terça-feira, 9 de janeiro de 2007

O que é a vida!

Num destes sábados passados, fui calmamente às Avenidas Novas tratar de fazer umas compras e resolver uns assuntos de natureza mais doméstica. Levava um saco de plástico com dois pares de sapatos. Apercebi-me de um sapateiro e entrei.
Um homem de setenta anos, robusto, de ar bondoso, pediu-me, educada mas não servilmente, que escrevesse o meu nome nas solas – um método de identificação eficaz, como é sabido – estendendo-me uma esferográfica com o bico voltado para si.
Nesse momento, disse: “Que pena que tenho de não saber ler.” Primeiro, silenciei-me de pasmo; depois, avisou-me a prudência que lhe retorquisse:
- Qual é o nome do Senhor?
- […].
- É o segundo nome do meu Pai, tem graça. De onde é o Senhor […]?
- De ao pé de Vila Franca de Xira.
- Não é muito longe de Lisboa.
- Não, não é longe de Lisboa.
- Porque é que o Senhor […] não aprendeu a ler?
- Éramos dez irmãos e comecei a trabalhar muito cedo. Ajudava a sustentá-los.
- Porque é que não aprendeu depois?
- Depois já era adulto, trabalhava, ganhava e já não me deu para aí. Estas coisas são mesmo assim. Hoje, tenho pena de não saber ler.
Olhei para as mãos daquele homem. Uma vida de trabalho. Numa pequeníssima oficina. O pouco que pude observar da sua técnica pareceu-me primoroso, sério, feito com esmero e gosto. Vi sapatos já reparados, acertados e engraxados. Pareciam novos. Acrescentei-lhe que já havia poucas pessoas com a sua arte, gente que estava a desaparecer e não tinha sido substituída. Profissões como esta eram nobres, e muito tinham contribuído para a sociedade. Pareceu-me saber tudo isto muito bem.
A quantia que, depois, lhe entreguei pelo arranjo dos sapatos, tanto mais impecável quanto imaginara que não tinham grande concerto, foi a de quem nunca pode enriquecer.
Fiquei comovida. “Meu Deus, como é possível? Que horrível injustiça”, pensei durante dias e penso. A quantas pessoas de bem e úteis à sociedade o Estado teve a infelicidade de não poder chegar!...
O que é a vida!

9 comentários:

  1. É uma história triste que chega a ser comovente. Quantos casos destes haverá por aí, onde não apareceu um golpe de sorte, ou uma mão amiga.

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  2. Eu diria que esta não é uma "estória" triste, mas antes o relato de mais um caso da nossa vida e do país real que somos!
    E se sairmos daqui, das Avenidas Novas, onde resido, bem perto do "seu sapateiro", e formos por essas ruas, suburbios, cidades e aldeias de todo o país?
    É por isso que alguém tem de ajudar a mudar tudo isto! Sairmos dos nossos egoísmos, ou das nossas generosidades de salão, e sermos práticos e coerentes!
    Caro Antonio: ai de nós se estivessemos à espera de um golpe de sorte pou de uma mão amiga! A questão é demasiado geral para se resolver com actos isolados.
    E gostei da sua reflexão, Margarida! No dia em que o Sr P.R. promulgou a lei da segurança social! Que regalias, ou melhor, que direitos estarão garantidos, aos 70 anos, ao seu sapateiro, depois de mais de 60 de trabalho?

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  3. Cara Margarida Corrêa Aguiar,

    Como vê, para esse aí do seu postal não houve demasiado Estado, mas desorganizado e minguado Estado. E quem o apodava de sapateiro remendão, bem poderá agora apreciar e comprovar a sua utilidade social, muito superior à de certa presunção licenciada ou mesmo doutorada que topamos por aí sempre ufana.

    Quando se despreza e vota a uma espécie de ostracismo social certas profissões, ainda por cima pagando-lhes mal, elas têm o condão de se extinguirem ou os seus descendentes trasmudarem-se em licenciados ou doutores, nem que seja em matérias totalmente irrelevantes ou socialmente inúteis.

    É claro que estou falando para todos em geral e para ninguém em particular, como decerto me compreenderá.

    Folgo em verificar que certos amigos da Social-Democracia ainda são sensíveis a estes temas e não consideram todos aqueles que não se transformaram em Gestores, Empresários, Políticos, Assessores ou Conselheiros de Imagem uns meros falhados, uns autênticos Vencidos da Vida, ainda que a expressão goze de prestígio pela sua ressonância cultural.

