quinta-feira, 15 de março de 2012

A sereia de Bruxelas quer dar-nos presente envenenado?

1.É hoje notícia (mais uma vez) a melodia entoada por “alguém” estrutural de Bruxelas, lembrando-nos que estão na gaveta mais de € 700 milhões para aplicarmos no excelente projecto TGV (agora tb de mercadorias, cognome de "low-cost") que, como se sabe, era o grande sonho do ex-PM...até ao dia em que lhe chamaram a atenção para a iminência de bancarrota e a urgente necessidade de pedir socorro à EU e ao FMI...
2.A notícia reza mais ou menos assim: “A CE estará a pressionar o Governo português para apresentar rapidamente um plano de construção da linha de alta prestação de mercadorias e passageiros, que ligue os portos de Portugal a Espanha, aproveitando as verbas que o Fundo de Coesão tem disponíveis para ste projecto, uma versão reduzida do antigo TGV”.
3.E acrescenta, “A pressão estará a ser exercida pela Direcção Regional de Política Regional e Transportes, onde um responsável (não identificado) sublinha o facto de o País ter ainda € 733 milhões para atribuir a este corredor Sul-Oeste”.
4.É extravagante esta periódica chamada de atenção da Bruxelas do Desenvolvimento para o projecto em questão e para os fundos disponíveis...
5.... quando a Bruxelas da Austeridade tem obrigação de saber, melhor do que ninguém, os custos altíssimos que o País está pagando por se ter deixado encantar pela utilização dos Fundos Estruturais no lançamento de centenas de projectos de utilidade mais do que duvidosa, alguns deles de efeito ruinoso mais do que assegurado...
6.Interrogo-me se faz algum sentido Dª. Bruxelas emitir estes convites públicos à despesa para um País que a mesma Dª. Bruxelas sabe estar sujeito a um programa de ajustamento muito duro e que, em parte (não exclusivamente é certo) se ficou a dever ao péssimo uso de fundos públicos em muitos casos associados aos fascinantes fundos estruturais desembolsados pela mesma Dª. Bruxelas...
7.Não sou fundamentalista ao ponto de recusar, definitiva e axiomaticamente, a discussão do projecto de uma nova linha férrea, para mercadorias, que ligue portos portugueses (Sines em especial) ao interland ibérico, valorizando o papel dos portos portugueses e embaratecendo o transporte de mercadorias...
8.Mas confesso que acho anormal, no mínimo, este canto de sereia que a Bruxelas do Desenvolvimento resolve entoar, de quando em vez, para nos tentar levar ao engano com um presente em boa parte envenenado...
9.Oh, mas como essa Bruxelas conhece bem o fascínio que os fundos estruturais provocam na classe política lusa ainda crente nas políticas de crescimento a todo o custo...

13 comentários:

  1. Anónimo17:54

    Caro Tavares Moreira, a questão vai mais além do que isso. É que há fundos já disponibilizados, em particular para o troço fronteiriço Évora-Merida, que já foram e estão a ser usados. A questão que se põe visa tambem o que acontece ao dinheiro já usado tanto por Espanha como por Portugal. Por outro lado há os acordos assinados com Espanha e dos quais Espanha não abre mão... como aliás o tal Álvaro teve ocasião de experienciar recentemente quando andou a alardear mudanças nos comboios internacionais Lisboa-Madrid e Lisboa-Hendaye, esquecendo-se que o seu ministério termina no Caia, e por fim teve que aceitar que as coisas não são tão simples como as imaginava. Corolário: mesmo depois de tanta retórica os comboios internacionais ficaram exactamente como estavam por manifesta impossibilidade de os alterar como sua excelência queria. Com a AV está a suceder exactamente o mesmo.

    Quanto ao projecto em si, enfim, vai ser exactamente o mesmo anteriormente previsto (que previa efectivamente uma linha de mercadorias em bitola ibérica desde Sines ao Caia já feita até Évora e cujo troço Évora-Caia estava incluido na PPP1 já adjudicada) mas com outro nome, simplesmente. Nem sequer a história de dizer "linha de AV para passageiros e mercadorias" é nova dado que a mesma cantilena já tinha sido usada pelo anterior governo.

