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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Contas Externas: que nos dizem os dois 1ºs meses de 2014?

1.Os dados referentes às contas com o exterior, para os 2 primeiros meses de 2014, há poucos dias divulgados pelo BdeP, já nos vão dando algumas indicações quanto ao que poderá acontecer com esta variável crítica no corrente ano.
2. Recordo que o ritmo de correcção dos desequilíbrios com o exterior - o ajustamento externo de que se tem falado - tem sido a mais notável consequência do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) em vigor desde Maio de 2011...
3. ...concretamente, em 3 anos apenas, foi possível converter um enorme défice corrente (superior a 10% do PIB ainda em 2010) num superavit: isto surpreendeu muito boa gente, incluindo os credores internacionais que, valha a verdade, nunca regateiam elogios a esta radical mudança...
4. Em 2013 foram apurados os seguintes saldos nas contas com o exterior:
- Balanças Corrente + Capital = 2,6% do PIB
- Balança de Bens + Serviços = 1,7% do PIB
- Balança Corrente = 0,5% do PIB

5. Tratou-se de resultados excepcionais, muito melhores que o esperado, que revelam o formidável esforço (ou sacrifício) que Famílias e Empresas foram capazes de realizar, em impressionante contraste com o estilo anafado e reivindicativo das Administrações Públicas, de um modo geral, que defendem "à outrance" os privilégios alcançados à custa dos demais sectores..empurrando para estes todos os sacrifícios e, para cúmulo, queixando-se como se fossem as grandes vítimas!

6. Ora bem, aqui chegados, os primeiros resultados de 2014 (Jan e Fev) dizem-nos o seguinte:

- O saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital (- € 132 milhões) tem uma expressão ligeiramente pior que no mesmo período de 2013 (- € 28 milhões);

- O saldo conjunto das Balanças de Bens e de Serviços também se agravou, passando de - € 25 milhões em 2013 para - € 217 milhões em 2014;

- O saldo da Balança Corrente sofre igualmente um ligeiro agravamento, de - € 377 milhões em 2013 para - € 465 milhões em 2014

7. Estes dados não são muito significativos, ainda, mas permitem-nos antever que não será fácil, ao contrário do que algumas previsões sugerem, uma nova melhoria dos saldos das contas com o exterior em 2014...se forem como os de 2013, será muito bom.

8...não podemos esquecer que o ritmo crescente da actividade económica, com o consumo e o investimento a recuperarem, tem inevitável impacto neste plano; basta referir que apesar de as exportações de bens continuarem a evoluir a bom ritmo (+4%) as importações crescem mais rapidamente (+7,2%), do que resultou nestes dois primeiros meses um défice na balança de bens superior em € 314 milhões ao de 2013, embora parcialmente compensado por uma melhoria de € 122 milhões no superavit dos Serviços.

9. Como dizem os ingleses, "one cannot eat the cake and have it too"...
   

"Diferente"...

Entrou com um ar diferente. Jovem, pele clara, cabelos louros, fresca e com um sorriso social. Sentou-se, revelando uma tendência aristocrática pouco habitual para a localidade e função. Estava nervosa, uma certa crispação inundava-lhe o ar, mas mesmo assim foi dizendo que andava bem e que não tinha problemas de saúde. - Está um pouco nervosa. - Ah, é o acumular de muitas coisas, trabalho e responsabilidade. - Anda a tomar qualquer coisa. Não anda? - Sim, o meu médico mandou-me tomar um calmante. - Pois, vê-se. - Vê-se?! - Sim, a sua face fica parada, sem expressão. Corou. O exame continuou e perguntei-lhe pela saúde dos pais. - Vivo com o meu pai. Esperei uns segundos. Queria saber o que se passava com a mãe. Entretanto ia escrevinhando as minhas notas. Estava a demorar, a fácies tornou-se mais pálida e ficou mais triste. - A minha mãe morreu há nove anos. Desconfiei de uma eventual causa e perguntei-lhe o que tinha acontecido. Explicou-me à sua maneira, com alguma dificuldade, um tumor na barriga, presumi que tivesse sido um carcinoma do pâncreas. Morreu ainda jovem. - Tem irmãos? - Quatro. - Mais novos? - Sim. Feitas as contas, na altura da morte ainda eram pequenos. - É a mais velha. Deve ter tido muito trabalho ao longo destes anos. A cabeça e a expressão facial confirmaram. Baixou os olhos, baixou a voz e disse: - Tem sido muito difícil. Muito. Subitamente, pareceu-me arrependida da confissão. Levantou a cabeça, levantou a voz e rematou: - Tem que ser. Uma estranha e profunda coragem emergiu das suas profundezas. - É nova. Já tem planos para a sua vida? Olhe que o tempo passa depressa e tem direito a viver a vida. - Olhou-me, surpreendida, corou ligeiramente, uma expressão de alegria surgiu-lhe vinda de músculos faciais que há muito tempo não sabiam qual era a sua missão e respondeu-me: - Estou a pensar nisso. Estou a fazer algumas tentativas. - Então faça, não se esqueça. Levantou-se e despediu-se com um ar diferente, mais tranquilo, mais esperançoso, mas aristocrático, algo difícil de encontrar naquele meio e nas suas funções.
Gente nobre, perdida no meio das serras, lutadora, sofredora e merecedora de uma atenção e carinho inesperado. Falta de carinho, foi o que me confessou no meio da nossa conversa. Nem se apercebeu da confissão que fez. Uma mulher diferente. Uma jovem diferente, que, presumo, saiu diferente. Eu fiquei.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Fazer por fazer...que seja em grande!...

Em 2006, a Petrobrás comprou por 360 milhões de dólares 50% de uma refinaria belga nos Estados Unidos que uns meses antes tinha custado 42 milhões, por inteiro. Passados 6 anos, em 2012, a mesma Petrobras adquire os restantes 50% por 820 milhões de dólares, elevando-se o custo total a 1,180 mil milhões de dólares, 28 vezes mais do que os belgas tinham investido. 
Azar, corrupção, incompetência? Um misto de tudo? Boa gestão? 
Bom, a Petrobrás era na altura presidida pela Drª Dilma, actual Presidente do Brasil, que atribui o caso a incompetência. Não dela, claro está. A culpa da decisão atribui-a a "um relatório técnica e juridicamente incompleto" do Director da Área Internacional.  A um relatório, diga-se, que o autor até foi promovido na Petrobrás.
E a Senhora também...e mais alto...no Brasil. A "esquerda" fina e finória é mesmo outra coisa...
(Notícia recolhida no Expresso de 25 de Abril de 2014, página 34)

"A senhora"...

