quarta-feira, 13 de março de 2013

Irlanda levanta vôo: seria uma boa lição, infelizmente será inútil...

1. Está confirmado o regresso da Irlanda aos mercados da dívida, com uma emissão ao prazo de 10 anos, a qual foi hoje acolhida por forte procura dos investidores (superior a € 12 mil milhões para um montante a colocar entre € 2 mil milhões e € 2,5 mil milhões) e colocada à taxa de juro média de 4,15%, bastante inferior à taxa implícita na cotação da dívida portuguesa para o prazo de 5 anos...
2. Este regresso da Irlanda aos mercados, a mais de 6 meses do termo previsto do seu Programa de Ajustamento, deveria constituir uma boa lição para Portugal – em especial para aqueles que poderemos designar com a Vanguarda da Decadência que integra a incorrigível classe política, os eloquentíssimos opinion-makers e a comunicação social de uma forma geral.
3. E deveria constituir uma boa lição porque esta nova situação da Irlanda permite várias conclusões, designadamente:
- Que os Programas de Ajustamento até podem ser eficazes e conduzir a resultados positivos para os Países que os adoptem convictamente, ao contrário do que “ensina” a vulgata crescimentista;

- Que os mercados não são afinal aquele monstro que a mesma vulgata proclama, e até sabem premiar o esforço dos países quando os resultados aparecem;

- Que a opção de impor à própria classe política, logo à partida, medidas de austeridade bastante duras, que a Irlanda seguiu, constitui importante factor moralizador, mostrando que ninguém fica isento das mesmas e permitindo que os cidadãos em geral percebam e aceitem melhor a necessidade dessas medidas;

- Que o facto de a Irlanda ter recusado o agravamento fiscal para as empresas, mantendo o seu IRC em 12,5%, fugindo à tentação de realizar o ajustamento orçamental pelo lado da receita, foi um elemento importante para preservar a atractividade do investimento e manter a economia a crescer mesmo em contexto de austeridade.
4. Entre nós, o bom exemplo da Irlanda infelizmente de pouco ou nada servirá – aliás irá ser rapidamente silenciado, não tenhamos dúvidas - pois a referida Vanguarda da Decadência rejeita tudo o que não alinhe pelos axiomas da vulgata crescimentista e só conhece agora um tipo de linguagem: (i) mais tempo para pagar, (ii) mais tempo para “ajustar” (na verdade querem mais tempo para no fim desse tempo virem a pedir novamente mais tempo, e assim sucessivamente...), (iii) mais despesa pública virtuosa, (iv) mais défice se nos for permitido, (v) sempre mais impostos se não houver outra solução...
5. Para esta Vanguarda da Decadência, qualquer política que não consista em manter o “status quo ante”, e sobretudo que implique um estreitamento dos lugares na Mesa do Orçamento, não pode por definição funcionar...por maior que seja a evidência em contrário, caso da Irlanda...conseguirá o País resistir à força destruidora de tal Vanguarda?

12 comentários:

  1. Segundo o Jornal de Negocios, de dia 4 de Março de 2013 ( http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/irlanda_pede_mais_15_anos_para_pagar_emprestimo.html )

    a Irlanda pediu mais 15 anos para pagar a divida.

    Assim sendo surge-me a duvida:

    A Irlanda é um bom exemplo a seguir que até chegdou aos mercados ?

    ou faz parta de "Vanguarda da Decadencia" que só quer "(i) mais tempo para pagar, (ii) mais tempo para “ajustar” (na verdade querem mais tempo para no fim desse tempo virem a pedir novamente mais tempo, e assim sucessivamente...)" conforme descreve no seu ponto 4 ?

    parece-me existir aqui alguma contradição, mas...possos ser eu que não estou a ver bem as coisas.

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  2. Penso que a Irlanda esteve sempre a voar, como o comprova a sua balança de pagamentos. Mas que afundou e agora ganha altitude é verdade.

    Quanto à vanguarda bolchevique, que o meu amigo muito bem referiu, nada de espantar no país dos sovietes...

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  3. Compreenda-se a posição da vanguarda. A verdade é que hoje são uma espécie de apátridas. O país deles morreu, já não são barões de coisa nenhuma, já não vai haver mais publicidade institucional, mais investimentos para isto e aquilo, ou orçamentos para aqueloutro. O nosso país agora tem 300 milhões de habitantes, todos eles desertos de se verem livres destes pequenos barões da inutilidade. Não é fácil para eles perceberem que a evolução do país passava por tirá- los da frente, embora isso fosse óbvio à partida.

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  4. a descida aos infernos não tem regresso

    maior adiamento, mais juros, mais dívida

    felizmente não tenho netos

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  5. O lugarzinho à mesa do orçamento. Muita despesa pública, ódio à iniciativa privada e ao lucro, ao mérito, à avaliação...e fugir à disciplina a que nos obriga a UE.
    Chamam-lhe "serviço público"...

