terça-feira, 7 de janeiro de 2014

"Uma viagem de táxi"...

O pessoal daquela zona tem uma particularidade apresenta uma idade aparente pelo menos dez anos superior à real, mas apenas para quem já atingiu a quarta década de vida. Assusta-me um pouco, deve ser devido às condições em que foram criados, com muitas dificuldades e imenso trabalho. Pergunto-lhes invariavelmente a idade e não me surpreendem quando dizem ter cinquenta e poucos quando aparentam sessenta e muitos anos. 
- Qual é a sua idade? Cinquenta e sete anos. Olhei-o um pouco mais atentamente e dava-lhe à vontade sessenta e sete. A conversa continuou, nada de especial, até que começou a queixar-se das dificuldades da vida, tudo como consequência de estar tudo bem, os exames, as análises e a observação clínica. 
- Está tudo bem, felizmente.
- Antes estivesse. A vida está cada vez mais difícil. Faz-me lembrar os tempos do meu pai, quando emigrou para França. Na altura tinha dezasseis anos e também fui para França. 
- Com dezasseis anos?
- Sim, fui ter com o meu pai para ver se ganhava a vida.
- E como é que foi?
- De táxi.
- De táxi?! Deve ter pago um balúrdio!
- Não, fui com mais três pessoas, mais velhas. Éramos quatro.
Achei que a conversa iria dar uma história e desliguei-me do tempo. Dei-lhe a corda necessária.
- Explique-me bem o que é que aconteceu.
- Olhe, senhor doutor, eu julgava que França não ficasse tão longe, que não deveria ser muito distante de Coimbra. A viagem foi longa e com muita confusão, porque ao chegar a certo sítio, os outros tiveram de sair do carro e ficaram de nos esperar numa zona mais à frente.
- Devia ser na fronteira. O senhor ficou no carro?
- Eu fiquei.
- E como passou a fronteira sem documentos?
- Não sei.
Pela conversa deduzi que o taxista não deve ter passado pela fronteira.
Depois questionei-o o que tinha acontecido nos Pirinéus. Hoje já sabe o nome que separa a Espanha de França. Disse-me que naquele lugar tiveram também de sair e andar por montanhas acompanhados de um guia, passando em velhas pontes e saltando ribeiros até apanhar novamente o táxi. A conversa seduzia-me, sobretudo quando me contou o dia em que tomou um café pela primeira vez. Na terra onde vivia, muito pobre, com os sete irmãos, nunca tinha bebido nem visto o que era uma "bica". Foi delicioso e comovente a descrição desse momento. Durante a viagem era o único passageiro que não conseguia dormir, enquanto os outros cambaleavam por todos os lados. Quando tomou o café, se já não dormia, então nunca mais dormiu e foi todo o caminho a conversar com o motorista. 
- Diga-me uma coisa. O seu pai sabia que ia ter com ele?
- Não. Quando cheguei estava a fazer o jantar. Ficou de boca aberta, mas comemos bem.
- E depois?
- Depois? Depois enfiou-me no dia seguinte no mesmo táxi e obrigou-me a regressar. Tinha medo. Era menor e não queria complicações.
- Não me diga que foi e voltou no mesmo táxi? Sorri perante este episódio e a conversa continuou com as peripécias do regresso, passando por locais diferentes e trazendo outros clientes. Destes, apenas um nunca saiu do táxi porque deveria estar legalizado.
- Olhe, senhor doutor. Cheguei numa sexta-feira e no domingo já estava a caminho de Lisboa à procura do trabalho. E eu pensava que França não era muito mais longe do que Coimbra...

Gostei desta história que me ajudou a recordar muitos episódios de gente conhecida que ia a salto para França à procura de melhor vida. Quantos, meu Deus. Quantas aventuras tive oportunidade de ouvir ao conviver com gente humilde que, na estação, nos cafés e nas tabernas, entre dois copos de três e duas valentes puxadas de tabaco, ou um café de saco, iam debitando conversas atrás de conversas.

5 comentários:

  1. Foram tempos de muita fome e de privações que aqui não fica bem recordar.
    Muitos foram e por lá realizaram o sonho das suas vidas, outros por cá continuaram a luta para sobreviver.

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  2. O que mais me impressionou foi o do passador que fazia metade do preço as mulheres que "passava a ferro" durante a viagem.

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  3. Curiosa estória de pessoas que passavam grandes dificuldades.

    Os meus avós maternos, com quem passei muitas férias grandes, viviam em Condeixa. Nesse tempo, quase metade da população masculina da vila estava emigrada em França.

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  4. Subscrevo o comentário do caro Luís Rodrigues, conheci também essa realidade.

    Mas a propósito das dificuldades por que a geração dos meus pais passou e que atingiu parte da minha juventude, tenho-me interrogado muitas vezes sobre a razão de tanto sacrifício, pois vistas bem as coisas Portugal tinha indústria pesada, estaleiros, siderurgia, etc. A resposta que encontro é de que a guerra que enfrentávamos em 3 frentes delapidava os recursos do país.

    Há dias, enquanto jogava golfe no Estoril, a dado passo tive de esperar num tee de saída que a formação da frente saísse do meu alcance; entretanto um alemão agora a residir em Portugal, antigo colaborador do ICEP na Alemanha para a captação e divulgação de investimento, ficou encalhado também no mesmo tee e perguntou-me se podíamos jogar juntos, que a formação da frente estava atrasada, ao que anuí.

    Conversa puxa conversa, disse-me que um dos nossos males era sermos mais comerciantes do que industriais e sendo assim devíamos aproveitar os recursos naturais, o clima, virarmo-nos para o turismo residencial sénior, que havia um mercado em crescendo, milhões de pessoas a envelhecer que a breve prazo iam necessitar de cuidados e nós tínhamos condições únicas para esse grande negócio…

    Olhei para o senhor europeu. Chamava-se Andreas, falava bem português. Na breve fração do tempo em que o olhei senti-me estupidamente subestimado. Falei-lhe de como os portugueses estiveram no mundo. Ele disse-me que sabia…

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  5. Caro amigo, já contei a his-tória, mas recordo-a. Meu Pai foi a salto para França, tinha mais de 60 anos e pediu 7 contos emprestados para tal. Com 4 anos em Paris montando portas e janelas a França ainda lhe deu uma pensão de 290€ até à sua morte. Cá em 2008 meu Pai c/102a, numa pensão adquirida após 70a de 220€, Sócrates tirou-lhe 51€.
    cumprimentos

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