uma «solução única» para o Chipre".

Se tiver vontade de ler mais, faça-o aqui.

"A arte é fonte de otimismo"

Os meus dias de pessimismo multiplicam-se de forma exponencial. Razões? São tantas que nem me atrevo a citá-las. Poderei dizer que muitas delas são partilhadas por diferentes pessoas, não as mesmas, porque cada um tem a sua visão própria do mundo com leituras e vivências diferentes. Cada um de nós considera as suas razões como as mais importantes, porque são reflexos do seu posicionamento neste estranho mundo. É perfeitamente natural. No entanto, algumas dessas razões parecem adquirir um estatuto universal, como esta tragédia que nos assalta diariamente e da qual não conseguimos sair nem antever como. Sou inundado diariamente com o pão amargo da tristeza, da falta de esperança e de uma crescente desconfiança em quem nos governa e desgoverna, para não falar daqueles que, tendo sido mais do que responsáveis pela atual situação, foram mesmo criminosos, ameaçam emergir para nos atormentar, não a todos, porque alguns devem esfregar as mãos de satisfação face à possibilidade de regressarem ao palco da vida política e aos cofres da riqueza produzida pelos outros. Ando descontente, desmoralizado, sem esperança, embora lute e me esforce ao máximo para fazer o que devo fazer, com profissionalismo e honestidade, lutando para que os meus não sejam submersos nas ondas furiosas do desnorte e da incompetência provocadas pelos "dirigentes" políticos e económicos do país. Não fujo, mas tenho medo, não me resigno, embora saiba que a minha luta está mais do que perdida, não tenho esperança, e, não obstante este aspeto, tento incutir nos outros que ainda há alguma possibilidade. Mas tenho que contrariar esta tendência, horrível, que é o pessimismo. Como? De diferentes maneiras, claro. Hoje, apercebi-me de uma, simples, banal, que esteve sempre à minha frente, mas nunca tinha pensado como sendo um antídoto contra o pessimismo e muito menos como fonte de otimismo. Uma pequena reportagem na CNN revelou uma senhora de sucesso - o tema dizia respeito a mulheres que conquistaram lugares de destaque na vida -, e que tinha obsessão pela arte, uma atividade secundária a que não era estranha a sua elevada capacidade financeira. Não interessa, o que interessa é que é amante da arte, tem uma coleção notável que faz gosto em partilhar com quem admira e necessita de a ver e de a tocar. A entrevistadora fez-lhe uma pergunta simples, por que razão se dedica a esta atividade. A senhora respondeu com uma simplicidade desconcertante: - A arte é fonte de otimismo! Pus-me a pensar nesta resposta e tive de concluir que tem toda a razão, "a arte é fonte de otimismo". Obviamente que não tenho nada que se pareça com as suas obras, muitas máscaras e estatuetas, mas, de qualquer modo, possuo algumas pequenas peças que me dão um prazer enorme sempre que as vejo e as toco, algumas originais e outras belas réplicas. Já não é a primeira vez que me vejo a contemplá-las e depois acabo por me sentir melhor. É isso, as obras de arte encerram mensagens e possuem uma linguagem simbólica que mexem com as nossas emoções e sentidos, sejam quadros, estatuetas, música, poemas ou romances, seja o que for capaz de voltear e de estimular o centro do sentido estético muitas vezes afogado no tormentoso oceano do nosso cérebro. O prazer explode e o otimismo é despertado. Abri a vitrina e retirei quatro pequenas estatuetas, uma réplica muito bela da Vénus de Tacarigua, com olhos de batráquio, coxas abundantes, ventre volumoso e uma vagina a tremer de fertilidade. Duas pequenas estatuetas, de Figueiredo Sobral, adquiridas há muitos anos, a menina com a pombinha, esperança e bondade, a cabeça do pensador, bela e tranquila, e, por fim, a misteriosa estatueta de ferro, africana, do reino de Benim, cuja leitura simbólica me perturba, porque vejo algo de misterioso, meio diabólico, meio guerreiro e anunciador de uma vitória que nunca mais aparece. O que têm em comum? Arte. O que me despertam? Um pouco de otimismo. Quanto tempo vai durar este otimismo? Não sei, mas quando tiver necessidade de uma "dose" vou procurá-las, assim como a outras, quem sabe se não me vão ajudar. Hoje conseguiram.

