sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Letizia na berlinda

Talvez para distrair da crise que também grassa em Espanha, um obscuro jornalista resolveu fazer uma “investigação” da vida de Letizia e relatar em livro o “passado sombrio” da que é hoje princesa. O livro esgotou, ao que noticiam, mas o que foi divulgado do seu conteúdo é pouco menos que ridículo nos dias que correm, como os namoros que teve quando era uma mulher livre e autónoma, ter “inspirado” uma pintura que seria arrojada na Idade Média (esclarecem que não foi ela a posar) e, pecado dos pecados! ser uma profissional empenhada que lhe valeu o acusador e estigmatizante epíteto de “ambiciosa” pelos nada invejosos colegas de trabalho. Além de todo este passado tenebroso, ainda se conta que ela gostava de viajar, de festas, acho até que de acampar, e imagine-se o cúmulo, gostava muito de “pintar os lábios” e usar maquilhagem cara e sofisticada, além de ter a mania das dietas. Tudo evidenciando um carácter e uma vivência mais do que impróprias para quem viria a ser princesa. Mas como o próprio autor é capaz de ter podido avaliar, a vida amorosa de uma jovem já ultrapassou muitas barreiras do século passado e nada disto continha novidade ou o picante adequado para esgotar edições.
Como certamente não teve imaginação ou coragem para inventar uma história de sequestro e violação no deserto, que teria sido uma mina de ouro, o autor lembrou-se de bater à porta de uma clínica de abortos no México a perguntar se confirmavam ou não que ela aí tinha feito um aborto. A dita clínica não disse nem que sim nem que não e tanto bastou para que ficasse “a dúvida”, seguida da aplicação em teoria da suposta pena de prisão que o suposto aborto teria merecido à época! Isso e mais uma suposta posse de haxixe, algures na sua vida “libertina”, passaram logo a mote insistente que incendiou tudo o que se possa ler, ver e ouvir desde o anúncio e publicação da obra de “investigação jornalística”.
O que é espantoso é que num país dito socialista e avançadíssimo em leis “fracturantes” que deitam por terra os mais empedernidos preconceitos um livro destes, no mínimo profundamente marcado por preconceitos em relação à vida de uma mulher livre de compromissos, possa causar semelhante comoção. O certo é que Letizia assumiu com toda a compenetração e certamente com muito esforço pessoal as obrigações da realeza, não deve ter sido nada fácil ajustar a sua personalidade e só tem que se orgulhar de o ter conseguido. Mas parece que as sociedades modernas e arejadas também têm as suas formas subtis de lapidação…retroactiva.

14 comentários:

  1. Anónimo00:29

    Cara Suzana, posso dizer-lhe que é a primeira notícia que tenho de tal ajuntamento de folhas...

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  2. Pois caro Zuricher o 4r serve para colmatar essas distracções,mesmo uma República centenária tem que estar atenta aos dissabores da realeza!

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  3. Um jornalista obscuro que soube “trabalhar” os plebeus com insignificâncias sobre uma plebeia que se tornou princesa. Isso é que foi desespero, por parte do tal jornalista, claro, que estará na penúria (lá estou eu a especular...) e quer a todo o custo ganhar uns milhares de euros. Pobreza de espírito.

    Por que será que não se lê tanto sobre os príncipes? São sempre as princesas que estão na berlinda! Ah, pois... aos príncipes tudo é permitido... tinha-me esquecido. Esta memória!

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  4. «o autor lembrou-se de bater à porta de uma clínica de abortos no México a perguntar se confirmavam ou não que ela aí tinha feito um aborto»
    O obscuro jornalista foi um nabo!
    Em lugar de ter ido ao México, vinha a Portugal, ao Intendente e perguntava às "meninas do passeio" se a princesa Letizia já, em tempos, tinha sido sua colega. Até podia ser que uma delas tivesse já conhecido uma qualquer Letízia e confirmasse. Aí sim é que o homem ía conseguir amolgar a cabeça da Sô dona raínha Sofia.
    Mas isso agora não interessa nada, aquilo que eu tenho "real" interesse em conhecer, são os progressos atingidos por uma certa nadadora-matinal. Pelas minhas contas, já deve estar apta a atravessar a Mancha (o canal). Será?!
    PS: Sem pranchinha!

