terça-feira, 18 de maio de 2010

Recuperação de serões

Há dias cheguei a casa e reparei logo que a fada do lar que se ocupa das limpezas cá em casa tinha decidido dar uma grande volta nas estantes e recolher os livros pelos vários cantos onde vão encontrando espaço, na fila para serem lidos. O resultado era caótico, de repente pareceu-me que nunca mais iria encontrar nenhum livro que me apetecesse ler porque realmente não havia um único que se tivesse mantido no seu sítio adquirido.
Primeiro fiquei furiosa comigo mesma por me ter esquecido de recomendar que os livros vão-se tirando, limpando e voltam ao sítio, nunca me passou pela cabeça que ela se lembrasse de esvaziar as prateleiras todas de uma vez e depois os arrumasse ao calhas. Depois, já disposta a gastar umas longas horas a recuperar a memória da estante, comecei a olhar para ver por onde começar. Reparei logo num livro que tinha comprado há meses e que não cheguei a ler, depois outro de que já nem me lembrava que tinha, depois vários que tinha tanto interesse em ler mas que afinal ficaram no meio dos outros…Ao fim de pouco tempo já tinha um montinho de livros a rirem-se para mim, a fazer troça de eu nem me lembrar que os tinha comprado muito entusiasmada e que depois foram esperando um dia e outro e outro, sempre qualquer coisa a adiar o sossego e o prazer de mergulhar num bom momento de leitura.
Dantes, há uns bons anos atrás, ficava escandalizada com as pessoas que compravam livros e não os liam logo de seguida, não conseguia compreender como é que era possível resistir, se não iam ler para que é que os compravam, mas a verdade é que entre a televisão, as notícias, os jornais, os telefonemas ao serão e a quantidade de coisas que sobram para o fim de semana, some-se aquele tempo de qualidade que nos permite pegar num livro, começar a ler, continuar no dia seguinte e só largar quando se chega ao fim. Tudo visto, a maior parte do tempo livre que se gasta é bastante inútil e desinteressante, ver telejornais em várias versões, ouvir debates estéreis entre as mesmas pessoas, conversar ao telefone sobre quem disse o quê nesses debates ou nessas notícias, enfim, muito tempo e pouco proveito.
De modo que a zelosa desarrumação da minha estante obrigou-me a uma severa atitude crítica em relação à televisão, agora vejo no jornal o que me interessa e só ligo para ver exactamente o que pretendo. Foi abolido o zapping tão irritante e tenho-me poupado às sucessivas dissertações sobre a crise, as causas agora evidentes da mesma e às novas ondas de certezas que o mundo de repente descobriu para lhe por termo. E estou a ler um livro fantástico, “A Ponte sobre o Drina”, de Ivo Andric, que recomendo vivamente que procurem, não vá dar-se o caso de estar esquecido na estante lá de casa à espera que acabem os Prós e Contras…

10 comentários:

  1. Já tomei nota! Há sempre uma razão por que as fadas fazem o que fazem! : )

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  2. Diziam-me quando era pequeno, que a verdade deve ser dita, acima de tudo. Das poucas vezes que frequentei a igreja, recordo-me de um momento na liturgia em que o sacerdote convida os fieis a pensar nas acções menos boas que praticou e a arrepender-se delas, batendo 3 vezes no peito, em simultâneo e mormurando: mea culpa, mea culpa, mea tan grande culpa.
    Está confessada e absolvida a sua culpa, Drª. Suzana Toscano.
    Agora, e como sempre após cada acto de contrição, nova luz resnasce e ilumina o espírito, oferecendo-nos a oportunidade da regeneração.
    Mais ou menos como um portal transdimensional que após transposto nos mostra um mundo novo.
    Bom, espero que não leve a mal a brincadeira.
    A minha relação com os livros também não é a "convencional".
    A maioria deles, depois de comprados, andam por ali a saltitar por sobre as mesinhas da sala de estar, para grande arrelia da minha mulher. Depois, chega um dia em que é o próprio livro que me comunica (telepáticamente) estar pronto para ser lido. É nessa altura que a tal trans+posição se inicia.
    Mas e ainda, considero os livros como as pessoas, talvez porque a maioria tenha pessoas dentro. Quantas pessoas que conhecemos, colocamos na prateleira, não porque não gostemos delas, mas porque outros pequenos nadas vão sistemáticamente adiando o contacto com elas e depois, chega o dia em que sentimos um apelo forte, de lhes escrever, telefonar, ou até visitar...?!
    No entanto, sentimos o conforto de as saber ali aconchegadinhas na prteleira, sempre à vista do nosso carinho.
    ;)

