terça-feira, 26 de novembro de 2013

"Adeus"...

A noite já tinha caído há algum tempo quando terminei o dia de trabalho. Desci as escadas e fui até à capela. Tinha de ir sem falta, tinha que me despedir, dizer um adeus silencioso. Nunca gostei de me despedir de ninguém, e quando me despeço nunca digo nada, olho, penso, escuto e recordo. Não gosto de olhar para a face de quem dorme sem preocupações. Prefiro lembrar-me da vida em movimento, olhos a brilhar, lábios a sorrir, sons a encantar, maneiras a ajeitar e as rugas a ondular como que por magia. Prefiro recordar a alegria a sair pelos poros e os cabelos desregrados e soltos a esvoaçar sem medo ao sabor do vento. Olhei e esperei que abrisse os olhos a gritar de satisfação o meu nome como habitualmente fazia. Gostava de a ouvir a gritar o meu nome, nunca percebi bem porquê, só sei que tinha uma sonoridade diferente. Eu ficava contente sempre que a via, porque sabia que ia ouvir o meu nome de uma forma quente. Aquecia-me o nome e tranquilizava-me a alma. Muitas vezes, ao caminhar triste, cabisbaixo, ansioso, preocupado, ouvia, de repente, aquela voz tonitruante, que enchia o ar de alegria e de satisfação, uma adorável voz que me fazia sentir gente. Como por que encanto ficava diferente. De repente esquecia as preocupações que atormentavam a minha mente. Falávamos um pouco. Depois empurrava-me a seguir em frente. 
Olho. Ouço-a a chamar o meu nome na minha mente. 
Saio da capela. 
Afasto-me e continuo a ouvir o meu nome naquele belo espaço que a noite despiu de gente. O som vem atrás de mim, deve ser a sua forma de dizer adeus...

1 comentário:

  1. Sáo inúmeras as imagens que ao longo da vida, se vão gravando no coração de um homem; e que a memória, como um aprelho de vídeo, o faz rever por serem imagens com som... e com sabor.

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