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  5. Eu faço parte da multidão que não está preocupada com a vidinha dos outros, incluindo a da nobreza. A minha já me basta, tem alegrias, tem tristezas e também muitas futilidades. Por isso, saber das intimidades, das cumplicidades, e das futilidades que preenchem o quotidiano dos outros não me levam à banca das revistas, nem aos escaparates das novidades, o que não obsta a que deite um olho aos títulos garrafais que não raras vezes “revelam” intimidades secretas e embaraçosas de gente famosa. Acho natural, pois, por mais distantes que estejamos destas coisas acabamos por ter um pouco de curiosidade em saber aquilo que não nos é comum. Somos diferentes, tenho de reconhecer e admitir que haja gente com necessidade de preencher o vazio das suas vidas, fantasiando e, talvez até, escolher ser um outro qualquer; e acho que nada disto tem a ver com questões políticas e/ou de preconceito…
    Ora, o tal jornalista/escritor obscuro, sabendo, de que massa é feita a mole humana, catrapus, fez aquilo que dezenas de outros obscuros já antes tinham feito…e pelos vistos deu-lhe resultados!…
    Vivemos tempos de crise, se calhar o homem estava na rua da amargura, temos de ser generosos, tudo se justifica…

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  6. Quem nunca pecou, que atire a 1ª pedra... O Jornalista certamente não é o único e é mais um que faz contas à vida.!!!

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  7. Boa análise, caro Jóta Cê. Mas já agora, peço-lhe um pouco do seu tempo e que me acompanhe na análise à avaliação dos conceitos, começando pelo "gente famosa".
    "gente famosa" é aquela que telefona para as revistas que se dedicam a notíciar assuntos relativos a um extracto social, vulgarmente conhecido como fútil, vaidoso, afectado e até, meio destrambelhado, pedindo-lhes que sejam incluídos nas suas colunas. Que os fotografem e lhes fotografem as residências, as férias, etc.
    "Fama" essa que nós, os não famosos, os absolutamente incógnitos, vulgares, apesar de por vezes fúteis e também meio destrambelhados, desconhecemos.
    Afinal, ser famoso, é preencher o espaço de uma revista, ou duas, ou mais que demonstra a futilidade e a vanidade de pessoas que pouco ou nada fizerem, para poderem ser consideradas exemplo por aquelas que não se disposeram (ou não tiveram oportunidade)de vir a seguir-lhes os passos.
    Para mim, famoso, é o meu vizinho lá do monte, o Ti Xico, septagenário, que começou a trabalhar a terra aos 6 anos de idade, e que ainda a trabalha, que conhece o tempo das sementeiras e das podas, que levanta o nariz, cheira o ar e me diz... amanhã, vai chover!
    Esse sim...
    Ah ganda Ti Xico!!!

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  8. Caro Bartolomeu,

    Não direi que o "TI XICO", seja famoso, mas sim um metereologista...

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  9. Concedo, caro homem-banana... o Ti Xico, é (também) um famoso meteoro logista!
    ;)

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  10. Suzana
    As pessoas pagam para que alguém esgravate a vida das princesas e gente famosa à procura de transformar o que à luz de uma vida de um comum mortal seria normal e até banal num escândalo.
    E como há leitores que se divertem com a vida supostamente intocável das princesas deste mundo, logo surgem uns "escritores" capazes de dar a volta ao mundo, batendo a todas as portas à procura de meia dúzia de talvez sim ou talvez não, para lhes dar essa alegria e, de seguida, aumentarem a sua conta bancária depois da publicidade de um best-seller "real". Vivemos num mundo triste, apontando e criticando a vida dos outros como se a nossa fosse um exemplo. Há gente para tudo! Somos muitos biliões!

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  11. Caro Bartolomeu, há-de reconhecer que o México tem outro frisson e deixa subentender (?) o que não teria sido a vida da rapariga lá por esses lugares exóticos...Quanto ao que pergunta, e agradeço-lhe o interesse, pois lá vou muito animada, agora com lições de uma "personal trainer" que, na realidade, partilho com mais 3 esforçados candidatos a nadadores. Mas há progressos muito animadores, já vou na senha 14!:)
    Pois é caro bananaman,mas há formas de abordagem indecorosas e profundamente associadas a preconceitos que não deviam ser tolerados.
    Margarida, não podemos mudar o mundo todo, haverá sempre quem explore e quem deixe explorar, porque compra, este tipo de espertezas baixas. Mas podemos reclamar, ao menos quando é demais.

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  12. Claro, Catarina, é esse o meu ponto, não em particular em relação aos príncipes mas em relação às mulheres, não há modernidade que resista aos velhos clichés estafados.

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