sexta-feira, 8 de junho de 2018

“Caligrafando”...

Hoje, lembrei-me, por mera causalidade, a forma como escrevia na escola. As tecnologias modernas são danadas, obrigam-nos a assinar virtualmente mesmo sem ver o que escrevemos. Para que possam fazer, informo que têm de pegar na "caneta", carregando no botão, e depois escrever no tapete. Mas para que tudo corra bem digo: - Escreva lentamente, pressionando a caneta; olhe, faça de conta que está na quarta classe. O que é certo é que com este conselho acabei com inúmeras dificuldades. Sentado em frente do écran delicio-me a ver o aparecimento da assinatura. - Muito bem. Ficou excelente. Obrigado. Quer ver como ficou? Mostro e ouço: - Nada mal. "Nada mal" embrulhado em simpáticos sorrisos.
Nunca fui dado a uma boa caligrafia, não sei se isso tem a ver com a minha falta de jeito para o desenho, mas, mesmo assim, esforçava-me. A razão era muito simples. O meu pai, que fez a quarta classe, tinha uma caligrafia de espantar, conseguia desenhar as letras ao estilo do título do jornal "Diário de Notícias". Pedia-lhe para que escrevesse o meu nome. Ficava com os olhos em bico. Eu não conseguia. Adorava ver a caligrafia dos outros por dois motivos, conhecer os que escreviam com arte e os que ainda eram piores do que eu. Eram poucos.
Recordo as minhas redações, simples, e elaboradas com grande sacrifício, a testemunhar que a imaginação não brota com tanta facilidade como as fontes frondosas capazes de matar a sede. Mas eu gostava. As frases eram sempre curtas. Tão curtas a ponto de criar outras que fizessem a ligação para que o sentido e objetivo não morressem à nascença. Escrevia na lousa ou em papel costaneira. Depois tinha de copiar para o caderno a tinta. Um trabalhão dos diabos a que não era estranho o maldito borrão que sempre me perseguiu. Muitas vezes surgia cinicamente, a sorrir, na última frase. Nem quero recordar a tristeza que me invadia. O esforço com a caligrafia e um texto limpo relegava sempre para um plano secundário a importância do próprio texto. Depois tentei escrever com letra de gente, desenhada, legível, capaz de ser entendida por qualquer um. Não consegui, até parecia que a maldição do borrão se tinha transformado em letras feias, riscadas, rasgadas, vomitadas, mesmo doentias. Nem as cartas de amor conseguiram ultrapassar esse defeito. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que fica sem a asa. Consegui o que nunca pensei, escrever com letra simpática, esteticamente digerível e, sobretudo, com algum encanto. Para isso tenho que pensar lentamente, ou melhor, não devo pensar e nem olhar para o que escrevo. Os sentimentos e as emoções emergem a querer imitar qualquer Afrodite perdida no meio do mar. Sorrio, porque o efeito é muito agradável, uma espécie de moldura meia barroca e dourada a realçar pensamentos, reflexões e histórias que irão perder-se num qualquer caixote da ilusão onde fermentam, sem cheiros e sem sabores, pequenos segredos da vulgar imaginação.
Dei um grande pulo até à velha e carcomida mesa da cozinha. Junto ao radioso fogão de lenha havia uma salamandra que emanava o mais saboroso dos calores que adocicava as noites de inverno. Sob a luz amarelada de uma lâmpada frustrada, a querer imitar o sol, desenhava com medo, e muito mais sono, as frases da redação desse dia.  - Mãe. Ficou bem? - Ficou pois! A letra está bonita e não tem nenhum borrão. Não sei se lia o conteúdo, mas isso era o menos...

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