domingo, 24 de março de 2013

A grande confusão

Não há como disfarçar. Aprofunda-se o descrédito. Ontem, no final da reunião de um dos parceiros da coligação governamental, não foi o líder que falou. Falaram dois dirigentes reclamando por uma urgente remodelação governamental. O facto de não ser Paulo Portas a fazê-lo, percebe-se. Não quer ser responsabilizado pela crise que imediatamente se seguiria, com a consequente recriminação do presidente do PP pelo PSD, se fosse ele a acentuar a crescente agitação nas hostes da maioria.
No entanto, o recado de Paulo Portas dado por interpostas pessoas, é mais um sinal da indisfarçável desorientação que grassa entre a maioria, agravada por declarações de alguns dos seus dirigentes que, para além de acentuarem a já periclitante situação da maioria e do seu suporte político, revelam um preocupante desconhecimento de algumas das regras do sistema. Quando um dos vice-presidentes do PSD reage ao anúncio da moção de censura sine die do PS, dizendo que Seguro está à espera do acórdão do Tribunal Constitucional, para além de admitir que a decisão vai ser desfavorável ao Governo, dá ao secretário-geral do PS a oportunidade de lhe responder recordando-lhe quais são as regras e os limites do sistema que temos. Talvez o desconhecimento revelado em episódios destes explique muito do que se está a passar. No ´Sol´ escreve-se que numa reunião à porta fechada entre os deputados da maioria e Vitor Gaspar, este ter-lhes-à feito uma sugestão: "expliquem aos vossos eleitores a situação do país". Ao que dois deputados sociais-democratas, incluindo o líder da JSD, terão retorquido: "Nossos? Também são os seus!". Pois. Eis a eterna leveza dos Jotas que não lhes permite perceber que não, Vitor Gaspar não tem eleitores. Afinal, as universidades de verão ensinam pouco ou ensinam mal...

sábado, 23 de março de 2013

O último comboio de Sócrates

Sócrates levou as SCUTS ao paroxismo. Passou o utilizador a pagá-las, que o contribuinte, por si só, já não podia. As SCUTS negaram-se enquanto tal.
Por isso, faltava-lhe uma, que comprovasse a bondade suprema do princípio. E Sócrates criou sua própria SCUT, utilizando a via verde da RTP, serviço público, para o seu programa privado.
Programa privado, sem custos para o utilizador.
Sócrates pode tomar calmamente o último comboio para Lisboa, que as SCUTS atingiram o seu clímax definitivo e derradeiro.

sexta-feira, 22 de março de 2013

"Mactérias"


É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funcionam aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca. 
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariógenos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto.
"- Sabes o que são cáries, mamã?
- Hummm... Não. Conta-me lá!
- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!
- Ahhh... E cabem lá todas?
- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...
- Pois! É uma grande chatice..."
Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 
- Como?! As "mactérias" ressonam?
- Sim. E depois fazem doer.
- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.
A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:
- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!
- O quê?!
- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?
- Bom, um pouquinho.
- Ah. Está bem.
- E agora, o que é que vais fazer?
Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:
- Vou tirar as "mactérias". 
- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?
- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.
- Muito bem Vai lavar os dentinhos.
Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao ressonarem provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

O foguetão da dívida!

                                       (Dados do Prof. Doutor Nuno Valério, do ISEG) 

 Aquele foguetão na vertical entre 2005 e 2010, obra da Srª Merkel...!

Arte de perder tempo

Vai começar o "debate” mensal, em que se bate, rebate, sobretudo combate, mas, contrariando o nome, nada se debate.
Os mesmos figurantes de sempre, os mesmos temas, a mesma argumentação, as mesmas perguntas, as mesmas respostas cem mil vezes dadas, as mesmas tiradas, as mesmas pateadas, os mesmos aplausos de hoje, traições de amanhã, os mesmos sorrisos escarninhos, as mesmas ofensas. A mesma imprensa que não escolhe o menos mau, mas divulga até à náusea o que de pior se passa.
No fim, fazem aquilo para que têm competência. Peter explicou bem por que não vão além disso. 
Neste ritual, uma máquina de repetição substituiria bem os nossos Deputados.
Com a enorme vantagem de Peter não se lhe aplicar.

