terça-feira, 22 de junho de 2010

A caça aos "ricos" circula na net...

Circulam pela net cada vez mais mails indignados com o que ganham uns e outros dos cidadãos cá do burgo. Passados os escândalos que realmente mereceriam o tom escandalizado, passa-se agora à descoberta dos que simplesmente ganham acima da média, ou da mediania. Começa com um cabeçalho onde os autores manifestam o seu apurado sentido de justiça, bramando contra os escândalos de tão alargado leque salarial nacional e seguem-se as listas com os nomes dos “privilegiados”, respectivos postos de trabalho, cargos e visibilidade pública e, claro, tudo o que recebem, até ao tostão. É claro que os alvos preferidos são os políticos de toda a escala de responsabilidade, sejam bons ou sejam maus no exercício desses cargos, mas já vi um ou outro que expõe os salários de gestores, directores ou funcionários de empresas públicas ou privadas a que tenham tido acesso. Esta devassa espalha-se como um veneno, suscita invejas, assomos de raiva, finalmente propostas justiceiras de como meter isto tudo na ordem, arrasando com a escala até que tudo fique igualzinho e ordenado, numa tabela simples de não permita quaisquer ambições e que saia limpa de comparações. Escusado será dizer que não há uma palavra para ponderar as responsabilidades de cada um, ou o custo de algumas opções de vida, nem sequer o tempo e o esforço que muitos terão tido que fazer para chegar a tais níveis salariais. Isso interessa pouco, agora abriu a caça às bruxas aos que pensaram ser legítimo lutar por ganhar mais dentro da carreira ou da profissão que escolheram e que tiveram a sorte de ter êxito.
O que é interessante verificar é que ainda há bem pouco tempo, menos de meia dúzia de anos e uma crise atrás, o que era bonito e aplaudido era precisamente o êxito financeiro, o direito a subir na carreira, o mérito, o impulso da vitória. E a mentalidade abria-se um pouco, disposta a reconhecer que quem merece tem que ser reconhecido, que a perspectiva era a de viver melhor, cada vez melhor, com esforço e trabalho, com certeza, mas que havia o direito de ir subindo no patamar.
Agora, de repente, aponta-se a dedo quem tem um carro melhor, quem tem uma casa boa, quem tem os filhos a estudar nos colégios, quem tem uma velhice confortável, olha-se com rancor o vizinho, os amigos e o próximo, agora há o direito de entrar pela vida dos outros e devassá-la com o à vontade mesquinho de quem se entretém a demolir o que outros conseguiram conquistar.
Há muita gente que ganha bem e que merece bem o que ganha, precisamos cada vez mais de quem queira e saiba desempenhar com competência cargos e profissões exigentes e que devem ser bem pagas. Se deixarmos crescer este espírito “contra” o que se entende que são os “ricos”, escusamos de lamentar a saída dos que têm ambição, dos que não têm medo de se distinguir e dos que trabalham com orgulho e mérito, a lutar por uma vida de desafogo bem merecido.
Confundir tudo é perder tudo, parem lá de fazer circular mails mesquinhos.

10 comentários:

  1. Cara Suzana

    "Há muita gente que ganha bem e que merece bem o que ganha, precisamos cada vez mais de quem queira e saiba desempenhar com competência cargos e profissões exigentes e que devem ser bem pagas."

    Considerando que é verdade e estaremos de acordo com o que acima transcrevi, é pertinente também encontrar uma resposta e uma justificação plausível para a seguinte questão:

    -Será que, havendo muito mais gente que ganha mal, trabalhadores não tão qualificados como os referidos acima, (mas nem por isso prescindíveis, nem eles nem as suas tarefas), e que igualmente executam bem o seu trabalho apesar de mais modesto, será que esses salários de miséria que lhes são pagos também serão proporcionais ao seu esforço? Será que merecem ganhar tão mal?

    Pois se agora a questão se coloca com mais premência e começa a haver uma "caça ás bruxas", é porque estamos a atingir o que se chama de descalabro!

