quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Buzinar ou não buzinar, eis a questão!

Descansava pachorrentamente de um dia pesado, sem vontade de fazer o que quer que fosse, a não ser saborear o final da noite, quando ouço buzinar. Caramba. Que chatice. Uma, duas, três vezes... Alguém deve ter estacionado o veículo em local indevido e agora o reclamante tenta chamá-lo. Desloco-me à janela e vejo um carro na rampa a querer entrar na rua. Um veículo cinzento de cor e de idade, dando fé ao aspeto baço do capot, estava no limiar do aceitável, não revelando que constituísse um obstáculo. Discretamente saí de casa – a noite estava decente e convidativa a um passeio –, e constatei que o jovem casal podia sair sem qualquer dificuldade. Feitas as contas por alto, admito que a obstrução deveria ser da ordem dos três a quatro centímetros. Mas por que diabo não avançam? Rapam do telemóvel e chamam a polícia. Deram as coordenadas e passado pouco tempo, mas mesmo pouco, apareceu um carro patrulha com três jovens polícias. Aproximaram-se e rapidamente ficaram inteirados do caso. Disseram que não podiam proceder ao reboque porque o carro não estava em infração. O casal jovem protestou, alegando dificuldade na manobra e dizendo que daí a pouco chegaria uma carrinha que, assim, não poderia descer a rampa. O agente, face à inusitada situação, procedeu à chamada do chefe. – O chefe que resolva. Para isso é que há chefes! Eu é que não chamo o reboque. Passados mais uns minutos chegou uma outra viatura policial com um graduado e um agente. Cinco polícias à minha porta. Um festival que já não via há muito, desde a tentativa de assalto à casa vizinha. Nessa altura chegou a estacionar uma carrinha com muitos agentes que saltaram para a rua de armas em punho. Alertado com o azul tremeluzente do pirilampo, dirigi-me à porta rua onde assisti, meio deslumbrado, a uma cena de um Hill Street à portuguesa. O mais curioso foi um dos agentes que, de arma em punho, pôs-se a correr na minha direção e a perguntar: - O senhor conhece a dona desta casa? Claro que conheço! O jovem policial não sabia o que fazer, hesitava, andava de um lado para o outro, meio apalermado, mas sempre de arma na mão, enquanto os colegas entravam no jardim e nas traseiras da habitação. Foi quando lhe perguntei: - Mas o que é que se passa? – Telefonaram a dizer que há um assalto e o que os ladrões ainda estão lá dentro. - Ai estão?! Hum! Não me parece. De facto, vieram a constatar que já tinham ido à vida. O corrupio instalou-se com várias pessoas a abrirem as janelas e a debruçarem-se nas varandas. Ao fim de pouco tempo havia muitos espetadores a enriquecer o evento da noite. Quebraram a rotina sem dúvida, tal como agora.
Desta feita, o chefe, um rapaz também novo, com um sorriso temperado de algum sarcasmo, olhou, ouviu e não ligou grande patavina aos queixosos, dizendo ao agente que o tinha chamado: - Oh S. não se esqueça de identificar o reclamante. - Sim chefe. Meteu-se no veículo e foi-se embora. Entretanto dois veículos já tinham entrado sem dificuldades na rampa, o segundo, então, não teve qualquer problema, era um Smart, mas o outro era normal. Um grupo de estudantes, numa varanda da rua em frente, gozava até à exaustão o quadro com os seus ditos, apupos, palmas e gritos de vitória aquando da entrada dos veículos. Os agentes, muito educados, tentavam com muita calma resolver a situação.
Não foi complicado saber onde morava a dona do carro. Chamaram-na. O polícia expôs-lhe a situação e a senhora disse que não tirava o carro porque não estava em infração. O polícia, claro, calou-se. Mas a situação aquecia, como é timbre do pessoal que quando julga que tem razão usa todos os argumentos. Disse então à senhora que ainda podia avançar uns três a quatro centímetros até ao carro da frente. - Se o fizer o problema fica resolvido. Riu-se para mim, dizendo: - Anda muita gente mal com a vida neste mundo. – Pois anda, ripostei. Mas vai ver o que fazem três centímetros. E assim foi. Ajudei-a a avançar e a partir daquele instante ficou alinhado ao milímetro. Eu esperava que a confusão terminasse, mas enganei-me. Redobrou de intensidade, agora com outros argumentos: - Então, porque é que ela mudou de lugar? – Por que é a dona não tirou o carro do sítio para outro local? – Quem é que me paga o tempo perdido? Estou aqui há uma hora e meia para resolver o assunto! E os pobres agentes com uma pachorra dos diabos lá iam tentando explicar que não tinham razão, mas qual quê! Tiveram, naturalmente, de registar os dados do reclamante e, a dada altura, enfiaram-se no carro muito chateados, dizendo: - Vamos para o local do incêndio que é mais importante do que isto e, para comprovar a sua indignação, o motorista acelerou o pobre do veículo que se assustou a ponto de fazer um barulho de dor, tossindo e expelindo gases de irritação acumulados. Polícia sofre, e a viatura também!
E, assim, inesperadamente, assisti a uma comédia digna de uma soap opera. Pelo menos não faltaram espetadores. Sempre deu para por a conversa em dia e descansar após um dia de trabalho um pouco pesado...

