sábado, 14 de maio de 2005

Ao que isto chegou...

É a Polícia que esclarece que o chefe do Governo não tem que se preocupar com as suspeitas propaladas pela comunicação social. Os casos não são, afinal, iguais!
Alguma coisa vai muito mal no reino.
Decorre uma investigação daquelas que, como se tornou hábito, está em segredo cuja quebra se continua a dizer que é crime. Envolve figuras da vida politica e partidária e fornece, com a regularidade calculada para render por muitas edições, pormenores, suspeitas, alvitres, pretensos factos, interpretações desses factos supostamente feitas por "fontes ligadas ao processo" ou por "fontes próximas da investigação". Para além de favorecimento ilegítimo de entidade privada, com o omnipresente betão, abates de sobreiros e suspeitas de financiamento partidário pelo meio, eis que surge o que também já quase todos esperavam. O contrabalanço. Ou seja, uma notícia envolvendo agora personalidades do outro lado.
A notícia picante do dia foi assim que o actual Primeiro-Ministro e um dos ministros deste Governo também estavam a ser sindicados pela polícia por terem eles autorizado o abate de sobreiros, desta feita em Setubal, quando ambos eram membros do último dos governos do Engº Guterres. Também em vésperas do fim do mandato. Também por despacho. Também por acharem que outros valores mais altos se alevantavam. E também, vejam lá!, por denuncia da Quercus - essa organização redentora, tão omnipresente quanto o betão e a PJ. Subliminarmente, dada a similitude das circunstâncias de facto e de tempo, fez-se obviamente passar a ideia que se queria fazer passar: que tal como no caso que envolve Nobre Guedes e companhia, também este caso, antigo mas activo, teria que ver com tráfico de influências e financiamento partidário.
Mas enfim, lá veio o senhor Director Nacional da PJ negar em comunicado o que o órgão de comunicação noticiara, pondo em descanso o nosso Primeiro e em relativo sossego as hostes socialistas (que apesar de tudo se devem lembrar do categórico desmentido do senhor PGR de que Carlos Cruz não era suspeito no processo Casa Pia ou que o então secretário-geral do PS não tinha, nem ao de leve, sido nele envolvido...)
Impressiona-me como podem acontecer estas coisas, a frequência com que acontecem e o facto de ninguém pensar que estes lamentáveis episódios de manipulação constante da opinião pública corróem a credibilidade de todos os poderes, incluindo a credibilidade do próprio poder mediático.
A democracia, que tem de se sustentar de doses equivalentes de liberdade e de responsabilidade, pode sobreviver incólume à impressionante regularidade com que, de forma sempre impune, são difundidas notícias que colocam sobre suspeita, lançam inquietudes, geram desconfiança e instabilidade e põem em causa a honorabilidade dos mais altos dirigentes do Estado, sem que nada aconteça quando se revela que são falsas?
Lembro-me de há uns tempos nem o Cardeal Patriarca ter escapado no enojante enredo mediático em que foram transformadas as investigações do chamado Casa Pia. Nem ele, nem o Presidente da República.
Neste caso, de duas, uma: ou alguém se serviu do órgão de comunicação social que divulgou estar o PM sob investigação, e então devem os seus responsáveis denunciar sem hesitações a ignominiosa fonte que não merece qualquer protecção (sob pena se beneficiar o infractor e esconder um criminoso). Ou então a notícia é pura invenção e não há liberdade de imprensa que resista por muito tempo a tamanha tolerância perante a irresponsabilidade e a mentira vendida a preço de jornal.
Uma nota mais.
Posso estar enganado, mas estou em crer que ao PM deve bastar o desmentido do senhor Director Nacional da PJ. Tal como no passado outros não sentiram necessidade de se afirmarem filhos de boa gente, não se condoendo e achando suficiente uma explicação policial, mais ou menos do género.
Exigir a denúncia de fontes mentirosas que se servem e manipulam jornalistas sedentos de escândalo, em nome de interesses obscuros? Credo!
Censurar os media e condenar firmemente a falsidade? Abrenúncio!
É que as represálias dos media podem doer muito. E reagir com coragem à dor das agressões mediáticas não é para todos. Vale mais suportá-la e desejar que venha distante a próxima pedrada...

1 comentário:

  1. É incrível como certas notícias são veiculadas em determinados momentos políticos. Lembro-me ainda das duas vezes que o jornal Independente noticiou falsidades durante a campanha eleitoral, a duas semanas, a primeira, a uma semana, a segunda, das eleições. Agora a notícia aparece exactamente após a confirmação de Nobre Guedes como arguido num caso de tráfico de influências. É tudo muito estranho, tendo em conta que as notícias de Paulo Pedroso e de Ferro Rodrigues relacionadas com a Casa Pia surgiam sempre em alturas em que era importante desviar atenções do Governo.
    Não quero com isto parecer algum teórico da conspiração, mas que há órgãos de Comunicação Social que parecem ter algum timing político, lá isso há.
    Abraço a todos.

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