quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A realidade e a ilusão

Foi um alarido a distribuição do computador Magalhães nas escolas, ao que ouvi dizer objecto imprescindível para a educação, logo a partir dos sete anos de idade.
Para tais idades, não creio que seja tão imprescindível como isso. Se pode ser um estímulo para aprender a ler, não traz qualquer vantagem para a miudagem aprender a escrever e, muito menos, a fazer contas. E, independentemente da necessária formação noutras áreas educativas, é nos primeiros anos que os alunos têm que sair instruídos nessas tarefas prosaicas, mas que ainda ouso chamar essenciais, de saber ler, saber escrever e saber fazer contas.
Sobretudo no que se refere à Matemática, o computador vai ser uma tragédia. A Associação Portuguesa dos Professores de Matemática, num raro bom senso nos tempos que correm, vem chamando a atenção para a grave consequência da utilização das máquinas de calcular. O computador só irá piorar a situação.
Como se já os conhecessem, o Primeiro-Ministro e a Ministra da Educação não se cansaram de assinalar os extraordinários efeitos benéficos de tal medida, e venderam como realidade palpável e indiscutível uma mera presunção, a comprovar apenas no futuro.
Sob a capa de lhe estar a criar melhores condições, a educação deixou de ser objectivo para o Governo; a educação passou a mero instrumento de propaganda.
Eficaz para o Governo, não duvido, mas ilusória para os portugueses.

12 comentários:

  1. Eu, que agora tenho um filho no ensino público, devo dizer que fiquei espantado com as condições. Tudo bem que a escola não é exactamente na Quinta da Fonte, mas não deixa de ser uma escola pública. E a conclusão a que já cheguei é que nós, enquanto contribuintes, já fizemos quase tudo o que seria possível pela educação tirando uma coisa. O meu filho tem cartão de estudante que serve como cartão de pagamentos, eu vejo na internet a que horas entrou, o que consumiu, que aulas frequentou, a que horas saiu, o que vai comer ao almoço. Têm refeitório, biblioteca, sala de estudo acompanhado, ginásio que dava para fazer um campeonato nacional do que quer que fosse. Têm aulas de laboratório de matemática, estudo acompanhado, ...
    Isto, comparado com o que eu tive no mesmo ano, é a Dinamarca! Para compensar tudo isto, metem lá uma porcaria de uns professores que estragam tudo. Sim, eu sei que não são todos, mas são os suficientes.

    Darem os computadores é mau? Não. É óptimo. Agora que não vai dar bons professores aos miúdos nem os compensar por isso, não vai. Tal como não é a máquina de calcular que estraga a educação da matemática, são os professores de matemática. O dinheiro que isto vai custar pagaria certamente o início da transformação da gestão das escolas e as indemnizações que isso iria provocar.

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  2. Isso mesmo Toniber.

    Há muitos professores que são incompetentes. Esse é que é o grande problema !!

    Daí o barafustar pelos prof's contra a avaliação de desmpenho. Que eu defendo (acerrimamente) que é um processo do qual tb devem fazer parte os encarregados de educação.

    Muitos de nós detectamos nos trabalhos e cadernos dos nossos filhos, os disparates que certos professores fazem. É chocante.

    Mas a informação de que dispomos, como pais, fica bloqueada na direcçao de turma. E daí não passa.

    assim, se os encarregados de educação participarem na avaliação dos professores, em determinadas condições, muita coisa poderá ser detectada e denunciada, para expulsar do sistema de ensino, aqueles professores que nunca deveriam ter sido aceites nesta profissão.

    em muitas coisas não me revejo no PS, mas nesta parte concordo plenamente com a Prof. Maria de Lurdes Rodrigues, de quem sou colega e de quem fui aluna.

    nalgumas coisas discorda dela.
    noutras acho que tem estado no caminho certo.

