sexta-feira, 30 de março de 2007

Para memória futura I

Todos os dias o Governo diz que a despesa diminuiu. Ora vejamos os números do INE, respeitantes às Contas das Administrações Públicas, referentes a 2005 e 2006:
1. Evolução dos Impostos:
Passaram de 35.001 para 37.592 milhões de euros, aumentando 2.591 milhões de euros.
Tiveram um acréscimo de 7,4%, muito superior à inflação.
O peso no PIB passou de 23,5% para 24,2%.
2. Evolução de Outras Receitas, incluindo Segurança Social:
Passaram de 26.749 para 28.009 milhões de euros, aumentando 1.260 milhões de euros.
Tiveram um acréscimo de 6,6%, muito superior à inflação.
O peso no PIB passou de 17,9% para 18,1%.
3. Evolução da Despesa Corrente:
Passou de 64.567 para 66.323 milhões de euros, aumentando 1.756 milhões de euros.
Teve um acréscimo de 2,7%, superior à inflação
O peso no PIB passou de 43,3% para 42,7%.
4. Evolução da Despesa de Capital
Passou de 6.088 para 5.334 milhões de euros, diminuindo 754 milhões de euros .
Teve um decréscimo de 12,4%.
O peso no PIB diminuiu, passando de 4,1% para 3,4%.
5. Evolução do Défice
Passou de 8.904 para 6.055 milhões de euros, diminuindo 2.849 milhões de euros.
Teve um decréscimo de 32%.
O peso no PIB passou de 6% para 3,9%.
6. Em síntese:
As receitas aumentaram 3.851 milhões de euros e o défice diminuiu 2.849 milhões de euros
Se o défice diminuiu menos do que o aumento das receitas é porque as despesas subiram, no caso 1.002 milhões de euros.
Este valor de 1.002 milhões de euros resulta da combinação do acréscimo das despesas correntes, 1.756 milhões de euros, com a diminuição das despesas de capital, 754 milhões de euros.
7. Conclusão:
Em termos nominais, a única contribuição para a diminuição do défice deveu-se ao aumento das receitas.
A despesa em nada contribuiu, porque aumentou. E da pior forma, já que o aumento se deu na despesa corrente e a despesa em investimento público até diminuíu.
Não devia o Governo ser um pouco mais comedido, quando diz que diminuiu a despesa corrente ?
Veremos depois as variações em relação ao PIB

8 comentários:

  1. É mesmo assim, Pinho Cardão: rigoroso, preciso, sem discussão.
    Importa apenas acrescentar que, estivessem hoje na oposição os mesmos que executam e que apoiam na A.R. esta política, teríamos um chinfrim (barulho, balburdia) insuportável por causa da quebra do investimento público.
    O que mostra que esta gente não tem convicções, tem apenas conveniências - e de ocasião.
    Pela minha parte, como bem sabe, a quebra do investimento público não foi e não é problema, problema é sim o da qualidade do investimento.
    Por mim, não mudo de opinião por estar no campo de apoio ao Governo ou no campo oposto.
    É uma questão de convicção, não de conveniência.
    E creio que o meu Amigo também.

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  2. Parabéns pela análise e pela sua oportunidade. Aguardo com expectativa a continuação em termos de PIB.
    Este governo, que se mostra mais voraz que os outros anteriores,veste a pele de cordeiro, e passa dissimulado por uma comunicação social indolente, preguiçosa, pouco rigorosa e subserviente que anda como barata tonta a correr atrás das conferências de "imprensa", diga-se propaganda dos ministros, apregoando a redução da Despesa Corrente do Estado.E a mentira, como tão bem demonstrou, é apregoada todos os dias.
    Com o PRACE estou em crer que a DCE irá aumentar mais ainda.

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  3. Viva,

    A análise é rigorosa mas é preciso marcar uma diferença, ou seja, entre despesa corrente (total) e despesa corrente primária.

    Como sabes a dívida pública em Portugal é elevada e o défice orçamental existe este ano (apesar da redução) e é normal que o peso dos juros da dívida aumente. É também natural que, num ano em que os juros aumentaram significativamente, que o peso dos juros seja muito maior. Dito isto apesar da despesa corrente aumentar (e não estou a ter em conta a inflação) é natural que a primária tenha descido.