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  6. Por acaso ia referir exactamente o que está dito no primeiro post, mas como não percebo nada disto...

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  7. A comparação entre a Irlanda e Portugal é completamente inútil. São realidade económicas completamente distintas. Apesar de concordar com os remoques do ilustre Tavares Moreira, desta vez o exemplo não colhe. Para cada realidade temos de adoptar os instrumentos mais adequados. É por essas e por outras que as ortodoxias de aparência científica só causam desastres.

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  8. A Irlanda afinal é crescimentista? Ou será que não!
    Por este parágrafo - "Que o facto de a Irlanda ter recusado o agravamento fiscal para as empresas, mantendo o seu IRC em 12,5%, fugindo à tentação de realizar o ajustamento orçamental pelo lado da receita, foi um elemento importante para preservar a atractividade do investimento e manter a economia a crescer mesmo em contexto de austeridade." - fico na dúvida. Isto realmente só está ao alcance de uns quantos. Não há problema estão a zelar por nós.

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  9. Para todos aqueles a quem estes assuntos possam interessar, deixo aqui uma via "ideologica", onde encontro muitos pontos que considero válidos.

    Esta, certamente, não será nem "Crescimentista" nem "Austeritarista".

    Não creio que seja tambem a invenção da roda, mas parece-me que tem muito ponto para reflexão.

    São meros 5 minutos, de TED Talk, linguagem simples e assertiva.

    Fica a sugestão:
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=CKCvf8E7V1g

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  10. Caro Tavares Moreira,

    Este governo deveria ter reduzido o IRC para 12,5% começando pelos sectores transacionáveis mal tomou posse.

    O caminho austerista nunca funcionou em lado nenhum e não irá funcionar, porque os empresários não investem num ambiente recessivo.

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  11. Caro Pedro,

    Sim, a Irlanda é um bom exemplo nesse capítulo que refere, negociando um reescalonamento do serviço da dívida oficial (idem para Portugal).
    O reescalonamento da dívida tem a virtude de aliviar o serviço em alguns anos em que estava mais concentrado, facilitando, assim, o regresso ao mercado.
    Os mercados entendem bem estas operações de reescalonamento, que significam que o País em causa se preocupa seriamente com o cumprimento das suas obrigações, que não está disposto a emitir dívida que não tenha certeza de vir a pagar com pontualidade.
    Portanto, quanto a este tema, estamos entendidos...ou não?

    Ilustre Mnadatário,

    Eu não referi nenhuma vanguarda "bolchevique"...mas sim da decadência...
    Ainda há, apesar das aparências, alguma diferença entre os patrocinadores/instigadores da decadência e os ditos bolcheviques: os primeiros serão bem mais tontos, mas pelo menos não são sanguinários, e essa diferença não me parece desprezível...

    Caro Tonibler,

    Essa referência aos 300 milhões de habitantes tem graça e não só...um razoável fundo de vardade, também.
    Aliás, quando foi anunciada em grande estilo a agenda Lisboa 2000 - uma das muitas fantasias e ilusões que os Crescimentistas do final do século passado nos tentaram vender, neste caso prometendo fazer da Europa a zona económica mais competitiva do Mundo até 2010 (que ridícula fantasia) - a referência aos 300 milhões como se fossem habitantes do mesmo país era uma constante...

    Caro Luís Moreira,

    Como devem ser quentinhos e aconchegados os lugares na mesa do Orçamento...compreendo a defesa "à outrance" que deles fazem os que são titulares...

    Caro Carlos Monteiro,

    Remeto, se me permite, para a resposta dada ao Pedro.

    Caro Carlos C,

    A Irlanda, no mesmo momento em que adoptou medidas de contenção bem mais duras que as nossas no que se refere aos salários - mas começando pelos salários dos políticos, aspecto fundamental para moralizar a decisão de impor austeridade - entendeu, e muito bem, que era preferível mais austeridade do lado da despesa e preservar a taxa de IRC de 12,5%...
    Chamar a isto Crescimentismo creio ser uma avaliação imprópria da natureza da política.
    Pela minha parte sempre fui e continuo a ser adversário do agravamento dos impostos sobre o Rendimento, mas considero-me nos antípodas do Crescimentismo...

    Caro Alberto,

    Nem mais, um país chama-se Irlanda e o outro Portugal...comparar as políticas económicas de 2 países tão diferentes é capaz de fazer muito pouco sentido...

    Caro Paulo Pereira,

    A medida que sugere, de descriminação fiscal em razão da actividade, é ilegal (totalmente). Por aí, não vamos lá. Mas haverá outros processos ou vias para conseguir um resultado algo semelhante, mas é preciso activa-los...

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  12. Caro Tavares Moreira,

    A media não é ilegal se for priotirizada, ou seja a redução do IRC é iniciada em alguns sectores e alargada progressivamente a todos.

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