terça-feira, 10 de junho de 2008

Desgoverno

É óbvio que esta paralisação dos camionistas é mesmo um bloqueio.
Há muitos que querem trabalhar, mas não podem circular.
E os que tentam passar são ameaçados, apedrejados e... bloqueados!
Em democracia isto é intolerável.
É inaceitável que a polícia assista a actos de puro banditismo e nada faça.
Se os camionistas tinham razão nas suas queixas, perderam-na com estes comportamentos.
A coacção é uma tirania que não pode ter lugar num país democrático.
Entretanto, o nosso Governo faz declarações que roçam o surrealismo.
Começa a evidenciar-se a situação de enorme fragilidade de José Sócrates.
Esquece-se o discurso da "autoridade do Estado".
Deixa-se a GNR aparecer, mas esta nada faz.
Lançam-se avisos sobre os direitos dos outros, mas nada acontece.
Já temos desgoverno!

15 comentários:

  1. Penso que está a ser um pouco redutor na sua análise, desculpe que lhe diga, Caro Vitor Reis.

    Penso que há é uma falta de estratégia, ou estratégia errada, como queira, quanto à política de transportes de mercadorias.

    Só rodoviário ? Porquê ?

    Porque se acabou com o transporte de mercadorias por via ferroviária ?

    Já tenho ouvido distintos empresários (BA) reclamar essa necessidade, que não é atendida.

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  2. Tenho (muitas)dúvidas. E não faço uma pequena ideia de como ultrapassar a situação, muito mais perigosa do que possa parecer, que atravessamos.

    O bloqueio dos transportadores de mercadorias alastra-se a Espanha, França, Bélgica, ... Se o governo português decretar a requisição civil ou tomar outra qualquer medida semelhante pode imeditamente desencadear uma reação dos operadores além fronteiras que estão a fazer o mesmo.

    No ponto em que as coisas estão parece imprecindível a tomada de medidas urgentes a nível da UE.

    Virão a tempo de evitar uma confusão geral que se sabe como começa mas nunca se sabe como acaba?

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  3. Anónimo22:33

    A GNR nada faz, Vitor?!
    Então não a tens visto a proteger os bloqueios?
    E a reportar aos orgãos de comunicação social os locais onde se verificam as paralisações?
    E a aconselhar os camionistas que não aderiram ou que consideram que nada têm que ver com os interesses que justificam o boicote que se desviem ou que parem pode haver sarilho?
    Queres papel mais eficaz do que aquele que a GNR tem desempenhado com diligência de verdadeiros escuteiros?

    Calculo que sejam essas as instruções que a nossa prestimosa Guarda recebeu do MAI, por isso a ironia não é censura...

    Está fresca, ainda, a memória dos incidentes resultantes do bloqueio da ponte 25 de Abril no tempo do derradeiro governo do Profesor Cavaco Silva. E das consequências políticas que desse episódio adieram.
    Está fresca essa memória em quem é responsavel por este movimento de desafio mais primário à autoridade do Estado, como bem dizes, e que espera que tal lembrança funcione como pressão. Mas está-o, também, na cabeça do Senhor Primeiro-Ministro que evitará a todo o custo impor a razão pela força.

    Há umas semanas, a SEDES alertava para o risco de explosão social. Não adivinhou. Leu os sinais, aliás tantas vezes aqui conversados entre nós. Aí está ela, sem que o Governo, que na ocasião assobiou para os passarinhos com as habituais soberba e arrogância, mostre ter condições para a controlar.
    Começa-me a preocupar, no entanto, a euforia com que alguns sectores encaram esta situação de degradação da paz social e descontrolo económico. Deveríamos estar todos preocupados, muito preocupados e a exigir que se faça as inflexões de políticas, ou pelo menos se tomem as medidas de emergência que a situação reclama.

    Preocupa-me tanto o regozijo de alguns por estes actos de intolerável desobediência civil, que nada tem de legítimo, como a falta de capacidade de Sócrates e patentemente de alguns dos seus ministros - é notoriamente o caso de Manuel Pinho e de Mário Lino - de controlarem a situação sem mais estragos.

