terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Grécia volta a tremer...aviso à navegação

1. A Comissão Europeia informou hoje (i) que as contas da Grécia para 2009 não são “ainda” verdadeiras e (ii) que o esforço de ajustamento orçamental exigível em 2010 terá de ser superior ao previsto...
2. Quanto ao primeiro ponto, parece que o défice de 2009 poderá pois ultrapassar os indicados 12,7% do PIB, podendo chegar a 14% ou até mais...e parece também que a dívida pública será mais elevada do que teria sido reportado. Uma enorme confusão, em suma, que embora de natureza histórica condiciona naturalmente as projecções feitas para 2010 e seguintes...
3. A segunda questão é mais delicada (para além de condicionada pela primeira) e significa que o Orçamento para 2010 aprovado pelo Parlamento grego em Dezembro não é credível nem suficiente para corrigir o desequilíbrio das finanças públicas - o que aliás se pressentia, face ao limitado coro de protestos que se seguiu à sua aprovação...
4. Encontra-se em Atenas uma delegação do FMI para analisar as contas passadas e as futuras e avaliar do esforço de ajustamento orçamental adicional requerido para que a Comissão Europeia se possa dar por satisfeita quanto à trajectória de correcção do défice orçamental já em 2010...vem aí pois um Rectificativo...
5. Percebe-se que a Comissão não se queira defrontar, daqui por mais alguns meses, com uma situação em que as contas públicas da Grécia tenham de ser sujeitas a nova revisão, com o défice de 2010 e a dívida em mais um salto...Basta de enganos!
6. E nada como o FMI, com a imensa tarimba que tem deste tipo de problemas, para tirar as coisas a limpo, “ajudando” a Grécia a definir a nova trajectória de correcção do défice público e a adoptar as medidas concretas, do lado da receita e da despesa, que permitam cumprir essa trajectória...
7. Os mercados, como era previsível, reagiram a estas notícias agravando de novo as condições da dívida grega, ficando naturalmente em alerta quanto ao que se possa passar na sequência das recomendações que o FMI vier a emitir.
8. Por cá, na curiosa azáfama pré-orçamental que se vive por estes dias, seria bom que se fosse dando a devida atenção ao processo da Grécia...nomeadamente a oposição, se é que tem reais “ganas” de chegar ao poder em prazo não muito longo e queira começar a pensar nas eventuais "surpresas" com que possa ser defrontada...conviria que "surpresas", se as houver, sejam "surpreendidas" quanto antes...
9. Em suma, espera-se que saibamos aprender com este processo e com as atribulações da Grécia, para perceber melhor o que nos cumpre fazer...e não fazer. Um bom aviso à navegação, pois...

16 comentários:

  1. Daqui a uns dias vamos tirar a prova dos nove, com o Orçamento. Mas não espero nada de razoável, porque de Sócrates se pode dizer como Eça disse que o povo dizia:
    Pilriteiro, dás pilritos?
    Porque não dás coisa boa?
    Cada um dá o que pode
    Segundo a sua pessoa.

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  2. Caro Tavares Moreira,

    Eu vejo analogias graves com o caso grego e o que mais me preocupa é a desorçamentação. Parece haver alguma flexibilidade do PS para negociar, mas falta saber as capacidades negociais e de facto dos membros do PSD e CDS. Espero que haja bom senso na feitura do orçamento e sentido de responabilidade que no caso, traduz-se numa redução séria com medidas de curto e longo prazo na redução da despesa!

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  3. Para mim, o que me mete impressão são as reformas escandalosas de alguns senhoritos da banca, da pública e da privada.

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  4. Bem avisados andarão o PSD e o CDS se atenderem ao conselho que o dr. Tavares Moreira aqui adianta.

    Em primeiro lugar, deverão exijir conhecer a verdade ou, vá lá, a melhor aproximação à dita, quanto à real situação orçamental (oficial e a outra) e da dívida pública (a directa e a(s) outra(s)). Em segundo lugar, deverão voltar a fazer o mesmo. De seguida, haverá que informar os portugueses sobre a real situação do país.(*)

    Por fim, que acertem com o PS os compromissos possíveis.


    (*) - Caso não seja possível obter informação fiável sobre as contas públicas e responsabilidades futuras já assumidas, não deverão negociar NENHUM compromisso com o PS/Governo. Comportamento contrário, seria pactuar com o continuar do cover up.

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  5. Caro Tavares Moreira

    Apenas algumas "achegas" ao tema.

