quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Memórias de uma viagem presidencial II

A propósito da viagem presidencial à Índia, relembrei ontem os “preparativos” de uma viagem de Soares a Itália, em que participei em nome da empresa a que pertencia.
A esta distância, e para além da peripécia do dinheiro de bolso ontem evocado, lembro-me de três factos relevantes: o discurso de Soares no jantar de gala da Confederação da Indústria Italiana (Cofindustria), a sessão de trabalho com esta Associação em Bolonha, a doença de Soares nesta cidade e o doutoramento de Soares, também em Bolonha.
Estava realmente curioso em ouvir o discurso de um Presidente socialista na casa maior do capitalismo industrial italiano. Foi um discurso notável, adequado ao acontecimento, com uma componente de marketing q.b., que subscreveria por inteiro. Só que de socialista nada tinha. Soares no seu melhor estilo…capitalista no caso!...
A sessão de trabalho dos empresários portugueses com a Cofindustria em Bolonha teve algum interesse, pelo que foi diagnosticado dos problemas de investimento em Portugal, mas foi para esquecer, ou então, para relembrar, pelas peripécias que rodearam o seu início.
Os empresários portugueses estavam representados pela CIP, pela Associação Industrial Portuguesa, pela Associação lndustrial Portuense, para além da CAP e da CCP. Havia lugar na mesa para um representante da Cofindustria e para um representante da indústria portuguesa. Aos italianos não passou pela cabeça que a nossa florescente indústria tivesse três representantes qualificados. A organização portuguesa também não achou o facto relevante. Pelo que se deu a inevitável discussão sobre qual delas, a CIP, a AIP ou a AIP(portuense) devia estar na mesa, já que todas se arrogavam de serem as mais representativas. A sessão começou com largo atraso, depois de se ter colocado mais uma cadeira na mesa, ficando no entanto ainda uma das associações empresariais de fora. Claro que o facto foi glosado durante a sessão, quer por italianos, quer por portugueses. Passados 16 anos, as coisas continuam na mesma, sem uma voz verdadeiramente representativa do patronato industrial português. O que pode explicar muitas das debilidades da nossa indústria. Pois se os industriais nem têm tido nem engenho nem arte para se conseguir entender entre eles, como poderão entender as exigências de uma integração em espaços económicos mais vastos, como a UE, ou a complexidade de uma economia cada vez mais globalizada?

2 comentários:

  1. Caro Pinho Cardão,

    Associações empresariais, enquanto organismos de representação, são um fenómeno contra-natura e anti-económico. Nós não nos devíamos preocupar em unificar as três que existem mas sim em extingui-las (aliás, seria interessante perceber quem é que representam de facto...). Se existem razões pelas quais se sentem compelidos a unir-se em organizações de representação, então o problema está na causa dessas razões, porque não me venham dizer que os empresários do software de Oeiras e de Braga têm alguma coisa a ver com os dos texteis do Vale do Ave e da Covilhã, porque não têm. Aliás, os interesses são diametralmente opostos, os problemas deveriam ser diametralmente opostos e não se deveriam unir nem para cerveja e tremoços. Se existe uma organização que se reclama de representar ambos então, das duas uma, ou existem circunstâncias gravosas no país que devem ser eliminadas, ou a organização não os representa de facto.

    E, como o meu caro refere várias vezes, se não têm engenho nem arte para compreender a complexidade de uma economia globalizada, ciao!(para acabar em italiano) :)

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  2. Caro Pinho Cardão

    Concordo, em grau género e número.
    Apenas resta-lhe acrescentar que, dos actores a que se refere, apenas foi substituído o Presidente da CIP.
    Assim, tem toda a razão.
    Cumprimentos
    Adriano Volfrmista

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