Melhoria das contas externas confirma-se em Janeiro...em País de loucos?

1. Foram ontem divulgadas (Boletim Estatístico de Março, do BdeP) as primeiras informações quanto ao desempenho das contas externas em 2013 (Janeiro). Confirmam-se os superavits nas Balanças de Bens+Serviços (€ 133 milhões, tinha sido € 111 milhões em todo o ano 2012) bem como nas balanças Corrente+ Capital (€ 51 milhões, tinha sido de € 1.333 milhões em todo o ano 2012).
2. Especialmente relevante é o facto da balança Corrente se mostrar praticamente equilibrada (um défice de € 14 milhões) - quando em 2012 tinha apresentado um défice de € 2.577 milhões só em Janeiro de € 1.090 milhões.
3. Sendo o mês de Janeiro um mês tradicionalmente mau para as contas externas, os dados referentes a Janeiro de 2013 permitem antecipar superavits significativos para o conjunto do ano, confirmando as expectativas muito positivas antecipadas pelo BdeP no seu Boletim Económico de Inverno...
4. ... que há pouco tempo aqui tive oportunidade de citar: superavits de cerca de 3% do PIB tanto nas balanças de Bens + Serviços como nas balanças Corrente+Capital, sendo positivo mesmo o saldo da balança Corrente...traduzindo uma verdadeira (e a grande) revolução no desempenho da economia portuguesa.
5. Perante o ambiente asfixiante criado pela avalancha de comentários pessimistas emitidos a toda a hora pelas pseudo-elites que constituem a Vanguarda da Decadência – (i) “opinion-makers” cegamente obedientes ao politicamente correcto, (ii) comunicação social de uma forma quase universal em estado de alucinação (com pouquíssimas, embora honrosas excepções), (iii) políticos profissionais fascinados pelo discurso do bota-abaixo...
6. ... custa a crer que o País a que aqueles números se referem seja o mesmo que é vítima desse discurso sado-masoquista que os “media” difundem a toda a hora...
7. Torna-se assim cada vez mais chocante o contraste entre:
- O País que trabalha, que produz, que descobre novos mercados para vender os seus produtos ou serviços, que arregaça as mangas e não vira a cara à luta, o País dos que foram forçados a emigrar mas que continuam a enviar para a sua Terra uma parte das suas poupanças, ajudando-o a sair do buraco em que foi lançado pelas pseudo-elites da Vanguarda da Decadência...
- E o País da mediocridade, da ociosidade e do mal-dizer, das tais pseudo-elites agarradas aos velhos hábitos de intrigar a toda a hora, na sua maioria sentados ou mesmo refastelados na mesa do Orçamento...
8. ...pseudo-elites que, para cúmulo, vivem à custa dos que realmente trabalham e produzem, sendo obrigados a pagar impostos cada vez mais elevados para manter uma legião de mal-dizentes e profissionais da intriga...
9. Não será mesmo um País de loucos?

quinta-feira, 21 de março de 2013

Mudanças de paradigma...


