segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Europa, para onde vais?

Poderia a UE viver sem o Reino Unido? Poderia. Mas, parafraseando o conhecido anúncio publicitário, não seria a mesma coisa.
Há dias assinalámos aqui a derrota inédita do PM britânico nos Comuns, ditada por uma rebelião no seio do seu próprio partido que passou do eurocetiscismo latente para o inconformismo assumido em relação ao rumo da Europa e ao esforço que se pede a alguns dos seus membros. Apesar de, como se sabe, o Reino Unido beneficiar de um "desconto" nas contribuições para o orçamento comunitário.
Agora é uma sondagem que não deixa dúvidas sobre o sentimento maioritário do povo inglês: mais de metade dos ingleses, se fossem hoje chamados a pronunciar-se sobre a permanência do seu país na União Europeia, manifestavam-se pela saída.
No norte da Europa vão-se avolumando correntes nacionalistas de opinião (não necessariamente de direita) apoiadas no que se propagandeia ser a falta de capacidade de alguns Estados, em especial do sul, se manterem fieis a alguns pressupostos do projeto europeu.   
Numa altura em que o discurso dos dirigentes afirma o caminho irreversível para o reforço da União política e monetária, acumulam-se sinais de descrédito e de desagregação que vão muito para além das dificuldades sentidas na zona euro. Sentimentos agravados, a meu ver, pela circunstância de as instituições europeias parecerem alheias à necessidade de parar para pensar, designadamente para avaliar os impactos dos sucessivos alargamentos, para saber se é sustentável prosseguir este projeto de união política e económica não já na (saudável) diversidade, mas num clima de indisfarçável divisão. E sobretudo pensar numa reforma das suas próprias instituições que, por sinais colhidos aqui e ali, parecem viver numa redoma opaca que não deixa ouvir os sons da desagregação nem ver as sombras que pairam sobre o dia a dia da Europa, cada vez mais transformada num espaço em que cada um procura fazer mais por si do que contribuir para o melhor de todos.

11 comentários:

  1. Com a devida permissão:- Excelente!...

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  2. Caro JMFAlmeida

    O Reino Unido (RU) nunca encarou o projeto europeu original com entusiasmo. A adesão, se bem que atrasada por motivos de uma politica externa demasiado nacionalista por parte da França, nunca foi plena.
    As cláusulas de opt out do RU são tantas que demonstram que o entusiasmo original do RU para com o projeto da U.E. não se mitigou.
    A politica britânica reflete o pensamento do povo que representa, por isso, a sondagem não me espanta em absoluto; mais, é surpreendente que não tenha sucedido há mais tempo.
    As instituições europeias deviam ter parado para pensar há mais de uma década mas, em vez disso, optaram por uma via de alargamento, quase, mecânico.
    O aprofundamento do projeto euro pode, com um elevado grau de probabilidade, desembocar num cisma nos participantes desse mesmo projeto.
    Com a maior integração passará a existir um muito grande e um conjunto de muitos pequenos, desfazendo a estrutura equilibrada anterior.
    Infelizmente, ou não, não se pode ter tudo ao mesmo tempo.
    Cumprimentos
    joão

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  3. Concordo com o João Jardine: por muito egoísta que os portugueses possam parecer, pois já estávamos lá dentro, acho que o alargamento dos 15 para os 27 foi feito demasiado abruptamente, sem pensar nas consequências.

    A UE ficou grande demais e todos os problemas de que já se falava na altura, nomeadamente a falta de uma governance mais objectivamente democrática, resolvendo a questão da distância dos cidadãos aos centros de decisão apenas se agravou. Hoje a impressão que fica é que há um gueto dourado ultra-burocrático a funcionar em Bruxelas, que produz legislação, sem se aperceber da realidade. E o UK é particularmente sensível a isto.

    "parar para pensar": deveria cessar a produção sucessiva de Directivas e Regulamentos Europeus, às vezes contraditórios e desnecessários, e discutir-se sem ideias pré-concebidas o que se pretende da UE daqui a 20-30 anos. Mas o imediatismo que tomou a política (e os políticos) não permite esperar que isso aconteça.

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  4. José Mário
    É notória a incapacidade da Europa de se unir em torno da necessidade de encontrar respostas concretas para relançar o projecto europeu. Os resultados desta incapacidade são a decadência económica da Europa e o regresso do impensável, falta de trabalho, elevadas taxas de desemprego e de pobreza. O resultado é uma Europa descrente, minada pela falta de confiança nos actuais responsáveis dos países e das instituições. Alguém saberá dizer como e quando vamos inverter este estado de coisas.

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  5. A União Europeia não vai bem, nisso estaremos todos de acordo. A dúvida é se vai encontrar a tempo meios para evitar a sua desintegração, com as consequências, que podem ser dramáticas, porque podem degenerar num conflito bélico alargado.

