sábado, 30 de agosto de 2014

São Bartolomeu

Hoje é o dia de São Bartolomeu. Nunca esqueço este dia por vários motivos, alguns mais prosaicos, outros nem por isso. Na aldeia em que vivi, neste dia comemora-se o santo. Ele lá está, na capela, prazenteiro e bem disposto segurando por uma trela o diabo. Para que o demónio não fique muito irritado liberta-o neste dia para poder dar uma volta. Ou seja, até o diabo tem direito a um dia de liberdade, vai apanhar sol e depois regressa para ficar aprisionado às mãos de Bartolomeu. Nada mau. A festa religiosa é uma realidade que ainda perdura em muitas bandas. Nalgumas zonas pratica-se o banho santo, em que as crianças são obrigadas a mergulhar por três vezes nas ondas do mar para as libertar da influência do diabo e até evitar certa doenças. Um horror. Fui sujeito a esta prática, não no dia de São Bartolomeu, mas foi também num dia de agosto e muito me doeu. Ainda hoje sinto, cada vez que penso nisso, a falta de ar que tive. Um horror que nunca mais esqueci, nem esqueço, talvez daí o meu respeito enorme à água, porque morrer afogado não deve ser coisa nada boa, pensei em pequeno. Mais tarde, muito mais tarde, tive de ver uma senhora que apresentava um quadro psiquiátrico grave, tipo psicótico. A senhora tinha algumas perturbações, mas do tipo depressivo. Nesse dia, que era também um sábado, apresentou-se numa figura que nunca mais esqueci. Perfeitamente fora do normal, com um discurso meio violento. Dizia que estava possuída pelo diabo, porque era dia de São Bartolomeu e o santo tinha-o libertado. Resultado, o diabo tomou conta dela e estava a martirizá-la. O sofrimento e a aflição eram mais do que evidentes. Pediu-me para que a libertasse do diabo. O diabo era que a senhora tinha umas dimensões corporais muito pouco usuais, mais alta do que eu e quanto ao peso nem vale a pena comentar. Tive receio de que o "diabo" se lançasse a mim. Se assim fosse nem São Bartolomeu me protegeria. Com muita calma, e um discurso temperado, tentei ajudar a senhora, até que me lembrei de que tinha umas ampolas de um neurolético. Expliquei-lhe que tinha um medicamento muito bom para a libertar do diabo, mas para isso seria necessário dar-lhe uma injeção sem que o diabo visse. Olhou-me com dois poderosos e profundos globos vidrados de cores diabólicas e não disse nada. Ficou imóvel à espera e eu não perdi tempo. Foram logo duas ampolas. Ainda olhou para a coxa surpreendida e eu continuei com um discurso calmo e o mais temperado possível atendendo à situação. Os minutos iam passando e o efeito começou a manifestar-se. A acalmia tornou-se visível, ficou menos agitada e o discurso diferente. Ai senhor doutor, parece-me que o diabo já está a sair. Pois está. O pior foi convencê-la de que ele não voltaria naquele dia. Expliquei-lhe que teria de ir para casa, tomar os medicamentos e consultar um colega da respetiva especialidade. E ele não volta, senhor doutor? Não, porque o efeito da injeção vai durar muito tempo, e logo à noite o diabo volta a ficar preso. O alívio foi mais do que notório, uma mistura de farmacologia e de fantasia, mas não tive outra alternativa na altura. Soube mais tarde que ficou compensada com a terapêutica e com o acompanhamento instituídos.
Como posso ficar indiferente a este santo, guardador do diabo, que foi esfolado em vida? Miguel Ângelo retratou-o na capela Sistina segurando a própria pele e com a faca utilizada para o esfolar.
Ainda não tenho nenhum São Bartolomeu, mas quando tiver um vou colocá-lo num local de destaque e até promovê-lo a santo patrono dos portugueses, os "esfolados vivos". Neste caso, a diferença é que não pode ser representado com o diabo à trela, porque o santo deixou de o vigiar. De facto, vistas bem as coisas, o demónio passou a andar à solta 364 dias do ano, e apenas um dia por ano poderá ficar acorrentado, ou seja, no dia de hoje...
(24.08.2014)

3 comentários:

  1. Caro Dr. Massano, com o seu texto conseguiu-me arrancar várias gargalhadas. Neste momento estou de férias e costumo comprar uma revista (a Sábado ou a Visão) para estar entretido numa qualquer esplanada e a beber um café ou uma cerveja. Que pena que não seja o Dr. a escrever os artigos…

    Se o São Bartolomeu deixou de vigiar o Diabo, talvez caiba agora a vez aos "esfolados vivos" de começarem a esfolar os diabos que andam por cá à solta 364 dias por ano (365 dias nos anos bissextos).

    Nem é muito difícil. Nós somos dez milhões e os diabos são apenas algumas centenas (isto, já contando com os diabos dos Media, dos fazedores de leis armadilhadas e dos juízes ligados à política).

    Grupos de dois, três, quatro ou cinco "esfolados vivos", podem procurar os ditos diabos, seja no café, no restaurante, na rua ou noutro sítio qualquer, e, com pedras da calçada, com facas de cozinha ou uma barra de ferro, mandar os ditos diabinhos para o inferno. Isto sem qualquer necessidade de andar à pancada com a polícia ou com os militares (outros "esfolados vivos"). O único foco deve ser nos diabos.

    Parabéns pelo seu post e um abraço.

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  2. no prec era
    'são bártolo, Meu |'

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  3. Adorei o post! No Concelho de Baiao, as festas anuais sao em memoria de S. Bartolomeu (com os predicados que descreve), mas no dia 24 de Agosto. O diabo anda mesmo solto...

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