quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Estamos velhos...

A braços com a crise, os défices, o desemprego, as medidas de austeridade, os sacrifícios, a falta de economia e o excesso de Estado, a descapitalização das empresas e o saneamento das finanças públicas as atenções estão focadas no curto prazo e na urgência do cumprimento do programa de ajustamento da troika.
Mas nos períodos de aparente bonança em que a vida corria bem - com dinheiro fácil e crédito sem limites, o consumo imparável do Estado e dos privados, a loucura da construção civil e das obras públicas - a atenção de governantes e políticos e da sociedade em geral esteve sempre muito mais virada para a realização de obra imediata ou a obtenção do lucro fácil e rápido.
Fenómenos como o envelhecimento demográfico não mereceram - e continuam a não merecer -  a devida atenção, não apenas pela dificuldade em descolarmos do curto prazo, mas também pela falta de visão ou mesmo dificuldade em planear com coerência inter-temporal, aprovando objectivos e medidas capazes de, com estabilidade e permanência, operarem efeitos desejáveis no médio e longo prazos. Causas para esta miopia e disfuncionalidade política e cívica podem ser encontradas em diversos planos, mas talvez que o nível educacional da população seja uma causa plausível, tendo como consequência a ausência do reconhecimento do problema e do seu envolvimento na pressão e busca de discussão.
O envelhecimento demográfico é, portanto, recorrente. Os números são conhecidos e as projecções, ao contrário das económicas, têm uma probabilidade elevadíssima de se concretizarem, bastando para tal olhar para as previsões passadas e para o futuro entretanto presente.
Portugal é o sexto país mais envelhecido do mundo. Dentro de três décadas teremos apenas um trabalhador por cada adulto reformado. Este rácio que está em formação há já muito tempo impõe que tenhamos que pensar – já o deveríamos estar a fazer também há muito tempo – sobre o que ainda poderemos fazer para conter a deterioração da taxa de natalidade e como nos devemos e podemos organizar de um ponto de vista económico e social para lidar com a longevidade. Se a baixa da taxa de natalidade é uma má notícia, viver mais tempo com mais saúde e menores graus de incapacidade é a boa notícia.
Podemos enfatizar o lado mais negativo desta nova realidade ou olhá-la não apenas como um desafio mas também como uma oportunidade. Esta dupla abordagem é indispensável. Como vamos lidar com o envelhecimento da população? Como é que vamos intervir, atempada e esclarecidamente, para evitar que a boa notícia se transforme numa crise permanente. É que precaver as crises, não estando totalmente nas nossas mãos fazê-lo, implica que façamos, e bem, o nosso trabalho. Apesar de cada vez mais estudiosos  investigarem e escreverem sobre estes assuntos alertando para os problemas e sugerindo áreas e medidas de intervenção possíveis - o que só por si constitui um aspecto muito positiva – é necessário e urgente integrar na agenda do país o tema, à procura de resposta sobre o grau e o modo como processar as mudanças.

10 comentários:

  1. Recordar Pde. António Vieira, assim:

    "O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república, são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa; porque é tributo de todos."

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  2. Inteiramente de acordo, gostaria, no entanto de referir um aspecto que me parece escapar à sua análise.

    Se é uma verdade irrefutável que a baixa taxa de natalidade determina o crescimento nível de envelhecimento da população, não é menos verdade que a emigração está a drenar muitos jovens (aumentando a média das idades dos que ficam) e a deslocalizar a fecundidade dos que emigram.

    Incentivos à natalidade, de acordo.
    Tenho é as maiores dúvidas se resultam em contexto repulsivo dos jovens.

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  3. E, no entanto, não é um fenómeno que apanhe de surpresa, há muito que os sinais são evidentes e além disso já outros países tomaram medidas para o enfrentar, não só através de subsídios mas da criação de condições de vida adpatadas à velhice. Por cá ainda vivemos confiados no apoio familiar, apesar das famílias serem cada vez menos estruturadas e de as mulheres, que eram os suportes dos mais velhos dos clãs,serem das que mais trabalham fora de casa (e dentro de casa também). Não serão precisos muito mais estudos, o que falta é a mudança, de mentalidades e de condições reais.Esta nossa geração, que já tem filhos crescidos e ainda tem pais idosos, é a última a aguentar o esforço de apoiar novos e velhos e ainda ter que lutar pelo emprego e pela sua própria segurança na velhice. Receio bem que nós, os em breve velhos, sejamos bem mais desgraçados dos que os actuais, coitados deles a quem já tanto falta.

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  4. Cara MCAguiar

    A nossa sociedade antecipou riqueza futura, para assegurar um relativo desafogo presente.
    Nesta equação, não considerou a necessidade de assegurar as condições para a criação da riqueza futura, nem, o que é mais preocupante, de assegurar a capacidade para honrar, no futuro, os compromissos presentes.
    ( Nem, como iremos experimentar nos anos mais próximos, teve em consideração os interesses da geração subsequente).
    O modo como as sociedades tratarem da questão demográfica será, o elemento diferenciador para os próximos 30/50 anos.
    Como estamos, o caminho é de servidão em troca de uma modesta reforma que não envergonha ninguêm.
    Neste contexto, (de servidão) oportunidade e desafio passa a ser uma questão de grau e não um ato de vontade.
    Cumprimentos
    joão

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  5. Caro jotaC
    Em vida somos todos muito diferentes, é a morte nos iguala. Mas a riqueza da diferença não deveria ser a pobreza e a exclusão de muitos. Interpretei bem o que pretendia expressar?

