terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O nó

Sentia-se cada dia mais triste, não conseguia encontrar alegria ou conforto em coisa nenhuma, levantava-se de manhã com aquela espécie de névoa no espírito que a impedia de sorrir ou de chorar. Sentia-se excluida das rotinas que dantes a ocupavam e a família mais próxima, enredada em problemas, cansara-se de buscar junto dela as energias que já não tinha para dar. Procurava refúgio na quinta, lá longe, isolava-se, tratava da horta, das árvores, dos cães, sua companhia preferida, talvez porque via neles aquele afecto incondicional que ela se limitava a receber sem esforço, os cães não lhe faziam perguntas, não se exasperavam com as suas angústias, lambiam-lhe as mãos e seguiam-na por todo o lado, com o seu olhar doce e meigo.
Quem a ajudava a tratar da casa e da quinta, há muito desleixada, era o Senhor Oliveira, velho aldeão que nunca desistira de abrir os portões, desbravar as ervas ruins da entrada e amanhar uma leira para o seu sustento. Homem rude e de poucas falas, também ele parecia contagiado por aquela tristeza sem fim, chegava cada dia mais tarde, pesavam-lhe os braços para podar as árvores, já não ia à caça e surpreendia-o a abanar a cabeça de quando em quando, como que a arredar pensamentos sombrios.
Um dia, o Senhor Oliveira chegou revoltado, patroa, a minha Joaquina foi despedida do lar onde trabalhava lá na vila, aquilo anda mal de finanças e ela era a mais velha, mandaram-na para casa e vai com Deus, que já não chega para ti. Ela não se conforma, a pensar na miséria da reforma, uma coisa de nada, mais a que hei-de ter um dia que me canse disto e são mais dois a juntar aos pobres que por aí há. Mas eu, patroa, já disse, deixa Joaquina, não há-de ser nada, assim que nos virmos sem nada para comer penduramos a corda na árvore e acabamos com a vida, é para o lado que eu durmo melhor, se não vale a pena viver o melhor é morrer.
A patroa ouviu-o silenciosa, seguiu-lhe com o olhar as mãos nodosas de trabalho a agarrar a enxada, notou-lhe o olhar líquido de lágrimas contidas e não estranhou aquela determinação tranquila. Então, disse-lhe: Olhe, Oliveira, antes que decida isso, traga uma corda e ensine-me a dar o nó certo, se me vejo aqui sem a sua ajuda e da Joaquina também não sei o que mais fazer.
O Oliveira não respondeu, mas nesse dia comentou com a mulher que, enquanto a patroa precisasse deles, não haviam de a abandonar, sempre era uma razão para viverem, quem havia de dizer.



11 comentários:

  1. O meu pai dizia-me . Quem tem amigos não morre na prisão. É verdade!

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  2. Suzana, neste momento conheço muitas "patroas" a quererem aprender a fazer o laço da corda como deve ser, o que obriga a criar outro tipo de laço, o laço da solidariedade.
    Uma história que não se esquece. Já sentia falta. Soube-me bem, por muitos motivos, uma boa história desperta muitas outras, e acorda-nos...

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  3. Um boa história, como refere o nosso caro Professor.
    E como refere, também, um "laço" que une e iguala demasiados seres, nestes tempos difíceis que atravessamos. Um laço que desejamos constitua em cada dia e perante as adversidades o reforço da unidade e da capacidade para lutar, para vencer as dificuldades por que todos passam, alguns mais profundamente, mas todos, enfrentando o mesmo tenebroso mar revolto que ameaça a cada instante, engolir-nos.

    Um tema muito sensível, muito actual, que todos devemos discutir com o propósito de encontrar para ele soluções adequadas.

    Hoje, enquanto conduzia a caminho do emprego, escutava o notíciario na rádio, onde davam conta de mais 2 suicídios em Espanha. Em ambos os casos, tratava-se de pessoas que não aguentaram psicológicamente a circunstância de se verem "despejados" das suas habitações, por incumprimento de encargos.
    Ambos deixaram cartas, onde explicavam os motivos das decisões.
    Apesar de seres humanos, somos edifícios construidos com diversos materiais. Tal como nos edifícios que habitamos, alguns materiais são mais resistentes que outros, aguentam melhor a pressão, disperssam-na, absorvem-na. Outros, acusam mais rápidamente as suas fraquezas e atingem mais rápidamente a roptura. No entanto, uns, apoiam os outros e todos, unidos, mantêm a construção erguida.
    Mas individualmente, as capacidades de resistir à pressão que aumenta em cada dia, torna-se nula. É preciso, é fundamental que sejamos capazes de entender a necessidade de nos unirmos, de nos solidarizarmos, de anularmos as fraquezas e sermos capazes de resistir às adversidades, até que consigamos reequilibrar-nos e readquirir as forças necessárias para reerguer aquilo que foi destruído, dando lugar ao resurgimento de uma sociedade forte, coesa e consciente.

    Um tema de conversa importante para ser levado à mesa do almoço agendado para o próximo dia 22, não lhe parece, cara Drª. Suzana?

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  4. Gostei imenso do que li: uma estória simples onde as palavras chave-amizade e solidariedade-cabem muito bem, cujo “corpo” nos leva a refletir sobre mais este drama social dos nossos dias (o suicídio). O título deste post poderia ser também:- “Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo”.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Levei e repliquei... :)

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  7. Caro Bartolomeu,com este ou outro tema, a conversa seria sempre agradável na companhia dos convivas que se perfilam, acontece que nesse dia não poderei de modo nenhum ir lá ter, é pouca sorte minha mas não tenho forma de mudar as coisas que já combinei. Mas espero que muitos almoços se perfilem no horizonte dos 4republicanos!

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  8. Lindo conto. Como todos os contos belíssimos, tem que ter uma base na realidade da vida.
    Obrigado

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  9. Suzana
    Gostei imenso de ler esta estória. A incompreensão e a solidão agudizam as adversidades. É em momentos de maiores dificuldades que a solidariedade se manifesta, dando muitas vezes lugar à amizade, à vontade preocupada e sincera de ajudar.

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  10. Cara Drª Suzana,
    lamento imenso que imperiosos motivos, privem os convivas quarterepublicanos da sua inestimável presença, a qual acrescentaria brilho à nossa reunião.
    Contudo, prometo-lhe que brindaremos também à saúde dos ausentes.

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  11. Obrigada, caro Bartolomeu, eu é que serei privada da vossa simpática companhia!

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