domingo, 3 de fevereiro de 2013

Diabetes...



Falar de diabetes é falar de doença, e a doença assusta, faz sofrer e mata.
O homem não quer sofrer, mas é-lhe vedado esse privilégio, porque a vida nasceu e faz-se à custa de mecanismos que estão na génese da doença. A doença é um atributo da vida, faz parte da vida e é tão antiga como a própria vida.
Dentro das inúmeras doenças que nos afligem, a diabetes não é mais do que uma expressão da adaptação ao meio em que vivemos, umas vezes melhor, outras, a maioria, nem por isso.
O ambiente fez-nos e moldou-nos durante milhões de anos, a começar pelos antepassados mais remotos. Quando nos apercebemos de que poderíamos construir um novo ambiente, mais adequado às nossas aspirações e desejos, graças a uma inteligência sui generis, permitindo ter conforto, prazer e qualidade de vida, mal sonhávamos que teríamos de pagar um tributo pesado com doenças que hoje nos atormentam e provocam graves problemas sociais, económicos e de cuidados de saúde suscetíveis de perturbar o frágil equilíbrio social, verdadeiro fio da navalha da existência hodierna.
Graças às conquistas civilizacionais, vivemos melhor, com mais qualidade, com mais saúde e durante muito mais tempo, muito mais do que seria de esperar, logo, as doenças têm de se manifestar, uma fatalidade que dificilmente será contornável.
A diabetes, doença “evolucionária”, transformou-se na mais grave de todas, a ponto de constituir a principal fonte de preocupações. Terá, podemos dizer, contribuído para o progresso civilizacional, mas acabou por ser a principal doença da civilização.
Não há órgão que não seja atingido, através de lesões arteriais, coração, cérebro, rins, olhos, levando a uma lenta “decomposição” do corpo em vida, quase sempre da forma mais traiçoeira, silenciosamente.
Os dados epidemiológicos assustam, quer estejamos no mundo ocidental ou nos povos em desenvolvimento. A prevalência aumenta a cada dia que passa. Apesar de não ter cura, conhece-se muito a seu propósito, havendo tratamentos adequados para a controlar e medidas extraordinariamente eficientes para a prevenir.
É imprescindível o diagnóstico precoce, são necessárias medidas de intervenção para controlo e exigem-se boas soluções políticas. Suficiente? Não. É preciso muito mais, interiorização do problema por parte das pessoas que sofram de diabetes e dos potenciais doentes e adequada vigilância e adesão à terapêutica dos sofredores, aspetos que são frequentemente descurados.
Sendo uma doença da civilização, não é difícil compreender o porquê. Come-se em demasia, o acesso aos alimentos está ao virar de qualquer esquina e a promoção ao consumo de produtos diabetogénicos é uma realidade altamente lucrativa. Se adicionarmos aos anteriores a falta de exercício, determinada pelas novas formas de vida, que entram em flagrante conflito com os objetivos deterministas da nossa fisiologia, compreenderemos muito melhor esta problemática. Convém esclarecer um outro fenómeno, a capacidade de envelhecer. Deste modo, está praticamente completado o grupo das principais razões do incremento da diabetes, sem prejuízo de muitas outras, que são também interessantes.
A diabetes é uma doença social, para a combater são necessárias muitas medidas, comer menos e melhor, exercitar o corpo de forma continuada, explicar e fazer compreender as suas causas e consequências, convidar à mudança de hábitos, modificando as condições de trabalho, lutando contra a poluição, rearranjando a forma de transporte, legislando sobre atos que promovam a prevenção, caso da publicidade, além das medidas de cuidados de saúde propriamente ditos. Deve ser considerada uma doença social, mas é também uma doença política. Sem medidas adequadas nesta última área é certo e sabido que dificilmente se conseguirá travar e retardar o seu aparecimento. Estamos perante uma maleita que “escapa” ao controlo exclusivo dos profissionais de saúde. Em termos políticos, esta doença passa não só pelo ministério da saúde, mas, sobretudo, pelos da educação, cultura, trabalho, ambiente, agricultura e transportes. Quem diria que a solução passa por estes setores? Mas é uma verdade inquestionável e, enquanto não houver um verdadeiro envolvimento a este nível, não há maneira de a controlar. Entretanto, os custos e o sofrimento pessoal e coletivo continuarão a marcar a nossa existência empobrecendo um país já per si paupérrimo.

7 comentários:

  1. as suas crónicas são de leitura obrigatória, mesmo que por vezes discorde delas.
    deve continuar.
    no meu blogue já interrompi a publicação de fotos de pinturas mais ou menos célebres para introduzir um terma importante e que teve largo consumo no Brasil: radicais livres.

    Kropotkine observou a interajuda de animais da mesma espécie contrariando o dogma do deus darwin.
    o teoria do bang bang também é criacionista.
    ajudei um colega seu na elaboração dum livro sobre hominização apesar de a considerar uma burtla.

    pense escrever sobre estes temas

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  2. Já ando às voltas com índicios. Comecei a tomar um medicamento e faço(sempre fiz) uma caminhada/dia.Bons e úteis postes.
    Um abraço e obrigado

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  3. Porque é que a interajuda de animais da mesma espécie é contrária a Darwin é algo que me escapa. A origem da economia é o quê, senão a selecção natural da espécie que se interajuda?

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  4. Excelente aula, caro Professor.
    Resta-me(nos) ficar-lhe gratos e, seguir os conselhos que nos ensina.
    Isto, evidentemente se pretendermos evitar problemas maiores de saúde, não perdendo no entanto a consciência de que somos simplesmente mortais.

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  5. Essa do "vivemos com mais saúde, logo as doenças têm de se manifestar" tem a sua piada.

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  6. Viver com mais saúde permite viver mais tempo, vivendo mais tempo permite que as doenças se manifestem. É por isso que devemos considerar o envelhecimento como a primeira, a segunda e a terceira causa de doença e de morte. Muitas doenças que hoje nos atormentam são filhas da saúde sem a qual nunca envelheceríamos. Enfarte, AVCs, cancro, diabetes, só para enumerar as principais exigem que se alcance determinada idade. Para a alcançar, coisa que não acontecia até há pouco tempo, um século, foram necessárias grandes conquistas.

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  7. Obrigado por tão eloquente lição!

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