quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Orçamento e a História

“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo. No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit - por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência - aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.
Ramalho Ortigão- Farpas-1882

O tempo era de luta partidária intensa e de dolorosa crise das finanças públicas. Os défices agravavam-se ano a ano, e sobretudo após 1888. Com a diminuição das remessas do Brasil, a crise económica e financeira do início da década de 90, levou a desvalorizações da moeda e aumento dos preços, dos impostos e do desemprego. Agravaram-se as condições de vida do operariado e das classes menos favorecidas. Entretanto, recrudescia a luta entre os partidos ou facções, com a maçonaria e a carbonária muito activas. Preparava-se assim o "caldo" para o Regicídio, primeiro, e a implantação da República. Depois, a continuada crise financeira e as lutas entre republicanos geraram a revolução de 1926 e a chegada ao poder de Salazar.
Em 30 anos, a descida das remessas do Brasil, um regicídio e duas revoluções.
Alguns anos de crise continuada já lá vão. As remessas da EU vão desaparecer. Estamos a preparar um bom “caldinho”. O Orçamento para 2010 junta-lhe mais uns suculentos ingredientes.
A história ensina muito. Mas os nossos líderes partidários e de opinião e os nossos governantes nem sonham que, antes deles, possa ter havido história!...

7 comentários:

  1. Anónimo11:43

    Caro Dr.,aquela malta antiga não trabalhava 24 horas por dia e há noite também...
    Cumprimentos.

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  2. Isto anda a precisar, é que se faça justiça à moda de Fafe!

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  3. Para essa gente de fraca memória...

    As dívidas gigantescas
    nestas contas orçamentais
    atingem formas dantescas
    de efeitos assaz brutais.

    O regabofe astronómico
    de políticas ensandecidas
    é um reflexo económico
    de éticas empalidecidas.

    Com a actual orientação
    para as finanças nacionais
    é a cristalina constatação
    de futuros efeitos infernais.

    Não vale a pena enganar
    quem se sente tão enganado,
    pois não passa de um esganar
    num discurso tão encenado.

    Com o nosso país enrascado
    por tantas loucuras desmedidas
    o mexilhão fica atascado
    e de esperanças aturdidas.

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  4. Caro jlbdias:
    Pois isso é que me assusta ainda mais...

    Caro Bartolomeu:

    Pois nem assim corrigiriam as suas desatinadas mentes...

    Caro Manuel Brás:
    O meu amigo disse tudo: "com a actual orientação
    para as finanças nacionais,
    é cristalina a constatação
    de futuros efeitos infernais...".
    Boa síntese. Eu não diria melhor!...

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  5. É pena continuarmos a achar que nos sabemos governar, quando a história nos prova o contrário!

    A cultura profissional, capacidade de gestão, organização e planeamento das elites portuguesas ficaram bem demonstradas ontem. Como pode ser entregue um Orçamento de Estado para lá das 22 horas e termos uma conferência de imprensa sobre o assunto depois das 23 horas?? Que país é este? Será que ninguém tem vergonha na cara?

    Será que alguém acha que existe algum país desenvolvido com este tipo de organização?

    Quando é que percebemos de uma vez por todas que não vivemos numa ilha?

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  6. Caro Fartinho da Silva:
    Foi de facto uma péssima performance, repetição, aliás, da de há um ano.
    Um Ministro deveria falar 5 ou dez minutos, apresentando as linhas gerais do OE. O resto ficava para o Director Geral ou para o Secretário de Estado do Orçamento. Falar por power-point não dignifica o Ministro. Mas demonstra, mais uma vez, que Peter tinha toda a razão.

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  7. Caro Pinho Cardão,

    "...Peter tinha toda a razão", sublime expressão que tudo diz sobre quem deveria dar o exemplo!

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