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  3. Catarina, temos sempre que ver o lado positivo das coisas. Pelo menos não tive que limpar o pó aos livros quando os arrumei outra vez :)
    Caro bartolomeu, se a culpa era a da desarrumação dos livros receio bem que não tenha emenda, embora com a crise a compra de novos alimentos da estante vá ficar muito condicionada, lá terei que reler os antigos e vou ter muitas surpresas, se calhar o mundo não mudou assim tanto (salvo nas três últimas semanas, conforme garantiu hoje o Primeiro Ministro). Mas vejo que compreende o caos criativo no que se refere aos livros, é que se estiverem por ali perto sentimo-nos mais acompanhados :)

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  4. Suzana
    Há livros que merecem ser lidos mais do que uma vez. O problema é que uma vez colocados nas prateleiras e havendo novos livros para ler ficam esquecidos. É interessante verificar que um livro pode fornecer leituras diferentes em função da idade, das circunstâncias da vida ou da evolução da sociedade em que nos inserimos. As experiências que acumulamos permitem um olhar diferente sobre o mesmo livro em momentos diferentes.
    Tenho estado a fazer umas remodelações na minha casa e a livreira do escritório teve que ser esvaziada. O que foi mais engraçado foi que ao colocar os livros de novo na livreira, trabalho que ainda não acabei, fui seleccionando um a um os livros que devem ficar e aqueles que quero voltar a ler.

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  5. Tem toda a razão, cara Margarida.
    Os livros – estes amigos que temos para toda a vida – na sua diversidade e riqueza de ideias, conceitos, desejos e sonhos, acompanham-nos nas mais diversas fases da nossa vida. Sem dúvida a sociedade em que estamos inseridos modela, inegavelmente, os nossos gostos, as nossas preferências. Estes “amigos” estão sempre disponíveis para nos proporcionar consolo, encorajamento, momentos de reflexão ou simplesmente horas recreativas de que tanto necessitamos por vezes. Alguns podem ser lidos várias vezes, é verdade... outros tiveram a sua época.

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  6. O blogue está-se a diversificar: agora tem uma secção de histórias de horror, ainda por cima verídicas. Se a minha fada do lar (a sua, minha Senhora, só por um excesso de caridade cristã pode ser assim designada) me fizesse uma tamanha maldade, receio bem que alimentasse os tablóides do dia seguinte com uma história de faca e alguidar passada no Berço da Nação: um cidadão discreto, pacato e de meia-idade, havia, com requintes de crueldade e num acesso de loucura homicida, agredido selvàticamente uma moça trabalhadeira da área dos serviços domésticos. A moça encontrar-se-ia no hospital em vias de recuperação e o agressor internado na ala de segurança do Hospital do Conde de Ferreira, ao Porto, com prognóstico reservado.

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  7. Caro JMG, temos que diversigficar as histórias de horros, não pode ser tudo sobre economia local;) Cá em casa foi sorte ter sido eu a primeira a descobrir, assim tive tempo de explicar as vantagens da iniciativa antes de perder a minha fada do lar, a quem perdoo tudo desde que a casa esteja limpa. Afinal foi só um excesso de boa vontade :)Mas como retaliação estou eu a arrumar tudo sozinha, a tentar repor tudo como estava.

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  8. Margarida, a verdade é que ter tudo em ordem permanente dá nisso, esquecemo-nos das coisas e dos livros que ficam lá muito caladinhos. Um pouco de caos de vez em quando pode ser renovador :)

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  9. Um delicioso caos que pode ser convidativo a momentos muito prazeirosos, não é cara Suzana e Margarida?!

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  10. Modela? – no meu comentário lá em cima. Acho que deveria ser “molda”.

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