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  4. Esta paralisação dos camionistas, por ordem dos empresários, tem todo o interesse em ser analisado pelos danos que pode causar na economia e também no bem estar dos portugueses. As prateleiras vazias de um supermercado podem contribuir para que se gere um clima de revolta que nem o euro 2008 consiga apaziguar.
    Sobre esta paralisação, eu não percebi ainda qual é a “última” posição do governo. Se é não ceder, então há que dizê-lo muito claramente, e explicar de forma a que toda a gente entenda, o motivo de não baixar os combustíveis. O governo pode dizer ainda que a única alternativa é fazer repercutir os custos dos combustíveis nos serviços prestados, o que numa economia de mercado tem toda a lógica.

    Agora um país em Viana do Castelo, outro em Fátima (as criancinhas), e outro ainda, talvez o mais real, nas estradas a fazer bloqueios! Tenham dó... Este desgoverno é que não pode continuar.

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  5. Os bloqueios estão a atingir proporções perigosas além de questionarem a autoridade do estado. Mas o problema mantém-se e os nossos governantes são incapazes de encontrar uma solução, percebe-se, baixar os impostos sobre o gasóleo (a solução mais simples nas circunstancias já que não se compreendem taxas tão elevadas num produto essencial e numa altura em que os preços estão muito altos) baixar os impostos dá origem a outro problema: receitas fiscais menores logo deficit maior... logo agora que o PM aceitou baixar o IVA para 20%!
    Não estaria na altura de apostar no transporte público ferroviário? que tal modernizar as linhas existentes - por exemplo electrificar a linha do sul para acabar com aquelas composições lentas e poluentes que por lá andam e permitir que o intercidades chegue a VR S Antonio. E a linha do Douro, porque não melhorar (apewnas melhorar...) o troço entre o Pocinho e o Tua? e a politica de preços da CP? em vez de preços superiores aos autocarros, não seria lógico praticar preços mais baixos nos comboios que têm uma taxa de ocupação baixa (linhd do douro Pocinho-Porto, um preço identico a Régua-Pocinho), etc, etc.

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  6. -O mesmo acontece em Espanha, diga-se, parece-me que a U.E. com a sua cultura de subsídios tem responsabilidades, pelas distorções que introduz, falar em concorrência é uma miragem. Os estados demitem-se das suas responsabilidades, neste caso o governo português, têm demasiada contemplação para com arruaceiros. E o ministro Rui Pereira no Brasil.

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  7. Anónimo12:12

    A paralisação dos camionistas é mais grave do que as habituais greves dos 200.000 porque é espontânea e envolve o sustento de muitos pequenos empresários e seus trabalhadores.

    O governo contribui para a situação pois andou a dizer que não tinha cabimento congelar preços, etc, quando todos sabíamos que estava em causa o ISP e o IVA mais alto que em Espanha.

    Os governos passam a vida a incentivar o surgimento de novas empresas, mas depois perseguem as pessoas com regras, taxas, multas e impostos. É um sistema orientado por um sentimento de inveja face aos que têm a iniciativa e tentam ser independentes de um estado podre.

    As pessoas que ganham em função do trabalho e não em função de direitos adquiridos, têm mais moral e mais força. Esta é a razão da gravidade da situação.

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  8. Ora aí está um Agitador inteligente e arguto,a pôr o dedo na ferida.
    "As pessoas que ganham em função do trabalho e não em função de direitos adquiridos, têm mais moral e mais força".
    Muito bem!...

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  9. O Governo tem tentado a todo o custo manter as "vantagens" da crise que proporcionam, pelo menos ao nível do IVA, aumento da receita fiscal.
    Mas já se apercebeu, demasiado tarde, dos efeitos imprevisiveis do rastilho da instabiliade social e do efeito "bola de neve" das paralizações sectoriais: Pescas, primeiro e agora com o transporte rodoviário de mercadorias.
    Os efeitos da primeira cedência aos Pescadores, independentemente da justiça das mesmas, ateou o rastilho dos últimos, que podem conseguir em poucas horas bloquear a economia do país.
    Sucede que o PS, em 1994, aquando do bloqueio da Ponte foi o primeiro a embandeirar em arco com a "oportunidade" de cavalgar a onda de contestação. Quem não se lembra do "Direito à indignação" ! Grandes figuras Socialistas, como Armando Vara, que posteriormente foi Secretário de Estado Adjunto do MAI, e Ministro, a passar a ponte sem pagar, desafiando a autoridade do Estado.
    Nesse caso estavam em causa, se bem me lembro, 50 centimos ou 100 escudos...
    Agora temos Gasoleo a + de1,400 euros.
    Como o efeito deste bloqueio já vem amplificado da Europa, dita civilizada, e dado que Portugal está bloqueado pela Espanha, é imprevisível...
    Esperamos pelas medidas urgentes, que já tardam, que o Governo de José Socrates, que dispõe como Cavaco em 1994, de sólida maioria Parlamentar, irá tomar nas próximas horas.
    Convém sublinhar o silêncio, gritante, da nova e credível líder da oposição.
    Alguém viu ou ouviu a Dra Manuela Ferreira Leite nos últimos 10 dias ?

