terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dickens

Manhã cedo, muito cedo. Noite passada à pressa, mesmo assim deu para descansar um pouco, pelo menos fiquei com essa sensação, na realidade as coisas deverão ser muito diferentes, mas não interessa. A realidade é uma coisa e a perceção da mesma é outra, no final é esta última que conta. Vivemos à custa de sensações ou de esperanças que fogem da realidade como o diabo da cruz.
O rádio transmite a notícia dos duzentos anos do nascimento de Charles Dickens. Li algumas das suas obras em pequeno e vi alguns filmes produzidos à custa do seu fervor literário, aprendi a correlacionar as más condições de vida com a saúde das pessoas, nomeadamente as crianças, fome e raquitismo, uma praga da época agravada pela falta de sol, uma constante daquelas latitudes a que não terá sido alheio um qualquer arrefecimento climático da altura. Aprendi muito da maldade e intolerância humanas, inconcebíveis para um jovem crente na bondade e sinceridade dos adultos. Por vezes ponho-me a pensar se a minha desconfiança na espécie humana não terá a ver com a vida relatada por Dickens. Talvez, porque mais tarde evitei sempre lê-lo ou relê-lo. Para mim as suas sensações tiveram o efeito de criar a minha "realidade". À medida que ia congeminando nalgumas passagens, ouvi alguns comentadores da obra, dois, para ser mais concreto. O primeiro afirmou que o quadro de pobreza e de desigualdade, tão bem retratado pelo escritor inglês, mantinha-se na íntegra nos dias atuais, ou até pior se atendêssemos à amplitude da mesma. Conclui de imediato que não há cura para os seres humanos. O desejo em satisfazer as necessidades e garantir o bem-estar levam-nos, de um modo geral, a ultrapassar e a dominar os outros, empobrecendo-os ou impedindo o acesso à riqueza, ponto fulcral para alcançar a "felicidade". As diferenças que nos caracterizam não são, na prática, utilizadas para um sincero e verdadeiro desenvolvimento, e mesmo que sejam, só depois da construção da desigualdade. Garantida a supremacia, em todas as valências, muitos dedicam-se a atividades filantrópicas, mais uma forma de amenizar a consciência de que um desejo sincero de entreajuda. No entanto, não podemos ignorar que muitas pessoas, mesmo não pertencendo a essas "elites", são norteadas por princípios humanísticos à prova do que quer que seja, mas com impacto muito limitado, porque são incapazes de vencer a realidade da essência humana, vivem num mundo da fantasia, uma espécie de ficção literária. E quanto à literatura, o segundo comentador explicou que hoje já não se escreve como dantes.

Os autores clássicos tinham uma particularidade, descreviam ou analisavam uma ideia por página, hoje não, uma obra gira, habitualmente, ao redor de uma só. Depois de ouvir esta afirmação, concluí que a razão por que não termino muitos livros deve ter a ver com isto. Como, geralmente, não têm muitas ideias, às vezes só uma, fico logo cansado e largo-o a meio ou mesmo antes de lá chegar. Os poucos que consigo ler até ao fim estão, então, repletos de ideias. Agora percebo, são as inúmeras ideias que me obrigam a ler uma obra em duas patadas. Ah! Então é isso. E também deve ser por essa razão que consigo fixar certos conceitos. Como são tantos, logo, é mais fácil recordar um ou outro. Pois é. Agora compreendo porque me lembro algumas das mensagens. Um dia destes vou dar uma volta pelos livros de Dickens. Pode ser que bebendo muitas sensações e esperanças frutos da realidade permita que o diabo se aproxime da cruz, como se isso fosse possível! No entanto...

3 comentários:

  1. Pois, não tinha pensado nisso, mas agora que diz...

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  2. Se Charles Dickens vivesse nos tempos de hoje continuaria a ter muito que escrever sobre a pobreza infantil.

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  3. “(…)Os autores clássicos tinham uma particularidade, descreviam ou analisavam uma ideia por página, hoje não, uma obra gira, habitualmente, ao redor de uma só(…)”
    Caro Professor Massano Cardoso:
    Muito interessante, vou estar atento!…
    As obras de Charles Dickens sempre me deprimiram, talvez porque o tempo e o espaço onde os personagens se movimentam sejam tristes, sombrios e lúgubres.
    Hoje, apesar de tudo, da pobreza e exploração de que muita gente é vítima por esse mundo fora, não acho que possamos falar de transversalidade.
    Com a leitura deste excelente post descobri, nas palavras de Guerra Junqueiro, o sentimento que eu gostaria de saber expressar sobre Dickens, assim:

    FALAM POCILGAS DE OPERÁRIOS
    Crianças rotas, sem abrigo
    A exerga é pobre e a roupa é leve
    Quarto sem luz, mesa sem trigo
    Quem é que bate no meu postigo?
    - A Neve!
    A usura rouba a luz e o ar
    E o negro pão que a gente come
    Inverno vil... Parou o tear
    Quem vez sentar-se no meu lar?
    - A Fome!
    Lume apagado e o berço em pranto
    Na terra húmida, Senhor!
    A mãe sem leite... o pai a um canto
    Quem vem além, torva de espanto?
    - A Dor!
    Álcool! Veneno que conforta,
    Monstro satânico e sublime!
    Beber! beber.. e a mágoa é morta!
    Quem é que espreita à nossa porta?
    - O Crime!
    Doze anos já, e seminua!
    A mãe, que é dela?... O pai no ofício
    Corpo em botão d'aurora e lua!
    Quem canta além naquela rua?
    - O Vício!
    A fome e o frio, a dor e a usura,
    O vício e o crime... ignóbil sorte!
    Ó vida negra! Ó vida dura!
    Deus! quem consola a Desventura?
    - A Morte!
    Guerra Junqueiro

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