sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O ataque das cochonilhas


Há muito tempo que a planta vinha dando sinais de precisar de uma intervenção radical e o seu definhar indicava que não era possível mantê-la naquele vaso onde as raízes tinham crescido tanto que a terra já não chegava para a manter. Decidi-me, pois, a reestruturar a trepadeira e a tentar uma reforma profunda que lhe permitisse voltar a brotar as lindas flores cor de rosa. Intervenção trabalhosa e que exigiu muita coragem e determinação, por várias vezes a planta ameaçou partir-se, outras tantas hesitei nos troncos a podar, mas uma, a mais difícil, foi tirá-la do vaso que a asfixiava e cortar as raízes já podres, deixando livres os fiozitos que tinham possibilidade de crescer. Por fim, vaso largo, terra nova e enriquecida, guias direitas e sólidas, dinheiro fresco e rumo definido, a bem dizer, se quisermos ir buscar algumas lições à economia.
A planta recuperou um pouco até que uns dias depois as folhinhas ainda tenras começaram a enrugar. Nem rega nem adubo nem cuidados, nada as melhorava, tudo parecia um desperdício e começaram a amarelecer levemente. Vi então que um carreiro de formigas se desenhava no chão e subia pela planta, bem o varri mas ele voltava sempre a engrossar, parece que cada dia eram mais e já se espalhavam pela planta toda.
Fiz então uma minuciosa inspecção das folhas e dos rebentos e já estava quase a declarar-me incapaz de desvendar o mistério quando encontrei as cochonilhas. Minúsculas, brancas e muito bem disfarçadas nos entalhes do pé de cada folha, lá estavam elas a sugar a seiva da planta, protegidas por uma leve teia que ilude a sua presença. Enaquanto se alimentam da planta segregam uma matéria doce, que chama as formigas, um exército que afasta os inimigos dos parasitas e que paga com essa protecção o direito a deliciar-se com os restos do banquete. É muito difícil desalojar as cochonilhas, que se entranham nos meandros da planta e sobretudo nos cálices, bem na base das pétalas, parte vistosa mas sensível onde aparentemente fazem o seu quartel general. São uma praga difícil de detectar, juntam-se em grupos coesos, escolhem os pontos mais viçosos, chamam os amigos e protectores e instalam-se com tanta persistência que é preciso que a planta seja muito resistente para não definhar de vez.
Pode ser que a trepadeira resista a este ataque, o fim do Verão e a míngua de seiva sempre ajuda ao debandar das cochonilhas e das formigas suas protectoras...

4 comentários:

  1. É fantástica a facilidade com que determinadas pessoas, adquirem formação técnica diâmetralmente oposta àquela para que se prepararam académicamente.
    Em minha opinião, cara Drª Suzana, a Real Academia de Botânica, já tem todos os motivos para lhe atribuír o diploma de Doutora das plantas, com direito a abrir consultório.
    ;)
    Dizem os Orientais, naquela sua filosofia milenar que o bom coração das pessoas, influência a boa saúde das plantas.
    Por mim, aceito sem contradição esse princípio.

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  2. Cara Dra. Suzana Toscano:
    Pois, pode ser que a trepadeira resista, a praga de cochonilhas a abandone tal como as ratazanas abandonam o navio antes de se afundar, e a pouca seiva a mantenha viçosa e depois bem frondosa!...
    Em todo o caso os tempos vão difíceis, os mais próximos deverão ser de observação, nunca se sabe se a bicharada por força de hábito não voltará...

    P.S: A ausência está registada :)

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  3. Uma senhora realmente dotada com tendência a “multitasking”! O carinho, o diálogo que se tem com as plantas ajuda-as a vencer qualquer contratempo. Dizem que as plantas conseguem ouvir...
    Desejo a recuperação total da sua planta, cara Suzana. : )

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  4. Suzana
    Não desista de combater as cochonilhas. Depois da coragem e da determinação que a mobilizaram a fazer a reestruturação da trepadeira não pode deixar de abrir guerra a essas malvadas cochonilhas e formigas. Tenho a certeza que não se deixa intimidar. Experimente utilizar um insecticida. É que o calor ainda está para ficar e a debandada vai demorar. Se precisar de ajuda é só dizer!

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