quinta-feira, 12 de junho de 2008

“Os corpos dos outros”...


A exposição de corpos humanos plastificados, segundo as técnicas de Gunther von Hagens, teve lugar em Lisboa no ano passado. Recordo ter sido interpelado sobre esta matéria, tendo afirmado, na altura, estar contra este tipo de uso do corpo humano, não obstante reconhecer que a polimerização é uma técnica brilhante do ponto de vista técnico-científico e que, por este motivo, deverá ser utilizada para fins científicos e ensino. Só que não considero correcta a utilização para fins comerciais ou artísticos, porque um morto tem “direitos”, deve ser respeitado e a forma como são expostos revelam que estão a ser profanados.
O segundo ponto subjacente a este fenómeno prende-se com a origem dos cadáveres: China! São muito fortes as suspeitas de que os corpos são de condenados, o que não é de admirar, atendendo ao sistema político reinante. É tudo barato, desde a produção laboral, passando pelo trabalho infantil, até ao comércio de órgãos.
Apesar da exposição continuar em Nova Iorque, desde 2005, as autoridades não estão satisfeitas com a “palavra” dos responsáveis, segundo os quais foram cumpridos os procedimentos éticos na obtenção dos cadáveres. Tanto mais que “acabaram por concordar não poderem confirmar que os cadáveres exibidos nas exposições não sejam de prisioneiros chineses executados, torturados ou sujeitos a outras formas de abuso físico”.
A Laogai Research Foundation tem denunciado o “comércio da morte” e, segundo esta organização, “alguns dos corpos autorizados à Premier pertenciam, de facto, a prisioneiros chineses executados”.
A má consciência da Premier Exhibitions obrigou-a a assumir o compromisso em indemnizar as pessoas que visitaram a exposição de Nova Iorque se, no espaço de seis meses, enviarem o comprovativo do bilhete e uma declaração de que não teriam ido ver a exposição se soubessem que os cadáveres poderiam ter sido de prisioneiros chineses!
Em França, o Comité Nacional de Ética não deu aval à exposição que foi recusada pelos Museus Nacionais Franceses. Mesmo assim acabou por ser acolhida em Lyon.
Os que acolhem esta exposição defendem-se, argumentando que se tratam de chineses que doaram os seus corpos à Medicina! Tudo feito, segundo as leis chinesas. Pois! Nós sabemos...
Dá dinheiro? Não dá?...

6 comentários:

  1. Anónimo12:09

    É, de facto, das coisas que me faz mais impressão, o comércio da morte...

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  2. É lamentável esta relativização de valores. Fosse qual fosse a origem dos cadáveres, expô-los por razões "artísticas", mesmo que em vida as pessoas os doassem para tal, parece-me de franco mau gosto e rompe claramente as fronteiras da ética.
    Obrigado por trazer a lume de novo este assunto.
    Como nós somos, em matéria de algumas elites culturais, da parvónia mais parvónia que a parvónia, tivemos a coisa por cá.
    Cumprimentos.
    Ângelo Ferreira

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  3. Subscrevo por inteiro os comentários que antecedem.

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  4. É macabra, esta versão comercial de que "na natureza nada se perde nada se cria, tudo se transforma", a profanação, como muito bem aqui é apelidada esta prática, causaria repulsa e terror em tempos idos, onde o respeito pelos cadáveres era sagrado. Uma das formas de espalhar o terror e provar a dureza dos conquistadores era precisamente a violação das sepulturas, símbolo máximo do desprezo pelos conquistados. Hoje, pelos vistos, exibe-se como arte e merece a admiração de muitos. Não é um problema de falta de religião, mas de desumanidade levada ao extremo, a banalização da morte e a utilidade artística dos restos mortais. E essa ideia de devolver o dinheiro dos bilhetes a troco da paz de consciência condiz também com a cedência ao mais elementar dos princípios.

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  5. "Cada cabeça, sua sentença"
    O facto de os "plastificados" terem sido prisioneiros, não lhes agrava a pena, nem lhes dita a inocência, sequer ou tão pouco redime dos actos aqueles que que foram os carrascos.
    Tal como o caro Professor Massano Cardoso refere, sem nos alhearmos do facto de sermos socialmente um corpo, convem acertar num ponto: A exposição é, ou visa um fim prático e útil, capaz de produzir mais valias no campo do conhecimento e do entendimento?
    Se sim, sentimentalismos à parte, é conveniente.
    Se visa por outro lado, chegar à imagem do lúdico, ao contraste físico entre a vida e a morte, ao jogo de actracção/temor que todo o ser humano sente perante o desconhecido, pela vertigem, frente àquilo que muitos consideram ser o tabu da existência... então precisamos entender esta exposição como o desafio aos sentidos e ela só terá o valor que cada um lhe atribuir.
    Se não lhe acharmos outro propósito, outra finalidade vá além do lucro... então caríssimos amigos, aquilo que de animalesco contem o ser humano, extravasou a racionalidade e percorre livremente as margens da hipocrisia absoluta.

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  6. Caro Bartolomeu
    A plastificação dos corpos é uma técnica muito interessante que “produz mais valias no campo do conhecimento e do entendimento”. É verdade e ainda bem. O que está mal neste caso é a exposição para fins artísticos/comerciais e lúdicos e não científicos. Aliás se fosse reduzida à sua verdadeira dimensão, ciência, não deveria dar muito lucro, como é óbvio. Mas a par do seu abuso para fins lúdicos - que faz lembrar a exposição circense de seres humanos deformados, gigantes, anões e outros que a natureza maltratou, os quais, também, “produzem mais valias no campo do conhecimento e do entendimento” -, existe uma importante componente ética que merece ser respeitada. No caso vertente, o desprezo pelos criminosos chineses, revela uma faceta que não deve ser tolerada. Há valores que têm que ser respeitados. Fala-se muito sobre o respeito pela vida, mas pouco, pelos vistos, sobre o respeito da morte...

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