    Acredite que tenho gostado de ler os seus últimos postais.

    Um seu leitor, agora mais fiel.

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  4. Cara Margarida

    Durante a minha infância e adolescência sabe onde passava grande parte do meu tempo? Sentado ao lado de sapateiros remendões (cinco, veja lá!). Um dia era um, outro dia era outro, umas vezes na vila, outras na estação. Era amigo de todos os sapateiros. Hoje, considero ter frequentado uma verdadeira escola. Muito especial, e com bons mestres. Aprendi muito com eles. Contavam histórias, discutiam assuntos importantes, enfim uma verdadeira fonte de cultura. Alguns não sabiam ler, outros já sabiam, uns eram poetas, outros músicos, mas o que gostava mais era das histórias. Nomeadamente a de um, que um dia foi chamado como testemunha ao tribunal e o juiz perguntou-lhe: - A sua profissão? E ele, maroto, respondeu-lhe com o ar mais sério do mundo “Ourives de sola”, senhor doutor juiz!

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  5. Caro Rui Vasco
    Os nossos "sapateiros" terão certamente muitas dificuldades na velhice. Irão trabalhar certamente enquanto o corpo deixar, pois dele depende todo o seu sustento.
    Sendo pobres ou remediados, mais pobres ficarão quando deixarem as suas oficinas.
    Não é com pensões de sobrevivência e "prestações extraordinárias de combate à pobreza dos idosos" que os nossos "sapateiros" poderão ter uma velhice feliz. O Estado continua a não dispor da capacidade para lhes assegurar os cuidados mais essenciais a uma vida condigna. Confio que a sociedade civil – cada um de nós, das mais diversas formas – poderá dar uma ajuda importante. Sem, no entanto, esquecer e desculpar o Estado das suas obrigações.
    Pode ser que com uma sociedade civil mais humanizada, tenhamos no futuro uma classe política com mais sensibilidade social. Porque a vida não tem apenas dimensão económica.

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  6. Caro António Viriato
    A dimensão humana e a sensibilidade social não são características desta ou daquela profissão, deste ou daquele estatuto.
    Precisamos de investir em educação e em formação, desde o "berço", orientadas para valores e princípios que nos ajudem a crescer, a todos, ainda que na adversidade, sendo solidários para com as outras pessoas.
    Não há bem estar colectivo sem desenvolvimento social. O desenvolvimento económico vai sendo feito, mas pelo caminho não deveríamos esquecer aqueles que mais precisam e que pela sua condição não podem esperar.
    Acredite que fiquei mais "rica" por ter conhecido o Sapateiro da minha história.

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  7. Caro Professor Massano Cardoso
    O que é verdadeiramente nobre é que os nossos sapateiros, como o Homem que me poupou à compra de mais uns sapatos, conhecem bem o valor da sua sabedoria. Mas tristemente sentem que o destino não lhes realizou os muitos sonhos que tiveram.
    São felizes à sua maneira e talvez mais ricos em espírito do que muitos daqueles a quem nada – só aparentemente – nunca faltou.

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  8. Cara Margarida:
    Completamente de acordo com o seu comentario. Por eu mesmo ter tb afirmado "...É por isso que alguém tem de ajudar a mudar tudo isto! Sairmos dos nossos egoísmos, ou das nossas generosidades de salão, e sermos práticos e coerentes!..." Nós a tal "sociedade civil" temos de agir!
    Deixo apenas mais um breve comentario sobre a sua ultima resposta ao prof Massano quando escreve: "...São felizes à sua maneira e talvez mais ricos em espírito do que muitos daqueles a quem nada – só aparentemente – nunca faltou."
    Sabe, é provavelmente verdade! Mas acho que não chega para serenar os nossos espiritos e responsabilidades! Cheira-me àqueles que, no desporto, quando perdem, dizem, no final, que apesar de tudo obtiveram uma vitoria moral! Nós portugueses eramos especialistas nesse argumento!
    Só que isso não me satisfaz. Acho que eles eles têm o direito de ser felizes e serem respeitados como humanos. E não apenas "à sua maneira", isto é não serem "pobretes, mas alegretes"!

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  9. Clara,
    São muitos os "sapateiros" artesãos que por esse País fora têm o seu sustento em risco, habituados a trabalhar muito e a viverem com muitas dificuldades em especial nos tempos que correm.
    São pessoas com um saber imenso e muito talento, que desaparecem sem que o Estado e a sociedade se preocupem em o reconhecer e em assegurar a transferência do seu conhecimento.
    É um grande erro e uma grande perda!

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