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  2. Tem razão. Começaram ou melhor continuam os exageros; vem à superfície a mediocridade que, embora esporadicamente oculta, acaba por se mostrar sem pejo em circunstâncias mais ou menos inesperadas. Suponho que, por falta de conhecimento, todos são medidos pela mesma bitola: OS que se empenharam, se dedicaram ao seu trabalho e que por estarem no lugar certo e à hora certa – que se traduz por sorte - conseguiram ser bem sucedidos, alheios aos meios corruptos utilizados por outros e OS que de forma escura e duvidosa chegaram aos píncaros da fortuna; e, finalmente, ainda há AQUELES que são bafejados por benesses, por bónus insultuosamente exagerados e desprovidos de verdadeiro mérito. Porque os há. E são esses que sem vergonha e alheios às dificuldades de muitos, exibem a sua riqueza, o seu pedantismo, a sua superioridade esotérica (a meu ver) e ridícula.
    Sim, há os que pouco ou nada fazem, há os que recebem o subsídio de desemprego que, por aquilo que leio, é superior ao vencimento mínimo!!!! É de levantar aos mãos aos céus. Não admira pois que não queiram trabalhar para aquecer. Esses não têm razão para criticar e muito menos vasculhar a vida de ninguém.
    Há aqueles que trabalham seriamente, dedicados às funções que lhes incumbiram ou que escolheram livremente, tem um vencimento de que não se queixam, tem família para sustentar, uma casa para pagar, etc etc. e de repente... perdem o seu sustento... Que fazer nesta fase difícil por que o país atravessa? E os reformados após anos de empenho, de dedicação? Que tipo de reforma podem usufruir? Não estamos a falar de meia dúzia de anos numa empresa ao fim dos quais recebem um balúrdio de pensão! Falamos de 30 e 40 anos no activo. Falamos de pensões irrisórias!
    Não é de estranhar que se sintam malogrados, traídos.
    Como se costuma dizer, há sempre uma maçã podre no meio de um cesto cheio de maçãs que tende a contaminar as outras ou então há sempre uma ovelha negra no rebanho. Tanto faz. O que quero dizer é que a riqueza começa a estar muito mal distribuída, as lacunas sociais e económicas estão a alargar-se a olhos vistos.
    Mas como disse no início – ou tentei dizer – é que, como a cara Suzana diz, há aqueles que merecem verdadeiramente tudo aquilo que recebem porque trabalharam por isso e para isso. Infelizmente não são reconhecidos por uns tantos...

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  3. Subscrevo o que a Fénix escreveu. Por inteiro.

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  4. Anónimo11:59

    Suzana escreveu:
    "É claro que os alvos preferidos são os políticos de toda a escala de responsabilidade, sejam bons ou sejam maus no exercício desses cargos".
    É factual.
    Mas convém não esquecer que parte desta onda resulta da competição que alguns políticos fazem entre si para ocuparem a agenda mediática por um lado, e, por outro, capitalizarem com a demagogia que o tema sempre torna fácil, mais ainda em tempos de desesperança.
    Não há muito, nos finais da década de 90/princípios do século, o CDS/PP fomentou uma impressiva campanha deste tipo em suposta homenagem à moralização necessária da vida pública, em que os princípais visados eram os políticos. Fez as suas vítimas, mas também deu os seus resultados que beneficiaram quem alimentou a campanha.
    Hoje o CDS tem larga companhia, desde a extrema esquerda.

    Sempre direi, porém, que seria bom que a solução da crise passasse pelos cheques dos ricos! Significaria que eramos um país de ricos. Mas esse é um dos grandes equívocos que a sociedade em geral não tem como tal. Somos um País onde há ricos, certamente. Mas para nossa infelicidade somos na realidade um País de remediados tudo fazendo para assim permanecerem e de pobres, todos vivendo na na ilusão de que o pote está cheio, mas nas mãos de uns tantos. Não há pote, quanto mais um conteúdo reluzente! Já o hipotecaram por muitas emuitas gerações...

    Temo bem, Suzana, que esta caça às bruxas e bruxos ricos tenda a continuar. É afinal a válvula de escape para a desilusão de muitos e o abono de família para a maioria dos demagogos numa terra em que a inveja pega de estaca.

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  5. Cara Fenix, espero que tudo esteja a correr pelo melhor consigo. Quanto ao seu comentário, tem toda a razão quando diz que todo o trabalho deveria ser remunerado de acordo com o esforço e o contributo para a riqueza, a um nível digno e justo. Uma vez ouvi um emigrante que trabalhava em Espanha na construção civil e que perdeu o emprego e voltou para cá. Perguntaram-lhe se queria ficar na sua terra natal, no norte do País e ele disse que não porque o salário que lhe ofereciam era "trabalhar para aquecer", não levava para casa o resultado justo do que teria que produzir. Mas o facto de se tirar "aos ricos", a eito, não significa, nem nunca significou, que esse dinheiro se redistribua para salários justos dos que estão a ser explorados. Não falo de abusos nem de escândalos difícies de explicar, falo de um sentimento generalizado que se vira contra os que recebem salários altos porque é nesse nível que estão classificadas as suas funções. Escolher pessoas erradas para os lugares só para ganharem benesses é imoral, mas não significa que o posto em si não mereça estar valorizado, quem lá está é que não devia estar, mas essa é uma avaliação completamente diferente.
    Cara Catarina, concordo completamente com o que diz, disitinguiu bem as situações a que queria referir-me. E tenho muitas dúvidas que, sobrecarregando e vilipendiando os que têm dinheiro para criar empregos ou para ajudar as pessoas da sua família que ficaram sem nada ou que precisam de ajuda, se consiga um resultado muito melhor, pelo contrário, cada vez haverá menos empregadores e menos famílias capazes de acolher os que necessitam. Os reformados, que contavam com as suas poupanças para viver uma velhice tranquila, estão cada vez mais a depender dos filhos e as famílias são cada vez mais desagregadas, a solidão e o abandono são um drama de grandes proporções. Se ficarem todos mal, quem lhes acode?
    Caro José Mário, subscrwevo inteiramente, também receio esta onda justiceira e demagógica, que tira o pote das mãos de todos para o mostrar afinal completamente vazio.

