terça-feira, 2 de janeiro de 2007

“Úteros fora de prazo”…

A notícia segundo a qual uma mulher espanhola de 67 anos deu à luz gémeos vem mais uma vez questionar a “legitimidade” de tamanho acto.
As diferentes espécies procriam até muito tarde. Na espécie humana, os homens também dispõem dessa capacidade. Em contrapartida, as mulheres, e também “as” gorilas, partilham da menopausa o que as impede de continuar a procriar. As interpretações e análises evolutivas deste fenómeno são muito interessantes. Parece que surgiu muito cedo, traduzindo uma resposta aos elevados custos de gestação, lactação e longos cuidados maternais que acompanhou a encefalização dos primeiros hominídeos, há cerca de 1,5 milhões de anos. Ou seja, a senescência reprodutiva pode ser vantajosa quando o potencial de vida não ultrapassava os 50 anos.
Ter muitos filhos não é muito saudável, além dos problemas sociais inerentes a esta situação. Basta ver as lutas que foram desencadeadas a propósito do planeamento familiar e que culminou na utilização maciça da pílula contraceptiva. Foi uma das maiores revoluções que a humanidade sofreu.
Na altura, ter muitos filhos, nas condições de penúria generalizada, gerava mais miséria e infelicidade nos novos seres. O custo para a saúde das mães também não seria das melhores. Passados todos estes anos, foi possível concluir que, de facto, a saúde dos casais piora à medida que aumenta o número de filhos. Um maior número de filhos implica maior probabilidade de morte prematura dos pais, mais da mãe, atingindo igualmente os filhos mais jovens.
Estes achados são muito importantes, porque legitimam o facto de as mulheres preferirem ter menos filhos que os maridos e reduzir a sua fertilidade. Para já, a Natureza, em parte, encarregou-se em atender às suas necessidades, graças à menopausa, mas com o tempo e com as revoluções sociais e culturais, entretanto ocorridas, a limitação à produção de muitos filhos tornou-se, para a grande maioria dos casais, um imperativo ao permitir melhores cuidados na longa e complexa atenção que os filhos exigem no decurso do desenvolvimento. Longo, complexo e dispendioso, ao ponto de provocar fortes dores de cabeça aos actuais governantes de muitos países devido aos desequilíbrios demográficos verificados. Nem os apelos e incentivos disponibilizados por alguns governos são suficientes para inverter a situação do envelhecimento demográfico. De qualquer modo, os novos dados vêm dar mais um contributo às mulheres para não terem muitos filhos: prejudicam a saúde! Claro que no meio disto tudo, o aparecimento de mulheres pós menopausa a produzirem filhos não vai alterar em nada o determinismo evolutivo, além de constituir um eventual capricho. É certo que constitui uma prova de, em caso de crise, e havendo necessidade de produzir mais seres humanos (nunca se sabe!), podermos socorrer de úteros, aparentemente, fora de prazo! Sempre é uma garantia, mas é preferível tê-los na devida altura, em condições que não prejudiquem a saúde e promovam o equilíbrio e bem-estar da sociedade.


3 comentários:

  1. Anónimo22:52

    Apetecia-me, dizer a propósito, meu caro Professor, que ao caso se aplica a política ambiental dos 3R...
    Mas não digo, que o assunto é sério e eu poderia ser mal intepretado ;)

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  2. Muito interessante o seu post, Prof. Massano, com a evolução a este ritmo conseguimos "descolar" a procriação do ciclo normal de vida. A verdade é que os jovens ocidentais têm filhos cada vez mais tarde, e agora com essa possibilidade científica dos úteros recicláveis não sei onde vamos parar!

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  3. Caro professor,

    Venho aqui só dizer que leio este blog especialmente por causa dos seus comentários. Gosto mesmo muito do que escreve. Continue!

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