sábado, 10 de março de 2012

O regresso da política


Quantos meses andámos a ouvir que nos faltava política. Que tínhamos à frente dos destinos do país um conjunto de tecnocratas pouco preocupados com os desígnios e inteiramente dedicados aos números. Pois esta semana aí está, em todo o seu esplendor, o regresso da política. Primeiro, foi o episódio do QREN e do ministro da economia, as reações, as especulações, o indisfarçável gáudio de alguns da situação e de todos da oposição por, finalmente, existir um facto político digno de relevo. Depois, o episódio dos pagamentos à LUSOPONTE e a exploração da manifesta descoordenação e inabilidade governamentais. Ontem, o enorme bruá que as verdades escritas pelo PR gerou. Agitam-se os comentaristas, até aqui falhos de material para comentário. Sorriem os analistas agora que lhes devolvem a oportunidade de voltar a mostrar os seus génios, a sua capacidade de prognose e sobretudo quão avisado será seguir os seus conselhos. Dão pulos de satisfação os dirigentes partidários por, finalmente, poderem levantar a voz, graves e sérios, contra as malfeitorias de adversários reais ou imaginários.  
Bastou uma leve sensação de que a crise aliviou nos seus efeitos para se voltar a ouvir intervenções inflamadas e irracionais no parlamento, para o início de uma deriva contestatária do PS que permita finalmente a afirmação do seu lider, para a exploração ad nauseam das vulnerabilidades, orgânicas e não só, do governo. E, no entanto, no concreto da vida, infelizmente nada de substancial mudou – como em breve infelizmente perceberemos... – para que, alegremente, se voltasse a abrir a arena da gritaria política em redor do acessório e do folclórico. 

Há um mínimo que se deve exigir aos políticos. Um mínimo ético que lhes impõe que acima de qualquer divergência circunstancial ou ideológica, deixem de lado a prática habitual da barganha nos media e no parlamento neste particular momento: cabendo-lhes o poder de decidir sobre o destino do país, que não se esqueçam de que nele 35% dos jovens não encontram emprego e correm o risco sério de não o encontrar enquanto jovens, pelo menos no país onde nasceram e têm o direito de viver; que nos aproximamos a passos largos do milhão de pessoas sem trabalho e sem esperança de o encontrar em breve; que há gente com fome, gente que abandona os estudos por não ter recursos; que empobrecemos a cada dia que passa...
Mas neste fim de semana o que importará, no discurso, no comentário e na análise, não vão ser estas realidades. Vão ser os episódios, os que citei e outros, que assinalam o tão ambicionado retorno da política. Da única que a III República já demonstrou que sabe fazer. Da pequena.

9 comentários:

  1. O que mais vai dar que falar, se não me engano muito, é o prefácio do novo volume de "Roteiros".

    Admira-me até que não se refira ao assunto neste seu post.

    Não tenho tido acesso à televisão onde me encontro este fim-de-semana. Mas imagino que não se fale de outra coisa.

    Estou errado?

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  2. Afinal, li mal.

    Relendo, constatei que aborda o assunto.

    Mas percebo que as minhas previsões (fáceis, aliás) devem estar certas.

    Já agora: Se não tenho dúvidas das afirmações do PR tenho todas as dúvidas quanto à oportunidade das mesmas.

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  3. Já mais defendi o Sr. Pinto de Sousa, como é "público e notório" entre os frequentadores deste forum.
    Tendo discordado geralmente de Cavaco Silva, que não "poupei" durante a última campanha eleitoral, infelizmente não alterei o meu juízo sobre a personagem.
    Não pondo em causa a factualidade constante do prefácio do Roteiro, discordo frontalmente da oportunidade da sua publicação, colocando-se ao lado da chicana política quando a emergência nacional do País reclamaria palavras bem diferentes. Neste ponto, subscrevo as postagens do comentador Rui Fonseca.
    Mas francamente, francamente: a publicação do prefácio - e quanto não me custa dizê-lo - para mais numa altura em que o papel do PR é, doravante, da maior relevência, o que alcanço daquelas infelizes palavras é que ressumam apenas de ódio e de rancor. Não ficará bem na fotografia, que a História não poderá apagar.