Em pequeno comecei a visitar a senhora, quase sempre vestida de negro até aos pés, rendas brancas nos punhos e no colo, cabelo branco apanhado com maestria atrás onde se destacava uma espécie de travessa, escura com estrias de ouro, fazendo com que ao redor da cabeça ficasse com a sensação de que trazia uma coroa escondida. A face, envelhecida, não transmitia alegria e emudecia qualquer um graças ao distanciamento e à firmeza do seu olhar. Na mão esquerda habituei-me a ver uma bengala cuja cabeça, enigmática, brilhava sozinha, não precisando de luz ou do sol. Era um estranho e belo prolongamento da senhora a quem me habituei chamar a "madrinha velha". Havia em todo aquele ritual algo de pouco habitual, convenções a que não estava habituado, falas e cumprimentos adequados às circunstâncias em que pontuava a enorme sala repleta de móveis, mesas, pratas, porcelanas, quadros e fotografias que me causavam muita confusão e até algum receio, não fosse agente do diabo e deitasse abaixo belas e quebradiças peças. Não dava atenção a grande coisa, estava sempre com medo. Com o tempo fui crescendo lentamente e acabei por ir sozinho. Gostava da minha companhia. Tocava à porta e, invariavelmente, aparecia passados alguns minutos depois de ouvir a estranha sineta que tinha de puxar e que se fazia ouvir ao longe, no corredor, escuro e comprido. Assim que abria a porta tinha de lhe beijar a mão que colocava à minha frente. Dava-lhe os bons dias com muito respeito e seguia-a até à sala grande, atulhada e muito escura. Junto à janela, que dava para o Rossio, sentava-se num longo canapé repleto de inúmeras almofadas de veludo. Depois de se sentar era a minha vez. De forma delicada pedia-lhe autorização e a mão direita, volteando-se no ar, dizia-me, no seu habitual silêncio, senta-te. Gostava de ficar na direção dos raios do sol que esburacava atrevidamente aquele canto, iluminando-o e aquecendo-o de forma muito agradável. Enquanto não falasse ficava calado, juntava os joelhos, estendia as mãos à espera das perguntas do costume e divertia-me com os efeitos das partículas do pó a dançar no feixe da luz. - Foste à missa? - Fui sim, madrinha. - Tens-te portado bem? - Eu penso que sim, madrinha. - E a escola? Como vão os teus estudos? Já sabes ler sozinho? Sei sim, madrinha. Entretanto agarrava no jornal, o "Diário de Coimbra", e punha-se a lê-lo usando uma lupa gigante. Era a altura de virar a cabeça e ver as letras monstruosas a sair daquele vidro. Adorava ver o efeito que produzia nas letras. Com o tempo cansava-se e colocava-me o jornal nas mãos. - Lê esta notícia! Eu lia, inicialmente ficava nervoso, não queria fazer má figura, mas depois engatava e fazia de conta que estava a ler o texto na escola. De quando em vez corrigia-me. Voltava atrás e continuava a ler. Durante esse período recostava-se, fechava os olhos e eu ficava com a sensação de que estava a dormir. Abrandava a leitura mas ouvia-a dizer: - Continua. Estás a ler muito bem. Era o momento em que a via sorrir, no final da manhã do domingo, após a missa. Ficava bela, não me assustava, e ainda me elogiava. - Muito obrigado, madrinha. - São quase horas do almoço. Espera aí. Levantava-se, agarrada ao bastão de cabeça de prata, e ia, silenciosamente, pelo longo corredor escuro, que me metia medo, até aos seus aposentos. Era o momento para saltar sobre o canapé e agarrar na lupa. Fazia tropelias com ela tentando descobrir tudo o que andava por ali. Uma maravilha brincar com a lupa. Quando me apercebia que a sua sombra começava a desenhar-se à entrada da sala colocava as coisas nos seus lugares e ficava com a postura nobre em casa da senhora nobre. Costas direitas, joelhos juntos e mãos sobre os mesmos. Quando se aproximava levantava-me e só voltava a sentar-me depois de ter recebido a sua autorização, a mão direita que volteava como se tivesse vida. Permanecia em silêncio durante alguns segundos, a sua cara de mulher austera e distante voltava a assustar e colocava na minha mão esquerda a desejada, a querida, a bela moeda de prata de dez mil réis. - Vá, são horas de ires. Não quero que a tua mãe fique preocupada. Dá-lhe um beijo meu, se faz favor. - Sim, madrinha. Levantava-me, beijava-lhe a mão direita, a mão misteriosa, e, de costas, saía até ao início do corredor escuro onde fugia à procura da porta e do sol. Na mão brilhava a moeda de prata. Uma bela moeda que nunca tinha visto o sol. E assim se passaram muitos finais de manhãs de domingo da minha infância.
Eu gostava da bela peça de prata, mas também gostava da senhora, que tinha um lindo nome e que me tratou sempre pelos meus dois nomes. A única pessoa que me tratava daquela maneira. Uma sonoridade única. Aprendi muito com ela. Muito mesmo. Era uma personagem viva de épocas remotas.
Tenho saudades da minha "madrinha velha".

Antecipadamente grato

Alguma das muitas alminhas generosas que circulam por aqui, que conheça dirigentes do CDS-PP, pode fazer o favor de os esclarecer que as ações violentas e degradantes que resultam das praxes académicas têm todas, todinhas, há muito tempo, enquadramento na nossa lei penal? E que por isso não se torna necessário maçar os deputados da Nação com a invenção de mais um tipo de crime?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Saída limpa, conceito vazio!...

Saída limpa e programa cautelar perseguem-nos até à náusea em todos os noticiários, programas, comentários de jornalistas e equiparados, economistas e doutores de todas as etiologias. Ficam os sábios pelas palavras, que palavreado abundante é sempre o melhor meio “pour épater le bourgeois”. Que, pode passar todo o tempo, mas é bem que nunca escasseia.
Claro que ao governo interessa uma saída limpa: aprovisionada que está a tesouraria até às eleições, é trunfo que tem nas mãos e que lhe pode dar a sorte no jogo eleitoral. E à Troyca também interessa, para comprovar a excelência das medidas preconizadas.
Convém é explicar que saída limpa só o seria se significasse a dispensa definitiva da Troyca, ou de cada uma das entidades que a compõem. E que essa dispensa definitiva traduzia a possibilidade de Portugal conseguir financiar sustentadamente os seus défices, que persistirão.
E que, para os poder financiar sem auxílio alheio, eles terão que ser reduzidos. E que, para serem reduzidos, a despesa pública, se não diminuir, pelo menos não pode crescer. E, não podendo crescer, haverá que transformar o efeito transitório das transitórias medidas de cortes de salários e de pensões em efeitos definitivos. O que significa que, porventura com recurso parcial a outras naturezas de despesa, as restrições aos orçamentos familiares persistirão.
Tudo isto se tornou claro para os mercados. Para eles pouco interessa que as medidas tomadas possam ter sido as mais fáceis e porventura as piores e mais penalizadoras para os cidadãos e para a economia. Porque eles sabem que se chegou a um ponto de não retorno. E tomam as palavras de Seguro como mero folclore, certos que estão que, seguramente, ele não modificará, a ser eleito, seja o que for.
E, porque sabem que não há alternativa ao controle do défice e que este se aproxima do valor aceitável, abriram as portas do financiamento, possibilitando assim a tal saída limpa. Mas que trancarão de novo portas e janelas a um que seja leve deslizar da política de contenção orçamental.
Óbvio que a posição do BCE de activar políticas agora eruditamente chamadas de “quantitative easing” , traduzidas na compra de activos , eufemisticamente dívida pública, como forma de estímulo à economia, ajuda à queda das taxas de juro. Acontece que esta política de estímulo monetário tem como causa próxima a deflação que se começa a sentir, pelo que, esta resolvida, lá se irão as políticas não convencionais e ficamos novamente dependentes de nós próprios.
Pelo que, “pour épater le bourgeois” uma saída limpa é bonita, mas esquece que o substracto se mantém. E que um programa cautelar, porque nada modifica, sempre seria um anteparo no caso de turbulência interna ou externa. Porque muitos de nós continuaremos por cá. 
Claro que nada disto se diz ou vai ser dito. O Governo falará de vitória, o PS de derrota, qualquer que seja a solução. E muitos dos media ampliarão o barulho, potenciando a confusão. 
Assim continuaremos a viver. Com politiqueiros promovidos a políticos reciclados em universidades de verão.  E grande parte dos jornalistas e comentadores como bons acompanhantes.

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura


Uma grande recordação que Vasco Graça Moura nos deixa, entre tantas outras, é a grande luta que travou contra o famigerado acordo ortográfico da qual não chegou a ver, infelizmente, o resultado que pretendia. Agora, sem o apoio deste Grande Português, temos que unir esforços para continuar a batalhar...

No 25/IV, esconjurar os Efeitos da crise, esquecendo as Causas?

