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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"Num País onde não se sonha, emigrar é natural"...que sonho tão irreal!

1. A parte do Título deste Post que está entre “ ”, foi retirada da edição de ontem do jornal PÚBLICO – jornal que aprecio e que leio com alguma frequência, avanço desde já, pela pluralidade das opiniões que nele são expressas, desde Crescimentistas de diversos tons, mais ou menos parvo-keynesianos, até neo-liberais confessos!

2. Achei curiosíssima aquela expressão, reveladora da vontade de continuarmos enlevados em sonhos enganadores, apesar dos múltiplos dissabores e maus resultados que já contabilizamos ao longo dos quase 40 anos desde a aurora de Abril...

3. Achei curiosíssima a expressão, utilizada como título de um trabalho jornalístico bastante interessante, aliás, dedicado ao fenómeno da emigração ao longo dos últimos 40 anos...achei curiosíssima e não posso estar mais em desacordo, devo acrescentar!

4. Penso, concretamente, que foi por termos sonhado infantilmente com a conquista da liberdade que, pouco depois de a recuperarmos, íamos deitando tudo a perder, sacrificando-a a uma ditadura bem mais ferrugenta e implacável que a anterior...

5. Tb penso que foi por termos sonhado infantilmente com o Maná dos fundos europeus – convencidos que esses fundos nos iam tornar abastados, sem necessidade de grande esforço – que não soubemos aproveitar essa importante fonte de recursos, em boa parte sacrificada em projectos de “investimento” do tipo “elefante branco”, que hoje nos impõem encargos e mais encargos, sem fim à vista...

6. Penso ainda que foi por termos sonhado erradamente com as promessas de um segundo Maná, da entrada no Euro, passando a cultivar a famosa prática de atirara dinheiro para cima dos problemas, com o “espantoso” resultado de não termos sido capazes de resolver qq problema, tão simplesmente de os agravar..e entrando numa rota suicida de endividamento imparável...

7. ...que culminou com 6 anos de perfeito delírio despesista, entre 2005-2011, o qual nos conduziu até à fronteira da bancarrota, em Maio de 2011, e à necessidade imperativa de aceitar um acordo de Assistência Financeira...que, apesar de merecer hoje crítica quase unânime da grande maioria dos iluminados deste País, na sua falta o Estado teria cessado pagamentos em Junho de 2011, nomeadamente de salários e pensões...

8. Em suma, penso que já sonhamos demais , vezes demais e sempre mal, e que devíamos agora ter a preocupação de olhar para a realidade que nos circunda, com os olhos bem abertos para não voltarmos a cair em fantasias que já tão caro nos saíram...

9. Por tudo isto e muito mais que poderia acrescentar, não gostei nada, mesmo nada daquele título, que interpreto como mais um convite à fantasia, ao lirismo mais rematado, ao embarque num modelo de aventureirismo sem regra que tantos custos nos impôs...mas parece que nunca mais aprendemos!

"Aldeia moribunda"..,


Há muito que tinha pensado em subir a encosta e visitar a aldeia como deve ser. Uma espécie de cascata, íngreme, demasiado, e imprópria para pessoas de idade ou que sofram de algum tipo de insuficiência orgânica. Ao longe, sobretudo de noite, encanta qualquer um, quando, ao dar a curva apertada, nos deparamos com tão belo espetáculo. Ao perto desencadeia alguma tristeza pela degradação e despovoamento. Passei milhares de vezes ao seu sopé e já fiz uma tentativa, falhada, de subir a encosta de carro. Um dia hei de visitar esta aldeia. Pensei múltiplas vezes. Hoje foi o dia. Estacionei o carro e pus-me a subir a rua tortuosa e íngreme a ponto de por pouco não ter botado fora os bofes. Uma tristeza. Casas degradadas, velhas e sem gente. Ouvia ao longe alguns cães e ao perto os pássaros. Contei três chaminés que deitavam um fumo branco que se espreguiçava no ar a testemunhar dores reumáticas. Nada. Ninguém. Subitamente vi um cão pequeno num varandim com ar espantado para mim. Ao lado vislumbrei cabelos brancos e em desalinho de uma velha. Debruçou-se e cumprimentei-a: - Bom dia, minha senhora. - Bom dia, bom senhor. Não parei para conversar. Continuei a subir no deserto do velho casario. Ouvia cães, uns à ladrar e outros a uivar, e ainda vi alguma roupa a enxugar. Andei, vasculhei e fiquei com a sensação de contemplar uma aldeia moribunda. Passei por um senhor e após os bons dias pusemo-nos a conversar como velhos conhecidos. Estes espaços, rurais, pobres e despovoados têm esse condão, fala-se de imediato com a maior naturalidade do mundo, como se uma amizade escondida emergisse das pedras negras e tábuas partidas. - Já falta pouco. Cada vez há menos gente. Daqui a vinte anos está morta. - Uma morte lenta. Disse. - Lenta, mas segura. Não há gente. Continuei naquelas vielas, ruelas, escadas, tortas, feias, sujas de tempo, sem almas e sem gente, apenas se ouvia alguns cães, que assim que me viam se calavam de imediato, talvez surpreendidos pela presença de um estranho.
Fiz o percurso inverso, com muito cuidado, porque descer aquela encosta molhada da noite não é tarefa fácil. Arranquei um varapau de um molho perdido e esquecido junto à ombreira de uma porta morta e escancarada e apoiei-me nele, parecendo um vagabundo ou um candidato a peregrino. Ao terminar a descida, uma velhota, de canadiana, saía de casa. Ao pressentir a minha presença virou-se, mas antes colocou a sua mão esquerda na parede da casa para se apoiar. Cumprimentei-a com um natural, bom-dia minha senhora. Replicou: - Bom dia. Benza-o Deus.
"Benza-o Deus"! Há muito que não ouvia esta expressão. Sorri e parti para uma curta conversa. - Tem de ter cuidado ao descer. - Pois tenho, a calçada está muito escorregadia. - Mora aqui há muito? - Desde que nasci. - A aldeia está muito abandonada. - Pois está. As pessoas vão-se embora, uns desaparecem, outros casam-se, outros juntam-se e o resto morre. Seja o que Deus quiser. - Olhe, vá devagar, porque pode cair. - Vou, pode estar descansado, bom senhor, eu vou a casa da minha comadre que está sozinha e doente. - Olhe, um bom ano para a senhora. - Obrigada bom senhor e que Deus o acompanhe.

Um curto diálogo a testemunhar a paisagem humana de uma aldeia moribunda.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A escolha pela negativa: o desemprego...

Muitos acontecimentos marcaram o ano de 2013. Não é fácil fazer escolhas, é mesmo difícil, pois ao priorizar uns, corre-se o risco de outros igualmente ou mais significativos serem subalternizados ou reduzidos na sua importância. Mas não é disso que se trata. Não é tanto uma questão de escala, tem mais que ver com a percepção que fazemos do mundo que nos rodeia e da nossa sensibilidade e olhar crítico.
As escolhas dependem, naturalmente, de muitos factores. Reflectindo sobre tantos acontecimentos, e não são poucos, quer internamente no país quer numa dimensão mundial, a minha escolha cá dentro vai para o Desemprego. 
Pelo flagelo que a condição de desemprego impõe sobre a pessoa atingida, a sua família e a comunidade. A impossibilidade de uma pessoa poder trabalhar, poder produzir, ganhar o seu próprio sustento, ser autónomo nas suas escolhas, fazer projectos de uma vida normal agora e a pensar no futuro, ter acesso à satisfação de necessidades básicas e da sua família e muitas outras amputações de vida são contrárias à condição humana, roubam-lhe dignidade. 
Uma sociedade que não é capaz de incluir todos os seus cidadãos num projecto comum não pode ser equilibrada e feliz. Uma sociedade assim é vítima da sua própria incapacidade de tomar conta do seu destino. Não tem futuro. Quando vemos que mais de 50% dos desempregados não têm apoios económicos e sociais, que uma parte significativa tem mais de 45 anos com fracas qualificações e que o peso do desemprego de longa duração está a crescer deveríamos ter uma estratégia bem estabelecida para assegurar a requalificação do maior número de desempregados tendo em vista a sua empregabilidade, assente em formas novas de organização, educação e governação que permitam a estas pessoas readquirirem o que perderam e não ficarem condenadas para o resto das suas vidas a viver da caridade alheia ou do assistencialismo estatal.
Um país que consente cenários com estes contornos terá graves problemas de coesão social e as desigualdades sociais tenderão a aumentar. Com uma população cada vez mais envelhecida não nos podemos dar ao luxo de não aproveitar as pessoas, o recurso mais valioso de uma sociedade, todos fazem falta à prosperidade económica, sem ela também não poderemos ambicionar ter níveis de desenvolvimento humano dignos. O êxodo dos nossos jovens, os mais qualificados de sempre, rouba-nos em criatividade, energia e inovação, qualidades indispensáveis para nos transformarmos, e leva para outras paragens os projectos de constituição de família que tanta falta fazem para regenerar e renovar gerações. 
Há um sentido de urgência de superar a crise, a dimensão económica é fundamental, mas não devemos esquecer a necessidade de reconstruir a vida social...

domingo, 29 de dezembro de 2013

"Caverna"