O tema das pensões é hoje um tema que preocupa as pessoas, os pensionistas porque mantêm-se na incerteza sobre se as suas pensões serão ou não poupadas aos cortes anunciados ou se os cortes já aplicados vieram para ficar e os activos porque não acreditam que as pensões hoje prometidas alguma vez sejam pagas. Instalou-se uma percepção geral - perigosa - de que o sistema de pensões está em risco em boa parte por causa do anúncio dos cortes, justificado ora pela necessidade de reduzir o peso das funções sociais na despesa pública, ora na premissa de que estão a ser pagas pensões indevidas tendo em conta as condições em que as mesmas foram concedidas. 
Ouvimos falar de cortes nas pensões, mas não ouvimos falar de uma reforma estrutural das pensões, quando cada dia que passa estamos a engrossar a desconfiança das pessoas na segurança social e a potenciar a conflitualidade entre gerações e estamos a agravar os défices das contas públicas das pensões. Impõe-se portanto uma mudança no sistema de pensões que trave o caminho que tem sido seguido de o Estado prometer hoje um benefício para no momento seguinte o negar por não ter condições de o pagar. Esta rampa inclinada de promessas não cumpridas não deve continuar. Mais cortes nas pensões não resolvem o problema central de um sistema de pensões que está assente numa promessa de benefícios definidos que não tem em conta a economia e a demografia. O Estado não pode continuar a prometer o que não pode dar. Impõe-se uma mudança de paradigma.
Tenho ouvido muitos jovens trabalhadores dizerem que não vale a pena descontar para a segurança social porque não vão ter pensões. Este pensamento conduz a comportamentos e respostas perversas que prejudicam a economia e a própria segurança social e complicam o futuro. É preciso contrariar este pensamento, o que não passa por fazer as mesmas promessas, já ninguém acredita, mas por apresentar uma alternativa que tenha os incentivos certos.
Um sistema que incentive as pessoas a trabalharem – trabalhar mais e por mais tempo – e a pouparem para a reforma – melhor combinação ao longo do ciclo de vida entre consumo, investimento e poupança – é um sistema virtuoso. Cada trabalhador tem uma conta individual que acumula as contribuições sociais – dele e da empresa – feitas até à reforma e o rendimento obtido pela sua capitalização a uma taxa de juro fixada pelo Estado que reflicta em cada ano o desempenho da economia. À data da reforma o trabalhador tem um capital acumulado que é transformado numa pensão.
Quanto mais tempo o trabalhador permanecer no mercado e mais contribuições fizer na sua conta individual e melhor for o desempenho da economia maior será a pensão a receber, que terá em conta a esperança de vida e a relação entre activos/pensionistas. Estabelece-se, portanto, uma relação directa entre contribuições e benefícios, os beneficiários ganham em transparência sobre a poupança acumulada e os benefícios futuros.
As contribuições continuarão a financiar as pensões dos actuais pensionistas, dado que a situação deficitária das finanças públicas não permite dispensá-las. A capitalização “virtual”, assim se designa este sistema adoptado em vários países (Suécia, Polónia, entre outros), não tem risco financeiro e acomoda automaticamente o impacto da evolução da longevidade e da economia na  sustentabilidade financeira das pensões. Assegurar esta sustentabilidade é a melhor forma de garantir um bem social precioso que é a equidade entre gerações.  
Este sistema (ou outro de resultados equivalentes ou superiores) deveria ser introduzido de imediato para as gerações que entram agora no mercado de trabalho, seja no sector privado seja no sector público. Não tem custos orçamentais, tem vida para além dos "cortes"… 

