segunda-feira, 24 de maio de 2010

Portugal ou exporta mais ou afunda-se na crise...

1.A frase em título foi título de 1ª página da edição de ontem do Público, que dedicou várias páginas, de leitura interessante refira-se, ao problema central que a economia nacional enfrenta: o excessivo endividamento, em especial ao exterior, que ano após ano se vai acumulando numa sucessão aparentemente indefinida...
2.Este título é todavia bastante enganador, uma vez que só tem em conta um dos pratos da balança do nosso desequilíbrio externo. Falta o outro, bem mais importante – o excesso de despesa.
3.Com efeito, quando se faz a história dos desequilíbrios da economia portuguesa, uma história com cerca de 15 anos como Medina Carreira, por exemplo, tem assinalado, facilmente se conclui que a actual situação se ficou a dever a uma explosão da despesa, tanto privada como pública, que se arrastou ao longo de vários anos e que prosseguiu até aos nossos dias.
4.E que prossegue…
5.O desequilíbrio económico crónico que agora nos está a estrangular financeiramente, tem pois como causa fundamental o excesso de despesa.
6.A despesa de correcção mais difícil é a despesa pública: os particulares começaram a “apertar o cinto” há algum tempo e vão continuar a fazê-lo nos próximos anos já se percebeu.
7.É pura ilusão pensar que o desequilíbrio das contas com o exterior se pode resolver simplesmente exportando mais – com um “clique” os exportadores desatam a vender e “safamo-nos” desta aflição.
8.Não é assim, não pode ser assim.
9.Para exportar mais, são precisas pelo menos de duas coisas (i) produzir mais bens e serviços transaccionáveis; (ii) conquistar novos mercados ou ganhar quota nos mercados tradicionais.
10.A satisfação de qualquer destas condições é muito árdua, REQUER muito trabalho, investimento, confiança no futuro - e SUPÕE uma política económica que estimule o investimento e a produção.
11.Face a este enunciado, basta olhar à nossa volta para perceber que nos próximos anos não é por aqui que o problema se vai resolver.
12.A simples análise da balança de pagamentos com o exterior (por exemplo no 1º trimestre do corrente ano, recentemente divulgado) mostra que a correcção do desequilíbrio externo é um quebra-cabeças: o défice dos rendimentos absorve na totalidade os superavits dos serviços (turismo essencialmente) e das transferências unilaterais (remessas de emigrantes).
13.Assim, o défice comercial já não tem qq compensação nestas rubricas , está completamente NU, ao contrário do que sucedia no passado.
14.É bom termos presente que enquanto não houver uma redução “a sério” e não meramente cosmética na "monstruosa" absorção de recursos dos diferentes sectores públicos – Central, Regional, Local, mais o imenso cortejo de empresas adjacentes, tudo a devorar recursos e a produzir muito pouco – o défice externo não tem solução.
15.Assim, se o País se afundar, como sugere o Público, por favor não culpem os exportadores!

20 comentários:

  1. Caro dr. Tavares Moreira,

    Lapidar.

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  2. Friamente lapidar...

    O enorme esbanjamento,
    numa espiral devoradora,
    é razão do definhamento
    de uma nação gastadora.

    O Estado terá de mudar
    depois de tantas incorrecções
    porque a crise faz engordar
    o valor das nossas inacções.

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  3. Excelente e esclarecedora análise. É pena, ou melhor, é uma verdadeira desgraça, que os meios de comunicação, mesmo os especializados em economia, não saibam ou não queiram explicar os desafios que a nossa economia enfrenta de modo tão exacto e compreensível.

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  4. Dr. Tavares Moreira
    Está claríssimo que o País não aguenta os elevados níveis de despesa pública a que se chegou e que não podemos continuar a gastar acima das nossas possibilidades.
    Mas será que a redução da despesa pública - seja reformando o Estado seja revendo o seu papel - e o ajustamento do consumo à riqueza que produzimos são suficientes para resolver o défice crónico de crescimento económico? Porque o nosso problema é falta de economia.

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  5. Em 1996, a nossa dívida líquida externa era de 9.625 milhões de euros o que correspondia a 10,4% do PIB. Em 2009, a nossa dívida líquida externa é de 182.678 milhões de euros que corresponde a 111,7% do PIB. Este aumento brutal, este descontrolo, reflecte uma total irresponsabilidade das nossas elites políticas. Nos últimos cinco anos apenas, por outro lado, a nossa dívida pública directa aumentou 54,73%, cerca de 44.480 milhões de euros. Contudo, se considerarmos o endividamento das empresas públicas não financeiras, as parcerias público privadas e as concessões, haverá que acrescentar àquele valor mais 56.280 milhões de euros.
    É o completo descalabro das contas públicas. Compreende-se assim o desnorte que têm demonstrado nestes últimos dias, Sócrates, Teixeira dos Santos e todo o governo.