O ritual foi criado de forma rápida. Surpreendeu-me, não pela qualidade da alimentação, nem do espaço, pouco cuidado a recordar velhos locais do passado, mas pela qualidade das pessoas, simples, espontâneas, criativas, com linguagem fechada aos nossos dias e vendo o mundo por cristais manuais e coloridos de épocas desaparecidas. Um local que me levava a voar nas conversas que ouvia a outros tempos e a outras épocas. Uma espécie de caverna, onde aprendia e desfrutava histórias e historietas. Acabei por registar em desenhos da minha memória muitas personagens. Aos domingos esperava-os ou encontrava-os. Seres que me inspiravam e divertiam. Com o tempo alguns iam desaparecendo. Talvez por terem morrido, talvez por não conseguirem deslocar-se ou por não terem dinheiro para pagar a refeição do almoço de domingo, talvez a única extravagância, que apesar de não ser dispendiosa, longe disso, começou a causar mossa nos bolsos pobres de gente pobre mas rica de sentimentos e de histórias. O declínio vinha-se acentuando desde há alguns meses, e o dono já tinha manifestado desagrado pela situação, dando a entender que o melhor era voltar a emigrar. Não dei a importância devida, embora me tenha pedido há semanas o meu telefone para avisar de qualquer contratempo nesta época do ano. Pensei que deveria ser para descansar alguns dias. Hoje era dia de ir à minha "caverna" conviver com personalidades retiradas diretamente das profundezas do povo, rico, único, fonte de inspiração e cheio de histórias, que contavam e partilhavam alto e em bom som de mesa para mesa sem receio de serem ouvidos, pelo contrário, até ficava convencido que gostavam mesmo de serem ouvidos. Eu gostava, e eles já deveriam ter percebido a minha atenção, embora nenhum tenha lido o que escrevi sobre eles. Hoje fui à "caverna". A porta estava fechada com um aviso, "encerrado por tempo indeterminado". Fechou-se um portal para o passado. Vou deixar de ouvir e de conviver com gente do povo, gente interessante e rica em emoções, histórias e interpretações.
Eu sei que a crise é violenta, mas chegar a este ponto violenta-me também, porque perco um precioso bem. Nem um espaço pobre, simples, pouco cuidado e barato escapou às garras de miseráveis que a esta hora devem estar a conspirar em luxuosos restaurantes desfrutando opíparos repastos e continuando a ofender pobres humanos.

Para onde terão ido os donos? Reemigraram com toda a certeza...

sábado, 28 de dezembro de 2013

"Museu"...

Um dos locais que frequentava em criança era a biblioteca-museu, não propriamente para ler livros, se bem que uma ou outra vez me sentava a uma mesa redonda para esse efeito. Ia àquele lugar para ver algumas peças que me seduziam, sobretudo armas velhas, lanças, frascos com serpentes e muito outros objetos antigos. Assustavam-me os gigantescos quadros a óleo que estavam logo à entrada, mas fechava os olhos e passava em frente. O Arménio mostrava-me tudo, inclusive um pequeno tesouro de velhas moedas romanas que tinham sido encontradas num sítio próximo. Recordo de as sopesar, eram belas, com cabeças de imperadores imponentes. Contava-me histórias, algumas mirabolantes e outras de assustar. Gostava imenso de ir até ao museu, via e fantasiava como só uma criança sabe fazer. Tenho tantas saudades desse tempo.
Recordo este episódio porque hoje, finalmente, consegui ver em Bobadela o museu. Perdi o conto às vezes que fui até esta localidade do concelho de Oliveira do Hospital, outrora uma importante cidade romana, para o visitar. Entrei e, simpaticamente conduzido por uma menina, defrontei-me com uma preciosidade difícil de traduzir em breves palavras. A casa onde viveu o General Gomes Freire de Andrade estava repleta de um riquíssimo espólio de arte e de peças diversas, muitas ligadas à etnografia e à história do município. O tesouro enche o mais guloso estômago da cultura. Comi, bebi, saboreei e entusiasmei-me com tamanhas iguarias. No regresso lembrei-me de outros museus da região, pequenos, mas soberbos no significado e na intenção. Preservam a memória e incendeiam a imaginação. O caso do museu do concelho vizinho, Carregal do Sal, é paradigmático do exemplo da cultura, do cuidado e do amor pelo passado, que estão sempre presentes nas vidas das pessoas. Considero esta devoção como uma das formas mais belas e superiores de respeito pela identidade de um povo, seja à escala nacional ou regional. Os museus não são meros depósitos de peças, são locais de convívio, de estudo, são a porta de entrada de uma povoação. Nos museus estão conservados objetos, todos com uma história, todos a fazerem história, todos ansiosos por parirem novas histórias. Respeito todos os povos e todas as localidades por onde passo ou visito, mas sempre que me deparo com estes cuidados, o meu respeito e admiração triplica, no mínimo, e faço tudo por voltar vezes sem conta para saborear e sentir tamanho prazer.
Olho para Santa Comba Dão e não vejo algo semelhante. Nada. Um nada que contrasta com o muito que já teve outrora onde permanecem muitas das minhas lembranças. Como gostava de as recordar no presente vendo os mesmos objetos, moedas, quadros, armas, punhais, lanças, frascos de vidro com víboras, todo um historial que poderia ser o núcleo de um museu capaz de atrair doações enriquecedoras do património do concelho.
Já agora pergunto, onde estão essas peças e objetos? 
A ideia do museu está aqui...
Santa Comba Dão, 27.12.2013

Um Alegre Portugal

José MANUEL ALEGRE Portugal foi nomeado Director de Informação interino da RTP, por força do pedido de demissão do Paulo Ferreira, que não tinha a confiança dos jornalistas da casa.
Fica comprovado que as coisas estão a melhorar, como referia Passos Coelho. Até já temos um Alegre Portugal na RTP!... 
PS: Nota-se o regime de auto-gestão em vigor na D. Informação da RTP: Director que não agrada aos camaradas (apesar de nomeado pela Administração e com o beneplácito da ERC) sai, porque, ou quando, a corporação o obriga a sair. Independentemente da crítica à linha editorial da RTP, o acto consubstancia à saciedade a existência de poderes paralelos na empresa. Sem hierarquia que funcione, as empresas são ingeríveis. Ou melhor, são geríveis à medida de quem efectivamente manda. Como se demonstra na RTP. 

Em Portugal já não é "ubi commoda, ibi incommoda"...está tudo invertido!

1. O velho brocardo latino "ubi commoda ibi incommoda", exprime um princípio que inspirou o direito romano e chegou até aos nossos dias, significando que aquele que recolher o benefício ou proveito ("commoda")de uma dada situação ou coisa, terá igualmente de suportar os prejuízos ("incommoda") que dessa situação resultarem...
2. Este velho princípio tem aplicação no domínio da chamada responsabilidade objectiva, por exemplo: quem for proprietário de animais domésticos, retirando as vantagens que o trabalho destes lhe proporcionam, será responsável pelos danos que esses mesmos animais causarem em propriedade alheia...
3. No Portugal "moderno" e em matéria de políticas públicas, este princípio foi afastado, valendo agora dois princípios opostos: para o sector privado, vigora o "ubi incommoda, ibi incommoda"; para o sector público, vigora o "ubi commoda, ibi commoda"...
4. Explicando melhor, o sector privado - Famílias e Empresas - como sabemos e tem sido apregoado alto e bom som por (quase) todos os quadrantes, suportou quase integralmente os custos do ajustamento da economia portuguesa, sofrendo as agruras do desemprego, das falências, da emigração forçada, em tantos casos da penúria mesmo ("ubi incommoda")...e, depois de ter feito todo esse esforço (e como prémio desse esforço) tem agora a subida honra de suportar um novo encargo, para salvar as finanças públicas, através de um enorme aumento da carga fiscal ("ibi incommoda")...
5. Ao invés o sector público, depois de se deixar engordar sem controlo, absorvendo uma parcela crescente dos escassos recursos disponíveis ("ubi commoda") - chegando ao extremo de provocar a sua exaustão, levando o País à fronteira da insolvência e impondo a Famílias e Empresas custos inimagináveis...
6....esse mesmo sector público, entrincheirado nos seus benefícios, protegido pela "guarda pretoriana" do TC, resolve impor novamente às Famílias e Empresas todos os custos do ajustamento orçamental, que lhe competia em primeiro lugar, através de uma agravada fiscalidade, tendo como única justificação a preservação de suas vantagens ("ibi commoda")...
7. E tudo isto é feito sob o manto diáfano da invocação do soberbo princípio constitucional da "protecção da confiança"...
8. Em Portugal é mesmo tudo ao contrário, nem os mais velhos princípios da moderação e equilíbrio de interesses resistem! E tudo feito em nome das melhores práticas jurídicas, que bela originalidade! 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Crescimento à l`hollandaise: um seguro falhado

A economia francesa contraiu 0,1% no terceiro trimestre do ano, é notícia confirmada pelo Governo.
Afinal, a aposta no crescimento à l`hollandaise é mais para o negativo do que para o positivo...
E assim o amigo Hollande, o seguro de Seguro, tornou-se tão inseguro que Seguro já nem alude a tal seguro.
É o que acontece a quem pensa que o mero apostar substitui o pensar e trabalhar. Na França ou em Portugal. Um seguro falhado.

A "complexidade" das falhas de gestão...

