quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Natalidade: ter, não ter e desejar ter...


Portugal está numa rota de declínio acentuado de fecundidade, regista entre os países da União Europeia os mais baixos índices de fecundidade. A última vez que Portugal assegurou a renovação de gerações foi em 1982 (2,08 filhos), de lá para cá a descida tem sido vertiginosa com 2012 a registar uma nova marca, 1,28 filhos por mulher.
O Instituto Nacional de Estatística publicou hoje os resultados de um inquérito que permite analisar a fecundidade - quer para quem tem filhos, para quem ainda não tem - em função do número de filhos tidos, do número de filhos que as pessoas ainda possam vir a ter e do número de filhos que desejariam ter.
O inquérito revela que a maioria das pessoas entende que deve haver incentivos à natalidade: aumentar os rendimentos das famílias com filhos (inclui redução de impostos sobre famílias com filhos, aumento das deduções fiscais para quem tem filhos, aumento dos subsídios relacionados com educação, saúde, habitação, alimentação), facilitar as condições de trabalho para quem tem filhos, sem perder regalias (inclui oportunidade de trabalho a tempo parcial, períodos de licenças de maternidade e paternidade mais alargados, flexibilidade de horários para quem tem crianças pequenas), alargar o acesso a serviços para ocupação dos filhos durante o tempo de trabalho dos pais (inclui criar mais centros de actividades de tempos livres fora dos horários escolares e durante as férias, alargar o acesso a creches e jardins de infância para quem tem filhos pequenos). 
Estes incentivos confirmam as dificuldades concretas com que os pais se confrontam no acompanhamento e educação dos filhos que todos sentimos e observamos à nossa volta. Mas os incentivos à natalidade referidos mostram também que os pais valorizam a sustentabilidade das condições económicas e dos apoios vários, ou seja, a capacidade de manter condições que não se esgotam nos primeiros meses de vida dos filhos. Os custos financeiros associados a ter filhos são o motivo mais referido para a decisão de não os ter. 
Enfim, os resultados mostram que as dificuldades económicas impedem as pessoas de terem mais filhos. E que, por exemplo, no campo da conciliação da vida familiar e vida profissional há muito para fazer. Um dado que nos deveria fazer reflectir - num país que não tem filhos - é que 70% das mulheres e dos homens têm menos filhos do que aqueles que desejariam ter. O número médio de filhos desejados ao longo da vida é de 2,31 filhos, número que permitiria assegurar a renovação de gerações. A felicidade e realização das pessoas e das famílias é um aspecto muito relevante que não pode ser esquecido.
A questão da natalidade tem sido um assunto sistematicamente adiado, afinal à semelhança da falta de esperança e confiança em que o futuro do país anda mergulhado...

2 comentários:

  1. Bom, cara Dr. Margarida, naquilo que me é dado observar, Portugal encontra-se numa rota de declíneo acentuado, não só no que diz respeito à reunião fértil dos gâmetas masculino e feminino. O nosso país está a tornar-se infértil em muitos outros campos, nomeadamente no campo da organização politico-social. A conjuntura política que se vive no nosso país, tem como resultado uma inteira desorientação que inquina os diferentes serviços do estado, resultando em ineficiência e instabilidade tanto para os servidores, como para os servidos. Esta instabilidade governativa reflete-se também no campo empresarial, onde a audácia atingiu níveis preocupantes de infecundidade, com os resultados que conhecemos no número crescente de falências e de desemprego. Tudo isto acompanhado de uma desinformação pública tendenciosa e desconstrutora, como já aqui no 4R tem sido anotado e uma ausência de comunicação séria e transparente entre o governo e o estado.
    Na década de oitenta, como a cara Drª refere no início do post, as famílias portuguesas exerceram confiantemente a sua natural fecundidade. Pela frente, apresentava-se-lhes um horisonte promissor. Eu e a minha mulher contribuímos para aquelas estatísticas com 2 filhos, aos quais proporcionámos cursos superiores nas áreas de informática e alimentar. Investimos neles e no futuro que viamos desenhar-se e que afinal veio a desmoronar-se.
    Nesta perspectiva, impõe-se uma pergunta: o que é que mudou (para melhor) no nosso país, desde a década de oitenta, para que os casais em idade reprodutora se sintam confiantes e estimulados para procriar?
    Para dar ao país mais futuros desempregados?
    Para dar ao país mais dependentes de subsídeos de sobrevivência?
    Para dar ao país mais dependentes da solideriedade social?
    Que futuro poderão esperar para os seus filhos, um casal desempregado e sem esperanças de vir a conseguir emprego, cujos pais reformados se encontram na iminência de vir a sofrer cortes nas suas já parcas reformas, que se vêm na iminência de deixar de ter serviço da saúde, que se vêm na iminência de vir a morrer na valeta da estrada, da vida, à margem de uma sociedade que ajudou a erguer, para cuja estructura contribuiu com o seu trabalho e o desconto dos seus impostos? Uma sociedade traída por um punhado de corruptos que se aproveitou da imunidade dos cargos que ocupou, roubando-a e atirando-a para a miséria absoluta de meios de sobrevivência!?
    Não sei cara DRª Margarida se a senilidade do Dr. Mário Soares, é maior ou menor que a insensibilidade de quem nos tem governado.

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  2. Caro Bartolomeu
    Partilho muito do que refere. A sociedade que descreve não favorece a fecundidade, pelo contrário, num clima de grandes dificuldades e de falta de esperança as pessoas não podem assumir responsabilidades, não podem ser felizes como gostariam.
    Uma sociedade assim é depressiva, mas é também repressiva.
    Se considerarmos o fluxo migratório que se está a registar, com a emigração de dezenas de milhares de pessoas que estão a emigrar, entre as quais está uma maioria de jovens, podemos prever como está comprometido o futuro.

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