    ResponderEliminar
  2. Não deve ser apenas aqui na Lusitânia, que o/s governo/s foram tomados ou estão por conta de certos capitães da indústria.
    Porque não em Bruxelas?
    Relembro os famigerados estudos justificativos (econométricos, segundo o defensor João Galamba, antes de ser deputado, blogger).
    Ano do Senhor 2030: Dia a dia, 365 dias por ano, entre Lisboa e Madrid, 12 mil viajantes em cada sentido.
    E na AR que temos, parece ninguém querer saber. Somos assim.

    ResponderEliminar
  3. Outra vez a porcaria da história de Sines? A A6 foi construída com a desculpa de que os espanhóis não iriam largar Sines.

    Há 700 milhões para construir uma coisa super lucrativa? Então não precisam de mim para nada, certo? Construam lá essa porcaria e gozem os 700 milhões. Eu continuo sem entender porque é que estes projectos fantásticos e superlucrativos precisam do meu amén. Se são assim tão bons, até lhes posso dar um Excel para fazer o proejct finance da coisa e vão pedir dinheiro aos bancos estrangeiros.

    ResponderEliminar
  4. Anónimo22:39

    Caro tonibler, a questão que o caro Tavares Moreira nos trás não é bem a da valia ou não do investimento mas sim das pressões que Bruxelas está a exercer sobre Portugal. E não só Bruxelas, permito-me acrescentar. Há compromissos assumidos, outras partes já fizeram os seus dispendios e a sua parte do acordado e agora não querem ficar pendurados, evidentemente. Daqui a pressão sobre Portugal.

    Poderá alegar que a situação Portuguesa actual é assim e assado. Mas a isso apenas posso responder que os outros não têm culpa que Portugal tenha sido governado nos últimos por um doido varrido.

    ResponderEliminar
  5. Caro Zuricher,

    Se tal não fosse ruinoso, não era atirado para cima de nós, faziam-no eles. Há algum impedimento que uma empresa de capitais estrangeiros possa investir em transportes em Portugal?? Não me parece. Esse é o meu ponto. Os outros não têm a culpa e eu não tenho dinheiro.

    ResponderEliminar
  6. Anónimo23:49

    Não vou por aí, Tonibler porque esse não é já o ponto neste momento como na realidade não é há muitos anos. O ponto que o caro Tavares Moreira nos trouxe é que o Estado Português comprometeu-se a uma série de coisas perante diversas entidades sendo que essas entidades estão neste momento a chamar o Estado Português ao cumprimento do que se comprometeu a fazer.

    ResponderEliminar
  7. Zuricher,

    Não pretendo fechar os olhos à realidade, como deixei subentendido no Post em análise...
    A questão que coloco, como julgo terá percebido, tem a ver com o que me parece ser a incongruência do discurso de Bruxelas, quando:
    - Nos aparece em público com centenas de milhões na mão, convidando-nos a avançar para um projecto cuja execução tem de ser reavaliada com extremo rigor para que não continuemos o trajecto suicidário dos últimos anos...
    - Enquanto que, usando outra face, radicalmente diferente, anada para aí a exigir-nos os maiores sacrifícios para se pouparem recursos públicos que se tornaram mais escassos do que nunca...
    Acho isto de um imenso mau gosto, para dizer o mínimo...

    Caro Tonibler,

    Salvo erro de memória da minha parte, as receitas esperadas do fabuloso TGV, na sua versão mais majestática/socrática, não cobriam sequer 20% dos custos de exploração...
    Chamar a isto um projecto que dinamiza a economia e que tem a "vantagem" de "aproveitar" fundos estruturais, parece mesmo conversa de Manicómio!

    ResponderEliminar
  8. Caro Tavares Moreira

    ...sem contar com a canibalização que faria dos outros projectos cujo pagamento ainda vai durar décadas, como a A6. Seria completamente ruinoso e só serviria para sustentar pançudos.

    Caro Zuricher,

    É verdade, o estado português comprometeu-se com muitas coisas. A começar pelo pagar do dinheiro que deve. Este compromisso é sempre chato.

    ResponderEliminar
  9. Anónimo13:36

    Caro Tavares Moreira, dois pontos.