A notícia refere que a complexidade foi a justificação oficial apresentada para a contratação externa do serviço de elaboração do inventário dos bens móveis e imóveis da Administração Regional de Saúde de Lisboa. Uma contratação que vai custar 400 mil euros. É muito? É pouco? Não sei. As outras ARS estão a fazer o trabalho com os seus próprios recursos e meios. Esta diferença de tratamento não deixa de ser estranha. 
Mas o que, a meu ver, é muito mais estranho é que durante anos e anos estas entidades não tenham feito e actualizado os inventários do património da sua responsabilidade. Como é possível? Fazer o inventário do património é uma tarefa de gestão fundamental em qualquer organização que desenvolve uma actividade económica, insere-se nas preocupações normais da gestão. 
A ARS de Lisboa regista desde 1994, de acordo com a notícia,  um valor patrimonial negativo superior a 5 milhões de euros. É extraordinário que a realização dos inventários tenha sido determinada pela Inspecção Geral das Actividades em Saúde. A decisão só peca por tardia.
Nada disto é normal. Não admira que haja custos desnecessários, que a falta de dados rigorosos afecte negativamente a capacidade de decisão política e de gestão. Não quero generalizar, é perigoso fazê-lo, mas apetece-me perguntar quando é que vamos ser capazes de incluir na rotina da administração dos serviços públicos um normal nível de gestão? 

"Junta Médica"

Hoje, de manhã, devido ao prolongar das festividades do dia anterior, Natal, e depois de ter trabalhado um pouco, porque não tive muitos trabalhadores para ver, fui para casa. Sentei-me a ver televisão, analisando os tradicionais programas matinais que, de um modo geral, revelam bem os nossos comportamentos, e que são utilizados, frequentemente, não como entretenimento, mas com objetivos por vezes comerciais e, até, para fazer coscuvilhice. Não significa esta apreciação que não tenham alguma utilidade. O desmascarar de uma ou outra situação pode ser bastante útil pela pertinência e justeza da mesma. A apresentadora descreveu o quadro de um homem que sofre de grave doença respiratória obstrutiva crónica, de provável origem profissional, visível e profundamente incapacitado, não só para a sua profissão como também para a vida quotidiana. Os relatos, as imagens, a abordagem em direto, entrevistando familiares e uma técnica da segurança social, não deixaram quaisquer dúvidas sobre o caso. A par da situação clínica, grave, como já foi afirmado, adiciona-se uma decisão incompreensível, diria mesmo obscena, caso seja comprovada, da junta médica que o declarou apto para o exercício da sua atividade profissional. Pensei que teria sido algum equívoco da reportagem ou das declarações dos familiares, mas, à medida que iam sendo apresentados mais elementos, constatei que o caso era mesmo caricato e muito grave em termos de decisão médica. Perante esta situação, que só foi possível denunciar graças à reportagem, é preciso, no mais curto espaço de tempo, fazer o respetivo inquérito e tomar as devidas medidas. Não posso aceitar que médicos, os quais têm a nobre missão de proteger, defender e tratar qualquer pessoa, independentemente da sua condição, credo, etnia, religião ou seja o que for utilizado para discriminar seres humanos, tenham este comportamento. Fiquei perturbado e ansioso. Como pertenço à mesma classe, exijo que os responsáveis, neste caso a Ordem dos Médicos, faça o que lhe compete para esclarecer o que realmente aconteceu, e sancionar, se for caso disso. Tudo aponta que sim, os intervenientes nesta junta não se portaram bem, mas, como há sempre o princípio do contraditório a respeitar, gostava de saber o que é que os colegas, que decidiram naquele sentido, têm a dizer.
Entretanto, vou pensando no que andam a fazer certos responsáveis, ou que se julgam como tais.
O mundo está cada vez mais velhaco, cínico e sem sentido. É preciso repor a dignidade e o respeito pela vida humana.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

"Fantasia de Natal"...

Manhã de Natal passada numa modorra agradável, sem compromissos. Procurei num jornal se um conto sobre esta época tinha sido publicado. Respondi há semanas a um convite aos leitores para enviarem contos sobre esta época. Recordo que diziam que tanto podiam ser alegres como tristes. Fui buscar um que tinha escrito há algum tempo, um conto de verdades transformadas em fantasias, em que a felicidade, subjugada pelo sofrimento da vida, consegue sempre manter-se à tona recusando-se a desaparecer. Um lenitivo que merece ser acarinhado. Fiquei agradado pelo "feito". Só espero que tenha conseguido transmitir alguma esperança e felicidade a quem o leu.

"Fantasia de Natal"

O Natal é um período de apelo ao melhor que há em cada um de nós. É objecto de atenção e de inspiração para diversos intelectuais, poetas, pintores, músicos, escritores, religiosos e cidadãos anónimos.
Quem não tem recordações de Natal? Eu tenho. A mais velha reporta-se à primeira vez que tive a noção da festa. Tinha uma árvore enfeitada, acompanhei todos os passos festivos e ouvi a promessa de que o Menino Jesus ia dar-me uma prenda!
– Prenda?! Quando? Quando? Eu quero vê-Lo!
– Durante a noite, não sabemos a que hora chega, são muitos os meninos.
Entusiasmado, nessa noite tive dificuldade em adormecer. De repente começo a ouvir falar alto dizendo:
- É Ele! É Ele!
Levantei-me a correr para O ver mas nada! Olho para a árvore e vi um lindo carro vermelho. Afinal tinha estado mesmo ali! Fiquei deliciado com o raio do carro que andava assim que se lhe dava corda. Foi pena não ter visto o Menino Jesus. No dia seguinte, na Igreja da Misericórdia, dei-lhe um beijo e agradeci-lhe o lindo carro vermelho.
Nos anos seguintes ansiava por este período, o mais belo do ano. No entanto, comecei a reparar, após o regresso à escola, que muitos meninos não recebiam prendas, quanto muito um saquito de pinhões, de nozes ou de passas. Para mim tratava-se de uma situação muito intrigante. Perguntava lá em casa por que razão muitos meninos não recebiam prendas. As respostas não me convenciam muito, ficando com a suspeita de que o Menino Jesus não tratava todos do mesmo modo, o que não era justo.
Numa manhã de Natal uma raparigona da vizinhança perguntou-me quais foram as minhas prendas. Eu disse e mostrei-lhe o que o Menino Jesus tinha dado. Ela riu-se e com uma satisfação danada começou a gozar-me dizendo que quem dava as prendas eram os pais. Quanto mais lhe dizia que não tinha razão, mais ela ria e sopeteava. Furioso, entrei em casa e perguntei como era! Acabaram por dizer que a rapariga, que ainda hoje, quando a vejo, me faz recordar a raiva do tal momento, tinha razão. Em sinal de protesto, não fui à missa e não liguei aos brinquedos desse ano.
Apesar de tudo, tive que me adaptar à nova situação e todos os anos vivia com intensidade este período. O que me custava mais era os que pouco ou nada recebiam. Em contrapartida, deixava que partilhassem dos meus brinquedos que acabavam por durar muito pouco tempo!
De ano para ano, a forma de encarar o Natal modificou-se sem perder de todo a fantasia criada em criança.
Histórias ao redor do Natal tenho-as muitas mas há duas que não consigo esquecer.
Numa noite de consoada, preparado para atacar a mesa, fui chamado para ver um vizinho. Assim que cheguei vi que algo de grave estava a acontecer. Deitado na sua cama e rodeado por muitos familiares, o maior tartamudo que já conheci até hoje, mas que afirmava que “até falava bem, o que lhe faltava era a pausa”, olhou para mim e tentou dizer qualquer coisa. Não conseguiu. Com um olhar sereno e um ligeiro sorriso nos lábios, apagou-se que nem um passarinho enquanto ouvia o último batimento cardíaco. Olhei para os familiares, fechei-lhe os olhos e voltei para casa. Ia a entrar quando ouvi alguém chamar-me. Parei e ouvi que uma tia velhota estava mal em casa do filho. Em poucos minutos estava ao seu lado. Assim que me viu, deitada no sofá da sala, disse:
– Ai Manelzito (era uma das poucas pessoas que me tratava daquela forma) estou a morrer!
Mas fez esta afirmação com muita ansiedade
– Ó tia, está cá agora!
Enquanto colocava o estetoscópio sobre o seu peito descarnado, recordei-me de que já tinha tido um enfarte e que padecia de angina grave. Assim que comecei a auscultação, agarrou-me a minha mão esquerda, repetindo:
– Olha, vou mesmo morrer.
Desta feita, fez a afirmação com muita calma e, passado algum tempo, não muito, o estupor do estetoscópio, pela segunda vez naquela noite, ouviu o último batimento de um velho coração. Fechei-lhe os olhos e regressei a casa. Era quase meia-noite, não tinha ceado, nem tinha apetite. Comi alguns doces e perguntaram-me o que tinha acontecido.
– Foram dois velhotes que adoeceram. É noite de Natal, emocionam-se e depois, claro, sentem-se mal.
A outra história ocorreu numa enfermaria de um hospital pediátrico. Uma das minhas filhas, com seis anos de idade, foi vítima de uma grave doença algumas semanas antes do Natal, tendo que permanecer bastante tempo no hospital, continuando ao longo de muitos anos a sofrer das sequelas da mesma.
Na noite de Natal, depois de consolar os outros filhos, desloquei-me mais a minha mulher à enfermaria. A quase totalidade das crianças sofredoras não tinham os pais ao seu lado, mas a atmosfera encheu-se de uma estranha magia com a cumplicidade das enfermeiras. “Alguém” bateu nas janelas da galeria, imitando o Pai Natal, e, logo a seguir, era quase meia-noite, distribuíram-se miminhos, prendinhas e doces, ignorando soberanamente as regras.
É comum ouvir-se que os mais belos e puros sorrisos são os das crianças. Mas naquela noite, os sorrisos das crianças tiveram um duplo e estranho encanto. As suas máscaras de sofrimento desapareceram, ao mesmo tempo que transmitiam uma sensação de paz e de serenidade muito difícil de explicar…
Nessa noite, consegui dormir, pela primeira vez nas últimas aterradoras semanas, com tranquilidade, graças à fantasia do Natal.