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  10. Oh meus amigos!
    Transporte ferroviário como alternativa ao rodoviário?? Em Portugal??
    Seria preciso que tivessemos escala. Não temos!
    Seria necessário que as distâncias a percorrer fossem grandes. Não são!
    Seria necessário que houvesse quantidade e regularidade neste tipo de procura. Não há!
    O transporte ferroviário de mercadorias é totalmente diferente do de passageiros. Não basta colocar um comboio em movimento e abrir e fechar portas nas estações e apeadeiros.
    Com a actual gestão de stocks das empresas, que reduziu o armazenamento no posto de venda ao mínimo, a única solução é o transporte rodoviário porque as quantidades são pequenas, os destinos muito diversificados e as distâncias são normalmente inferiores a 100 Km.

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  11. Anónimo18:56

    Caro Vitor Reis, o meu caro bloguista vai perdoar-me mas a sua análise enferma de erros tremendos no que toca a transportes, nomeadamente ao transporte ferroviário de mercadorias.

    O uso do transporte ferroviário não está, de todo em todo, dependente da escala. Veja o caso da Suíça, um país quase do tamanho do nosso alentejo e que tem uma rede ferroviária com 4000km. E onde se transportam mercadorias, muitas mercadorias, não apenas de atravessamento como também locais. Ou o de várias redes privadas da Alemanha onde é feito o transporte de mercadorias também em distâncias curtas. Da raia ao mar são 200km, de Chaves a Faro são mais de 700. E podemos ainda chegar ao hinterland dos nossos portos que chega bem dentro de Espanha, não sendo por acaso que os terminais de mercadorias de Elvas e Vila Real de Santo António são um tremendo sucesso e a quantidade de mercadoria transportada de Portugal para Espanha diariamente com o recurso aos comboios é tão vasto que não é raro encontrarem-se 3 locomotivas Portuguesas na estação de Badajoz ao mesmo tempo. O tráfego ferroviario representa ainda assim uma fatia pequena (menos de 10% se a memória não me trai) da tonelagem total transportada no tráfego transfronteiriço. Muito menos no tráfego interno. Aliás, não é por acaso que o responsavel pelo novo operador ferroviário de mercadorias, Takargo, anunciou que as intenções da Takargo não passam, de todo, pela concorrência com a CP nos tráfegos que esta já tem. O novo operador não precisa, mas de todo em todo, de concorrer com a CP dado que o potencial de crescimento do uso da ferrovia para transporte de mercadorias em Portugal é tão vasto, tão vasto, que concorrer com o operador tradicional seria um imenso dispendio de energias totalmente desnecessário.

    O uso do comboio não está dependente das distâncias, em absoluto, e a ferrovia é usada (até cá) como parte de cadeias logisticas de abastecimento e escoamento "just-in-time". Dou dois casos como exemplo, a Auto-Europa, que recorre a esta filosofia no escoamento da sua produção em que os automoveis aí produzidos são transportados para o Porto de Setubal que fica ali a dois passos e não num único comboio diário mas sim em 4 comboios normalmente e que em alturas de maior produção aumentam para 5 ou 6 e também no abastecimento de alguns elementos necessários à sua produção, alguns vindos da Europa Central. Outro exemplo o abastecimento de jet-fuel ao aeroporto de Faro que é feito por via ferroviária até ao terminal ferroviário de Loulé e daí transbordado por camião para o aeroporto. Aqui um comboio diário chega perfeitamente.

    Lamento, Vitor Reis, lamento muito mas ver o transporte de mercadorias por caminho de ferro como algo apenas para grandes distâncias e apenas para procuras regulares e de muito grandes quantidades unitárias é um tremendo erro e, aliás, com o incremento das cargas contentorizadas e a existencia de contentores adaptados ao transporte de graneis, cada vez mais o comboio é um instrumento inevitavel no transporte de mercadorias, seja sozinho, seja em colaboração com a camionagem para a distribuição capilar aos locais onde a ferrovia não chega e não é possivel fazer ramais particulares para serviço de industrias e comércios. A camionagem tem o seu papel, claro. Na distribuição capilar.

