quinta-feira, 22 de junho de 2006

“Medicamentos, académicos e políticos”….

De acordo com o ministro da saúde, o relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, na parte que diz respeito aos medicamentos, “meteu os pés pelas mãos”!
Afinal como é? Os medicamentos não sujeitos a receita médica, vendidos fora das farmácias, são ou não mais caros?
O ministro afirma que a avaliação feita pelo Observatório, e “que é constituído por três universidades, e que devia ser independente (!?) apresentou dados qualitativos em que os dados não são facultados”.
Chega ao ponto de afirmar que são falsos, que os relatórios anteriores não eram impolutos, qualifica de “bocas” as afirmações prestadas, entre outras qualificações depreciativas.
Fico confuso e incomodado com tudo isto. Em primeiro lugar pela linguagem, meio desbragada do senhor ministro que, de uma forma verdadeiramente contundente, não deixa de insultar quem fez o relatório. Será que os autores, cientistas ligados a universidades, técnica e cientificamente competentes, foram capazes de tamanho despautério? Se for verdade há que indagar, e bem, não só politicamente, mas, sobretudo a nível académico e científico, da existência de eventual fraude ou manipulação de dados, o que configura ilícito muito grave. Por outro lado, temos um ministro da saúde que é também um académico, e ainda por cima da área da economia da saúde. Quer queira quer não, tem de provar, sob o ponto de vista científico, que tem razão para a sua indignação, que manifesta de uma forma muito pouco académica.
Em que ficamos? Os técnicos e cientistas do Observatório manipularam intencionalmente os dados ou foram honestos? E o académico, transitoriamente ministro, tem toda a razão ou não passa de um ministro “esquisito” que não sabe respeitar a sua condição de universitário?

4 comentários:

  1. Caro Professor,

    Ser académico não certifica a seriedade de ninguém. Nem a competência.

    Se o ministro pensa estar correcto (eu penso que está, porque os hipermercados ainda estão a instalar as áreas de medicamentos) então que insulte à vontade que é para isso que lhe pagamos. E ainda bem que não usa a sua própria condição de académico para se solidarizar com a incompetência alheia.

    Senão, que outras condições seriam aceitáveis para outras "solidariedades"?

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  2. Caro Tonibler

    Nunca afirmei que ser-se académico é sinónimo de seriedade, até, porque as fraudes e manipulações dos dados são bem conhecidas. O problema é que a produção científica e técnica tem não só visibilidade como influencia e molda o pensar de uma multidão, originando verdadeiras reacções em cadeia das quais resultam conclusões não condizentes com a verdade.
    É preciso estar atento e denunciar todos os casos.
    Também sei que a proporção de incompetentes, vigaristas, trafulhas e outras cosias mais é uma constante em todas as profissões e classes, mas os efeitos são muito diferentes, conforme seja um economista desonesto à frente de uma grande instituição ou um canalizador que fez aldrabice lá em casa. No último caso quem se trama sou eu. No primeiro podemos ser os dois mais os outros…
    Pessoas que por definição buscam a verdade deve ser fortemente penalizadas caso sejam desonestas.
    Quanto ao facto de achar que o ministro pode “insultar” à vontade não concordo, e ainda por cima com o argumento de que lhe pagamos para isso mesmo! Se um ministro insulta ou usa uma linguagem desbragada “legitima” e convida qualquer cidadão a insultar, mesmo à borla, qualquer um. Não é por esta via que vamos evoluir.
    Lembro-me com saudade de um velho mestre que dizia: “Podemos dizer tudo o que pensamos de uma pessoa, mas é preciso saber dizer”
    Quanto à solidariedade não é o objectivo da nota. O que é preciso é saber quem fala verdade e quem mente. Tão simples como isso.

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  3. Caro Professor,

    Isto envolve vidas, concordo. Por isso parece-me inconcebível que no fim do dia possamos ter os mesmos protagonistas que tínhamos no princípio.

    Se o ministro dissesse "os relatores, ou são imbecis, ou andam a encher-se à grande!", passadas duas horas estava tudo esclarecido. Para um lado, ou para o outro. Sabe porquê? Porque enquanto a conversa anda na conversa mole de advogado, há sempre uma saída honrosa para as partes e uma abertura para que nada se esclareça. Quando as coisas são postas sem qualquer ambiguidade e de forma que toda a gente entenda, fica logo tudo esclarecido.

    Na minha lavra diz-se que a "c...da" é a melhor ferramenta de trabalho. É mesmo. Impõe a assertividade.

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  4. Sejamos pragmáticos, primeiro e falemos depois dos académicos.
    Solicite-se com carácter de urgencia uma debate/frente a frente num qq canal de Tv entre o hipermercadista Belmiro de Azevedo e a senhora sua esposa farmaceutica de casa aberta. Logo se saberá onde poisa a verdade, sem observatórios.
    Clinicamente respeitoso, ( há que salvaguardar as partes, pois as dores são minhas)
    Rui Vasco

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