Poetas que cantaram o Natal IV

Depois de Guerra Junqueiro, David Mourão Ferreira e Bocage, António Gedeão, em Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

A prenda que não viram...

O momento chegou, a fantasia despertou e as crianças explodiram em alegria ao verem o Pai Natal de raspão a fugir como lhe compete. Antes, o discurso da Leonor encantou e espantou. Dissertou sobre o Natal, sobre as prendas, sobre o Pai Natal que não pode desaparecer, falou da terra, falou do ambiente, falou do chocolate que deveria ter tomado por causa do frio, sempre de frente, agitando as mãos, com as faces rosadas de excitação, qualquer coisa de anormal para uma criança de cinco anos. 
O ritual manteve-se e a iniciação das crianças em matéria de fantasias manteve-se, criando quadros e mundos para um dia serem recordados. Nessa altura, em que o sofrimento lhes trará o sabor amargo da existência, as dores serão mitigadas pela recordação destes momentos. Uma alegria vivida com intensidade para que um dia possam sentir-se um pouco mais confortáveis. Hoje, foi a noite em que receberam um outro tipo de prenda, não a viram, mas, no futuro, irão deliciar-se com um forte e eficaz analgésico para as dores da alma. Só tem de o guardar. Nunca se gasta.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poetas que cantaram o Natal III


Depois de Guerra Junqueiro e de David Mourão Ferreira, a vez de Bocage. Também ele!... 

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento. 

Mas súbito me diz o pensamento, 
Para aplacar-me a dor que me traspassa, 
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando, 
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando. 

Vejo-O morrer depois, ó pecadores, 
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores. 

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Execução orçamental até Novembro: o óptimo e o mau...

1. Foi ontem divulgada a execução orçamental até ao mês de Novembro, da qual parece possível algo paradoxalmente, extrair duas notas positivas e uma nota negativa. Tentarei explicar.
2. A execução terá sido óptima, em 1º lugar, numa perspectiva crescimentista: as despesas com pessoal da Administração Central (não inclui autarquias e regiões mas pouca diferença fará) cresceram 11,4% até Novembro, revelando forte aceleração neste mês uma vez que até Outubro cresciam "apenas" 5%; a reposição de subsídios terá sido decisiva para esta aceleração...
3. Os afabilíssimos Crescimentistas têm todas as razões para exibir um largo sorriso, pois na sua óptica a despesa pública, qq que ela seja, corrente ou de "investimento", é a Madre de todos os crescimentos...tudo óptimo pois com esta aceleração da despesa, tudo muito constitucional, temos o Estado de regresso à sua nobre função de "largar os cordões à bolsa"...
4. Também têm razão para se mostrar satisfeitos os guardiões oficiais do défice orçamental, que assumiram o compromisso de manter o défice abaixo de 5,5% do PIB no corrente ano: o défice acumulado até Novembro cifra-se em € 7.757,3 milhões, equivalendo a cerca de 4,7% do PIB, tornando muito previsível um défice no final do ano abaixo da fasquia 5,5%...
5. Finalmente, menos satisfeitos estarão aqueles que se preocupam realmente com o futuro da economia portuguesa: a explicação para este resultado - défice público contido apesar da explosão das despesas com pessoal, só poderia estar num fortíssimo crescimento da receita fiscal, especialmente em sede de IRS (+30,9%) e de IRC (+9,2%)...
6. Quer isto dizer que estamos a assistir a uma enorme transferência de recursos dos sectores produtivos, Famílias e Empresas - os que suportaram o maior esforço/sacrifício de ajustamento, que graças a esse esforço conseguiram dar a volta à economia, contribuindo para o seu reequilíbrio de uma forma que até surpreendeu os credores internacionais, não obstante as inconsistências, incongruências e vícios insanáveis do Sector Público...e que agora recebem o merecido prémio desse esforço, na forma de um agravamento fiscal...
7....para um Estado/Administração que cultiva, em grau superior, a arte de gastar sem ter de preocupar com a produção do que gasta...
8. Este tipo de transferência de recursos tem inelutavelmente impacto negativo no desempenho da economia, a prazo, reduzindo a qualidade da afectação dos escassos recursos disponíveis...
9. Mas, por agora, está todo Mundo satisfeito e contente com esta execução orçamental, vamos por certo assistir a uma quase unânime aceitação - em forma expressa ou tácita - da bondade destes resultados...a carruagem segue alegremente, até à próxima paragem...

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Poetas que cantaram o Natal lI

Depois de Guerra Junqueiro, David Mourão Ferreira
Serei dos que, afinal, errando em terra firme, precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia? 

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
 precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

David Mourão Ferreira em Obra Poética

Descrença...

Eu sei que esta época convida à paz e à alegria. Eu sei que esta época é tempo de festas e da família. Eu sei isso como qualquer um, mas também sei quanta tristeza e descrença vai por aí. Sei!
Acabei de ler este pequeno apontamento. Não quis reagir, mas senti um estranho impulso. Decidi escrevinhar e partilhar a minha reação.
É descrença Emídio Guerreiro, é mesmo descrença, até eu sinto essa descrença, e já não sou novo, uma descrença que aumenta de dia para dia. O melhor é não tentar dar justificações, o melhor é mesmo não falar, o melhor é sair e não voltar. É o melhor.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Poetas que cantaram o Natal I

Como a comunicação social, seguindo o politicamente correcto, optou por ignorar o fundamento primeiro do Natal e, culturalmente ignorante, nem sabe nem sonha que o acontecimento serviu de inspiração aos grandes poetas portugueses, cristãos ou de outros credos, ateus ou agnósticos, aqui irei deixar, nos próximos dias, alguns poemas sobre o Natal verdadeiro.
Começo por Guerra Junqueiro


Sobre a palha loura / Dorme a rir, Jesus
Tudo a rir se doura / De inocente luz. 
Há no olhar etéreo / Do boizinho bento
 Sonhos de mistério / Num deslumbramento…
Chegam pegureiros / Chegam-se ao redor
Tal e qual cordeiros/ Para o seu pastor
Anhos que vêm vindo / Põem-se a meditar
Que zagal tão lindo / Para nos guiar! 
Ajoelham magos, / Êxtase profundo!…
Com os olhos vagos / No senhor do mundo…
E banhada em pranto / Mãe se transfigura
Por divino encanto, /Numa virgem pura.
Guerra Junqueiro
Publicada, por primeira vez, em O Comércio do Porto Ilustrado (Natal 1893), com ilustração de Roque Gameiro, esta composição foi depois retomada em Poesias Dispersas (1920).

Para os que partiram



Para os meus velhos colegas de escola há muito emigrados e que vou reencontrando no cibermundo. 
Para os jovens exilados da crise.
Um feliz Natal, mesmo longe dos braços da vossa mãe. 
Que o futuro vos devolva a uma Pátria orgulhosa de ter superado o que vos fez partir.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Inverno da vida

Já o conheço há muito. Entrava sempre a claudicar, um estranho coxear que lhe dava uma certa graça, a recordação de um velho acidente. A simpatia precedia a entrada, e o sorriso meigo o cumprimentar do aperto de mão. Delicado, e sempre acompanhando da mulher, mais nova, nos últimos anos via-se mesmo que era mais nova, porque o carrear dos anos e o trabalho acelerou-lhe a senescência, permanecia quase sempre calado. A mulher fazia as honras da consulta, mas fazia-o com um carinho extraordinário, diria mesmo comovente, tratando-o como se fosse o filho que nunca teve. Algo de singular, para não dizer espetacular. Gostava daquela supremacia feminina, nítida mas amorosa, um cuidado cheio de ternura que devia perdurar há dezenas de anos e que nunca vi ao longo da minha existência. Acabei, naturalmente, por me afeiçoar ao casal. As doenças, que acumulava de ano para ano, iam sendo compensadas, mas a última, grave, prenunciadora de um fim próximo e de terapêuticas agressivas, preocupou-me sobremaneira. Na prática "não o quiseram" e nem lhe deram a devida atenção, pelo que tive de assumir a responsabilidade de o tratar e acompanhar. Surpreendi-me com a evolução da doença, nunca esperei tamanha recuperação. Um alívio, pensei, assim posso dar-lhe algum conforto e permitir que um amor de seis dezenas de anos continue a aquecê-los. Mas o tempo, aliado à sacana da lesão da perna, começaram a tolher-lhe a marcha. Aflita, a mulher perguntou-me como é que eu agora iria vê-lo: - O "pobrezinho" já não consegue andar. - É fácil! Vou vê-lo a casa. - O senhor doutor é capaz disso? Perguntou com uma cara de espanto. - Disso e muito mais. Então eu não iria cuidar do seu marido? A conversa continuou com a descrição dos cuidados necessários coisa que cumpria de uma forma tão certinha que quase poderia utilizar como um exemplo perfeito de adesão à terapêutica.
Telefonou-me ontem, perguntando se poderia então ver o seu marido. Hoje, à hora aprazada, na aldeia meio perdida e quase deserta, sem sem saber onde morava, não me foi difícil encontrar a casa. Estava à minha espera junto à cancela da entrada de uma habitação muito humilde. Uma vizinha fazia-lhe companhia. Cumprimentaram-me efusivamente, mostrando gengivas despovoadas de dentes, e entrei para a cozinha, que estava do lado de fora da habitação. - Não se importa de o ver na cozinha, pois não, senhor doutor? Ele assim está mais quentinho. Subi as escadas e entrei num pequeno espaço, aquecido com o calor de um fogão de lenha, antigo, um calor que me fez recordar o fogão da minha casa que debitava um calor semelhante. Ouvi o mesmo crepitar da lenha a arder e vi a vermelhidão a transparecer no espaço limpo e humilde. Falámos, divertimo-nos, e o meu doente, com os seus quase noventa anos de idade e sessenta de casado, ria com uma felicidade tão quente como o calor que brotava do fogão. As análises tinham sido feitas e os resultados maravilharam-me. Transmiti o meu sentir e alegria, que os contagiou, uma bela prenda de Natal, pensei. A mulher, cheia de cuidados, sorriu, e, com um olhar pintado de uma bela esperança, a querer mesmo brilhar, disse-me: - Acha que ainda vamos fazer sessenta anos de casado para o ano, senhor doutor? - Se vai? Claro que vai, por que é que não deveria? Olhei para o meu amigo que, com um sorriso muito meigo, simples e difícil de encontrar, me comunicou: - Oh, seja o que Deus quiser. - O que Ele quiser e eu também, homessa! A conversa continuou e, à saída, depois de ter dado a volta, esperavam para me saudar a mulher e duas vizinhas, que, interrompendo uma amena cavaqueira, enfeitavam a rua, sinal de que há ainda vida naquele povoado. 
Conforta-me trazer do passado certas imagens e revivê-las, porque estão impregnadas de sabedoria, humildade, consideração e de uma bela poesia que me enche o coração. Agora, não posso esquecer-me de julho do próximo ano para poder felicitar e cumprimentar um casal de velhos amigos que me ajudam a saborear a vida. Viver é isto mesmo, partilhar momentos em que somos capazes de transmitir e oferecer um pouco de felicidade.
Santa Comba Dão, sábado, solstício de inverno de 2013.

