terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O estado a que chegamos e o "realismo" (da maioria) dos políticos

1. É hoje notícia uma nova emissão de dívida pelo Millennium BCP, ao prazo de 3 anos, garantida pela República Portuguesa e vencendo uma taxa de juro de Euribor (a 6 meses, presume-se) acrescida de...12%!
2.Não, não estou a falar do juro de um empréstimo bancário a uma PME em dificuldades, mas sim da dívida de um BANCO de 1ª linha, garantida pelo ESTADO PORTUGUÊS!...
3.Este breve episódio diz bem, com toda a eloquência, do estado a que chegamos, da terrível falta de confiança com que os credores internacionais encaram a situação em Portugal...e do esforço gigantesco que só agora começou e que vai ser necessário prosseguir, penosamente, ao longo dos próximos anos, até conseguirmos recuperar a confiança perdida...
4.Quando encaramos a realidade deste lamentável estado a que chegamos, defrontamo-nos com a tremenda incapacidade evidenciada pela generalidade dos nossos políticos para entender o que se passa no País e, em violento contraste, na imensidão do que precisa de ser feito para que o Estado deixe de ser o principal agente da indisciplina financeira que arrasou a nossa credibilidade...
5.Vêm-me à memória, só para citar exemplos recentes, o “excelente negócio” da troca do aumento do limiar de penalização dos subsídios de férias e de Natal pelo agravamento da tributação dos rendimentos das aplicações de capital, sejam juros ou dividendos, numa fase em que o País precisa desesperadamente de capitais...
6....e as críticas que os patrióticos defensores do insolvente Serviço Nacional de Saúde estão dirigindo ao aumento das taxas moderadoras que o Ministro da Saúde, num acto de realismo elementar, pretende agravar...
7....e os apelos à equidade, não se sabe bem qual nem com que meios, mal o Governo começou a fazer aquilo que toda a gente andava a dizer que era necessário e urgente, ou seja cortar a sério na despesa pública...
8....e as múltiplas queixas de inconstitucionalidade contra medidas não apenas necessárias mas indispensáveis, urgentes e já tardias...
9.Existe notoriamente um fosso incomensurável entre a percepção que uma sólida maioria dos nossos políticos profissionais têm da realidade que os cerca e aquilo que o País precisa de fazer para recuperar o crédito perdido...
10.Como iremos colmatar esse fosso incomensurável? Será com retórica do tipo “caldos de galinha” como sugerem algumas figuras "bem pensantes", ou remetendo políticos para o banco de suplentes como, para lamento dos nossos "bem pensantes", tiveram de fazer a Itália e a Grécia?

10 comentários:

  1. «Vêm-me à memória, só para citar exemplos recentes, o “excelente negócio” da troca do aumento do limiar de penalização dos subsídios de férias e de Natal pelo agravamento da tributação dos rendimentos das aplicações de capital, sejam juros ou dividendos, numa fase em que o País precisa desesperadamente de capitais...».

    Precisamente, Dr. Tavares Moreira. Precisamente.

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  2. Mais um candidato a "BPN", caro Dr. Tavares Moreira?
    Não ha problema... quem paga um, paga mais 2 ou 3... enquanto houver funcionários públicos e reformados, o governo vai sempre conseguir "arrecadar" milhões.
    A sô Dona Isabel não estará interessada neste banquito, não? Já agora...

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  3. Caro Drº Tavares Moreira,
    Não estou perceber onde entram os 12%!? Poderá V.Exa. ser mais conciso!? Antecipadamente grato.

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  4. Bem, isto é verdadeiramente impressionante. Isto não é um candidato a "BPN", é uma assumida Caixa Económica Faialense. Pensem no crédito todo à habitação do BCP isto significa que o BCP está a perder cerca de 10% em cada um, ao ano. Das duas, uma, ou a exposição ao estado português desaparece rapidamente dos balanços dos bancos ou a coisa vai ser de estrondo.

    Agora, caro Tavares Moreira, as críticas à saúde são bem feitas depois do ministro ter implementado uma política típica de "Jim Hacker". Quer dizer, o serviço é deficitário e como é deficitário, vai de aumentar receitas aumentando o preço de um serviço que já é pago pelos impostos em vez de atacar os custos. Qualquer dia temos os hospitais públicos premiados pela sua higiene porque não vai lá ninguém. Parece óbvio para toda a gente que o ministro não está a trabalhar para o país e não se entende exactamente a razão porque ainda lá está. É a falta do primeiro-ministro do FMI...