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  6. Caro ruy,

    Com o desnorte dos últimos dias posso eu bem. com o da última década é que não.

    Caro Tavares Moreira,

    Essa do aumentar as exportações parece a do defesa que marca o golo na própria baliza e depois diz para os avançados "agora é só vocês marcarem na outra". Há também a versão PR da que nunca o país precisou tanto do empresários privados, imagino porque os "empresários públicos" deram no que deram. Curioso é que nem o PR nem o PM disseram "amanhã vou de autocarro..."

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  7. Anónimo09:26

    Dr. Tavares Moreira,

    Concordo em absoluto. E se me permite, respondo à Margarida Corrêa de Aguiar - a falta de economia é a consequência da sufocante presença do estado. O estado absorve os recursos que a economia precisa para se mobilizar. Mas pior que ainda, são os mecanismos inibidores da iniciativa privada que são promovidos pelas elites gastadoras. Aqui incluo os apoios ás PME, que são uma outra forma de assistencialismo. Temos de combater a raiz dos problemas e não apenas ter ganhos de eficiência.

    O problema é que uma grande maioria dos portugueses não pensa assim! ou não quer pensar. O estado existe para os proteger. Temos um bloqueio ideológico/cultural que, na conjuntura mundial, de concorrência global, sobressai a olhos vistos. De qualquer forma a sociedade mudou nos ultimos 30 anos - a geração que nasceu nos anos 60, está hoje capacitada e levar o País a outros horizontes.


    Solução 1 - desmantelar a classe política que promove a cultura do assistencialismo
    Medida 1 - diminuir os deputados para 180 (há uma petição a circular) - esta medida será sinalizadora do percurso a desenvolver, os portugueses vão perceber de imediato.

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  8. Anónimo09:26

    Dr. Tavares Moreira,

    Concordo em absoluto. E se me permite, respondo à Margarida Corrêa de Aguiar - a falta de economia é a consequência da sufocante presença do estado. O estado absorve os recursos que a economia precisa para se mobilizar. Mas pior que ainda, são os mecanismos inibidores da iniciativa privada que são promovidos pelas elites gastadoras. Aqui incluo os apoios ás PME, que são uma outra forma de assistencialismo. Temos de combater a raiz dos problemas e não apenas ter ganhos de eficiência.

    O problema é que uma grande maioria dos portugueses não pensa assim! ou não quer pensar. O estado existe para os proteger. Temos um bloqueio ideológico/cultural que, na conjuntura mundial, de concorrência global, sobressai a olhos vistos. De qualquer forma a sociedade mudou nos ultimos 30 anos - a geração que nasceu nos anos 60, está hoje capacitada e levar o País a outros horizontes.


    Solução 1 - desmantelar a classe política que promove a cultura do assistencialismo
    Medida 1 - diminuir os deputados para 180 (há uma petição a circular) - esta medida será sinalizadora do percurso a desenvolver, os portugueses vão perceber de imediato.

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  9. Caro Tavares Moreira

    O artigo do Público uma de duas, ou é um alerta e, nesse caso, peca por tardio e incompleto (como o seu post o demonstra); ou não passa de mais uma manipulação da opinião pública como, igualmente, o seu post (em parte) o demonstra.
    Como não acredito em teorias da conspiração, nem elas existem, porque a realidade acaba por demonstrar que, as acções humanas, são movidas por motivos lhanos e comezinhos.
    Vamos explicar.
    O alerta é tardio,porque devia ter sido emitido em 2000/2001 e não em 2010. Se os jornais são o 4º perderam uma oportunidade de o exercer e, com isso, legitimidade e credibilidade.
    O artigo pode ser uma manipulação porque "esqueçe" o fundamental isto é o outro lado da moeda: para exportar alguêm têm de importar...Como 75% do que nós exportamos é para a união europeia e todos, repito, todos os nossos parceiros vão por em prática políticas semelhantes ou mesmo iguais às nossas, para onde vamos exportar? Marte, Plutão ou para aqueles mercados emergentes onde, nós e os outros também tentam exportar?
    De resto, subscrevo em grau género e número o que afirma no seu post.
    Cumprimentos
    joão

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  10. Anónimo11:41

    Caro João,

    Desculpe a intromissão, se 75% são para a Europa, têm de passar a ser para outros continentes.
    O mundo não acaba na Europa. Felizmente!

