quinta-feira, 16 de maio de 2013

O mercado da dívida pública e o mercado da opinião catastrofista...

1. É hoje notícia, mais uma vez, a queda das taxas de juro da dívida pública na zona Euro, que estão atingindo níveis não vistos desde há cerca de 3 anos.
2. No que respeita à divida pública portuguesa, as yields da dívida a 5 anos estão hoje muito próximas de 4% e para os 10 anos andam a “namorar” os 5,3%, níveis que não se viam desde meados de 2010 (um ano antes do ruidoso colapso do delirium socrático).
3. Ontem, a emissão de € 1.750 milhões em BT’s, a 6 e a 12 meses, foi colocada com taxas de juro anuais de 0,811% nos 6 meses (anterior de 2,169% em Nov/2012) e de 1,232% nos 12 meses (anterior de 1,394% em Abril).
4. Evolução semelhante ou ainda mais favorável é visível nos mercados das dívidas de Espanha e de Itália, neste último caso atingindo mesmo níveis historicamente baixos em alguns prazos.
5. Saliente-se a emissão de dívida ao prazo de 30 anos (de € 7,7 mil milhões) pelo Tesouro italiano, ontem realizada, com uma taxa de juro pouco superior a 5%, prazo em que a Itália não emitia dívida desde 2009...
6. Esta evolução será pelo menos de PASMAR para quem esteja atento ao fervilhar de comentários catastrofistas que diariamente inundam a comunicação social portuguesa, escrita e falada, que já sentenciou pelo menos 1.000 vezes o fracasso definitivo e irrevogável do projecto Euro, e o consequente abandono do mesmo como solução mais recomendável – tema aliás tratado como se revestisse a mesma complexidade do consumo de um expresso no café de rua mais próximo...
7. Como é que os mercados podem estar tão cegos e ser tão ignorantes, não entendendo esta mensagem apocalíptica da elite pensante de um nobre Povo? Como podem arriscar-se desta maneira, investindo tão afoitamente numa moeda e em emitentes soberanos se estes estão de facto à beira do colapso, arrastando consigo todo um arraial de desgraças económicas e sociais?
8. Ou será que os mercados financeiros terão já percebido que o mercado da opinião político-económica em Portugal, um oligopólio controlado por uma elite pensante fixa e inamovível,  tem como driver  dominante a perda progressiva de qualidade da Mesa do Orçamento, com uma carta de serviço “downgraded” e menos opções na lista de vinhos?
9. É realmente extraordinário este contraste entre por um lado uma opinião supostamente dominante, que diariamente nos "chateia" até à mais completa exaustão, desejando mais Estado e revelando pouquíssimo respeito pelos impostos que pagamos, e, por outro lado, o comportamento confiante e tranquilo dos mercados financeiros, mostrando que a fase mais aguda do Euro foi superada.
10. É capaz de ser muito difícil encontrar outro movimento de opinião tão alargado, tão intrusivo e tão maçador e, ao mesmo tempo, com tão escasso impacto nas decisões de quem tem por função gerir o risco financeiro...

17 comentários:

  1. São vícios muito antigos.

    A "Expiação" em 2013...
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/05/a-expiacao-em-2013.html

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  2. Caro Tavares Moreira:
    Trata-se de um facto, objectivo. E também de uma tendência que, esperamos, perdure.
    Mas há um outro aspecto, talvez mais importante, que deve ser notado.
    É que, nas contas que fiz, e em relação há 2 meses atrás, os yields demonstram que o prémio "pago" pela dívida portuguesa se reduziu em 50 pontos base em relação à dívida alemã e em 52 pontos base em relação à dívida americana, para os dez anos. E em 24 pontos base e 29 pontos base, para as mesmas dívidas, respectivamente, no período dos 25 anos.
    Isto é, os yields da nossa dívida estão a decrescer mais do que os da alemã e americana.

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  3. A comunicação social está dominada pelos que se sentam à mesa dos serviços públicos.Não era em Janeiro que a UE ruia?

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  4. Fiz link no Banda Larga

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  5. Os mercados financeiros são os que fingem melhor que não vêm o agudizar da crise.
    " comportamento confiante e tranquilo dos mercados financeiros, mostrando que a fase mais aguda do Euro foi superada."

    O euro só vai piorar piorar piorar a crise , é incontornável , ele é veneno .