1. Aparte compreensíveis manifestações de saudosismo por parte de Velhas-Guardas de Abril de 74 e os delírios verbais de antigos altos dignitários do Estado agora convertidos em temíveis revolucionários, a nota dominante das manifestações públicas do dia 25 de Abril foi o protesto, veemente, contra "o estado a que o País chegou".
2. Curiosamente, não me recordo (pode ser falha de memória minha, mas não tenho a mais pequena lembrança, mesmo) de que no 25 de Abril de 2010 ou de 2009, por exemplo, se tenham verificado manifestações semelhantes, de protesto pelo "estado a que o País estava a chegar"...
3. Manda a verdade dizer que , caso tais manifestações se tivessem verificado em 2009 ou 2010, elas teriam feito todo o sentido nessa altura: quem tivesse os olhos semi-abertos (não era preciso mais) percebia perfeitamente que estávamos a caminho de um beco sem saída, tão evidentes eram os erros da política económica e financeira que nos era imposta...
4. Aqui mesmo, no 4R, ao longo desses anos, foram feitas repetidas e severas denúncias contra tais erros e suas nefastas consequências, e ainda não sabíamos, com precisão, da imensa factura que nos esperava em Abril de 2011...
5. Um clamor de protestos, no 25 de Abril de há 4 ou 5 anos, teria pois feito todo o sentido, talvez ainda fosse possível corrigir alguma coisa no percurso para o abismo que demencialmente estávamos trilhando - estar-se-ia atacando as CAUSAS da crise que acabou por nos atingir em cheio, poderiam, quem sabe, ter-se minorado alguns dos seus EFEITOS...
6. Agora, em 25/04/2014 é que se lembraram de protestar, lamentando ruidosamente os efeitos dos erros cometidos até 2011?
7. Mas isso é o equivalente a chorar sobre o leite derramado ou andar a correr atrás do prejuízo, adianta tanto como coisa nenhuma...
8. Mas, pior do que isso, é terem-se ouvido, de forma bem audível, discursos de fino recorte literário, clamando, qual promessa salvífica, pelo urgente regresso aos erros de política que nos arrastaram para a ruína financeira da qual estamos finalmente a sair, depois de incontáveis sacrifícios suportados por Empresas e Famílias...
9. Não há mesmo pachorra para aturar tanta falta de senso!
   

sábado, 26 de abril de 2014

O dia seguinte

Estas palavras, escritas por Pedro Santos Guerreiro na edição de 25 de abril do 'Expresso', merecem ser meditadas agora que vai ficando longínquo o som das proclamações:
"É constrangedor assistir a um sistema de poder que faliu mas em que a porta giratória recoloca as mesmas pessoas nos mesmos lugares que antes destruíram. A crise das elites. A crise das instituições. Bah!, o sistema rebola-se na sua própria sobrevivência. A banca rebentou por todos os lados, os governos levaram a dívida pública à insustentabilidade, há cortes permanentes de pensões, há impostos cavalares, mas o sistema permanece. "E o povo, pá?" é uma pergunta retórica. A economia é hoje quase tudo porque a política é quase nada. Um beco tem sempre saída andando para trás. Para a política, de novo. Mesmo nas crises económicas, financeiras, de dívidas soberanas.
A política portuguesa tornou-se a arte de preservação dos mais fortes, que habitam uma espécie de condomínio privado ladeado de arame farpado no meio de uma ilha num mar de minas submarinas. Não porque tenham medo dos pobres e dos excluídos, mas porque não os querem ver. O negacionismo é um soluto para a consciência. O resto do mundo passa a ser uma estatística. "O flagelo do desemprego", "O estigma da desigualdade". Essas frases, banalidades. E seria tão fácil sair da temperatura morna, mais do que ver, apalpar o real, senti-lo com as mãos. E depois mudar. Mudar devagar por dentro antes que tenha de mudar à bruta por fora. Afinal a liberdade não falhou. A liberdade de expressão. A liberdade de pensar, a liberdade de dizer. E de votar. E de fazer? E de fazer. O 25 de Abril é hoje. Sempre".

Cidadania dos direitos e dos deveres...

Muito interessante a iniciativa do Pordata de construir um portal sobre os direitos e os deveres dos cidadãos. Uma iniciativa que reforça a importância da cidadania. Muito útil a mensagem de que qualquer cidadão beneficia de direitos e garantias a que correspondem também deveres e responsabilidades.
Espreitei, já tem um vasto número de temas tratados e muitas perguntas e respostas. Perguntas daquelas que por serem tão simples parecem de difícil resposta.
Assim todos os cidadãos tenham a possibilidade de aceder ao portal e assim este tipo de iniciativas sirvam, também, para promover uma sociedade civil mais participativa e um Estado mais responsável. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O 25 de Abril agora e depois...

Ontem ao jantar estavam representadas quatro gerações: avós, pais, filhos e netos. Foi muito engraçado ouvir o que uns e outros tinham para dizer sobre o que de mais importante atribuem ao 25 de Abril e aos quarenta anos que entretanto decorreram de lá para cá.
Depois de muitas críticas e desabafos sobre a situação a que o país chegou, especialmente vividos nos últimos anos, todos foram capazes de eleger o que de mais importante aconteceu e foi conquistado. A crise da classe política recebeu a unanimidade dos votos.
Chegada a minha vez para me pronunciar, elegi o Estado Social como a principal realização colectiva que fomos capazes de construir. A educação, a protecção social e a saúde transformaram a vida do país, chegaram a milhões de pessoas. Fomos capazes de criar uma sociedade inclusiva, tanto mais impressionante quanto partimos de um patamar muito baixo. Mas não podemos estar totalmente satisfeitos. Não fomos capazes de incluir todos os portugueses, os níveis de pobreza atingem, depois de quarenta anos de democracia, mais de dois milhões de pessoas. 
Esta realidade mostra que nem tudo correu bem e que temos a obrigação colectiva de fazer muito mais. O Estado Social continuará a ser fundamental para uma sociedade inclusiva e para uma economia de todos. Temos que o reinventar, não se trata de ser menor ou maior, trata-se de ser melhor, na gestão e utilização dos recursos  Assim saibamos produzir mais riqueza, com o envolvimento de todos,  e promover a sua justa e equitativa redistribuição. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Liberdade

Comemora-se amanhã o dia da Liberdade. O dia de uma revolução feita para restituir a dignidade perdida, o dia que prometia o fim de todas as injustiças, o dia da redenção de um País que tinha sacrificado até então a liberdade à autoridade. Hoje, 24 de abril, véspera da comemoração desse dia, lembro com profundo desgosto que faz um ano que um Amigo perdeu a sua liberdade para proteção - dizem alguns - da liberdade dos outros. Um companheiro daqueles bancos da escola que ensinava o Direito em nome do qual, desgraçadamente para ele, para a família e para os que lhe querem bem, sofre no cárcere e no espaço público a injustiça de o julgarem como não julgam o mais odioso dos criminosos.
Com metade da pena cumprida, continua destituído dos mais elementares direitos, acossado pelos bufos reciclados do antigamente e pelos Torquemadas que esta democracia fez proliferar. Sente na pele a lógica de um sistema que, para sua própria proteção, faz prevalecer a autoridade à liberdade. Continua o juiz a dizer que assim tem de ser em nome da defesa da liberdade dos outros. Assim dizia, também, o juiz dos tempos que o 25 de abril prometeu acabar...