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  11. Caros Eduardo F. e Freire de Andrade,

    Registo, com apreço, vossa concordância, que manifestamente reforça a simplória "tese" que sustento há anos e que jamais será ouvida, é evidente!

    Caro M. Brás,

    Como é hábito, uma imagem poética mas fiel da infeliz realidade que nos circunda!

    Cara Margarida,

    Conseguimos, finalmente, encontrar um ponto de divergência! O que não sendo fácil, não deixa de ser salutar, convenhamos...
    O nosso grande problema, tal como o vejo, não é a falta de economia - ou de produção/investimento, se quiser - mas sim um enorme excesso de despesa pouco ou nada produtiva que tem de ser sustentada pelos sectores produtivos com impostos, taxas e encargos de serviços inúteis ou simplesmente parasitários...
    É esse excesso de despesa que alimenta o défice com o exterior e não só...tb sufoca os sectores produtivos, impondo-lhes encargos que diminuem a sua capacidade competitiva...
    E agora parece estar esgotando a capacidade de financiamento do País, quem havia de dizer, depois de tantas proclamações autorizadíssimas em contrário!
    Uma comparação com o mundo agrário: os sectores públicos funcionam como imensos eucaliptais, plantados no terreno da economia, secando tudo à sua volta!

    Caro ruy,

    Só lhe faltou dizer, para concluir, que apesar do endividamento montanhoso que construímos, ele vai continuar a aumentar, ao ritmo de + ou - 10% do PIB/ano...enquanto houver dinheiro, evidente!

    Caro Tonibler,

    Essa do autocarro é de antologia...para mim, que uso regularmente o comboio e o metro, não me impressiona nada, mas para o Corpo de Elite que nos dirige, meu Caro, isso é duma crueldade sem limites!

    Caro Agitador,

    Soluções radicais mas bem necessárias as que aponta!

    Caro João,
    Com habitualmente, um comentário bem pensado, um olhar pelos nosso problemas com profundidade e sabedoria.
    Registo tb com apreço sua concordância com a tese simplória que defendo!

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  12. Anónimo13:38

    Caro Tavares Moreira, obrigado por mais este post e explicação. Como sabe sou extremamente céptico quando a serem tomadas que efectivamente estimulem o investimento produtivo e, aliás, as medidas tomadas recentemente parecem-me ir no sentido exactamente oposto, ou seja, reparar as contas do Estado sem estimular o investimento.

    Ora, tudo isto vem-me deixando uma pergunta à qual não sei responder e por isso recorro a si. Num cenário hipotético de corte total do crédito, ou seja, recusa de empréstimos à Républica, o que aconteceria? Quais os efeitos práticos e palpaveis imediatos no país, num horizonte de até 3 meses e quais os efeitos no médio prazo, num horizonte de 3-12 meses?

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  13. Caro Tavares Moreira

    Só em Portugal a simplicidade é mal considerada. Cada vez mais desconfio das teses "elaboradas" que por aí abundam.

    Cumprimentos
    joão

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  14. Caro Agitador

    Há mais mundo, mas isso não significa que esteja ao alcançe das nossas exportações.
    Como escreve o Dr Tavares Moreira, exportar exige muito trabalho, investimento e paciência.
    Por outro lado, mercados com dimensão, com expectativas de crescimento e onde as nossas empresas possam concorrer, não são muitos e todos tentam lá vender.
    No ambiente actual, as circunstâncias são muito piores dó que há dez anos, quando devíamos ter "despertado" para o problema, agora, como no resto, vamos correr atrás do prejuízo...
    Por isso, não é um problema de querer, mas de poder.....
    Cumprimentos
    joão

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  15. Dr. Tavares Moreira
    Ainda não é desta que discordamos. Não tenho quaisquer dúvidas sobre a excessiva despesa pública e o atrofiamento que provoca ao desenvolvimento económico.
    A questão que coloco é a de saber se a redução da despesa pública é suficiente - sendo certo que é uma condição necessária - para passarmos a ter uma economia competitiva. Gostava de ter a sua opinião.