    Mas enquanto a engenharia financeira ilegal do BCE continuar a comprar divida dos seus próprios donos ahahaha ( uma farsa digna de Gil Vicente ) os mercados financeiros estarão regalados continuando a fingir que está tudo no sétimo céu .
    O pior é que a farsa uma hora termina , e vai virar tragédia .
    Porque os mercados financeiros são povoados por barrigudos que não dobram a mola para produzir nada .
    E sem produção não há emprego , e sem emprego , adivinha.
    E o desemprego está crescimentista não é ? desemprego crescimentista que raio de expressão .
    Não haverá empregos nos mercados financeiros Tavares Moreira ? Sei lá , para lavar o chão dos mercados . Esses mercados têm chão ao menos ?






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  6. O Mercado da dívida pública,o Mercado da opinião catastrofista ??
    Então e o Mercado de trabalho? É verdade, esquecia-me, os desempregados são não-pessoas, não passam de um mero detalhe.
    manuel.m

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  7. Caro Tavares Moreira,

    Isso tem mão da Sra. De Fátima, de certeza, que andou a pagar aos avaliadores da troika em Ots pata eles aprovarem a 7ª avaliação. Pelo menos acho que a Maria teria uma palavra a dizer sobre isto antes de dizermos que são os mercados...

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  8. Caro Drº Tavares Moreira,
    Só não entendi a parte, melhor, a razão, porque agem assim os mercados numa conjuntura de recessão, em que a dívida relativamente ao período "crítico" aumentou substancialmente!...

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  9. Continuo a entender que é positivo ter quem nos empreste dinheiro a taxas aceitáveis. Mas, se esse dinheiro é utilizado para cobrir défices recorrentes e não para investimento reprodutivo, estamos e vamos continuar a estar mal...
    O vamos ficar pior, porque cada défice se acumula na dívida e cada crescimento de dívida acabará por provocar maior peso em juros e uma queda na expectativa dos credores de serem ressarcidos.
    Pelo que nada estará bem, enquanto não eliminarmos os défices (todos) da nossa economia e finanças (públicas e não só).
    Aí, ficaremos bem. Pois os empréstimos poderão (há outros factores limitadores) serem mesmo fontes sustentadores de investimento e crescimento.

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  10. Caro Tavares Moreira,

    Como é que explica exactamente o que acabou de referir , ou seja como é que os mercados "emprestam" euros a taxas baixas, quando os deficits se mantêm e o stock da divida aumentou 30% em relação a 2010 ?

    Terá a ver com o facto dos mercados perceberem que o relevante são as contas externas e o que defict publico interno é financiável internamente ?

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  11. Caro Pinho Cardão,

    Ora aí temos mais um facto objectivo, mas que é mais uma resultante - uma derivada, dirá o Tonibler - do que um driver.
    Com efeito, a redução do risco sistémico do Euro, bastante atenuado a partir das promessas do BCE, do Verão passado e que tem vindo a acentuar-se nos meses mais recentes apesar dos desaustinados clamores contrários da "inteligentzia" doméstica - tem propiciado uma queda das yields da dívida dos países que eram considerados de maoir risco e, ao mesmo tempo, uma recuperação das yields das dívidas dos países considerados financeiramente mais sólidos (Alemanha em primeiro lugar).
    A recuperação das yields dos países financeiramente mais sólidos resulta da menor procura de activos de refúgio, que é típica das situações de tensão que se viveram até há algum tempo mas que agora, como já referido, se encontram bastante atenuadas.

    Caro Luís Moreira,

    Tem razão, e se bem me recordo, a zona Euro ruiria em Janeiro, depois em Fevereiro, a seguir em Março, em Abril, em Maio e assim por diante...
    Convirá continuar a acompanhar essas previsões apocalípticas, sustentada nas análises mais sólidas e bem estruturadas, para ver quando é que o tecto nos cai na cabeça...
    Homem prevenido vale por dois, esta já é bem antiga...

    Caro Tonibler,

    Faltou o "delenda est Bethleem"...essa memória...

    Caro jotaC,

    É de facto um mistério insondável esse, mas não só por força do aumento da dívida mas também, como referi no Post, pelos avisos sábios e até amigos dos nossos grossistas e retalhistas de previsões catastróficas...
    E pior ainda, parece que o risco atribuído à propria Grécia está caindo a pique...

    Caro Gonçalo,

    Não possos estar mais de acrodo com o que diz: é sensato, prudente e aponta à necessidade de disciplinarmos consistentemente as finanças públicas, única forma de travar o crescimento da dívida.
    Mas, como já terá percebido, isso é coisa que a generalidade dos comentadores catrastofistas abomina, pois acaba-lhes com o "negócio"!