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  4. Anónimo15:08

    É, política... O Generalísimo Franco referia-se aos que o caro Ferreira de Almeida acaba de enunciar como "politicastros", um termo que usava com uma conotação extremamente pejorativa. Podia estar errado em muitas coisas mas nesta acertava na mouche. E eu, de minha lavra, permito-me qualificar aqueles que bovinamente propalam e ecoam as atoardas dos politicastros nos jornais. São os jornalistros!

    É pena mas são assim as coisas. É o que há.

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  5. Concordo com aquilo que referem os outros comentadores. O texto do PR é de uma baixeza enorme. O sujeito da "equidade fiscal e outras intervenções brilhantes" está a procurar detalhes formais no comportamento do PM anterior e acusá-lo de deslealdade??? Quanto dinheiro do contribuinte é que se está a gastar para que isto passe de forma positiva na imprensa??

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  6. «O texto do PR é de uma baixeza enorme» Tonibler

    Será? Será que Cavaco com as suas idiossincrasias, próprias de um Algarvio tímido, tecnocrata (como se pudéssemos separar o tecnocrata do político, quando intervém no espaço do interesse público,)levado pela ambição e por um estereótipo de percurso/sucesso(próprio ou da sua Maria?), não se pode defender para a história daquilo que Alberto João Jardim denominou de gang?
    É verdade que na política não há inocentes, embora haja uns que são mais do que outros. É verdade que este regime propicia o esbulho do espaço público relativamente aos cidadãos que colocam como objectivos de vida, a liberdade, a felicidade pessoal e colectiva,o respeito pelos outros, alguma forma de igualdade (a de oportunidades com limites à desigualdade superveniente), a liberdade como responsabilidade perante os outros e nós próprios.

    Este Algarvio tímido, que já não se devia ter candidatado a um outro mandato, está hoje debaixo de fogo. Mas será que alguns já se esqueceram do "mal" que Sócrates e alguns apaniguados fizeram a Portugal?

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  7. Caro PAS,

    O que Sócrates tenha feito de mal foi com um mandato (dado e renovado) do povo. O mesmo que tem Passos Coelho. Aquilo que se assistiu, e ainda se assiste, é que Cavaco (que tem o mesmo mandato com objectivos diferentes) não interveio no mandato de Sócrates cumprindo o seu mandato e interveio no mandato de Passos Coelho, em completa deslealdade com este e com o povo que elegeu ambos.

    Reclama-se de uns discursos inócuos e abstractos sobre finanças públicas no tempo de Sócrates, enquanto hoje critica abertamente as medidas que se destinam a corrigi-las atirando-se para o chão em birras ridículas, como a das suas finanças pessoais. Se quiser falar de lealdade, seria interessante que, pelo menos, fingisse ter alguma.

    Isto não tem nada a ver com desculpar o Sócrates cuja "deslealdade histórica" parece ter sido não informar o Cavaco de mais um plano " à grego" de austeridade, uma mera patetice formal sem qualquer importância para quem paga a festa.

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  8. No mundo imperfeito, o imperfeito Presidente da República fez um imperfeito aviso à navegação.

    Os perfeitos totalitários com o rabo de fora acham mal. Paciência! Durmam abraçados às tranças do bardo Alegre.

    O povo (no qual me incluo) elegeu Cavaco Silva a Presidente da República. Estes e outros avisos à navegação mais ou menos imperfeitos contribuirão para a bóia que nos manterá à tona. Porque Passos Coelho está rodeado de gente de valor mas também por gente muito duvidosa...

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  9. tem toda a razão,caro Ferreira d'Almeida, o frisson é apenas causado pela oportunidade de mais umas intriguazinhas, mais umas maledicências, tudo muito apimentado com os comentários dos comentários dos comentários. Política? Francamente acho que não, o que voltou foi a picardia, o "acho que" e, claro, os que acham imenso, os meus preferidos, os que são capazes de inventar cenários, adivinhar intenções e estratégias ocultas, os que nunca puseram um pé na política, nem perdem tempo a ler o que comentam, mas que morrem de ansiedade para fazer parte. Os treinadores de bancada, não é disso que se alimenta a nossa "política"?

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