Boas-Festas de Natal

As melhores Boas-Festas para todos os membros desta Tertúlia, autores, comentadores, visitantes, amigos ou detractores. E os votos de um 2014 com muita saúde e (a possível...) alegria de viver!…
PS: Não me submetendo ao politicamente correcto, o meu postal evoca aquele Natal que é a razão da comemoração da data. Não é uma questão de religião; é simplesmente uma questão de não ignorar a história. E se religião é com cada um, a história é património de todos. Ignorá-la é "crime" de lesa-cultura.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

TC: "inesperada" ajuda ao PIB do 4º trimestre?

1. Não me proponho entrar numa avaliação “SWOT” da jurisprudência do TC, ontem divulgada, que travou a aplicação das disposições da lei orçamental que impunham cortes nas pensões de reforma e noutras prestações devidas pela GGA: muito melhor do que eu, centenas de analistas e comentadores têm estado, estão e continuarão a estar, nas próximas horas e dias, ocupados, na abordagem desse magno tema.

2. Parece-me bem mais estimulante abordar esta decisão numa perspectiva macro, de curto prazo, é certo, mas nem por isso menos interessante, em que se procura avaliar o seu presumível impacto económico: o incentivo às despesas/compras de Natal e de Ano Novo e, em derivada, o desempenho do PIB no trimestre em curso...

3. É bem possível que muitas das pessoas atingidas por tais medidas orçamentais, tivessem vivido até ontem no receio, ou dúvida pelo menos, quanto ao impacto de tais medidas no seu rendimento disponível e, como tal, cautelarmente restringido seus planos de compras da estação...

4. Hoje, para todas essas pessoas, é um dia de grande alívio que logicamente se deverá traduzir numa célere revisão dos seus planos de compras, abrindo um pouco mais os cordões à bolsa...

5. Como tudo isso vai ocorrer num período em que não haverá alterações nas taxas do IVA, é quase certo que o consumo privado vai sofrer um impacto positivo, ajudando a prolongar a tendência que tem caracterizado o comportamento desta variável nos últimos meses.

6. Objectivamente, pois, a jurisprudência do TC aliada às regras da contabilidade nacional, deverá contribuir, em última análise, para manter em “terreno positivo” (como agora se diz), ainda que modestamente, o desempenho do PIB no 4º trimestre do ano, tanto mais que as importações de bens não deverão, por este facto, sofrer qq impacto imediato...

7. Se assim for, a satisfação expressa por muito ilustres Crescimentistas relativamente a esta jurisprudência do TC (AJJ por exemplo, que nela terá encontrado um lenitivo para dissabores mais recentes), acabará por ser de pouca duração...quem sabe se ainda vão considerar o TC cúmplice das políticas neo-liberais?



No rescaldo do chumbo do corte de 10% nas pensões em pagamento...

A necessidade de um conjunto de medidas de reforma em contraposição a medidas avulsas desinseridas de um plano global coerente, a ausência de gradualismo e proporcionalidade, a defesa simultânea da lógica da tesouraria e do carácter provisório e da lógica do longo prazo e da sustentabilidade são aspectos, entre outros, em que o Tribunal Constitucional se deteve para formar o entendimento de inconstitucionalidade do corte de 10% nas pensões em pagamento da CGA. Aspectos que não constituindo surpresa devem ser objecto de reflexão...

A medida em causa traduz-se numa medida avulsa, isolada, ad hoc, que se concretiza numa simples ablação abrupta do montante das pensões. Ela não se insere num contexto de reforma sistemática, não sendo enquadrada em medidas estruturais que se preocupem em assegurar, de forma transversal, o interesse da convergência a outros níveis. É uma medida que não visa apreender o sistema de proteção social na sua globalidade, perspetivando-o apenas de forma unilateral através da preocupação de corte imediato nas pensões atribuídas pela CGA.
Assim, a adoção da medida concreta não reveste um peso importante para efeitos da prossecução dos interesses públicos da sustentabilidade, do equilíbrio intergeracional e da convergência dos regimes de proteção social, já que esses interesses reclamam por reformas sustentáveis e duradouras no tempo, e não por medidas abruptas e parcelares, com efeitos também volatilizáveis. A prossecução destes interesses, pelo seu caráter estrutural, exige pois medidas pensadas num contexto global dos regimes de proteção social. Ora, as medidas legislativas que visem atingir esses objetivos devem ser ponderadas e concebidas dentro do próprio sistema como uma sua reforma estrutural, sob pena de não alcançarem os referidos desideratos e traduzirem-se apenas em reduções imediatas de despesa, que, face aos seus efeitos imediatos, pouco se adequarão a produzir efeitos de base.
43. A natureza assistémica da medida legislativa de redução do montante das pensões é ainda confirmada pela sua natureza dúbia. Por um lado, a “Exposição de Motivos” justifica-a como sendo uma medida que pretende contribuir para a reforma do sistema; por outro lado, as normas questionadas auto-intitulam-se temporárias, e são acompanhadas de medidas que, independentemente de serem ou não alcançáveis, visam a sua vigência transitória.
A chamada «cláusula de reversibilidade» enunciada nos n.ºs 6 e 7 do artigo 7.º Decreto n.º 187/XII parece justificar-se no mesmo princípio em que assenta a justificação da medida de redução de pensões. Nos termos dessas disposições, a cláusula é mobilizada quando em dois anos consecutivos se verificar cumulativamente: (i) crescimento nominal anual do PIB igual ou superior a 3%; (ii) saldo orçamental não inferior a -0,5% do PIB. A lógica da medida parece ser o princípio da sustentabilidade financeira do sistema previdencial público: a reversão da situação económica-financeira que determina a redução da pensão, transformará os atuais pensionistas em “credores prioritários” do sistema, compensando o sacrifício entretanto sofrido.
Simplesmente, a reversão para a antiga taxa de substituição está em contradição com o alegado caráter estrutural da medida: no caso de eventual melhoria da situação económica, o Estado desconsidera inteiramente a relevância dos interesses que afirmou com a medida de redução de pensões. Neste sentido, a redução de pensões é uma medida conjuntural para resolução de problemas imediatos de equilíbrio e consolidação orçamental e não uma medida que vise a sustentabilidade financeira da Caixa.
Quer dizer: mesmo medidas susceptíveis de satisfazer adequadamente os interesses públicos apontados exigiriam sempre, para uma justa conciliação com as expectativas dos afectados, soluções gradualistas que atenuam o impacto das medidas sacrificiais, pois a sua aplicação abrupta, repentina e de forma inesperada, ultrapassa a medida de sacrifício que o valor jurídico da confiança jurídica pode tolerar. Este aspecto é tanto mais de relevar quanto no passado todas as reformas legislativas acolheram disposições transitórias destinadas a consagrar os direitos em formação.
Nesta ponderação, não pode deixar de pesar a circunstância dos fins a prosseguir – nos termos expostos na exposição de motivos – constituírem interesses económicos de longo prazo que se confrontam com os interesses imediatos legalmente protegidos dos pensionistas. É que, enquanto a ótica da sustentabilidade financeira da segurança social é de médio e longo prazo, o direito à pensão vence-se todos os meses. Daí que, a diferente dimensão temporal do fim a atingir e do meio utilizado, exija, de per si, disposições transitórias que harmonizem em justa medida o sacrifício imposto com a redução da pensão e o benefício por ela prosseguido.
No juízo de ponderação que é imposto pela proteção da confiança, onde se confronta e valora a condição de pensionista, em princípio, sem possibilidade ou impossibilidade de regressar a uma vida ativa que permita recuperar o que lhe é retirado, com os referidos interesses públicos, que podem ser satisfeitos no horizonte mais alargado, a solução justa à luz do princípio da proporcionalidade imporia também que a implementação da medida se fizesse de forma gradual e diferida no tempo. Aplicá-la de uma só vez, seria ultrapassar, de forma excessiva, a medida de sacrifício que a natureza do direito à pensão poderá admitir.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O sistema

Estou particularmente sensível, bem sei, chegado agora mesmo daquele estabelecimento prisional onde muitos passarão o Natal sem o calor dos seus. É assim o sistema que está concebido para proteger a sociedade. Eis o resumo dos fundamentos da recusa da precária daquele que esperava ansiosamente pela decisão e que tinha ali perante mim. O sistema...
Regressado ao escritório encaro esta notícia.
Sei que cometo o pecado da generalização que tantas vezes verberei ao escrever o que segue. Ainda assim escrevo para atenuar a raiva que sinto: a notícia retrata bem o quanto vale a liberdade e a dignidade da pessoa, para alguns que agem em nome do Estado e que se proclamam de um humanismo bacteriologicamente puro.
O sistema...
Quem nos protege do sistema?