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  5. Dr. Tavres Moreira
    Este seu post dá muito que pensar. Chegámos a vários estados lamentáveis e agora estamos a construir outros que ainda há bem pouco tempo eram inimagináveis. Entrámos por um caminho em que falar de direitos começa a não fazer sentido. Não há mais direitos garantidos. Os direitos de ontem não são os direitos de hoje e de amanhã. É perturbador. A bem dizer, é um caminho perigoso, porque estamos a construir um estado de "desdireito".

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  6. Caro Bartolomeu,

    Não é bem assim, longe disso mesmo...
    Não há aqui uma iteração do processo BPN, nada disso, tão simplesmente a extrema dificuldade que qq agente económico residente em Portugal tem em aceder a financiamento no exterior, a começar pela República...

    Caro JotaC,

    Mas nesse ponto eu fui absolutamente conciso...o Banco em questão aceita pagar a taxa Euribor, à volta de 1,8%, acrescida de 12%, o que dá um total de 13,8%...
    Isto em termos de taxa de juro pois tem ainda que suportar a comissão de aval, devida ao Estado e que deverá ser da ordem de 0,5% pelo menos: teremos um custo total não inferior a 14,3% ao ano, bastante módico, convenhamos...

    Caro Tonibler,

    Não exageremos e não caiamos em efervescência financeira...é preciso perguntar para que vão servir estas obrigações assim emitidas a um preço tão elevado...
    Creio que não irão - por ora pelo menos - para o mercado, deverão servir, prioritariamente como colateral dalgum financiamento externo...
    E se e enquanto o Banco emitente as mantiver na sua posse, o juro é devido a si próprio, pelo que fica quase "em casa" como se costuma dizer...
    A situação, não deixando de impressionar, e muito, não será tão trágica como o meu amigo sugere...

    Cara Margarida,

    Há alguns direitos que verdadeiramente nunca fizeram sentido: (i) mordomias absurdas em múltiplas entidades públicas, (ii)subsídios distribuíodos a esmo e que promovem a ociosidade e desincentivam fortemente a procura de trabalho, (iii) folgas a torto e a direito, (iv) horas extraordinárias pagas sem qq necessidade ...
    Agora queixam-se mas o dinheiro acabou-se e, como diz o velho ditado "quem não tem dinheiro não pode ter vícios"...

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  7. Caro Tavares Moreira,

    Posso não estar a ver bem, mas não estou a ver a diferença. O BCP foi buscar dinheiro e consegui-o com 12% de spread. Todo o que estiver a morrer vai ser substituído com o mesmo spread(ou maior, porque não tem a garantia do estado), a não ser que não esteja nada a morrer e, basicamente, estamos a falar de "pagar para continuar". Agora, não estou a ver quem vá emprestar com um colateral emitido pelo próprio, se estiver diga-me quem é... :)

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  8. Não é exactamente assim, caro Tonibler...o que o BCP fez foi oferecer esses títulos de dívida, garantidos pelo Estado, como colateral de um empréstimo pelo qual irá pagar pouco mais de 1%...ficando ele próprio a receber os juros do cupão, de cerca de 13,8%...
    É evidente que, caso esse empréstimo se vença entretanto e o BCP necessite de colocar esse empréstimo no mercado para obter a liquidez equivalente, nessa altura ficará mesmo a pagar os 13,8% ou próximo a quem adquirir esses títulos...
    Aproveito para esclarecer que o custo da garantia do Estado será bem superior ao que eu supunha (disse em resposta a JotC que seria qq coisa como 0,5%/ano, afinal será 1,348%/ano o que atira o custo total para mais de 15%...)...
    Sendo que, por enquanto, o BCP não suporta esse encargo mas apenas o 1,25% do financiamento colateralizado mais o 1,348% da comissão de garantia devida ao Estado...
    Entendido?

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  9. Ok. Basicamente canaliza a garantia do estado com direitos sobre os seus próprios activos, caso a garantia do estado não sirva para nada. Já percebi. Está bonito, está...

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  10. Está mesmo belíssimo, caro Tonibler...até ao dia em que o financiador disser:façam favor de retomar os títulos, paguem o financiamento...
    É claro que, ainda nessa hipótese e caso a situação geral se normalize, o BCP terá a possibilidade de vender esses títulos em mercado secundário por um preço (bastante?) superior ao nominal, compensando parcialmente, com esse ganho, o elevado custo do cupão...
    É o mercado, esse "celerado", a funcionar...

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