sábado, 3 de janeiro de 2009

10 anos de Euro: algum motivo para celebrar?

1. Completaram-se ontem 10 anos sobre a data em que o Euro foi implantado em 11 países da União Europeia, como moeda escritural, seguindo-se em 1 de Janeiro de 2002 a entrada em circulação das notas e moedas denominadas em Euros.
2. Volvidos 10 anos, são já 16 os países membros – aos 11 iniciais juntaram-se a Grécia em 2001 e depois Chipre, Malta e Eslovénia, já no corrente ano deu-se a entrada da Eslováquia.
3. O Euro tem feito carreira de sucesso, como divisa internacional, ganhando espaço ao USD: no seu primeiro ano de vigência, a quota das reservas internacionais denominadas em Euros era de 17% contra 71% do USD, actualmente é de 27%, a do USD baixou para 63%.
4. Sintomático da relevância que o Euro ganhou é o facto de no filme “Quantum of Slace”, Dominic Greene, crápula perseguido pelo novo James Bond, utilizar o Euro como moeda de pagamento dos seus negócios ilícitos…até há muito pouco tempo não faria sentido utilizar outra moeda que não fosse o USD…
5. Importa não esquecer que o Euro deve muito da reputação que detém ao seu antecessor Marco Alemão bem como às estritas regras de disciplina orçamental consagradas no famoso Pacto de Estabilidade e Crescimento e resultantes de forte pressão alemã com receio da tradicional indisciplina financeira dos países do sul da Europa – Itália, Espanha, Grécia e Portugal.
6. Pode pois considerar-se uma operação bem sucedida, no plano internacional, sendo mesmo provável que nos próximos anos se continue a assistir ao reforço do papel do Euro como divisa internacional face à fragilidade demonstrada pelo USD e ao especial impacto da crise no sistema financeiro americano.
7. Bem diferentes são no entanto os resultados económicos da adopção do Euro em diversos países membros, nomeadamente em Portugal
8. Curioso aliás que o décimo aniversário da implantação do Euro tenha passado quase despercebido entre nós, sem qualquer celebração oficial, contrastando com a imensa festividade e as folclóricas promessas de felicidade que assinalaram entre nós a sua implantação em 1 de Janeiro de 1999.
9. Já se terá percebido que a nossa entrada no Euro foi feita em “marcha atrás”, como já tenho dito, com clamorosos erros de política económica ? Duvido, pois se persiste ainda hoje no mesmo tipo de erros e com convicção semelhante à dos primeiros tempos!
10. Fui dos poucos aliás que nos alvores do Euro apontaram os equívocos da política económica e alertaram para os elevados custos que isso iria implicar para a economia no futuro.
11. Ninguém ou quase ninguém quis saber…até o actual Gov/BP, na sua posse em Fevereiro de 2000, “zurzia” os que chamavam a atenção para os riscos da política, dizendo que não nos tínhamos que preocupar com o endividamento externo – que falar do desequilíbrio externo no Euro era a mesma coisa que falar do desequilíbrio externo do Mississipi…
12. Hoje é o que se sabe…a nossa presença no Euro começa a constituir um fardo pesado, cada vez mais pesado à medida que se vão acumulando os erros de política e os consequentes desequilíbrios da economia…
13. Mas sair do Euro também não é opção pois representaria uma hecatombe de dimensões dificilmente imagináveis…
14. Quem diria que 10 anos mais tarde estaríamos nesta situação…algum motivo para celebrar?

9 comentários:

  1. Esse passo do discurso de posse do ilustre governador impressionou-me tanto (e eu não sou economista...)que, ao longo destes 10 anos, o tenho recordado amiúde, Tanto que até lhe digo, corrigindo o T.M., que ele referiu o Estado do Michigan. Mais: o episódio é, no meu modo de ver as coisas, um bom indicador de como andamos governados de há uns bons anos a esta parte!
    Dizia Keynes, com a imodéstia de que era acusado, que a um bom economista se devem exigir as mesmas qualidades que se esperam dum dentista...

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  2. Mas o governador do BoP tinha razão quanto ao Mississipi (por acaso tb acho que foi o Mississipi, mas deve ter sido um deles, que não acredito que ele saiba dois...). Os portugueses é que não perceberam aquilo que isso queria dizer.