Lutar

Não tenho medo de lutar, nunca tive. Tive bons exemplos de como se deve lutar, vi muitos casos de lutas heroicas, cresci ao lado de lutadores, ensinaram-me a lutar desde muito cedo e impregnaram-me a alma com a história de nossos antepassados. Lutar é a palavra de ordem. Quase que me apetecia dizer que era capaz de adotar como lema o verbo lutar ao qual associaria a honra e a honestidade. Uma tríade que teimosamente quer viver e que me dá alento para poder respirar e sonhar. O que eu vejo por aí são pessoas que nunca lutaram, nem devem saber qual é o seu sabor, e que vivem à custa de outros verbos, que não conjugam, não por os ignorarem mas, porque, aparentemente, repudiam. Estranho comportamento a que associam a falta de honra, conceito que não conseguem cheirar por défice irreversível do olfato, e, por fim, gostam de dar a entender que a honestidade é o timbre puro da voz do seu comportamento.
Assustam-me essas pessoas. E quando começam a dizer alto, e em bom som, que "são muitos honestos"? E quando dão a sua palavra de "honra"? Assustam-me, e muito. Procuro analisar na sua vida e conduta elementos que justifiquem a sua condição de "lutadores", mas não consigo vislumbrar o que quer que seja. Não são lutadores, são oportunistas, são uns manhosos e muito fanhosos nos seus comentários e juízos de valor.
Lutar dói, mas é uma dor que não incomoda por aí além, o que custa mais é o isolamento, o desprezo, a indiferença, a falta de oportunidades, a ausência de justiça e o silêncio comprometedor de muitos que vivem e se afanam do trabalho e da luta de outros.
Não desisto de lutar, seja no que for, embora o cansaço comece a atormentar o corpo e o medo a fibrilar a alma. O que fazer? Esperar que o corpo aguente e a alma não se atormente. Depois é ir em frente, acreditando que o futuro não mente.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Morreu Ronnie Biggs, o "ladrão do século

Lembro-me deste assalto. Era uma criança e li o Primeiro de Janeiro do meu avô. Acompanhei ao pormenor todas as peripécias deste assalto. Quase que posso afirmar, com muita precisão, que, com este assalto, iniciei as minhas leituras jornalísticas. O assalto ao comboio correio corresponde ao nascimento do meu interesse e iniciação com os jornais. Até discutia com os meus avós. "Antes e depois do assalto". Quem diria que um dia teria de agradecer ao "bandido" que hoje morreu. Pois bem, aqui fica o meu "agradecimento". Que repouse em paz. Estranho, não é? Aparentemente, aparentemente...

Sorrisos no barro



No domingo passado havia uma pequena feira em frente ao Convento de Mafra, eram meia dúzia de casinhas de madeira todas dedicadas ao artesanato ou à venda de produtos da terra, pão, bolos, mel. Demorámos-nos a ver pequenas maravilhas ou coisas encantadoras pela sua simplicidade, que nos fazem recuar no tempo, bibelôs do tempo dos nossos avós, rendas e naperons tecidos em linha grossa, vendidos por mulheres de mãos ásperas e sorriso largo, para todos os objectos uma utilidade à vista, nem que seja a de matar o tempo nas horas mortas, que horas vazias de trabalho aquelas mulheres parecem não saber o que seja. Uma das vendas era só de peças de barro, sobretudo presépios, ia passar por alto mas houve qualquer coisa de estranho que me chamou a atenção, aproximei-me dos bonecos, eram toscos e ao mesmo tempo fantásticos, impossível sair dali, um e outro pareciam chamar, conversar connosco, estava eu ali intrigada com aquele sortilégio sem o entender até que a jovem artesã, aí dos seus trinta anos, saíu do canto onde cinzelava uma nova peça e, limpando as mãos ao avental, disse-me, já viu que todos os meus bonecos estão a rir-se? Faço questão nisso, não há nenhum que não esteja a rir-se, faço sobretudo presépios e santos, veja esta Rainha Santa Isabel, ou esta Nossa Senhora do Ó, faço também o que me encomendarem, até já fiz um Luis de Camões e vendi-o logo, estava a sorrir, claro, a esse não fiz riso a mostrar os dentes mas tinha um ar feliz, mesmo assim.
Acabámos as duas a rir a bom rir, ela a apresentar-me boneco atrás de boneco, era contagioso, irresistível, a Cláudia sabia mesmo puxar a alegria do barro, colava-lhes a boca como toque final, pintava de vermelho, os dentes brancos e aí estava, o riso aberto, os olhos arregalados, nas figuras femininas umas pestanas espetadas, não eram cómicos, nada disso, eram desconcertantes e simplesmente encantadores. O Santo António a atirar o Menino ao ar, como se tivesse sido apanhado assim na brincadeira foi logo o meu preferido, mas também trouxe uma Nossa Senhora grávida, daí o Ó, envolta num manto e o sorriso aberto e doce, e um anjo esparvoado, de grandes asas, a rir-se, com uma estrela a arrastar pelo chão. Vim contente daquela feira, com alguns sorrisos guardados, para os dar pelo Natal. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Mal maior"...

A manhã despertou chuvosa e triste. Abalei. Senti desconforto durante a viagem. Veio-me à memória relatos e descrições de tragédias e de sofrimento humano. O momento presente está cheio desses acontecimentos e o passado recente também. Acabei por concluir que durante a minha vida ocorreram muitas situações que não abonam em nada a favor do valor, do futuro e da natureza humana, e se juntar as que ocorreram no passado, então, fico com a certeza de que a nossa espécie é um falhanço da criação. Viver na esperança de que um dia tudo pode mudar é uma perfeita ilusão que ajuda a viver e a enganar a força centrípeta da morte.
Comecei a trabalhar. Os sons da rua obrigaram-me a olhar através da janela e vi que chovia com tristeza, chuva de dor. Confesso que prefiro ver chover com raiva, mesmo que isso provoque algum temor. Leio as notícias e fico sem saber o que dizer. Deixei de pensar, refugiei-me na solidão e olhei para a chuva que morria no chão. Ouvi o chorar da chuva e o gritar da água quando a pisavam. Até a água grita. Eu vi. Um olhar tão cinzento. O cantar da chuva era tão lento. Não sei se era canto ou lamento, só sei que fiquei a ouvi-la durante um breve momento.
O dia continuou, e a tortura da manhã perdurou. Bem tentei esconjurar os pesadelos, quase que consegui, mas, depois, emergiu a dor de um outro ser humano e todas as minhas preocupações se desvaneceram perante um mais episódio.
A senhora, com traços eslavos, e falando corretamente o português, explicou-me, perante a minha pergunta sacramental se estava bem de saúde, que não. Vi que hesitou um pouco. - Não? - Não. Perdi o meu filho de 24 anos há quatro meses. Engoli em seco. Ia perguntar-lhe se tinha sido de acidente, quando a eslava se antecipou dizendo: - Teve um tumor maligno, um sarcoma abdominal. Depois, deixei-a tentar esvaziar a sua dor. Explicou-me os duros pormenores da doença. Não a interrompi. A breve trecho tentei desviar a conversa, perguntando-lhe se tinha mais filhos na expectativa de a obrigar a falar sobre eles. - Não. Só tinha aquele. Engoli novamente em seco. Perguntei-lhe há quantos anos estava em Portugal. Cerca de doze ou catorze, não me recordo bem. E o seu marido, o que é que faz? - Morreu de acidente há catorze anos. Olhei para a senhora e fiquei esmagado com tamanhas tragédias. Já não consegui engolir em seco. Tem família em Portugal, uma irmã. 
O seu sofrimento era evidente, mas a sua força de viver impressionou-me ainda mais, porque apesar de ser bastante mais nova do que eu, possuía uma garra e um desejo de ir à luta que me fez pensar sobre a chuva da dor, sobre a tristeza de um dia que tinha nascido e crescido cinzento, sobre os meus pensamentos e reflexões, sobre as minhas queixas, sobre as minhas apreensões, oferecendo-me com a sua atitude, e sons parecidos com os nossos, uma lição de vida que nunca mais posso esquecer. Há quem sofra de verdadeiros males e que, mesmo assim, consegue ajudar quem menos precisa.
No final, levantou-se e, com um belo sorriso nos lábios, desejou-me um Feliz Natal.