    Caro Paulo Pereira,

    É bem possível que os mercados, ao contrário da opinião dominante em Portugal, atribuam importância determinante à correcção do desequilíbrio externo já realizado em Portugal.
    Como já terá reparado, sempre que esse ponto é focado, ou é imediatamente silenciado ou é enfaticamente desvalorizado pela opinião dominante...
    Mas os mercados não só estão mais atentos como percebem um bom bocado mais do assunto...

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  12. Caro Tavares Moreira,

    Parece-me de facto que os mercados estão a abandonar as teses neoliberais radicais sem consistência economica, de que as dividas publicas são a causa principal das crises e voltaram aos anos 70 e 80 percebendo que o problema são os deficits e dividas externas acumuladas.

    O caso português e irlandês são provas excelentes dessa analise errada e que agora se demonstra na pratica.

    Uma boa teoria teria evitado estes erros de analise e ela existe mas está muito esquecida e desconhecida para muitos .

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  13. Caro Paulo Pereira,

    Como é que é possivel o Senhor, um renomado e praticante neo-liberal (com algum "chavismo" à mistura, é certo)produzir tais considerações acerca das teses neo-liberais?
    Estou assombrado, confesso-lhe!
    Por outro lado, se os mercados, nas teses mais clarividentes que conhecemos (BS Santos, Bloco, Outros) são a própria incarnação do neo-liberalismo, como pode o P. Pereira conceber essa separação entre os mercados e o neo-liberalismo?
    Não haverá aí algum princípio de perigosa heresia?
    Não será de recorrer ao conselho sempre útil do Prof. Galambino para evitar tais derivas de pensamento?

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  14. Caro Tavares Moreira,

    Eu sou um liberal, mas sou um opositor ao neoliberalismo Hayekiano e seus derivados actuais.

    Como já tentei por várias vezes explicar, o neoliberalismo refundado por Hayek e continuado por outros, é uma ideologia que pelo seu radicalismo é prejudicial á sociedade.

    Essa ideologia apresenta postulados que historicamente estão provados como falsos, nomeadamente que o deficit publico e a divida publica são sempre prejudiciais à sociedade, e que os deficits externos têm um grau menor de importãncia.

    Talvez o unico beneficio desta crise na UE e antes nos EUA, seja o ajudar a estabelecer uma prova ainda mais definitiva dos maleficios praticos e dos erros teoricos do neoliberalismo.

    Numa sociedade moderna com mais de 20% de desemprego não é possivel os cidadãos serem livres.

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  15. Outros postulados Neoliberais provados como falsos :

    b) A livre circulação sem regulação de bens e serviços e de capitais é o factor essencial para o crescimento economico no mundo

    c) A privatização de empresas publicas de monopolios naturais (redes de aguas, electricidade, transportes publicos) é em geral benefica.

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  16. Caro Paulo Pereira,

    Já se vai percebendo alguma coisa sobre o seu posicionamento em relação ao modelo económico tido por mais recomendável: (i)um liberal, mas radicalmente anti-liberal sobretudo em relação ao que tenha alguma conotação com o pensamento de Hayek; (ii) alguém que advoga a intervenção do Estado nos mais pequenos detalhes da actividade económica mas ao mesmo tempo adepto da iniciativa privada; (iii) um defensor de mercados livres e concorrenciais mas sujeitos a apertadíssima regulação, de modo que as forças do mercado (as velhas e caducas Oferta e Procura) não tenham a veleidade de se manifestar a não ser pelas pequeníssimas frestas deixadas pela dita regulação.
    Digamos que uma aperfeiçoada mistura (ou blend, talvez melhor) de Fidel Castro e de Milton Friedman, ou, num plano mais distinto, de B.S. Santos e de Arthur Baptista da Silva.

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  17. Caro Tavares Moreira,

    O pensamento de Hayek é só na aparencia liberal , na verdade nele está incorporado de facto uma estratégia de alteração do sistema politico-economico Keynesiano que saiu da crise de 1929-1933.

    Este sistema que ainda vigora em grande parte é o responsável pelo maior aumento da riqueza e de bem estar de sempre na historia.

    O Neoliberalismo Hayekiano pelo contrário tem nos ultimos anos demonstrado o seu valor na UE:

    - desemprego no nivel mais alto dos ultimas decadas

    - aumento da pobreza

    - aumento de impostos e consequente estatização da economia por essa via

    - redução dos gastos em saude e educação

    - aumento da idade de reforma

    - aumentos dos preços dos serviços prestados por ex-monopolios

    - desemprego jovem altissmo, o que vai prejudicar seriamente uma ou duas gerações de cidadãos.


    A comparação entre os resultados economicos do sistema Keynesiano que vigorou na UE entre 1950 e 2000 e o actual sistema de inspiração Hayekiana fala por si.

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