Isaltino Afonso Morais, não tenho muitos púlpitos. Mas neste que partilho com quem por certo compreenderá que faça dele o uso que só a mim responsabiliza, quero enviar o abraço do amigo que nunca perdeste. 
Como cidadão que celebrará, como sempre celebrou, o dia consagrado à Liberdade, deixo aqui a denúncia do crime que constitui não te devolverem o que há de mais precioso. Certo de que, neste Portugal que se transformou num areópago de carrascos, não se encontrará juiz com coragem para julgar esse crime.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dionísio

Gosto de revisitar o passado apenas para saborear sentimentos, paixões, devoções e emoções. Não preciso de muito e nem é muito complicado. É tão simples. Uma pequena ideia, uma imagem, um som, um aroma, uma lembrança e tudo se transforma, e eu embebedo-me como se fosse o Dionísio da Quinta do Rio. O Dionísio existiu, foi um barbeiro, cortou-me muitas vezes o cabelo, e brincava com os piolhos que dormiam no meio dos cabelos que sabia cortar à maneira. Nunca se preocupou com eles e as lêndeas deveriam ser fonte de inspiração. Piolhos para o Dionísio eram a coisa mais natural do mundo, tão natural como beber um copo de três a meio da manhã. O Dionísio não conseguia mexer bem o pescoço e com o tempo ficou tão rígido que sempre que queria olhar tinha de virar o corpo. Cortava o cabelo, bebia o seu tinto em tesouradas constantes ao longo do dia e marchava de noite, tocado pelo seu homónimo, ao longo da linha estreita até à Quinta do Rio onde vivia. Eu gostava do Dionísio, que nunca se enojou com os meus piolhos. Não sei se era eu que lhe oferecia ou se era ele que os emprestava. Estoirava-os entre duas tesouradas, empurrava-os para o meu regaço e lançava-os ao chão, pisando-os. E a conversa continuava sem se importar com a presença dos animais. Piolhos para o Dionísio eram a mesma coisa que os bichos das couves, natural, sem nenhuma importância. No final do corte sacaneava-me aspergindo o álcool no pescoço. Era a altura de dar um pulo de corça. Porra. Este gajo é doido com o álcool, prefiro de longe a comichão dos piolhos. Ele ria-se. O Dionísio era miudinho, fraco de carnes e simpático até meter o dedo na goela para saber se ainda havia lugar para mais um copo.
Depois o tempo afasta-nos, mas não muito, acabamos por nos rever quando menos esperamos. Foi o que aconteceu um dia numa fazenda, estava o Dionísio a comer de um pequeno tacho sentado num tronco e com a garrafa de vinho ao lado. Respeitou-me e só depois de o ter cumprimentado é que disse boa-tarde e perguntou se era servido. Respondi que não. O pescoço estava tão rígido que não foi capaz de rodar um milímetro que fosse. O sorriso era o mesmo quando se divertia com os piolhos em pequeno. Fiquei incomodado, andava na jorna, já não cortava cabelos. Não foi preciso falar. Senti que tinha acontecido algo. O Dionísio era um artista de cabelos e não propriamente um trabalhador rural. Não é que tivesse dificuldade em amanhar a terra, mas a sua excelência estava na tesoura, nos comentários e na sabedoria da escola da velha barbearia. Fiquei incomodado com a desvalorização feita ao Dionísio, que nunca teve mais de um metro e meio da altura e nunca soube o que eram cinquenta quilos mal-amanhados. Sabia beber, embora nunca o tivesse visto bêbado. Dizem que os cortes eram mais requintados ao fim da tarde ou ao princípio da noite quando se deslocava na escuridão para a negrura da sua casa.
Um dia informaram-me que tinha tido um acidente de viação com a motorizada. Uma modernice qualquer que tinha adquirido e que acabou por lhe provocar a morte. Disseram-me onde foi o local do desastre. Foi há muito tempo. Hoje recordei-me do Dionísio. Gostava dele. Cortava-me o cabelo em miúdo e matava os piolhos como só ele sabia. Para ele piolhos eram a coisa mais natural do mundo. Ainda me ofereceu um pente para os piolhos, amarelo. – Toma. É para os apanhares. Mais tarde soerguia-se ou fazia de conta que se abaixava para me cumprimentar o mais respeitosamente possível dizendo, senhor doutor! E ria-se com o mesmo sorriso, o sorriso do Dionísio.

Hoje, bebi um copo à memória do Dionísio.

Emissão de dívida a 10 anos, com taxa de juro em 3,575%...magnífico, mas cuidado...

1.       Foi hoje efectuado um leilão aberto de dívida pública, ao prazo de 10 anos, com o objectivo anunciado de € 750 milhões: esse montante foi colocado e a taxa de juro média da colocação foi 3,575%, segundo as notícias, a mais baixa desde 2005 (início do “memorável” consulado socrático)...
2.       Ainda segundo as notícias, a procura por esta colocação terá sido = 3,5 X montante da oferta o que, não sendo “fantástico”, diz bem do apetite pelo produto...
3.       Parece assim aberto o caminho para que, concluída com sucesso a 12ª e última avaliação (a ver vamos...), a República Portuguesa possa voltar a financiar-se nos mercados, em condições de normalidade...
4.       ...desde que saiba resistir à tentação de renovar os dislates que caracterizaram anos e anos de gestão orçamental desastrada, culminando no absoluto delírio dos últimos 5 anos anteriores a Abril de 2011...
5.       Isto é particularmente de reter numa altura em que vai sendo lançado para a discussão pública a questão da afectação dos “dividendos orçamentais” gerados por um crescimento económico acima do previsto...
6.       Aqui, não posso deixar de manifestar alguma discordância em relação à posição publicamente manifestada pelo PR, que sugeriu que esses “dividendos” fossem afectados prioritariamente a compensar aqueles que mais atingidos foram pelas medidas de austeridade dos últimos anos...
7.       Embora entendendo a preocupação manifestada pelo PR em relação aos mais desfavorecidos neste difícil processo de ajustamento, na minha perspectiva esses dividendos devem, em 1º lugar, ser utilizados para reduzir a dívida pública (no suposto de que o excedente primário permita essa redução)...
8.       ...enquanto a dívida pública não começar a baixar, esses “dividendos” não devem ser afectados a coisa nenhuma na minha opinião, particularmente a aumentos de despesa corrente, porque se isso acontecer a dívida pública continuará a subir o que, como sabemos, poderá conduzir a um tenebroso regresso aos problemas financeiros...
9.       Numa semana caracterizada pela exaltação da falta de senso por parte de diversos agentes políticos  – num claro desrespeito aos mais lídimos valores do 25/IV - importa manter a cabeça bem fria e pensar seriamente nas responsabilidades que o País enfrenta e que não se compaginam com revolucionarismos 40 anos retardados...

terça-feira, 22 de abril de 2014

Muito bem, Snr. Presidente!

1. Não sei em que circunstância estas declarações foram proferidas, mas li hoje que o PR terá declarado o seguinte, creio que a propósito da evolução recente da economia portuguesa: “ As empresas são o grande pilar de recuperação, tudo o resto são “falt-divers”...

2. ...e acrescentou “os insultos entre agentes políticos não promovem o crescimento”...

3. Não posso estar mais de acordo com estas declarações, que aliás parece terem em consideração teses com alguma frequência expendidas em Posts divulgados neste BLOG (presunção e água benta...)...

4. Então nos últimos dias, a propósito e a despropósito da data festiva que a velocidade estonteante se aproxima, o nível dos dislates proferidos na praça pública por agentes políticos activos, semi-activos, reformados ou ultra-reformados tem aumentado de intensidade a um ponto que perderam já todo o significado...

5. ...parece quererem celebrar esta data histórica de forma peculiar, sob um formato de campeonato da falta de senso, com a particularidade de ser muito difícil encontrar um vencedor...

6. Há que ter paciência, sem dúvida...a surdez de que me vou queixando, nesta circunstância deixa de ser um “handicap”, para se converter num valioso “asset” !

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma estufa fria...

"...Penso pela minha cabeça. E não conheço nenhuma prova de que a acção do Homem tenha efeitos no clima. Nem eu nem muita gente que pensa também pela sua cabeça. 
Obviamente, as emissões de dióxido de carbono, resultantes da queima de combustíveis fósseis, não obstante serem diminutas em relação à massa total de dióxido de carbono já existente na atmosfera, poderão dar algum contributo ao efeito de estufa global da mesma atmosfera, mas nada que justifique ondas de calor, vagas de frio, cheias, secas, tufões, tornados e toda a parafernália de desgraças com que os alarmistas amedrontam as pessoas. E sobretudo tentam amedrontar os governos, para que estes lhes ponham nas mãos os saborosos subsídios com que eles, por artes mágicas, acabariam com as terríficas ameaças. Mas só daqui a cem anos, claro... 
Tudo isto é uma charlatanice de vendilhão de feira. Até porque existe uma verdadezinha inconveniente que os alarmistas procuram esconder: o principal gás com efeito de estufa é o vapor de água e não o dióxido de carbono, nem nenhum outro gás. 
E não porque a molécula H2O tenha maior potencial de absorção da contra-radiação infravermelha (a emitida pela superfície que foi aquecida pela radiação solar incidente) do que a molécula CO2. Pelo contrário, numa perspectiva molecular, a molécula CO2 tem um potencial de absorção superior ao da molécula H2O. 
Acontece no entanto que, em média, na atmosfera existe uma massa total de vapor de água entre quatro a cinco vezes a massa de dióxido de carbono. Daí que a maior responsabilidade, em termos de efeito de estufa, seja do vapor de água e não do dióxido de carbono. É claro que depois há uns “detalhes” que têm a ver com a sobreposição das bandas de radiação absorvidas, mas isso já é demasiado técnico. 
Portanto, se alguém, à cautela, quer fazer um seguro contra o efeito de estufa, que o faça contra o vapor de água e não contra o dióxido de carbono, o magnífico fertilizante atmosférico que oferece às plantas o carbono que elas integram nas suas moléculas e que depois os animais aproveitam. E nós também...".
Jorge Oliveira
(Jorge Oliveira é um ilustre engenheiro, brilhante aluno do Técnico, depois, assistente, e detentor de um sólido e reconhecido curriculum profissional que, aliás, o obrigou a abandonar a docência). 