Quando é manifesta a dificuldade em entender que o País optou por viver sob o império da lei...

Relata a imprensa que o senhor Primeiro Ministro disse hoje, em Amarante, que "se nós andarmos todos os anos a sofrer um desgaste imenso por querer reduzir a despesa, porque ela tem de ser reduzida, e depois temos obstáculos de natureza constitucional que não o permitem, isso não dá uma perspetiva positiva de futuro para a economia portuguesa". Percebo o sentimento de Pedro Passos Coelho. Mas não o posso aceitar, muito menos no quadro de uma estratégia de condicionar o Tribunal Constitucional. Se essa é a intenção do Governo, incorre num erro político do tamanho de um comboio. Julgar que os juízes conselheiros são (im)pressionáveis com afirmações destas, revela, antes de mais, uma surpreendente ingenuidade a par de uma estranha ignorância sobre os princípios que nos governam. Mais: esta afirmação do PM acaba por ser uma quase confissão de inconstitucionalidade das medidas que promoveu, pois só a consciência da desconformidade das normas com a Constituição é que permite ter a Lei Fundamental como "obstáculo".
Mesmo que se compreenda a dificílima missão de governar no caminho estreitado pelas condicionalidades externas, não deixa de espantar que o PM ainda não tenha percebido que os juízes do TC são investidos na função de colocar o obstáculo, não de o remover. É assim num Estado que há muito fez a opção largamente maioritária de viver sob o império da lei, e não sob o império da economia.

A interminável crise do Euro...

1. A confiança dos investidores alemães, avaliada pelo conhecido índice ZEW, que agrega expectativas de empresários e de analistas, subiu em Dezembro para o nível mais elevado em mais de 7 anos, reforçando as expectativas de uma retoma da actividade na zona Euro – é hoje notícia.

2. Vendas de automóveis na zona Euro cresceram em Novembro pelo 3º mês consecutivo (+0,9% em termos homólogos) depois de subidas de 5,5% em Setembro e de 4,6% em Outubro – é tb hoje notícia.

3. Em Portugal as vendas de automóveis cresceram mais de 24% em Novembro, em termos homólogos, e em termos acumulados até Novembro o crescimento foi de 8,8% - foi notícia há poucos dias.

4. As taxas de juro da dívida pública espanhola, implícitas na cotação das obrigações com prazo de 2 e de 5 anos (yields), situam-se nos níveis mais baixos desde 2009 e 2005, respectivamente, reflectindo uma crescente confiança na recuperação da economia e na superação da crise que afectou o sector bancário – foi notícia na semana passada.

5. Por cá continuamos a ser diariamente ou quase brindados por um discurso tremendista, em torno da estafada crise do Euro e das suas terríveis consequências para a vida dos Povos e para a enfermidade das economias...

6. ...discurso de crise sustentado nas mais sólidas análises político-socio-filosófico-económicas, elaboradas em insuspeitos observatórios coimbrões e não só, que apontam justamente o dedo aos malefícios das políticas neo-liberais em má hora adoptadas por uma Europa mergulhada em profunda crise de identidade, incapaz de reconhecer as vantagens da insolvência financeira e os méritos do repúdio da dívida...

7. ...discurso que encontra o mais amplo eco nos excelentes órgãos de comunicação, incluindo aqueles que temos o privilégio de pagar com os nossos impostos...

8. Como dizia V.P.V. na edição do Público do último Domingo, “Que Deus nos dê paciência”...entre outras coisas, para continuar a aturar esta conversa estafada da crise interminável do Euro...



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Desespero

Noto uma onda de desespero, vejo nuvens aterradoras, negras, pesadas, sinto a força de um vento destruidor, cruzo-me com almas sem alento e sem esperança e toco em corpos febris tremendo de frio e nem sei se de fome também. O mundo que me cerca está diferente, vazio de alegria e esfomeado de justiça e de dignidade. A natureza humana, a selvagem, a destruidora, consegue vencer os defensores da igualdade e da liberdade, que, humilhados, olham silenciosos uns para os outros sem compreender muito bem o que está a acontecer. O mundo regrediu, os valores e princípios filhos de revoluções libertadoras foram apagados. O mundo rege-se por uma velha ordem que pensavam ter sido destruída. Não, não foi, apenas hibernou e, agora, regressa com força, com violência, com raiva impondo os seus desejos e ignorando os direitos e valores daquilo que se poderia esperar da dignidade humana. O mundo vai ter que mudar em breve. Como? Da maneira habitual, à força, à bruta, com a violência libertadora, com a única arma que lhe resta para fazer afronta ao comportamento ameaçador e destruidor de forças primitivas. Esperar por soluções "civilizadas"? Impossível. Essas soluções constituem o garante da sobrevivência do "ancien régime", que regressou das profundezas do Hades com uma força que nunca teve nos seus velhos tempos. Solução drástica? Talvez. Comportamento pessimista? Talvez. Exagero de apreciação? Talvez. Pode ser tudo isso, mas o mundo "civilizado" em que vivemos tem de ser morto, digo morto e não apagado, e mesmo assim tenho receio da sua capacidade para ressuscitar novamente no eterno retorno de vida e morte. Por mim, não me importo de regressar às véspera de um qualquer "1789". Se for preciso, porque não? Mesmo que isso custe sofrimento ou mesmo a vida é sempre preferível do que viver neste teatro de faz-de-conta, onde a honra, a lealdade, o respeito e a dignidade humana deixaram de ter significado ou valor.
Viver assim cansa, e é fonte de desespero.

Santa Comba Dão, sábado.
14.12.2013

Onde estão os medicamentos...

Comprar medicamentos genéricos está a ficar cada vez mais difícil para os portugueses. Não sei se é uma questão de legislação, regulação e/ou fiscalização, o que sei é que não se compreende que as farmácias não disponham dos medicamentos que são procurados por quem deles necessita. 
Há três semanas atrás, depois de ter passado três horas e meia de uma tarde de Sábado com a minha Mãe numa urgência de um hospital, percorri mais de uma dezena de farmácias de serviço na zona central de Lisboa sem ter conseguido aviar os medicamentos prescritos pelos médicos. Medicamentos para tratar uma gripe em fase muito avançada e que precisava de ser imediatamente atacada. 
Não tinham nem genéricos nem substitutivos, não era uma questão de preço, tinham alguns medicamentos, mas não tinham outros, não tinham qualquer alternativa para satisfazer o pedido num curto período de tempo. Ruptura de sotcks foi a justificação mais vezes utilizada. É fim-de-semana, outra razão invocada.
Como podem as farmácias funcionar nestes termos? Que serviço público essencial é este que não responde a necessidades básicas? Fico a pensar nos doentes que não tem mobilidade, que vivem em zonas com uma oferta limitada de farmácias, ou nos doentes com doenças graves que não podem esperar pela toma de um medicamento. Se as farmácias não fornecem os medicamentos qual é a alternativa? Só quem passa por elas é que se apercebe do que se está a passar...

domingo, 15 de dezembro de 2013

"Caloteiros"...

O almoço do domingo está a transformar-se num ritual sacralizado. O lugar parece ser um templo pagão em que a necessidade de satisfazer o estômago sucede ou precede qualquer tipo de culto de alma. 
Sentei-me numa das habituais mesas, de preferência a um canto a partir do qual consigo ver tudo e ouvir conversas interessantes. Logo de entrada, e enquanto estava a encomendar, nem sei para quê, a rotina já é conhecida dos donos, a vizinha da frente atende o telemóvel. Numa voz mais do que alta, mais típica de quem grita do alto de um outeiro, responde: - Sou eu, sim. Estou em Portugal! Há pouco não atendi, porque estava no meio da missa. Fiquei a saber que estava em Portugal. O dono do estabelecimento, baixinho, explicou-me que ela e o marido tinham acabado de chegar de França. - Ah, pois! Compreendo perfeitamente. Não liguei mais à conversa, só fiquei na dúvida se o seu aparelho terá "gritado" ou não no meio do ato litúrgico. Pelo andar da carruagem presumo que terá ficado indiferente, e entre um pai-nosso ou uma ave-maria, e quem sabe se uma palavra mais vicentina entre-dentes, deverá ter continuado na sua devoção. 
Entretanto, estava a começar a comer a habitual canja, quando na televisão, com imagens a preto e branco, devido ao sucesso da implantação da TDT, o locutor descrevia o funeral de Mandela. Os meus parceiros da mesa ao lado pararam de comer por brevíssimos instantes, até que um deles rematou: - Só agora? Já morreu há tantos dias! O que estava a seu lado comentou ato contínuo: - Foi para terem tempo para lhe tirar os órgãos! - Ah! Talvez. Disse o primeiro, enquanto mergulhava com denodo na apetitosa chanfana. O "francês" irrompeu do seu silêncio e, com uma sabedoria transnacional, pôs-se a divagar sobre a figura sul-africana, explicando as razões do funeral, à medida de sonoros arrotos. 
As conversas continuavam, cruzadas, como convém nestas circunstâncias, em que se fala de mesa para mesa, mesmo para a mais distante. Na parte final, restavam cinco pessoas, eu e a minha mulher e três homens, dois já com alguma idade e um mais novo. Um dos velhotes, a propósito de uma pessoa que veio à baila, intrometeu-se e contou a história de uma letra que teve de pagar por causa dele. Tinha ficado como fiador e por falta de cumprimento do pagamento ficou a arder. - Esse sacana lixou-me bem lixado. Tive que pagar e até hoje nem um escudo me pagou. A partir daí nunca mais emprestei dinheiro a ninguém. A tristeza era evidente e emborcou um valente copo de vinho, talvez para molhar a boca seca de raiva. O outro velhote, que estava na mesa ao lado acompanhado de um jovem, começou, com uma lentidão surpreendente, olhando para o teto, como se estivesse a soletrar: - Eu também tenho uma boa sementeira por aí. Dez, vinte, trinta, quarenta. De repente acelerou e num tom de voz mais alto: - Cento e cinquenta euros! Aquele filho da puta, e enunciou de imediato o seu nome, deve-me cento e cinquenta euros desde o ano passado. Cabrão. Se um dia destes o apanhar a jeito encosto-lhe o trator, ai encosto, encosto. O velho camponês, do outro lado, numa voz monocórdica e disártrica, recomendou-lhe para não fazer isso, seria um disparate. Foi então que o mais novo se intrometeu e aconselhou que quando emprestasse dinheiro a alguém que o escrevesse numa folha de papel ou numa caderneta. - Vossemecê devia apontar numa folha ou numa caderneta, porque se não o fizer, já sabe o que acontece, passa um dia, passa a romaria. Em seguida foram denunciadas muitas pessoas, conhecidas pelas suas alcunhas, mais do que os seus nomes cristãos e o espaço encheu-se de histórias de caloteiros até dizer basta. O estabelecimento estava praticamente vazio e o facto de estar presente conjuntamente com a minha mulher não os incomodou ou intimidou. Já nos conhecem e consideram-nos como cúmplices silenciosos das conversas mais delicadas, em que abundam as queixas, as falcatruas, as vigarices e a eterna ausência de carácter que reinam por aquelas bandas. Não podemos esquecer que dez, vinte, quarenta e, sobretudo, cento e cinquenta euros são quantias apreciáveis para quem vive de pequenas reformas ou daquilo que conseguem ainda arrancar da terra. 
À despedida saudámo-los. Os dois velhotes responderam, gentilmente, esboçando velhas e nobres vénias.


