domingo, 19 de setembro de 2010

"Duzentos anos depois..."


Memória Ponte do Rio Dão

"Foi esta ponte cortada em 20 de Setembro de 1810 pela invasão do exército francez commandado por Massena foram reedificadas as suas ruínas e de novo feitas estas cortina dos lados e a estrada e calçada da parte sul mediante o paternal desvelo do excelso imperador e rei o senhor D. João VI em 1825 e gastarão se 3:898$055 anno domini MDCCCXXV."

(Nota: D. João VI não contribuiu com um único real para a reedificação das pontes. As pontes dos rios Dão e Criz foram custeadas pelo povo de Santa Comba Dão graças a impostos suplementares autorizados pelo rei. A verdade a seu dono!)


Junto à antiga ponte sobre o rio Dão, com os seus seis arcos desiguais e angulosa a meio do percurso, existe uma memória relativa ao corte efetuado aquando das invasões francesas. Desde muito pequeno, praticamente desde que sei que existo, conheço aquele monumento. Ouvi as descrições das lutas ocorridas em 1810 quando o Marechal Massena, a mando de Napoleão, invadiu Portugal. Os relatos populares inflamaram-me a imaginação que se enriquecia à medida que ia crescendo e adicionava informações sobre o sucedido. Passei inúmeras vezes na ponte e recriava os atos heroicos praticados naquele tempo. Um local de verdadeira adoração, que perdura e irá perdurar. Agora que se comemoram os duzentos anos da batalha do Buçaco, que marcou o princípio do fim do império napoleónico, é notório o realce dado a um dos períodos mais dramáticos da nossa história. As iniciativas realizadas, e a realizar, são de louvar, porque preservam a memória, e sem memória não valemos nada. A par das iniciativas de nível nacional, importa destacar outras, mais comezinhas, praticamente do foro “doméstico”, mas nem por isso menos importantes. São tradutoras dos profundos efeitos produzidos nas populações daquela época e que, curiosamente, ainda perduram na consciência coletiva de pequenas comunidades. Foi o que aconteceu este fim de semana em Santa Comba Dão. No sábado, dia 18 de setembro, decorreu no pequeno auditório municipal a apresentação de um livro sobre este período, “Santa Comba Dão na época das Invasões Francesas”, da autoria de um conterrâneo, José Morais Branquinho. Delicioso, no mínimo, a forma como descreve o que aconteceu nesta localidade e a vida dos locais na altura. Durante três dias, as tropas passaram e assentaram arraiais nesta localidade. Cometeram atrocidades, mataram pessoas, cujos nomes e causa de morte – forão mortos pelos francezes – estão descritos nos registos paroquiais. O evento ocorrido na ponte sobre o rio Dão, designado por “Combate de Santa Comba Dão”, está documentado. O Brigadeiro Diniz Pack, com a 1ª Brigada Portugeza composta pelos regimentos de Infantaria nº 1 e 16 e Caçadores nº4, respetivamente comandados pelo tenente-coronel Noell Hill, major Armstrong e Visconde de Luís Rêgo Barreto, destruíram a ponte travando o avanço dos inimigos. Estacionados em Santa Comba Dão retiram-se para a ponte do Criz onde fizeram o mesmo. Loison, o general que não fazia prisioneiros, permaneceu nesta localidade durante dois dias. Mas, antes da passagem, já tinha feito das suas no antigo concelho do Couto de Mosteiro, hoje freguesia de Santa Comba Dão. No dia 19 de setembro de 1810, as ordenanças e a milícia popular tiveram o atrevimento de atacar os franceses, matando algumas dezenas. Loison, O Maneta, não esteve com meias medidas e, como represália, no dia seguinte, arrebanhou as pessoas que conseguiu, pendurando-as no Cabeço das Forcas. Estes acontecimentos de foro local estão bem vivos na memória dos seus habitantes. Graças a iniciativas que merecem ser dignas de registo, como aquela que hoje assisti no Couto do Mosteiro – inauguração de uma placa a comemorar a “Batalha de Couto do Mosteiro” - , senti o reacender de um período único que não pode ser esquecido. Ao mesmo tempo a memória aviva-se, continuando a projetar-se no futuro, um verdadeiro garante da nossa identidade, valores e princípios que temos a obrigação de cultivar. Não esquecer que os grandes eventos são condicionados por pequenos episódios. Aqui também os houve.

8 comentários:

  1. "No dia 19 de setembro de 2010..."

    ... de 1810.

    Um pequeníssimo lapso num texto magnífico.

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  2. Rui Fonseca

    Muito obrigado. Já corrigi.

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  3. Muito interessante a decifração destes pequenos marcos abandonados que têm tanto para contar. Há tempos mandaram-me uma história semelhante da Ponte de Misarela, hei-de também vir aqui contá-la.

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  4. Lugares e histórias ricas que ficarão esquecidas no tempo se a comunidade não as mantiver vivas com o seu esforço e empenho.

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  5. Como é hábito neste país é a História no seu melhor ou pior. Não neste caso em particular, mas genericamente. Os factos históricos vão sendo esquecidos e são recordados esporadicamente, normalmente na celebração dos seus centenários. O património edificado vai-se arruinando, salvo raras e honrosas excepções. Mas deste episódio histórico, em concreto, permaneceu e é usada com frequência a expressão “Ir pró maneta”. Todos a usam sem que todos saibam a sua origem.

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  6. C.B

    Todos não! «Ir pró maneta» é um dos últimos livros de Vaco Pulido Valente.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. “Um povo sem memória, sem cultura e sem história é um povo que não existe”.
    E é quando me deparo com estes pequenos fragmentos do nosso passado colectivo, da nossa valentia face aos medos, que acredito ser possível emergirmos deste presente pantanoso em que nos encontramos.
    Obrigado, caro Professor Massano Cardoso, por avivar aqui um pouco da nossa “fibra” genética…

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