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  16. Caro Zuricher,

    Deixe-me dizer-lhe que o cenário de puro e simples corte do crédito à República me parece algo distante, nas condições actuais, nomeadamente depois de a zona Euro ter adoptado um conjunto de disposições para apoiar - condicionalmente, é certo - países membros em dificuldades financeiras.
    Mas bastará uma situação de contingentamento do crédito para nos deixar em grande aperto e ter consequências muito penalizantes da economia.
    Disseram-me hoje que há bancos a oferecer "spreads" de 5% no crédito à habitação...no crédito a empresas já se fala dese nível há algum tempo, para além da maior escassez reflectida num aperto dos critérios de concessão.
    Os efeitos deste encarecimento do crédito são, entre outros: desincentivo forte ao investimento, crescente número de empresas em stress financeiro, aumento dos despedimentos...

    Cara Margarida,

    Basta que a redução na absorção de recursos pelos sectores públicos seja condição necessária para que a não possamos dispensar, Margarida...
    Se é suficiente, não podemos afirma-lo categoricamente mas se por exemplo da redução da despesa resultar, logo a seguir, uma redução da carga fiscal, se o crédito ficar mais acessível e menos oneroso...as empresas começarão a ter um incentivo para produzir mais e naturalmente que o racio exportações/importações tenderá a melhorar.
    Mas atenção que não se pode neste caso esperar resultados espectaculares, em um ou dois anos, como sucedia quando tínhamos o poder de ajustar o valor externo da moeda...esses tempos já lá vão!
    Agora será tudo sempre mais lento e mais difícil.
    É a vida, cara Amiga...

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  17. Percebe-se então, Sr. Dr. Tavares Moreira, que a causa maior do desequilíbrio económico que se vive, está no facto de “os particulares” terem enveredado pela solução de “apertar o cinto”.
    Se esta medida reflexiva não se verificasse, o que estaria a acontecer?
    Obviamente, “os particulares” continuariam a gastar e por conseguinte a gerar receita proveniente de impostos, que o nosso magnânimo governo utilizaria para aumentar a despesa pública.
    Ora assim, continuando “os particulares” a “apertar o cinto” e a EU a espartilhar as remessas de ajudas, vê-se o nosso magnânimo Governo, na contingência de declarar falência. O que, atirará com milhares de portugueses para o desemprego.
    É certo também, que ao acontecer essa “inevitabilidade”, iremos ter a grata notícia de que a despesa pública, foi finalmente reduzida.
    Não fui, não sou e, não virei a ser gestor ou administrador público, ou privado, faltam-me os “skills” mas, se fosse, estaria neste momento da minha vida a viver uma fase, provavelmente mais angustiante e imprevisível. Se eventualmente fosse dono de uma empresa herdada, de uma empresa que o meu avô, ou o meu pai tivessem erguido, fruto do seu trabalho, do seu empreendedorismo, do seu esforço e capacidades, estaria agora a viver uma fase terrivelmente desmoralizadora. Apesar do reconhecimento da crise geral, responsabilizar-me-ia pela inoperância e pela estagnação do negócio, pela situação precária dos funcionários da minha empresa, pelo futuro, pelo presente e pelo passado.

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  18. Caro Barolomeu,

    Se os particulares não tivessem começado a apertar o cinto - forçados pelas circunstâncias, é evidente - o desequilíbrio económico (a diferença negativa entre o que produzimos e o que consumimos, esencialmente) seria ainda maior...
    Sucede que quem não consegue apertar o cinto, até parecendo capaz de o desapertar ainda mais - vidé o caso ontem notícia da criação de mais uma empresa pública, para "derreter" mais alguns milhões - é o sector público.
    Ou, se quiser, os múltiplos sectores públicos que cresceram e floresceram nos últimos anos (15 ou mais anos...)!

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  19. Apreciei sobremaneira, o eufemismo que o Sr. Dr. Tavares Moreira emprega neste comentário; referindo-se ao sectores públicos que "florescem". Maravilhoso e... perfumado, a condizer com este país harmonioso e soalheiro.
    ;)

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  20. Exacto, caro Bartolomeu, o fenómeno de desenvolvimento dos sectores públicos em Portugal - o central, o regional e o local, como os seus milhares de excrecências, empresariais ou pseudo-empresariais - pode com muita vantagem ser analisado com recurso a conceitos de botânica...
    O florescimento, que ocorre na dinâmica do desenvolvimento da planta, é um deles: pode oferecer-nos ricos momentos de inspiração neste tortuoso espaço de análise da crise financeira portuguesa!
    Em última análise o florescimento dos sectores públicos deu origem a outro florescimento, o das dívidas!
    São espécies gémeas!

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