21 comentários:

  1. Anónimo18:25

    O que me parece notavel é 3 (TRÊS!!!) agentes da PSP chegarem a um local onde foram chamados, verificarem que não havia qualquer infracção e ficarem 1h30 à conversa com os reclamantes. Notavel, mesmo!

    Convenhamos, caro professor, não seria caso de chegarem, verificarem a situação e, não estando o carro algo da queixa em infracção, dizerem-no a quem os chamou, virarem as costas e irem aos seus demais afazeres?

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  2. Anónimo18:27

    Onde está algo, digo alvo!

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  3. Zuricher

    Pois!! Eu disse que fazia inveja a um episódio de soap opera ;)

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  4. Eu cá p’ra mim acho que os agentes quiseram mostrar serviço! Afinal, foi uma situação mais fácil do que investigar qualquer acto que envolvesse violência à mão armada... : )

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  5. De facto é o cúmulo! Só não percebi o que é que se andava por ali a espetar...

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  6. Ferreira, M.S.

    Eu penso que foi um exagero por parte dos queixosos. Uma "forma de estar" que não é difícil de comprender. Mas os polícias excederam-se nas explicações, revelando uma certa insegurança, o que não é muito aconselhável numa força de segurança!

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  7. Em frente ao local onde trabalho, um médico, deciciu abrir uma clínica e auto-demarcar uma zona em frente à entrada, onde não permite que se estacione.
    Ha algum tempo, estacionei com uma parte do carro, dentro dessa zona. Quando pretendi sair para almoço, deparei com o jipe BMW novinho, propriedade do Sr. Doutor, estacionado com a traseira a um dedo de distância da frente do meu carro.
    Hmmm - pensei com os meus botões- queres festa, pois vais tê-la.
    Enfiei-me no carro, coloquei o motor a trabalhar e esperei uns segundos, pensando que o Sr. aparecesse. Como não apareceu, forcei a saída, encostando o meu para-choques, ao dele e empurrando. Para trás e para frente, acabei por tirar o carro, não sem que o para-choques novinho do Sr. Dr. ficasse bem riscado.
    Quando regressei de almoço, tinha por sorte, um lugar próximo do anterior, onde fui estacionar.
    Ao fim do dia, quando me dirigi ao carro, tinha um cartão da clínica, no vidro da frente, entalado debaixo do limpa vidros, com um relambório muito cordial, advertindo o Sr. condutor do veículo que lhe causou danos no para-choques, que aquele espaço lhe estava reservado e que, da próxima vez o fosse chamar ao consultório.
    Respondi-lhe nas costas do mesmo cartão, que fui colocar igualmente entalado no para-brisas do BMW, que o condutor do veículo que lhe causou os danos, não encontrava qualquer sinalização que lhe concedesse tal privilégio e que, da próxima vez que decidisse estacionar o veículo em cima do meu, que fizesse a gentileza de me deixar ficar um abre-latas, por forma a poder saír.
    Na verdade, havendo outros lugares vagos, evito estacionar naquele espaço, mas quando estaciono, o jipe fica sempre a "milhas".
    Talvez tenha ganho fama de "malcriadão", ou talvez o Sr. tenha percebido que o mundo não é exclusivamente seu... talvez... é tudo muito relativo.

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  8. Anónimo20:46

    Caros Amigos, é ao ler coisas destas que dou Graças à boa estrelinha que tenho e que me faz odiar conduzir. Em tempos, realmente, conduzi... o minimo indispensavel. Agora já há alguns anos que me deixei disso.

    Que feliz é a vida sem automovel!

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  9. No Dia europeu sem carros, que poucos dão conta, mas também não se nota grande coisa!, Zuricher é afinal um adeto de "todos os dias sem carro!". Mas parece-me que não dispensa os comboios... Pelo que me é dado observar até os adora. Ou estarei errado?

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  10. Anónimo21:48

    Para mim, realmente, caro Professor, todos os dias sem carros, sem qualquer dúvida, há alguns anos. Em tempos vivi, ainda em Portugal, num sitio onde a ausência de transportes obrigava-me a conduzir. E conduzia... o indispensavel para chegar à estação ferroviária ou fluvial, consoante o sítio de Lisboa para onde fosse. Quando me mudei para o centro de Lisboa deixei de conduzir e após ter o carro parado semanas e semanas a fio apercebi-me de que se era para o ter estacionado sem usar então mais me valia não o ter e vendi-o. Viagens grandes de automovel nunca fiz e nem quero. Aliás, nunca fiz, sequer as AEs de Lisboa ao Porto ou de Lisboa a Faro de automovel. Entretanto, em Madrid e estando no centro da cidade, também não tenho qualquer necessidade de quatro rodas.

