domingo, 7 de junho de 2009

Inovação e bolas de gelado


Tive há dias uma animada conversa com um amigo por causa da questão da inovação, palavra que entrou no nosso vocabulário com um misto de urgência e de desespero. É que me parece que se fala de inovação como uma coisa complicada, própria de cientistas, de organizações avançadas ou de gestores preocupados com a evolução das empresas quando afinal ela está, ou deveria estar, presente nos gestos mais simples, ditada pela lei do menor esforço, esse poderoso comando da natureza. Nós, os portugueses, até nos gabamos de ser mestres na arte do improviso que, se não descambasse para a chico-espertice, até poderia dar muito bons resultados.
Vem isto a propósito de um cafezito em Mafra que reabriu todo modernaço, é agora um coma-ou-leve de produtos naturais, todo ele branco e metais e com uma empregada nova com farda. Deve ter sido um enorme investimento e o resultado à vista é excelente, sem dúvida alguma. Em primeiro plano da loja está a elegante montra de gelados, uma paleta colorida que exibe de forma artística mais de uma dúzia de sabores, de fazer crescer água na boca. Ao lado, uma coluna de vidro guarda as variedades de caixinhas de bolacha para servir os gelados. Como não resisto a um bom gelado, escolhi uma das formas antes de me decidir pelo sabor. – Essa bolacha é só se levar 2 bolas -, disse-me logo a jovem com sotaque de uma Europa distante. – Bem, disse eu, e de que tamanho são as bolas? E ela mostrou a colher enorme, a justificar o preço exorbitante afixado no cartaz. - Então e se eu pagar a caixinha à parte, já pode ser? - Não, não, disse ela apressada, essa combinação não existe.
Desisti da bolacha e pedi então um copo e uma bola com dois sabores, para provar as novidades. – Não pode ser, só pode escolher um, cada bola cada sabor, disse ela já impaciente com tanta imaginação minha.
- Então porquê?, insisti a lembrar-me logo da inovação – qual é a dificuldade de tirar um pouco de cada caixa?
- É que cada colher leva 50 gramas, disse ela, e a misturar dois sabores é difícil fazer a quantidade certa.
- Está bem, não me importo se ficar um pouco menos, eu quero é provar os dois que escolhi.
- Não pode ser, são ordens do patrão, cada colher um sabor…
Lá trouxe o gelado num copinho a desfazer-se e deitei fora metade porque me enjoei com o sabor. Não volto a comprar ali, vou continuar a ir ao café ao lado, onde não têm um espaço moderno nem cartazes com morangos e mangas coloridas mas onde posso combinar o gelado à minha vontade.
Mas vim a pensar que aquele patrão não percebeu o mais importante, quando a inovação se esgota nas aparências, o mais certo é o investimento fracassar, é como gastar no farelo e poupar no trigo…ou nos gramas de uma bolas de gelado.

4 comentários:

  1. Parece que inovação é sinónimo de formatação, de normalização, que de tão hermético, não deixa espaço à imaginação, muito menos à experiênciação... o que deixa o português fragilizado na sua arte-nata de improvisar. E quem melhor que uma mocinha com cultura de leste para garantir a aplicação dessa métrica!?
    ;))
    Quando prestei serviço militar, fui alistado em Mafra, no quartel de infantaria, onde fiz a recruta e a especialidade que foi transmissões. Acho que não podia ter tido melhor tropa. Com a vantagem que o 25 de Abril se tinha dado 5 ou 6 anos antes e a filosofia das forças armadas era idêntica à dos anteriores anos sessenta "make love, not War" associada à consequente "sex, drog's and rock'n Roll".
    As drogas nunca constituiram motivo de interesse para mim, em contra-partida os petiscos ao fim do dia na Ericeira, na foz do Lisandro, ou em Riba-Mar... nem lhe conto cara Drª Suzana.
    Mas em Mafra existiam tambem uns cantinhos muito simpáticos, lembro-me de uma "tasca" quase à esquna, em frente ao Convento, que nas traseiras tinha um pequeno pátio com um carramachão onde as cervejas, o casqueiro de Mafra e o queijinho de ovelha ou de cabra, sabiam a manjares divinos, assim como os petiscos que o dono da casa pacientemente elaborava para nós.
    Gelataria não existia nenhuma, nem mesmo no principal café da vila.
    Quando me apetecia um bom gelado, ía sempre ao PinDô junto ao Campo Pequeno, ao Santini em Cascais, ou ainda a um cafézinho no restelo, na zona comercial onde faziam umas cassatas... um dia destes vou lá passar, para confirmar se ainda existe.

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  2. Emenda:
    O Pindô não ficava perto do Campo Pequeno, mas sim, do Campo Grande.

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  3. Exmº Bartolomeu, está ligeiramente enganado. A filosofia das forças armadas pós 25 de Abril, não era idêntica "à dos anteriores anos sessenta". O "make love, not War" e "sex, drog's and rock'n Roll" foi apanágio dos anos sessenta, mas não nas forças armadas.
    Só assim se explica o "...não podia ter tido melhor tropa". Fala a experiência de quem passou por Mafra, nos anos sessenta.

    Exmª DrªSuzana Toscano, "...ou nas gramas de umas bolas de gelado".
    Nos gramas, Drª...nos gramas...
    Com muito carinho por todos
    Salvador Silva

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  4. Caro SLGS, muito obrigada, já corrigi, foi um erro de simpatia, simpaticamente apontado :)

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