    As pressões de Bruxelas devem-se claro, também, a pressões de Espanha. É que Espanha não devolve os fundos já usados e em uso no troço fronteiriço e Bruxelas não sabe o que fazer quanto a isso, claro, mais do que obrigar Portugal a cumprir aquilo a que se comprometeu. No que toca à reavaliação, nunca um projecto de transpores em Portugal foi avaliado de forma tão fina como a Alta Velocidade. Nunca, em absoluto. E em estudos que atravessaram governos com três PM, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates.

    O segundo ponto, a cobertura da exploração. A exploração comercial tem que ser auto-suficiente e nunca nada apontou para que o não fosse. As regras europeias não permitem, sequer, a subsidiação do transporte ferroviário de longo curso.

    ResponderEliminar
  10. Caro Zuricher,

    Registo sempre com muito interesse as suas observações que me parecem invariavelmente pautadas por boa intenção e fundadas em avaliação objectiva de dados disponíveis.
    Todavia, no que se refere à questão da avaliação económica do TGV, não consigo entender aonde é que o Zuriocher vai lobrigar a auto-suficiência económica do projecto.
    Eu citei, de memória (com a falibilidade que o recurso à memória nos sujeita) um número que me recordo de ter ouvido do Prof. Avelino de Jesus, em tempos membro de uma comissão de avaliação deste (e doutros presumo) mega-projectos.
    Mas estou quase certo de que as receitas do fabuloso TGV não cobririam sequer 20% dos custos de exploração o que,não sendo caso-virgem (vidé por exemplo o Metro do Porto, mas não só) não deixa de ser um modelo absolutamente ruinoso para quem for responsável pela cobertura das necessidades de financiamento futuras do projecto -o Estado, todos nós, que acabamos por ser tratados em última análise como uma data de "muppets", da mesma forma que (parece) o Goldman Sachs avalia os seus clientes...

    ResponderEliminar
  11. Anónimo16:17

    Caro Tavares Moreira, parece-me que percebo de onde vem a confusão. Está a misturar infra-estrutura com exploração, a ver o projecto globalmente e aí, claro, dada a questão das infra-estruturas e das regras Europeias a que obedece o seu financiamento não serão amortizadas e nem é suposto (ou possivel) serem-no. Há não muito tempo falámos sobre essa questão, precisamente, num post sobre o Metro do Porto.

    Agora, a exploração, e por exploração entende-se fazer andar os comboios, digamos, a sua exploração comercial, essa não pode ser deficitária, incluindo os custos com a infra-estrutura excluidos da sua amortização e com as regras para a sua tarificação a que aludimos há umas semanas. Por uma questão de concorrência está expressamente vedada a subsidiação do transporte de longo curso, seja ele rodoviario ou ferroviario.

    ResponderEliminar
  12. Caro Zuricher,

    O Senhor está a "empurrar-me" para uma conclusão muitíssimo curiosa, então: a de que o projecto do TGV é absolutamente inviável, por força das regras comunitárias da concorrência,uma vez que a sua exploração - aquilo a que chama, com graça, "fazer andar os comboios" - seria sempre SUPER, ULTRA, MACRO deficitária...
    Quase me sinto tentado a subscrever a opinião radical do Tonibler de que mais vale entregar este projecto a privados, nem que seja um dos oligarcas russos...

    ResponderEliminar
  13. Anónimo17:18

    Caro Tavares Moreira, não foi isso que eu disse. Eu disse que a exploração comercial do serviço NÃO É e NÃO PODE ser deficitária.

    Na Europa as infra-estruturas de transportes em geral (sejam estradas, linhas férreas, muitos portos, muitos aeroportos, etc, etc) são financeiramente deficitárias. É-lhes inerente. Todavia não podemos viver sem elas, correcto? Reduzamos ao absurdo. Façamos a manutenção das estradas apenas com os seus proveitos financeiros. Está bom de ver que num par de anos não haveria uma única estrada capaz em Portugal, não é? Agora vejamos a sua construção. Há alguma estrada que seja financeiramente positiva? Não, claro que não. Mas não é por isso que deixam de construir-se. Com as linhas férreas é quase o mesmo, com a diferença (positiva para a ferrovia) de que a sua manutenção é coberta pela portagem ferroviária. Agora, os custos de primeiro estabelecimento não são cobertos nem nas estradas nem nas ferrovias.

    ResponderEliminar