    Caro Rui Fonseca
    A partida maciça dos nossos jovens – fazem parte da geração mais qualificada que o país já teve – vai acentuar o nosso empobrecimento e envelhecimento. Poderão um dia voltar ou lembrarem-se de enviar poupanças para ajudar as famílias que deixaram para trás, mas a sua partida terá consequências muito graves na taxa de natalidade, na população activa, na criação de inovação, na geração de riqueza.
    A somar a este fenómeno temos vagas de imigrantes que são forçados a regressar aos seus países de origem ou a procurar outros destinos devido à recessão económica. Muitos destes imigrantes – estou-me a lembrar dos imigrantes dos países de Leste – com qualificações superiores foram mal acolhidos. Lembro-me de ver médicos que por falta de reconhecimento trabalhavam na construção civil.
    A imigração é um fenómeno que pode ajudar a moderar o envelhecimento na Europa, em Portugal na última década contribuiu positivamente para as contas da segurança social, designadamente para a conta corrente contribuições – pensões, e para alguns pontos na taxa de natalidade, já de si muito baixa.

    Sim, Suzana, há um problema de mentalidade. O futuro do nosso país passa necessariamente por uma mudança ideológica profunda no modo como encaramos o envelhecimento e as pessoas idosas. O envelhecimento não tem que ser necessariamente percebido como uma ameaça. Aliás, o envelhecimento é inexorável, não nos adiantam as lamentações e ficarmos de braços cruzados sem nada mudar.

    Caro Joao Jardine
    O meu post é apenas uma chamada de atenção para a necessidade de olharmos para o envelhecimento com outros olhos e reagirmos, não pretendeu tratar da problemática do envelhecimento.
    O aspecto salientado no seu comentário relativo à riqueza é crucial. Sem geração de riqueza não há rendimento para distribuir. Sem riqueza veremos o desemprego estacionar em níveis muito elevados, o desemprego de longa duração irá aumentar assim como o trabalho precário, a pobreza e a exclusão social vão crescer. Com este cenário, teremos pensões mais baixas, estaremos a gerar novos pensionistas pobres. Mas o envelhecimento é também um input na equação da produção da riqueza porque interfere nos níveis da população activa.

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  6. Sem dúvida, cara Dra. Margarida Aguiar...

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  7. Cara MCAguiar

    Não fui compreendido.
    O envelhecimento é um dado não um problema; na melhor das hipoteses, podemos adiá-lo ou, minorar os efeitos; é isso que se conseguiu nos últimos trinta anos, quando aumentamos a esperança de vida em mais de 16 anos.
    O cerne reside na demografia em sentido amplo e no planeamento que, uma sociedade realiza, para assegurar a sua sustentabilidade no curto, médio e no longo prazo.
    A situação atual coloca-nos no grupo dos irresponsáveis (no que ao planeamento demográfico diz respeito) e, dentro desse grupo, dos irreponsáveis sem recursos naturais significativos.
    Os indicadores estão aí: não apenas saem os que vieram para trabalhar, como saem os locais. Situação que, qualquer obserador arguto e com alguns instrumentos de análise, não deixará de reparar.
    A servidão é o efeito prático de uma sociedade que obliterou o longo prazo do seu quotidiano.
    Num mundo em que a idade média aumenta regularmente, a irresponsabilidade é a imagem que deixamos; não estamos sós, não sei é se não estaremos mal acompanhados.
    Pessoalmente, resta-me uma consolação, a demografia é mesmo a única área que não conseguimos encontrar um terceiro a que se possa, de uma forma credível, assacar as "culpas".
    Cumprimentos
    joão

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  8. Cara Margarida,

    Felcito-a pela atenção que tem vindo a dar, em diversos "fora", a este tema do envelhecimento da população e suas consequências sociais e económicas.
    Embora se trate de um pequeno apontamento face à dimensão do problema, não deixo de lembrar aqui a inciativa de vários municípios do interior que adoptaram medidas de incentivo à natalidade, nalguns casos com provado sucesso.
    Não sei é se essas medidas, caso fossem generalizadas, teriam sustentação orçamental...

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  9. Duvido, caro Tavares Moreira, veja o que aconteceu ao abono de família e aos descontos no IRS, o que é caro não é o nascimento de um filho mas o seu sustento e condições de vida até bem tarde...

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  10. Caro Joao Jardine
    Entendi o seu ponto.

    Dr. Tavares Moreira
    Sim, são iniciativas muito meritórias com preocupações sociais, tendo subjacente que um território não sobrevive se a sua população não tiver continuidade.
    Alguns dos municípios que criaram os incentivos tiveram resultados positivos. O problema é que acabam por estar a remar contra a maré porque as políticas públicas não têm as mesmas preocupações. Se ao mesmo tempo há, por exemplo, uma desertificação de serviços públicos essenciais...
    Pergunto-me muitas vezes que país é que queremos ter! Alguém sabe...

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