    Há clientes do transporte ferroviário em Portugal que recebem/expedem 1-2 vagões por semana mas isso não representa o mais pequeno problema. Esses 1-2 vagões são transportados até uma gare central junto com vários outros da mesma região - para isto servem as plataformas logisticas e as gares de triagem ferroviarias, estações onde as cargas são concentradas - e daí transportados até outra plataforma logistica que serve o destino e daqui até ao fim do seu trajecto. E isto com enormes economias em relação ao transporte por via rodoviária.


    No que toca às suas palavras no post original sobre o desgoverno, a inacção das forças da autoridade do estado e ao surrealismo - será marca de desnorte? - de algumas palavras do governo estamos inteiramente de acordo. Agora, isto nada tem a ver com a manutenção do nosso paradigma de transportes que terá imperativamente que caminhar para formas de transporte extremamente mais eficientes. E o governo tem aqui uma grande palavra a dar mais do que meras obras de fachada e power-points de apresentação. É uma entre muitas medidas estruturais que é necessário fazer.

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  12. Caro Zuricher, observo que é uma pessoa muito entendida na área do transporte ferroviário.

    Não sei se já teve a oportunidade de ouvir o Sr. Eng. Belmiro de Azevedo, um defensor da utilização primordial da ferrovia para as mercadorias.

    Pessoalmente, penso que faz todo o sentido, a utilização ferroviária.

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  13. Anónimo23:58

    Querida pezinhos, muito obrigado pelas suas simpáticas palavras. :-) A minha formação é, realmente, na área de transportes e, embora tenha desenvolvido a minha actividade na aviação, a ferrovia sempre foi o modo que mais interesse me desperta, sobretudo agora que tantas e tão grandes evoluções vem tendo. E, claro, há lugar para todos os modos de transporte, todos eles têm um lugar.

    Vários industriais clamam pela ferrovia ao serviço das suas actividades precisamente porque sabem o quão mais barato isso iria sair-lhes. Infelizmente, não há, em absoluto uma prioridade do Estado (não é culpa do governo A ou do governo B, é de sucessivos governos) a que se fomente de forma clarissima a transferência do modo rodoviário para o modo ferroviário. Quer ao nivel das infra-estruturas, quer ao nível de directrizar a CP de forma clara para captar tráfegos, dando-lhe os meios para ter uma postura de enorme agressividade no mercado. Não é um exclusivo Português, passa-se em varios sitios da Europa, onde os operadores privados que entram no mercado do transporte de mercadorias estão a fazer o que as transportadoras estatais não fizeram em décadas e décadas de operação.

    Com a entrada de operadores privados no tráfego de mercadorias a questão da oferta comercial irá melhorar bastante mas o congestionamento das infra-estruturas será uma realidade ainda maior do que já é hoje em dia em alguns pontos da rede. E isto só se resolveria com a tal aposta clara no transporte ferroviário. Aposta essa que faria sentido por questões ambientais, financeiras, económicas, enfim, por uma questão de eficiencia geral.

    Como disse atrás, estas crises podiam ser muito uteis para alterar este tipo de paradigmas e proceder-se a uma verdadeira reforma estrutural de todo o transporte terrestre de mercadorias. Mas perdeu-se a oportunidade.

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  14. Anónimo11:44

    100% de acordo caro Zuricher

    A minha experiência junto da CP foi na renovação da linha da Beira Alta e nunca mais me esqueço quando precisava da presença do Contra Mestre de um determinado troço, e ele me disse que estava disponível desde que não fosse à quinta feira pois era dia de caça.

    Até o Contra Mestre considerava a ferrovia em segundo plano.

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  15. Ahahahaha, não é só na ferrovia, que a "ida à caça, á quinta feita", enquanto prática cultural muito portuguesa, "agita" os mapas de absentismo, das empresas.

    E por vezes, tb "agita", os mapas de acidentes de trabalho.

    Como ? Eu digo.

    Simula-se um acidente de trabalho, à quarta feira, para ter um pretexto, de faltar ao trabalho à quinta feira.
    E assim a ida à caça concretiza-se.

    "Espertices e manhosices" lusitanas....

    :-))))

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