terça-feira, 30 de janeiro de 2007

O debate público do ( 2º ) referendo sobre o aborto

Começou hoje esta campanha!
Mais uns larguíssimos milhares do nosso "parco baú financeiro" vão ser atirados ao vento, à chuva e ao frio, em cartazes, encontros, manifestações...mediatismos vários!

Não tencionava, sequer, abordar este tema no blog.
Deu-me algum impulso, hoje, o post da minha Amiga Susana: ela é jurista, eu não sou.
Estou, assim, mais liberta deste rigor da ciência jurídica!
Em contrapartida, estou mais comprometida com outra ciência que dá pelo nome de saúde pública.

Leis incumpríveis ou não cumpridas, penso eu, são um desrespeito pelo Estado.
A que o Estado deve por termo: ou tornando-as cumpríveis ou fazendo-as cumprir.
Serviços básicos de saúde pública, com os diversos componentes que a englobam, são obrigação que compete o Estado garantir.
A que o Estado tem que responder: ou tornando-os atempadamente informativos e profilácticos ou fazendo-os cumprir com regras de boa prática.

O alarido está aí, compreendo que tem de se fazer debate...pelo menos para convencer que a abstenção não pode, de novo, vencer!
Mas entristece-me que, dez anos passados, nada de realçável, nem na implementação nem nos resultados, se possa apresentar como obra ou ao menos preocupação de qualquer dos dois partidos que foram governo.
Entre os dois referendos o que mudou? Em educação para a saúde nas escolas, em planeamento familiar feito de forma sustentada e com garantias de continuidade, em apoio psicológico dirigido às adolescentes (por forma a deixarmos o 2º lugar europeu de gravidez na adolescência), em suporte sanitário formativo e informativo nos bairros das famílias mais carenciadas....

Sinto alguma culpa em tudo isto que não foi feito...estive 3 anos no Parlamento...deixo aqui este "sentimento" que me acompanha!
Penso que só o Prof. Massano me vai compreender...tanto que falámos,ambos, nestes temas.

Portanto, pelo que disse mas, sobretudo, pelo muito que não disse...estou de alma e coração com Pacheco Pereira que escreveu ( o melhor artigo que eu li ) sobre o referendo do dia 11, no Público" na passada 5ª feira e onde dizia: "...desejaria que este referendo fosse silencioso, que este debate fosse quase inaudível, que ele pudesse ser feito quase por telepatia, por gestos subtis, sem voz, nem escrita, nem imagem..."

Por isso "desliguei" ontem o "Pròs e Contras", por isso não aceitei integrar qualquer movimento, nem participar em qualquer debate, nem sequer assistir em qualquer plateia...
Estarei demitida, enquanto cidadã?
Não creio!
Só que, como Pacheco Pereira, esta questão é tão "intimamente silenciosa"...que qualquer ruído me incomoda.

10 comentários:

  1. Anónimo21:47

    Não está demitida, Dr.a Clara. A comprová-lo está este seu post sentido. E não está sozinha no sentimento que tão bem exprimiu.

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  2. Clara,
    Não está sozinha.
    O tema do aborto é extraordinariamente difícil de tratar e por isso mesmo apreciei imenso o artigo do José Pacheco Pereira.
    O silêncio não é necessariamente um sinal de apatia, de ausência, de demissão, de não exercício da cidadania. O silêncio é um direito de expressão, aliás pouco exercido e respeitado, mas valioso em muitas circunstâncias.
    O sofrimento é um estado físico e psicológico que tem uma expressão íntima e a dor que provoca fica com quem o vive.
    É sobre sofrimento, como refere Pacheco Pereira, que vamos votar. E o "aborto é sofrimento".
    Também não quis envolver-me em qualquer movimento, preferindo prosseguir o meu trabalho de voluntariado na luta contra a exclusão e a pobreza. Com a convicção de que com pequenas ajudas, todas juntas, minoramos o sofrimento de muitas pessoas.

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  3. Só que o nosso silêncio provoca o ruído de outros!
    Se a solução é desejável, não sei se será a mais eficaz...porque a ausência de participação duplica a participação da opinião contrária, seja ela qual fôr!

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  4. Cara Clara,

    A segunda vitória retumbante da abstenção irá mostrar que a importância dos assuntos existe, não se constrói. Que os problemas da sociedade surgem, não se inventam.
    Que aborto é um assunto que interessa a muita gente como interessa a capa da "Caras", porque afectar, só afecta quem aparece na fotografia.

    A abstenção, que defendo activamente, vai reduzir o problema aquilo que é. Uma discussão espúria, sobre uma questão marginal, cujo impacto será nulo na segunda-feira seguinte. Morreu uma adolescente em 2005? É a defesa de uma vida que aí vem? Tretas, tudo isto é gente desocupada!

    A abstenção é uma luta contra a triste mania portuguesa de gastar energias e recursos em coisa que não interessam para nada.

    Por isso, "demita-se", faz bem. Mostra aos outros que há quem se foque no que interessa e deixe os assuntos marginais para serem discutidos onde devem ser discutidos - na fila do supermecado!

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  5. hó estimado camarada Toni,

    Vem-me cá com lamechices de violência sobre as crianças da próxima vez que elas forem capa de jornais que eu te direi que têm tanta expressão como esta. Podes ter razão no desperdício de energias que é um referendo, e estou contigo, mas não minimizes os findamentos do acto, que tem tanta ou mais expressão que a tal violência infantil, da qual sabes tantos dados como sobre o aborto.

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  6. "findamentos"? Eu escrevi "findamentos"?!

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  7. Camarada Monteiro,

    Exactamente! Por isso, e acho que foi aqui, que defendi que notícias escabrosas de bebés violadas e coisas do género deviam ser limitadas. Expressões de miséria humana, no país onde vivemos, são casos isolados, para tratar como casos isolados, na privacidade de um caso isolado. Este referendo não acrescenta nada, como as reacções públicas de horror a esses casos nunca acrescentou nada. Pelo contrário.

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  8. Findamentos? não,fintamentos (fintar, enganar, entreter).

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  9. Não está demitida, Maria Clara, uma vez que não renuncia a ter uma opinião. A questão que nos coloca o referendo - e a que teriam os deputados, se não o houvesse - é um dilema, uma escolha entre dois valores que queremos profundamente assumir e preservar. De um lado uma nova vida, de outro uma vida assumida plenamente, incluida a escolha de ser mãe muito para além do simples acto de dar à luz um novo ser.Por isso me indignam as pessoas que invocam a "liberalização" ou a "ausência de motivos", como se se tratasse de um acto de selvajaria gratuita (quem é que disse que era como falar ao telemóvel???!)Também não concordo com a abstenção proposta por Tonibler. É verdade que não sabemos se a triste realidade dos factos se vai alterar, quer a lei mude, quer não, mas o voto de cada dá-nos uma responsabilidade acrescida por termos sido parte directa na decisão, sem o pretexto de culparmos quem decidiu por nós. E que há uma realidade que não nos deve conformar, isso há. Como mudá-la, eis a questão.Indelegável.

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