Justo, com luz e sem rega!...

Duplos parabéns ao Benfica.
-Por ganhar o Campeonato Nacional de Futebol. Triunfo justo. 
-Pelo desportivismo manifestado de festejar a vitória com a luz acesa e sem regar os vencedores. 
Um abraço azul e branco forte para todos os benfiquistas autores, comentadores e adeptos do 4R. 

domingo, 20 de abril de 2014

Um domingo de Páscoa

Lembro-me de um domingo de Páscoa. O sol brilhava intensamente na manhã do novo dia. O silêncio imperava, as andorinhas brincavam, os comboios passavam e o som da campainha ouvia-se à distância a anunciar a chegada do compasso. Nervoso, corri a avisar que não tardaria a sua chegada. Tudo preparado para receber a Cruz no final daquela manhã, porque à tarde a história iria repetir-se na vila, mais agitada e agigantada. - Já lá vêm, já lá vêm. Vinham pela velha linha estreita com o miúdo à frente a tocar incessantemente o pequeno sino. As portas estavam atapetadas à maneira, verduras e carqueja. Entraram em casa e com solenidade beijámos a Cruz e cumprimentámos o senhor prior que aspergiu tudo e todos com água benta. O odor a frescura, muito doce e suave, que competia com as deliciosas amêndoas, causou-me uma agradável sensação. Até o calor do sol arrefeceu perante esta cerimónia. A excitação continuou após a saída, porque tinha de ir almoçar a casa dos meus avós à vila. Sempre ansioso perguntava se não era horas de irmos. Fomos a pé, como era habitual, sob um sol quente e um bocado duro. À passagem pela ponte senti novamente a frescura doce e suave do rio que nesse dia emanava as sensações que tinha sentido em casa. Lembro-me de lhe ter perguntado se já tinha beijado a Cruz. Claro que tinha, pensei. A mesma frescura, igualzinha à que tinha sentido aquando da benzedura. Olhei para as águas azuis e imaginei a natureza a ser aspergida pela corrente de água benta. Só pode, pensei. As acácias espreguiçaram-se e dançaram ao ritmo da brisa, enfeitando os caminhos dando-lhes a merecida beleza. 
Após o almoço a azáfama continuou. Uma loucura saber por onde andariam e a que horas é que chegariam. Entrava e saía a dar conhecimento do trajeto, alertando para que estivessem preparados, não queria faltas, queria tudo e todos nos seus lugares. Uma espécie de vigilante. Vivi aquela tarde de forma ímpar. A meio da tarde, por volta das cinco horas, a campainha começou a fazer-se ouvir ao fim da rua e, passado pouco tempo, subiu de tom e as escadas. Corremos todos para a sala onde nos perfilámos à espera da visita. Naquele dia o sol tinha feito das suas, os membros do compasso tresandavam a suor a que não era alheio o sol das uvas fermentadas. Uma hora pouco recomendável porque as vozes já se arrastavam e, até, a Cruz chegou a baloiçar perigosamente ficando o Cristo de cabeça para baixo, dificultando o acesso, tendo de me contentar em beijar os pés. Que raio de maneiras em transportar o Senhor, pensei, mas olhando para aquelas faces não seria esperar outra coisa. O rebuliço foi enorme, meu Deus, ataques à mesa, desapareceram as amêndoas, os copinhos de licor esvaziaram-se e o envelope com o dinheiro foi devidamente guardado na pasta do "tesoureiro", que deveria estar tão cheia como o seu bandulho estaria de vinho fino. Não senti a doce e suave frescura da água benta da visita da manhã. Nada que se parecesse. Andou tudo aos trambolhões, a começar pela Cruz. Ainda olhei para o meu Cristo de marfim, majestoso, digno de um rei, que, no meio da mesa, silenciosamente, assistia a toda aquela confusão e ao que andavam a fazer ao seu irmão. Ninguém lhe ligou, nunca ninguém lhe ligou, apenas eu, mas também nunca se importou. Eu sim, fiquei triste por não ter continuado a respirar a suave e doce frescura que a manhã e o rio me tinham oferecido. Que pena, pensei.

sábado, 19 de abril de 2014

A Páscoa de um tempo já passado

Era dia de gloriosa primavera. O Sr. Abade, de sobrepeliz e estola, e os mordomos, capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha da água benta, outro com a campainha, que anunciava a comitiva, calcorreavam a freguesia, povo a povo, caminho a caminho, casa a casa, da mais rica à mais pobre, da mais perdida no monte à mais central, junto à fonte ou à igreja.
E havia ainda o homem do cesto, o membro hierarquicamente mais baixo da procissão, cuja função era guardar os ovos, presente dos mais pobres ao Senhor Abade.
A profusão das flores da primavera e o perfume das glicínias junto aos muros apareciam realçadas pelo sol brilhante da estação e davam um ar de incontida festa, que os tapetes de rosmaninho, junto às portas, mais acentuavam. E as escadas, decoradas a alfazema e a alecrim, anunciavam a alegria da visita. As casas, sujeitas à lavagem anual, mostravam o ar limpo e fresco do chão esfregado com sabão amarelo.
Na melhor sala da casa juntava-se a família: pais, filhos, avós e netos. Boa Páscoa, Boa Páscoa, saudemos o Senhor que nos vem visitar, dizia o Senhor Abade. As pessoas ajoelhavam e a cruz passava de boca em boca para o beijo pascal. Por vezes o crucifixo era mesmo beijocado com grande profusão e intensidade, nada escapando, desde a cara, aos joelhos e aos pés de Jesus Cristo. Nos casos mais extremos, o mordomo tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.
Mesmo as casas mais humildes, em cima de uma mesa mais ou menos tosca, tinham sempre uma cruz, um folar, uma garrafa de vinho e ovos. Vai alguma coisa, Sr. Abade? Não, que temos caminho a andar. E tem aí os seus filhos; olhe que eles estão com apetite!...Ao sinal discreto do Senhor Abade, o homem do cesto retirava ou não os ovos da oferta.
As casas mais ricas caprichavam na recepção.Na melhor toalha de linho, sempre o folar, mais uma profusão de bolos e doces e vinho fino, para acompanhar. Mas aí não havia ovos. Normalmente, um envelope com dinheiro. Vamos lá fazer as honras da casa, dizia o Senhor Abade!... E então alguns dos mordomos tiravam mais uma vez a barriga de miséria, dado que os pitéus expostos e o vinho do porto não eram manjar habituado a passar por aquelas gargantas.
O que o Senhor Abade sempre fazia era ir junto à cama dos doentes. E se era recebido com queixumes, na despedida sentiam-se sempre mais reconfortados.
Por vezes, o mordomo da cruz hesitava entrar numa ou noutra casa. E cochichava com o Sr. Abade. Que lhe dava ordem de entrar. Ao que eu me sujeito, ter que levar a cruz a gente amancebada...
A Páscoa era um dia festivo. Os tempos mudam e fica a nostalgia. Hoje, na minha terra, continua a haver visita pascal, mas sem o Senhor Abade. Saem diversas cruzes para despachar serviço e tudo acaba mais depressa, logo de manhã.
Já não é o mesmo, dizem! É verdade. Mas coisas melhores virão, diz-nos a esperança.
Nesta boa esperança, uma Boa Páscoa para todos!...


