segunda-feira, 5 de junho de 2006

Prós e Contras (II)

Prometi, no post divulgado em 1 do corrente, comentários adicionais sobre o tema nele tratado - que alias suscitou vivo debate, facto que registo com muito interesse.
Esses comentários vêm a propósito do que me parece ser uma estratégia equívoca do frenético marketing oficial que pretende, a todo o custo, convencer o País de que a economia está melhor, de que temos razões para estar optimistas, tudo vai correr bem, não falta quem queira investir em Portugal, as finanças públicas estão sob controlo, o desemprego está a baixar, as reformas estruturais estão em marcha, a Europa e o Mundo olham-nos com admiração, estamos no rumo certo, espera-nos um futuro risonho.
Acrescente-se a isto o estilo “ralhão” do PM, copiado por alguns Ministros, acusando de mau serviço ao País aqueles que, com objectividade e frontalidade chamam a atenção para a gravidade da nossa situação e apontam “remédios”.
Quem promove este tipo de marketing político não entenderá que isto é muito semelhante a dizer aos cidadãos que não se preocupem, que relaxem, que há dificuldades mas nós estamos a resolvê-las, amanhã acordarão com um País muito melhor?
É claro que depois vêm as análises independentes, as estatísticas sem títulos encomendados ou ajeitados, provenientes de organismos internacionais e é um balde de água fria que nos cai sobre a cabeça. Nesses momentos lá vem o marketing oficial carregar sobre os “media”, tentando convencer-nos de que essas análises estão desfocadas, desactualizadas, que não têm em conta a evolução mais recente, etc.
Chega-se ao ponto de um Ministro, já aqui citado, ter tido o arrojo de dizer que houve uma viragem tão subtil na economia portuguesa – para melhor, claro está – que nem a OCDE foi capaz de se aperceber de tal ocorrência! E essa declaração passou, na comunicação social, quase sem comentários…
Parece-me que esta estratégia vai dar mau resultado.
A procissão dos nossos problemas ainda vai no adro, faltam os capítulos mais importantes.
Porquê este afã mediático para que as pessoas não se preocupem muito e sejam optimistas que o futuro próximo vai ser melhor?
Isto faz algum sentido na complexíssima situação em que nos encontramos?
Há poucos dias, o Ministro da Saúde, a quem não se pode negar coragem para assumir medidas ou posições impopulares, confessava, publicamente, que o défice de 2005 ainda pode subir para 6,2% do PIB, se não correrem bem as experiências empresariais dos Hospitais de S. João e Sta. Maria, que receberam dotações de 290 milhões euros de capital social em 2005.
E teve a coragem de acrescentar que, a acontecer, isso seria trágico para o País.
Quer isto dizer, em termos simples, que esses 290 milhões euros não foram contabilizados na despesa de 2005 – o que seria uma “manigância”, no tempo da Drª Manuela F. Leite, agora ninguém repara – e que essa contabilização terá sido condicionalmente aceite pelo Eurostat, mas pode ainda vir a ser revista.
Se essa verba vier a ser adicionada à despesa de 2005, por entendimento do Eurostat, fará saltar o défice para os tais 6,2% depois de nos ter sido solenemente garantido que o défice é de 6% e que daqui não sai.
Mas o facto é que a declaração do Ministro passou despercebida. Os “media” deixaram-na cair quase como se de um lapso se tivesse tratado.
A pressão do frenético marketing oficial e dos “media” têm vindo a imprimir uma dose muito elevada de irrealismo ao nosso quotidiano.
A continuarmos assim, nunca mais estaremos preparados para enfrentar, com indispensável consciência colectiva, a resolução estrutural dos problemas que nos afligem e vão gradualmente empobrecendo o País.

3 comentários:

  1. Caro Dr:

    E há gente na comunicação social com pedalada para perceber do assunto a sério? Não são quase todos estagiários?

    Nunca me esqueço há anos, num debate na televisão sobre Camarate, um advogado presente, apresentou uma argumentação tal... enfim, para que fosse real tinha de haver a tansmutação medieval dos alquimistas.

    A verdade é que quando o governo e a oposição decidiram colocar Portugal no Euro, em vez de concentrarem o país nisso, dedicaram-se a coisas mais importantes: referendo da regionalização, referendo do aborto, enfim os últimos dez anos da vida política portuguesa... é de chorar e pensar a sério no tipo de pessoas que nos governou, e governa.

    Quando leio Joaquim Aguiar parece que nada mudou desde o tempo de D. Manuel I em que o rei distribuia benesses e património, só que agora já não há Brasil.

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  2. Caro Dr.

    Não caberia ao PSD, enquanto partido responsável que já passou no governo pelo mesmo que o PS está a passar (embora na altura o PEC não tivesse a flexibilidade que tem hoje) adoptar este discurso mais realista e "convidar" o PS para este terreno?
    Nas próximas eleições já não vai ser possível ter o mesmo discurso de campanha que Durão e Sócrates tiveram, não vai ser possível, após eleições, montar uma estória qualquer a justificar que não conheciam os números, que o Dr. Constâncio terá de liderar uma nova comissão..., nas próximas não vai ser possível voltar a “mentir”
    Assim, não fará sentido o PSD começar a ocupar o espaço do Dr. Medina Carreira?

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  3. Caríssima Clara Carneiro,

    Note, por favor, que eu disse "assumido medidas e posições impopulares", e não "tomado medidas..." quando me referi ao Min. Saúde.
    Não sei se, em última análise, as medidas são aplicadas ou não, ou se foram preparadas por antecessores no cargo.
    Mas repare que esta confissão do Ministro qaunto ao défice revela frontalidade, pois mais ninguém, no Governo ou fora dele, se atreveu a falar no assunto.
    Nem a oposição...
    E não excluo - acho mesmo provável - que o Ministro tenha ouvido um "ralhete" do PM por se atrever a tal confissão.
    É neste plano, pois, que qualifico a coragem do Ministro C.Campos.

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