Beleza perfeita

Uma jovem britânica foi considerada no ano passado como a mais bela daquela ilha e uma outra foi considerada como a beleza perfeita. Afinal quais são os critérios que explicam estas apreciações? Tudo se baseia numa simetria facial, antes de tudo, em que determinadas proporções são respeitadas, caso da distância entre as pupilas ser ligeiramente inferior a metade da distância entre as orelhas e a distância dos olhos à boca ser superior a um terço da distância entre a linha de inserção do cabelo e o queixo. Enfim, há de facto um conjunto de proporções suscetíveis de provocar o despertar do sentido estético o qual terá a ver com alguma vantagem evolutiva. As mulheres com estas características atraem mais os homens, o que é uma vantagem, e também sinalizam menos riscos de anomalias genéricas. Estes efeitos de proporções adequadas têm sido analisados e seguidos pelos construtores gregos, por muitos escultores e até por Da Vinci no seu famoso desenho, o homem vitruviano. Até a natureza "constrói" a beleza através de proporções interessantes, como é o caso do famoso "número de ouro".
Resta saber se uma beleza perfeita é o ideal. Parece que não, sobretudo nos nossos dias. Os homens com mais “glamour” ganham mais, ao passo que as mulheres muito belas são recusadas mais frequentemente na admissão ao emprego. Têm tendência em fazerem parte de grupos de mulheres belas e serem conotadas com traços negativos de personalidade, chegando a ser alvo de condenações mais pesadas em caso de crimes graves, como se a sua beleza escondesse algo de diabólico.
Esta abordagem, feita por James Hablin, é muito interessante, porque, como ele bem diz, a nossa sociedade discrimina tão facilmente o excesso de beleza, ou a beleza perfeita, como a falta da mesma.
Social e culturalmente esta abordagem revela aspetos evolutivos, os quais têm a ver com a propagação da nossa espécie e também com o sentido estético, que muito prezamos, não só nos dias que correm, como ao longo de dezenas milhares de anos de evolução.
É curioso olhar para certas obras de arte e verificar que as que mais nos impressionam são precisamente as que possuem as tais "proporções". Há algo dentro de nós que é recetivo e sensível aquilo a que chamamos beleza, talvez a mesma regra que determinou o sucesso da nossa espécie.
Certas expressões são muito interessantes. Olha-se para uma mulher e dizemos que é bem proporcionada. Ouvimos dizer que certas decisões tomadas são proporcionadas. Uma casa bem proporcionada. Uma decisão judicial proporcionada. Tudo o que nos dá prazer, conforto, bem-estar e felicidade é considerado como sendo proporcionado, a fazer crer que certas relações e razões respeitam certas regras, regras velhas como o mundo. É por isso que um quadro, um desenho, uma escultura, um poema, um romance, uma música, ou qualquer manifestação cultural humana desperta sensações de prazer e de alegria graças a certas proporções.
É pena que na sociedade atual não haja quem respeite as "proporções", nomeadamente na política, na religião, no desporto e na economia. Quando a comunidade “vitruviar” ou “fibonicciar” as suas atividades talvez consiga despertar o sentido mais velho da espécie humana, o tal que esteve na base da evolução e da sobrevivência e que se transformou na necessidade de apreciar e beber a beleza.
Hoje, o sentido estético está a diminuir e a capacidade de evoluir, ou garantir a sobrevivência humana, também.
Evolução, sobrevivência e beleza estão em risco por não serem respeitadas certas proporções...

Uma figura sempre actual...


Repararam? Sempre actual...

O saque de Sócrates

José Sócrates contratou o serviço público da RTP para a prossecução e desenvolvimento dos seus interesses privados, nomeadamente uma refundação da  imagem, que incorporará o toque mais avançado da esquerda intelectualizada da rive-gauche.
No âmbito do acordo, o seu tempo de antena não será emitido nos blocos publicitários, pelo que não terá que pagar o respectivo preço. As negociações previram que ele será pago pelos subscritores nas facturas da electricidade.
Com a contratação da RTP, José Sócrates pretendeu demonstrar, dando o seu próprio exemplo, que o serviço público de televisão é exclusivo feudo de meia dúzia de corporações e afins, que moldam o estilo da informação e enchem os telejornais.
O país deve reconhecer-lhe esse serviço que sacou da RTP. Serviço público de superior relevância.

Limitações de mandatos

Concordo com a decisão do juiz, embora reconheça que em instâncias superiores irá, "naturalmente", ser contrariada. Um comportamento tipicamente português. É pena! 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dêem razão à S&P