"Aleluia" da Páscoa...



Votos de uma Santa Páscoa!
Para a celebrar aqui fica o “Aleluia” da obra “O Messias” de Georg Friedrich Handel.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Neo liberalismo...Neosocialismo...

Manuel Valls, 1º Ministro francês do governo socialista,  reafirmou a necessidade e, assim, a decisão do Governo de poupar 50 mil milhões de euros na despesa pública, como forma de reduzir o défice para 3% do PIB e, cito,  "recuperar a nossa soberania" . Congelamento das pensões, diminuição de funcionários, congelamento de salários  (em vigor desde 2010), diminuição de transferências para as entidades locais são exemplos da incidência  das medidas.
De imediato, a reacção de camaradas deputados socialistas: " não fomos eleitos para organizar a perda do poder de compra".  
Lá, como cá, não se lembram que se trata de atalhar males maiores (independente do acerto ou desacerto de algumas medidas...). 
Mas, com uma diferença. Por cá, é neoliberalismo; por lá, não pode deixar de ser neosocialismo... 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Portugal país rico em misérias

Ouvir os outros é bom para compreendermos melhor o que nos rodeia. O jovem enfermeiro, que esteve de baixa devido a acidente, voltou ao serviço. Está muito melhor. Tudo normal. Começamos a conversar, ou melhor dei o mote para que pudesse falar. - Tem tido muito trabalho? - Conforme, mas de noite é pior. Ter de andar por aquelas aldeias de gente envelhecida e muito pobre transtorna-me. Imagine o que é ouvir, por favor faça o que puder mas não me leve para o hospital, eu não posso pagar a taxa moderadora, os quinze euros fazem-me muita falta. Eu assino tudo o que for necessário, por amor de Deus não me leve. A conversa continuou e o jovem, muito incomodado, disse, olhe senhor doutor que não foi nem uma ou duas mas bastaria que fosse apenas uma vez para ficar chocado com a nossa realidade, gente pobre e desprezada no interior de Portugal.
Alguém esperaria que uma coisa destas acontecesse depois de tantas "conquistas" e "promessas"?
Afinal, a miséria dos dias atuais não é muito diferente da miséria de antigamente. 
Portugal é um país rico em misérias. Sempre foi.

Primaverar

Guardei este texto que o Padre José Tolentino Mendonça publicou recentemente. É um daqueles textos que ficam na memória, que de vez em quando sabe bem reler. Primaverar é uma expressão cheia de força e de vida. A Primavera repete-se sem cansar, as flores e os prados renovam-se, sempre bonitos, como se da primeira vez se tratasse. Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Cada um saberá entender este sobressalto primaveril...

Esquecemo-nos que as estações se conjugam com um verbo e que, por isso, a primavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa vista, mas é uma realidade que posso dizer de mim “eu primavero”, “eu (re)começo a primaverar”. Por um lado, a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por incrível processo de rejuvenescimento. A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. O seu espectáculo desassombrado enche-nos os olhos. Por outro lado, porém, esse ver não basta. Não somos testemunhas, mas protagonistas. A par das árvores com que nos cruzamos rua fora ou das flores bravias que pontilham qualquer nesga de chão, somos chamados a primaverar. 
Uma das formas de conjugar a primavera é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a tempo e fora do tempo, da aliança entre a existência e o inacabado. Quando, de repente, tínhamos tudo para nos pensarmos completos, gastos ou acabados, descobrimos que a vida é o aberto. Verdadeira sabedoria, aquela que nos faz tocar o coração da vida, é a sabedoria do inicial, do verde tenro, do primaveril, do incessante. Tem toda a razão a sentença de Lao Tsé: “Quando ingressam na vida/os homens são tenros e fracos/quando morrem/ são secos e duros/. Por isso, os duros e fortes/ são companheiros da morte/ e os tenros e frágeis/ são companheiros da vida”. 
O nosso juízo de arrumação e remate e as idealizações que projetamos a esse respeito) é enganador; mais não seja porque a vida é vida, florescente, é uma sucessão infinda de começos. Desde que nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados para nascer, as vezes que forem precisas. 
Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher. Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos. 
Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha? Quando vamos de um lado para o outro estamos, normalmente, presos aos motivos que justificam a deslocação. 
Mas – temos de reconhecê-lo – uma viagem assim é demasiado curta. E não é isso primaverar. Há uma outra viagem que só começa quando as perguntas sobre o que fazemos ali deixam de interessar. Estamos, ponto final. Viemos. Não é o saber ou a utilidade que a definem, mas o próprio ser, a expressão profunda de si. A sabedoria dos que primaveram não consiste, assim, num conhecimento prévio, mas em alguma coisa que se descobre na habitação do próprio caminho.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Economia pode crescer 2% (ou mais) este ano?!

1. Foi hoje divulgada pelo Centro de Estudos da UCP, uma primeira previsão para o desempenho do PIB no 1º trimestre de 2014, apontando para uma variação homóloga de + 2,2%.

2. A confirmar-se esta previsão – por enquanto não passa disso – ficarão lançados os dados para mais uma boa surpresa por parte da economia portuguesa: já em 2013 as previsões iniciais apontavam uma queda do PIB de 2,3%, o resultado final foi uma queda de 1,4% mas com variações positivas em cadeia a partir do 2º trimestre e mesmo uma variação homóloga positiva, de 1,7%, no último trimestre do ano.

3. E a boa surpresa em 2014 pode bem consistir numa taxa de crescimento anual de 2% ou mesmo acima, quando a previsão oficial – do Governo, do BdeP e do FMI – aponta para 1,2%...que, a verificar-se, não seria um desvio mais significativo do que o de 2013...

4. E devo confessar que não me espantará nada que tal venha a acontecer, tendo presentes indicadores parciais que vão surgindo, nomeadamente o muito rápido crescimento das vendas de veículos, tanto ligeiros de passageiros como comerciais, ligeiros e pesados, bem como a situação de elevada ocupação que se vem registando na actividade hoteleira e na restauração...

5. O grande e justificado espanto residirá na possibilidade de tal cenário face à persistência das políticas neo-liberais: segundo a velha cartilha crescimentista, JAMAIS seria possível qualquer vislumbre de crescimento, muito menos desta ordem de grandeza, enquanto tais políticas estiverem em vigor, com a cumplicidade das agências de rating e dos especuladores do mercado de capitais...

6. E o “pior” ainda pode estar para vir: uma nova descida do nível de desemprego, bem como um desempenho orçamental melhor que o previsto, graças, mais uma vez, à evolução da receita fiscal...

7. Admito que este cenário cause justificado horror nas hostes crescimentistas; convém por isso que se preparem sem demora para tal eventualidade, sofisticando até ao limite do (im)possível a técnica oratória de combate à realidade...

Austeridade ou Disciplina Financeira (Orçamental, em 1º lugar)?

1. Há algumas semanas o Presidente da República (PR) emitiu uma opinião que parece ter chocado profundamente o “establishment” político, nomeadamente o mais sensível a tudo quanto possa colocar em crise as esperanças num amanhã Crescimentista...

2. Disse o PR mais ou menos isto (não estou a citar): que o País teria de se habituar à ideia de viver em regime de Austeridade durante os próximos 20 anos, em ordem a repor os equilíbrios fundamentais, especialmente em sede de finanças públicas.

3. Esta declaração foi recebida com alguma estupefacção e algum choro, não raro de tipo convulso, por parte de inúmeros “opinion-makers” e de uma boa parte dos “media” que vivem na permanente expectativa de um retorno, logo que possível, a um regime em que o Estado (Administrações Públicas) possa, de novo, “abrir os cordões à bolsa”...

4. ...alguns situam mesmo essa expectativa num cenário de curto prazo, só estão à espera que a Troika volte as costas para poderem reviver tempos felizes...