    Os povos precisam muitas vezes de causas exteriores para justificar os seus insucessos colectivos. A ameaça externa origina movimentos de união no seio de sociedades que, de outro modo, se desintegrariam em consequência de razões predominantemente internas.

    O império britânico dissolveu-se, da Great Albion já sobra pouco mais que a City, e a velha senhora olha agora embevecida para o outro lado do Atlântico. Apesar de sempre ter mantido um pé dentro e um pé fora da União Europeia, os ingleses, num momento em que o barco mete água, irão ameaçando que saem mas não saem, a menos que o barco vá mesmo
    ao fundo, e saiam todos.

    Fora do euro, o Reino Unido não tem observado uma evolução que, pela positiva, o distinga da zona euro, quando considerada globalmente.
    E tem evoluído pior que todos os membros do norte da Europa.

    Não podem, portanto, os ingleses queixar-se do euro porque nem o usam nem o suportam. Aliás, há alguns meses atrás, a senhora Merkel lembrou isso mesmo ao senhor
    Cameron quando este pretendeu participar em reuniões do eurogrupo.

    A turbulência europeia, e nomeadamente na zona euro, é o bode expiatório que os ingleses precisam para justificar os seus próprios desaires na área económica. Se saem, ficam sem bode.

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  6. Para mim, e assim rapidamente, há dois problemas maiores:
    a) a superburocracia criada em Bruxelas e Estrasburgo, já nem falo da Comissão e do Parlamento, mas de todos os órgãos que à sua sombra se criaram e que acabam, muitos deles, por constituir poderes paralelos, inúteis e prejudiciais. Transformam a realidade em mera ficção. Sorvedouros de dinheiro público.
    b) a indisciplina de alguns estados, normalmente aqueles que, beneficiando dos fundos estruturais, raramente cumpriram regras e deixaram descambar as suas economias, pedindo e exigindo sempre mais e mais.
    Nestes termos, como é que os cidadãos de países financiadores líquidos e, por tabela, os seus governos, podem continuar a vazar dinheiro e apoios aos países sistematicamente incumpridores?
    A culpa não é da Europa, mas de alguns estados europeus. Que nunca definem o que verdadeiramente querem. Ou, melhor, definem, querem sol na eira e chuva no nabal.

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  7. Anónimo13:56

    Caro Ferreira de Almeida, mas é alguma surpresa que a UE se esfrangalhe? Pelo menos para mim não e sempre achei que seria o que tinha de mais certo. Em tempos muito idos dei-lhe o prazo até 2012-2015. Nunca foi uma integração natural, bem o contrário. Foi uma loucura de políticos movida pelo medo a uma Alemanha reunificada. Um sonho bonito que estragou o bom que havia, a CEE. Até há pouco tempo tive a esperança que dos cacos ainda pudesse ficar o que foi a CEE eventualmente com algum acrescento mais. Hoje em dia penso que infelizmente nem isso. Foram criados demasiados anticorpos.

    É pena.

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  8. É simples: até aos anos 90, houve políticos com visão de futura e que davam pequenos passos.

    A partir daí, surgiram uns merdas alucinados que nada fizeram na vida além da política e que fecharam a UE (quem se lembra dos sucessivos tratados - LOL - e do «não» aos referendos, ou à repetição sucessiva de referendos nos países que dissem «não», até passarem a «sim»?) em si.

    O caro Pinho Cardão, sempre que deixa a parabolazinha oca e balofa, ainda menos interesse tem.

    O AO ixtingiu todux ux asentux da língua purtugeza?

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  9. Quando a única coisa que sai de Bruxelas são propostas de eurobonds, eurofederalismo e outras eurotretas, é de esperar o pior. Nós também acabaremos por nos fartar da UE quando a única coisa que nos tiverem para oferecer forem taxas de desemprego permanentemente acima dos 15%.

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  10. Até agora os ingleses tiveram razão em quase tudo no que diz respeito à Europa.

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  11. Sobre a formação da CECA, diz Tony Judt (in História da Europa desde 1945): "Os Britânicos não foram informados com antecedência (...) Nas terras protestantes da Ecandinávia e da Grã-Bretanha, a CECA deixava atrás de si um certo perfume de incenso autoritário (...) Os Britânicos não tinham nada contra uma união aduaneira europeia. Eram bastante a favor dela, pelo menos para os outros europeus. O quelhes causava algum desconforto era s ideia de um executivo supranacional (...)Viram na CECA uma lança continental a introduzir-se nas questões britâncias, e cujas implicações eram ainda mais perigosas por não serem claras". Bevin, Ministro dos Negócios Estrangeiros, terá dito "Se se abrir essa Caixa de Pandora nunca se saberá que cavalos de Tróia de lá saltarão".Jean Monnet explicaria nas suas memórias que a Grã bretanha, não tendo sido invadida nem ocupada "não sentia necessidade de exorcizar a história".

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