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  6. Meu pai conta-me que no auge da revolução do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho visitara a Suécia e perguntado aí sobre que projecto tinha o poder militar para Portugal, Otelo terá dito: "acabar com os ricos". Ter-lhe-á ripostado o Governo sueco: "Tem graça, aqui o nosso desígnio é justamente acabar com os pobres".
    Dito isto: a riqueza, herdada ou bem conseguida não deve ser objecto de inveja. Este terrível sentimento (um pecado mortal) será porventura o maior defeito do homem, em especial do homem português (Luis de Camões bem o expressou)!
    Coisa distinta é o que por aqui também abunda, isto é, a enorme desigualdade que caracteriza cada vez mais a sociedade portuguesa.
    Neste sentido, não vejo qualquer inconveniente em que se conheçam os salários e mordomias que grassam em Portugal. "Não é caçar bruxas". É sensibilizar os portugueses de que há muito dinheiro imerecido nas mãos de uns tantos.
    Aliás, os países nórdicos publicitam anualmente os rendimentos de todos os cidadãos. Fosse alguém lembrar-se disso em Portugal! Suécia, Noruega e Dinamarca, grandes países? Sim, mas...longe da nossa vista!

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  7. Cara Suzana,

    Venho de novo a este espaço, para lhe agradecer o interesse demonstrado, e informar que me encontro bem, cumprindo todas as etapas requeridas para a cura (ou não)…mas isso só daqui a uns tempos se saberá!

    Gostaria no entanto de partilhar com todos (os da casa, e os que por aqui vão aparecendo), que esta doença tem um factor muito positivo, independentemente do seu desfecho… é que nos coloca no nosso devido lugar, ou seja, coloca-nos diante da n/ finitude enquanto “carcaça” humana e põe-nos a olhar mais para dentro, para aquilo que está para além do “material”. Faz-nos olhar para o mundo de uma forma mais suave, sem grandes apegos, tal como o viajante que olhando através da janela do s/ meio de transporte (que está sempre em movimento, nunca pára), vai absorvendo a paisagem, com agrado e êxtase quando é bela, e com desagrado e por vezes tristeza quando é feia e triste!

    E, pegando naquele excerto do post “…que a perspectiva era a de viver melhor, cada vez melhor, com esforço e trabalho, com certeza, mas que havia o direito de ir subindo no patamar…”, posso garantir, que esses patamares perdem o sentido, apenas queremos viver com dignidade humana, no seu sentido mais lato, e essa sim, é que nos vai elevar a “outros” patamares!

    Abraço
    da Fenix

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  8. Cara Suzana,

    Embora não possa deixar de lhe dar razão, gostaria de observar que o comportamento que (muito bem) questiona é típico de uma sociedade em decadência.
    Infelizmente, Portugal é hoje uma sociedade em decadência muito marcada e tenho a suspeita que comportamentos desses tenderão a acentuar-se e a alastrar minando cada vez mais o tecido social.
    E concorrendo, como factor autónomo, para o próprio processo de decadência...
    Quero com isto dizer tb que entre estes fenómenos e o processo de decadência existe uma relação biunívoca de causa-efeito.

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  9. Suzana
    Estou muito de acordo com o Dr. Tavares Moreira.
    Este tipo de “ataques” mostra bem a mediocridade da sociedade em que vivemos, fruto de muita ignorância mas também de muita inveja.
    A pobreza e as desigualdades sociais são problemas que merecem respeito. O trabalho, o mérito e o esforço são valores há muito desvalorizados. É fácil a sua manipulação quando as pessoas andam à procura de "bodes expiatórios" para explicar as suas amarguras. E quanto mais fragilizado e doente estiver o tecido social, mais fértil será o campo da demagogia.

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  10. Cara
    Suzana,
    Caros comentadores, será essa aparente inveja apenas fruto natural que quem ambiciona aquilo que os outros tem, ou será antes uma reacção de frustração por terem acreditado numa promessa que lhes foi feita por este pseudo regime democrático???
    É ou não verdade, que se acusou o anterior regime de déspota, fascista e explorador do povo português???
    É ou não verdade, que foi prometido corrigir essa situação e que todos teríam direito a uma remuneração e a uma vida digna???
    Será essa a realidade???
    Parece-me que não, então, assim sendo, qual a admiração por começarem a aparecer reacções de descontentamento???
    O que me parece completamente errado é que se tenha tentado impingir o antigo regime como um sistema apenas cheio de defeitos e o novo regime como um poço de virtudes, afinal, parece que não é bem assim, daí, não me parecer de estranhar, que comecem a aparecer esse tipo de "demagogias", que na maior das vezes, tem mais um alcance político do que outra coisa, e nada mais fácil do que capitalizar as frustações do público em geral para potenciar esses ataques.
    Tivesse havido mais seriedade e mais dignidade na governação do país, evitando certos abusos e oportunismos e outro galo cantaria, assim...
    Cumprimentos.

    LUSITANO

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