5. Pois bem, embora julgando compreender o sentido e o alcance da opinião emitida pelo PR, e esteja basicamente de acordo com a mesma, só entendo que o PR teria com vantagem utilizado a expressão “Disciplina Financeira”, em lugar da expressão “Austeridade”...

6. Pois me parece que aquilo de que nós verdadeiramente carecemos é de uma prática permanente de disciplina financeira, a todos os níveis, a começar naturalmente no Estado (Administrações Públicas e Sectores Empresariais Públicos), estendendo-se depois aos demais sectores institucionais.

7. Em Portugal instalou-se, nas últimas décadas, uma cultura de indisciplina financeira, que no caso do Estado tem revestido um carácter verdadeiramente endémico, a qual é manifestamente incompatível com uma convivência normal dentro de uma União Monetária como é o caso do Euro...

8. Essa cultura leva a apelidar de “Austeridade” – com sentido notoriamente pejorativo - o que não é mais do que uma diferente cultura, de “Disciplina Financeira”, necessária, para além do mais, para que a própria economia possa crescer de forma sustentada, sem os frequentes solavancos que nos atormentam, e para que os impostos, especialmente sobre o rendimento das Famílias e sobre os resultados das Empresas, possam ser menos gravosos do que são actualmente...

9. Assim, Senhor PR, aqui fica a modesta sugestão, para quando voltar ao tema: refira-se mais à necessidade de Disciplina Financeira, de uma cultura de disciplina, generalizada, assumida por todos...e refira-se menos à Austeridade, que supõe ser a indisciplina o estado normal de vida. Com a devida vénia, não esqueço...

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pela coragem de remar contra a maré, vale a pena ler..

Convém colocar as coisas nas devidas proporções, não vá a ironia do texto de HM confundir: nem os movimentos das marés são tsunamis, nem a legitimidade aparente é regra em democracia. Mas é um facto que a opinião publicada, dominada por uma fação da esquerda, ela sim burguesa e conservadora, cria a ideia de que se formou uma onda de insatisfação e até repúdio por algumas figuras políticas, a quem não se desculpam os erros ou os momentos menos felizes (antes se ampliam) e se não reconhecem virtudes, mesmo algumas que costumam ser bandeiras dos críticos.
Aníbal Cavaco Silva é uma dessas figuras permanentemente fustigada pelo pessoal que gostaria de mudar de situação. No exercício dos seus mandatos o PR cometeu erros, terá até frustado expetativas de alguns. As minhas, ao dar posse ao Governo minoritário de Sócrates quando a gravidade da situação tornava evidente a necessidade de uma solução política distinta, que teria poupado muita dor e sacrifício. Mas tem-se revelado o Chefe do Estado que o País necessita, repondo equilíbrios quando se decretam exageros, gerindo a oportunidade da palavra com a prudência exigida pelos momentos difíceis que atravessámos (e que não passaram).
Aos que provaram do poder e não se conformam com a dieta forçada, ou aos aspirantes a um lugar no palco, a postura do atual PR não pode agradar. À volta deles estão comentaristas de esquerda e de direita, analistas e cientistas, nos jornais, rádios, TV e redes sociais.
Ser contra os poderes instituídos é o que rende, mesmo que nada tenha mudado no plano da legitimidade democrática e a ação de quem está legitimado se paute por critérios de inegável ponderação e equilíbrio, como se exige aquele a quem a Constituição atribui o papel de garante das instituições. Todavia, este ruído próprio das sociedades fortemente mediatizadas, não traduz qualquer perda de legitimidade como com ironia o texto de Helena Matos inteligentemente demonstra. Nem acrescenta autoridade ou valor à palavra daqueles que, em eleições livres perderam rotundamente, mas veem o seu discurso (se demagógico tanto melhor) ampliado à exaustão. É, na verdade, o sucedâneo, para esses, de um abono de família perdido. Mas só isso...

domingo, 13 de abril de 2014

O sorteio fiscal e...outras rifas urgentes!...

O português bate recordes no totoloto e euromilhões, joga nas apostas on-line, adere aos sorteios dos bombeiros, dos cegos, da cruz-vermelha, das comissões fabriqueiras, compra rifas de que nunca saberá o resultado, entusiasma-se na lotaria instantânea. O português gosta de jogar em tudo, mas, ao que se ouve, só não gosta das rifas dos carros promovidas pelo Fisco. Melhor dito, os media dizem que não gosta, o que é coisa radicalmente diferente. Por exemplo, na RTP, dito serviço público, os jornalistas de serviço e ao serviço, certamente da verdade, nunca conseguiram encontrar um só cidadão que concorde com a rifa. Pelo contrário, pivôs, entrevistadores e entrevistados rivalizam nos argumentos mais boçalmente inteligentes contra a medida, como o custo do combustível ou da manutenção do carro, como se não fosse possível ao infeliz contemplado vender o objecto tão odiado que teve o azar de lhe calhar em sorte e assim arrecadar um bom pecúlio. E, ao que também vou ouvindo, a rifa de um carro de gama alta é considerada abominável afronta, coisa natural num país de pequenos e médios, agora até mais pequenos que médios. 
Também os senhores deputados e comentadores da esquerda muito esquerda e da esquerda menos esquerda, como da direita da esquerda não gostam da rifa fiscal. E dizem que o governo deveria era preocupar-se em acabar com a economia paralela.
Ora eu também não gosto da economia paralela. Mas é precisamente por isso que não engalinho com o sorteio. É que ele pode mesmo contribuir para mitigar tal economia.
Pois o que eu estou é contra os impostos que deixaram de o ser para ser confisco. E contra o estado excessivo que tal permite, pior ainda, que a tal obriga. E, neste caso, contra o governo, que não fez o que devia fazer. Mas estou também contra aqueles que querem ainda mais estado, que obriga a mais impostos que, automaticamente, geram mais economia paralela.
Ao fim e ao cabo é do que gostam. Por isso, odeiam a rifa.Como sempre nestas coisas com o inegável apoio da comunicação social. Alguma dessa, sim, a necessitar de uma enorme rifa!...

Véspera de domingo de ramos

Sábado de manhã com sol fresco e juvenil. Ondulam os pensamentos e as recordações despertadas pelo anunciar do domingo de ramos. Penso e sonho com brincadeiras e liberdades de outros tempos em que a frescura da idade comungava com a alegria das férias e os gostos próprios da altura.
Não vejo nada, nem ramos, nem azáfama, nem alegria, nem esperança, apenas algumas pessoas de idade que se esqueceram do que já viveram. Filhos do tempo morrem aos poucos com o passar do tempo. Eu não. Fujo e viajo à procura do que fui, quando gostava e acreditava no que via e sentia. Neste dia o sol aparecia também fresco e juvenil, porque tinha a minha idade e gostava do que via e sentia. Íamos os dois numa azáfama sentida à procura de belos e frescos ramos para o dia seguinte. O meu primeiro ramo não era grande, mas era bonito, um pequeno arco cheio de folhas verdes, frescas e brilhantes, ornamentado por belas flores. Mas encontrar as flores não foi fácil, tive de as roubar, logo me avisaram do pecado em que caíra. Deixá-lo, pensei, pelo menos irei entrar com um doce e belo arco na igreja, não é que eu quisesse fazer inveja aos demais, apenas queria que Ele me visse. Disseram-me logo, roubaste as flores, estás em pecado. Deixá-lo, pensei. No dia seguinte, depois de calcorrear o longo trajeto de terra batida, acompanhado pelo meu colega de brincadeira, o sol, que nunca se fez rogado nem preocupado com os roubos que efetuei, entrei na igreja. Que odor a frescura e a verdura. Cheia de gente, até parecia que o campo se tinha deslocado para ali. Muitos ramos e arcos tapavam-me as vistas. Quando chegou a hora de benzer os ramos consegui furar com destreza e coloquei-me num local onde o meu ramo foi aspergido pela água benta, algumas gotas trespassaram-no e molharam os meus olhos. Não sei se eram lágrimas ou se eram as gotas da benzedura, o que eu sei é que fiquei tão feliz que deixei de estar preocupado com as flores que tinha roubado no dia anterior. À saída da igreja os meus amigos começaram a brincar e quase que destruíam os seus ramos, mas eu, lesto, corri pela estrada fora sozinho acompanhado do meu amigo sol. À medida que passava pela varanda, canteiro, quintal e jardim de onde tinha retirado as folhas e flores do dia anterior, lançava-as sem pudor, com alegria e amor. Algumas pessoas ficavam admiradas com o meu gesto. Já estou perdoado, pensei. Assim abençoei cada uma das pessoas a quem as tinha roubado. Cheguei a casa feliz e leve. - Estou perdoado, gritei.