    A consulta aos blogs nacionais revela um grande desconhecimento do que se está a passar com a Grécia e, em certa medida, retiram-se as conclusões erradas.
    Este entendimento "enviusado" pode fazer com que as pessoas suponham que o problema grego é um problema de credibilidade das contas, quando o problema grego é a dívida.
    Ora a dívida é o que temos em comum com a Grécia e esse é O PROBLEMA.
    Nós não estamos tão endividados como os gregos, mas estamos muito próximos.
    Nós não temos o problema de credibilidade da Grécia, mas nem crescemos o suficiente, nem temos um saldo positivo populacional que permita assegurar a sustentabilidade dos créditos que pretendemos pedir.
    Aliás, o recente relatório do BdP indica que, quando crescemos, mais dívida acresecetamos...

    Quanto aos gregos, andam às voltas com o montante da dívida, porque há que definir quanto é que vão poupar de hoje a 2013; não está em causa poupar, apenas quanto e em que prazo.

    Este ano vamos aprender que vamos ter, realmente, que poupar e definir o montante e o prazo.

    Nota final este seu post vem citado no " O INSURGENTE"

    Cumprimentos
    joão

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  6. Era só o que faltava, agora a comissão europeia também sabe o que são orçamentos? Depois de ter metido os 27 em tribunal por terem vetado aumento dos funcionários europeus? Eu dava-lhes o "ajustamento orçamental", cambada de burocratas inúteis...

    Onde é que estava a comissão quando andava a financiar as obras públicas gregas? Onde é que está a comissão quando diz que vai pagar parte do TGV português? Aliás, esta é um excelente tema de "construção europeia", onde está a justificação para que quem está a exigir contenção orçamental ser exactamente quem financia parte da estupidez?

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  7. Caro JMG,

    Em saudável concorrência com Manuel Brás, muito oportuna essa citação poética de Eça e através deste do canto popular...

    Caro André,

    Essa expectativa é o reflexo de um optimismo muito valoroso, quase heroico...mas valha a verdade que esperar melhores dias também não é crime, pelo menos por enquanto...

    Caro Eduardo F.,

    Admito que a sua proposição faça sentido...não ficaria nada mal à oposição querer saber um pouco mais quanto à real situação das finanças públicas - défice, dívida, compromissos futuros - a oportunidade parece particularmente asada...
    E não terão muitas mais...

    Caro João,

    De acordo, a dívida é o principal problema...mas se a perspectiva é de agravamento rápido e incessante da dívida, "quid juris"? Como fazer?

    Caro Tonibler,

    Parece pertinente a sua observação - as estruturas de Bruxelas têm adoptado comportamentos contraditórios neste domínio...por um lado recomendam contenção e rigor na política orçamental, por outro financiam e estimulam despesas não prioritárias, que tornam mais difícil o cumprimento do primeiro objectivo...

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  8. Não deixa de ser curiosa essa visão de que a culpa é «deles», porque nos tentam...

    Vem na linha do «alguém tem que cuidar de nós», e é curiosamente o Dr. Pinho Cardão falou nisso aqui:

    http://quartarepublica.blogspot.com/2010/01/lavagem-de-cerebro.html#comments

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  9. Caro Tarvres Moreira

    Analizando as projecções do BdP; dos outros organismos internacionais de referência, da que foi realizada por Daniel do Amaral no, salvo erro, "Diário Económico" de há, dois/três, dias; o que se deduz do post do Miguel Frasquilho apenas existem, basicamente, duas vias duradouras:

    a) Enxugar salários e custos de funcionamento da Administração Pública, de modo a que os salários se contraíssem cerca de € 5 MilM ou +/- 20% do total actual, e os custos de funcionamento em cerca de € 7 Mil M +/- 50% do actual;
    b) Reformular o regime de PPP (Parcerias PúblicoPrivadas) eliminando o aval do Estado e abrindo, efectivamente, à concorrência internacional; titularizar as dívidas históricas e outras que se encontram desorçamentadas, fechar as empresas e criar parcerias público privadas, sem o aval do estado. Privatizar( ou alienar com claúsula de reversão a 100/120 anos) o que ainda não se encontra privatizado e limitar o controle do estado ao essencial

    Ambas têm problemas, quem adoptar as primeiras, perde os eleitores e, possívelmente a possibilidade de viver em Portugal; quem adoptar as segundas perde os amigos, a possibilidade de trabalhar em Portugal em algo de relevante, pelo que perde a qualidade de vida.

    Qualquer uma (das propostas) exige medidas complementares (já comprovadas em outras paragens), e que não cabem no post.

    Cumprimentos
    joão

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  10. Caro Tavares Moreira

    Peço desculpa, mais uma vez, pelo imperdoável mas não intencional, lapus calami no que ao seu nome se refere.
    Cumprimentos e desculpas reiteradas
    joão

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  11. Caro C Monteiro,

    A culpa, sendo sobretudo nossa, tem uma quota-parte deles...não nos desculpa, certamente, mas também os não deixa muito bem "na fotografia"...

