sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Solidão

No mundo atual, a rapidez com que se transmitem infeções é uma realidade fruto de uma forte interação entre os seres humanos e da velocidade estonteante que se vive. Os vírus também sabem aproveitar os jatos. Mas não são só os vírus, também as notícias viajam velozmente, e, muitas delas, são capazes de provocar ansiedade, medo e algumas doenças. As nossas fragilidades fazem-se sentir cada dia que passa. E são cada vez mais, não obstante as conquistas técnicas e científicas que enchem o olho e acalmam, embora temporariamente, a inquietude das nossas almas.
Epidemia. Tornou-se uma palavra corrente, utilizada praticamente para tudo, desde as doenças infecciosas, donde nasceu, até à solidão, passando pelo medo. A designação epidemia está associada a inúmeras situações: gripe, sida, cancro, diabetes, depressão, fome, obesidade, pobreza, medo, leviandade, estupidez, consumo, entre muitas outras. A mais recente epidemia, embora o assunto não seja novo, refere-se à problemática da solidão. Tudo, porque se conseguiu apurar que é contagiosa. Este sentimento, que invade muitas pessoas, acaba por se transmitir aos amigos de uma forma que faz lembrar as vulgares constipações. As pessoas que sofrem de solidão propagam este sentimento cortando os laços. Se um dos nossos amigos se transformar num solitário faz-nos correr o risco de virmos a sofrer de solidão em 40 a 65% dos casos e outro amigo nosso que não tenha qualquer relação com o primeiro acaba, também, por correr riscos na ordem dos 14 a 36% e um amigo deste amigo um risco de 6 a 26%. Há quem conteste esta visão de a solidão poder ser comparada a um vírus suscetível de causar uma epidemia, argumentando que aspetos semelhantes, também, foram observados na acne, nas cefaleias e, até, na própria estatura. É difícil, mas não impossível, caracterizar e quantificar estes fenómenos, os quais são preocupantes, caso se comprove, de forma inequívoca, este caráter de transmissão, na medida em que solidão é sinónimo de graves problemas na esfera da saúde pública, ao contribuir para as doenças cardiovasculares, passando pelo suicídio, até à doença de Alzheimer. Optar pela solidão é um fenómeno que tem muitas causas. Mas há um denominador que é comum aos que sofrem desta perturbação: um estado de alerta permanente e exagerado face às ameaças sociais. E estas proliferam como cogumelos em ano de chuva. Muitos dos solitários têm muitos contactos, só que estes não os satisfazem, e nem a criação de múltiplas redes que hoje estão ao nosso dispor, através da internet, conseguem substituir as verdadeiras redes sociais em que a amizade, a compreensão e a solidariedade são uma constante.
Assiste-se a uma desorganização social e estrutural, sobretudo das famílias, que, curiosamente, não são um campo fértil para a propagação da epidemia, a não ser pela sua não existência ou destruição. A involução da procriação, e o acréscimo das exigências do modo de viver, que empastam e dificultam o relacionamento entre as gerações, constituem focos de desestruturação que podem levar à solidão.
Fala-se, hoje, muito de planos de prevenção para tudo e mais qualquer coisa. Planos de prevenção contra cheias, contra terramotos, contra a obesidade, contra a diabetes, contra a gripe, entre muitos outros, mas pouco ou nada contra a solidão. E é preciso fazer qualquer coisa a este mundo atarantado e ameaçador em que vivemos ou fingimos viver.
Olho para trás e consigo ver com nitidez algumas pessoas com quem convivi e que sofreram de solidão. Sofreram e fizeram sofrer outros e quem sabe se ainda não continuam a fazer sentir os seus efeitos em muitos desconhecidos, os quais, por sua vez, alguns também solitários, estarão a provocar tempestades emocionais, contribuindo para explosões patológicas por esse mundo fora.
É preciso, utilizando expressões do mundo informático, “religar” aqueles que caíram fora das tradicionais redes sociais. Uma forma curiosa de contribuir com eficiência para a melhoria da saúde pública.

3 comentários:

  1. Caro massano cardoso, este seu texto devia ser publicado em todos os jornais de grande tiragem. A sério, fazia mais pela saúde pública que muitas campanhas oficiais e saía muito mais barato. Aborda aqui uma quantidade de factores e consequências que são muitas vezes tema de conversa, ou mesmo de discussão,´precisamente porque, como diz, a solidão de alguém causa sofrimento aos seus amigos ou família, que tentam "puxá-la" para o convívio mas encontram uma resistência doentia, um alerta de desistência que muitas vezes desespera. Tenho encontrado - e cada vez mais, à medida que envelheço - pessoas que cortam os laços ou que não os cuidam, deixando que dependam apenas do esforço permanente dos outros. Recebem sinais mas não os emitem, muitas vezes evitam-nos, mas depois instalam-se num sofrimento de abandono que criam sentimentos de culpa a quem deixou de insistir. É o tal contágio de que fala, a infelicidade de alguém de quem se gosta também estraga a nossa felicidade, na verdade dependemos uns dos outros e muitas vezes é tarde demais quando se reconhece o que se perdeu ao deixar instalar a solidão. Mas também as políticas publicas contribuem para isso, criando um falso sentimento de protecção, como se tudo se resolvesse com algum dinheiro, pouco ou muito, e se dispensassem os afectos e o carinho. Podemos até durar até aos 100, mas sozinhos???

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  2. É a primeira vez – admito honestamente – que leio sobre o problema da solidão como sendo algo que poderá ser ou que é transmissível. Esta solidão não estará, de alguma forma, relacionada com a ansiedade? Com ataques de pânico que é muito mais frequente do que se pode imaginar e que faz com que as pessoas se isolem? Em que países (de acordo com os estudos efectuados) é a solidão mais sentida/vivida? Em regiões mais urbanas ou rurais?
    É um assunto muito interessante e, simultaneamente, preocupante.

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  3. Depois de ler o seu post, dei uma olhadela pela net e encontrei um artigo de um jornal estrangeiro, publicado em Dezembro de 2009, referente a um estudo efectuado pelas universidades de Harward, Chicago e Califórnia-San Diego. Os resultados destes estudos foram publicados, também, e provavelmente com mais pormenor, no Journal of Personality and Social Psychology. Lá dizia que, actualmente, as pessoas são muito mais vulneráveis a sofrer de solidão porque adiam constituir família, divorciam-se com mais frequência e têm uma vida mais longa. O que também achei interessante é que “a solidão nos adultos mais velhos tem mais a ver com os relacionamentos que escolhem do que com os relacionamentos que herdam”, e que “as mulheres são mais susceptíveis de “apanhar” e propagar a solidão do que os homens” – surprise ! surprise!
    Como disse no meu outro comentário, nunca tinha pensado que a solidão fosse considerada uma “doença social” (como, por exemplo, a depressão ou o “stress”) e, muito menos, que fosse contagiosa.
    Será que as populações dos países menos evoluídos, menos industrializados, os tais “em vias de desenvolvimento” ou os mais pobres do planeta, também sofrerão desta “doença social”? Ou trata-se de uma doença das sociedades modernas? Sim, porque as outras sociedades devem estar demasiado ocupadas a fazer frente às suas dificuldades de sobrevivência que pouco tempo lhes restará, no seu dia a dia, para sentir essa solidão.
    Os seus posts continuam a ser, para mim, uma fonte de conhecimentos.

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