Revistas cor-de-rosa

Não tenho por hábito ler as revistas cor-de-rosa, mas quando encontro uma não resisto a dar uma vista de olhos. Sinto curiosidade em ver e ler o que fazem certas "personalidades". Ao fim de meia dúzia ficamos a saber quem é realmente importante em Portugal. Sorrio, divirto-me e não posso deixar de emitir algumas opiniões. O ridículo é uma constante e a publicitação de algumas pessoas um supremo desejo, enquanto a fofoquice e a parvoíce alimentam a pobreza de muitos, que, na sua solidão e tristeza existencial, conseguem alguma compensação e vontade de imitação. Nada de especial, apenas a tradução em formato nacional do comportamento natural e popular, que é saber o que acontece aos outros, sobretudo as suas misérias. Não conheço bem a dinâmica da escolha e da entrada das "personalidades" nas ditas bíblias da coscuvilhice nacional. Mas tem de haver compensações para os autores e cronistas. Não acredito que se banqueteiem apenas com o preço da capa, mas se for tenho de os felicitar, e dar aos "criadores" os meus parabéns. 
Por vezes assusta-me e inquieta-me algumas notícias e relatos, sobretudo quando navegam pela intimidade mais central. É evidente que se não fizessem incursões na intimidade dos que se expõem não teriam o mínimo de interesse por parte da população. Ver alguém com aspeto doentio, típico de quem tem um cancro numa fase aparentemente avançada e com a chamada de atenção e descrição despudorada da realidade clínica da pessoa perturba-me e até me ofende. Não creio que seja necessário chegar a este ponto. Também me questiono até que ponto o visado aceitou e autorizou a publicação e exposição do seu estado. Não sei, o que eu sei é que há princípios éticos que mereciam ser respeitados. Não sendo, a conduta transmite-se aos demais, os leitores, que acabam por ver "legitimadas" as suas ações e omissões com a leitura deste tipo de notícias. Assim, o mundo irá continuar na mesma, mesquinho, pobre, desrespeitador de valores e de princípios que são indispensáveis ao desenvolvimento e maturidade das pessoas.
Ler certas revistas com sentido crítico é útil e importante para compreender certos comportamentos e atitudes que andam por aí. 

Em suma, o ridículo anda de braço dado com a miséria.

sábado, 12 de abril de 2014

"Topo de gama" fiscal...


Afinal os portugueses não são favoráveis ao sorteio de automóveis. Nesta sondagem, a maioria dos inquiridos respondeu que a ideia é má. Porque será?
O SE dos Assuntos Fiscais prevê arrecadar mais 600 a 800 milhões de receita fiscal. Resta saber como será gasta... 

A tentação de impor o direito de dispor

Por ironia do destino,é na altura em que se comemoram 40 anos de democracia em Portugal que se inscreve na ordem do dia a questão da obrigatoriedade do voto. Não me lembro quem é que a agendou mas o facto é que a discussão vai animada e parece até que se descobriu uma espécie de ovo de Colombo para combater a temida abstenção e contrariar os efeitos maléficos de um eventual dia de sol e praia. Ai não votam? Pois obrigue-se! E já vi até defender que se podem "converter" os votos brancos numa aritmética qualquer de modo a que no fim as contas batam todas muito certinhas. O que é mais curioso é que a polémica se instala numa altura em que todos os dias se ouve insistentemente que não há grandes opções para o futuro, a tal automatização das decisões vai de vento em popa na Europa, tudo será decidido como tiver que ser, assiste-se, entre a chacota e a estupefacção, ao falhanço de quem ousa arriscar uma tese diferente, abraçam-se os inimigos e revela-se em surdina que mais vale assim porque de outra forma vai dar ao mesmo. Mas é preciso que se vote, disso não tenho dúvidas, é preciso que se vote porque se acredita e se faz acreditar que assim se pode contribuir para alguma mudança, não é impondo a obrigação de votar que se consegue convencer as pessoas da importância das suas escolhas. Em democracia a substância conta, conta tudo, aliás, ou a Europa não teria que temer, como teme, a abstenção de uns e a militância activa dos que advogam soluções radicais. Ao mesmo tempo é desconcertante a confiança que os defensores de um Estado pouco interveniente têm na eficácia das leis intrusivas... 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O filho pródigo

Os misteriosos mercados acolheram o regresso da Grécia com a generosidade bíblica dedicada ao filho pródigo. A Grécia, essa rebelde ingovernável, trapalhona, incumpridora, várias vezes ameaçada de expulsão do clube dos trabalhadores e dos culpados redimidos, a Grécia que nem queriam deixar assumir a presidéncia da UE e que viu sair zangados os zeladores do cumprimento na última reunião de acompanhamento enfim, a Grécia que afinal ia negociar em breve um terceiro resgate, essa mesma, foi recebida em triunfo pelos mercados. Procuraram a sua dívida tão duvidosa sete, sete!vezes mais interessados do que a oferta e os juros baratos, menos que nós, o Primeiro Ministro impante não se coibiu de o assinalar. E esta,  hein?

Grécia: bem regressada ao mercado da dívida!

1. A notícia financeira de maior destaque, hoje, é certamente a do regresso da Grécia ao mercado primário da dívida pública, com uma emissão de € 3 mil milhões, ao prazo de 5 anos: esta emissão teve o melhor acolhimento pelo mercado, traduzido numa procura que terá excedido € 20 mil milhões (quase 7 vezes o montante proposto), e numa taxa média de colocação ligeiramente inferior a 5%.


2. É curiosa esta recepção calorosa dispensada à Grécia, depois de uma ausência de cerca de 3,5 anos e de dois turbulentos resgates, o segundo dos quais em Fevereiro/Março de 2012, envolvendo uma dura reestruturação da dívida pública, que impôs aos credores privados elevadas perdas (forçados a um “hair-cut” de cerca de 50%)…

3. … cumprindo recordar os prejuízos elevados de alguns bancos portugueses que tinham investido em dívida helénica na convicção de que nunca deixaria de ser paga integralmente…

4. Este acolhimento quase caloroso dos mercados deverá constituir um estímulo para que a Grécia, apesar das imensas dificuldades com que se tem deparado para implementar as necessárias reformas - designadamente eliminando excessos quase obscenos de um “Estado Social”, com benesses totalmente incomportáveis (como os 16 salários a funcionários públicos) - prossiga o programa de reformas que já lhe permite apresentar um saldo orçamental primário positivo.

5. Este estímulo poderá ser importante, numa altura em que a dívida pública grega, embora detida em mais de 80% por credores oficiais, atinge a elevada fasquia de 175% do PIB (compara a 130% para Portugal e Itália), e a economia carece ainda de reformas ao nível dos mercados de factores e de produtos que lhe facultem maior agilidade e um crescimento sustentado.

6. Por cá o “mood” é outro, prossegue a ofensiva primaveril dos 74 ou + proponentes da reestruturação, os quais ainda ontem fizeram deslocar à AR uma respeitável delegação para depositar a sua mensagem de esperança no Parlamento.

7. O exemplo da reestruturação da dívida grega, que levou as taxas de juro implícitas na cotação da dívida (yields), no prazo de 10 anos, para níveis superiores a 30%, constituirá certamente um forte estímulo para que em Portugal se dê finalmente ouvidos a esta oportuna e patriótica proposta.