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  3. Partilho das dúvidas contidas no "post" quanto aos reflexos educativos do magalhães. Se reduzirmos a aprendizagem aos jogos e às "pesquisas" na rede, talvez seja um sucesso imediato!
    Quanto aos comentários, vejamos.
    Como cidadão, partilho a desconfiança de Tonibler relativamente a outros cidadãos que podem ser Magistrados, Médicos, Advogados, Gestores (em particular públicos!!). E também convivo mal com isso. E se há escolas com boas condições - que as há - não apaga a realidade de muitas escolas públicas que estão numa lástima. Algumas delas no centro da capital! Por outro lado, criar uma biblioteca que é simultaneamente um "centro de recursos" (whatever that means!) não é o melhor que se pode fazer para proporcionar condições de trabalho sério, dedicado e concentrado aos alunos. Mas faz vista! E atenção à Municipalização da Educação... os exemplos que temos da acção dos responsáveis autárquicos não augura nada de bom... queremos piorar? Mais?
    Quanto a Pézinhos n´Areia... talvez tenha cedido à imagem que guardou da actual ministra como professora. Que passou pela escola (não superior) e que agora, para poder hostilizar os "candidatos a professores", nega. Bom, ao contrário da "metralha de propaganda" actualmente em acção, as escolas estão numa fase muito difícil. Porquê? Existem docentes com 40horas de horário de trabalho por força do monstro a que a Sra. chama de avaliação. Trabalho na escola e direccionado (grande parte) à burocracia, não a estudar e preparar melhor as suas aulas e dar apoio aos seus alunos. Isso já não lhe interessa (como verá). O concurso e as colocações de docentes estão a enfrentar problemas muito consideráveis. Estão atrasados e plenos de irregularidades. Apagamento do papel dos exames nacionais e a "rampa suave" para o sucesso educativo ( veja-se os cursos Novas Oportunidades e o desígnio de 100% de aprovações, que a Sra. anunciou). Bom, não sei quem ganha com isto.
    Bom, como sou professor do ensino secundário (e tomando em consideração a minha experiência), posso assegurar-lhe que Pais, Professores e Alunos têm responsabilidades nem sempre assumidas no processo. Muito lamento não ter a participação mais activa dos pais em todo o processo. E quando isso acontece, todos tomam consciência da complexidade dos problemas. Não se resolvem de imediato, mas estamos todos empenhados nela. O que ajuda muito.
    Desengane-se se considera que isso vai continuar no actual quadro de acção do monstro. Por mim falo. Não tenho tempo. É que para aplicar a legislação em versão original (que a Sra. já está a entrar em simplificações) leva a que um avaliador necessite (para uma escola com 130 professores) de QUASE 1600 horas por ano para desempenhar a sua função. E as aulas? E o estudo? E a correcção de tpc´s, testes, relatórios? E, claro, a vida pessoal e familiar?
    Em conclusão façamos o seguinte (ocorreu-me agora):
    - talvez seja positivo diminuir a "regulação".
    Saudações a todos,
    Luís Vilela.

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  4. Caro Pinho Cardão,
    Nem sempre estamos de acordo, e este é mais uma vez o caso.
    É verdade que é uma tonteria pensar que a tecnologia vai resolver todos os problemas no processo ensino-aprendizagem.
    Mas é igualmente uma tonteria pensar que a habituação à utilização da tecnologia para a resolução dos problemas do dia-a-dia, desde tenra idade, é desnecessária.
    Nós não nos estamos a educar a nós, nos anos 60, para os anos 80, 90...
    Nós estamos hoje a preparar pessoas para o 2º quartel do século XXI. Só temos que usar os meios disponíveis hoje.
    Eu também já não aprendi a trabalhar com a régua de cálculo. E, apesar de várias vezes ter aprendido a técnica de "extracção" da raiz quadrada, hoje não a sei fazer. E se tiver que fazer no papel uma divisão com casas decimais vou ter que pensar um bocado. E não garanto que me safo.
    O Tonibler, mais uma vez de forma certeira, coloca o problema centrando-o nas questões fundamentais. Na minha opinião, claro.
    Estas acções são fundamentais, mas é crucial que os outros dois intervenientes principais, pais (e os avós - que têm o mais precioso dos bens nos tempos que correm: tempo) e professores (e já estamos todos envolvidos!), assumam as suas responsabilidades e se adaptem a esta nova realidade.
    E, como dizia ontem na televisão o Professor Tribolet, com esta aparição massiva do mesmo computador na sala de aula e em casa não vai deixar agora margem de manobra nem aos pais nem aos professoares. Vão ter mesmo que participar se não estão "lixados".
    Como escrevi em comentário a u post anterior, relativamente ao Magalhães só tenho um reparo: não ter nenhuma participação, nem que fosse para os desencaixotar.
    Abraço,

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  5. Amigo Luís,

    Há professores que fazem isso tudo. E bem. E os alunos aprendem. E têm família. E divertem-se. E são felizes. E todos nós conhecemos alguns.
    Que tal a sugestão de irmos todos aprender com eles.

    Abraço

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  6. Anónimo15:41

    Um comentário rápido sobre esta coisa dos computadores e das máquinas de calcular e que é uma pergunta que deixo aos que advogam estas medidas de permitir aos meninos usarem todas as novas tecnologias sem aprenderem primeiro as coisas no papel.

    O que queremos nós que os meninos aprendam? Que 2+2=4 ou, em abstracto, porque é que 2+2=4? Este é o grande problema. É que se os meninos aprenderem porque é que 2+2=4 ficam com um conhecimento muito mais vasto que lhes permite progredir dado saberem porque é que é assim, logo, basta-lhes aplicar a regra abstracta noutras somas. Se aprenderem que 2+2=4 sem saber o porquê, ficam a saber apenas isto: 2+2=4 e nada mais. E, no particular da matemática, este raciocínio abstracto é fundamental para mais tarde assimilar conceitos mais avançados. Daqui que tenha imensas dúvidas quanto à bondade do uso da tecnologia no ensino habitual.