    Eu acho que devemos celebrar porque acho que estamos a cumprir o nosso destino de espertalhões. Para quem pensa que viver acima das posses, parasitar o trabalho dos outros e a enganá-los, é moralmente condenável, certamente que a nossa situação parece desesperada. Mas, se nós tivessemos alguma moral, não escolhíamos os nossos governantes como escolhemos, eles mesmo "primus inter pares". Portanto o nosso caminho é um caminho de sucesso. Vamos endividar-nos até ao ponto que não poderemos pagar, aldrabando as contas públicas de forma que os EUROSTAT's da vida nunca nos apanharão. Nessa altura passaremos a ser um problema global, um subprime e uma moratória russa juntos, que alguém vai ter que resolver. Esse alguém não seremos nós porque não teremos dinheiro para isso. E, assim, vai surgir um qualquer plano que nos vai safar pela injecção de mais uma carrada de euros.

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  3. Caro Prof,

    E o que me diz de adoptarmos o padrão ouro, como recomendam os austíacos?

    Cump,
    MA

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  4. Caro Tavares Moreira,

    Como dizia Fátima Campos Ferreira a Medina Carreira " O país não pode abrir falência." Nessa medida, vejo-me obrigado a subscrever tonibler, ou pelo menos a parte final desse comentário, acrescentando ainda que os alemães emprestar-nos-ão dinheiro, para nós o devolvermos exemplarmente em mercedes, audis e bmw's.

    Quanto ao Gov. do BdeP, depois do caso BCP, BPN e BPP, palavras para quê?

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  5. Caro José Braz Baptista,

    Tal como Tonibler, estou mesmo convencido que o exemplo utilizado pelo então novel Gov/BP, na sua premonitória declaração, foi mesmo o do Mississipi: aliás inteiramente justificado, pois o Mississipi é um dos Estados mais "mal comportados" da Federação Americana, com uma taxa de desemprego que deve andar hoje bem acima dos dois dígitose com uma multidão de dependentes de subvenções estatais...
    Quanto ao resto, ok!

    Caro Tonibler,

    Meu amigo entra em 2009 com um grau de humor (ainda que negro) de fazer inveja a muitos cidadãos...
    Seu comentário, para além da genial peça humorística que encerra, tem um senão de não levar em conta as sequelas da crise financeira: a partir de agora soluções como a que, ainda que de forma diveritida nos sugere, serão incrivelmente mais difíceis...os alemães estarão com muito menos pachorra para nos aturar...

    Caro André,

    F.C. Ferreira é incrivelmente simpática mas nestas matérias é "extremely naive"...Um país pode mesmo abrir falência, no preciso sentido técnico do termo que é ver-se impossibilitado de pagar aos credores...basta que estes não concordem com as sucessivas moratórias que lhes venham a ser propostas - há tantos casos como exemplo...

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  6. Depois de rever, tenho que emendar. F.C. Ferreira afirmou que "um país não pode fechar." ou seja, não pode dizer, abrimos falência e agora acabou.

    E que tal se o 4R desse o prémio flop do ano a nível financeiro? Eu sugiro os brilhantes M. Pinho e o Gov do BdeP... Com o aditamento ao prémio, os que demoram a perceber os evidentes sinais económicos...

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  7. -Vejo pelo menos um motivo para celebrar o Euro. O facto da política cambial não estar disponível para Constâncio, dos Santos e Sócrates. Não que sirva de grande consolo, o caro Tonibler acerta na mouche...

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  8. Caro(a) Olibertariobequirn...

    Temo que a adopção de um sistema como o do padrão-ouro nas circunstâncias das economia e do sistema financeiro internacional que conhecemos se parecesse com algumas cenas do filme "Final Exterminator"...
    Poderia ser emocionante, mas seria tb extremamente demolidor!


    Caro André,

    Interessantes sugestões...vamos pensar sobre o tema que tem inquestionáveis meritos...

    Caro Antonio de Almeida,

    Curiosa sua interpretação...não nego algum fundamento na sugestão desse motivo de celebrar o Euro...

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  9. Ao contrário dos nossos vizinhos de Espanha, nós, com a mania dos bons alunos da UE, quando tínhamos a "vaca" dos subsidios, a primeira coisa que fizemos foi regulamentar exaustivamente a vaca, normalmente em portarias e decretos opacos e encriptados, de tal forma que, ou o comum mortal não acedia ou só acedia com explicadores do sistema , normalmente fiscais do mesmo, ou seja, entretivemo-nos a complicar o sistema, e...passados estes anos, continuamos com todos os sectores produtivos nvelhecidos,um fiscal para cada contribuinte presumido sempre sujeito activo de ilicitude e sem margem de manobra em instrumentos financeiros.Soluções?Atraír investimento com politicas fiscais competitivas e contrariar a tendência generalizada actual do PM em "Chavizar"-nos a bem dos entendidos por uma minoria como necessitados ou desfavorecidos.Sejamos práticos, Dr TM.

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