    Quanto aos comboios, está muito certo, paixão de criança. Por fim acabei por fazer a minha formação académica na área dos transportes (não em Portugal) mas, vicissitudes da vida, nunca trabalhei ligado à ferrovia... e dada a forma como ela existe em Portugal também nunca estive particularmente interessado nisso. Não obstante mantenho um contacto muito próximo com a ferrovia em Portugal e com o que vai acontecendo... o que, não raro, é fonte de muitas e vastas tristezas. Uma delas relacionada com a sua terra, Coimbra! :)

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  11. Nem me fale do apeadeiro de Coimbra! Fico com uma azia dos diabos ao ponto de nenhum antiácido conseguir neutralizar a minha revolta. É inconcebível a forma como "somos" tratados nesta área.

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  12. Anónimo21:55

    Não é só essa tristeza, caro professor, não é só essa. Realmente a estação de Coimbra-B é inenarravel e indigna duma cidade como Coimbra. É um buraco que ninguém no seu perfeito juízo deveria ter coragem de apresentar aos passageiros. Mas eu referia-me ao delirante projecto do Metro Mondego que essencialmente, na sua aplicação, conseguiu transformar uma ideia excelente, com todo o sentido e correctissima, num case-study de más práticas.

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  13. Caro Professor Massano Cardoso
    Foi um final de dia muito animado. Pelos vistos aí para as suas bandas não faltam polícias. Não devem muito à eficiência, mas são rápidos na resposta à chamada. Já é qualquer coisa. Apareceram e toda a gente os viu. Uma verdadeira comédia!

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  14. Metro Mondego? Um escândalo à portuguesa! Deram cabo do ramal da Lousã e agora nem comboios nem metro. É o mais certo. Espero estar errado, mas duvido...

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  15. Anónimo23:22

    Também espero, caro Amigo, também espero que esteja errado mas...

    Num cenário em que é necessária a compra de material para esse serviço, as caracteristicas da envolvente de Coimbra até Serpins - e senão mesmo até Gois e Arganil - são algo dificeis de justificar para um comboio normal. Inversamente são muito adequadas ao uso de tram-trains. Agora, introduzir tram-trains não implica dar cabo da infra-estrutura existente como foi feito e que está a dar agora os problemas que está. É insultuoso tudo isso. E triste.

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  16. Anónimo11:28

    Caro Professor MC, isso é que foi animação!

    Da última vez que os senhores agentes da autoridade estiveram lá em casa, foi para expulsar uns amigos vikings do meu marido e conduzi-los ao hotel mais próximo... pois, agora tenho um marido viking... felizmente eu estava na Grécia e fui poupada a esse embaraço. Curiosamente também apareceram 3.

    Isto foi um pseudo-embaraço porquê? Por causa do motivo. E então qual foi o motivo?

    Bom, o motivo foi o facto do amigo viking rir-se demasiado alto e como já passava das 22:30 e não se podia fazer barulho (porque incomodar os vizinhos é mau) eis que o meu marido toca de chamar a polícia para expulsar o amigo, que insistia em rir-se de forma despropositada depois das 22:30. E assim se acabou a pangaiada.

    No dia a seguir foi buscá-lo ao hotel e foram para a praia, uma vez que já estava tudo bem.

    Ora como devem calcular, na Grécia, quando recebi a notícia da passagem da polícia lá por casa, a primeira coisa que pensei foi: "Bolas! Já me partiram o apartamento todo!", mas afinal tinha sido só o riso do viking sénior que despoletara toda a situação. Digo-vos, gerir choques culturais tem destas coisas.

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  17. Esse acontecimento, cara Anthrax, comprova que afinal, para além de muito divertidos, os Viking, possuem bom coração, capaz de perdoar um amigo, pelo vexâme de o mandar retirar de casa, pela polícia.
    Aqui entre nós... no dia seguinte, na praia, o Viking não tentou afundar-lhe o marido, pois não, cara Anthrax?

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  18. Anónimo12:14

    Não, não caro Bartolomeu,

    Estavam demasiado ocupados a tentar resguardar-se do sol. É que as criaturas são muito branquinhas e não há protector que aguente. Logo a prioridade não era afundarem-se um ao outro mas evitarem um valente escaldão.

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  19. O seu marido e o amigo Viking, são um bom exemplo de uma verdadeira amizade, cara Anthrax. Ao contrário destas que se establecem virtualmente e que, apesar de parecerem sólidas, se desmoronam pela acção de uma frase mal entendida, e sem a intenção que se julga...

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  20. Um bocadinho a despropósito, (de comum só a polícia), na concentração de polícia que decorre hoje, "a tvi põe imagens no ar do presidente da ASSP a ser maquilhado!!!! como é possivel?"

    Já não há polícias de barba rija como antigamente!
    :)))

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  21. Anónimo15:34

    Meu caro Bartolomeu, os nórdicos têm uma forma muito diferente de ver e de fazer as coisas. São extremamente normativos e ao contrário do que se pensa, são muito pouco tolerantes à diferença.

    De resto, virtualmente ou não, ninguém é imune a mal-entendidos quer sejam escritos ou falados.

    E o JotaC tem razão... já não me lembrava que hoje era dia de concentração...

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