Portugal recebeu recentemente o primeiro sinal favorável de uma agência de notação financeira em 15 anos: a S&P veio subir as perspectivas para o rating da dívida portuguesa de negativas para estáveis. Depois da emissão de dívida pública a 5 anos em Janeiro último, uma nova etapa positiva foi superada na espinhosa trajectória que teríamos sempre que cumprir para ambicionar melhorar o nosso futuro.
Goste-se ou não das agências de rating, achemos ou não que são incompetentes (e que deixaram, no passado, que a crise financeira internacional, por exemplo, lhes rebentasse bem debaixo do seu nariz sem que o tivessem minimamente previsto), a verdade é que elas são incontornáveis, as suas opiniões e análises são globalmente escutadas e a melhor forma de um país ou empresa não estar sujeito à sua ditadura é “não se pôr a jeito” (como aconteceu, por exemplo, com Portugal). Considero, por isso, muito relevante o sinal enviado pela S&P, uma das três mais importantes agências de notação financeira do mundo (as outras são a Moody’s e a Fitch).
É verdade que a notação continuou a ser a mesma (BB, nível considerado “lixo”) – mas, enfim, pelo menos desapareceu o risco imediato de voltar a descer (o que fez os juros da dívida pública portuguesa acentuarem a tendência de queda que já vinham experimentando, contribuindo para tornar mais provável o regresso pleno de Portugal ao financiamento nos mercados a breve trecho). a razão de fundo para esta melhoria de outlook, dado o compromisso total do Governo no cumprimento das reformas estruturais e orçamentais subjacentes ao Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF), reside no apoio dos credores e dos parceiros europeus. Como? Pelo ajustamento do ritmo de consolidação orçamental (leia-se um prolongamento dos prazos para cumprir as metas do programa) e também por uma extensão dos prazos para o pagamento da dívida financiada pela Europa. Uma consequência da deterioração da situação económica nacional e que, na opinião da agência, “torna o processo de ajustamento de Portugal mais sustentável económica e socialmente”, reduzindo o risco de que o País não cumpra o programa. Já para subir o rating da dívida pública portuguesa, a S&P elege uma prestação das exportações melhor do que se espera, ou uma recuperação significativa do investimento como factores críticos; ao contrário, a diminuição do compromisso político para implementar o PAEF, ou um menor apoio das instituições europeias ao programa, são factores que poderão fazer descer o rating da dívida pública portuguesa. Creio que, pelo menos desta vez, a S&P acertou em cheio no alvo. O que se tornou ainda mais evidente depois de conhecidas as conclusões do sétimo exame regular da Troika (a decisão da S&P foi conhecida antes). Porquê? Porque grande parte do PAEF português tem, hoje, pouco ou nada a ver com o inicialmente desenhado: a recessão é muito maior; o desemprego atinge níveis considerados impensáveis até há bem pouco tempo; a consolidação orçamental situa-se muito aquém do previsto (apesar dos progressos em termos estruturais – ainda assim, eles próprios bem inferiores ao projectado). Tudo isto com o Governo a mostrar um compromisso total com as metas do Programa. E com a população portuguesa a realizar tremendos sacrifícios, que superaram todas e quaisquer expectativas. Não podem, por isso, deixar de ser retiradas ilações desta situação. E se o País até já está excedentário nas suas contas com o exterior (o que nunca foi previsto no PAEF original…), isso significa que famílias e empresas já ajustaram – pelo que só faz sentido manter a austeridade na esfera pública. Por outras palavras, falta reformar o Estado e redimensionar a despesa pública, tornando-a sustentável. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade deve ser aliviada do enorme sufoco fiscal em que se encontra – o que aumentará a confiança, deixará respirar um pouco melhor a economia e beneficiará as contas públicas. Faria todo o sentido que os nossos parceiros europeus o percebessem – se estão realmente interessados (e eu tenho a certeza que estão) no sucesso do nosso PAEF. E que não insistissem numa receita que, apesar do total empenhamento interno, não produziu, nem está a produzir, os resultados desejados – como já todos perceberam. A S&P subiu o outlook da dívida pública portuguesa devido ao apoio da Europa. Sucede que o apoio até agora demonstrado – a revisão das metas orçamentais do PAEF e a extensão do prazo para o pagamento dos empréstimos europeus – não é, nesta altura, suficiente para, em face do que se soube da sétima avaliação da Troika, continuar a garantir que, no fim, o PAEF acabará bem. Nem para que o nosso rating seja subido, como todos desejamos. À deterioração acentuada das condições económicas e sociais corresponde não só uma crescente dificuldade em conseguir cumprir as metas orçamentais que continuam a constar do programa, como condições políticas cada vez mais adversas (o consenso à volta do PAEF é, hoje, bem menor do que num passado recente). Nunca tanto como agora a responsabilidade esteve nas mãos das instituições europeias e dos nossos parceiros. O cumprimento do PAEF por parte de Portugal é inquestionável. O empenhamento do Governo e da população portuguesa tem sido irrepreensível. Mas sem que as orientações europeias de política económica se alterem, dificilmente chegaremos lá. Mesmo conseguindo colocar-nos sob protecção do BCE (e temos feito tudo para o alcançar). É tempo de sermos recompensados. Realmente. Sim, queremos cumprir o PAEF e pagar a nossa dívida. Dêem-nos, por isso, condições para o fazermos.
Dêem razão à S&P. 

Este texto foi publicado no Jornal de Negócios em 20 de Março, 2013.