quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Vendas de automóveis crescem 11,7% em 2013...e outras notícias perturbadoras.

1. Foi hoje noticiado que em Portugal as vendas de veículos automóveis tiveram em Dezembro o mais rápido crescimento do ano, tendo aumentado 44,6% em relação ao mesmo mês de 2012, com variações de 41% para os veículos ligeiros (de passageiros e mistos) e de 266% (!) para os veículos pesados...

2. Com os dados de Dezembro, os valores para o conjunto do ano são bastante impressivos: + 11,1% para as vendas de ligeiros de passageiros, +13,8% para vendas de comerciais ligeiros e + 21% para as vendas de pesados.

3. Hoje também, foi notícia a expressiva redução das taxas de juro implícitas na cotação da dívida pública portuguesa (yields), nalguns prazos (2 anos por exemplo) em cerca de 50 pontos base, no caso da dívida a 10 anos ficando já um pouco abaixo dos 6% e aproximando-se dos níveis considerados admissíveis para emissões de dívida no mercado.

4. Esta evolução descendente das yields foi extensiva às dívidas dos demais periféricos, não foi exclusiva da dívida portuguesa, sugerindo que estará acontecendo aquilo que diversos analistas (não Crescimentistas, certamente) previam que é o regresso de investidores internacionais ao mercado da dívida dos periféricos, em busca de yields compensadoras...

5. ... face à ideia que se vai afirmando de que o risco de crise sistémica do Euro está em fase de dissipação - ideia que continua a ser recusada, obviamente, pela generalidade dos analistas sócio-económicos que pontificam na comunicação social portuguesa, axiomaticamente grudados à ideologia da crise, para quem a zona Euro continua mergulhada numa perplexidade sem fim à vista...

6. Hoje também foi notícia a forte subida, em Dezembro, do índice PMI para a indústria transformadora da zona Euro, crescendo ao ritmo mais rápido desde meados de 2011, fixando-se em 52,7 (leituras acima de 50 indicam crescimento da actividade industrial)...

7. Temos pois muito más notícias para os Crescimentistas domésticos, sobretudo os da ala mais “hard”, que felizmente puderam aproveitar a mensagem presidencial para despejar todo o seu arsenal de violência verbal contra as malfadadas políticas neo-liberais e a cobertura presidencial das mesmas (já esqueceram o pedido de revisão da constitucionalidade do diploma das pensões, ingratos)...

8. Enfim, poderá dizer-se que o ano não começa nada bem para os Crescimentistas em geral...mas não se pode nunca perder a esperança: já aí estão anunciadas N greves no sector público, anunciam-se pedidos de revisão da constitucionalidade de algumas centenas de normas orçamentais...

9. Nada está perdido, apesar destas boas notícias, que se vão acumulando (suspeito que vem aí a de um novo crescimento do PIB no 4º trimestre de 2013), o País ainda conserva alguma margem de manobra e capacidade anímica para se afundar...

6 comentários:

  1. Deixe-me ser ainda mais pessimista relativamente ao ponto 9: crescimento do PIB no quarto trimestre e défice orçamental anual abaixo do previsto, acrescento eu...
    Mas concordo, temos ainda uma boa margem de manobra para fazer face a todas estas arreliantes notícias, afinal temos o TC, qual cavalaria, que se for necessário, dirá mais uma vez presente quando mais nada restar.
    A boa noticia é o crescimento do consumo, nestes últimos dias mais parecia que tínhamos voltado aos gloriosos anos do camarada Sócrates. A continuar assim, iremos ter um crescimento baseado no consumo que é precisamente aquilo que os crescementistas mais adoram e ansiavam, até porque crescimento com base em exportações é coisa de país pobre!..

    ResponderEliminar
  2. Não foram só as compras dos automóveis que subiram em 2013, subiu também o número dos muito ricos em Portugal e também a respectiva fortuna de cada um.
    “Um relatório do banco suíço UBS conclui que, em Portugal, há mais 85 milionários – indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares (perto de 22,4 milhões de euros) – do que em 2012. Segundo o Relatório de Ultra-Riqueza no Mundo 2013, este aumento significa que os 870 milionários portugueses detêm, em conjunto, 100 mil milhões de dólares (75 mil milhões de euros), o que representa um aumento de 11,1% em relação a 2012”.
    “Os 25 mais ricos de Portugal são hoje donos de 10% do PIB quando há um ano as suas fortunas não chegavam aos 8,5% do PIB”.
    E então, jogando com os dados que nos dá o TM, só poderemos concluir que eles estão a investir em força em automóveis e dívida pública portuguesa. É a isto que se chama “sinais de crescimento económico” mas atenção, “o País ainda conserva alguma margem de manobra e capacidade anímica para se afundar...”
    Claro que este crescimento também se sente na Europa.
    “Na Europa, o número de multimilionários aumentou 8,7% em relação a 2012, o que significa mais 58.065 indivíduos com fortunas acima dos 30 milhões de euros.”
    “Quanto ao aumento da fortuna, Portugal é apenas ultrapassado por Hungria (12,5%), Suíça (14,5%), República Checa (16,67%), Áustria (16,7%), Grécia (20%) e Roménia (21,4%)”.
    “O estudo da UBS aponta ainda que 23% da riqueza total do planeta está nas mãos de 2170 multimilionários, a maioria concentrada na Europa e na América do Norte”.

    ResponderEliminar
  3. Carlos Sério, se quer honrar o seu nome o melhor mesmo é ler este post antes de falar do crescimento das fortunas: http://desviocolossal.wordpress.com/2013/11/29/ricos-cada-vez-mais-ricos/
    Henrique pereira dos santos

    ResponderEliminar
  4. Caro HPS,
    Será que leu bem o seu próprio gráfico?
    Nele a riqueza dos 25, note bem, apenas os 25 mais ricos é de 80 unidades (?) enquanto as remunerações recebidas pelas famílias (total) é de 70 unidades (?). Então e os outros 845 milionários onde figura a riqueza deles? E os outros milhares de milionários que possuem uma riqueza entre os 10 milhões de euros e os 22,4?
    Mas que raio de gráfico que o dos Santos trouxe para aqui! Afinal o que pretende demonstrar?

    ResponderEliminar
  5. Haverá certamente uma justificação para esses números. Os emigrantes precisavam de um carro para sair, os desempregados precisavam de transporte para procurar emprego, as medidas de forte austeridade estão a sair de carrinho.... O que não faltam são causas perfeitamente plausíveis para isso. À falta de melhor, a inveja serve perfeitamente...

    ResponderEliminar
  6. Caro Brytto,

    A esperança é a última coisa a morrer, como se diz...neste caso a esperança em piores dias, em que tudo corra pelo pior, que as pessoas sofram mais, o País nunca mais saia da "cepa torta": é uma tarefa exaltante, há que reconhecer...

    Caro Henrique Pereira dos Santos,

    Há seriedades que será aconsalhável nunca testar...não se esqueça da famosa caixa de Pandora...

    Caro Tonibler,

    Compreendo perfeitamente, nomeadamente o facto de os desempregados, face às vagas sucessivas de greves nos transportes públicos, não terem outra alternativa que não seja a aquisição de automóvel novo...deverá ser essa a explicação que os Crescimentistas "hard" encontram para alguns destes números...

    ResponderEliminar