    Evidentemente que isto não exclui preparar os jovens para o uso das novas tecnologias. Uma coisa não exclui a outra, de todo.

    Querida Pezinhos, uma pequena achega muito rápida e que lhe peço perdão por não elaborar mais mas estou, manifestamente, apertado de tempo neste instante. Em tese, poderia concordar com o que diz sobre a participação dos pais na avaliação dos professores. Todavia isto esbarra com um obstáculo insanavel: qual a percentagem de pais que tem a formação, os conhecimentos, o saber e também a visão objectiva quanto aos objectivos do ensino, necessários para participar no processo avaliativo dos educadores?

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  7. Caro Zuricher,

    O problema é que o treino de fazer as contas (executar mecanicamente um determinado algoritmo) e a tabuada não tem nada a ver com a compreensão dos significados das coisas.
    Pode-se por uma papagaio a fazer contas de cabeça. Duvido que ele algum dia perceba o significado da operação.
    Como eu disse, não sei "achar" uma raíz quadrada, mas acho que entendo o conceito de raíz.
    Não é por aí, a meu ver...

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  8. Concordo inteiramente com o caro Pinho Cardão.

    Quanto aos comentários... enfim!

    Já fui professor do QUADRO de uma escola pública e... FUGI!

    Meus caros, parem com a demagogia e o populismo s.f.f., como podem ter esses profissionais de que falam pagando 1000 euros?

    Eu saí há pouco mais de um ano e hoje ganho mais do dobro (mal de mim se assim não fosse)...! Hoje até tenho gabinete, computador, papel, PDA, ar condicionado, cadeira para me sentar, mesa onde posso colocar as minhas coisas, armários (que luxo :)), etc.. na EMPRESA.

    Por isso e mais uma vez peço um pouco de respeito para com profissionais que nem gabinete na escola possuem para trabalhar e estão completamente desarmados em relação à INDISCIPLINA inenarrável que por lá se vai passando e ABAFANDO...

    Se algo não for feito rapidamente, depressa terão no ensino apenas os professores de que tanto falam e que são apenas uma minoria - ou seja profissionais que não encontraram mais nada para fazer.

    Disse.

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  9. Cara Pézinhos n'Areia

    Não basta querer avaliar os professores. Admite a possibilidade de o esquema da avaliação estar muito mal pensado?

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  10. Volto aqui para breves notas:
    - a SC - mas não compreende que a aposta "nos meios" não chega para alcançar isso mesmo que defende: compreensão. Considero, e discordamos outra vez, que aprender é um dever (muito mais do que um direito) e que a escola e a aprendizagem não são, necessariamente, divertidas.
    - a Zuricher - que me parece tocar num ponto relevante: o papel dos Pais num processo de avaliação; como já disse, é importante que eles participem e há modos precisos para isso, embora considere que nem sempre esses modos são conhecidos pelos próprios; neste contexto de facilitismo, integrar a opinião dos Pais e Alunos é apenas fechar o círculo do desastre - não esquecer que o actual "monstro avaliativo" já implica a consideração de quantos alunos transitaram...e assim se mede, com clareza, a qualidade do trabalho do Professor.

    Já tomaram contacto com os testemunhos de quem esteve nas acções de "metralha de propaganda" do magalhães? Está tudo louco? Entrega feita, mas a maior parte dos docentes e pais não tem conhecimento ou formação relativamente ao que devem fazer (ou permitir fazer) com a nova "ferramenta de aprendizagem"!
    Ninguém sabe quem colocará os filtros de conteúdos! O programa Caixa mágica (julgo) está AINDA em fase de actualizações profundas!
    Enfim, o que parece é: propaganda.
    Estou QUASE a sentir a mesma repugnância de que se queixa Tonibler por certos cidadãos... neste caso os políticos.
    Saudações a todos,
    Luís Vilela.

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  11. Caro Pinho Cardão

    Na terra onde nasci ( e penso que também é a de V.Exa) existia um auto tanque encarregue de ir pelas ruas a desinfectá-las, era a "tifa". Era regular e, se bem que não terminasse com os mosquitos, controláva-os.
    O "Magalhães" é algo parecido, com a diferença que é contra o nosso "atraso" "déficit tecnológico". Não acaba com, mas mantém sob contrôle.
    Cumprimentos
    João

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  12. http://ww1.rtp.pt/noticias/?article=364903&visual=26&tema=5

    Políticos em pousio ???
    quem serão .... Caro Dr. Pinho Cardão ?


    Como o Caro Senhor sabe plantar cebolas, estou certa que me poderá esclarecer sobre este "léxico agrónomo" aplicado à política.

    de agricultura não percebo nada.
    e de política em pousio ainda menos.

    :-)

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