    Não há nenhum engano nas tuas contas mas estas não excluem uma diminuição das despesas que, neste momento, interessam. Inverter o problema da dívida pública e o peso dos juros só vai ser possível em três cenários: Quando o défice orçamental for um superavit (não vai ser tão cedo), quando os juros da dívida baixarem (não vai ser este ano, em princípio) ou quando houverem receitas que não podem ser contabilizadas no défice mas podem diminuir a dívida. Por isso a conclusão, na minha opinião, ficou incompleta.

    Abraço,

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  4. Caro Ricardo:
    O meu amigo diz que "é natural que a primária tenha descido", referindo-se à despesa, claro.Lamento desiludi-lo, não eu, mas o INE!...
    Com efeito,a despesa corrente primária não desceu.Sem os juros, a despesa teve um aumento de 1431 milhões de euros, passando de 60.537 milhões de euros para 61.968 milhões de euros, equivalente a 2,4%, ligeiramente menos do que o aumento de 2,7% da despesa total, mas aumento e não diminição.

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  5. Caro Pinho Cardão,

    Correcto. A despesa corrente primária não desceu, como incorrectamente disse. O valor avançado pelo Governo - de redução - não tem em conta o aumento das prestações sociais que fazem, naturalmente, parte da despesa corrente primária. O que diminuiu foram as despesas com pessoal, explicadas pelo congelamento das carreiras na Função Pública.

    Desta forma a análise feita está correcta e retiro o que disse o que, mesmo assim, representa um aumento moderado das despesas que, em percentagem do PIB, diminuiu.

    E, da minha parte, não há desilusão sem ser a óbvia, ou seja, que para Portugal era positivo um maior controlo do aumento da despesa.

    Abraço,

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  6. Caro Ricardo:
    Da discussão nasce a luz ( espero bem que a da 2ª circular brilhe pouco amanhã à noite, no jogo com o FCP!...)!...
    Mas há um ponto do seu comentário em que ainda discordo consigo. É quando diz que " para Portugal era positivo um maior controlo do aumento da despesa". O que eu digo é que para Portugal era positivo uma diminuição da despesa!...
    Quanto ao resto, no seu blog, Memórias do Filho do 25 de Abril, são uma maravilha aquelas fotografias da vitória do FCP no ano passado!... Estimo bem que as actualize lá para Maio!...

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  7. Caro Pinho Cardão,

    Sem querer eternizar a questão também concordo que temos que diminuir a despesa em % do PIB mas só até certo ponto. Não sei se concordamos com as funções do Estado mas com as actuais dificilmente vamos reduzir muito mais do que os 40% e não te esqueças que se certas funções forem "privatizadas" não significa que as despesas familiares vão diminuir (a despesa do Estado sim). Ou passam a FSE para o Estado (por exemplo, privatizar a limpeza no sector público) ou as famílias simplesmente substituem os seus gastos de impostos para seguros ou outros pagamentos (caso da saúde). Sou um pouco céptico no outsourcing entre Estado e privados porque acho que é incompatível a falta de fiscalização dos gastos por parte do Estado com a sede de lucro por parte dos privados e também sou um pouco céptico em privatizar certos sectores porque duvido que a distribuição dos riscos (redistribuição e universalidade) possa ser feita de forma mais eficaz pelos privados em sectores que fogem aos padrões normais de formação de lucro.

    Posto isto, quanto às Memórias do Filho do 25 de Abril foi uma ideia de arquivo para o blogue principal (Filho do 25 de Abril) que não é actualizado há algum tempo. Agora só actualizo o blogue principal.

    Não sei se vai haver novas fotos da vitória do FCP. Tenho um lugar anual mas os dois últimos jogos que fui ao Dragão (Estrela e Sporting) fizeram-me decidir por um longo descanso :). Amanhã vamos ver se a motivação regressa :).

    Abraço,

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  8. Excelente post: rigoroso, factual e oportuno.

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