O exemplo alemão

Aí está a grande coligação entre os dois maiores partidos alemães (ou dos três, se incluirmos o CSU da Baviera, partido irmão da CDU), que se puseram de acordo para governar a Alemanha durante os próximos 4 anos. Negociações demoradas, em que cada qual cedeu um pouco, em prol da governabilidade e progresso do país. Coligação aprovada por 75% dos militantes social-democratas, consultados em referendo para o efeito. 
Por cá, os barões e baronetes dos partidos, ávidos de poder pessoal e para quem o povo nada conta, o que fazem é cavar diferenças, aumentar hostilidades, inventar, a cada dia, novos pontos de confronto.
Na Alemanha, e mais uma vez, os grandes partidos puseram o povo à frente dos seus interesses egoístas; em Portugal, sempre e todos os dias, coloca-se o interesse partidário à frente do bem do povo. 
Também por isso, ou muito por isso, a Alemanha é o que é e nós somos o que somos. Seguramente!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Crescimentistas em onda de optimismo ou..."en retraite"?

1. Os simpáticos e sempre afáveis Crescimentistas (modalidade soft), anunciaram ontem uma posição de inesperado optimismo: pretendem que Portugal saia do Programa de Assistência Financeira (em que por gentileza nos meteram, convém recordar) sem recurso a um “segundo resgate” nem, tampouco, um “programa cautelar”...ou ”à Irlandesa”, como agora se diz...

2. Regista-se esta súbita mudança de estado de espírito no discurso Crescimentista, tão inesperada quanto auspiciosa; e não deixa de ser curioso verificar que esta mudança ocorre quase em simultâneo com a informação esta manhã divulgada pelo Eurostat segundo a qual Portugal terá sido o País da Europa com melhor registo, em termos de criação de emprego, no 3º trimestre de 2013, um crescimento de 1,2% (já no 2º trimestre havia sido registado um crescimento de 0,8%).

3. Quem sabe se esta saudável mudança no estado de espírito não terá sido influenciada pelo conhecimento antecipado desta notícia bem como pelas outras que vão dando nota de uma retoma, moderada mas consistente, da actividade económica?

4. Resta saber, quanto a esta proposta de saída do Programa de Assistência na modalidade “à Irlandesa”, como é que os amáveis Crescimentistas a tencionam fundamentar, sendo certo que as suas receitas de política apontam, invariavelmente, no sentido de mais despesa pública e de menos receita fiscal...

5. É possível – temos sempre de dar o benefício da dúvida – que tenham encontrado uma fórmula mágica para oferecer ao país e convencer os credores internacionais, mas a verdade é que existe um risco elevado de, com o seu “track record” e aquele tipo de receitas, uma saída “à Irlandesa” vir a transformar-se rapidamente em “negócio furado”, atirando-nos de novo para uma sessão de austeridade com todos os contornos de um enorme pesadelo...

6. Aguardemos pois uma clarificação destas propostas, não sendo de excluir que estejamos em face de uma bem pensada estratégia de “retraite”, um reconhecimento implícito (explícito, nunca) de que as políticas neo-liberais não serão assim tão maléficas quanto têm sido pintadas – tanto, que até poderão permitir-nos sair do desconchavo financeiro para que um keynesianismo saloio nos atirou...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Hoje...e há 600 anos!...

O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo. Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência. É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspetos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos. A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte,sem outra forma de ofício.
Carta enviada de Bruges, pelo Infante D. Pedro a D. Duarte, em 1426, resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L'Infant D.Pedro de Portugal et "O Livro da Virtuosa Bemfeitoria"», in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

"Tragédia"...

Conhecia-o bem, e desde há muito. Uma figura que ganhou carisma e que enriqueceu o ambiente humano de uma pequena terra. A forma do corpo, a maneira de andar, o estilo pachorrento e a afabilidade com que tratava o próximo constituíam a sua imagem de marca. Habituei-me à sua presença, ao seu andar, ao seu falar e ao seu cumprimentar. Fazia parte de um ambiente que o moldou e que acabou por o moldar. Andavam de braço dado, não se distinguiam. Há ambientes que só adquirem vida com a presença de determinadas personalidades, nem sempre são as mais letradas ou convencidas do seu valor que são a alma de um povoado. Recordo-me de um dia de tragédia ocorrida na vila e que ceifou a vida de uma menina. Os restantes sobreviveram, felizmente, mas foram parar ao velho hospital da Universidade. Estava de serviço às urgências. Entrou o jovem, cuja forma de corpo, maneira de andar, estilo pachorrento e afabilidade no trato, que um dia iria marcar a sua terra, me caiu nos braços. Examinei-o. As lesões mais graves eram a da alma, mais dolorosas do que as do corpo. Nunca me esqueci desse episódio. Hoje recordo esse momento, não com saudade mas por estar associado à morte, a uma tragédia que ceifou a vida de uma menina e que poupou a de outros. Depois a vida refez-se. Há uma tendência brutal para a normalidade ou qualquer coisa parecida. Vi-o inúmeras vezes. Partilhei alguns momentos com ele, sobretudo à mesa, o melhor sítio para conhecer o próximo. Há algum tempo vi algo que não me agradou. Senti que havia qualquer coisa que não batia certo. Comentei: - Deve estar muito doente. Depois, passado um tempo, recebi a notícia. Incomodou-me. Incomoda-me saber o mal que atinge as pessoas. Incomoda-me, e muito. Previ o que iria acontecer. É muito fácil profetizar nestes casos. Demasiado fácil e intensamente doloroso. Incomoda-me, e muito. Prefiro não ver e nem ouvir, mas é impossível. Calo-me em certas circunstâncias. Tenho de me defender. Não serve para nada, a não ser para me inquietar e dar um outro significado à existência. A ameaça da morte dói, faz-me sofrer e acabo por desorientar-me. Fujo de certo tipo de conversas, mas é impossível. Naquela noite disseram-me: - Senhor Doutor, amanhã há cozido portuguesa. - Cozido à portuguesa? Ótimo. Adoro. - Sabe porquê? Perguntei naturalmente a razão. Disseram-me que era para satisfazer um desejo de alguém que sempre vi como uma típica forma de corpo, uma curiosa maneira de andar, detentor de um estilo pachorrento e ator de uma rara afabilidade no trato. Fiquei sem apetite. Fiquei sem vontade de comer cozido à portuguesa. Calei-me. Não disse nada. Tinha-me comprometido em comer cozido à portuguesa. No dia seguinte vi-o. Cumprimentei-o de forma suave. Ele sentou-se na mesa com os seus comparsas. A rugosidade da pele macilenta e o amarelo térreo, a denunciar a cama argilosa de um futuro imediato, perturbaram-me. Comi o mesmo cozido à portuguesa, feito exclusivamente para si. Soube-me bem. O apetite que tinha perdido na véspera agigantou-se naquele momento. Tenho dúvidas de que tenha sentido o mesmo. Saí. Ele ficou. À noite disseram-me que tinha sido novamente hospitalizado. Depois ia ouvindo relatos sobre o seu estado. Ouvia em silêncio. Não consigo verbalizar nestas circunstâncias. Sinto uma estranha dor, uma dor da vida, uma dor que me incomoda, uma dor que não consigo habituar-me. Hoje, telefonaram-me, a chorar, a comunicar que tinha sido expulso deste estranho paraíso em que vivemos, ou fingimos que vivemos. E agora? Onde vou ver aquela forma de corpo, aquela maneira de andar, aquele estilo pachorrento e a deliciosa afabilidade no trato? Onde? Pergunto. Não sei.