    Caro João,

    Que é uma via muito dolorosa, social e politicamente, não temos muitas dúvidas infelizmente...
    O grande problema estará em saber se existe via alternativa com menores custos.
    Mas pode ter consequências devastadoras, por podermos chegar a uma situação de intolerável desconforto e cansaço social para absorver mais e mais medidas de austeridade, cumprindo um processo deflacionista que restitua competitividade às nossas actividades concorrenciais.
    Mas atenção que esse processo deflacionista terá de ser dirigido primacialmente ao sector público, em sentido amplo, de outro modo aniquilar-se-ão os sectores concorrenciais e aí não haverá qualquer solução...
    A propósito, tomo a liberdade de lhe sugerir a leitura de um inetressantíssimo artigo, da edição do F. Times de ontem, intitulado "Greece looks set to go the way of Argentina", da autoria de Desmond Lachman.
    Vale a pena reflectirmos sobre esse texto...

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  12. Caro Tavares Moreira

    Tem razão, mas a situação chegou a um ponto que não existem medidas "suaves". Há cinco/seis anos seriam possíveis, mas isso, seria remar contra a euforia reinante.
    Agradeço a sugestão e o artigo é interessante. Queria, na esteira do mesmo, alertar para uma questão importante: os efeitos de um não cumprimento de dívida soberana no contexto europeu pode ter consequências incontroláveis; de certeza que os efeitos, na sua extensão são desconhecidos e muito pouco estudados.
    Nesse sentido, o que se passa na Grécia interessa a todos nós..

    Cumprimentos
    joão

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  13. Exactamente, caro João, o que se passa na Grécia interessa a todos nós - ou deveria interessar, não me parece que isso esteja suficientemente entendido pela nossa inteligentzia reinante.
    Sobretudo depois de a Moody's, num exercício do tipo "pontapé nas canelas", nos ter colado à Grécia na premonição de uma morte lenta...

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  14. Sabe, caro Tavares Moreira, quando a crise se instalar, à nossa classe política, vai suceder o mesmo que se passava antes com os advogados, quando surgia um novo código: 30 a 35 % deixavam de exercer, porque não compreendiam, nem sabiam como actuar no novo enquadramento.
    Aliás o grau de sofisticação do discurso (seja qual a dimensão) no estrangeiro é quase incompreensível para, quase, toda a nossa "inteligenzia".
    Os, poucos, portugueses no estrangeiro com quem contacto, não cessam de se surpreender com a nossa realidade, a começar pela fatia que é alocada ao futebol....
    Quanto ao comentário do Moody's, reparou que, já nos "juntou" à Grécia, o que não sucedia antes?
    Reparou, igualmente, que-após a publicação do comentário- os CDS Gregos aumentaram 50 bps, passando para, salvo erro, 350 bps, ao passo que os nossos se mantiveram nuns, razoáveis (ainda) 105 bps?
    Sei que servirá de spin para iludir a questão essencial: não podemos controlar os efeitos na nossa dívida e credibilidade, que um não cumprimento, por parte da Grécia, das suas obrigações.
    A dívida islandesa já está cotada como "junk"...

    Em jeito de nota não relacionada directamente com o assunto, é de todo o interesse seguir, nos próximos tempos, a IIª série do DR, na parte que diz respeito às nomeações e demissões...

    Cumprimentos
    joão

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  15. A colagem à Grécia é aquilo a que na linguagem actual se poderá apelidar de uma operação de "alto valor acrescentado"...
    Estou agora a conhecer as conclusões do estudo da Deloitte (ao que parece) sobre os impactos económicos do TGV e a conclusão é semelhante, ou seja de que se trata de um projecto gerador de valor, pelos impactos indirectos que produz, por exemplo contribuindo para criar dezenas de milhares de empregos, sobretudo no turismo...
    Não se fala, por cautela que bem se entende, dos "cash-flows" gerados pelo projecto nem nos impactos financeiros que provavelmente se desconhecem...
    Quanto ao DR II Séire, muito agradeço que me vá informando já que não tenho condições de fazer essa exigente pesquisa...

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  16. Já agora sobre o TGV. Não ouvi, pelo que, faço fé de quem me contou.
    Na mesma época em que se anunciava o troço Poceirão - Elvas o chefe do governo do país vizinho, proclamava em directo e nas cortes que:
    investimentos que originassem mão de obra africana não eram de considerar, porque isso significava um aumento da imigração clandestina, sem que se aumentasse o nível de emprego em Espanha.
    Quanto aos imigrantes africanos que estavam desempregados era um problema,mas dizia a experiência que não benificiam das obras públicas, na mesma proporção que os clandestinos.
    Nesse sentido, os investimentos públicos em Espanha vão ser repensados....numa lógica de promoção do emprego nacional....

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